O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

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Genes não têm o que fazer. Adoram um dos melhores momentos da vida para brincar de baralho. Misturando as cartas, fazem uma bela zoeira. O resultado disso é mais vida no planeta. Nada mal. Passará aquela e virá esta. Acabou a história.
 
Mas... é só isso? Vivemos porque estamos vivos? Não é muito sem graça?
 
Aparentemente no carteado dos hominídeos surgiu um defeitinho que nos aterroriza. Esse probleminha que está na nossa cachola afirma incessantemente que deve haver um sentido em viver. E inventaram uma porção de sentidos para nos sossegar. Vivemos para isso, para aquilo, porque no futuro blábláblá, porque na outra vida blábláblá. Eu me pergunto: será tão difícil assim estar sozinho consigo mesmo? Por que é estranha a figura do homem primitivo e gregário? Não há por que estranhar, pois sempre fomos dependentes dos outros. Lendas afirmam que os homens eram sozinhos e só aprenderam a ficar juntos após construir as cidades e os templos. Não vejo razões para acreditar nisso. O bando faz parte da evolução dos primatas, seres gregários de forma ininterrupta. Nunca vi macaco sozinho. Por que teria havido um momento em que o homem solitário teria aprendido a viver em bandos? Nunca aprendeu, porque o homem sempre foi coletivo, desde seus mais primitivos e rabudos ancestrais. O ermitão, sim, é a evolução do homem coletivo ao solitário e não o contrário.
E o homem tem razões para preferir o bando a si mesmo: não temos dentes afiados para atacar, nem temos o rabo de nossos ancestrais para nos mover entre as árvores, não temos pelos para nos defender do frio e, além disso, temos uma cabeçona que mal nos deixa nascer. Como hienas, caçamos, nos defendemos e nos aquecemos melhor juntos. Esse macaco neotênico, de tanto ser selecionado por feras, de tanto ver seus parentes devorados pelos monstros que habitaram este planeta, precisou desenvolver um cérebro voltado para o trabalho conjunto e, com ele, nasceram a consciência, a paranoia e o medo. Surgiu finalmente o naked ape.
 

Em resumo, é isso: somos um bicho que se sente bem no aconchego do bando, por sermos indefesos, à mercê das fantasias de um cérebro que nos deu consciência, previdência e muita agressividade. Se se mexe um inseto do nosso lado, dá-lhe sapatada. Se é um mero passarinho, merece estilingada. Só pra ver o bichinho estrebuchar. Se queremos uma árvore, plantamo-la. Se a árvore nos faz sombra demais, cortamo-la. E, depois de aprontar tudo isso, vamos lá cutucar nossa arte: que bicho curioso é esse tal de homem! Não há toca em que não tenha entrado, não há clima que não supere, nem profundidade do mar, nem altura. É um bicho frágil e medrosíssimo, mas não podia e não pode demostrá-lo para os monstros que o circundam, nem aos seres inofensivos, nem mesmo para os seus pares. Por isso, o covardão bate no peito, urra e encena uma valentia convincente. Afinal, tudo que conseguiu foi na base da porrada. Nessas horas dá até medo desse animal ridículo. Mas havia uns bichões maiores, que não tinham medo desses showzinhos: avançavam com seus cornos e cascos pra cima dos bandos de enfezadinhos pelados. No entanto, a vitória dos mais fortes durou pouco tempo: o homem se armou de pedras e lanças. E caíram todos eles: mamutes, megatérios, gliptodontes, toda a megafauna e todas as baleias, à medida que o homem povoava os continentes.
O ser humano, depois de tanta vitória contra tudo, devia parar de ser medrosinho, mas não teve jeito. Não houve como o homem vencer a escuridão traiçoeira, o granizo, os tsunami, os terremotos, os vendavais, os meteoros, as doenças, em suma, a morte. Esses inimigos invencíveis começaram a ser chamados de deuses. E o que estava fora de seus limitados sentidos, sobretudo o invisível, passou a ser povoado de novos monstros, que não conseguia vencer. O macaco cabeçudo que povoara o planeta estava de novo com medo e, nessa época, nem tinha mais afinidade com a natureza que acabara de destruir. Há muitas gerações pensava que nada tinha a ver com ela. Criou suas etologias, suas explicações, surgiram xamãs, surgiram pregadores, surgiram filósofos e cientistas. A natureza passou a ser algo ao qual nós, ex-macacos, obviamente nos opúnhamos. Ela lá, eu cá.
 
 
E a oposição era tanta que o homem passou a pensar só na humanidade. No conforto de seus construtos mentais lhe bastavam as relações interpessoais, a política e a vida coletiva. Natureza era coisa do passado. Surgiram leis, surgiram regras e as religiões. Explicações oficiais, coordenadas com sua língua e cultura, seguidas de punições exemplares aos hereges. Surge o poder absoluto, os reinos e o comércio. É verdade que, nessa bárbara visão das coisas, os outros homens que pensam diferente nunca diferiram das espécies que foram extintas. Os homens sempre se mataram, assim como matam as outras espécies. Matam tudo o que é heterogêneo. Basta que pronunciem diferentemente e que a sua cultura seja distinta. Shibboleth. Por fim, mesmo a homogeneidade não escapou: matam dentro das sociedades que abrigaram as diferenças, matam dentro das suas próprias famílias. Não sossegam. Gostam de destruir e nem sempre têm consciência disso.
Mas quando está quietão, sem matar, sem falar ou sem pensar, o homem está só diante de si e percebe o vácuo da consciência do presente eterno: a náusea de estar só. O homem, tão agressivo, nessas horas sofre e fica tão frágil quanto a formiga recém-esmagada pelos seus próprios pés. Sente falta de alguém que lhe diga o que fazer. Alguém que lhe tire essa horrível sensação de consciência de que a vida é apenas o transcorrer do viver.
Nesse momento um megafone de um carro que vende xampus anuncia:
"Já percebeu como aqueles momentos especiais debaixo do chuveiro são capazes de transformar seu dia?" Isso! Aí está a sua salvação, homem solitário: o consumo! Compre! As propagandas querem induzir você a transformar uma experiência banal de solidão em um delírio orgástico. Entregue-se!
 
 
E o homem aprontou mais essa. Descobriu que tudo está bem ali, somente para redimir sua alma: livrarias, padarias, agências de turismo. Os produtos atuais são permeados de uma filosofia que faz seus consumidores sentir-se exclusivos, diferenciados, especiais. Consumi-los promove quase como uma mudança taurobólica, cujo sangue bovino nos redime, transformando-nos, escravos, em  almas livres. Milhões de pessoas prometem extrair de vez o seu mal-estar-consigo-mesmo, seu vazio, sua fragilidade, sua burrice. Basta acreditar. Se os prometedores acreditam, não é importante. E os que aceitam a ajuda de uma resposta certa tornam-se orgulhosos como Sócrates com o cálice de cicuta à mão. Sim: vemos vantagens nas teorias e cedemos de bom grado. Sócrates, por exemplo, cansado de chatear os atenienses, estava ansioso para encher o piquá dos mitológicos defuntos no Hades quando tomou um golão e empacotou. Isso sim é autoestima! Mas se você não tem, há quem venda baratinho. Quanto está disposto a pagar?
Mas isso me faz pensar que o mundo afundou, desde os pré-socráticos, na charlatanice da filosofia barata. E mais louco que Sócrates só Platão. Para ele, o mal era o resíduo do caos sobre o qual o Demiurgo moldou as coisas, inspirado nas Ideias. Por incrível que pareça, o produto vendido por Platão é o de que o real não é o real. O real platônico, o real de fato, é um troço hiperurânio, em suma, aquilo que Platão inventou para si mesmo, para que fosse o real. E que invenção! O Mundo das Ideias de Platão é uma espécie de pirâmide imaterial, com o Bem no topo, acima de todas as oposições, com as quais gera figuras e números ideais. Essa coisarada não estaria exatamente na nossa mente, mas em algum lugar (num mundo paralelo? acima de nós? abaixo de nós? não sei). São apenas alcançáveis pela nossa mente e pela nossa alma, numa espécie de lembrança. O Demiurgo é algo que não é nem ideia nem realidade, uma piração intermediária, um deus ensanduichado entre a birutice de Parmênides e o turbilhão de Heráclito. Ali no meio, por amor, essa figura estranha, inferior às ideias, mas superior à nossa alma, ficou a fim de por ordem no nosso chiqueiro material, criando a ilusão que nos atormenta. O Cristianismo gostou muito disso. Santo Agostinho tentou conciliar essas ideias com os livros do Velho Testamento, dizendo que as contradições e os absurdos eram figuras de linguagem. Kierkegaard também quase embirutou nessa tarefa conciliadora.  Demócrito foi esquecido e, ao que tudo indica, Platão seria o primeiro a liquidar seus escritos. O pré-socrático que defendia os átomos e o materialismo não concordava com a tese inicial de Platão: de que o sensível só pode ser explicado por algo que não é sensível. Mas parece mais sensato. Eu me pergunto, vendo todo esse esforço para aceitar a loucura ao longo de mais de dois milênios: afinal de contas, o homem não se contenta com os medos reais? Precisa de mais? Aparentemente sim.
 
 
 
Talvez criando medos irreais, o homem ache que o medo real seja fichinha. Ou talvez assim consiga o que mais deseja: perder definitivamente a capacidade de diferenciar o real do irreal. Se evoluísse para isso, talvez ficasse mais aliviado do tormento de sua consciência. O estado pré-racional seria, assim, o ápice da evolução: cabeças encolhidas e não aqueles supercérebros dos ETs. Por exemplo: os ursos polares também estão em extinção (como o homem já esteve um dia antes de ser salvo pelo seu cérebro inchado), mas não têm consciência disso. Quando dois ursos polares machos se encontram, frequentemente lutam até a morte, manchando a neve com o sangue vermelho. O macho, sem consciência marxista, pensa que o que está em jogo não é sua classe mas apenas seus próprios genes. "Dane-se a espécie", pensaria um urso, se fosse consciente como nós. 
Chegamos a tal nível de irracionalidade? Infelizmente não. Mas podemos fingir que somos irracionais, que não temos consciência, que we don't care. Pobre homem. Esse fingidor, porém, quando estiver sozinho, longe de seu bandinho junto com o qual fez seus excessozinhos, diminuída a adrenalina motivada pelo exibicionismo, sabe avaliar muito bem que tem culpa. Nessas horas, volta-se ao deus que inventou e pede perdão. Mas ninguém está ali. A besteira já foi feita. Com um pouco de sorte, pode enlouquecer-se e tornar-se de fato o irracional que tanto ambiciona. Ou então, pensando bem, com um instinto de autopreservação aguçado, possa chegar à conclusão, típica do Homo insipiens, de que o lance Matrix de Platão foi uma sacada e tanto.