O mistério do prosaico revelado!

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O óbvio finalmente revelado!
Se não sei quem sou eu, duvido de quem diga que saiba de si mesmo e mais ainda de quem saiba algo de mim. 
Neste mundo cheio de rótulos, penso que tenho algum talento para ser frasco.

sábado, 20 de outubro de 2018

HISTÓRIA E SIGNIFICADO

É conhecido dos linguistas brasileiros o paradoxo que Joaquim Mattoso Camara Jr apresentou acerca da incompatibilidade da segmentação vocabular simultaneamente sincrônica e diacrônica. 

Para qualquer falante da língua portuguesa, um verbo como comer tem um radical com- que aparece em todo o paradigma verbal: como, comes, comíamos, comessem, comendo etc. Nenhum usuário do idioma, desde que devidamente treinado com rudimentos dessa prática dissecativa (obviamente), teria dificuldade em dizer que com- é o radical dessa palavra, ao passo que -er é uma terminação, composta de uma vogal temática de segunda conjugação -e- e de uma desinência que indica infinitivo, -r. 

No entanto, isso só é válido para a consciência do falante de português devidamente treinado. Se ele mergulhasse com um batiscafo nas zonas abissopelágicas do idioma, veria que, claramente, o primeiro elemento com- não foi um radical em outras eras, mas sim um prefixo significando "todos juntos" o qual, anexado ao verbo latino edere - que significava "comer" - formava um verbo composto comedere, avô da nossa palavra recém-dissecada

Por causa das enxurradas do rio do tempo, essa palavra, criada no Lácio, foi empregada por bocas ibéricas, às quais se amoleceu o -d- e as quais o converteram num som parecido com o th- da palavra inglesa that, para, por fim, esvanecer-se nas fumaças acústicas, assim como aconteceu com o atonicíssimo -e final. Eis que o verbo comedere, por meio de uma inércia linguística, erodido nos atritos das eras, tal como uma lagarta que se metamorfoseia, tornou-se comeer, com dois -ee- pronunciados separadamente e com acento tônico no segundo. Não seria pedir muito ao leitor que acreditasse em algo que costumeiramente perceberá ocorrer com palavras como "cooperar": duas vogais assim, juntinhas, combinam muito pouco com nossa pressa hodierna e também não combinavam com a pressa medieval de reconquistar terras mouras ou com a pressa do Renascimento, ao sair em caravelas mar adentro. Resumindo a ópera, compreensivelmente se vê que os dois -ee- se fundiram num só e no único -e- que ouvimos. A palavra mumificada em sua crisálida de letras, contudo, continuou a mudar por dentro, de modo que em bocas brasileiras, o -r final também caiu e, volta e meia, o -o- acaba fechando-se ainda mais, tão ávidas as bocas estavam em seu mascar diário, que lhe garante sobrevivência individual.


Mas voltemos a fita ao paradoxo de Câmara Jr: se é verdade que com- é o radical da palavra em funcionamento, tal como uma batedeira de bolos a girar sobre claras em neve, não é verdade que sempre o foi. E de fato, quando comer foi um dia comedere, o radical era esse -ed- que fica entre o prefixo e a desinência, o qual se converteu, pelo desgaste fônico supracitado, em -e- pouco antes de fundir-se completamente com o segundo -e- da desinência. Teria a palavra dois radicais? Um sincrônico e um diacrônico? Aquilo que hoje chamamos de radical foi um prefixo. Ainda o é? Se sim, o antigo radical é a vogal temática, misturada no milk shake do tempo?

A pergunta é meio estranha. Algo como dizer que se os cetáceos, mamíferos que retornaram ao mar primordial, têm os artelhos ocultos em suas barbatanas, inegavelmente homólogos aos de nossa mão igualmente mamífera, conclui-se que patas e barbatanas são uma e única coisa... O ancestral jamais pensaria que sua velha mão se tornaria barbatana e a barbatana não tem saudades do tempo em que era quadrúpede. Foi a necessidade e o meio que a mudaram. O que foi no passado não faz sentido no presente e até atrapalha: substituam a barbatana da baleia por uma pata de cavalo e lancem-na de volta ao mar. Sem dúvida, a falta de utilidade da condição ancestral será o motivo de seu perecimento. E a baleia, dando coices, morrerá afogada.

Uma pata de cavalo numa baleia não teria significado algum, assim como causa espécie reunir irmãos gêmeos idênticos separados pelo tempo como o com- de comer com o com- de combinar. Apesar de válido, não tem significado algum para os irmãos separados, nada para além do que a história nos quer mostrar. O trânsito de significados da história é uma coisa notável, mais ainda se vemos paralelos em trânsitos similares, contudo, juntar o passado e o presente na mesma caixa é uma atitude acrônica. E o acrônico se torna válido quando é funcional, já quando é descritivo, parece ser mera curiosidade.

Mas há alguma necessidade de acronia no ser humano? As leis da física são acrônicas assim como tantas causas metafísicas. Talvez haja, então. O mistério do acrônico talvez seja útil quando não há nenhuma outra resposta reprodutível em laboratório. 


Algo possível de se comer é, segundo a língua portuguesa, comestível. Por que uma coisa possível de se beber não é "bebestível?",  pergunta-se a criança em pensamento inconsciente durante a sua aquisição de linguagem e também o glotófilo. A analogia norteia a lógica e aplaca nossa insegurança do indomável. Cavalos-baleias são indomáveis. Tudo que é complexo nos assusta. O homem parece precisar ter tudo sob controle, senão volta a ser o pirralho chorão e pirracento. A diversidade assusta, pode causar dodói, pensa a mente infantil. Uma língua completamente irregular parece impensável porque o tempo não está nem aí com a nossa necessidade hominídea de colocar tudo em caixinhas para não sairmos berrando de medo. Daí nasce o consolo da exceção. Resolveu esse perrengue a mente do antropossímio da seguinte forma:  há, sim regras, mas há uma ou outra palavra subversiva (às vezes um bocado) que não segue a regra ditada pela tirania analógica. Por que elas existem, se são tão pouco arrazoadas? Para confundir-nos ou para tornar-nos mais sapientes?

Nem toda exceção tem explicação fácil. Mas essa do nosso exemplo tem. O sufixo -ível se junta a um antigo particípio latino e não à base verbal nua. Por isso, uma coisa que se compreende facilmente é compreensível. Veja: não é "compreendível" porque no passado, o radical da palavra em questão formava um particípio comprehensus e é sobre ele que se junta o sufixo. Por trás dessa palavra há uma história que não se dobrou perante a tirania do biberão analógico. E não são poucas as que fazem isso: algo que é possível reverter não é "revertível" mas reversível, pois o particípio de vertere, palavra que gerou em sincronia pretérita o composto revertere e em diacronia a palavra portuguesa verter, tinha também um particípio com -s-:  reversus, daí bastou juntar-lhe o sufixo e - alacazam!- temos o mistério de nossa exceção revelado. Quem não percebe isso acha que o monstrengo pancrônico é "individível"; quem o nega é "insentível" e isso não é "admitível" para quem está disposto de fato a usar sua razão.

Mas mesmo assim, o nosso comestível parece um enigma, mas não é, caro ignoto da língua do Lácio: em latim, o verbo comedere formava o seu particípio como comestus e, novamente, junte-lhe agora o sufixo pela mesma regra acima anunciada e terá o comestível. Caso encerrado. Cabe agora a quem sabe isso fingir que não sabe ou louvar-se porque sabe. Fato é que o fato é um fato.

Mas, espere, não é bem assim. A nossa narrativa não termina aí: entre o radical e o sufixo apareceu um troço esquisito, ou seja, esse -est-  da palavra comestível, sem sentido algum para quem fala hoje, uma espécie do lixo do passado, o antigo radical destronado da sua função central, agora convertido em interfixo (como o denomina Malkiel), algo esquisito, sem significado, trambolho que não fica bem junto nem com o novo radical com- nem com o sufixo -ível. Mas olhando bem, esse -est- é o próprio particípio do verbo edere, é o próprio verbo "comer"!!!


Algum sincronomaníaco ficará atônito e, antes de expulsar essa palavra do templo da morfologia para escondê-lo no sótão da lexicologia, dirá: "tu não podes existir, figura amorfa, com corpo e sem alma, frankenstein caminhante, zumbi de outras eras, arrenego-te!".

Mas fato é que esse avejão de priscas eras retornou e convive entre nós, qual o espectro de Hamlet, para não ser de todo esquecido nos escombros de uma civilização perdida. Não veio para ficar. Sempre esteve entre nós e agora urra para nosso abismar.

Ver dois radicais simultâneos numa mesma palavra parece-se muito com a sensação de observar My wife and my mother-in-law, de William Ely Hill. É como se um pai zumbi estivesse sentado na poltrona, observando, na mesma sala, o filho não-zumbi brincando no chão. Cena ainda pior: é a mesma pessoa morta a observar-se viva. Uma espécie de gato de Schrödinger voyeur. O que era não é, o que é não era. Difícil falar de significado com a visão embaralhando-se assim, sem parar. Mas é o que acontece, fique atento, leitor, quando vemo-nos mortos e vivos juntos, indo e voltando, como depois de bebermos alguns copos cheios de conhaque. Como num ataque de esquizofrenia.

Embriagados pelo paradoxo, pelo vai-e-vem do passado e do presente, alternando-se, como numa dança macabra, só nos restam algumas opções: escolher, dormir, observar, vomitar ou morrer. Sextum non datur.

domingo, 9 de setembro de 2018

NÃO JULGUE-ME POR ESTA ÊNCLISE!

O mundo é fatiado entre aquilo de que gosto e o que não me apraz. Quando éramos crianças que não falavam, suportávamos o mundo. Mas à medida que descobrimos que uma coisa é melhor que outra, abrimos o berreiro, balançamos a cabeça, fechamos a boca para não aceitar o que não era de nossa preferência e fizemos muita birra. Esse foi o melhor estímulo para aprendermos a dominar o código linguístico que nos impunham e, mesmo virando-se muito bem com um arremedo dele por uns quatro anos, eis que o grande motor do progresso, o Tédio, bateu-nos à porta dos nossos mil e duzentos dias de vida e, resignados, paramos de propor regras originais e palavras absurdas, que só nossos protetores adultos entendiam, e lançamo-nos num kon-tiki sem volta, tentando dominar as regras do que nos circunda, nas suas minúcias e na sua crueza, sem perguntar o que há de lógico ou de sensato, mas apenas aceitando-as, com o intento de mudar tudo para nosso benefício, de dominar o planeta e todos que estivessem ao alcance de nossos olhos.

Mas conquistar o mundo não é fácil, como bem sabe o leitor, que já passou por isso. Nem tudo se consegue com murros, tapas, cordas, mordaças e projéteis de pedra, osso, madeira ou metal. É preciso ter um pingo de inteligência para impor-se. E na estratégia particular de cada um para destruir tudo que é ruim, deixando o caminho mais fácil para andar sem perigos, o primeiro passo consiste em afinarmos o julgamento acerca de quem poderá ajudar-nos e quem vai com certeza atrapalhar-nos no nosso nobre intento de devastar todo e qualquer elemento daninho do planeta. De uma coisa estamos convencidos sobre ele: não somos nós mesmos.



E eis que entra o lado dito sapiens do mimado primata: só julgo bem se também souber bem o que devo julgar. Mas como saber? Ilusões nos enganam, notícias falsas nos atordoam, crenças nos atrasam: a sabedoria, principal requisito para o poder, não é uma coisa presenteada pelo DNA, nem um brinde grátis da evolução. O que temos à disposição é apenas uma memoriazinha, uma capacidade limitada de abstrair à nossa maneira, um vórtex amalucado de memórias espantosamente banal, mas que deixou Bergson boquiaberto. Qualquer pardal parece ter igualmente sobrevivido às intempéries das eras geológicas sem chamar tanto a atenção com estardalhaço para si mesmo. E pardais, dizem, também querem dominar o mundo, porque tudo o que é vivo quer este planeta somente para si e para sua progênie, seja ele primata, pássaro, inseto, alga ou fungo.

Não bastaram um cabeção e dons cognitivos onanisticamente louvados em nós por nós mesmos. É preciso muito mais: com uma mente amaldiçoada, sem a capacidade de apagar tudo de modo eficiente, é preciso separar o que é bom do que é mau por meio de julgamentos. E julgar é algo tão atávico quanto memorizar, a ponto de confundir-se facilmente com o raciocínio. Se não julgássemos, não seríamos seres humanos. E, como não há nenhuma instância reguladora para o julgar fora do que foi criado por nós mesmos, uma multidão de juízos despertam-se em nós, os quais são, via de regra, absolutamente errôneos. O erro não é (somente) de lógica, fique claro: equivocamo-nos perante a impossibilidade de vermos que não há nas nossas elocuções mentais nada que sustente suas mais caras premissas, nada além do que uma mera triagem de sombras lembradas ad hoc, com o fim particular e único de domínio, comungado com tudo que está à nossa espreita.

Mas se o julgamento é fadado ao erro, eis que há erros piores que outros. Julguei errado e, socorro!, o monstro meu inimigo agora tem mais poder que eu, pois inadvertida e alopradamente lho deram. O monstro esbraveja para alegrar quem lhe deu poder e eu temo. Se ele quiser manter o poder não deve fazer mais do que esbravejar, bem o sei e, acauteladamente, espero que pestaneje para que eu tome novamente as rédeas. Situação terrível: ele gosta da minha comida e, em vez de um concorrente, descubro nele alguém que pode fazer o favor de ignorar-me: evidencia-se, desse modo, que meu inimigo não é inimigo meu. Como não tenho seu poder, posso ser-lhe indiferente e me verá, desse modo, não me enxergando, a ponto de poder dizer que até tem por mim, que não existo para ele, uma certa complacência e candura. E convivemos em paz eu e o monstro, que cavalga o poder conferido por outro inimigo meu.


A experiência de subordinação ao monstro mostra que tudo é superável, porque não queremos solidão, tristeza, fracasso. E de fato, um homem se junta a um outro homem para construir uma sociedade, e isso em nada se equipara ao homem que se junta a um deus ou ao homem que se junta às bestas em batalha declarada. Lembre-se do exemplo do monstro: nossos inimigos são muito mais insuportáveis do que os que são inimigos de nós. Basta que a fera não nos olhe nos olhos. Basta que o raio não brinque de acaso conosco. Basta que os deuses estejam do nosso lado. E isso se aprende sem estresse, na medida do possível, porque, como sabemos, viver é estressar-se, mas estresse demais também é morte, de modo que a vida nos ensina que a saúde vem da dispersão, do esquecer-se que estamos rodeados de inimigos. Basta que nossos inimigos não sejam inimigos de nós e vive-se resignadamente bem.

Dispersar-se não só do outro, mas de nós mesmo: porque não conheço inimigo nosso pior do que nós mesmos. Mas como, se a solidão nos enlouquece? Hoje, por exemplo, pus um prato a mais na mesa e comi, sem perceber, diante de um comensal imaginário. Há coisa mais triste que isso: reconhecer-se como único e só? Não é isso a grande náusea que se sente um segundo antes de apertar o gatilho contra a cabeça? Que imagem banal, de cujo mau gosto me desculpo, leitor, pois antes devia lembrar-me que, conforme o bushidō, tantos oibara, após comporem seus zeppitsu, já se valeram de um  kaishakunin para auxiliarem a manusear o tantō em seu seppuku.

Ninguém negaria que só o ser solitário é amoral. Todos sabemos que a moral nada mais é que a associação de uma regra a um objeto. Criando regras para nós mesmos, também seremos seres morais. Portanto, sempre houve moral, seja do ermitão, seja do bando, mesmo no nosso período pré-canibal. E a moral está por toda parte: o conceito de sobrevivência não existiria sem a noção de medo; não influenciaríamos ninguém, se não houvesse a culpa; não haveria força de vontade, se não tivéssemos vergonha; o amor não existiria, se não houvesse o pesar, tampouco o discernimento teria um nome, se não houvesse a ilusão. Se julgamos é porque nos apegamos moralmente a algo e porque é difícil demais separar a verdade que nos convence da mentira com que acalentadamente nos autoenganamos. 



São Boaventura disse que a filosofia encerrada em si mesma é desnorteante. Perguntemos ao santo: todos precisamos de um norte? Eu não sei o nome do inventor do CTRL-Z, mas esse gênio também deveria ser canonizado. Como poderíamos viver hoje sem desfazer a bobagem que acabamos de escrever? Uma fala não se apaga como um escrito. E até os escritos hoje se transformaram em falas. A fala se fez carne e habitou entre nós. E a trindade WhatsApp, Facebook e Twitter ditaram o novíssimo evangelho que toca nossas preocupações mais íntimas. Se não, vejamos: a coisa que mais preocupa o niilista homem contemporâneo não é sua diversão, seu deus adorado? E há maior diversão do que julgar os inimigos, nunca tão abundantes como hoje em dia? Antes voejavam flechas, como andorinhas, hoje zune a boataria lançada incessantemente pela zarabatana de silício.

Um dos inimigos principais é aquele que está acima de mim. Ora, isso é simples resolver isso agora: basta reduzi-lo facilmente com palavras, tornando-o algo abaixo de mim. A tagarelice redime. Por exemplo, um governo, criado para me representar e do qual sou uma hipóstase, é visto como um filho perdulário e ingrato, que não me visita e que eu mal conheço. Tanto há para se acusar, tanto há para reclamar, tanto há para se pedir do futuro, que pouco tempo me resta para raciocinar. Julgar sem raciocinar: eis o sonho humano por fim conquistado! Mas, esperem! Essa árvore que caiu bem no meu caminho e isso me chateia um bocado, pois me impede de passar. Quem vai retirá-la para mim? Cadê aqueles que eu achei que estavam do meu lado? Quem me salva? E o homem, embirrado como era antes quando queria um chocalho fora do alcance das mãos, volta a chorar.

Não há o que fazer. Hoje só se presencia o culto ao indigno e isso nos leva àquilo. E nunca foi diferente. Por vezes, o cão infernal ladra pelas suas três cabeças. E aí todos descobrem um inimigo comum. Surge assim a nova amizade, the new friendship. Ninguém mais está sozinho. Quando não havia smartphones, gabarolou-se, durante uma das primeiras passeatas de insatisfeitos, que "saímos do Facebook", mas engana-se quem interpretou essa frase como "demos uma pausa no Facebook, mas logo voltaremos ao computador". Na verdade, trata-se de uma constatação etiológica e significava  "proviemos do Facebook". E hoje, a minha trindade está no meu bolso e dentro dele, todos os inimigos que tornam o mundo um lugar insuportável. Será que morremos, estamos diante de Ammit, e não sabemos?

Quero ter a sensação, ainda que falsa, de que estou vivo. Não há nada mais estranho do que gostar de viver e não deixar que o outro viva. Não há maior hipocrisia do que viver e dizer ao outro que não gosta de viver. Não há maior falácia do que dizer que deixa o outro viver e impedi-lo de dar um passo real rumo à liberdade, pois quem diz isso sabe que o outro não viverá plenamente. Se o outro admira o desprendimento alheio e ao mesmo tempo respeita sua vontade de viver, a vontade de abdicar será ainda maior. Quem é livre, não foge mas, apesar de vivo, não vive. Ora, não dizem que viver é viver plenamente? Que vida é plena se não houver esquecimento da morte? Viver plenamente é, portanto, impossível. E o que é o respeito senão limite, jaula, acordo, abdicação? Como respeitar a vida alheia? O respeito real estaria na falta de acordos ou é preferível a falta de respeito? Se ainda quero resgatar algo de positivo nessa palavra, devo entender como "respeito" a aceitação piedosa da solidão individual alheia, lançada no turbilhão das ondas cotidianas e inconsequentes das experiências.  

Contudo, para atingir esse nível, é preciso que nos lancemos no óbvio novamente. Há um refúgio no recorte que fazemos ao escolher nossas inimizades: o todo não só é insuportável, mas também não é apreensível. Eu sempre me perguntei se, em vez de recorte, talvez fosse melhor a ênfase naquilo por que me apaixono. Se ser é a condição provisória do eterno estar, qualquer raciocínio pode levar-me ao sucesso ou à frustração. Diferentemente, a mecanização pode sempre levar qualquer um ao sucesso, exceto se houver imprevistos. A última frase foi irônica: qualquer generalização sobre o tema se revelará invariavelmente falsa porque toda generalização é falsa, inclusive esta. Abandonemos esse raciocínio espiral, pois o Kon-Tiki está naufragando. Se viver é apenas conviver com fatos do passado e generalizar para o futuro, os fatos se revelam falsos apenas porque a vida se confunde com introspecção. Tudo se revela falso pela própria experiência do viver. Paradoxal?

Conviver com paradoxos é bom e saudável. Há certa consistência nos paradoxos. O paradoxo nos faz sentir impotentes e idiotas. Mas a idiotice é um ingrediente importantíssimo do saber. Por exemplo, uma pessoa que preza a cultura e o argumentação ouve a expressão latina "per rem". Adota-a porque imagina entender o contexto e escreve-a sistematicamente como "per hem", porque, para esse sujeito, a língua da Inglaterra é mais familiar do que a do Lácio. Como explicar essa teimosia pedante? Afinal, indago-me, com propriedade, após tantos milhares de exemplos diários parecidos com esse: não será a burrice um elemento importantíssimo do intelecto humano? Não é a burrice que gera as nossas maiores certezas? E não será a teimosia nada mais que uma forma exacerbada da burrice, fruto da desatenção, a ferramenta-chave da comunicação e o cimento de nossos edifícios argumentativos? Parece que há algo de inegavelmente verdadeiro ao detectar-se a burrice como a essência do julgamento: quem não confunde arrazoados sensatos com a sua própria obtusidade?


Parece que é isso mesmo. No fundo de nossa memória aparentemente infinita procuramos causas, explicações, argumentos e teorias, mas só encontramos, cada vez mais, palavras. Não encontramos para o mundo nem respostas nem soluções, apenas mais termos ocos e elásticos, inventados por este ou por aquele, mas que logo estarão na boca de todos por algum tempo até o surgimento de outros neologismos vazios. Por que não dizer então àquele que me julga: eu me valho do que é mais essencial ao discernimento: a minha estupidez? Contra ela, não há inimigo que possa vencer-me!

domingo, 26 de agosto de 2018

DESCONFIANÇA E IGNORÂNCIA

O bom cético cantaria socraticamente em uníssono com Guimarães Rosa "eu quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa" e, assim entoando as sílabas desse culto anexim, estaria sertanejamente fazendo uma asserção que contém algo que poderíamos chamar de ocidentalidade do pensamento, ainda que há muito já se provou não haver fronteiras entre o leste e o oeste mundiais. O mau cético duvidaria até mesmo do conteúdo dessa pérola de sabedoria e ficaria de bom grado à mercê da amoralidade. Alguém poderia estender esse pensamento inicial, alegando que um ceticismo avantajado nada mais é que uma reação a uma incomensurável credulidade. Não tenho argumentos para rebater isso, pois nunca descobri quem é o maior tolo: aquele que pergunta ou aquele que responde.


Se, por um lado, eu sempre achei que falar de id e superego, ao interpretar poemas medievais, é tão absurdo como ver Jesus Cristo em textos pagãos, por outro, não consigo deixar de acreditar nas frases de Thomas Mann em Tod in Venedig, ao ensinar-me que, para quem está fora de si, nada parece mais detestável do que retornar a si mesmo. Na mesma toada, o autor ainda me adverte que o ser humano ama e respeita seu semelhante somente enquanto não tem condição de julgá-lo e até mesmo o seu desejo é produto desse julgamento imperfeito. Ora, quem deseja não desconfia. Quem não desconfia, ignora algo. Mas se todos somos ignorantes, qual é a vantagem da desconfiança? Pergunta fácil de responder para alguns que se autodenominam racionais: quem desconfia tem menos chances evolutivas de tornar-se uma vítima. Menos chances, disseram eles, porque nunca estaremos totalmente imunes àqueles que nos querem destruir.



Uma das formas de parecermos imunizados é ver-nos como inteligentes. Por isso, alardeia fulano que não assiste ao noticiário da tevê aberta, nem lê nada proveniente de determinados meios de comunicação ligados à grande mídia, por suspeitar de sua tendenciosidade. Ora, do zero não nasce o um, pelo contrário, foi do um que se abstraiu o zero. Com isso, de forma supostamente sagaz, tal pessoa não se exporia à mentira, como explicaria, mas fato é que também, nesse estado de perfeita alienação e de opção pela ignorância, não se informaria minimamente de verdades que estão sendo divulgadas. Hoje, contudo, quando todas as coisas e opiniões têm o mesmo peso, é comum que o mau ceticismo impere na forma gabola de atitudes pífias como somente entreter-se vendo youtubes de bobagens ou zapeando canais a cabo exclusivamente voltados à diversão. Parece nem mais fazer sentido vermos alguma importância nas sutis diferenças entre a loucura e o razoável, pois toda afirmação atual é tingida com pigmentos emocionais. As pessoas estão pautando-se exclusivamente em seus velhos preconceitos e, quando querem maquiá-los, vão à internet para achar self-servicemente aquilo que lhe cai como uma luva para apoiar aquilo em que acreditam. A conclusão disso (não é preciso ser sábio para deduzir) será a imobilidade: não quero mudar, portanto não me convencerei. Evidências, para essas pessoas, não dizem absolutamente nada. Nem mesmo a Ingsoc teria tanta eficiência. Espanta-me que o entretenimento não tivesse sido usado como arma de guerra antes.

Na sede de ostentar cultura aceitam-se erros sérios, cuja delação parece ser apenas um caso de irritante implicância. No caderno Cotidiano da Folha de São Paulo, há mais de treze anos (mais especificamente em 27 de maio de 2005, na página C6) afirmou-se, sobre a origem da festa de Corpus Christi, que "em 1264, o papa Urbano 6º estabeleceu a comemoração para toda a Igreja Católica" mas isso não é verdade, pois Urbano VI nasceu quase cinquenta anos depois dessa data e o jornalista, que não sabia números romanos (e talvez não tivesse interesse em aprendê-los), confundiu Urbano VI com Urbano IV. Desconheço se a informação foi corrigida no "erramos" da edição seguinte ou mesmo se agora, transluciferada talvez em página da internet, foi modificada. Se não está, essa informação falsa já está quase virando verdade, porque logo terá duas décadas de existência. Como bebemos no cálice cristão, tendemos a perdoar a ignorância alheia, mas é particularmente irritante ver o pouco caso com a História. Por exemplo, na estação de metrô Alto do Ipiranga, em São Paulo, afirma-se que Santa Paulina era uma italiana nascida no Alto Adige, mais precisamente na cidade de Vigolo Valtaro, em 1865, sendo que essa região, nessa época, nem se denominava assim, mas Tirol, e não pertencia à Itália mas à Áustria (para mais detalhes veja: https://tiroleses.files.wordpress.com/2015/05/decreto-toponomastica-regionale-19231.jpg e também https://tiroleses.com.br/2015/08/a-longa-mao-do-fascismo). Conclui-se que se Hitler tivesse sido tão bem sucedido quanto Mussolini, talvez estaríamos dizendo que o papa João Paulo II, nascido dois anos após a independência da Polônia, era alemão. Que vexame é o anacronismo! E como ele é visto como um erro menor, aceita-se que impropriedades de informação irritam apenas pessoas cricris como eu ou o porta-voz da BALPA no episódio Déjà vu, do Monty Python!

Mas não é para menos. As pessoas de hoje não se espantam mais com a falsidade, como Winston Smith  durante os festejos da Semana do Ódio, ouvindo aquela personagem comparada por Orwell com Rumpelstiltskin, a qual informa a todos que o grande inimigo da Oceania é a Lestásia e não a Eurásia, como todos pensavam até então durante anos a fio, argumento que em uma semana será irrefutável com a destruição sistemática da história. A tabula rasa sempre foi um delírio orgástico do nosso raciocínio primata. Uma tese se segue de uma antítese com muito mais facilidade do que qualquer hegeliano poderia imaginar. Quem está preocupado com a verdade? O mau cético não está. Antes aceita qualquer coisa em seu lugar, desde que o mínimo lhe seja garantido, obviamente.


Permanentes teses e antíteses não constroem nada. Apenas são partes do mecanismo que embaralha as cartas e trapaceia o jogo, a fim de tomar o controle da situação e adquirir poder sobre o outro. Ninguém ignora isso, mas é sempre bom relembrar, para que a desconfiança seja seu escudo.

A regra básica para a vida e para a sobrevivência deveria ser a seguinte: se você gosta de algo e não sabe repô-lo caso desapareça, não o destrua. Isso vale tanto para micos leões dourados quanto para valores que sustentam seus pilares sociais ou para expressões familiares que nos dão a sensação de identidade e aconchego, ainda que sejam miragens. Mas para entender assim, é preciso não só conhecer a história, como Winston, mas também saber o que é o futuro. Mas o que é o futuro? Providência, como pensam os estoicos? Fatalidade, como nos ensinam os físicos? Acaso, como julgam os bons céticos? Não sou uma besta cientômana para imaginar que a verdade acerca do futuro tenha uma só face. Confio mais naquele que constrói a ciência do que naquele que a aplica.

Mesmo para o amor esse ensinamento parece adequado: aquele que está traumatizado com seus relacionamentos pretéritos tem o direito de chegar à triste conclusão de que todos os homens ou de que todas as mulheres são iguais. Mas se pensa assim de fato, por que não agir coerentemente, como o mau cético? Por que escolher tanto? Baseia-se no trauma? Mas se foi o trauma que lhe deu a sabedoria, nenhuma escolha faria sentido. O bom ceticismo é irônico e diria de forma fingidamente otimista que se todos os parceiros são igualmente ruins, é quase certo que escolheremos o pior de todos. Aparentemente, essa conclusão nos faz pensar que somos masoquistas quando acreditamos em milagres. Acreditar em príncipes e princesas não é só infantil, mas também um gesto de teimosia bem-humorada.

O homem-hiena vem de áreas periféricas, como se percebe por sua tremenda facilidade de escapar às situações adversas. Reconhece a ignorância daqueles que julga inferiores e, mesmo sendo em nada brilhante, sabe manipulá-los. Oportunista, sabe virar-se otimamente no caos em seu proveito, pois vem de situações sociais nas quais não lhe apraz somente uma batalha, mas a guerra contínua. Napoleão, por acaso, não foi exatamente assim, um homem-hiena? Quantos outros monstros da História ainda estão por nascer? E essa situação, por acaso, não é agora? Como já dizia a capa do livro de Duncan Watts, tudo é óbvio, desde que se conheça a resposta. Essa voz passiva é muito importante, dileto leitor: quando afirmo algo por meio de uma passivização, seria ingenuidade imaginar que o que eu faço é apenas focar o paciente, transformando-o em sujeito. Com ela também posso não dizer qual é o agente e isso se torna adequado sobretudo em três situações: (1) quando não sei quem é o autor da oração, isto é, quando sou ignorante, (2) quando sei quem é, mas não importa, e nesse caso sou indiferente tanto à informação quanto a quem me lê, (3) quando sei quem é mas não direi por segredo, por discrição, para gerar mistério ou por chantagem: nesse caso crio um poder que antes não tinha. O poder não segue as leis de Lavoisier. Uma mera voz passiva não é uma redundância inútil de expressão como poderia pensar algum ingênuo do inutilia truncat. Pelo contrário: confere miraculosamente poder àquele que a utiliza na sua enunciação.


O minoritário não critica o majoritário por causa de pressupostos distintos, mas sim para tomar-lhe o poder e fazer as coisas igualzinho ao criticado. Quase sempre só consegue fazer ainda pior, por não ter tradição de pensamento, apenas sobeja ambição. É muito ridículo ver alguém enchendo a boca para falar uma coisa óbvia com aquele tipo de ênfase típica que subestima o ouvinte. Esse pateta pensa que nunca o seu interlocutor tinha ouvido tal palavreado? Mas não o subestime: ele está querendo que você pesque ali, em seu pequeno repertório, algo que você reconhece em si e lhe faça sentido ao ouvi-lo. Se ouço um aspirante ao poder que quer minha cumplicidade dizer que "estamos no fundo do poço e, portanto, não dá para descer mais", indago sempre se frases idiotas como essa mereciam ser enunciadas, afinal, quem a pronuncia parece imaginar que nunca alguém a havia proferido antes. Ou cogito que, por causa da deficiente estruturação de nossas redes neurais do cérebro, essa infeliz vítima da sua biologia, por um lapso, esqueceu-se de que ele mesmo já me havia dito essa obviedade várias vezes e que sempre a ouvi saindo da sua boca e de sua alma. Nessa horas, irrita-me a ênfase inútil, a careta tão característica, seguida de indefectível deleite, tão típico de quem só diz boçalidades. Estarei sendo muito cruel com essa pessoa e não capto que se trata apenas de um código que me relembra a imprescindibilidade do bom convívio social entre humanos e a de desnecessidade de duelos eternos? Talvez você, leitor que acha este parágrafo ranzinza demais, pense assim. Se desconfio da ignorância alheia, ignoro, no entanto, a sua desconfiança.

terça-feira, 24 de julho de 2018

O MISTÉRIO DA SAÚVA AMARELA

Certo dia, meu vizinho, do alto de sua inteligência de homem mediano, talvez incitado pela cerveja do fim da tarde, elaborou uma teoria sobre a misteriosa secagem de meu malvaísco: com toda a certeza que só têm aqueles que não se dedicam ao estudo minucioso do tema em questão, afirmou de forma tão peremptória, que faria qualquer especialista em himenópteros corar, que a razão do óbito de minha planta, até então viçosa e brilhante, devia-se a uma espécie de formiga "do tipo saúva", amarelinha, que só sai à noite, acautelando-se antes que todos estivessem dormindo para realizar o seu malfeito de murchar uma planta específica e deixar os outros três malvaíscos intactos. "É batata!", arremataria Nélson Rodrigues.


Formigas misteriosas de hábito noturno que murcham plantas isoladas sem que o vegetal tenha direito de defesa e, mais estranho ainda, sem cortar uma folha, fazem parte do imaginário do medroso hominídeo que resolveu que o mundo era dele e decretou o que era daninho: no seu veredito quase tudo merece um quilo de BHC e cobra tem cabeça para receber enxadada. Assim rezam os ditames da jurisprudência antropocêntrica.

O mundo poderia não ser menos perigoso, mas, pelo menos, seria menos misterioso se gostássemos de observá-lo e de pensar sobre ele para além de nossas necessidades diárias. Mas quem tem tempo para isso? Parece ser preciso alterar, construir, limpar, passar o rastelo na geringonça caótica e embaraçada da vida para ter paz de espírito para resolver o quebra-cabeça do ser.

Ao mesmo tempo que é tão medroso quando vê um hexápode rastejando, esse mesmo homem paradoxalmente escala, cava, fuça, explode pedras e corta árvores em vez de ficar na sua poltrona. Como ficar tranquilo se a vinte quilômetros de minha casa há uma mata inutilizada, que não é pasto para minhas bestas, que é foco de doenças e de bichos estranhos que de uma hora para outra vão se avizinhar de mim? Pensa. Destruir! destruir! Eis o lema-mor! E nesse arrojo paradoxal de lançar-se ao perigo, singrando mares, metendo-se em cavernas, incendiando, parece que o medroso primata é o mais valente de todos. Uma ideia sempre o motiva, como dizia Harari, seja o progresso, seja o lucro, seja o bem-estar, seja algo ainda mais nobre. E nesse momento, esquece-se que não tem um casco de tatu para proteger-se, nem garras, nem caninos. Quando o pai diz ao filho: "vai lá e faz isso!", a criança não o fará, confiante no que o pai lhe assegura? Se esse pai está acima de todos, então, isso é mais evidente ainda. Em suma, o pensamento básico do arrojo do covarde mamífero humano é: "se Deus existe, por que respeitar normas DIN de segurança?"

De borra-botas, o homem se torna um portento de valentia. E dá-lhe clavada no bestunto da preguiça gigante e do mamute, arpoa a baleia, carrega o gigantesco atum para exibir para os outros hominídeos machos. Não se cansa de matar. Mas eis que é chegada a terceira fase: a do tédio.

Vencido o medo e agora certo de que é o ser vivo mais importante da natureza, apesar de ser um desequilíbrio ambulante, senta-se sobre as toneladas de comida que arrancou da mata ou do solo arado e, arrotando, olha para o céu e pergunta: e daí? O mundo do espanto morreu? E outros cavoucariam o âmago da matéria na curiosidade de cientistas e esses novos pequenos espantos serão comercializados. Sumiram as grandes surpresas? Nunca mais um tigre dente-de-sabre vai aparecer no meio da conversa noturna? Aparentemente sim. Com a luz elétrica cessaram-se os causos em torno da fogueira e o mundo do quase inacreditável deixou de fazer parte da rotina, a não ser quando sentamos para ver um filme. E os jovens, todos sobrevivendo, sob a proteção do papai desmatador e fuzilador de feras de quem herdará a sua fortaleza esterilizada não serão os primeiros a provar do modorrento tédio?


E como pôde tudo isso, se olhando uma planta secar ainda vê nela um afluxo de mau olhado ou formigas noturnas de uma espécie inclassificada, ou seja, como isso tudo aconteceu se o Homo sapiens é burro como um pedaço de feldspato? Um famosíssimo formador de opinião, cinco anos atrás, em seu programa de entrevistas, afirmou que há muitas semelhanças entre o tupi e o japonês. Pensei que falava das línguas e ouvi atento. Sua teoria (diferente da de meu vizinho, que para tornar-se adepto da qual requisitava apenas fé na sua simpatia) tinha provas inabaláveis segundo seu próprio juízo, scilicet, a semelhança física e o fato de ambas as línguas não terem L. Eis aí um método que faria Aristóteles enforcar-se: a inexistência de algo não pode ser prova da existência de tese alguma. Não ter L em japonês e em tupi não é prova alguma de que as línguas são aparentadas, da mesma forma, que o fato de uma pedra e uma lacraia não terem asas não é prova de que pedras e lacraias tenham um ancestral comum. Quanto à semelhança física, nem é preciso manifestar-se, pois seria o mesmo que dizer a semelhança de expressão linguística é diretamente proporcional à semelhança física de seus falantes, o que o leitor com o mínimo de siso de filósofo perceberá que é o mais completo absurdo, senão a expressão de dois gêmeos idênticos seria maior do que a de dois irmãos menos parecidos. Como pode alguém abastado, com a melhor formação educacional no estrangeiro, supostamente leitor voraz e com raciocínio aparentemente equilibrado deixar-se levar por argumentos tão raquíticos? Será apenas a necessidade de tagarelar a causa de desinteligência onipresente da humanidade?

Ou seriam os gênios as pessoas que fazem as maiores burrices de todos os tempos, tal como os chimpanzés que, munidos de um porrete, saem deitando abaixo tudo que encontram? Tudo tem ou pode ter limites, exceto a burrice. Não é a inteligência humana a coisa mais admirável do mundo, pelo contrário: é a quantidade de soluções que encontra para vencer a sua infinita ignorância, que não é maior nem menor do que a de qualquer outra espécie.

Dada a sua inquietação, o mais calado e covarde dos homens é um vulcão por dentro. Só tem a  sorte de morrer sábio quem foi uma besta, mas algumas bestas morrem bestas. E muito sábio morre besta. Ninguém, no entanto, nasce sábio e morre sábio. Há certo conforto na idealização da loucura, pois se assumo que sou louco, sou feliz, mas ninguém é louco convenientemente. E os sábios que se dizem loucos sem sê-lo são os que criam as ideias que milhões seguem, como se fossem suas, assim como alguém que criou a porcelana em território chinês conduziu ao DNA chinês o orgulho de serem os inventores da porcelana. Um autor é uma pessoa que tateia o mundo das ideias e tenta tornar visual seu vislumbre na mente de outra pessoa, tal como fizeram Maupassant, Platão ou Cronenberg. Quem não constrói ideias, compra ideias. Três anos atrás, o papa autorizou padres a perdoarem (e não excomungarem) as mulheres que se arrependem de ter feito aborto. Há quem gostou e há quem não gostou disso, mas uma ideia foi substituída por outra: só isso. 

O fato de ser um criador de ideias não faz o ser humano ser um bicho melhor que outro. Quem saberá dizer o que se passa nas faíscas cerebrais de outros sistemas nervosos não humanos? Em filogenia, é comum aparecerem caracteres semelhantes (apomorfias) em diferentes linhagens, em diferentes tempos (homoplasias). Se são devidas a uma mesma base genética são homoplasias paralelas. Se são devidas a bases genéticas diferentes, são homoplasias por convergência. Outras espécies mantêm esse caráter em estado plesiomórfico, mas desenvolvem autapomorfias novas. Isso tudo origina a heterobatmia, que faz com que os filos se diferenciem. Tudo obra do acaso. 

Se nosso cérebro cria as nossas ideias, não somos nós que devemos ser louvados, mas os desvãos da história das espécies que conduziram a isso. Além disso, ideias hoje em dia estão fora de moda, pois vem de uma inquietação, ou seja, do ato de perguntar-se diante do mistério, por exemplo, "por que diacho meu malvaísco secou do nada?". Alguma resposta há, se não nos consolamos com a profunda ignorância e com o insondável mistério da vida. Mas a grande questão hoje é: perguntar hoje ainda faz sentido? Habemus wikipediam. Precisamos ainda de um cérebro?



Mas voltando às semelhanças e diferenças das espécies. Haverá no mundo não-humano algo semelhante ao boitatá criado pelo meu vizinho quando falou das saúvas amarelas secadoras noturnas? Veja bem: uma andorinha é uma ave diurna que utiliza muito sua visão, já o morcego é um mamífero noturno que se vale da audição: seu voo tem funções iguais, têm alta velocidade, não se chocam e comem insetos no voo. São diferentes ou iguais? Essas perguntas, pelo jeito, ficarão sem resposta.

Como todos sabem, a ordem alfabética surgiu graças aos números, pois alfa era o número um, beta era o dois e assim por diante. Os romanos a adotaram por tradição, pois vinha de imemoriais tempos protocanaanitas, sem mesmo terem necessidade de associar letras a números como faziam fenícios e gregos, pois já tinha os seus algarismos romanos, de tempos ainda mais antigos, possivelmente da época de antigos pastores pré-históricos, como prova a sua dispersão pelo mundo, como mostra Georges Ifrah. Sem a ordem alfabética, não teríamos dicionários. Mas hoje é possível consultar um dicionário sem  conhecê-la: basta teclar sua dúvida no Google e eis que vários dicionários online surgem. Veja como é fácil ser profeta: vaticino que o espaço mental reservado à ordem alfabética vai desaparecer em breve. E será preenchido por algo muito mais inútil. Pois essa tem sido desde sempre a função do homem: dar um jeito de emburrecer-se. A escrita nasceu da preguiça de memorizar, como já lamentava Sócrates, e a consulta ao Pai dos Burros, atrelada à ordem alfabética, nasceu da preguiça de procurar algo sem fim em listas imensa. A preguiça criou a inteligência humana e a ciência sempre esteve a serviço da preguiça.

Como sabemos, o calorão do sol aniquilará grande parte da vida um dia desses, mas ela renascerá das bactérias resistentes e dos seres abissais indiferentes à variação térmica. Haverá decerto algum ser vivo que curtirá o calorzinho e seres mais cascudos ocuparão a terra novamente. Para que cérebro perto de uma capacidade radiativa aos raios UVA e UVB? As explicações físicas explicam coerentemente  as coisas, por meio de silogismos, as quais, numa explicação religiosa requeria apenas fé: seja qual for a explicação, desejamos a demência e visamos ao lazer e à preguiça, porquanto uma mente não tem apenas raciocínios: também tem desejos e sentimentos, como afirma António Damasio. Parece blasfemo dizer que Deus tenha uma mente cheia de desejos e sentimentos, mas também parece blasfemo dizer que Deus não tenha uma mente. Estaremos afirmando a mesma coisa dizendo que a demência é aquilo que mais desejamos e que o homem quer equiparar-se a Deus na sua babélica empreitada de destruidor master?

Mas enquanto tentamos convencê-lo, leitor, não paramos de fazer relações: veja bem, somos seres homeotérmicos e, portanto, por definição, diferentes dos animais pecilotérmicos, ou seja, nossa temperatura interna é constante, na faixa dos 36,5 graus centígrados. Um ano tem 365 dias, isto é, dez vezes mais que a nossa temperatura interna. Há relação entre a translação da terra e a homeotermia de nossos corpos? Será coincidência? A mente não para de matutar.

Mais do que da mera curiosidade, o conhecimento humano parece ter nascido da cobiça e sua finalidade sempre foi a guerra contra aquilo que imagina impedi-lo de ser feliz. Mas a felicidade, aquela coisa sujeita ao efeito borboleta que desequilibra tudo, é procurada com um crucifixo na mão para espantar eventuais vampiros que atravessem nosso caminho. Se a cobiça é inerente ao homem e conduz à guerra, por outro lado, a physis não conduziu (basta abrir os olhos e ver) somente à vida, mas também conduziu a vida. A vida sem uma mente ordenadora, expulsa paulatinamente pelos conceitos da Física, parece ser paradoxalmente muito mais inteligente: a vida é mais bela no seu sem-sentido de nascer, comer, reproduzir-se e morrer do que a presença de um intelecto ou de uma causa final. 


Isso parece fácil, mas não é. Mascarar o que somos, negando o óbvio ou definindo-nos como diferente do que obviamente somos é nossa especialidade: do perfil do nosso Facebook não consta a nossa foto, mas a de nosso cão, a do Dalai Lama, a do Neymar ou a de algum herói Marvel. Teimamos em usar eufemismos como "país em desenvolvimento" para evitar o antigo "país subdesenvolvido", sem evitar com sucesso alguma interpretação possível de que um desenvolvimento galopante pode ser tanto para cima quanto para baixo. Nossa sina é auto-enganarmo-nos. Se há relação entre a translação da Terra e a homeotermia de nossos corpos vertebrados, talvez algum psicólogo descubra no futuro que a má-fé humana já se iniciara na criação do mundo e a ele está perfeitamente adaptada, sim, veja bem: 75% do universo é composto de hidrogênio e 23% de hélio, no entanto o planeta em que pomos nossos pés é uma mistura de outros elementos da tabela periódica: oxigênio, silício, alumínio, ferro, cálcio, sódio, potássio, magnésio etc.

Se o mais profundo mistério é quem somos, talvez isso também seja a coisa mais óbvia de todas.

terça-feira, 8 de maio de 2018

QUER MESMO MINHA OPINIÃO SOBRE ISSO TUDO?

Avizinhando-se meu meio século de existência, no ano passado, quando da visita de minha irmã à minha casa na selva paulistana, surgiu o tema da aposentadoria. Vinte anos atrás eu ingressara no meu atual emprego, mas, como se sabia nos pressupostos da conversa, eu trabalho desde os dezessete anos e passei por muitos lugares. Foi nesse contexto informal que surgiu o tema da incorporação desse tempo todo para a contagem de minha aposentadoria. Como sempre fui desleixadamente pouco pragmático, ouvi atento de minha mana como deveria ser esse procedimento justíssimo, afinal, se trabalho há mais de trinta anos, por que não informar as instâncias responsáveis pela minha aposentadoria? Meu cunhado, um ser pragmático, como todos que não perdem tempo com questões filosóficas como eu, fez as contas e ficou espantado (com razão) por que eu ainda não tinha feito isso. Isso foi em meados de julho de 2017. Mal saíram as visitas, fui correndo ao computador agendar e, na confiança dos relatos, tinha certeza de que tudo seria muito simples: "você chega lá, pede a contagem, eles puxam um papel do computador e pronto: só não perca esse documento pois você deve levá-lo ao seu RH e, no mês seguinte, já incorpora o tempo e está tudo certo". Foi com essas palavras na mente que agendei. Havia vaga apenas para dois meses depois. "Normal", pensei. Falavam tanto de reforma da previdência, que não estranhei o fato de não haver agendamento para a semana seguinte.
Chega enfim o dia. No papel do agendamento dizia-se que eu deveria chegar com meia hora de antecedência. Surpresa: o agendamento não queria dizer nada. Era preciso tirar outra senha e esperar. O número não era muito alto, então lá estava eu, disposto a tudo, sem reclamar. Nova surpresa: os números que apareciam no telão não estavam na ordem e verifiquei que o comportamento da numeração era um tanto aleatório. Confirmei com um segurança: de fato, era aleatório. Previsão para atendimento? Nenhuma. Foram duas horas de espera. Curiosamente no papelzinho amarelo dizia-se que eu esperaria apenas dezessete minutos.

Fui até a mesa com meu "bom dia" à funcionária, que parecia um tanto distraída, pois, salvo melhor juízo, não me ouviu. Contei-lhe a razão da minha ida e ela, sempre olhando de lado, com cara de muito cansada, irritada ou desgostosa da vida, apenas esticou a mão, sem me dizer nada. Interpretei seu gesto como uma solicitação de que devia dar-lhe os documentos exigidos. A partir daí, foi um grampear e um descontentar-se com as espécies de comprovantes oferecidos, numa iminência crescente de negativa de recebimento, que me deixou apreensivo. Ela, porém, levantou-se, pegou uma pastinha branca e puxou um papel que acabara de imprimir, o qual folheei em silêncio enquanto ela me dava as costas. Fez isso tudo sem dirigir-me nem a palavra nem o olhar, rodava a cadeira e abria gavetas à busca de carimbos, sem responder nenhuma pergunta que eu fazia, a essa altura já gaguejante e constrangido. No tal papel impresso, eu vi, com admiração, que constavam muitos lugares, praticamente todos, sem exceção, onde eu fiz algum tipo de atividade remunerada e aí tive a certeza, muito mais do que eu poderia lembrar-me, de que já trabalhei pacas. Até então, não saberia dizer se ela era muda, cega ou surda, pois pareceu-me o tempo todo que eu não estava ali na frente dela. Concluí benevolentemente que, depois de anos de atendimento ao público, é tristemente natural que se desenvolvam algumas defesas, mesmo quando não era o caso, pois eu parecia, naquele momento, completamente inofensivo. Por fim grunhiu algo que entendi como constatação da falta de um documento que, se bem entendi, talvez seria posteriormnte solicitado pelo correio, no momento certo, sei lá. Como não tinha a menor intenção de repetir o que havia dito, julguei que tudo estava encerrado. Estiquei-lhe a mão com cordialidade para despedir-me e ela completou, dessa vez com voz bem clara: "a carteira fica". Apatetado e sem outra opção, tirei a carteira do bolso e deixei lá o original de um documento do qual eu não tinha cópias, no qual se comprovavam todos os meus trabalhos pregressos em escolas, muitas das quais sequer existem mais hoje. Uma delas, por exemplo, foi demolida e hoje é uma farmácia. Não foi sem uma dor no coração que vi a caderneta azul ser enfiada num envelope pardo, grampeada, anexada ao formulário branco e jogada num canto. "É só isso?". A resposta foi o desviar do rosto já entediado no início do expediente e o apertar de um botão chamando o próximo. Mas, para meu espanto, ela ainda, nesse momento, me consolou:  "Está demorando, viu?". Arrisquei ainda perguntar quanto tempo, mas ficou claro, pelo seu levantar de ombros que não fazia a menor ideia. 

O Brasil deve ser um país maravilhoso mesmo: não consigo imaginar nada mais kafkianamente formal que fóruns, cartórios ou institutos de seguro social como esses, mas o informalismo nas tratativas, bem ao sabor edulcorado dos nossos autoencômios, se mescla em tudo que depende de outrem. Por exemplo, nesse processo desde o momento do agendamento até o atendimento e não para por aí. A primeira imagem que me vem à cabeça é o de soldados nazistas também agindo assim, de forma despiciente, com cozinheiros, donas de casa, pianistas, professores e escritores, dirigindo-lhes apenas suas ordens para desnudar-se. Para uma Polliana, tratar igualmente mal tanto uma pobre diarista mancando por sofrer de gota e que só tem comprovação dos cinquenta anos de trabalho informal por meio de cartas de patroa, quanto um professor livre-docente de uma consagrada universidade nacional, talvez seja algo de que devemos nos gabar em nossa sociedade livre e democrática. Mas há um serzinho irritante dentro de mim, que odeia essa Polliana, e diz: "que nada, é falta de educação mesmo!". E esse serzinho às vezes tem vontade de dizer verdades a ponto de só parar quando fosse arrastado de lá por dois seguranças, cada um em um braço. Ainda bem que esse serzinho é covarde o suficiente para sabe ler aquele quadro em que reza o artigo 331 do Código Penal "desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela: pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa". 

Não só Polliana, mas também Pangloss: "bom, como estamos no melhor dos mundos, deve ser assim mesmo e não vou me preocupar". Mas, não teve jeito. Eu me preocupei porque me pareceu tudo muito anômalo. Na semana seguinte, após narrar o ocorrido à minha irmã, que estranhou a retenção do documento, fui ao site e vi algo ainda mais estranho. Depois de decifrar um infernal novelo emaranhado de instruções crípticas, consegui a informação que queria: "certidão de tempo de contribuição não concedida". A primeira coisa que me ocorreu foi a careta da bruaca e seu grunhido: faltou algum documento. Não havia como interpretar de outro modo. Mas havia. 


Fui lá novamente e passei por todas as mesmas agruras. Dessa vez fui atendido por uma funcionária gentil e menos lacônica, embora com a mesma pressa, justificada pela fila infernalmente longa de pessoas atrás de mim. A explicação foi simples: não é que o pedido foi analisado e não me foi concedido. Não, veja bem. Faltavam três palavrinhas óbvias e desambiguizadoras essenciais ali: o artigo "a", o advérbio "ainda" e o verbo "foi". Interprete-se qualquer um a expressão "certidão de tempo de contribuição não concedida" como "A certidão de tempo de contribuição AINDA não FOI concedida", donde se conclui, por conseguinte, que o será, uma vez que não seria negada, caso contrário, a bruaca nem o teria aceitado. Ou seja, eu havia tido sorte e era questão de ter paciência e esperar. Humilhado, eu, que leio Kant e entendo, por ter sido vencido por uma ambiguidade que esta segunda funcionária dizia não haver, saí com o rabo entre as pernas e resolvi resignar-me e fazer o que ela disse: esperar, pois ela ainda me esclarecera que nem precisaria ir ao site e checar a toda hora se a certidão estaria pronta. De maneira eficaz eu seria informado pelo correio. Bom, se é assim, fazer o quê? Não tenho por que duvidar... esperemos!

Pois bem, passaram-se a Semana da Pátria, o Natal, Ano Novo, o Carnaval e a Páscoa, mesmo assim, nenhuma carta chegava do correio. Mas eu estava ciente de que iria demorar. Um semestre depois recebia informações do meu RH sobre a data da minha possível aposentadoria. Impossível não se lembrar do fato que, com a tal certidão, que tardava e não chegava nunca, essa data poderia ser antecipada. Mais que isso: surgiu uma angústia ao imaginar o prédio em chamas, ao me lembrar do processo ser jogado sobre uma pilha e muitas teorias conspirativas começaram a me cercar. Temia o extravio do documento. Todos diziam que era "só ir lá e pegar o negócio" ou caprichavam no espanto: "nossa, comigo foi rapidinho: saiu na hora". Foi quando comentei com uma amiga advogada, que não disfarçou em mostrar-se  chocada e usou termos como "retenção indevida" e, se não me engano, "ilegal". Foi o bastante para ficar com azia de tanto nervosismo e fazer nova visita.
Mas as regras mudaram: atendimento sem agendamento agora só de manhã. O guardinha barrava a entrada e um senhor, furioso, dava azo à verve de seu serzinho irritante particular e, quando prestei atenção no que falava, verifiquei tratar-se do mesmíssimo caso, com uma diferença: o documento dele estava retido ainda há mais tempo que o meu. No dia seguinte, estava eu lá bem cedo de novo e fui atendido pela mesma segunda funcionária, que não se lembrou de mim, obviamente. Foi aí que ela puxou a ficha do andamento de meu processo no computador e lá apenas constava que em 25 de setembro de 2017 a papelada tinha "subido" para análise e só: nada havia sido feito ainda naquele dia 10 de abril de 2018. Pegou meu telefone que anotou gentilmente rasgando um pedaço de papel e enfiando num bolo de outros papéis. Assegurou-me que falaria com uma superior e que ela entraria em contato comigo por telefone. Perguntei se não poderia retirar meu documento para levá-lo a outra unidade e ela lamentou, dizendo que, sim, eu podia, mas apenas mediante ofício solicitando o desarquivamento do processo etc. e apertou a campainha. Do meu lado já estava o próximo a ser atendido. Despedi-me. Recebi um "até logo". Muito bom. Informações claras.


E foi o que fiz: passadas algumas semanas muito atribuladas, no dia de hoje passei por toda a agrura novamente e desci os círculos todinhos novamente: o Limbo, o Vale dos Ventos, o Lago da Lama, o Rio Estige, o Vale do Flegetonte e o Lago Cocite. Acordei às 5h30 da manhã pensando que pegaria uma boa colocação na fila, pois ainda não estava acreditando na total aleatoridade das chamadas. Típico de uma mente teimosa. Cheguei lá às 7h05; o posto já estava aberto e a fila era ainda mais monstruosa do que das outras vezes, porque terminava na estação do metrô, serpeava pelas calçadas e adentrava a Caina, a Antenora, a Ptolomeia.... Andava lenta e uma senhora, não encontrando receptividade num casal de orientais atrás dela, começou a narrar a essa distância intercalada, com riqueza de detalhes, o seu dia-a-dia, ou seja, as coisas normais de uma metrópole: vivia naquilo que hoje se chama "comunidade", mataram o vizinho dela ontem, o corpo estava lá no chão, perto do ponto de ônibus, aliás, ela mesma já teve revólver na boca, mas olhou bem valente pro bandido sem medo nenhum, garantia, o bandido, que ela conhece e desafia, apertou três vezes o gatilho, mas a arma não disparou, afinal de contas, ela não tem medo nunca, pois quem ora para o Senhor não tem medo de nada, amém etc etc essas coisas de sempre, que a gente hoje entediantemente toda hora na fila da padaria e parece bem apropriadas para começar o dia... Consegui minha senha uma hora depois de ouvir a longa narrativa de minha companheira de fila e, já disposto a esperar mais duas horas, comecei a conversar, de pé, obviamente com um outro senhorzinho, que agendara pelo computador (como eu fizera da primeira vez) e que tinha uma numeração bem mais baixa que a minha por ter madrugado na fila para pegar o primeiro horário e não precisar faltar do emprego. Parênteses: a minha senha era de número 171, "número ridiculamente trágico", me cochichava o serzinho insuportável da minha mente. Nem preciso falar que fui injustamente atendido antes desse senhor. que se queixava de dor nas pernas. Sorry, estamos na selva. Adentrei a Esfera da Judeca, rezando para não ver a bruaca. 

Atendeu-me um moço, que entendeu minha solicitação, pediu o tal ofício e como nele eu tinha mencionado tudo o que estou te dizendo aqui nesta postagem (obviamente sem a riqueza de julgamentos, mas com uma profusão de números de protocolos e datas), após lê-lo por alto, esse novo funcionário informou-me que não podia ser daquele jeito. Eu deveria redigi-lo novamente, mais objetivo. Consolou-me que não teria de voltar, estendeu-me a esferográfica e uma folha de papel para que eu o fizesse de próprio punho. Enquanto isso, foi buscar o processo e minha CTPS. Eu apenas queria sair de lá, mas, diferentemente dos anteriores, esse funcionário desabafou enquanto desgrampeava as folhas. Estava lá há 11 anos e a muvuca do atendimento sempre foi assim infernal, desmentindo todos os relatos de meus amigos acerca da facilidade de obtenção do documento. Sem pedir desculpas, mas com um resquício de empatia, afinal de contas, via que que eu era apenas uma pessoa comum com vontade de garantir seus direitos prometidos pela sociedade, vaticinou realisticamente que nos demais postos da capital eu enfrentaria a mesma divina comédia, arrazoou resignadamente a falta de funcionários, constatou que havia os que não faziam as funções direito, ponderou que havia uns que eram realmente difíceis, enfim, confessou que se estivesse na minha pele faria a mesma coisa. Agradeci. Finalmente consegui apertar uma mão e despedir-se de um ser humano, enquanto acotovelava-me suavemente entre uma multidão de velhinhos com bengala em pé, prontos para embarcar na nave de Caronte, gente hipnotizada pelo quadro de números sorteados, rezando para que o trespasse fosse rápido e indolor. 


Saí de lá, tal como Orfeu sem Eurídice, mas pior até do que ele, porque não infringi nenhuma regra que justificasse minha punição. Zanzei pelas ruas do centro da cidade, como que recém-liberto de uma prisão, como que redivivo depois de desenganado por um médico. Uma única coisa povoava meus pensamentos e não era meu serzinho irritante: era a vontade de sentar-me, no mês de meu aniversário de cinquenta anos, e desabafar neste blog isso tudo, não para vingar-me da sociedade de que faço parte, mas para comprovar a mais perfeita inutilidade de ser eu perante o outro. Voltei de lá com minha carteira da mesma forma que fui com ela para lá há quase um ano. Nada aconteceu nesse interregno a não ser descaso e, na melhor das hipóteses, ineficiência. Ainda ecoavam as palavras do último  funcionário na minha "se o cara der o azar de pegar alguém que não manda a coisa para a frente...". Sempre me espantei com frases incompletas. Há algo de ameaçador nelas. Parecem os olhos de uma onça surgindo na escuridão de um bambuzal. 

Leitor, sabes pelos outros relatos meus que me custou muito admitir-me como ateu. Não foi sem dor. Ter assumido isso em nada se equipara com a gabolice dos neoateus que acham que têm espíritos com o nome de "lógica" ou "bom-senso" a seu favor, do seu lado da peleja ilíada. Sim, foi terrível assumir meu ateísmo. Mas parece que foi ainda mais demorado assumir meu lado apolítico. Seria feio em meu meio universitário de Humanidades - onde se transpõem abismos segurando-se nos cipós de Hegel e onde, assoviando, se tateia a obscuridade das matas do relativismo - falar com todas as letras que não acredita mais em governos, sem ser rotulado injustamente como anarquista ou algo que não sou. Não. A esperança de que não há um ser transcendental com corpo humano e cabeça de elefante num panteão de deuses ou mesmo com uma força colossal justificadora de causas finais inexistentes parece ser mais fácil de superar do que acreditar que não há ninguém nunca em lugar algum por nós mesmos e que somos devorados por parasitas que alardeiam bravatas e gastam meu dinheiro em pinga, cocaína ou orgias representando quer uma sigla partidária que se diz pró-trabalhador (mas que mantém o status quo do opressor de forma igual e tão eficiente quanto o próprio opressor), quer idealizando uma tirania detentora de um chinelo para estalar na bunda dos malvados, mas que na verdade anuncia (apenas para os atentos e pouco ingênuos) um horrível rio de sangue.


Enquanto o pior não acontece, somos crianças soltas numa selva ou algo como que bestas: somos uma vara faminta e grunhidora ao lado do cocho com lavagem, somos uma manada pisando resignadamente com nosso passo de proboscídeo, somos uma cáfila com pouca corcova, somos serpentes que se contorcem como skatistas, desviando-se da choldra, enfim, nada mais somos que uma caravana cansada de atravessar um deserto, rumo a coisa alguma. Atualmente e, não só em países de Terceiro Mundo, um projeto é algo que só existe na esfera da individualidade e somente dentro dela faz algum sentido. Como dizia o pessimista: a luz no fim do túnel é o trem que vem ao nosso encontro.