O mistério do prosaico revelado!

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O óbvio finalmente revelado!
Se não sei quem sou eu, duvido de quem diga que saiba de si mesmo e mais ainda de quem saiba algo de mim. 
Neste mundo cheio de rótulos, penso que tenho algum talento para ser frasco.

domingo, 17 de setembro de 2017

MEU AMIGO VOADOR

Eu tenho um amigo que voa.

Um dia fui ao canyon do Itaimbezinho com ele. Na beiradinha, incentivou-me a pular; queria que eu o acompanhasse. Relutei e na hora H desisti, obviamente. Ele pulou sem paraquedas, sem asa delta, sem wingsuit. E voou; eu não. Pena que não vi, porque virei o rosto na hora. Não tive coragem sequer de vê-lo planando como um esquilo voador.

Confesso que muitas vezes detecto algum cinismo ou deboche nas palavras de meu amigo, mas ele se intrometeu na minha vida, sem me lembrar como ou mesmo sem saber se o convidei, e acabou sendo razão de minha admiração e de meu tédio pelas suas excentricidades. Não se trata de uma amizade parecida com a de Rheinold por Franz Biberkopf, nada disso! Não haveria nem admiração nem tédio se não fosse meu amigo. Por isso, acho de bom tom resignar-me com esse inegável fado de Moira: círculos que permeiam nossas vidas advêm do acaso. Antes que te insurjas contra minha resignação, leitor, lembro-te que nem mesmo beatniks, enfrentando o acaso, conseguiram quebrar esses círculos. O limite entre tudo que amamos e o que nos é insuportável nem sempre é muito nítido.
É assim também com meu amigo voador, que fala comigo animadamente e aos berros. Ele diz que esteve na Guerra de Troia e que deu a ideia do cavalo de madeira a Odisseu. Não tenho por que duvidar; afinal, é meu amigo.



Ele decifrou todos os códigos, compôs todos os poemas e canções, inventou todos os manjares dos melhores livros de culinária. Praticamente tudo, descubro diariamente, foi criado por meio de uma dica dele. Mais detalhes não consigo obter: além de palpiteiro, é muito vago. Aparentemente nunca saiu da sua boca algo que não se tornasse ato alheio.
Sendo assim, imaginas, deve ser impertinentíssimo e, sem dúvida, o é. Não me permite sossego. Acha que a chatice é a coisa mais chata do mundo e, didático, explica que não toma chá justamente por isso, pois a palavra "chatice" vem da palavra "chá", segundo sofisticadas teorias que elabora.
Perguntado por que é tão tagarela, discorrerá horas a fio, esclarecendo que foi ele, sim, justamente ele, quem desatou o nó da língua de um engraçado macaco pelado que vagava sobre a Terra quando chegou com sua astronave. Sim, foi meu amigo quem ensinou todo mundo a falar!
Intrigado com sua idade, pergunto-lhe se esteve no momento do Big Bang. Sobre esse assunto ele normalmente desconversa. Aliás, age desse modo toda vez que não sabe do que se trata. Nessas horas é que me dá vontade de mostrar-lhe que ele tem sim limitações. Desse assunto ele também não gosta e desconversa de novo.

E quando desconversa, entra às vezes num transe doido e pula malucamente e dança e ri de tal modo que ninguém consegue fazê-lo parar. Rejuvenil, esse ser de tantos milhões de anos de idade, não está nem aí para argumentos, conveniências ou imperativos categóricos. Mas às vezes não age dessa forma tresloucada. E quando isso ocorre, começa a falar invariavelmente de coisas misteriosas. Intriga-lhe a beleza e a complexidade da essência que há nO Brócolis, que, para ele, é o que há de mais perfeito. Se lhe pergunto se o tal brócolis a que se refere é uma criatura inatingível, enfurece-se, pois O Brócolis, para ele, não é uma criatura e entendo - vagamente, é verdade - que o que chama de "Brócolis" é algo para além daquilo que nossa percepção e razão possam atingir. O estranho é que O Brócolis, subsumindo a essência de tudo, apesar de inexplicável, lhe seja algo tão claro e familiar. Se alguém tenta voltar à razão terrestre e afirma que brócolis são apenas plantas que servem para alimento como várias outras e, portanto, coisas, fica indignadíssimo pois comer Brócolis para ele é uma heresia incompreensível, grotesca e despeitadamente horrenda. A menção de um brocolicídio faz meu amigo desmaiar e chorar por meses a fio. Não se esquece de tal blasfêmia e não perdoa jamais tal sacrilégio: a partir de então, quem disse algo parecido é seu inimigo eterno. Percebendo esse comportamento, tomo todo cuidado e converso com ele sobre esse assunto com todo tato. Ninguém quer ferir as sensibilidades de um amigo, embora não as compreenda plenamente.


Ele diz que tudo que afirma é o normal. Quem sou eu para discordar? Pergunta ele. Parece que a certeza que emana de todas suas afirmações o torna onipresente. Mais de uma vez percebi isso, embora seja a primeira vez que compartilhe contigo, leitor. E é nas palavras dele que acabo sempre procurando alguma resposta a questões que me inquietam. Essas respostas por vezes me parecem sábias e reconfortantes, por vezes enigmáticas, por vezes pura lengalenga.

Mas ele não se importa de fato com o que eu acho. Afinal, ele sempre tem razão. E o bom-senso dele é o único que está certo. Disso eu também não duvido. Se não fosse assim, por que o que fala soa tão seguro? Uma vez foi tachado de megalomaníaco. Defendeu-se com um argumento - segundo ele, apropriadíssimo e brilhante - que ele é a pessoa mais modesta do mundo e com isso encerra bruscamente a conversa, não sem exigir aplausos.

Certa vez, perguntei-lhe por que sempre se veste de palhaço e, entre espantado e furioso, esclareceu-me que eu estava equivocado e que seus tufos laterais de cabelo, o pompom sobre seu chapéu em formato de brócolis, o seu nariz de bolinha vermelha nada têm a ver com os clowns, pois é assim que devia ser todo mundo. E eu sinceramente lamentei, tal foi sua bela argumentação, que toda gente não vestíssemos tal indumentária.

E o preconceito que esse ser me evocava às vezes, simplesmente por parecer ridículo e engraçadamente prepotente, acabou por esvair-se totalmente. De fantoche do humor alheio passou a ser necessidade de minha sobrevivência, mais importante que o dinheiro, a felicidade e a vida.

Se me perguntarem de que planeta ele veio, não saberia dizer. Seus atos são muitas vezes reprováveis, concederia a quem não o suporta; seu cinismo é de fato irritante. Por ele, todos faríamos o que ele julga certo: adorariam os brócolis, voariam, seriam onipresentes, comeriam beija-flores e (desconfio) os gatos que comem os beija-flores. Nesse ponto, meu amigo é voraz como um louva-a-deus. Sobre esse lado sinistro de meu amigo, ele não gosta de falar muito, a menos que o aprove. Apenas desconfio que ele nasceu bom, milhões de anos atrás, mas perverteu-o inconscientemente a sociedade, mais especificamente um programa de TV sobre um extraterrestre teimoso comedor de gatos, ou alguns YouTubes reprováveis. Exime-se sua culpa de novo, afinal, ele é tão simpático que esse defeitinho não o desmerece. Foi assim que Biberkopf perdeu o braço? Às vezes me atormenta essa dúvida nas minhas crises de insônia.



Se lhe disseres que ele tem defeitos, leitor, justamente ele, o modelo do bom-senso, frustradíssimo por não ser compreendido, chorará de dar dó. Perdoamo-lo rapidamente. Mas, simpatizando-se com ele, alguém lhe dirá que deveria deixar de ser cabeçudo e aprender novas coisas, pois só os milhões de anos de experiência não lhe bastam para ter tamanha arrogância. Sim, por vezes, vejo seu pompom atrás do vaso de flores, numa de suas patéticas simulações de que está frequentando uma escola: apesar de não enganar ninguém, está certo que seu disfarce é perfeito. Mas basta dizer-lhe que não caio nas suas tramoias e ele, após olhar-me espantado, dança e ri.

Uma hora, creio, vou dançar junto para ver o que dá. Quem sabe, assim eu descubra a essência dO Brócolis e as infinitas verdades da Brocolística, abscônditas e inacessíveis.


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