O mistério do prosaico revelado!

Minha foto

O óbvio finalmente revelado!
Se não sei quem sou eu, duvido de quem diga que saiba de si mesmo e mais ainda de quem saiba algo de mim. 
Neste mundo cheio de rótulos, penso que tenho algum talento para ser frasco.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

ALGUMAS CABANAS NA ROTA DA SABEDORIA

Há percursos que parecem só caminhados passo a passo. Eu não posso me postar ao pé dos escadórios do Bom Jesus do Monte, em Braga, e segundos depois, sem ziguezaguear os lanços, ver-me no adro da basílica sem transpor o Pórtico, sem passar pelos Cinco Sentidos, sem cruzar as Três Virtudes. Essa via sacra parece parte daquele que está aqui em baixo para chegar até lá em cima: os 116 metros de desnível e os 581 degraus não se transpõem com uma só passada.

No entanto, há gente que parece conseguir enfrentar a verdade dos continua com incompreensíveis saltos quânticos, tal como ocorre no final da história da cética flecha de Zenão ou com o taco de bilhar de Hume. Esse superar-se cada vez mais sempre serviu para a auto-alabança do bicho-homem, mas a verdade é que seres assim são tão raros quanto incompreensíveis. Oliver Sacks no seu The man who mistook his wife for a hat and another clinical tales apresenta o caso, que beira o limite de qualquer compreensão, dos irmãos  "John" e "Michael", gêmeos  autistas "savants" que não sabiam ler nem fazer cálculos de multiplicação simples, mas brincavam entre si alternando, em voz alta, números primos em sequências de até 20 dígitos.



Um pouco aquém desse limite, os portentos humanos, quando não ocorrem na nossa família ou  na vizinhança, nos são conhecidos somente pelo noticiário, que se torna, nesses casos, vezeiramente, substituto do antigo circo. Podemos achar muito superficial como a espetacularização desses casos é apresentada, mas é verdade também que é a única forma de virmos a conhecer a existência desses casos. E isso é positivo. Não fosse assim, nosso salutar ceticismo se tornaria um canhestro dogmatismo e a sabedoria não se constrói por meio da teima acerca daquilo que já supomos conhecer.

Sem saber, o baiano Estêvão Silva da Conceição, por exemplo, atingiu o mesmo formalismo de Antoni Gaudí i Cornet. Antes mesmo de conhecer aquele com quem foi comparado, a sua residência descoberta em Paraisópolis por acadêmicos não precisou romper paradigmas para existir. Bastou que se rompesse a vida cotidiana de tantos outros milhares de pedreiros e jardineiros como ele. Ainda que se diga que foi involuntariamente embebido por um Zeitgeist modernista extemporâneo, esse saber lhe veio num obscuro letramento estético, cujas vias nos parecem incompreensíveis. Sequer podemos valer-nos de explicações da teleológica funcionalidade que explicam, por exemplo, convergências homoplásticas entre mantídeos e mantispídeos.

Igualmente desconhecidos são os trajetos da genialidade do cearense surdo José Arivelton Ribeiro que reconstruiu - mais de uma vez - seu próprio braço amputado a partir de sucata. Quando vejo cada vez mais aprimorada a sua criação, finalmente entendo surpreso um dos melhores empregos da palavra "reinventar-se" que eu conheço. Um inventor não só vê as coisas como elas são, mas, para além das suas características materiais, atribui-lhes uma função que contribui para finalidades que são de seu interesse ou de sua necessidade. Não foram os chineses que inventaram a porcelana: foi um único chinês. A diferença entre o ser humano médio e o inventor está na pervicácia. É a obstinação de extrair sonhos de sua mente agitada e transformá-los em objetos extramentais que distingue o criador dos milhões de acomodados usuários de suas criações.


Foi o que pensei quando a TV me apresentou recentemente o mineiro Guerzone Sebastião Lopes, que se orgulha de nunca ter pago uma conta de luz na sua vida e há quarenta anos superou a dificuldade de não ter energia elétrica na zona rural por meio de sua própria microusina hidroelétrica. Numa das placas em sua propriedade, lê-se "ESSE, GERADORZINHO FUACIONA, O, RADIO", curioso registro que mescla as funções de blocos de notas e de exposições artísticas. Em sua enorme simplicidade orgulhosa de alguém que teve pouquíssimos estudos formais, encarna o que se espera de um  verdadeiro gênio. Com sua barba pré-socrática, o sr. Guerzone confirma a afirmação de Tales  de Mileto de que tudo é água. E, de fato, para todas suas simples necessidades tem uma resposta nesse elemento: o liquidificador, o esmeril, a máquina de lavar roupa, a vitrola, a televisão, monjolos, tudo depende da semilendária Roda D´Água, que funciona ininterrupta há quatro décadas. Refuta a hipótese da esposa de que é louco, lembrando o dia em que toda a cidade de Cachoeira de Minas ficou sem energia elétrica, exceto a sua casa, mostrando assim, de maneira igualmente helênica, que um cidadão nem sempre precisa ser escravo do Estado. 

Dentre muitas reportagens sobre esse homem que domina a energia de seu lar por meio de cordas e alavancas, uma, particularmente me incomodou, transmitida pelo programa Domingo Espetacular, da Rede Record, pelo modo como foi conduzida. Esse Arquimedes mineiro é um homem simples da zona rural e não consegue explicar de onde vêm suas ideias, por isso, resume simplesmente que elas vêm "de Deus e de sua cabeça". Afirma que consegue realizar seus feitos simplesmente "imaginando e fazendo", no entanto, o repórter Luiz Gustavo, talvez inconscientemente querendo roubar a cena do brilhantismo do Tesla mineiro, gasta inutilmente um tempo enorme da reportagem enfatizando que sr. Guerzone usa uma "espécie de dialeto caipira". A despeito de se tratar de algo óbvio, que não é do desconhecimento do inventor, antes, pelo contrário, fonte de orgulho, o repórter resolve ser um enviado do Monte Sinai da Gramática Normativa. Estranha, logo no início, a palavra "fundura", escrita pelo genial inventor numa pedra, e afirma que na cidade se diz "profundidade", o que reputa  ser a única expressão correta. No entanto, a palavra "fundura" existe em documentos do século XV e já é verbete desde o primeiro dicionário da língua portuguesa, o do lamegão Jerônimo Cardoso de 1562-1563, o que prova que o repórter não agiu por conhecimento, mas por preconceito em relação àquilo que considera inusual. Infelizmente não há leis para punir quem faz bullying linguístico publicamente.  Na cabeça de vaugelaisianos como ele só há uma forma certa (ou seja, a que ele conhece), premissa falsa donde se conclui rapidamente que todas as demais variantes ou não existem  ou são reprováveis. Qual das formas de expressão é a certa só se determina consoante algum decreto divino encerrado na autoridade dos gramáticos, sobretudo nos usados pelos professores que  lhe conferiram maior escolaridade e, portanto, maior hegemonia. Por causa desses lamentáveis pressupostos, o repórter sente-se à vontade para humilhar o inventor duas vezes ensinando-lhe a supostamente correta pronúncia "téquinica" (com um i epentético para o qual parece surdo) em vez da variante preferida na zona rural "ténica", que acha deformada e passível de justíssimo extermínio, simplesmente por existir. O pseudoproblema levantado parece não ter sido muito bem entendido pelo inventor, que tem mais o que fazer. Se houvesse alguma irascibilidade no paciente superdotado, faltaria pouco, imagino, para que se transformasse num Diógenes de Sinope e reclamasse da sombra de Alexandre. Sadismos disfarçados de humor me são insuportáveis: "o senhor não fica constrangido da gente ficar pedindo pra repetir as palavras, não, né?", "O senhor se assume como caipira!", "isso não é vergonha nenhuma né?". Gostaria de saber, uma vez que eu também sou caipira, onde está a vergonha de ser caipira. Certa vez, um conhecido me apresentou a um canadense: ele se definia orgulhosamente como gaúcho, mas não me permitiu que eu me definisse como caipira, porque achava que eu estava me autodepreciando. Justamente eu, que acredito que é possível filosofar na minha expressão natal

Gostaria de saber ainda por que alguém diferente do que narcisisticamente se acha belo, correto e certo conterá necessariamente um "defeito" engraçado aos olhos desses ingênuos cultores do apolíneo, que conseguem abstrair toda a real graça e singularidade do outro, transformando-as num folguedo, num divertido desdouro com deméritos, justo no que deveriam ver maravilha, espanto, fascínio e deslumbramento. O conhecimento do gênio para os que não sabem apreciar conhecimento algum é como a cabeça enorme do anãozinho deformado do cruel conto The birthday of the infanta de Oscar Wilde. Doeu-me no peito ver no vídeo o ancião talentoso fazer o que o repórter lhe exige, retirando inquisitorialmente a fórceps, para roubar-lhe o protagonismo. O mais irônico é que a qualidade da sua própria pergunta não passaria pelo severo crivo de normatividade, pois, inconscientemente, estava eivada de metaplasmos reprováveis por doutos com os mesmos valores do  inquisidor. Na inconsciência dos verdugos, nega-se a detectar defeitos na sua própria expressão por não ter espelho para se ver, nem ouvido de foneticista para ouvir sua profusão de apócopes de desinência de infinitivo. Fora isso, tampouco o perdoariam os transcendentais profetas da norma culta pela quantidade de repetições e pela abundância de outras construções reprováveis. Do alto de seu papel de humilhador, mal sabe que sua expressão também difere diametralmente daquilo que está nas gramáticas, embora hipocritamente seja tolerada pelo brasileiro médio urbano, ordinariamente inculto, quando não desrespeitoso com as minorias. Em vez de deixar o palco para o gênio, o penetra  do palco lança um "iiissoooo!" no meio do show, quando consegue arrancar do nosso Thomas Edison  a expressão que desejava. Fê-lo passar pelo ordálio de falar a tal palavra sobresdrúxula de que não abria mão. Retribui-se o "eureka" com um rincho asnal de quem conseguiu o desejado ovo de ouro da gansa. Paulo Henrique Amorim parece ter percebido que o repórter carregou a mão no seu pretenso humor quando rematou, tentando consertar a reportagem: "mas, cá entre nós, quem precisa de técnica com tanta genialidade assim?".


Prodígios não nascem apenas de uma razão obsessiva. Há outra área para os milagres. Pois o genial não está completo se não for belo. E, segundo meu juízo, sempre ganhará medalha de ouro neste quesito o insuperável sergipano Arthur Bispo do Rosário, que, como todos sabem, subiu aos céus em seu Manto da Apresentação. Não há ciência nem arte se não houver gentileza, já nos disse outro sábio que nos aprisiona em interrogações, a saber, o paulista José Datrino, cuja destruição de seus monumentos fez Marisa Monte desabar em lágrimas. Incrível! Apagaram tudo, cobriram tudo de cinza. Como há carrascos nesse mundo! E o consolo para o Gran Circus Norte-Americano foi insensivelmente sepultado. Não duvido que daqui a pouco até a própria Pedra do Ingá seja dinamitada para virar úteis paralelepípedos. A onipresente burrice humana quer ser mais espantosa do que a inteligência de poucos. Não dá muito espaço para o êxtase. Lamente comigo, leitor.

Na peregrinação à sabedoria, do conhecimento científico à epifania religiosa, o continuum parece-se com uma estrada, onde há grandes hotéis e alojamentos bem definidos, em feroz concorrência com alguns albergues mais baratos, que teimam em brotar como cogumelos, para ganhar visibilidade com suas coloridas luzes ou com megafones dizendo afirmações de mau gosto. Contudo, há cabanas feitas de pau e folhas de bananeira, moradas sem paredes, nem teto, onde se deita no mato um só indivíduo e ele ali, naquela estrada, se sente mais confortável que em qualquer suíte de luxo. Foram alguns desses sem-hospedagem na rota da sabedoria que abobalharam os primeiros românticos e seu discurso de simpatia curiosa ainda está aí hoje, na forma de estupor televisivo e youtúbico.

Caro leitor, não seja ingênuo como o cafelandense que enaltece orgulhosamente o Mestre Gentileza por ter expresso sua cafelandidade, nem como o juparatubense que vê juparatubidade em Bispo do Rosário, tampouco como aquele mineiro narcisista que pensa que o sr. Guerzone só poderia ser mineiro. Entenda-me bem, por Gentileza: esses indivíduos, apesar de serem todos brasileiros neste texto, por pura comodidade argumentativa minha, não foram citados para enaltecer a inteligência do brasileiro nem para dizer que "o melhor do Brasil é o brasileiro". Seja sábio, meu querido que me lê, para entender que existiram, existem e existirão outros Estêvãos da Conceição e Josés Arivelton no Equador, no Mali, no Camboja, em Funafuti, em Lilongwe, entre os lapões, entre os Parkatêjê ou entre os falantes da língua yaqai.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI

Nuvens escuras sobre a cúpula de cristal do planisfério terrestre. Vazio e grisalho. E eis que um brabantino solitário e boiando no nada falou e tudo se fez, ordenou e tudo passou a existir. Pedras e plantas. Há algo que já lá brota. Avancemos, à esquerda e à direita, e a cor se fará.

No fim do início, nus e rosados, esticamos a nossa feminina mão para o toque do sagrado conosco, enquanto masculinamente nos sentamos, para que possamos vê-la, a nossa outra eu, ser abençoada genuflexa. Coelhos, faisões e pegas testemunham a cena. E, por trás, um turbilhão de andorinhas e aves amarelas azulejam o que antes era cinza, dançando entre as formas orgânicas das pedras, que tanto acima de nós exceliam. Uma delas açafroou-se, redonda e vazia, pétreo livro e penas com que se escreveu esta história. A dança hirundina passa por dentro dela. No cíano horizonte, outras formações intrigariam geólogos e botânicos, pois são mistos de seus objetos de interesse. E brancas, e negras, de um jalne e de um castanho-avermelhadas, outras aves torneiam, entram em como que ovos e cogumelos de pedra, saem e pastam. Dir-se-ia que tais formações foram feitas por homens, pois se parecem umas com rodas transversas por troncos, outras, verdadeiros cabeços, despontam de jalecas. E junto aos pássaros, vislumbram-se cervos. Um, se atentos, teríamos visto, está morto e devorado por um carnívoro já presente entre a alimária. Entre os de compleição bem definida, há os perseguidos por javalis. Haveria quem dissesse que os espinhos histricídeos também apontam para algum destino aziago. Descuidados, nós três não vimos, cercados de pachorrentos elefantes guiados por macacos, calmas girafas, ursos a brincar, raposas, bois, cavalos, cães bípedes e unicórnios, que, próximo à fonte rosada, de aspecto tão arquiteturalmente vegetal, descia uma serpente de uma tamareira, algo que também nos poderia ter sido relatado pelo lagarto negro. Entre o pavão e o estranho pássaro de cauda espinhosa encontra-se, no orifício perfeitamente redondo da fonte-flor, infausto mocho, a olhar para o sopé, onde alquimística reação borbulhante, de um tenebroso azul escuro, suja a água com vidros que continham algum amavio (ou será um filtro?) e dele rastejam macabros anfíbios, alguns tricéfalos e negros, outros brancos e envoltos em bordado casaco, com cara de rato, outros ainda em concha, cheios de pernas, com sua cauda longa. Patos e cisnes não veem nada disso, pelo que tudo indica. À margem, pomar opíparo, onde nos encontramos, ao lado de um pândano engavinhado por frutos que se assemelham a morangos, não fossem tão grandes. E nesse verdeio, enquanto o ato se consuma, não percebemos ao nossos pés, nova fossa de água escuríssima, e nova hecatombe de répteis e batráquios, da qual participam felinos e aves, os quais convivem com monstros: aqui pavões tricéfalos, ali pássaros de língua de cúspide, um deles bípede com cauda de lagarto, acolá outro similar (não fora o bico de castanhola), fora peixes com cabeça tresquiornitídea ou com feições de cavalo de batalha e de galinha, outro com asas. Um deles, com cabeça anatídea e mãos humanas, está tranquilamente a ler. Lê sobre esta vetustíssima descrição que o entorna ou sobre aquilo que ainda se sucederá?


Acordados, a cena é outra: vemos a azáfama do mundo e nele, o homem, antes tão solitário, em meio à bicharada, agora tudo dominando. Humanos alados, com suas asas rosadas e azuis, desafiam as aves, após terem vencido os peixes. O próprio grifo, domado pelo homem, tal como peixes, aves e plantas, leva em seu voo um urso morto. Está em justas com um ser sereniforme, paramentado para a guerra, singrante pelos céus em seu peixe voador, o qual está sendo enganado pela fruta e pela vontade de tê-la. Aos bandos, outros tantos cavaleiros, semelhantes a esse, se encontram no rio e, por meio da fruta, aliciam peixes e narvais. No rio, amam às sereias outros tantos cavaleiros e homens. São humanos agora, de variegada tez, e não mais os antigos animais, que dominam a cena. As antigas lajes, ora fundidas à química dos homens, brotam, amolecidas, com a mesma textura de corpos e de plantas, repletas da nudez humana, que se exercita, penetrando-as, escalando-as, roçando-se ou fazendo acrobacias nelas. Da laje azul também brota a flor rosa, ornamentada por um vaso sobre o qual está o maldito fruto, cercada de hastes por onde vão e vêm os humanos. No centro do rio, o formato esférico do fruto em obra de mãos humanas, em mármore, num carmim nascente do azul, erige jorroso ícone, dentro do qual se entreveem lascivos folguedos. À margem, de um arremedo do ícone, que também lembra o fruto, rodeado de papagaios e colhereiros, saem símios. Ao longe, vários casais caminham e conversam, vários caçadores carregam suas presas às costas. Aquele animal cascudo, de que já havíamos falado, com sua concha às costas, cheio de pernas, está com eles, arrastando sua cauda longa.

Aquém desse rio, circunda o lago redondo imensa quantidade de humanos, montados em cavalos, asnos, dromedários, bois, cabras, cervos, unicórnios, grifos, leões, panteras e ursos. Os peixes e aves  parecem finalmente rendidos e há frutas em abundância. Mesmo o porco-espinho, potestade d'outrora, agora se vê convertido em mero estandarte, fanfarrice bravateira dos humanos. O pássaro-fruta, com seu bico desnorteantemente longo, fora vencido e está sendo trespassado por horda que, de ponta-cabeça, se apinha ao seu redor, desfigurando-o. Passivamente vê toda essa cena o rato-cabra e vaticina a sua própria extinção. Do lado oposto, transformada em cornucópia de nádegas, junta-se ao círculo outra malta. Em outro frenesi cambaleante, levanta-se uma sereia por entre as pernas de malabaristas. Dentro de frutas, outros ainda há, que veem a tudo já saciados.


Mais próximos de nós, ficticiamente oniscientes, bem mais distinto se vê um regato, onde pássaros se sobre-excelem aos homens, pouco percebidos e muito apercebidos. Entre imensas poupas, pintassilgos, gaios, corujas, patos e martins-pescadores sempre esteve o homem, a despeito da orgia de domínio. Junto a eles, percebemos que há até mesmo uma margem ao tédio, afinal, alguns homens já se acinzentam de tanta fruta comida. E eis que o homem cresceu e se frutificou e a fruta se fez homem. Muitos já nascem de uma baga. Aprisionados ao fruto, tanto ao da terra quanto ao do mar, veem silentes ratos e os pássaros o retorno de seu domínio e, conscientes disso, alimentam os humanos, insaciavelmente famintos do fruto, que lhe nascem às costas. Tomados por gula infinita não pararão de colhê-lo enquanto a ciranda dará voltas, voltas e voltas. Antes senhores do mundo, da água e do ar, perderão terreno, por culpa do fruto e da ciência alquímica, para seres alados, não só os implumes, mas também para imensas borboletas, que, despreocupadamente, pousam em cardos muito maiores que os homens que os rodeiam, e para peixes que, fora d'água, ali convivem despercebidamente entre eles.

O conhecimento e o frenesi de que adiantaram para o homem? O céu agora é outro: está totalmente tomado de trevas e tudo o que foi construído se desvanece em explosões. Muitos se precipitam em fornalhas e mal conseguimos ver, ao longe, o trágico final do indivíduo. Desaba o construído e com ele, seu construtor. Mas os exércitos parecem não se importar e continuam destruindo ainda mais. Vê! As orelhas humanas foram cortadas e nada mais podem ouvir. Não é socorro que terão, ao estenderem os braços, mas somente forca, tortura e tormento. Agora metade humanos, metade animais, o fruto do antigo ventre arrasta multidões para a destruição. Tínhamos a chave e agora estamos mortos, dependurados nela. Nosso alicerce é uma ossada imensa: se pudéssemos olhar para trás, veríamos, e riríamos de nossa estupidez. De nosso corpo oco trespassado por chifres e galhos, entrevê-se mais tédio e auto-engano, aplacados vãmente entre fúteis risos pelo comer e pelo beber. Na nossa cabeça entoa a vaidade de uma charamela e de seu fole: levam-nos pela mão figuras altivas e absurdas, num arremedo da ciranda antiga. Alicia-nos agora o inseto com bico de ave para subirmos, feridos, escada acima e agora são tresquiornitídeos os monges que nos aconselham e macacos os que nos baloiçam em sinos. Dessa nau de dupla base, sob fina camada de gelo, nada se espera a não ser mais perdição de um futuro desabar: vemo-nos atravessados por espadas inimigas e devorados por cães, violentados pela guerra, pelo odre e pela navalha.


Mas isso é o que se vê ao longe. Fora das penumbras, bem à frente de nosso olhos, a cena ainda é pior: serpentes nos enlaçam em cantilenas que embriagam despudoradamente todo nosso corpo. Confundimo-nos com os instrumentos e seres de tez já obsoletamente rosada parecem dar-nos a pauta. Essa música assim orquestrada serve para deleite do mocho de corpo humano azul com potes nos pés e caldeirão à cabeça, que nos devora inteiros, no alto de seu trono e nos dejeta, fazendo que as primevas andorinhas saiam de dentro pelos nossos orifícios e que caiamos em fossa imunda onde se vomita e se defecam moedas de ouro. Sob os pés desse portento só há mais abusos e absurdos: um lúdico decapitar, um atroz perfurar, um cruel esquartejar. Atormentados por ratos-arraia, coelhos que tocam trombeta, cães que nos devoram, porcos-freiras que nos violentam, continuamos importunados por seres rastejantes nas suas antigas armaduras, com seus imensos bicos afilados.

Falei do ontem, do hoje e do amanhã. Mas e a eternidade? Ora, ela já existia antes disso tudo. Deverá existir também se à esquerda e à direita voltarmos à cúpula de cristal do planisfério terrestre mencionado no início.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

PRESCRIÇÃO OU PROSCRIÇÃO: A ARTE DA CONVIVÊNCIA

No mundo atual, onde todos têm razão, o megafone das redes sociais dá voz às vicissitudes mais íntimas de cada um, conferindo-lhes ilusória eternidade. Desde que os pares se reuniram em grupos orkutianos, ainda no século passado, assinando declarações públicas acerca de seus gostos e ódios, desde que se inventaram os infames dedinhos e o mundo se converteu num neomaniqueísta like-dislike de opiniões, desde que essa silenciosa turba começou a emergir, não se fala mais em retorno aos tempos em que não éramos interenredados, de modo que não há outra solução hoje a não ser a de conviver ininterruptamente com o nosso oposto. Obviamente, conviver com quem pensa ao contrário de nós nunca foi fácil e os mais suscetíveis (ainda bem que poucos!) ainda preferem enforcar-se ou fazer uma carnificina. A esses não me dirijo. Arquem com as consequências de sua fraqueza psicológica de não conseguir conviver. A grande maioria das pessoas, contudo, preferimos viver mais um pouco, livres, ainda que azucrinados, até o fim de nossos dias, pela voz daqueles que nos são cognitivamente incompatíveis. Para esses, espero eu, a leitura desse texto oxalá seja útil.

Conviver com o oposto, obviamente, não é fácil: nunca o foi. Mas há basicamente duas situações de conflito. Quando o discurso oposto ao nosso advém de uma minoria comparo-o com aqueles alarmes de carros estacionados nas ruas que disparam, acionados por qualquer coisinha, sem que o proprietário do veículo esteja por perto nas próximas horas, para socorrer as circunjacências da sua consequente infernização ou então com aquele cãozinho provisoriamente abandonado, que resolve entristecer-se, emitindo infinitos e repetitivos ladridos e uivos, amplificados pelas paredes do condomínio, a enlouquecer todos os que, por infelicidade, estejam ali, diferentemente do sortudo dono (que diz amá-lo). O oposto minoritário é apenas um chato: uma hora cala-se, se não dermos ouvido a ele. 


Mas atenção: há diferença entre as duas imagens, e não pequena: buzinas acionadas sozinhas não se desesperam. Um alarme chateia sem a menor intenção e não se cansa, no máximo, pára quando a bateria do carro termina. Um cão não só quer ser ouvido, mas também sofre e se extenua, ainda que sua exaustão ocorra bem depois do exaurimento da paciência de seus ouvintes. Ou seja, se a metáfora é boa, há opostos minoritários que são obstinados extraordinariamente frios e só terminam seu falatório per se; já outros, que gostam de chamar atenção à sua causa, contudo entristecem-se, cedem  ao pessimismo e acabam por calar-se algo que complexados. 

Já o oposto majoritário é diferente: se a maioria pensa diferente de nós, nós é que somos a buzina e o cão. Nós é que somos o problema. Se o mundo está alicerçado nas nossas convicções, é cômodo ter a certeza de que os chatos são eles, que não comungam de nossos pressupostos. Numa eventual situação contrária, parece seguro que nossas convicções fiquem no porão do anonimato em silêncio, afinal, ninguém quer ser punido por uma patrulha que pensa diferentemente de nós, ninguém quer ser exposto como daninho ou louco e, convenhamos, é impossível daí não concluir que desejamos que a situação se altere, a menos que tenhamos algum prazer na resignação, alguma essência fatalista, algum galardão comportamental de nada ver de errado na alteridade, alguma extremada acomodação ou uma infinita hipocrisia. O mais comum, contudo, é o pensamento seguinte: se questionar autoridades é válido por que não posso eu mesmo ser a autoridade?

Sabemos, civilizados que supomos ser, que a melhor reação não é a da violência, a da ofensa ou a da ironia, a mas a da própria racionalidade. Seria a razão que nos faz perceber como minoria sensível à contradição? Como evidenciar ao nosso oponente uma contradição dele que não o ofenda? Pior: para contradizermos algo não seriam necessárias premissas com as quais ambos estejamos de acordo? Isso não tem sido nada fácil: mesmo que as selecionemos, é preciso estarmos de acordo que essas premissas e suas conclusões (e não outras) devam ser preservadas para raciocínios subsequentes. Ora, sabemos que isso não foi fácil nem na época de Sócrates, quando havia poucas coisas sobre as quais opinar. Que dizer de agora, após tantas novidades quinhentistas, verdades setecentistas, antíteses e sínteses oitocentistas, inversões propositais novecentistas, sem falar dos direitos à voz atuais?



"Se um afirma que a gravidade não existe, como Jesus cairia da goiabeira?". De fato, os paradoxos atuais soam estranhos para quem não comunga de vários pressupostos e premissas elípticas. Por onde começaríamos para haver um diálogo minimamente honesto? Talvez pelo pressuposto de que ambos queiramos ter um diálogo. Queremos?

Suponhamos que não, que tanto eu quanto tu queiramos apenas impor nossas ideias. Pois bem, há quem alicerce seus argumentos em conhecimentos acumulados, supraindividuais, coletivos e formalmente sólidos; há quem aposte mais em argumentos improvisados, ditados pela inspiração, pela genialidade, os quais sobrepujariam, segundo muitos, todas as visões anteriores. Há ainda os que acatem argumentos perenes ditados de um mundo sobre-humano habitado por seres que se importam com sua criação, seja por amor, seja por tédio, seja por sadismo. 

Obviamente eu acho que tenho razão no ponto debatido. Obviamente tu também te achas com razão. Não é isso já um acordo? Afinal, estamos pressupondo ambos que temos a mesma coisa! E se, portanto, já temos o que queremos, concluímos que ambos estamos satisfeitos. Não é isso já um acordo? Nossa conclusão se confunde com nossos pressupostos; são distintas mas conduzem ao mesmo bem. Nossa conclusão será (ninguém o negará) profundamente relativa àquilo que buscamos. Achamos a paz nesse relativismo. Mas, observará alguém, conclusões relativas são profundamente pirrônicas. Se quisermos ser pirrônicos, portanto, dispomos de um excelente desfecho. Só não me convence que haveria uma só moral da história, satisfatória para ambos os debatedores. Com quase certeza posso afirmar que não haverá e tu concordarás comigo. Mas se temos certeza de algo, não somos pirrônicos! Desfaz-se o acordo, voltamos ao debate. Parecíamos irrefutáveis, mas dois pirrônicos anulam seus pressupostos num debate. Voltemos ao ser humano de carne e osso: o ser idealizado da lógica não nos serve.

O pirronismo nunca deu bons frutos, como se pode ver: seria a causa disso a vontade de domínio, atávica aos seres humanos? Deixemos para outra hora essa questão. Bom, se quero convencer-te e tu, a mim, não sejamos hipócritas: lancemos a primeira afirmação e que o outro discorde com argumentos válidos. A Terra ou é esférica ou isso é um complô da Nasa para que não saibamos que é apenas uma cúpula boiando no nada ou nas costas de elefantes, que, por sua vez, estão nas costas de uma tartaruga. Tudo o que eu mesmo não enxergo, não toco, não saboreio, necessita de um modelo teórico? Mas as ilusões são o quê? Há algo que não seja explicado ou explicável por evidências sensoriais ou por conclusões de premissas? Provavelmente não, a menos que aquilo que chamam de seja o culto ao irracional, no entanto, julgo eu, que aquele que se vale de uma fé qualquer, a despeito da ausência de evidências sensoriais não ilusórias e de indecorrências de premissas, apontará sua crença para algo com uma autoridade, um texto, uma verdade da qual não arreda pé.


Uma revolução radical nos pressupostos não nos conduzirá a bons técnicos, que consertem nossos iPhones no futuro, ou que ponham no ar os YouTubes que propagam as novas ideias que supostamente destronaram as antigas: um pouco das velhas há de sobrar num mundo mais hipócrita do que o que se seguiu imediatamente após Hegel, relativistas, semicientistas e pós-modernos. Mas a coluna há de ficar ereta para que faça piruetas extravagantes a choldra questionadeira, com sua magna auto-estima, sem vergonha de sua voz esganiçada e de suas ideias até há pouco tempo apenas expostas, por entre uma nevoaça alcoólica, em reuniões familiares ou em mesinhas de bar. 

Todos usamos quer o que o mundo nos dá (seja à nossa percepção, seja à nossa razão), quer o que textos nos dão, quer a convicção de uma traidora memória acerca de uma visão de infância: mais do que a necessidade de estar convicto daquilo que falamos, vimos falando ou acabamos de concluir, apresenta-se-nos como a coisa mais necessária de todas ter uma plateia. A obsessão por ter seguidores e o medo de não ficar falando sozinho é o único ponto que realmente caracteriza os dias de hoje. Hoje louco não é mais quem tem uma ideia excêntrica, mas quem fala sozinho. Louco é quem não é submetido ao like-dislike, o oxigênio do século XXI.

A diferença que nos causa espécie e reações nos tempos atuais está toda aí: a demência lamentável do nosso oponente de opiniões nunca mudou! Novo, contudo, é o fato de hoje cada loucura individual  ter um séquito. É a falta de séquitos que nos incomoda mais hoje e não a loucura propriamente dita, pois, abandonada a razão, tornou-se a plateia mais valiosa, nos dias atuais, do que o maior dos diamantes. Perante tanta estupidez asseverada, consolemo-nos: talvez estejamos num novo período pré-socrático. E esse novo Sócrates um dia virá com poder e glória e nos boquiabrirá nos limites e nos píncaros da razão humana, diz o máximo otimista. Não leia isso como ironia, leitor: leia-o como sarcasmo, escárnio. É deboche, mesmo: sabe-o quem me lê assiduamente e está ciente do quanto sou cético acerca da alardeada razão humana ilimitada.

É a falta de séquito que nos incomoda hoje, mais do que a loucura propriamente dita. Quando, definitivamente, conseguirmos conviver com esses novos memes (no sentido original e dawkininano do termo), tudo voltará a ser a bobagem que sempre foi. Oxalá seja ano que vem.



sexta-feira, 30 de novembro de 2018

VIVER É UM LANCE LEGAL: EU JÁ ESCUTO OS TEUS SINAIS

Garçom! Aqui, nessa mesa de bar, você já cansou de escutar centenas de casos de amor. Meu caso é mais um, é banal, mas preste atenção por favor...  Ai, quanto querer cabe em meu coração! Ai, me faz sofrer, faz que me mata e, se não mata, fere. Às vezes você me pergunta por que é que eu sou tão calado; não falo de amor quase nada nem fico sorrindo ao teu lado. Amar é um deserto e seus temores. Sinônimo de amor é amar.

Havia um tempo em que eu vivia um sentimento quase infantil: havia o medo e a timidez, todo um lado que você nunca viu. Ganhava a vida com muito suor e mesmo assim não podia ser pior: pouco dinheiro pra poder pagar todas as contas e despesas do lar. Lembro a menina feia, tão acanhada, de pé no chão; hoje, maliciosa, guarda um segredo em seu coração. Do lado direito da rua Direita olhando as vitrines coloridas eu a vi, mas quando quis me aproximar de ti não tive tempo: num movimento imenso na rua eu lhe perdi. Eu sonhava como a feia na vitrine, como carta que se assina em vão. Sei que você gosta de brincar de amores, mas oh: comigo, não! Foi nessa noite de outubro, quando perdi a inocência, por você: me entreguei aos seus carinhos, eu fiz os seus caprichos, por amor. Só você pra dar à minha vida direção, o tom, a cor: me fez voltar a ver a luz - estrela no deserto a me guiar, farol no mar da incerteza. Ela me falou dos seus dias de glória e do que não está escrito lá nos livros de história...Seu corpo é fruto proibido, é a chave de todo pecado e da libido e prum garoto introvertido como eu é a pura perdição. Essa noite eu quero te ter, toda se ardendo só pra mim. Fazer amor de madrugada, amor com jeito de virada. Beijo travoso de umbu-cajá...Foi um lindo amor; pena não sobreviver: quando a vida me iluminou, a minha luz era você. O nosso amor na última astronave, além do infinito eu vou voar, sozinho com você. Vi a minha força amarrada no seu passo; vi que sem você não há caminho, eu não me acho; vi um grande amor gritar dentro de mim como eu sonhei um dia. A paixão não tem nada a ver com a vontade: quando bate é o alarme de um louco desejo...


Eu que tinha tudo hoje estou mudo: estou mudado à meia-noite, à meia luz, pensando - daria tudo, por um modo de esquecer. Na madrugada, a vitrola rolando um blues, tocando B.B.King sem parar. Quando a paixão não dá certo, não há porque me culpar: eu não me permito chorar, já não vai adiantar e recomeço do zero sem reclamar. À noite vai ter lua cheia, tudo pode acontecer. Se o luar é meu amigo, censurar ninguém se atreve: é tão bom sonhar contigo, oh!, luar tão cândido. Eu saio de noite andando sozinho, eu vou entrando em qualquer bar, eu faço meu caminho: o rádio toca uma canção que me faz lembrar você, eu fico louco de emoção e já não sei o que vou fazer... No espelho dessas águas vejo a face luminosa do amor: as ondas vão e vêm e vão e são como o tempo. No silêncio, uma catedral, um templo em mim onde eu possa ser imortal, mas vai existir, eu sei, vai ter que existir, vai resistir nosso lugar. Meu destino não é de ninguém e eu não deixo os meus passos no chão; se você não entende não vê, se não me vê, não entende. Vamos embora de repente, vamos embora sem demora, vamos pra frente que pra trás não dá mais. Acabei com tudo, escapei com vida: tive as roupas e os sonhos rasgados na minha saída. Há uma porta que um de nós vai ter que abrir, oh! há! Há um beijo que ninguém vai impedir: não vai! Quando homem e mulher se deixam levar, é fácil viver mais. Aquela menina era a felicidade que eu tanto esperei, mas não tive coragem e não lhe falei do meu grande amor; e agora, por onde ela anda eu não sei. Garota pegou fogo em mim; sigo incendiando, bem contente e feliz. De mãos dadas vamos andar; muitos beijos iremos trocar. Me beija na boca, me ama no chão; me suja de carmim, me põe na boca o mel, louca de amor, me chama de céu. Não se esqueça, meu amor, que quem mais te amou foi eu: sempre foi o teu calor que minha alma aqueceu. Mas se um dia eu chegar muito louco, deixa essa noite saber que um dia foi pouco.

A luz do sol me incomoda, então deixa a cortina fechada. Eu desço dessa solidão; espalho coisas sobre um chão de giz. Noite e dia se completam; o nosso amor e ódio eterno: eu te imagino, eu te conserto, eu faço a cena que eu quiser. Mas o ódio cega e você não percebe. Como uma deusa você me mantém e as coisas que você me diz me levam além. Voltei pra rever os amigos que um dia eu deixei a chorar de alegria; me acompanha o meu violão. Eu sou de todo mundo e todo mundo me quer bem. Se eu soubesse o quanto dói a vida, essa dor tão doída não doía assim, Quero somente que na campa em que eu repousar, os ébrios loucos como eu venham depositar os seus segredos ao meu derradeiro abrigo e suas lágrimas de dor ao peito amigo. E cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais e te perder de vista assim é ruim demais e é por isso que atravesso o teu futuro e faço das lembranças um lugar seguro. Se Deus quiser, um dia acabo voando, tão banal assim como um pardal, meio de contrabando, desviar do estilingue, deixar que me xingue. São cinco elementos apunhalando o coração: o fogo, a terra, a água, o ar e a paixão. Coração, diz pra mim por que é que eu fico sempre desse jeito.


Amanheci sozinho; na cama, um vazio -  meu coração que se foi, sem dizer se voltava depois. Tranquei a vida neste apartamento e a marcada juventude  também. Deitado no meu quarto, o tempo voa; lá fora a vida passa e eu aqui, à toa: eu já tentei de tudo, mas não tenho remédio pra livrar-me desse tédio. Mais um ano que se passa, mais um ano sem você. Já não tenho a mesma idade, envelheço na cidade. Medo da vida assim engatilhada. Quero não lembrar, que às vezes sem querer me apanho falando em você. Eu amei há muito tempo atrás; já cansei de tanto soluçar. Eu nem buscava alguém a fim de repartir uma ilusão. Hoje eu acordei com saudades de você: beijei aquela foto que você me ofertou, sentei naquele banco da pracinha só porque foi lá que começou o nosso amor... Tudo, tudo pode o amor ganhar: passe o tempo, passe o que passar, a noite vem, o dia vai. E fazer seu jogo vai me deixar louco; sei que você pensa o amor é do seu jeito: coração quebrado e orgulho inteiro. O que é que tá me faltando pra que eu te conheça melhor? Você me traiu e disse que é normal: um a um todos irão por certo acompanhar a evolução e quase que eu fiquei pra trás... Por quê? Fui querer ser bom rapaz. Já que terminamos, só resta agora o adeus final: te amar demais, ser um bom rapaz foi o meu mal, mon amour, meu bem, ma femme. Como eu queria ser esse sol que lhe queima, essa roupa que cobre o seu corpo, o vento que lhe possui e essa água que banha você. Mas se um dia eu chegar muito estranho,  deixa essa água no corpo lembrar nosso banho. Desde quando eu te conheci, nunca mais te tirei daqui, do meu peito: de que jeito? Não está sendo fácil. Não digo que não me surpreendi: antes que eu visse, você disse e eu não pude acreditar.



Quase não consigo na entrada chegar, pois a multidão estava de amargar. Seu olhar inquieto vacila em qualquer direção; o seu corpo empinado desfila na escuridão: ela é uma estrela que brilha na vida que traz. Você diz que me adora, que tudo nessa vida sou eu. O nosso amor não é mais o mesmo: é melhor que eu vá embora. Dizem que eu estou errado, mas quem fala isto é quem nunca amou: posso até ser ciumento, mas ninguém esquece tudo o que passou... Amor perfeito existia entre nós dois; sem esperar que depois fosse tudo se acabar, mas neste mundo que o perfeito não tem vida; não merecemos, querida, viver juntos e amar. Aguardaremos, brincaremos no regato, até que nos tragam frutos teu amor, teu coração. Que seja assim por toda vida e a Deus mais nada pedirei. A arte de viver da fé; só não se sabe fé em quê...esse amor, de cartas claras sobre a mesa é assim. Caso você case, não escreva a nota, não destrave a porta. Toquem o meu coração, façam a revolução que está no ar.


Seus olhos verdes no espelho brilham para mim. Alguém me disse que tu andas novamente de novo amor, nova paixão, toda contente. Você é doida, desalmada e atrevida: sempre quer alguém na vida só para fazer sofrer! Às vezes muito perto desejamos encontrá-la, no entanto é preciso muito longe ir buscá-la. Toquei a 130 com destino à cidade; no Anhangabaú botei mais velocidade; com três pneus carecas derrapando na raia subi a Galeria Prestes Maia. Cento e dez, cento e vinte, cento e sessenta: só pra ver até quando o motor aguenta. Estou só, a duzentos por hora: vou parar de pensar em você pra prestar atenção na estrada. Eu sou rebelde porque o mundo quis assim, porque nunca me trataram com amor e as pessoas se fecharam para mim; eu sou rebelde por que sempre sem razão me negaram tudo aquilo que sonhei e me deram tão somente incompreensão. Cadê você, que nunca mais apareceu aqui? Que não voltou pra me fazer sorrir, que nem ligou, cadê você? Meu Deus do céu, diga que isso é mentira! Se for verdade esclareça por favor! E não tem como não saber: pra mim é óbvio, só pode ser.  Ela me diz que é muito bom ter liberdade, que não há mal nenhum em ter outra amizade e que brigar por isso é muita crueldade. Já sei que um é pouco, dois é bom e três é demais e eu fico louco de ciúmes de um outro rapaz... A palavra que destrói o amor quando tudo ainda estava inteiro: no instante em que desmoronou, palavras duras em voz de veludo. Meu bem querer tem um quê de pecado, acariciado pela emoção.

Só depois de muito tempo, comecei a entender como será meu futuro. O meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria. Feiticeira, feiticeira! Eu não posso negar o feitiço que ela me fez! Não vá embora, meu bem, não vá embora: se você for, eu vou chorar a vida inteira. Meu mel, não diga adeus: eu tenho tanto medo de ficar sem o seu amor e pra sempre ser um ser só. Deu pra ti? Baixo astral! Quantos elementos amam aquela mulher? Quantos homens eram inverno, outros verão, outonos caindo secos no solo da minha mão? Explica a grande fúria do mundo! Eu só peço a Deus um pouco de malandragem, pois sou criança e não conheço a verdade.




Fantasmas no meu quarto, fixação! I want to be alone! Tu pediu, agora toma! Não adianta tu voltar, menina, agora você vai sentar! Olho para chuva que não quer cessar: nela vejo o meu amor; esta chuva ingrata que não vai parar pra aliviar a minha dor. Um dia desses, num desses encontros casuais, talvez a gente se encontre, talvez a gente encontre explicação. Deixa chover, deixa a chuva molhar. O tempo passa e com ele caminhamos todos juntos sem parar; nossos passos pelo chão vão ficar. Um velho cruza a soleira, de botas longas, de barbas longas, de ouro o brilho do seu colar na laje fria onde quarava sua camisa e seu alforje de caçador. Um grande amor do passado se transforma em aversão e os dois lado a lado corroem o coração. Sorria, meu bem, sorria, da infelicidade que você procurou! O que você precisa é de um retoque total: vou transformar o seu rascunho em arte final. Pode seguir a tua estrela, o teu brinquedo de star; fantasiando um segredo no ponto a onde quer chegar. Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão? Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar, sentimento ilhado, morto, amordaçado volta a incomodar. Ah, que o voo do condor no sol trace a linha da nossa paixão. Tudo é mistério nesse teu voar. É aqui onde estou: essa é minha estrada por onde eu vou e quando eu cansar, na linha do horizonte eu vou pousar.



sábado, 20 de outubro de 2018

HISTÓRIA E SIGNIFICADO

É conhecido dos linguistas brasileiros o paradoxo que Joaquim Mattoso Camara Jr apresentou acerca da incompatibilidade da segmentação vocabular simultaneamente sincrônica e diacrônica. 

Para qualquer falante da língua portuguesa, um verbo como comer tem um radical com- que aparece em todo o paradigma verbal: como, comes, comíamos, comessem, comendo etc. Nenhum usuário do idioma, desde que devidamente treinado com rudimentos dessa prática dissecativa (obviamente), teria dificuldade em dizer que com- é o radical dessa palavra, ao passo que -er é uma terminação, composta de uma vogal temática de segunda conjugação -e- e de uma desinência que indica infinitivo, -r. 

No entanto, isso só é válido para a consciência do falante de português devidamente treinado. Se ele mergulhasse com um batiscafo nas zonas abissopelágicas do idioma, veria que, claramente, o primeiro elemento com- não foi um radical em outras eras, mas sim um prefixo significando "todos juntos" o qual, anexado ao verbo latino edere - que significava "comer" - formava um verbo composto comedere, avô da nossa palavra recém-dissecada

Por causa das enxurradas do rio do tempo, essa palavra, criada no Lácio, foi empregada por bocas ibéricas, às quais se amoleceu o -d- e as quais o converteram num som parecido com o th- da palavra inglesa that, para, por fim, esvanecer-se nas fumaças acústicas, assim como aconteceu com o atonicíssimo -e final. Eis que o verbo comedere, por meio de uma inércia linguística, erodido nos atritos das eras, tal como uma lagarta que se metamorfoseia, tornou-se comeer, com dois -ee- pronunciados separadamente e com acento tônico no segundo. Não seria pedir muito ao leitor que acreditasse em algo que costumeiramente perceberá ocorrer com palavras como "cooperar": duas vogais assim, juntinhas, combinam muito pouco com nossa pressa hodierna e também não combinavam com a pressa medieval de reconquistar terras mouras ou com a pressa do Renascimento, ao sair em caravelas mar adentro. Resumindo a ópera, compreensivelmente se vê que os dois -ee- se fundiram num só e no único -e- que ouvimos. A palavra mumificada em sua crisálida de letras, contudo, continuou a mudar por dentro, de modo que em bocas brasileiras, o -r final também caiu e, volta e meia, o -o- acaba fechando-se ainda mais, tão ávidas as bocas estavam em seu mascar diário, que lhe garante sobrevivência individual.


Mas voltemos a fita ao paradoxo de Câmara Jr: se é verdade que com- é o radical da palavra em funcionamento, tal como uma batedeira de bolos a girar sobre claras em neve, não é verdade que sempre o foi. E de fato, quando comer foi um dia comedere, o radical era esse -ed- que fica entre o prefixo e a desinência, o qual se converteu, pelo desgaste fônico supracitado, em -e- pouco antes de fundir-se completamente com o segundo -e- da desinência. Teria a palavra dois radicais? Um sincrônico e um diacrônico? Aquilo que hoje chamamos de radical foi um prefixo. Ainda o é? Se sim, o antigo radical é a vogal temática, misturada no milk shake do tempo?

A pergunta é meio estranha. Algo como dizer que se os cetáceos, mamíferos que retornaram ao mar primordial, têm os artelhos ocultos em suas barbatanas, inegavelmente homólogos aos de nossa mão igualmente mamífera, conclui-se que patas e barbatanas são uma e única coisa... O ancestral jamais pensaria que sua velha mão se tornaria barbatana e a barbatana não tem saudades do tempo em que era quadrúpede. Foi a necessidade e o meio que a mudaram. O que foi no passado não faz sentido no presente e até atrapalha: substituam a barbatana da baleia por uma pata de cavalo e lancem-na de volta ao mar. Sem dúvida, a falta de utilidade da condição ancestral será o motivo de seu perecimento. E a baleia, dando coices, morrerá afogada.

Uma pata de cavalo numa baleia não teria significado algum, assim como causa espécie reunir irmãos gêmeos idênticos separados pelo tempo como o com- de comer com o com- de combinar. Apesar de válido, não tem significado algum para os irmãos separados, nada para além do que a história nos quer mostrar. O trânsito de significados da história é uma coisa notável, mais ainda se vemos paralelos em trânsitos similares, contudo, juntar o passado e o presente na mesma caixa é uma atitude acrônica. E o acrônico se torna válido quando é funcional, já quando é descritivo, parece ser mera curiosidade.

Mas há alguma necessidade de acronia no ser humano? As leis da física são acrônicas assim como tantas causas metafísicas. Talvez haja, então. O mistério do acrônico talvez seja útil quando não há nenhuma outra resposta reprodutível em laboratório. 


Algo possível de se comer é, segundo a língua portuguesa, comestível. Por que uma coisa possível de se beber não é "bebestível?",  pergunta-se a criança em pensamento inconsciente durante a sua aquisição de linguagem e também o glotófilo. A analogia norteia a lógica e aplaca nossa insegurança do indomável. Cavalos-baleias são indomáveis. Tudo que é complexo nos assusta. O homem parece precisar ter tudo sob controle, senão volta a ser o pirralho chorão e pirracento. A diversidade assusta, pode causar dodói, pensa a mente infantil. Uma língua completamente irregular parece impensável porque o tempo não está nem aí com a nossa necessidade hominídea de colocar tudo em caixinhas para não sairmos berrando de medo. Daí nasce o consolo da exceção. Resolveu esse perrengue a mente do antropossímio da seguinte forma:  há, sim regras, mas há uma ou outra palavra subversiva (às vezes um bocado) que não segue a regra ditada pela tirania analógica. Por que elas existem, se são tão pouco arrazoadas? Para confundir-nos ou para tornar-nos mais sapientes?

Nem toda exceção tem explicação fácil. Mas essa do nosso exemplo tem. O sufixo -ível se junta a um antigo particípio latino e não à base verbal nua. Por isso, uma coisa que se compreende facilmente é compreensível. Veja: não é "compreendível" porque no passado, o radical da palavra em questão formava um particípio comprehensus e é sobre ele que se junta o sufixo. Por trás dessa palavra há uma história que não se dobrou perante a tirania do biberão analógico. E não são poucas as que fazem isso: algo que é possível reverter não é "revertível" mas reversível, pois o particípio de vertere, palavra que gerou em sincronia pretérita o composto revertere e em diacronia a palavra portuguesa verter, tinha também um particípio com -s-:  reversus, daí bastou juntar-lhe o sufixo e - alacazam!- temos o mistério de nossa exceção revelado. Quem não percebe isso acha que o monstrengo pancrônico é "individível"; quem o nega é "insentível" e isso não é "admitível" para quem está disposto de fato a usar sua razão.

Mas mesmo assim, o nosso comestível parece um enigma, mas não é, caro ignoto da língua do Lácio: em latim, o verbo comedere formava o seu particípio como comestus e, novamente, junte-lhe agora o sufixo pela mesma regra acima anunciada e terá o comestível. Caso encerrado. Cabe agora a quem sabe isso fingir que não sabe ou louvar-se porque sabe. Fato é que o fato é um fato.

Mas, espere, não é bem assim. A nossa narrativa não termina aí: entre o radical e o sufixo apareceu um troço esquisito, ou seja, esse -est-  da palavra comestível, sem sentido algum para quem fala hoje, uma espécie do lixo do passado, o antigo radical destronado da sua função central, agora convertido em interfixo (como o denomina Malkiel), algo esquisito, sem significado, trambolho que não fica bem junto nem com o novo radical com- nem com o sufixo -ível. Mas olhando bem, esse -est- é o próprio particípio do verbo edere, é o próprio verbo "comer"!!!


Algum sincronomaníaco ficará atônito e, antes de expulsar essa palavra do templo da morfologia para escondê-lo no sótão da lexicologia, dirá: "tu não podes existir, figura amorfa, com corpo e sem alma, frankenstein caminhante, zumbi de outras eras, arrenego-te!".

Mas fato é que esse avejão de priscas eras retornou e convive entre nós, qual o espectro de Hamlet, para não ser de todo esquecido nos escombros de uma civilização perdida. Não veio para ficar. Sempre esteve entre nós e agora urra para nosso abismar.

Ver dois radicais simultâneos numa mesma palavra parece-se muito com a sensação de observar My wife and my mother-in-law, de William Ely Hill. É como se um pai zumbi estivesse sentado na poltrona, observando, na mesma sala, o filho não-zumbi brincando no chão. Cena ainda pior: é a mesma pessoa morta a observar-se viva. Uma espécie de gato de Schrödinger voyeur. O que era não é, o que é não era. Difícil falar de significado com a visão embaralhando-se assim, sem parar. Mas é o que acontece, fique atento, leitor, quando vemo-nos mortos e vivos juntos, indo e voltando, como depois de bebermos alguns copos cheios de conhaque. Como num ataque de esquizofrenia.

Embriagados pelo paradoxo, pelo vai-e-vem do passado e do presente, alternando-se, como numa dança macabra, só nos restam algumas opções: escolher, dormir, observar, vomitar ou morrer. Sextum non datur.