O mistério do prosaico revelado!

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O óbvio finalmente revelado!
Se não sei quem sou eu, duvido de quem diga que saiba de si mesmo e mais ainda de quem saiba algo de mim. 
Neste mundo cheio de rótulos, penso que tenho algum talento para ser frasco.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O CRÍTICO E SEU COBERTORZINHO

Ultimamente, li dois textos interessantes que reforçaram minha tese aqui já várias vezes apresentada sobre a insipiência humana. O primeiro foi o livro do zoólogo suíço Ariel Adrean Roth Origins: linking Science and the Scripture, de 1998, e o segundo, o de Leo Huberman Man's wordly goods, de 1936. Gostei de ambos, no entanto, no primeiro caso, tive uma surpresa positiva; no segundo, negativa. Roth (sabia-o eu desde o início) é um defensor ferrenho do criacionismo e pensava encontrar lá argumentos xinfrins como os de tantos outros livros sobre o assunto. Pelo contrário, o conhecimento enciclopédico que demonstrou revela, com clareza, muitos problemas com o Evolucionismo (digo isso sem verificar, ponto a ponto, o quanto de tendenciosidade há em cada um de seus argumentos, entenda-se), de tal modo que poderia abalar as convicções de um neo-ateu, não fosse o problema que apresentarei a seguir. Huberman, por outro lado, resumiu com suavidade e elegância, em poucas páginas, toda a história da riqueza do homem, do feudalismo ao capitalismo, tirando dúvidas minhas há muito encalacradas para, de repente, mostrar-se um partidário ferrenho e cego do marxismo. O que motivou a leitura do primeiro texto foi o estímulo de um parente, a quem eu dera um outro livro (o incrível The case for God, de Karen Armstrong). Já a motivação da leitura do segundo livro foi uma professora de história da sexta série, que o louvou tanto a ponto de eu comprá-lo assim que ingressei na faculdade: o livro jazia na minha estante décadas a fio esperando ser lido. Aprendi muito com ambos, mas não posso deixar de externar o que neles há de comum, ou seja, aquilo que me causou espécie, a ponto de dedicar-lhe este texto.

Não me entusiasma o marxismo, nem acredito no criacionismo, mas tanto faz qual seja a minha opinião: não foi por isso que me espantei com ambos os livros. A causa do meu assombro foi o fato de eu estar perante duas pessoas inequivocamente muito cultas e, talvez por preconceito meu, sempre achar que pessoas cultas não fossem suscetíveis à ferocidade do fanatismo e à facilidade da obtusidade. Não há quem perdoe, porém, uma pessoa admirável como Santo Agostinho quando lê seus deliciosos livros porque sentirá nele (a menos que seja fanática e obtusa) o poder da contradição nas entrelinhas, que deseja solucionar com uma postura única e soluciona, optando edipianamente pela memória emocionante e emocional de sua mãe. Sente-se nele a dor da contradição que faz dizer o que diz. Por isso não deveria ter-me feito pasmar o que dizem Roth ou Huberman. Mas mesmo depois da experiência agostiniana, eles me deixaram surpreso. Talvez porque sejam tremendamente claros tanto ao expor seus fortes argumentos contra o que querem atacar quanto ao louvar uma tese adotada com pernas frágeis como os elefantes de La tentación de San Antonio, de Salvador Dalí. O contraste fantástico em sua argumentação afasta-os da contradição e aproxima-os de um disparate goyesco. E como isso é possível? Depois de muito pensar, cheguei à seguinte conclusão: para se conseguir tal façanha é preciso suspender todo o senso crítico exercitado na Entfremdung da apresentação das contraprovas. Só assim se defende uma tese disparatada.


Há falhas no evolucionismo? Claro. Quem diz o contrário recorre a insuportáveis ad hoc. Não discuto se a evolução é um fato ou uma teoria, mas o evolucionismo é sem dúvida uma teoria e, como toda teoria, há buracos, que necessitam ser tapados por variáveis, elementos introduzidos ex machina, hipóteses que requerem prova e contraprova popperiana, sugestões hipnóticas e até mesmo fé nos pressupostos. Toda teoria científica é assim e o evolucionismo não se safa, pois está longe de ser algo dedutivo como se vê no platonismo dos físicos, astrônomos e químicos. O evolucionismo fala sobre o tempo e, portanto, é heraclitianamente histórico como a geologia, a linguística e todas as chamadas ciências sociais, embora a história da evolução não tenha nada de cultural (se não chamo de cultura pavonina os flertes das pavoas que determinam as longas caudas dos pavões, obviamente). Desse modo, detectar brechas, inconsistências ou mesmo falhas de raciocínio no evolucionismo não o torna acientífico, de modo algum. E mesmo que se provasse com algum argumento absurdo que não há ciência alguma no evolucionismo, a opção que Roth nos dá é meramente o livro de Gênesis interpretado à luz de uma única doutrina de uma única religião. Não poderia alguém igualmente tresloucado, seguindo seu mesmíssimo raciocínio, concluir, por a mais b, que certa é a cosmogonia hindu ou xavante? Ou seja, escancarando a nudez dos pressupostos da ciência, o autor parece estar inflexivelmente cego para ver os pressupostos de sua religião predileta e de entendê-los como relativos perante a imensidão de expressões religiosas da Humanidade. Desmistificando a ciência como uma doutrina que não consegue seguir seus princípios seriamente, estaria Roth tratando-a como um tipo de religião? Com isso não posso concordar. A ciência - por mais errada que esteja nas suas bases ocidentais, por mais que tivesse merecido a maluquice dos jacobinos, por mais que se revele errada por dados falsos ou explicações ad hoc demais, por mais que Kuhn mostre que não é tão isenta e que seu sucesso se vincula a paradigmas nada científicos - continua sendo a ciência. Há um esforço da ciência em sempre ser ciência, caso contrário, ela sucumbirá nas trevas e terá falido. Se isso ocorrer, todos sabemos, viveremos com seus refugos no mundo de Mad Max, nem mais, nem menos. Ou seja, a ciência não pode ser algo eternamente parecido com a ciência, porque ou a ciência é ciência ou não é coisa alguma. Mesmo que haja setores falindo ou falidos por desgaste do modelo setecentista, não acredito que a ciência se implodirá por seu próprio discurso, antes serão os cientistas culpados de sua falência e não ela mesma. 

Apesar disso, Roth superou minhas expectativas preconceituosas: é um bom livro, para quem tem algum interesse epistemológico, mas não converte ninguém ao criacionismo, se esse era seu intento, da mesma forma que The God delusion de Richard Dawkins não transforma ninguém em ateu. Antes, esses dois livros têm a capacidade de transformar crentes não-praticantes e agnósticos em fanáticos defensores de uma auctoritas (respectivamente Roth e Dawkins) sem ter capacidade real de avaliá-los. Mas, tudo bem, isso está valendo no louco século XXI: o non sequitur parece estar definitivamente solto, como  nos infindáveis certames atuais que transformaram qualquer questão num Fla-Flu. Será o Satanás mencionado em Apocalipse 20:7? Ou será só a nosso tão batalhado direito a ter, finalmente, preguiça absoluta de pensar, já que a internet nos dá a papinha do conhecimento mastigadinha? O cérebro já diminuiu bastante desde o tempo do homem de Neanderthal; não custa diminuir mais um pouquinho.

Como eu dissera, Roth me surpreendeu positivamente. Já li coisa muito pior sobre esse debate criacionismo versus evolucionismo. Mas admiro-me como as convicções pessoais conseguem cegar a inteligência de alguém e transformar um Kant em um Tertuliano. É quase inacreditável a diferença de qualidade entre os capítulos em que expõe as tripas das falhas alheias e os em que defende uma alternativa. Não é possível fazer isso sem deixar o apolíneo senso crítico do lado de fora da cachola por um momento, para dar vazão ao orador catequético dionisíaco. Parece quase um caso de dupla personalidade. Fiquei interessado em ler outras coisas de Roth, mas, tal como ele, permaneço com minhas convicções, porque conheço bem o tipo de argumentação hellenwhitiana que está por trás da sua proposta pseudoalternativa e, sorry, não caio nessa.


O mesmo ocorre com Huberman. A deliciosa leitura, fluida, coerente e simplificada, espera um bote da serpente assim que o leitor termina a primeira parte e, reabertas as cortinas, vemos um fauno com um discurso eivado de entusiasmo pela solução socialista que, hoje sabemos, não soluciona nada. É até engraçada a defesa dessa solução, quando nos lembramos da dinastia Castro, dos stálins e das pol-potices dos kim-jong-ils da história. Não esperava (ou então sou muito ingênuo) que, daquele arrazoado que mostrava tão bem as ciladas da economia capitalista, viesse uma solução tão limpidamente fácil e descarada. O capítulo XXI, com seu tom altamente encomiástico à URSS, destoa tanto do resto do livro, que parece ser escrito por outrem. Consequentemente, perdi a vontade de ler outro livro de Huberman, pois preferiria ler um defensor mais inteligente do marxismo para entender o porquê de tanta animosidade contra os céticos da tese de que a implosão do capitalismo conduzirá necessariamente à revolução do proletariado. Sempre duvidei que um egípcio conseguisse prever que, após os milhares de anos de suas dinastias, apareceria um povo influente como o grego ou que, na ágora, alguém preveria que a após tantos anos de sofismas, surgisse algo como um Deus trino e uno ao mesmo tempo; ou mesmo que um Laplace pudesse prever a irracionalidade da filosofia oitocentista... Se é para pensarmos nas consequências epistemológicas de um pretenso progresso do espírito humano, à la Hegel ou à la Comte, fico mais com o plano divino e com a trapalhada humana, tal como propusera Vico.



O leitor benevolente que não concorda com autores como Roth e Huberman (ou com pelo menos um deles) explicará seu comportamento de maneira freudiana, ou seja, como humanos com algum tipo de fragilidade de longa data; tolerantemente entenderá que um texto é um texto é um texto é um texto. A falta real de solução para as encruzilhadas teóricas do evolucionismo e para a iminente implosão do capitalismo ou conduz a uma solução nova, algo dificílimo, senão quase impossível ou então ao ceticismo, outra via que não me agrada quando se toma o termo "cético" ao pé da letra. Uma terceira opção é imaginar a solução nova como já existente, mas sem marketing, ainda na esteira do raciocínio de Kuhn. A genialidade, a organização, a competência, a disciplina, o estoicismo e o planejamento não são do povo russo, como nos quer fazer engolir Huberman (sem Hellman's), mas do próprio Huberman: o povo russo que imagina é uma projeção (Freud de novo!) do quão brilhante é e aparentemente não percebe. Nunca imaginei que houvesse povo mais consciencioso e mais altruísta: parece birutice literária de um Thomas Morus (e, sorry, eu acredito mais em George Orwell). Huberman e Roth são notáveis, se seu fim era simplesmente convencer o leitor de que seu cobertorzinho preferido, que arrastam pela casa, é o mais cheiroso do mundo. Na melodia dos dizeres de Huberman, a burocracia bolchevique e os chefes improvisados da Gosplan parecem mais lindos que uma sonata de Bach. Mas, este olho é irmão deste. Não caio nessa, como já disse.

Leitor, por favor, se tu estiveres perante relatos e mais relatos pró ou contra uma tese, com insinuações e afirmações de calúnia contra sua antítese, as quais de alguma maneira te deem algum comichão mental, vê se o que está sendo dito não afronta a tua memória e o teu bom-senso: não sucumbas à tentação de deixar o teu senso crítico amarradinho do lado de fora, amordaçado para não ganir e acordar a vizinhança, enquanto ficas lá agarrado ao teu cobertorzinho, antes sente-lhe o fedor e não digas que isso é subjetivo.

domingo, 14 de janeiro de 2018

ATENÇÃO: ESTE BLOG NÃO CONTÉM GLÚTEN

Ao evocarmos a razão humana, surge um bom momento para distinguirmos racionalidade de razoabilidade. Aparentemente há uma intersecção entre os dois conceitos, mas nem sempre o que os une é claro, seja nos arrazoados acadêmicos, seja nos extra-acadêmicos. Como saber que tipo de razão se evoca como exclusiva da espécie humana (ou, menos pretensiosamente, de uma ideologia ocidental que se confunde com a suposta sapiência hominídea)?

Falar de algo racional nos remete aos séculos XVII e XVIII, assassinados pela Revolução Francesa e pelos tresloucados fichteanos, hegelianos, comtianos, marxistas, nietzscheanos, schoppenhauerianos, spencerianos, freudianos, heideggerianos, junguianos, gramscianos, lacanianos et alii. O que se diz racional parece ter algo de Aristóteles, de Newton ou um híbrido de ambos, isto é, quando esses cultos representantes dos hominídeos também não se põem a falar de coisas intangíveis. O modelo de linguagem do racional é a lógica clássica. Foi a usurpação dessa racionalidade pelo bonapartismo que criou o mostrengo da burocracia e em nome de uma inatingível razão vestem os magistrados suas togas. A verdade, segundo a mente embevecida pela racionalidade, traduziria o que supomos real, pelo julgamento dos nossos sentidos por algo, de fato real, latente, sentado e sorridente, no mundo das ideias. É em nome dessa verdade que clama o racional.

Mas falar do razoável é algo completamente diferente. Para a razoabilidade, dane-se Platão. O razoável compara-se a uma gambiarra funcional. É uma exceção necessária, obviamente com o apoio de uma boa parte dos interlocutores. O razoável não constitui religiões, filosofias ou ciências, pois não responde à pergunta O que é?, mas à questão Como resolvo isso?. Se, por um lado, pelo racional clamam os sistemas, os quais nos armam verbal e belicamente contra nossos inimigos irracionais, por outro, é pelo razoável que toda teoria é abandonada, pensando-se no agora e no amanhã. Razoável, para ser sucinto, é toda solução prática.

Mas estaremos preparados para o razoável compartilhado, uma vez que o meme do racional infestou o planeta desde que as grandes navegações europeias proclamaram haver um só modo de resolver as coisas para qualquer tipo de problema? Hoje distinguir entre o racional e o irracional parece tão óbvio que poderíamos ver nessa certeza algo de fanatismo e, de fato, que é o fanatismo senão uma pressuposição inconsciente? Concordarás comigo que não há nada mais óbvio hoje do que o conselho de que devemos ser racionais. Talvez fosse melhor se pensássemos que deveríamos ser razoáveis.


A racionalidade requer palavras muito especiais, claramente definidas, sem julgamento de valor a não ser o valor da verdade (e a sua negação, a falsidade). Requer regras muito claras e uma progressão de raciocínio que impede voltarmos atrás, a não ser pelas próprias regras. Por exemplo: os governantes numa democracia são eleitos pela maioria, mediante um ritual específico, para representar-nos, durante um determinado número de anos  e exercer suas funções num sistema em que leis, decretos, regras entre os poderes estão claramente definidos em uma constituição, cuja alteração requer novamente aprovação da maioria representativa, seguindo um ritual previamente estabelecido pela constituição anterior. Se o governante é uma grande besta, se a maioria é corrompida, se leis que baguncem as regras são votadas e se o ritual é completamente invertido mediante esses mesmíssimos processos, tanto faz: essas gambiarras que descaracterizam a máquina são tão bem engendradas que equivalem à situação de duas pessoas que iniciam uma partida de xadrez e terminam com um mão de straight flush. Nesse sentido, algo racional, modificado lentamente em nome da razoabilidade, se converte numa barafunda entontecedora.

Outro exemplo: uma avenida importante da cidade é fechada para o lazer dos cidadãos todo final de semana. Mas num determinado final de semana venta e chove o dia todo e a chuvarada é entrecortada por granizos intermitentes, gerando um trânsito caótico. Como o fechamento da avenida foi decidido por lei, após movimentos populares e discursos de seus representantes, e essa lei foi taquigrafada, digitada, apreciada em diversas instâncias, votada, promulgada e divulgada em órgãos oficiais, comunicada aos órgãos responsáveis, que contrataram servidores e/ou acionaram seus recursos e por fim concretizada, todo o percurso burocrático não suporta, em nome da racionalidade, o seu não-cumprimento por causa de um ad hoc tão concreto quanto uns granizinhos, a menos (talvez) em caso de súbita emergência de uma calamidade pública. A rua, fechada para o lazer mesmo num dia em que lazer algum pode ser proporcionado, obstruirá o trânsito, segundo o silogismo indefectível da burocracia, pois não poderá prejudicar o direito de uma ou duas pessoas andarem sob uma chuva insuportavelmente torrencial, as quais processarão o Estado alegando não se importarem de alguns granizos furarem seu guarda-chuva e acertarem-lhe a cachimônia. Como podes ver, a racionalidade produz coisas muito estranhas. Só um defensor extremado da racionalidade achará perfeitamente ponderado que até mesmo em água mineral haja a indicação "não contém glúten" ou que embalagens de lenços de papel umedecido advirtam "não ingerir": possíveis ingestoras são crianças, que não sabem ler; se souberem e, mesmo assim, fizerem essa maluquice, ou são muito desobedientes ou não sabiam que "ingerir" queria dizer "comer". Outra possível casta de ingestores de lenços umedecidos são loucos, que, mesmo conhecendo a palavra, não darão bola para a recomendação, porque, convenhamos, não é fácil acompanhar o raciocínio de um louco. Em suma, não é prevendo o razoável que se constrói o racional e sua jurisprudência, ó crente dos pressupostos setecentistas!


Se valesse a razoabilidade, ninguém ficaria esperando ficar verde um semáforo que não está num cruzamento, se não houver pedestres. Mas é o que se vê: o sinal fecha, fica vermelho, os carros param diante de faixas de segurança que não estão em cruzamentos e nas quais não há pedestres. Esses mesmos adestrados behavioristicamente pela multa são capazes de atropelar ou pelo menos dar um susto em alguém que atravesse a faixa de segurança só porque não há semáforos e, segundo sua razão razoável, na luta carne versus lata, o mais forte sairá com o melhor bônus - e dane-se a empatia com o pedestre, o amor ao próximo e outras coisas razoáveis. Ou seja, quem segue a razão racional pode ser o mesmo que não segue a razão razoável e vice versa.

Não é possível criar leis a partir do bom-senso, daí o sucesso inegável da burocracia estúpida, produto de uma mente acéfala, a qual ganha mundo afora e já está traduzida até na língua dos tasaday. Quem leva a sério o que digo entenderá que o bom-senso depende da comunicação, outro mito do mundo platônico, pois estamos por demais imersos na incomunicabilidade, no medo, na indiferença, na desconfiança do outro e na confiança daquilo que nos é apresentado como racional, misto terrível de paradoxos que nos torna verdadeiramente irresponsáveis. Não me lembro de ter visto uma síntese melhor desse problema do que no filme The square, de Ruben Östlund.


A racionalidade nos diz, por exemplo, que há esquimós sobre a terra e que eles têm vários nomes para neve. A confiança nessa informação nos deixa irresponsáveis e, batendo no peito como gorilas, racionais, destemidos e confiantes, embora incomunicáveis. Essa confiança chega ao cúmulo de representarmos Chilly Willy morando num iglu, embora pinguins não existam no Polo Norte, único local em que existem iglus stricto sensu. A racionalidade, alertada de sua burrice, percebe que vacilou, mas isso é pouco. Iglus são feitos por esquimós, certo? Mas... existem mesmo esquimós? Não estou perguntando se os habitantes do Ártico existem, nem estou dando a entender que hoje não existam mais pessoas vivendo em iglus, pois os esquimós os abandonaram para morar em casas, com caleifação e outras as comodidades do mundo moderno. Quando pergunto se há mesmo esquimós, não estou insinuando que os esquimós não são mais esquimós porque não sabem mais orientar-se na neve ou distinguir a que afunda da que é firme, a perene da recentemente depositada... não! Não é disso que estou falando. O leitor, atordoado com a minha pergunta, talvez a interprete de um segundo modo bizarro, imaginando que eu pergunte sobre a inexistência dos esquimós, por saber que esses nativos do Ártico já não gostam de ser chamados assim e alguém, sempre atento ao politicamente correto, substituirá a anatemática palavra "esquimó" por "inuíte", sem saber direito a bobagem que está fazendo, como explicarei a seguir. Eu te digo, leitor: com medo de generalizar, generalizas também. Antes de solucionar o enigma de minha pergunta, analisemo-la: existem mesmo esquimós? Não é uma pergunta que requer as minudências das sutilezas acima. É uma pergunta direta, do tipo "sim ou não". Pois bem, eu estou mais propenso a dizer "não", embora não te culpe por pensares o contrário. Antes lamento, pois a tua resposta afirmativa se deve à nefanda racionalidade.

Explico-me, leitor, pois vejo-te boquiaberto. A entidade que chamas de "esquimó" ou "inuíte" é uma abstração muito estranha e comigo estaria concorde Duns Scotus. Tu, porém, defenderás, com raciocínio escolástico, argumentando com um ad hoc, por exemplo, que Chilly Willy, na verdade, esteve, desde sempre, visitando seu amigo, o urso polar Maxie, e portanto está no Polo Norte e não no Polo Sul, como o incauto telespectador não imaginara, e foi acima do Equador que aprendeu a fazer iglus, donde se conclui que esteja mais precisamente no Ártico Central do Canadá ou na região groenlandesa de Thule, onde se fazem ou faziam iglus tais como conhecemos pelos meios de comunicação: não com peles e ossos de baleia, mas minimalistamente com blocos de gelo. Data venia, insisto na questão: o mesmo exegeta das loucuras dos estúdios Walter Lantz defenderá ainda a existência de esquimós? Vejamos.

Distingam-se os esquimós dos aleutas. Olhando um mapa, o leitor reconhecerá as Ilhas Aleutas entre a Ásia e a América, onde moram os aleutas ou aleútes ou, como eles mesmos querem ser chamados, os unangax. Do ponto de vista linguístico, a língua aleuta é bem distinta de como os esquimós propriamente ditos se exprimem. Mesmo assim, a fala aleuta difere bastante, dependendo da tribo a que pertence: há os sasignan (ou sasxinan ou sasxinas) em Attu, Agattu e Semichi; há também os kasakam unangangis em Copper Island. Esses grupos diferem bastante do naahmigus das ilhas Delarof e Andreanof e do niigugis falados em Kanaga, Adak, Atka, Amlia e Seguam. Por outro lado, esses dois grupos ainda diferem do akuugun (Four Mountains), do qawalangin (Fox Islands), do qigiigun (Krenitzin), do qagaan tayagungin (Sanak Islands), do taxtamam tunuu (Belkofski) e do qagiigun (Shumagin). Somando tudo isso, não temos nem 500 falantes. O monolinguismo, em nome da razão, é totalmente excepcional, lembremos. Imagina, leitor, quantos outros grupos não existiram e quanta expressão linguística foi engolida pela bruma dos tempos, pela sevícia dos ditos civilizados e pelo orgulho/medo etnocêntrico.


Mas dirá alguém que aleuta não é esquimó, embora a expressão de todos eles dê azo à construção de uma família linguística comum (chamada esquimó-aleuta, nome de uma pré-histórica língua, ainda que com tons eternamente provisórios, cheia de asteriscos). A expressão esquimó estaria dividida em dois grupos: os yupik e os inuit. Vê, leitor, a ironia das soluções racionais: trocar o nome "esquimó" por "inuíte" não resolve nada e, ainda por cima, pode ofender algum yupik. Os yupik, são na verdade, um grupo, com 11.000 falantes de línguas como o yugtun, o chevak cup'ik, o nunivak cup'ik, o koniag alutiiq, o chugach alutiiq, o yuit e o sivuqaghmiistun. Os inuit propriamente ditos, formam outro grupo, ainda mais heterogêneo, que somam 98.000 falantes de alguma língua esquimó-aleuta que não é nem aleuta nem yupik. No norte do Alasca vivem os inupiaq que falam ou qawiaraq ou inupiatun (se incluirmos também entre esses últimos os falantes de uumarmiutun, isto é, os falantes de aklavik e os inuvik). No oeste do Canadá há os inuvialuktun, que falam siglitun, inuinnaqtun (ou kangiriyuarmiutun, se o leitor achar mais fácil de pronunciar) e os natsilingmiutut. Por fim, no leste do Canadá, junto com os inuinnaqtun, há os falantes de nunatsiavummiututut, de nunavimmiutit, de qikiqtaaluk uannangani, de aivilimmiutut e de kivallirmiutut. Por fim o nome "groenlandês" é dado à língua oficialmente reconhecida pela Dinamarca, isto é, o kalaallisut (só ela com 50000 falantes), mas também pode referir-se ao tunumiisut e ao inuktun. Portanto, não há esquimó algum. Há povos distintos que nossa pequena capacidade de apreciar a diversidade chama de esquimó ou de inuíte. E para quem acha isso demais, saiba que não detalhamos as expressões consideradas "dialetos", isto é, as formas linguísticas mais tímidas, engolidas pela expressão majoritária. Um falante de inuktun tem de se comunicar não só com sua família: quando sai do seu círculo familiar, tem de usar o kalaallisut,o dinamarquês ou o inglês e, quando sai do círculo polar, terá de aprender outras línguas.

Nossa mente não suporta tanta coisa. O raciocínio quer simplificação, daí a lógica, que não é esqueleto da linguagem, como queria Port Royal, mas uma linguagem platônica. Nunca se encontrará um centro da lógica na mente humana: melhor procurá-la na área dos costumes adquiridos, como o de pôr sal na manga verde. Daí a racionalidade com sua promessa canaânica de que nos salvará da loucura nada mais é que uma lanterna pra andarmos na escuridão ou um facão para desbastar matas muito densas e fazermos uma picada. O previsível é apenas uma regra de que se vale nossa mente atrapalhada e nosso remédio atordoado, como nos mostram ilusionistas como Apollo Robins e Eric Leclerc na série Brain Games. Sofremos por termos nascido primatas com cérebros de hominídeos. Pagamos por isso uma pena muito dura. E cumprimo-la não numa colônia penal, mas numa colônia mental. Como alento, qualquer fuga dessa racionalidade parece extremamente razoável, embora tenha seus riscos e consequências.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

SE MELHORAR, ESTRAGA

Final do ano é um ótimo momento para idealizar o futuro. Por essa razão, limpei minha mesa de escritório, entulhada de papéis desde março, e comprei nova agenda, na qual já escrevi tudo que pretendo fazer em 2018; mais da metade dos itens, porém, é cópia de 2015, 2016, 2017...

A insatisfação é aquilo que nos move a agir, senão, extáticos como girassóis, só seguiríamos a luz, sem nos desenraizar e sair pelo mundo - esse perigoso mundo - em busca de aventuras. O tédio fez o homem sair da sua condição de igualdade com a bicharada para, sem sossego, revirar o doce do mundo, tanto que o planeta está de ponta-cabeça, sem que tenhamos a menor esperança de que sossegaremos o facho antes do apocalipse.


Então, se o bem e o mal nascem da nossa insatisfação inata (a ponto de "quero" ser uma das nossas primeiras palavras, independente da língua que, ainda nascituros, dominaremos), como distingui-los? Tudo tem a ver com a nossa vontade, essa coisa ranheta que coça mais do que micuim. Podemos pensar que o mal nasce de nossos complexos? Se estamos sempre querendo (e às vezes queremos o impossível, o que dá azo às nossas invejas e ódios irracionais), concluiremos que o mal nasce de uma espécie de reconhecimento de que somos menos do que aquilo ou aqueles que admiramos? São nossos modelos a causa de nossos complexos e, portanto, das nossas atitudes más e, por fim, de todo o Mal que há na Terra? Não deveria ser o contrário? Sim, se fôssemos extáticos como girassóis sem pernas.

A verdade é que posso ser a pessoa mais feliz do país mais justo do planeta mais perfeito do Universo e, mesmo assim, serei infeliz e verei injustiça à minha volta. O melhor dos mundos não é aqui, ó Leibniz, mas está na cabeça de Platão, aquela que pensas emular. A teodiceia é uma panaceia cujo efeito psicotrópico é não nos fazer enxergar o óbvio. Essa panaceia, vinda de alguma glândula mesencefálica qualquer, talvez seja tradutível em termos abstratos como "satisfação". Há em nós algum déficit da produção glandular de satisfação, definitivamente. I can´t get no satisfaction.


Mas, volta e meia, essa satisfação, filha do tédio, abre uma cauda de pavão, talvez para exibir-se à maioria insatisfeita, pois, obviamente, uma pessoa satisfeita é um insatisfeito adiado. A expressão mais adequada para esse momento ínfimo de nossas vidas, chamado satisfação, é "se melhorar, estraga". Quanta sabedoria há nela, a qual, ao mesmo tempo, afirma nada ser bom, exceto agora, e prevê que logo não será mais. E, contrários à qualquer lógica que dite "algo que se acrescenta ao bom torna-o ainda melhor", os que proferirem proverbial e profeticamente a verdade dessa expressão concordarão involuntariamente com os gramáticos quando dizem que "mais melhor" é uma das piores construções possíveis.

Como assim uma coisa boa não poderia melhorar, senão estragaria? Será que quem diz isso nos incita à resignação, à falta de empenho e à aventura? Medroso, após levar tantas chapuletadas da vida, resolveu sentar-se na sua alcatifa, em posição de lótus, e resignar-se, buscando com toda ansiedade do mundo a falta de desejo. Quanto estresse!

Enfim, a quem se diz satisfeito tacha-se como conservador, porque quer deixar tudo igualzinho, para ter paz ao vender suas bugigangas. Quem tem interesse na conservação defende a harmonia entre os opostos, senão seus lucros não aumentarão. O insatisfeito, no auge de seus hormônios juvenis, quer queimar tudo, quer mudar o status quo, quer questionar, quer aprimorar: almeja atormentar os ceguetas, isto é, aqueles que não veem tudo como uma grandissíssima droga. Verdade seja dita: todos querem algo. Mesmo quem não quer mudar nada, dizendo-se satisfeito e achando que nada melhorará, pois tudo já está pra lá de bom, tem uma enorme ansiedade fóbica ao imaginar o chão abrindo-se sob seus pés e vê-se devorado por aquilo que não consegue controlar. 

Entra em cena voando alguma autoridade, de capa às costas, triscando no ar: uns evocaram Epicuro, outros evocaram Engels. Tanto faz quem é esse super-herói. Uns querem fechar os olhos, outros não conseguem adormecer e enlouquecem. Se epicuristas são adeptos do "se melhorar, estraga", um engeliano apostará no aforismo gêmeo e antagônico "pior que está, não fica". Calma, gente, que são autoridades senão atalhos que preguiçosamente tomamos para chegar a um veredito com o qual podemos dizer com toda cara de pau: "dane-se a realidade"?

A realidade é essa coisa confusa, agitada, em eterno fluxo heraclitiano, algo que não dá, simplesmente não dá para entender. Tem gente que a simplifica para deitar em berço esplêndido. Tem gente que só quer misturar o angu para ver se a transforma em algo minimamente uniforme. Todo mundo, porém, quer um rosto para o futuro. Um amanhã sem uma visagem é algo inadmissível. Mesmo quem busca a transcendência não suporta que o mundo à sua volta seja pura imanência sucumbente numa voragem.


E não falo só do mundo com seus efeitos estufa, poluições, permafrosts derretendocataclismas da diversidade do tipo "Folhelo Burgess" e tudo o mais que já conhecemos desde as extinções do Cambriano-Ordoviciano, do Ordoviciano-Siluriano, do Permiano-Triássica. Falo de gente. 

Era uma vez pessoas medidas pela sua virtude e coragem; passado muito tempo, na Idade Média, valia-se da alma para essa medição. Já no tempo dos românticos, o mensurável era a personalidade. Nós hoje, seres desse monstrengo da globalização, medimos os outros pelo "profile". Num perfil, como numa caricatura, não não importa o eu ou suas atitudes: detalhe inútil saber quem está lá! Hoje basta a intersecção das essências individuais. Já não há almas, só perfis. Ora, isso é revoltantemente redutor. Como não querer melhorar antes que os perfis completem seu trajeto e tornem-se silhuetas? Como dizer que não haverá estrago se, conscientes disso, não tentarmos melhorar nossa auto-estima, voltanto a ser seres completos, ex-perfis, de preferência bons, belos e justos. O ex-perfil é muito mais do que um Rousseau desejou para a humanidade com sua pretendida reeducação estapafúrdia, isto é, com a sublimação destrutiva do compositor fracassado que jaz nas suas entrelinhas. Vemo-nos de espada em riste, de novo, contra quem expressa o que está em epígrafe. Vemo-nos de novo hominídeos, saindo do berço africano para dominar os demais continentes, não com pequenos batalhões e armas poderosas, mas com batalhões enormes e com ideias na cabeça. Esses hominídeos foram os primeiros beatniks.

Mas o mais difícil de aparecer, de fato, é uma ideia nova, que mude tudo para melhor. E quando aparece, ninguém dá bola: o autor da ideia é desconhecido e acaba diluído, usurpado por um bonitão que faz uso da pena (melhor dizendo: do teclado), do poder ou do megafone, o qual a deformará monstruosamente. Ideias novas, aliás, atingem nosso planeta com a mesma frequência de asteroides. Nihil novi sub sole.

Assim sendo, melhorar é quase impossível; piorar, por outro lado, é facílimo, o que me faz concluir que, se melhorássemos, não estragaríamos nada. O paradoxo da expressão é o seu sucesso. Deixemo-la, portanto, em paz. Ela é bela por ser sintética. Dissecá-la numa análise cuidadosa faz-nos, contudo, ver a sua real beleza, escondida na mente do seu anônimo autor e na dos anônimos que burilaram a sua elocução... e a alteraram.

Feliz 2018!

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

PROPOSTA PARA SALVAR O MUNDO


Gosto de fumar um cigarro de palha debaixo de minha goiabeira e pensar em soluções para o mundo. Outro dia fiquei assim até escurecer e vi, na lâmpada de um poste, milhares de insetos: pequenos besouros, siriris, mariposas, debatendo-se, hipnotizados pela luz, cena tão prosaica que em nada acrescentaria à minha filosofia e à minha política se já sobre ela nesgas de pensamento não me houvessem cutucado.


A visão banal desse manufato-poste, imitação ridícula e quimérica do biofato-sol e do biofato-árvore, deu-me a luz necessária para achar a solução para salvar o planeta. Ora vos apresento, leitores. De graça.


Salvaremos o planeta se um dia os governos mundiais estiverem de acordo com o seguinte: proíbe-se a eletricidade das 19:00 às 5:00. Pronto. Simples assim. Essa suposta bênção, que se consubstanciou por Thomas Alva Edson na forma de lâmpadas, é a culpada de tudo.

Culpada não só de os meus queridos insetos se estatelarem e se carbonizarem buscando a luz tal como nós buscamos a paz ou a felicidade. Nossa mente insatisfeita de hominídeo só se preocuparia com o mal da luz elétrica se, hipnotizados, marchássemos inconscientes em direção a ela num suicídio involuntário tal como é o triste fim da vida desses pequenos artrópodes alados. Interromper a luz elétrica não faria só esse bem. Na verdade, atenuaria, pois insetos continuariam voando para lanternas movidas a pilhas, para fogueiras e para lampiões: não ficaríamos, com certeza, num escuro absoluto após a proibição. Decerto, como somos hominídeos, e, portanto, adoráveis e monstruosos, concederíamos que hospitais ainda tivessem as lâmpadas para bebês prematuros, assim como deveriam mantê-las acesas as granjas para a tortura das galinhas que nos alimentam. Tudo isso é de menos. Se podemos concordar que há algo de necessário na eletricidade para a manutenção de nosso status quo de reis do planeta, há dez mil vezes mais falta de necessidade dela à noite. 

Deixai de lado minha piedade para com os insetos, para que não me acuseis de pró-artrópode e portanto parcialíssimo. O que vos apresento, leitores, tem sim justeza e equilíbrio de raciocínio, senão vejamos.

Nós também estamos sendo atraídos, não por bulbos incandescentes, mas para telas, de computadores e smartphones. Nós estamos destilando o pior do nosso eu e isso não tem mais volta. Não quero propor nenhum tipo de proibição utópica contra isso. Não sou louco e sei das necessidades de destruição que se embrenham no nosso DNA. Mas pergunto se essa atração viciante precisa ser de fato algo que ocorra por vinte e quatro horas. O decreto universal do escuro obrigaria os malucos a comprar reatores e baterias potentes, cujo preço subiria estratosfericamente. Em algum momento futuro, passada a novidade da nova condição humana, mesmo os viciados nas telinhas veriam que não valeria a pena serem tão ansiosos e carregarem seus aparelhos durante o dia para usá-los no breu da noite primordial, nas saudosas trevas da origem das eras. Longas e maravilhosas trevas, que duraram milênios até o finzinho do século XIX. Como essa claridade eterna é recente!

Argumentareis que consequência imediata da falta de eletricidade à noite seria o aumento de incêndios nas cidades. Lampiões cairiam no chão, fogueiras descuidadas inflamariam tapumes, vigas, casas, quarteirões, bairros, cidades inteiras. Enfim, a impossibilidade da revogação da lei nos obrigaria a voltar a ser cautelosos. Menos ansiosos e mais cautelosos... vede, leitores, como já aparecem as vantagens, mesmo diante de uma face pintada como horrenda dessa incogitável lei que vos hipotetizo? 

E não param por aí as vantagens: a maioria se recolheria cedo, dormindo junto com o pôr do sol. Afagados pela sonolência do escuro, seríamos dominados pelos pensamentos incertos, pelo vaguear, pela mioclonia, nossas pupilas alternadamente se contrairiam e se dilatariam, anunciando a atividade onírica, recuperando nossa atividade física perdida no desgaste das opiniões exacerbadas que caracterizam o mundo pós-Facebook. Voltaríamos aos paradoxos dos sonhos, ao estado dissociativo natural que não requer droga alguma. Regressaríamos ao comedimento, ao estar de bem com o mundo, ao estar pronto para sua violência natural no despertar. Só dormindo sabemos diferenciar o banal do importante. Sem ele, não somos bichos, porque bichos dormem. Somos monstros, ávidos e sedentos por algo que queremos mais do que nossa própria vida e não sabemos o que é. Deixaremos de destruir o planeta se formos obrigados a não fazer nada e dormir.



Obviamente, há os contestadores. Os que pensarão que a lei é uma agressão à individualidade. A esses românticos, aconselho: matai-vos nas vossas esbórnias, tomai as vossas doses cavalares de absinto, sede coerentes com vossos spleens. Duvido que essa romanticalhada seja a maioria do ser que povoou o planeta. Se é, a maior culpada foi a luz, elétrica ou não, criada para quando o sol já se havia posto. Boêmios, bandidos e assassinos serão sempre minoria num mundo em que metade do dia são trevas absolutas. Quem se arriscará a sair no escuro pelas ruas com uma lanterna em semelhantes condições?

Sem a luz,  não haverá esse tantão de festas que alardeais sacar-vos do mundo, mas tampouco haverá telejornais que envenenam vosso sangue pré-coalhado à noite após a vossa estressante azáfama diária. Os YouTubes continuarão a destruir a nossa mente em nome da desejada onisciência, mas será só de dia. Sem programações inconclusivas na hora em que o sono REM deveria estar à toda, o hominídeo deixará de ser o idiota da contemporaneidade. Quem sabe redigirá uma nova Ilíada? Não há quem tenha capacidade de fazê-lo nos últimos séculos, tamanha a involução da nossa mente (que a Lei de Dollo me perdoe por dizer tal despautério).

Mas não só aos dorminhocos farei meu louvor. Decerto, o lusco-fusco tem seu valor como estímulo da mente. Mas essa beleza só se aprecia no limiar embriagado da melatonina. Afinal, não é uma passagens mais belas dos textos filosóficos aquela em que Niccolò di Bernardo dei Machiavelli narra numa carta a Francesco Vettori sua rotineira reverência à leitura, feita à noite, sob a luz de vela? Entrando no seu escritório, na virada do século XVI, sem o maquiavelismo característico que lhe incute o ícone-mãozinha-para-baixo das debiloides e engajadíssimas redes sociais, o fiorentino confessa que se despe de suas roupas suadas cotidianas e de suas botas sujas de lama, preparando-se para encontrar seus mortos amados, usando suas melhores roupas, de corte e de cerimônia. Decentemente trajado, é acolhido pela bondade dos homens do passado, que o alimentam com o único alimento que convém a um Homo dito sapiens, a única razão de ter uma vida individual e exclusiva: o conhecimento do que já se foi. A audácia, porém, de penetrar na alcova dos sábios é retribuída com tamanha humanidade que o filósofo não sente vergonha de dirigir-lhes a palavra. Esse momento de transcendência anula todo aborrecimento e desgosto a tal ponto de até a morte deixar de incomodar. A convivência quotidiana com o passado à meia-luz, portanto, no momento onirocrítico em que a vigília se transfunde em torpor, é o que mais se aproxima à entrada do Paraíso. Quanto disso se perdeu? Nosso panteão está vazio desde que a luz espantou o mistério. 


O torpor doce afastará os fantasmas. Descobriremos que não é na penumbra que vivem os lêmures e as assombrações. Mas na claridade eterna. O inferno deve ser assim. E o mundo moderno, por causa da eletricidade, é um preâmbulo da geena. Mil vezes o tormento goyesco em vez da claridade que tudo ilumina! O sono da razão produz monstros. De fato, não há razão sem sono.

Não só mariposas deixarão de se matar! Os corações demasiadamente hominídeos e sem piedade por esses vermes alados também devem refletir no que falo: imaginai, ó avaros, como a diminuição diária do consumo de energia encherá vossos bolsos. Será melhor do que o satânico consórcio já havido entre liberalismo e capitalismo! Com todos os homens relaxados, exceto os tarados incuráveis, haverá menos tensão de um contra o outro e não precisareis esconder-vos dentro de um batiscafo em fossas marítimas nem partir para outro planeta. Que capitalista e que liberalista ama a guerra exceto quem fabrica armas ou quem vende os despojos? Diminuído o número de maníacos frankensteinizados pelo Silicon Valley, há esperança, sim, na lei do apagão universal, em recuperar o lado verdadeiramente animal do homem, aquele que vale a pena, pois o lado hominídeo, esse, convenhamos, nos leva rapidamente para uma voragem sem fundo.

Meus caros, pensai bem: sem essa luz elétrica horrenda, veremos de novo as estrelas ora ofuscadas. Não há animal mais triste que o vaga-lume e os peixes abissais com lâmpadas acopladas no próprio corpo. Mesmo abençoados por sermos desprovido de luciferina, criamos holofotes para que só vejamos meio palmo diante de nós. Mas as trevas prometem-nos mais. Ressurgirá o infinito do céu e, com ele, a dimensão de que somos nada perante o universo. Esquecemo-nos disso. Cremos que não há mais luminares celestes e a lua hoje se perde no meio dos letreiros e outdoors iluminados. Que se apague tudo diariamente por dez horas! Há quem nunca tenha visto uma estrela cadente na vida. Reputo essa vida tão miserável quanto a de uma galinha enclausurada numa granja, subjugada na maktúbica condição desgalinácea de máquina de ovos.

E se, nessas condições, poder-se-ão ver melhor a lua e as estrelas, veremos também o sol comme il faut e valorizaremos cada minuto de sua luz. Talvez até tiremos a cara da tela também por causa disso. Por que não apostar nessa ficha? Se a vida é uma partida de poker, não temos o que perder. Nosso id já não precisará ser alimentado, concluiremos, pois não quereremos mais nos destruir com essa gana crescente do que inscientemente nos carece. Nosso id nunca fora antes tão obeso como o é hoje e, por isso, sabíamos diferenciar claramente o que é o mal. A luz elétrica fez que Ahura Mazda e Angra Mainyu se tornassem seres indistinguíveis.

A ininterrupta atividade das metrópoles, hoje mencionada de maneira orgulhosa, será vista como uma espécie de pesadelo no futuro, tão logo vejamos que a lei do escuro é de fato irrevogável por ser mais necessária à vida do que oxigênio. Voltaremos a enxergar melhor o rosto dos outros e saberemos de novo ler suas mentes. A sensação de falsa onipotência diminuirá. Nada como a escuridão para infundir o mistério em nossa alma. Se falta o mistério, bem sabeis, falta tudo ao ser que se diz humano. Não somos nem jamais seremos deuses, por mais que a retórica da eletricidade nos tenha conduzido a crê-lo.

Por que tanta claridade? Por que temos de enxergar tudo? Se fosse assim, deveríamos ter nascido morcegos, que, aliás, entendem melhor do mundo do que nós, por serem extremamente míopes.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

SABE DE NADA, ONISCIENTE!

Há muito tempo eu penso na questão da onisciência. Não é algo tão fácil quanto explicar a onipotência e a onipresença. 

Há quem imagine que, na história humana, juntaram-se os atributos poderosos de todos os seres na forma de uma potência ilimitada na atuação de um Ser. Esse argumento parece razoável para explicar a onipotência: o Senhor das Guerras teve de ser aquele que dispusesse de forma ilimitada o potencial destrutivo dos hominídeos. A onipotência é um desejo exclusivamente humano.

A onipresença também é algo derivado de uma limitação, isto é, algo que está ligado com a consciência do limite de não poder estar em toda parte ao mesmo tempo. Assim sendo, lida-se com a onipresença quando se tem a capacidade de assumir empaticamente o ponto de vista do outro, algo que, não é só humano, mas também está visivelmente na mente de mamíferos carnívoros e aves de rapina. 

Dito de outro modo, só o Homo sapiens quis ser onipotente, mas há muito tempo na Terra os bichos almejam a onipresença, quer para atacar, quer para fugir de quem ataca. 

E a onisciência? Esta, penso eu, é ainda mais primitiva, compartilhada até mesmo com animais unicelulares, desde que não sejam sésseis como corais, anêmonas, esponjas do mar e cracas adultas. Uma planária sabe que levou um choque do cientista e, como não gostou dele, consegue prever um choque futuro mediante a apresentação de um mesmo estímulo. Dito de outro modo, há algo ali em sua memória além do mero condicionamento, em alerta para evitar a dor vivenciada. Sou tentado a acreditar que o que há na memória das planárias é uma pretensão à onisciência, igualzinha à nossa.


Qual a necessidade para a vida de desejar a onisciência? O ser que se julga onisciente se autoilude. Esse candidato a onisciente, aparentemente, pensa que sabe tudo e arrisca-se andando pelo mundo em vez de ficar paradinho, como planta ou anêmona. Mas saber tudo é obviamente tão impossível quanto ter todo o poder para si ou estar em toda parte.

Ser onisciente é algo como a fórmula de Laplace, é como acompanhar os desvarios de Pascal. A onisciência é aquilo que foi deixado de lado por irracionais mais espertos, que apostaram numa onipresençazinha a cada emboscada. Para começarmos a imaginar o que vem a ser a onisciência de fato, seria preciso entender o que é uma onividência total e atemporal: isso é mais fácil do que imaginar a onissensciência de quem sente todos os cheiros presentes, pretéritos e futuros do universo ou ouve todos os sons atuais, já produzidos e que se produzirão pela eternidade adentro ou tem todas as sensações táteis de tudo ao mesmo tempo numa espécie de oniexperiência infinita. Isso tudo, ao mesmo tempo! O onisciente conheceria as profundezas do núcleo atômico rumo aos contornos do universo, conhecendo tudo desde a pespectiva de um ácaro, de um besouro, de um rato, de uma águia, de um ser humano ou até mesmo de um Galactus, ou daquele extraterrestre de Men in black que quer a galáxia que está na coleira de um gato, ou, pior, de um ser superior que tudo sabe porque tudo sente não sei com que sentidos: haja sistema nervoso para esse ser!
 
Mas tua mulher saiu triste e voltou toda sorridente e nem isto tu sabes explicar. Sai de teu plano filosófico e põe os pés na terra! De onde veio essa ideia absurda da onisciência? Da ingênua ciência não foi, pois antes dela a solene religião já falava disso e, penso, nem foi a religião a responsável por este conceito, já que estava nas premissas filosóficas. Teve a filosofia algum início? Talvez na arte? Mas a arte não nasceu da transformação da superstição em rotina, as quais se fundam no medo? Na verdade, não há nada que acompanha mais as espécies que representam a vida terrestre do que o medo. E isso não é prerrogativa humana, de jeito nenhum: medo até os seres mais primitivos têm: toca-se um besouro e ele finge de morto, mexe-se de leve na água e o peixinho foge como louco, toca-se a teia de uma aranha e ela, estranhando a tensão exagerada de um dedo humano, corre na direção contrária à de que se a teia tivesse sido tocada pelo movimento de uma potencial vítima, como uma mosca. Foi o medo que fez pelos urticantes nascerem em lagartas, fez feras terem presas agudas, fez as cobras e sapos serem venenosos, fez até plantas criarem espinhos e bioquímica poderosa em suas folhas para evitar que suas folhas fossem comidas. O medo, portanto, é muito antigo, pois até vegetais têm medo: apareceu bem antes da consciência e de encéfalos rombudos. Se não foi a ciência, a religião, a filosofia, a arte, a superstição, mas o medo que nos enrolou no poço viscoso da onisciência, que pode ser mais primitivo que o medo para gerá-lo em nós, criaturas vivas? Desconfio que haja algo mais primitivo que o medo: o pool genético da vida já é onisciente. Até vírus talvez tenham, com toda probabilidade, a onisciência dentro de si.


Se não, vejamos: acidentes históricos da evolução explicam o desenvolvimento de pinças e presas, de comportamento voraz e agressivo, de uma mente planejadora ou de veneno nas folhas, de espinhos, da capacidade de enrolar-se nos tatus, de patas aptas a fugir nas gazelas, de uma mente atenta ao menor ruído. Antes de o indivíduo nascer, o medo é a condição que norteia o seu corpo, seja como presa, seja como predador. Os genes já contam com o medo para o sucesso de sua cega transmissão. Os genes já sabem que o medo é um dos integrantes mais importante do mundo em que o indivíduo viverá por alguns minutos. A onisciência é quase um problema de química! Mas como os genes podem saber se o medo é algo que se vivencia? O macaco pequeno não tem medo do rabo da jaguatirica, mas só o adquire depois de puxar-lhe o rabo. Mesmo se for devorado por ela, experimentará o medo entre o puxão enxerido e a corrida para fugir do feroz felino. Se o macaco tem de vivenciar o medo para aprender o que é o medo, para lidar com ele pela primeira vez, como seus genes de antemão o prepararam com agilidade, braços longos e fortes para se pendurar num galho, voz estridente e cauda preênsil que se torna um quinto membro além das patas? O medo preexistia antes de ser vivenciado? O medo, onisciente de que a cena da jaguatirica existiria um dia ou teria chance de existir, já lhe equipou com o reconhecimento da situação e com o mecanismo de fuga como reação? Como assim? Há informações dos genes da jaguatirica nos genes do macaco? Ou pior, há abstrações como "predadores" nessas informações, que são um punhado de moléculas? Como o ambiente, o mundo e seus componentes poderiam, de alguma forma, selecionar o que é bom para se continuar vivo? Há julgamentos de valor nos genes? A onisciência então se limita a experiências possíveis entre macacos e jaguatiricas, nativos do mesmo ambiente, e nunca entre seres que não se encontrariam jamais na natureza (embora sejam vistos no mesmo ambiente de um zoológico) tais como um rinoceronte e um bicho preguiça? A jaguatirica estaria codificada no gene do macaco bugio mas não no do chimpanzé? Ou um conceito abstrato de felino, que inclui jaguatiricas e leopardos, vindo talvez do mundo das ideias, é conhecido pelo sabichão do gene? Se tudo isso parece absurdo, há limites na onisciência, mas, nesse caso, que sentido faz chamá-la de onisciência? Existe semionisciência? Onisciência parcial? Onisciência pero no mucha?

Dirá alguém que não são os genes que são oniscientes, mas o Arquiteto dos genes, que conhece o mundo e dá genes de chimpanzé a chimpanzés e genes de rinoceronte a rinocerontes. Mas por que faria isso? A resposta a essa pergunta só um ser ainda mais onisciente saberia. E duvido que alguém tenha a resposta. Nesse caso, é melhor só vislumbrar o mundo, pois a explicação seria muito ruim. E de fato, misturar fé com explicação racional é uma combinação pior que aliche com doce de leite.

E faz sentido falar de mais ou menos onisciente ou de limitações de onisciência? Obviamente não. Melhor pensar que a onisciência é mais um dos muitos saci-pererês da mente, impulsionados por essa informação que vem de algum modo dos genes. Aliás, a onisciência é viciada em informações. E informações se acumulam hoje diariamente na internet. Aparentemente nunca soubemos tanto sobre nós mesmos quanto hoje. E a tendência é aumentar de forma gigantesca. Isso todo mundo sabe. Será certo dizer "aumentar de forma ilimitada"? Não, a menos que fôssemos oniscientes e sabemos que não somos, apesar de, como as amebas, ácaros, hienas e cucos, pensarmos que somos. 

O aumento ilimitado de informação seria saber absolutamente tudo: os fundamentos que norteiam o espectro de radiação do corpo negro, as raízes do Efeito Compton, o sentido da equipartição de energia, a compreensão perfeita da não-localidade quântica, a intimidade com os bósons, detalhamentos precisos do universo primordial, descrição exata dos quasares, o elo entre a matéria e os archaea, as evidências lógicas do surgimento dos organismos eucarióticos, a reportagem sobre o primeiro ser alado, o passo-a-passo da tolerância a lactose, a conversa que o rei Sin-shar-ishkun teve com sua concubina voluptuosa em 17 de março de 614 a.C. e até mesmo o que fez teu filho durante a hora em que se trancou no banheiro. Convenhamos: é preciso de uma mente, mesmo artificial, para saber absolutamente tudo? A mente não serve para ALGUMA COISA justamente porque NÃO sabemos tudo? Saber tudo significa jogar a mente na lixeira, por pura inutilidade.


Saber tudo-tudo, portanto, é prova de demência. Por um lado, os genes sabem em que mundo e em que experiências o indivíduo vai se meter e protege-o como uma mãe coruja, mesmo que um gene nunca tenha sido um indivíduo para fugir de uma jaguatirica, por outro lado, um gene me parece bastante destituído de mente. Se o pré-requisito para saber algo é ter uma mente, o pré-requisito para saber tudo parece ser totalmente destituído dela. Escolhamos: queremos ter uma mente ou ter onisciência?

Afundar na matéria ou para além dela é o pré-requisito para adquirir o conhecimento cósmico e universal, qualquer místico sabe disso. Dito de outra forma, a vida é o primeiro entrave para a onisciência. Só os enxames de fótons, glúons, quarks e neutrinos parecem saber direitinho o que fazem, com ou sem gatos de Schrödinger, com ou sem mecânica, com ou sem intenção, com ou sem finalidade, com ou sem causa alguma. No nível da química, tal informação já parece ser problemática. E nós, nos níveis biológicos e sociais, como ficamos? Entra o estraga-prazer em cena e diz com voz bem grossa: all we are is dust in the wind.

Mas, peraí! Se é assim, não basta ler Eclesiastes, tomar um pileque e ficar no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar? Sim, meu caro, se concordou é porque teu desejo de onisciência é maior do que teu desejo de viver.

Para aquele que pensa que ter onisciência não quer dizer nada ou porque não entende o problema ou porque nunca pensou nele, para aquele ignorante cujo pouco que sabe basta, para aquele que curte conhecer sempre mais sem desejar a demência da onisciência, sobretudo para aquele que sabe que é limitado e não idiota o suficiente para imaginar que já é onisciente, em suma, para esses seres iluminados há outra toada e outro conselho: não um carpe diem, dito por uma caveira sarcástica, mas a proposta concreta de um gozo orgástico. Merece, por ter sido sensível o suficiente para perceber que conseguiu abrir os olhos hoje de manhã, que é um ser livre, que é um ser saudável, que não tem preocupações com alguém que queira matá-lo hoje. Não fazer essa oração prova a nossa ingratidão com a vida. Quase ninguém a faz, preocupado logo de manhã com sua onisciência fantasiada ou com a onisciência alheia. Infeliz deveria ser, teoricamente, só quem não pode de fato fazer tal oração de maneira sincera por estar realmente preso nas amarras de um destino nefando. E não me venhas dizer que não há infelicidade pior do que o de uma cabeça sensível à tristeza desses infelizes no mundo. Se pensas assim, vá ouvir Kansas ou ler Eclesiastes. Mas faça isso não por um segundinho, só para imaginares orgulhosamente que és iluminados: terás de ouvir Kansas e ler Eclesiastes o dia todo até desmaiares exausto no teu sono: assim me provarás que não és um hipócrita! 

Se conseguires, parabéns, és um caso clínico bem severo.