O mistério do prosaico revelado!

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O óbvio finalmente revelado!
Se não sei quem sou eu, duvido de quem diga que saiba de si mesmo e mais ainda de quem saiba algo de mim. 
Neste mundo cheio de rótulos, penso que tenho algum talento para ser frasco.

terça-feira, 8 de maio de 2018

QUER MESMO MINHA OPINIÃO SOBRE ISSO TUDO?

Avizinhando-se meu meio século de existência, no ano passado, quando da visita de minha irmã à minha casa na selva paulistana, surgiu o tema da aposentadoria. Vinte anos atrás eu ingressara no meu atual emprego, mas, como se sabia nos pressupostos da conversa, eu trabalho desde os dezessete anos e passei por muitos lugares. Foi nesse contexto informal que surgiu o tema da incorporação desse tempo todo para a contagem de minha aposentadoria. Como sempre fui desleixadamente pouco pragmático, ouvi atento de minha mana como deveria ser esse procedimento justíssimo, afinal, se trabalho há mais de trinta anos, por que não informar as instâncias responsáveis pela minha aposentadoria? Meu cunhado, um ser pragmático, como todos que não perdem tempo com questões filosóficas como eu, fez as contas e ficou espantado (com razão) por que eu ainda não tinha feito isso. Isso foi em meados de julho de 2017. Mal saíram as visitas, fui correndo ao computador agendar e, na confiança dos relatos, tinha certeza de que tudo seria muito simples: "você chega lá, pede a contagem, eles puxam um papel do computador e pronto: só não perca esse documento pois você deve levá-lo ao seu RH e, no mês seguinte, já incorpora o tempo e está tudo certo". Foi com essas palavras na mente que agendei. Havia vaga apenas para dois meses depois. "Normal", pensei. Falavam tanto de reforma da previdência, que não estranhei o fato de não haver agendamento para a semana seguinte.
Chega enfim o dia. No papel do agendamento dizia-se que eu deveria chegar com meia hora de antecedência. Surpresa: o agendamento não queria dizer nada. Era preciso tirar outra senha e esperar. O número não era muito alto, então lá estava eu, disposto a tudo, sem reclamar. Nova surpresa: os números que apareciam no telão não estavam na ordem e verifiquei que o comportamento da numeração era um tanto aleatório. Confirmei com um segurança: de fato, era aleatório. Previsão para atendimento? Nenhuma. Foram duas horas de espera. Curiosamente no papelzinho amarelo dizia-se que eu esperaria apenas dezessete minutos.

Fui até a mesa com meu "bom dia" à funcionária, que parecia um tanto distraída, pois, salvo melhor juízo, não me ouviu. Contei-lhe a razão da minha ida e ela, sempre olhando de lado, com cara de muito cansada, irritada ou desgostosa da vida, apenas esticou a mão, sem me dizer nada. Interpretei seu gesto como uma solicitação de que devia dar-lhe os documentos exigidos. A partir daí, foi um grampear e um descontentar-se com as espécies de comprovantes oferecidos, numa iminência crescente de negativa de recebimento, que me deixou apreensivo. Ela, porém, levantou-se, pegou uma pastinha branca e puxou um papel que acabara de imprimir, o qual folheei em silêncio enquanto ela me dava as costas. Fez isso tudo sem dirigir-me nem a palavra nem o olhar, rodava a cadeira e abria gavetas à busca de carimbos, sem responder nenhuma pergunta que eu fazia, a essa altura já gaguejante e constrangido. No tal papel impresso, eu vi, com admiração, que constavam muitos lugares, praticamente todos, sem exceção, onde eu fiz algum tipo de atividade remunerada e aí tive a certeza, muito mais do que eu poderia lembrar-me, de que já trabalhei pacas. Até então, não saberia dizer se ela era muda, cega ou surda, pois pareceu-me o tempo todo que eu não estava ali na frente dela. Concluí benevolentemente que, depois de anos de atendimento ao público, é tristemente natural que se desenvolvam algumas defesas, mesmo quando não era o caso, pois eu parecia, naquele momento, completamente inofensivo. Por fim grunhiu algo que entendi como constatação da falta de um documento que, se bem entendi, talvez seria posteriormnte solicitado pelo correio, no momento certo, sei lá. Como não tinha a menor intenção de repetir o que havia dito, julguei que tudo estava encerrado. Estiquei-lhe a mão com cordialidade para despedir-me e ela completou, dessa vez com voz bem clara: "a carteira fica". Apatetado e sem outra opção, tirei a carteira do bolso e deixei lá o original de um documento do qual eu não tinha cópias, no qual se comprovavam todos os meus trabalhos pregressos em escolas, muitas das quais sequer existem mais hoje. Uma delas, por exemplo, foi demolida e hoje é uma farmácia. Não foi sem uma dor no coração que vi a caderneta azul ser enfiada num envelope pardo, grampeada, anexada ao formulário branco e jogada num canto. "É só isso?". A resposta foi o desviar do rosto já entediado no início do expediente e o apertar de um botão chamando o próximo. Mas, para meu espanto, ela ainda, nesse momento, me consolou:  "Está demorando, viu?". Arrisquei ainda perguntar quanto tempo, mas ficou claro, pelo seu levantar de ombros que não fazia a menor ideia. 

O Brasil deve ser um país maravilhoso mesmo: não consigo imaginar nada mais kafkianamente formal que fóruns, cartórios ou institutos de seguro social como esses, mas o informalismo nas tratativas, bem ao sabor edulcorado dos nossos autoencômios, se mescla em tudo que depende de outrem. Por exemplo, nesse processo desde o momento do agendamento até o atendimento e não para por aí. A primeira imagem que me vem à cabeça é o de soldados nazistas também agindo assim, de forma despiciente, com cozinheiros, donas de casa, pianistas, professores e escritores, dirigindo-lhes apenas suas ordens para desnudar-se. Para uma Polliana, tratar igualmente mal tanto uma pobre diarista mancando por sofrer de gota e que só tem comprovação dos cinquenta anos de trabalho informal por meio de cartas de patroa, quanto um professor livre-docente de uma consagrada universidade nacional, talvez seja algo de que devemos nos gabar em nossa sociedade livre e democrática. Mas há um serzinho irritante dentro de mim, que odeia essa Polliana, e diz: "que nada, é falta de educação mesmo!". E esse serzinho às vezes tem vontade de dizer verdades a ponto de só parar quando fosse arrastado de lá por dois seguranças, cada um em um braço. Ainda bem que esse serzinho é covarde o suficiente para sabe ler aquele quadro em que reza o artigo 331 do Código Penal "desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela: pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa". 

Não só Polliana, mas também Pangloss: "bom, como estamos no melhor dos mundos, deve ser assim mesmo e não vou me preocupar". Mas, não teve jeito. Eu me preocupei porque me pareceu tudo muito anômalo. Na semana seguinte, após narrar o ocorrido à minha irmã, que estranhou a retenção do documento, fui ao site e vi algo ainda mais estranho. Depois de decifrar um infernal novelo emaranhado de instruções crípticas, consegui a informação que queria: "certidão de tempo de contribuição não concedida". A primeira coisa que me ocorreu foi a careta da bruaca e seu grunhido: faltou algum documento. Não havia como interpretar de outro modo. Mas havia. 


Fui lá novamente e passei por todas as mesmas agruras. Dessa vez fui atendido por uma funcionária gentil e menos lacônica, embora com a mesma pressa, justificada pela fila infernalmente longa de pessoas atrás de mim. A explicação foi simples: não é que o pedido foi analisado e não me foi concedido. Não, veja bem. Faltavam três palavrinhas óbvias e desambiguizadoras essenciais ali: o artigo "a", o advérbio "ainda" e o verbo "foi". Interprete-se qualquer um a expressão "certidão de tempo de contribuição não concedida" como "A certidão de tempo de contribuição AINDA não FOI concedida", donde se conclui, por conseguinte, que o será, uma vez que não seria negada, caso contrário, a bruaca nem o teria aceitado. Ou seja, eu havia tido sorte e era questão de ter paciência e esperar. Humilhado, eu, que leio Kant e entendo, por ter sido vencido por uma ambiguidade que esta segunda funcionária dizia não haver, saí com o rabo entre as pernas e resolvi resignar-me e fazer o que ela disse: esperar, pois ela ainda me esclarecera que nem precisaria ir ao site e checar a toda hora se a certidão estaria pronta. De maneira eficaz eu seria informado pelo correio. Bom, se é assim, fazer o quê? Não tenho por que duvidar... esperemos!

Pois bem, passaram-se a Semana da Pátria, o Natal, Ano Novo, o Carnaval e a Páscoa, mesmo assim, nenhuma carta chegava do correio. Mas eu estava ciente de que iria demorar. Um semestre depois recebia informações do meu RH sobre a data da minha possível aposentadoria. Impossível não se lembrar do fato que, com a tal certidão, que tardava e não chegava nunca, essa data poderia ser antecipada. Mais que isso: surgiu uma angústia ao imaginar o prédio em chamas, ao me lembrar do processo ser jogado sobre uma pilha e muitas teorias conspirativas começaram a me cercar. Temia o extravio do documento. Todos diziam que era "só ir lá e pegar o negócio" ou caprichavam no espanto: "nossa, comigo foi rapidinho: saiu na hora". Foi quando comentei com uma amiga advogada, que não disfarçou em mostrar-se  chocada e usou termos como "retenção indevida" e, se não me engano, "ilegal". Foi o bastante para ficar com azia de tanto nervosismo e fazer nova visita.
Mas as regras mudaram: atendimento sem agendamento agora só de manhã. O guardinha barrava a entrada e um senhor, furioso, dava azo à verve de seu serzinho irritante particular e, quando prestei atenção no que falava, verifiquei tratar-se do mesmíssimo caso, com uma diferença: o documento dele estava retido ainda há mais tempo que o meu. No dia seguinte, estava eu lá bem cedo de novo e fui atendido pela mesma segunda funcionária, que não se lembrou de mim, obviamente. Foi aí que ela puxou a ficha do andamento de meu processo no computador e lá apenas constava que em 25 de setembro de 2017 a papelada tinha "subido" para análise e só: nada havia sido feito ainda naquele dia 10 de abril de 2018. Pegou meu telefone que anotou gentilmente rasgando um pedaço de papel e enfiando num bolo de outros papéis. Assegurou-me que falaria com uma superior e que ela entraria em contato comigo por telefone. Perguntei se não poderia retirar meu documento para levá-lo a outra unidade e ela lamentou, dizendo que, sim, eu podia, mas apenas mediante ofício solicitando o desarquivamento do processo etc. e apertou a campainha. Do meu lado já estava o próximo a ser atendido. Despedi-me. Recebi um "até logo". Muito bom. Informações claras.


E foi o que fiz: passadas algumas semanas muito atribuladas, no dia de hoje passei por toda a agrura novamente e desci os círculos todinhos novamente: o Limbo, o Vale dos Ventos, o Lago da Lama, o Rio Estige, o Vale do Flegetonte e o Lago Cocite. Acordei às 5h30 da manhã pensando que pegaria uma boa colocação na fila, pois ainda não estava acreditando na total aleatoridade das chamadas. Típico de uma mente teimosa. Cheguei lá às 7h05; o posto já estava aberto e a fila era ainda mais monstruosa do que das outras vezes, porque terminava na estação do metrô, serpeava pelas calçadas e adentrava a Caina, a Antenora, a Ptolomeia.... Andava lenta e uma senhora, não encontrando receptividade num casal de orientais atrás dela, começou a narrar a essa distância intercalada, com riqueza de detalhes, o seu dia-a-dia, ou seja, as coisas normais de uma metrópole: vivia naquilo que hoje se chama "comunidade", mataram o vizinho dela ontem, o corpo estava lá no chão, perto do ponto de ônibus, aliás, ela mesma já teve revólver na boca, mas olhou bem valente pro bandido sem medo nenhum, garantia, o bandido, que ela conhece e desafia, apertou três vezes o gatilho, mas a arma não disparou, afinal de contas, ela não tem medo nunca, pois quem ora para o Senhor não tem medo de nada, amém etc etc essas coisas de sempre, que a gente hoje entediantemente toda hora na fila da padaria e parece bem apropriadas para começar o dia... Consegui minha senha uma hora depois de ouvir a longa narrativa de minha companheira de fila e, já disposto a esperar mais duas horas, comecei a conversar, de pé, obviamente com um outro senhorzinho, que agendara pelo computador (como eu fizera da primeira vez) e que tinha uma numeração bem mais baixa que a minha por ter madrugado na fila para pegar o primeiro horário e não precisar faltar do emprego. Parênteses: a minha senha era de número 171, "número ridiculamente trágico", me cochichava o serzinho insuportável da minha mente. Nem preciso falar que fui injustamente atendido antes desse senhor. que se queixava de dor nas pernas. Sorry, estamos na selva. Adentrei a Esfera da Judeca, rezando para não ver a bruaca. 

Atendeu-me um moço, que entendeu minha solicitação, pediu o tal ofício e como nele eu tinha mencionado tudo o que estou te dizendo aqui nesta postagem (obviamente sem a riqueza de julgamentos, mas com uma profusão de números de protocolos e datas), após lê-lo por alto, esse novo funcionário informou-me que não podia ser daquele jeito. Eu deveria redigi-lo novamente, mais objetivo. Consolou-me que não teria de voltar, estendeu-me a esferográfica e uma folha de papel para que eu o fizesse de próprio punho. Enquanto isso, foi buscar o processo e minha CTPS. Eu apenas queria sair de lá, mas, diferentemente dos anteriores, esse funcionário desabafou enquanto desgrampeava as folhas. Estava lá há 11 anos e a muvuca do atendimento sempre foi assim infernal, desmentindo todos os relatos de meus amigos acerca da facilidade de obtenção do documento. Sem pedir desculpas, mas com um resquício de empatia, afinal de contas, via que que eu era apenas uma pessoa comum com vontade de garantir seus direitos prometidos pela sociedade, vaticinou realisticamente que nos demais postos da capital eu enfrentaria a mesma divina comédia, arrazoou resignadamente a falta de funcionários, constatou que havia os que não faziam as funções direito, ponderou que havia uns que eram realmente difíceis, enfim, confessou que se estivesse na minha pele faria a mesma coisa. Agradeci. Finalmente consegui apertar uma mão e despedir-se de um ser humano, enquanto acotovelava-me suavemente entre uma multidão de velhinhos com bengala em pé, prontos para embarcar na nave de Caronte, gente hipnotizada pelo quadro de números sorteados, rezando para que o trespasse fosse rápido e indolor. 


Saí de lá, tal como Orfeu sem Eurídice, mas pior até do que ele, porque não infringi nenhuma regra que justificasse minha punição. Zanzei pelas ruas do centro da cidade, como que recém-liberto de uma prisão, como que redivivo depois de desenganado por um médico. Uma única coisa povoava meus pensamentos e não era meu serzinho irritante: era a vontade de sentar-me, no mês de meu aniversário de cinquenta anos, e desabafar neste blog isso tudo, não para vingar-me da sociedade de que faço parte, mas para comprovar a mais perfeita inutilidade de ser eu perante o outro. Voltei de lá com minha carteira da mesma forma que fui com ela para lá há quase um ano. Nada aconteceu nesse interregno a não ser descaso e, na melhor das hipóteses, ineficiência. Ainda ecoavam as palavras do último  funcionário na minha "se o cara der o azar de pegar alguém que não manda a coisa para a frente...". Sempre me espantei com frases incompletas. Há algo de ameaçador nelas. Parecem os olhos de uma onça surgindo na escuridão de um bambuzal. 

Leitor, sabes pelos outros relatos meus que me custou muito admitir-me como ateu. Não foi sem dor. Ter assumido isso em nada se equipara com a gabolice dos neoateus que acham que têm espíritos com o nome de "lógica" ou "bom-senso" a seu favor, do seu lado da peleja ilíada. Sim, foi terrível assumir meu ateísmo. Mas parece que foi ainda mais demorado assumir meu lado apolítico. Seria feio em meu meio universitário de Humanidades - onde se transpõem abismos segurando-se nos cipós de Hegel e onde, assoviando, se tateia a obscuridade das matas do relativismo - falar com todas as letras que não acredita mais em governos, sem ser rotulado injustamente como anarquista ou algo que não sou. Não. A esperança de que não há um ser transcendental com corpo humano e cabeça de elefante num panteão de deuses ou mesmo com uma força colossal justificadora de causas finais inexistentes parece ser mais fácil de superar do que acreditar que não há ninguém nunca em lugar algum por nós mesmos e que somos devorados por parasitas que alardeiam bravatas e gastam meu dinheiro em pinga, cocaína ou orgias representando quer uma sigla partidária que se diz pró-trabalhador (mas que mantém o status quo do opressor de forma igual e tão eficiente quanto o próprio opressor), quer idealizando uma tirania detentora de um chinelo para estalar na bunda dos malvados, mas que na verdade anuncia (apenas para os atentos e pouco ingênuos) um horrível rio de sangue.


Enquanto o pior não acontece, somos crianças soltas numa selva ou algo como que bestas: somos uma vara faminta e grunhidora ao lado do cocho com lavagem, somos uma manada pisando resignadamente com nosso passo de proboscídeo, somos uma cáfila com pouca corcova, somos serpentes que se contorcem como skatistas, desviando-se da choldra, enfim, nada mais somos que uma caravana cansada de atravessar um deserto, rumo a coisa alguma. Atualmente e, não só em países de Terceiro Mundo, um projeto é algo que só existe na esfera da individualidade e somente dentro dela faz algum sentido. Como dizia o pessimista: a luz no fim do túnel é o trem que vem ao nosso encontro.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

O MUNDO, NOSSO HOSPEDEIRO

Talvez de todos os medos ancestrais do ser humano, não há nada que nos amedronte mais que a morte penosa. Pior do que ser devorado por um carnívoro ou ser atacado por uma cobra, a presença de pequenos seres latentes entre pedras, troncos de árvores ou galhos, que picam e nos consomem em febres, como aranhas, lacraias e insetos urticantes e a atuação de sua indiscreta peçonha em nossa epiderme nua nos impulsionou à higiene, ao desmatamento, aos chãos de ladrilho, aos inseticidas, às vacinas e a tudo aquilo que assegure a continuidade de nossa hegemonia na Terra. Embora a maior parte do planeta não seja coberta por uma turba acotovolante de nós, mas por bactérias e gramíneas, tirando as aglomerações das metrópoles, o mundo devastado é nossa casa e onde nos sentimos confortáveis depois de ampla destruição, desflorestando, queimando, cimentando, na impossibilidade de uma esterilização global. Estávamos tão confiantes com o avanço vitorioso sobre a natureza, vendo sua derrocada após bilhões de anos e acumulando o lixo de nosso mundo interno transformado em plástico, alvenaria e metal retorcido, assim como o expurgo cloacal de nossas assépticas cozinhas e desodorizados banheiros, que nem nos apercebemos de que, vencidos os estranhos, inumeráveis e antiquíssimos inimigos, liberamos das catacumbas um antagonista ainda pior, nossa criatura, fruto de nosso daninho e paranoico encéfalo: nossas ideias, abstrações, objetivos, ganâncias e a incapacidade de entender qualquer coisa que seja alheia. Seria isso o id, a besta, o Grendel? Justamente quando Beowulf está no spa, para perder algumas gordurinhas?


Mas de todos os seres que nos assombram, há uns que são verdadeiros súcubos, que nos arrepiam com sua invisibilidade. Eles não dão bote, não estão escondidos no escuro, não sobem à cama durante o sono, não pulam das árvores para canastronamente nos atacar. Pelo contrário, estão abscônditos como demônios, esquivos aos nossos sentidos. Sorrateiros e minúsculos, alimentam-se de nossa carne e vísceras com uma precisão matemática de bicho da goiaba, como diria Manoel de Barros. Quando percebemos sua presença, estamos prostrados, esverdeados, minados pelas picaretas anestesiadas de seu ininterrupto raspar e sugar e só assim, tornamo-nos cônscios de que fôramos iludidos por aquele ligeiro desconforto que nos parecia inofensivo. Sim, muito pior que leões, serpentes, escorpiões ou vespas, o abreviar da vida por um parasita é talvez a pior lição que a natureza pode dar a um humano. Não me refiro apenas a sarnas, piolhos e pulgas, pois aprendemos logo cedo que há parasitas em todos os reinos biológicos: bactérias, fungos, plantas, protozoários, vermes. O cipó-chumbo, por exemplo, resolveu prescindir de folhas e de clorofila para tornar-se uma eficiente minhoca amarela que cobre as plantas hospedeiras. Nem de longe lembra suas primas Morning glories, com suas flores alegres, que hipnotica-, traiçoeira- e sutilmente esganam mourões e tudo que encontram pela frente em seu destino de trepadeira: com o cipó-chumbo, o escandaloso fiame amarelo, lôbrego e soturno persiste quilometricamente qual um cabelo sobre outras plantas, dando-lhe, junto com uma certa graça dourada, um aspecto macarronesco e desflorido de anormalidade. De tão estranhas, imaginou-se que as cuscutáceas não fossem convolvuláceas, também pudera! exageram com seus haustórios absorvendo nutrientes a partir do citoplasma de seu hospedeiro. Apesar de nada tétricos, esses seres dourados lembram os cronenberguianos seres que guiam seus hospedeiros à morte lenta, que costumam ter aspecto muito mais feio, como os Cordyceps e Chytridiomycota da vida.


Mas para quem acha que o parasitismo é uma forma indigna de vida, uma pena kármica metempsicótica, um erro lamentável do demiurgo, uma consequência punitiva - portanto justa - da rebeldia edênica de nossos avoengos, não negará que, em contrapartida, haverá sim alguma beleza em fatos homologicamente semelhantes, por exemplo, quando as mães trazem óvulos fecundados no seu bojo, onde o bebê a parasita por meses, sorvendo-lhe as forças. Também verá paralelo quando reconhece que o fruto das plantas é o scherzo enérgico e conclusivo da sonata da vida, para o qual toda a força e viço antigo da flor e suas adjacências se esvaem até o murchar total da planta, num suicídio vegetal que só é consoladoramente louvável por ser cometido em prol do futuro das gerações vindouras e, a longo prazo, da sua própria espécie. Se o parasitismo é egoísta quando envolve espécies distintas, o aspecto provisório da gestação dos mamíferos e o harakiri do inchamento do ovário com fins à deiscência de tantas plantas parece-nos o ápice do altruísmo e um plano maravilhoso do élan vital.


Isso não impede que o antropocentríssimo homem veja o parasitismo intra-específico dos minúsculos machos nas fêmeas bojudas do Halophryne mollis como algo muito bizarro e - por que não o dizer? - asqueroso. Diferentemente do homem que se gera e de seu aspecto caudado e vermiforme desenvolvem-se olhos, cabeça e membros, os peixes machos se deformam e perdem a sua autonomia. Parecem acomodar-se, quais larvas de esponjas, anêmonas, crinoides e corais, que, podendo ser livres quando jovens, preferem a vida ridiculamente vegetativa, enraizada num estrato, quando adultos. Sendo ágeis miracídios, optam pelo nojento parasitismo dos trematódeos adultos, sendo fogosas plânulas e éfiras, acabam na vigarice do sedentarismo, sendo anfiblástulas ziguezagueantes, transformam-se nos sifões mecânicos de esponjas...  Que dizer das cracas? Depois que a evolução lhes deu tantas vantagens, como a bilateralidade, e uma morfologia complexa, com muscularidade, coordenação nervosa e hormonal, elaboradas células e sistemas digestório, respiratório, excretor, reprodutor e circulatório, parecem ter regredido evolutivamente, pateticamente sésseis em pedras, cascos, baleias ou, pior, na forma de câncer amorfo, na linfa de seus hospedeiros irmãos crustáceos. O termo "hospedeiro", aliás, é muito inadequado nesse caso, pois não resta opção ao que hospeda senão hospedar involuntariamente o monstro que mora dentro de si.


Poderíamos ainda lembrar as vespas que parasitam, com requinte de crueldade, aranhas e lagartas até a eclosão do adulto livre. Ninguém acharia isso lindo também, por mais simpático que seja o danado do himenóptero, comparado com o sonso do aracnídeo e com a bobalhona da lagarta. Há algo de malandragem criminosa nessa relação desigual. A exploração sádica do corpo alheio promovido pelas vespas nos parece imediatamente abjeta, mas não o seriam para os fins gloriosos da panantropia. Por mais sofisticados e belos os subterfúgios de sobrevivência de vários seres, atribuímo-lhes nomes muito feios ao seu sucesso: amebíase, mal de Chagas, leishmaniose, giardíase, tricomoníase, febre dum-dum, balantidíase, malária, toxoplasmose, fasciolose, esquistossomose, teníase, cistocercose, opistorquíase, himenolepíase, ascaridíase, ancilostomose, oxiuríase, filariose, elefantíase, larva migrans, estrongiloidíase, tricuríase, berne etc.

Contudo, alguém poderia pensar que há uma infecção, que talvez pudesse ser chamada de antropíase quando, não mais na gestação, mas sim na fase adulta, o primata hominídeo descobriu que com uma tocha na mão desbastaria terrenos imensos, onde morrerão pássaros, répteis, insetos e plantas aos milhões. Muito mais do que justificar esse ato pela sua necessidade de alimentação diária, a abundância da morte desproporcional à sua fome parece criminosa. Se uma pequena parcela desses seres chamuscados foram, durante milênios, nossa dieta em meio à horda dos carbonizados, hoje o fogo alastra-se apenas para a criação de vacas e cavalos que imbecilmente se subornaram com grama e alimento fácl e imediato, desistindo de cornear ou escoicear o símio que se aproximava demais deles e que os aguardaria, momentos depois, com chicotes ou matadouros. Como nós, seres humanos, somos cinicamente cegos a isso, na nossa má-fé, denominamos antroponose não à doença infecciosa resultante de nossa atuação vitoriosa e devastadora sobre o meio ambiente, mas ao conjunto de doenças a que somos suscetíveis como o único reservatório de hospedagem, tal como as DST, a febre tifoide, a coqueluche ou então àquelas doenças em que somos apenas o hospedeiro intermediário. Seja como for, a relação entre o conceito de homem e o de parasita transita num plano egótico, de tal modo, que o homem-vilão é esquecido e o homem-vítima é enfatizado. Não conseguimos enxergar como somos participantes ativos na deflagração de um mundo adoentado em vias de se configurar como um estado inexoravelmente moribundo.



Parasitas, na pior das hipóteses, costumam matar seu hospedeiro lentamente, mas, enquanto isso, invariavelmente se procriam e jamais destroem completamente seu reservatório antes de cumprir sua divina missão de crescer e multiplicar. Vírus, por exemplo, nesse sentido, são parasitas muito estranhos, pois dependem da individualidade da vida de seu hospedeiro e sem ela não existiriam. Sua multiplicação é ocasional e a evolução não parece ter culpa do que eles fazem. Parecem-se mais com um erro da química em vez de um programa da biologia. Se houvesse um único humano na Terra e ele estivesse infectado por vírus, a morte do hospedeiro equivaleria à morte do parasita, mas esse humano solitário seria apenas um indivíduo e não mais um representante da espécie à qual o parasita se adaptara. Outros seres, todavia, são também especializados nessa relação exclusiva com a espécie humana. A diferença é que durante todas as eras pregressas apostaram na sua procriação dentro de humanos e deles dependeram coevolutivamente para a propagação de sua própria espécie, tal como a raça artificiamente criada dos buldogues precisam de seu criador para que se faça uma cesariana e o bicho venha a nascer, dadas as desmesuradas dimensões da cabeça dos recém-nascidos. Já com os vírus, tudo parece ocasional e sem planejamento: não têm compromisso algum com a misteriosa teleologia dos seres vivos e a natureza não lhe daria uma chance de adaptar-se caso a espécie hospedeira de milênios se mostre um repositório no qual não deva mais investir. Dada a probabilidade da extinção da única espécie hospedeira, valeria a pena especializar-se: faz parte da regra de ouro do especismo, que, obviamente, não é exclusivo de nenhuma espécie.

Hora da metáfora: se vimos hospedando de forma tão pouco comensal o único exemplar de sua espécie, a saber, o planeta Terra, estamos agindo como tênias especializadas ou como vírus inconsequentes? Parece ser fácil responder a essa questão.

domingo, 18 de março de 2018

A DIVERSÃO DO DIVERSO

Eu sempre gostei de classificações, mas nunca gostei de ser classificado. Por exemplo, indagado sobre minha religião por um aluno numa aula de filologia românica, quando lecionava, décadas atrás, numa faculdade particular, interrompida minha exposição da invasão dos suevos, alanos e vândalos na Península Ibérica, não hesitei em definir-me imediatamente como um seguidor do durvalismo (como fazia um amigo), razão pela qual, ato contínuo, vi o aluno questionar seu colega ao lado: "essa religião existe?". Se a pergunta era sobre o time de futebol por que eu torcia, dizia - sem pestanejar  - ser o XV de Macaé (e eu nem sabia que esse time de fato existia quando fazia essa brincadeira). Não há nada mais incômodo que os carimbos que lascam na nossa testa nos dias neomaniqueístas de hoje.

Da mesma forma que gostava de classificar, tenho de confessar, leitor, meu fascínio por aquilo ou por quem é inclassificável e isso serve tanto para um Fernão de Oliveira quanto para um Hieronymus Bosch. Foi-se o tempo em que ornitorrincos e seus mal conhecidos irmãos équidnas me causavam espanto por ser mamíferos que botam ovo. Há tempos chama-me mais a atenção o fato de os orictéropos, também conhecidos como aardvarks, serem a espécie única de um gênero único de uma única família de uma ordem feita exclusivamente para agrupar sua família de ser órfão. Corrija-me, prof. DNA, se eu estiver desatualizado, pois não duvidaria mais se alguém tivesse provado recentemente que esse animal e a batata doce formassem um clado com muitas sinapomorfias somente perceptíveis pela química. Haveria espaço para perguntar se não teria caído genes de minhoca nas lâminas de laboratório preparadas para se analisarem os DNA de ambas as espécies? 


"Somos o que somos, somos o que somos", diria Arnaldo Antunes, com participação de Chico Science, na sua antunológica canção Inclassificáveis, seu terceiro álbum, do longínquo ano de 1996. Antunes parecia reclamar dos "I hate" e dos "I love" dos anos noventa, pululantes já no Orkut, premissa para os "eu sou assim" do Facebook do século seguinte, já tão ironicamente expressos nas perturbadoras personagens de Nelson Rodrigues, com direitos a murros autoafirmativos no peito, em seus contos publicados no jornal A Última Hora, já nos anos 50. Profeta como é, diante do novo século que se avizinhava, o qual, como em todos os séculos pregressos, exacerbava-se o radicalismo, o autor neoeuripídico de Doroteia vislumbrou que não haveria espaço mais para figuras ambíguas como o Sport do filme Taxi Driver, expressão moribunda dos já longínquos anos setenta. Sharon Acioly despontava no horizonte de 2007, fecundando o embrião com o earword da máxima funkeira "ado, ado, cada um no seu quadrado".

Fato é que a oricteropidade das coisas foi esquecida nos tempos atuais. Não há terreno atualmente para esses mamíferos tubulidentados pois a dança do quadrado parece ser a regra na dança mental dos hominídeos. Há muita confusão no planeta e é preciso classificar, classificar, classificar. Quem está fora da casinha, vai dançar. Agora sou eu quem está se metendo a profeta. Explico-me com uma outra história pessoal, embora não seja muito afeito a isso fora de uma mesa de boteco.

Deparei-me recentemente com uma árvore, no interior paulista, que me chamou a atenção. Os frutos, muito semelhantes a uma azeitona, nasciam de uma árvore gigante. O antigo proprietário do terreno disse-me que aquilo era azeitona de fato e que até tinha feito umas conservas de salmoura com aqueles frutos. O sabor, contudo, era ácido e eu já tinha visto oliveiras. Não, aquilo não era azeitona coisa nenhuma. Demorou um pouco para descobrir o que era. Graças ao Google, as respostas para tudo hoje se conseguem num tempo muitíssimo menor do que quando eu era jovem. Não se gabem, contudo, atuais jovens e futuros velhos, de disporem dessa ferramenta maravilhosa: pessoas que abriram livros e frequentavam bibliotecas fazem muito melhor uso dela, se não estiverem com a cara enfiada no Facebook, no Twitter, no Instagram, no Whatsapp, no Tinder o dia todo. Orgulho-me de ter saído desse tal Facebook há oito anos e de nunca mais ter querido voltar. Oras, voltando ao fio da meada, a tal azeitona misteriosa era, na verdade, uma eleocarpácea. Informação que, para mim, já era um avanço. Chamou-me a atenção, na época, mais o fato de se tratar de uma planta asiática, da Índia ou de Sri Lanka, ali, totalmente desenvolvida no cerrado do sudoeste paulista. Não preciso dizer que isso já me deu azo para filosofar sobre a necessidade dos portugueses indianizar a flora brasileira e trazer consigo suas jacas, carambolas, mangas e caquis; moral da história: meus planos de manter o cerrado e sua fauna entomológica parece cada vez distante e cada dia que passa entendo que a flor  "nativa" que tenciono plantar é mexicana ou do outro lado do mundo. Mas isso é outro assunto. Estou dispersando-me.



Voltemos ao que quero discorrer e deixemos de lado, por ora, a azeitona do Ceilão (nome "popular" da eleocarpácea dado por algum agrônomo): ela voltará brevemente ao texto. 

No meu afã de preencher uma lacuna horrivelmente vazia no meu conhecimento, resolvi estudar com afinco a taxonomia da Botânica. Envergonho-me de admitir que não sabia lá muita coisa de como as plantas se classificavam cientificamente, justo eu, que reconheço, desde criança, só de bater o olho, um inseto pelo menos pela ordem (quando não pela família, gênero ou espécie. Espanto: as plantas deixam a solidão dos orictéropos no chinelo. 

Apresento-te, ó leitor não-botânico, a ordem das Oxalidales. Nela há sete famílias, 67 gêneros e 1754 espécies. O que justifica esse agrupamento? Sei lá, ainda não entendi. Explica-me, ó leitor botânico, pois a Wikipedia me desampara, seja em inglês, português, espanhol, francês, italiano ou alemão.  Preciso consultar mais livros. Mas minha insipiência incipiente não é desdouro para que eu direi, se fores sagaz na leitura. Pela informação wikipédica, parece que eu posso dizer que uma planta é uma representante das Oxalidales se sua flor tiver de cinco a seis sépalas e pétalas. Grande coisa, pensei, aposto que há dezenas de outras espécies em outras ordens com as mesmas características. Fuçando ainda mais descobri outros traços ridiculamente vagos: folhas ímpares, estilo presente, estigma seco, epiderme externa do integumento interno com traqueídeos etc. Mas se bem sei, para tudo isso há exceção. Mas o que chama a atenção das Oxalidales, mais do que as Proteales (que incluem coisas tão díspares quanto uma macadâmia e uma grevílea) é a fantástica variedade de formas. Basta dizer que entre as Oxalidales estão coisas tão distintas quanto aquele trevo azedo que nasce no meu jardim, a carambola (igualmente azeda), a minha querida azeitona do Ceilão (também azeda) e uma planta carnívora (Cephalotus follicularis, que não dá vontade de provar para saber se é azeda). Como pode isso? As dimensões e o aspecto dessas plantas são fantasticamente diferentes. Será a vitória definitiva de Platão? A verdadeira forma das Oxalidales está no mundo das ideias? Essas disparidades se dão até no nível das espécies. Por exemplo, Ceratopetalum gummiferum é um arbusto simpático, já sua irmã Ceratopetalum apetalum é uma árvore de 25 metros! E coisas assim estão longe de ser exceções nas plantas: o lótus pertence à mesma ordem do plátano! 



Momento de reflexão.

Minha recém-iniciação na botânica eleva à milésima potência aquilo que já sabia em parte por meio do conhecimento da entomologia: o aspecto físico não tem importância alguma para a classificação. E chegou o megafone do DNA para anunciar este slogan a todos que possam ouvir. Abaixo o fenótipo! Diz o prof. DNA.

Espera um momento. Todo mundo sabe que o que existe de fato é só a espécie. A espécie é o que há. Algo como um gênero, já se sabe desde Aristóteles, é uma abstração das espécies. E pensando assim, uma tribo, uma família, uma ordem, uma classe, um filo, um reino e um domínio são, nada mais, que ampliações dessa abstração genérica. Na direção contrária, diz a cladística, há acúmulo de sinapomorfias. Enfim, representa cada clado o nó para onde convergem as abstrações ou algo que realmente existiu? Ou podemos cortar com a navalha de Ockham essa conversa, pois talvez estejamos discutindo sobre a quantidade de anjos dançantes na cabeça de um alfinete? Refaço a pergunta: se há a espécie gummiferum e se há a espécie apetalum, onde está o Ceratopetalum? O gênero de uma espécie perdida para sempre seria o ancestral comum de todas espécies atuais? Aceito, por mais perturbador que seja o argumento, que o tamanho e tudo o mais que é puramente sensorial para nós, humanos, não tem importância alguma, mas, se isso parece razoável, não falaremos das dimensões do ancestral. Então, sobre que podemos falar se não for sobre algo empírico? Só sobre a química do ancestral? Que coisa chata! Eu quero mais é saber como se efetuaram as mudanças fenotípicas para que o lótus seguisse a sua trajetória nelumbonácea de planta aquática e o plátano a sua platanácea trajetória de árvore! Como era a mãe das UrProteales? Como era a mãe daquilo que seria trevo ou azeitona do Ceilão? Haverá mesmo esse ancestral ou se trata de um hiperônimo boitatazoide, um remendo de nossos miseráveis sentidos? Uma ilusão pascalina?

"A explicação está na Química", repetirão alguns, disfarçando seu fanatismo recalcado com tom blasé, respondendo aos que também perseguem a angústia da minha dúvida. Mas, peraí, estamos no degrau seguinte da Biologia! Isso significa que para entender ESTE degrau acharei explicações no degrau anterior? Mas e o salto entre um degrau e outro? Isso não conta? A flecha de Zenão de Eleia não era uma piada! Segundo Hume, não há vitória na partida de sinuca, pois o taco nunca atinge a bola. Comofas? Entre a biologia e a química, desculpem-me a ignorância, um gap, como entre a física e a química, como entre o mundo quântico e o que vem acima, como entre a biologia e a sociedade. Essa coisa da subserviência de uma área de conhecimento à outra do degrau anterior nunca deu bons resultados. Há estratos no saber e gaps na nossa mente. Um bambu é uma grama gigante, ok, mas para tudo há limite! Convido o leitor para ir atrás das mesmas informações acerca das Oxalidales que tanto me perturbaram e ver com seus próprios olhos. Aproveita que levantaste e aumenta o som da música Inclassificáveis, no trecho em que os quadrados se indefinem: "cafuzos, pardos, tapuias, tupinamboclos; americarataís, iorubárbaros".

Farsas como as dos tasaday são fáceis de se expor. Basta duvidar deles como do bule celestial. Parece não fazer sentido em dizer que há uma população tasaday que vivia ainda na pré-história mas que falava uma língua aparentada com a dos seus vizinhos. Somente o fato de terem esse aspecto cultural particular (a língua em intersecção) já joga no lixo a possibilidade de outras preservações culturais. No máximo, hábitos trogloditoides supostamente verdadeiros dos tasaday seriam algo que equivaleria às homologias biológicas: um mantídeo e um mantispídeo. Caso encerrado. Ou é farsa ou um verdadeiro e comprovável retorno às cavernas não é preservação cultural coisíssima nenhuma. Quando o problema é no nível biológico, aí sim, dá nós no nosso bestunto.


Na área biológica, a existência de seres inclassificáveis me infundem um prazer comparável ao do êxtase de Santa Teresa de Ávila. Segue meu pensamento: as Oxalidales (ordem à qual pertence a minha azeitona do Ceilão) são eudicotiledôneas, mas entre suas parentes há ordens fora da casinha. Não importa. Subamos a árvore: eudicotiledôneas, como as monocotiledôneas (entre outras), são mesangiospermas, que, obviamente, são angiospermas. Mas há angiospermas que não se encaixam e há ordens inteiras para verdadeiros orictéropos vegetais. Um exemplo é Amborella trichopoda, única espécie do único gênero de uma família feita só para ela. Não nos espantemos com a Amborella, pois a escalada nos reserva espantos maiores. Sigamos adiante. Angiospermas e gimnospermas (nome considerado hoje "parafilético" por incluir seres muito distintos como pinheiros, cicadáceas, gingkos e gnetófilas) formam o clado das espermatófitas (ou fanerógamas), mas nem toda espermatófita é angiosperma ou "gimnosperma": pois havia as extintas pteridospermatófitas. Ok, seres extintos são esquisitos mesmo, portanto, posso acalmar minha necessidade de colocar todas as coisas em seu quadrado dizendo ad hoc que seres extintos não valem. Contudo, veremos que as fanerógamas não estão sós, se agruparmos um grupo acima, o das traqueófitas: licopódios, cavalinhas e as samambaias são esquisitices  também. Juntemos as traqueófitas e as "briófitas" e chegaremos ao ancestral embriófito. E é aí que a coisa complica: embriófitas e muitas outras famílias isoladas de algas formam as estreptófitas, cujo ancestral devia estar no oceano do Gênesis, uma das grandes divisões das chamadas "plantas" e aí sim tudo fica nebuloso. Uma planta (abstração para dizer algo tanto sobre uma tiririca quanto para um sequoia) se distingue de uma rodófita, de uma glaucófita, apesar de ainda ser o suficiente próximas para dizermos que são arqueoplástidos, os quais, junto com hacróbios e os inclassificáveis criptistas e picozoários, estramenópilos, alveolados e rizários, se agrupam todos como diaforéticos, que se opõem aos excavados e aos Unikonta, os quais, por sua vez, englobam os amebozoários, os Opisthokonta e os Apusomonadida. Todos eles são seres eucariontes. Esclareço apenas, no caso de te teres perdido e para teres a ideia de onde estás, que tu, tal como eu, somos Opisthokonta, pois somos animais e não coanoflagelados ou filastérios, embora os três sejam filozoários. O nome Opisthokonta serve para agrupasr os holomicotas (fungos e rozelídeos) e os holozoários (que incluem não só nós, filozoários, mas também os mesomicetos e os Corallochytridium). Em suma, somos muito mais próximos dos fungos do que das plantas: qual é o génos aristotélico que nos abarca? Fácil de responder: o fato de sermos eucariontes não-diaforéticos e não-excavados. Fim.

Mesmo assim, apesar de tudo estar no seu quadrado, conforme reza a filósofa Sharon Acioly, há seres inclassificáveis como os crilouros, guaranisseis e judárabes de Arnaldo Antunes. O ser nomeado Breviata anathema é sem dúvida um eucarionte, mas não é um obazoário normal, pois não é nem Opisthokonta, nem Apusomonadida. "Que preto, que índio, que branco o quê?".  Em escalas menores, há muitos seres assim: Maundia triglochinodes é a única espécie da família das maundiáceas, da ordem das Alismatales; Scheuchzeria palustris é a única espécie da família das Scheuchzeriaceae, da mesma ordem. Acontece que quando falamos de Breviata, estamos dizendo que se trata de algo que não é animal, nem fungo, nem Apusomonadida, embora seja Unikonta. Isso não é pouca coisa. A esquisitice do ornitorrinco perto disso é fichinha. "Orientupis, orientupis, iberibárbaros, indo-ciganagôs".


E a coisa não para aí: os eucariotas formam um dos três domínios da vida, juntamente com as bactérias e os bizarros Archaea, que adoram uma vida radical, dentro de fontes termais e lagos salgados. Isso não é nada perto do bizarro Parakaryon myojinensis, descoberto em 2012, que é um ser indiscutivelmente vivo (ou seja, nada parecido com um vírus), embora não seja nem eucariota, nem bactéria, nem do domínio dos Archaea. "Orientupis, orientupis, ameriquítalos, luso-nipo-caboclos".

Meu caro, diante de tantos "egipciganos", "caribocarijós", "orientapuias, mamemulatos, tropicaburés, chibarrosados, mesticigenados oxigenados debaixo do sol" haverá alguém que discorde que "não tem um, tem dois; não tem dois, tem três; não tem lei, tem leis; não tem vez, tem vezes; não tem deus, tem deuses; não tem cor, tem cores"?

Que espanta mais? As sinapomorfias crípticas ou as homologias atordoantes entre seres sem ancestral comum imediato? Escuta a música: ele diz "Não há sol, há sóis" ou "Não há sol a sós"? Não é o encarte do CD ou a letra num site da internet que vai me obrigar a optar por uma dessas leituras. Afinal, numa música, é o som ou a letra que conta? É a razão ou o que nos fornece a empiria? É Descartes ou Locke? 

Está o mundo a nos desafiar, pobres animais classificadores que somos nós, pensando que somos únicos, prostrados diante do indecifrável Parakayon myojinensis!

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O CRÍTICO E SEU COBERTORZINHO

Ultimamente, li dois textos interessantes que reforçaram minha tese aqui já várias vezes apresentada sobre a insipiência humana. O primeiro foi o livro do zoólogo suíço Ariel Adrean Roth Origins: linking Science and the Scripture, de 1998, e o segundo, o de Leo Huberman Man's wordly goods, de 1936. Gostei de ambos, no entanto, no primeiro caso, tive uma surpresa positiva; no segundo, negativa. Roth (sabia-o eu desde o início) é um defensor ferrenho do criacionismo e pensava encontrar lá argumentos xinfrins como os de tantos outros livros sobre o assunto. Pelo contrário, o conhecimento enciclopédico que demonstrou revela, com clareza, muitos problemas com o Evolucionismo (digo isso sem verificar, ponto a ponto, o quanto de tendenciosidade há em cada um de seus argumentos, entenda-se), de tal modo que poderia abalar as convicções de um neo-ateu, não fosse o problema que apresentarei a seguir. Huberman, por outro lado, resumiu com suavidade e elegância, em poucas páginas, toda a história da riqueza do homem, do feudalismo ao capitalismo, tirando dúvidas minhas há muito encalacradas para, de repente, mostrar-se um partidário ferrenho e cego do marxismo. O que motivou a leitura do primeiro texto foi o estímulo de um parente, a quem eu dera um outro livro (o incrível The case for God, de Karen Armstrong). Já a motivação da leitura do segundo livro foi uma professora de história da sexta série, que o louvou tanto a ponto de eu comprá-lo assim que ingressei na faculdade: o livro jazia na minha estante décadas a fio esperando ser lido. Aprendi muito com ambos, mas não posso deixar de externar o que neles há de comum, ou seja, aquilo que me causou espécie, a ponto de dedicar-lhe este texto.

Não me entusiasma o marxismo, nem acredito no criacionismo, mas tanto faz qual seja a minha opinião: não foi por isso que me espantei com ambos os livros. A causa do meu assombro foi o fato de eu estar perante duas pessoas inequivocamente muito cultas e, talvez por preconceito meu, sempre achar que pessoas cultas não fossem suscetíveis à ferocidade do fanatismo e à facilidade da obtusidade. Não há quem perdoe, porém, uma pessoa admirável como Santo Agostinho quando lê seus deliciosos livros porque sentirá nele (a menos que seja fanática e obtusa) o poder da contradição nas entrelinhas, que deseja solucionar com uma postura única e soluciona, optando edipianamente pela memória emocionante e emocional de sua mãe. Sente-se nele a dor da contradição que faz dizer o que diz. Por isso não deveria ter-me feito pasmar o que dizem Roth ou Huberman. Mas mesmo depois da experiência agostiniana, eles me deixaram surpreso. Talvez porque sejam tremendamente claros tanto ao expor seus fortes argumentos contra o que querem atacar quanto ao louvar uma tese adotada com pernas frágeis como os elefantes de La tentación de San Antonio, de Salvador Dalí. O contraste fantástico em sua argumentação afasta-os da contradição e aproxima-os de um disparate goyesco. E como isso é possível? Depois de muito pensar, cheguei à seguinte conclusão: para se conseguir tal façanha é preciso suspender todo o senso crítico exercitado na Entfremdung da apresentação das contraprovas. Só assim se defende uma tese disparatada.


Há falhas no evolucionismo? Claro. Quem diz o contrário recorre a insuportáveis ad hoc. Não discuto se a evolução é um fato ou uma teoria, mas o evolucionismo é sem dúvida uma teoria e, como toda teoria, há buracos, que necessitam ser tapados por variáveis, elementos introduzidos ex machina, hipóteses que requerem prova e contraprova popperiana, sugestões hipnóticas e até mesmo fé nos pressupostos. Toda teoria científica é assim e o evolucionismo não se safa, pois está longe de ser algo dedutivo como se vê no platonismo dos físicos, astrônomos e químicos. O evolucionismo fala sobre o tempo e, portanto, é heraclitianamente histórico como a geologia, a linguística e todas as chamadas ciências sociais, embora a história da evolução não tenha nada de cultural (se não chamo de cultura pavonina os flertes das pavoas que determinam as longas caudas dos pavões, obviamente). Desse modo, detectar brechas, inconsistências ou mesmo falhas de raciocínio no evolucionismo não o torna acientífico, de modo algum. E mesmo que se provasse com algum argumento absurdo que não há ciência alguma no evolucionismo, a opção que Roth nos dá é meramente o livro de Gênesis interpretado à luz de uma única doutrina de uma única religião. Não poderia alguém igualmente tresloucado, seguindo seu mesmíssimo raciocínio, concluir, por a mais b, que certa é a cosmogonia hindu ou xavante? Ou seja, escancarando a nudez dos pressupostos da ciência, o autor parece estar inflexivelmente cego para ver os pressupostos de sua religião predileta e de entendê-los como relativos perante a imensidão de expressões religiosas da Humanidade. Desmistificando a ciência como uma doutrina que não consegue seguir seus princípios seriamente, estaria Roth tratando-a como um tipo de religião? Com isso não posso concordar. A ciência - por mais errada que esteja nas suas bases ocidentais, por mais que tivesse merecido a maluquice dos jacobinos, por mais que se revele errada por dados falsos ou explicações ad hoc demais, por mais que Kuhn mostre que não é tão isenta e que seu sucesso se vincula a paradigmas nada científicos - continua sendo a ciência. Há um esforço da ciência em sempre ser ciência, caso contrário, ela sucumbirá nas trevas e terá falido. Se isso ocorrer, todos sabemos, viveremos com seus refugos no mundo de Mad Max, nem mais, nem menos. Ou seja, a ciência não pode ser algo eternamente parecido com a ciência, porque ou a ciência é ciência ou não é coisa alguma. Mesmo que haja setores falindo ou falidos por desgaste do modelo setecentista, não acredito que a ciência se implodirá por seu próprio discurso, antes serão os cientistas culpados de sua falência e não ela mesma. 

Apesar disso, Roth superou minhas expectativas preconceituosas: é um bom livro, para quem tem algum interesse epistemológico, mas não converte ninguém ao criacionismo, se esse era seu intento, da mesma forma que The God delusion de Richard Dawkins não transforma ninguém em ateu. Antes, esses dois livros têm a capacidade de transformar crentes não-praticantes e agnósticos em fanáticos defensores de uma auctoritas (respectivamente Roth e Dawkins) sem ter capacidade real de avaliá-los. Mas, tudo bem, isso está valendo no louco século XXI: o non sequitur parece estar definitivamente solto, como  nos infindáveis certames atuais que transformaram qualquer questão num Fla-Flu. Será o Satanás mencionado em Apocalipse 20:7? Ou será só a nosso tão batalhado direito a ter, finalmente, preguiça absoluta de pensar, já que a internet nos dá a papinha do conhecimento mastigadinha? O cérebro já diminuiu bastante desde o tempo do homem de Neanderthal; não custa diminuir mais um pouquinho.

Como eu dissera, Roth me surpreendeu positivamente. Já li coisa muito pior sobre esse debate criacionismo versus evolucionismo. Mas admiro-me como as convicções pessoais conseguem cegar a inteligência de alguém e transformar um Kant em um Tertuliano. É quase inacreditável a diferença de qualidade entre os capítulos em que expõe as tripas das falhas alheias e os em que defende uma alternativa. Não é possível fazer isso sem deixar o apolíneo senso crítico do lado de fora da cachola por um momento, para dar vazão ao orador catequético dionisíaco. Parece quase um caso de dupla personalidade. Fiquei interessado em ler outras coisas de Roth, mas, tal como ele, permaneço com minhas convicções, porque conheço bem o tipo de argumentação hellenwhitiana que está por trás da sua proposta pseudoalternativa e, sorry, não caio nessa.


O mesmo ocorre com Huberman. A deliciosa leitura, fluida, coerente e simplificada, espera um bote da serpente assim que o leitor termina a primeira parte e, reabertas as cortinas, vemos um fauno com um discurso eivado de entusiasmo pela solução socialista que, hoje sabemos, não soluciona nada. É até engraçada a defesa dessa solução, quando nos lembramos da dinastia Castro, dos stálins e das pol-potices dos kim-jong-ils da história. Não esperava (ou então sou muito ingênuo) que, daquele arrazoado que mostrava tão bem as ciladas da economia capitalista, viesse uma solução tão limpidamente fácil e descarada. O capítulo XXI, com seu tom altamente encomiástico à URSS, destoa tanto do resto do livro, que parece ser escrito por outrem. Consequentemente, perdi a vontade de ler outro livro de Huberman, pois preferiria ler um defensor mais inteligente do marxismo para entender o porquê de tanta animosidade contra os céticos da tese de que a implosão do capitalismo conduzirá necessariamente à revolução do proletariado. Sempre duvidei que um egípcio conseguisse prever que, após os milhares de anos de suas dinastias, apareceria um povo influente como o grego ou que, na ágora, alguém preveria que a após tantos anos de sofismas, surgisse algo como um Deus trino e uno ao mesmo tempo; ou mesmo que um Laplace pudesse prever a irracionalidade da filosofia oitocentista... Se é para pensarmos nas consequências epistemológicas de um pretenso progresso do espírito humano, à la Hegel ou à la Comte, fico mais com o plano divino e com a trapalhada humana, tal como propusera Vico.



O leitor benevolente que não concorda com autores como Roth e Huberman (ou com pelo menos um deles) explicará seu comportamento de maneira freudiana, ou seja, como humanos com algum tipo de fragilidade de longa data; tolerantemente entenderá que um texto é um texto é um texto é um texto. A falta real de solução para as encruzilhadas teóricas do evolucionismo e para a iminente implosão do capitalismo ou conduz a uma solução nova, algo dificílimo, senão quase impossível ou então ao ceticismo, outra via que não me agrada quando se toma o termo "cético" ao pé da letra. Uma terceira opção é imaginar a solução nova como já existente, mas sem marketing, ainda na esteira do raciocínio de Kuhn. A genialidade, a organização, a competência, a disciplina, o estoicismo e o planejamento não são do povo russo, como nos quer fazer engolir Huberman (sem Hellman's), mas do próprio Huberman: o povo russo que imagina é uma projeção (Freud de novo!) do quão brilhante é e aparentemente não percebe. Nunca imaginei que houvesse povo mais consciencioso e mais altruísta: parece birutice literária de um Thomas Morus (e, sorry, eu acredito mais em George Orwell). Huberman e Roth são notáveis, se seu fim era simplesmente convencer o leitor de que seu cobertorzinho preferido, que arrastam pela casa, é o mais cheiroso do mundo. Na melodia dos dizeres de Huberman, a burocracia bolchevique e os chefes improvisados da Gosplan parecem mais lindos que uma sonata de Bach. Mas, este olho é irmão deste. Não caio nessa, como já disse.

Leitor, por favor, se tu estiveres perante relatos e mais relatos pró ou contra uma tese, com insinuações e afirmações de calúnia contra sua antítese, as quais de alguma maneira te deem algum comichão mental, vê se o que está sendo dito não afronta a tua memória e o teu bom-senso: não sucumbas à tentação de deixar o teu senso crítico amarradinho do lado de fora, amordaçado para não ganir e acordar a vizinhança, enquanto ficas lá agarrado ao teu cobertorzinho, antes sente-lhe o fedor e não digas que isso é subjetivo.

domingo, 14 de janeiro de 2018

ATENÇÃO: ESTE BLOG NÃO CONTÉM GLÚTEN

Ao evocarmos a razão humana, surge um bom momento para distinguirmos racionalidade de razoabilidade. Aparentemente há uma intersecção entre os dois conceitos, mas nem sempre o que os une é claro, seja nos arrazoados acadêmicos, seja nos extra-acadêmicos. Como saber que tipo de razão se evoca como exclusiva da espécie humana (ou, menos pretensiosamente, de uma ideologia ocidental que se confunde com a suposta sapiência hominídea)?

Falar de algo racional nos remete aos séculos XVII e XVIII, assassinados pela Revolução Francesa e pelos tresloucados fichteanos, hegelianos, comtianos, marxistas, nietzscheanos, schoppenhauerianos, spencerianos, freudianos, heideggerianos, junguianos, gramscianos, lacanianos et alii. O que se diz racional parece ter algo de Aristóteles, de Newton ou um híbrido de ambos, isto é, quando esses cultos representantes dos hominídeos também não se põem a falar de coisas intangíveis. O modelo de linguagem do racional é a lógica clássica. Foi a usurpação dessa racionalidade pelo bonapartismo que criou o mostrengo da burocracia e em nome de uma inatingível razão vestem os magistrados suas togas. A verdade, segundo a mente embevecida pela racionalidade, traduziria o que supomos real, pelo julgamento dos nossos sentidos por algo, de fato real, latente, sentado e sorridente, no mundo das ideias. É em nome dessa verdade que clama o racional.

Mas falar do razoável é algo completamente diferente. Para a razoabilidade, dane-se Platão. O razoável compara-se a uma gambiarra funcional. É uma exceção necessária, obviamente com o apoio de uma boa parte dos interlocutores. O razoável não constitui religiões, filosofias ou ciências, pois não responde à pergunta O que é?, mas à questão Como resolvo isso?. Se, por um lado, pelo racional clamam os sistemas, os quais nos armam verbal e belicamente contra nossos inimigos irracionais, por outro, é pelo razoável que toda teoria é abandonada, pensando-se no agora e no amanhã. Razoável, para ser sucinto, é toda solução prática.

Mas estaremos preparados para o razoável compartilhado, uma vez que o meme do racional infestou o planeta desde que as grandes navegações europeias proclamaram haver um só modo de resolver as coisas para qualquer tipo de problema? Hoje distinguir entre o racional e o irracional parece tão óbvio que poderíamos ver nessa certeza algo de fanatismo e, de fato, que é o fanatismo senão uma pressuposição inconsciente? Concordarás comigo que não há nada mais óbvio hoje do que o conselho de que devemos ser racionais. Talvez fosse melhor se pensássemos que deveríamos ser razoáveis.


A racionalidade requer palavras muito especiais, claramente definidas, sem julgamento de valor a não ser o valor da verdade (e a sua negação, a falsidade). Requer regras muito claras e uma progressão de raciocínio que impede voltarmos atrás, a não ser pelas próprias regras. Por exemplo: os governantes numa democracia são eleitos pela maioria, mediante um ritual específico, para representar-nos, durante um determinado número de anos  e exercer suas funções num sistema em que leis, decretos, regras entre os poderes estão claramente definidos em uma constituição, cuja alteração requer novamente aprovação da maioria representativa, seguindo um ritual previamente estabelecido pela constituição anterior. Se o governante é uma grande besta, se a maioria é corrompida, se leis que baguncem as regras são votadas e se o ritual é completamente invertido mediante esses mesmíssimos processos, tanto faz: essas gambiarras que descaracterizam a máquina são tão bem engendradas que equivalem à situação de duas pessoas que iniciam uma partida de xadrez e terminam com um mão de straight flush. Nesse sentido, algo racional, modificado lentamente em nome da razoabilidade, se converte numa barafunda entontecedora.

Outro exemplo: uma avenida importante da cidade é fechada para o lazer dos cidadãos todo final de semana. Mas num determinado final de semana venta e chove o dia todo e a chuvarada é entrecortada por granizos intermitentes, gerando um trânsito caótico. Como o fechamento da avenida foi decidido por lei, após movimentos populares e discursos de seus representantes, e essa lei foi taquigrafada, digitada, apreciada em diversas instâncias, votada, promulgada e divulgada em órgãos oficiais, comunicada aos órgãos responsáveis, que contrataram servidores e/ou acionaram seus recursos e por fim concretizada, todo o percurso burocrático não suporta, em nome da racionalidade, o seu não-cumprimento por causa de um ad hoc tão concreto quanto uns granizinhos, a menos (talvez) em caso de súbita emergência de uma calamidade pública. A rua, fechada para o lazer mesmo num dia em que lazer algum pode ser proporcionado, obstruirá o trânsito, segundo o silogismo indefectível da burocracia, pois não poderá prejudicar o direito de uma ou duas pessoas andarem sob uma chuva insuportavelmente torrencial, as quais processarão o Estado alegando não se importarem de alguns granizos furarem seu guarda-chuva e acertarem-lhe a cachimônia. Como podes ver, a racionalidade produz coisas muito estranhas. Só um defensor extremado da racionalidade achará perfeitamente ponderado que até mesmo em água mineral haja a indicação "não contém glúten" ou que embalagens de lenços de papel umedecido advirtam "não ingerir": possíveis ingestoras são crianças, que não sabem ler; se souberem e, mesmo assim, fizerem essa maluquice, ou são muito desobedientes ou não sabiam que "ingerir" queria dizer "comer". Outra possível casta de ingestores de lenços umedecidos são loucos, que, mesmo conhecendo a palavra, não darão bola para a recomendação, porque, convenhamos, não é fácil acompanhar o raciocínio de um louco. Em suma, não é prevendo o razoável que se constrói o racional e sua jurisprudência, ó crente dos pressupostos setecentistas!


Se valesse a razoabilidade, ninguém ficaria esperando ficar verde um semáforo que não está num cruzamento, se não houver pedestres. Mas é o que se vê: o sinal fecha, fica vermelho, os carros param diante de faixas de segurança que não estão em cruzamentos e nas quais não há pedestres. Esses mesmos adestrados behavioristicamente pela multa são capazes de atropelar ou pelo menos dar um susto em alguém que atravesse a faixa de segurança só porque não há semáforos e, segundo sua razão razoável, na luta carne versus lata, o mais forte sairá com o melhor bônus - e dane-se a empatia com o pedestre, o amor ao próximo e outras coisas razoáveis. Ou seja, quem segue a razão racional pode ser o mesmo que não segue a razão razoável e vice versa.

Não é possível criar leis a partir do bom-senso, daí o sucesso inegável da burocracia estúpida, produto de uma mente acéfala, a qual ganha mundo afora e já está traduzida até na língua dos tasaday. Quem leva a sério o que digo entenderá que o bom-senso depende da comunicação, outro mito do mundo platônico, pois estamos por demais imersos na incomunicabilidade, no medo, na indiferença, na desconfiança do outro e na confiança daquilo que nos é apresentado como racional, misto terrível de paradoxos que nos torna verdadeiramente irresponsáveis. Não me lembro de ter visto uma síntese melhor desse problema do que no filme The square, de Ruben Östlund.


A racionalidade nos diz, por exemplo, que há esquimós sobre a terra e que eles têm vários nomes para neve. A confiança nessa informação nos deixa irresponsáveis e, batendo no peito como gorilas, racionais, destemidos e confiantes, embora incomunicáveis. Essa confiança chega ao cúmulo de representarmos Chilly Willy morando num iglu, embora pinguins não existam no Polo Norte, único local em que existem iglus stricto sensu. A racionalidade, alertada de sua burrice, percebe que vacilou, mas isso é pouco. Iglus são feitos por esquimós, certo? Mas... existem mesmo esquimós? Não estou perguntando se os habitantes do Ártico existem, nem estou dando a entender que hoje não existam mais pessoas vivendo em iglus, pois os esquimós os abandonaram para morar em casas, com caleifação e outras as comodidades do mundo moderno. Quando pergunto se há mesmo esquimós, não estou insinuando que os esquimós não são mais esquimós porque não sabem mais orientar-se na neve ou distinguir a que afunda da que é firme, a perene da recentemente depositada... não! Não é disso que estou falando. O leitor, atordoado com a minha pergunta, talvez a interprete de um segundo modo bizarro, imaginando que eu pergunte sobre a inexistência dos esquimós, por saber que esses nativos do Ártico já não gostam de ser chamados assim e alguém, sempre atento ao politicamente correto, substituirá a anatemática palavra "esquimó" por "inuíte", sem saber direito a bobagem que está fazendo, como explicarei a seguir. Eu te digo, leitor: com medo de generalizar, generalizas também. Antes de solucionar o enigma de minha pergunta, analisemo-la: existem mesmo esquimós? Não é uma pergunta que requer as minudências das sutilezas acima. É uma pergunta direta, do tipo "sim ou não". Pois bem, eu estou mais propenso a dizer "não", embora não te culpe por pensares o contrário. Antes lamento, pois a tua resposta afirmativa se deve à nefanda racionalidade.

Explico-me, leitor, pois vejo-te boquiaberto. A entidade que chamas de "esquimó" ou "inuíte" é uma abstração muito estranha e comigo estaria concorde Duns Scotus. Tu, porém, defenderás, com raciocínio escolástico, argumentando com um ad hoc, por exemplo, que Chilly Willy, na verdade, esteve, desde sempre, visitando seu amigo, o urso polar Maxie, e portanto está no Polo Norte e não no Polo Sul, como o incauto telespectador não imaginara, e foi acima do Equador que aprendeu a fazer iglus, donde se conclui que esteja mais precisamente no Ártico Central do Canadá ou na região groenlandesa de Thule, onde se fazem ou faziam iglus tais como conhecemos pelos meios de comunicação: não com peles e ossos de baleia, mas minimalistamente com blocos de gelo. Data venia, insisto na questão: o mesmo exegeta das loucuras dos estúdios Walter Lantz defenderá ainda a existência de esquimós? Vejamos.

Distingam-se os esquimós dos aleutas. Olhando um mapa, o leitor reconhecerá as Ilhas Aleutas entre a Ásia e a América, onde moram os aleutas ou aleútes ou, como eles mesmos querem ser chamados, os unangax. Do ponto de vista linguístico, a língua aleuta é bem distinta de como os esquimós propriamente ditos se exprimem. Mesmo assim, a fala aleuta difere bastante, dependendo da tribo a que pertence: há os sasignan (ou sasxinan ou sasxinas) em Attu, Agattu e Semichi; há também os kasakam unangangis em Copper Island. Esses grupos diferem bastante do naahmigus das ilhas Delarof e Andreanof e do niigugis falados em Kanaga, Adak, Atka, Amlia e Seguam. Por outro lado, esses dois grupos ainda diferem do akuugun (Four Mountains), do qawalangin (Fox Islands), do qigiigun (Krenitzin), do qagaan tayagungin (Sanak Islands), do taxtamam tunuu (Belkofski) e do qagiigun (Shumagin). Somando tudo isso, não temos nem 500 falantes. O monolinguismo, em nome da razão, é totalmente excepcional, lembremos. Imagina, leitor, quantos outros grupos não existiram e quanta expressão linguística foi engolida pela bruma dos tempos, pela sevícia dos ditos civilizados e pelo orgulho/medo etnocêntrico.


Mas dirá alguém que aleuta não é esquimó, embora a expressão de todos eles dê azo à construção de uma família linguística comum (chamada esquimó-aleuta, nome de uma pré-histórica língua, ainda que com tons eternamente provisórios, cheia de asteriscos). A expressão esquimó estaria dividida em dois grupos: os yupik e os inuit. Vê, leitor, a ironia das soluções racionais: trocar o nome "esquimó" por "inuíte" não resolve nada e, ainda por cima, pode ofender algum yupik. Os yupik, são na verdade, um grupo, com 11.000 falantes de línguas como o yugtun, o chevak cup'ik, o nunivak cup'ik, o koniag alutiiq, o chugach alutiiq, o yuit e o sivuqaghmiistun. Os inuit propriamente ditos, formam outro grupo, ainda mais heterogêneo, que somam 98.000 falantes de alguma língua esquimó-aleuta que não é nem aleuta nem yupik. No norte do Alasca vivem os inupiaq que falam ou qawiaraq ou inupiatun (se incluirmos também entre esses últimos os falantes de uumarmiutun, isto é, os falantes de aklavik e os inuvik). No oeste do Canadá há os inuvialuktun, que falam siglitun, inuinnaqtun (ou kangiriyuarmiutun, se o leitor achar mais fácil de pronunciar) e os natsilingmiutut. Por fim, no leste do Canadá, junto com os inuinnaqtun, há os falantes de nunatsiavummiututut, de nunavimmiutit, de qikiqtaaluk uannangani, de aivilimmiutut e de kivallirmiutut. Por fim o nome "groenlandês" é dado à língua oficialmente reconhecida pela Dinamarca, isto é, o kalaallisut (só ela com 50000 falantes), mas também pode referir-se ao tunumiisut e ao inuktun. Portanto, não há esquimó algum. Há povos distintos que nossa pequena capacidade de apreciar a diversidade chama de esquimó ou de inuíte. E para quem acha isso demais, saiba que não detalhamos as expressões consideradas "dialetos", isto é, as formas linguísticas mais tímidas, engolidas pela expressão majoritária. Um falante de inuktun tem de se comunicar não só com sua família: quando sai do seu círculo familiar, tem de usar o kalaallisut,o dinamarquês ou o inglês e, quando sai do círculo polar, terá de aprender outras línguas.

Nossa mente não suporta tanta coisa. O raciocínio quer simplificação, daí a lógica, que não é esqueleto da linguagem, como queria Port Royal, mas uma linguagem platônica. Nunca se encontrará um centro da lógica na mente humana: melhor procurá-la na área dos costumes adquiridos, como o de pôr sal na manga verde. Daí a racionalidade com sua promessa canaânica de que nos salvará da loucura nada mais é que uma lanterna pra andarmos na escuridão ou um facão para desbastar matas muito densas e fazermos uma picada. O previsível é apenas uma regra de que se vale nossa mente atrapalhada e nosso remédio atordoado, como nos mostram ilusionistas como Apollo Robins e Eric Leclerc na série Brain Games. Sofremos por termos nascido primatas com cérebros de hominídeos. Pagamos por isso uma pena muito dura. E cumprimo-la não numa colônia penal, mas numa colônia mental. Como alento, qualquer fuga dessa racionalidade parece extremamente razoável, embora tenha seus riscos e consequências.