O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O CRÍTICO E SEU COBERTORZINHO

Ultimamente, li dois textos interessantes que reforçaram minha tese aqui já várias vezes apresentada sobre a insipiência humana. O primeiro foi o livro do zoólogo suíço Ariel Adrean Roth Origins: linking Science and the Scripture, de 1998, e o segundo, o de Leo Huberman Man's wordly goods, de 1936. Gostei de ambos, no entanto, no primeiro caso, tive uma surpresa positiva; no segundo, negativa. Roth (sabia-o eu desde o início) é um defensor ferrenho do criacionismo e pensava encontrar lá argumentos xinfrins como os de tantos outros livros sobre o assunto. Pelo contrário, o conhecimento enciclopédico que demonstrou revela, com clareza, muitos problemas com o Evolucionismo (digo isso sem verificar, ponto a ponto, o quanto de tendenciosidade há em cada um de seus argumentos, entenda-se), de tal modo que poderia abalar as convicções de um neo-ateu, não fosse o problema que apresentarei a seguir. Huberman, por outro lado, resumiu com suavidade e elegância, em poucas páginas, toda a história da riqueza do homem, do feudalismo ao capitalismo, tirando dúvidas minhas há muito encalacradas para, de repente, mostrar-se um partidário ferrenho e cego do marxismo. O que motivou a leitura do primeiro texto foi o estímulo de um parente, a quem eu dera um outro livro (o incrível The case for God, de Karen Armstrong). Já a motivação da leitura do segundo livro foi uma professora de história da sexta série, que o louvou tanto a ponto de eu comprá-lo assim que ingressei na faculdade: o livro jazia na minha estante décadas a fio esperando ser lido. Aprendi muito com ambos, mas não posso deixar de externar o que neles há de comum, ou seja, aquilo que me causou espécie, a ponto de dedicar-lhe este texto.

Não me entusiasma o marxismo, nem acredito no criacionismo, mas tanto faz qual seja a minha opinião: não foi por isso que me espantei com ambos os livros. A causa do meu assombro foi o fato de eu estar perante duas pessoas inequivocamente muito cultas e, talvez por preconceito meu, sempre achar que pessoas cultas não fossem suscetíveis à ferocidade do fanatismo e à facilidade da obtusidade. Não há quem perdoe, porém, uma pessoa admirável como Santo Agostinho quando lê seus deliciosos livros porque sentirá nele (a menos que seja fanática e obtusa) o poder da contradição nas entrelinhas, que deseja solucionar com uma postura única e soluciona, optando edipianamente pela memória emocionante e emocional de sua mãe. Sente-se nele a dor da contradição que faz dizer o que diz. Por isso não deveria ter-me feito pasmar o que dizem Roth ou Huberman. Mas mesmo depois da experiência agostiniana, eles me deixaram surpreso. Talvez porque sejam tremendamente claros tanto ao expor seus fortes argumentos contra o que querem atacar quanto ao louvar uma tese adotada com pernas frágeis como os elefantes de La tentación de San Antonio, de Salvador Dalí. O contraste fantástico em sua argumentação afasta-os da contradição e aproxima-os de um disparate goyesco. E como isso é possível? Depois de muito pensar, cheguei à seguinte conclusão: para se conseguir tal façanha é preciso suspender todo o senso crítico exercitado na Entfremdung da apresentação das contraprovas. Só assim se defende uma tese disparatada.


Há falhas no evolucionismo? Claro. Quem diz o contrário recorre a insuportáveis ad hoc. Não discuto se a evolução é um fato ou uma teoria, mas o evolucionismo é sem dúvida uma teoria e, como toda teoria, há buracos, que necessitam ser tapados por variáveis, elementos introduzidos ex machina, hipóteses que requerem prova e contraprova popperiana, sugestões hipnóticas e até mesmo fé nos pressupostos. Toda teoria científica é assim e o evolucionismo não se safa, pois está longe de ser algo dedutivo como se vê no platonismo dos físicos, astrônomos e químicos. O evolucionismo fala sobre o tempo e, portanto, é heraclitianamente histórico como a geologia, a linguística e todas as chamadas ciências sociais, embora a história da evolução não tenha nada de cultural (se não chamo de cultura pavonina os flertes das pavoas que determinam as longas caudas dos pavões, obviamente). Desse modo, detectar brechas, inconsistências ou mesmo falhas de raciocínio no evolucionismo não o torna acientífico, de modo algum. E mesmo que se provasse com algum argumento absurdo que não há ciência alguma no evolucionismo, a opção que Roth nos dá é meramente o livro de Gênesis interpretado à luz de uma única doutrina de uma única religião. Não poderia alguém igualmente tresloucado, seguindo seu mesmíssimo raciocínio, concluir, por a mais b, que certa é a cosmogonia hindu ou xavante? Ou seja, escancarando a nudez dos pressupostos da ciência, o autor parece estar inflexivelmente cego para ver os pressupostos de sua religião predileta e de entendê-los como relativos perante a imensidão de expressões religiosas da Humanidade. Desmistificando a ciência como uma doutrina que não consegue seguir seus princípios seriamente, estaria Roth tratando-a como um tipo de religião? Com isso não posso concordar. A ciência - por mais errada que esteja nas suas bases ocidentais, por mais que tivesse merecido a maluquice dos jacobinos, por mais que se revele errada por dados falsos ou explicações ad hoc demais, por mais que Kuhn mostre que não é tão isenta e que seu sucesso se vincula a paradigmas nada científicos - continua sendo a ciência. Há um esforço da ciência em sempre ser ciência, caso contrário, ela sucumbirá nas trevas e terá falido. Se isso ocorrer, todos sabemos, viveremos com seus refugos no mundo de Mad Max, nem mais, nem menos. Ou seja, a ciência não pode ser algo eternamente parecido com a ciência, porque ou a ciência é ciência ou não é coisa alguma. Mesmo que haja setores falindo ou falidos por desgaste do modelo setecentista, não acredito que a ciência se implodirá por seu próprio discurso, antes serão os cientistas culpados de sua falência e não ela mesma. 

Apesar disso, Roth superou minhas expectativas preconceituosas: é um bom livro, para quem tem algum interesse epistemológico, mas não converte ninguém ao criacionismo, se esse era seu intento, da mesma forma que The God delusion de Richard Dawkins não transforma ninguém em ateu. Antes, esses dois livros têm a capacidade de transformar crentes não-praticantes e agnósticos em fanáticos defensores de uma auctoritas (respectivamente Roth e Dawkins) sem ter capacidade real de avaliá-los. Mas, tudo bem, isso está valendo no louco século XXI: o non sequitur parece estar definitivamente solto, como  nos infindáveis certames atuais que transformaram qualquer questão num Fla-Flu. Será o Satanás mencionado em Apocalipse 20:7? Ou será só a nosso tão batalhado direito a ter, finalmente, preguiça absoluta de pensar, já que a internet nos dá a papinha do conhecimento mastigadinha? O cérebro já diminuiu bastante desde o tempo do homem de Neanderthal; não custa diminuir mais um pouquinho.

Como eu dissera, Roth me surpreendeu positivamente. Já li coisa muito pior sobre esse debate criacionismo versus evolucionismo. Mas admiro-me como as convicções pessoais conseguem cegar a inteligência de alguém e transformar um Kant em um Tertuliano. É quase inacreditável a diferença de qualidade entre os capítulos em que expõe as tripas das falhas alheias e os em que defende uma alternativa. Não é possível fazer isso sem deixar o apolíneo senso crítico do lado de fora da cachola por um momento, para dar vazão ao orador catequético dionisíaco. Parece quase um caso de dupla personalidade. Fiquei interessado em ler outras coisas de Roth, mas, tal como ele, permaneço com minhas convicções, porque conheço bem o tipo de argumentação hellenwhitiana que está por trás da sua proposta pseudoalternativa e, sorry, não caio nessa.


O mesmo ocorre com Huberman. A deliciosa leitura, fluida, coerente e simplificada, espera um bote da serpente assim que o leitor termina a primeira parte e, reabertas as cortinas, vemos um fauno com um discurso eivado de entusiasmo pela solução socialista que, hoje sabemos, não soluciona nada. É até engraçada a defesa dessa solução, quando nos lembramos da dinastia Castro, dos stálins e das pol-potices dos kim-jong-ils da história. Não esperava (ou então sou muito ingênuo) que, daquele arrazoado que mostrava tão bem as ciladas da economia capitalista, viesse uma solução tão limpidamente fácil e descarada. O capítulo XXI, com seu tom altamente encomiástico à URSS, destoa tanto do resto do livro, que parece ser escrito por outrem. Consequentemente, perdi a vontade de ler outro livro de Huberman, pois preferiria ler um defensor mais inteligente do marxismo para entender o porquê de tanta animosidade contra os céticos da tese de que a implosão do capitalismo conduzirá necessariamente à revolução do proletariado. Sempre duvidei que um egípcio conseguisse prever que, após os milhares de anos de suas dinastias, apareceria um povo influente como o grego ou que, na ágora, alguém preveria que a após tantos anos de sofismas, surgisse algo como um Deus trino e uno ao mesmo tempo; ou mesmo que um Laplace pudesse prever a irracionalidade da filosofia oitocentista... Se é para pensarmos nas consequências epistemológicas de um pretenso progresso do espírito humano, à la Hegel ou à la Comte, fico mais com o plano divino e com a trapalhada humana, tal como propusera Vico.



O leitor benevolente que não concorda com autores como Roth e Huberman (ou com pelo menos um deles) explicará seu comportamento de maneira freudiana, ou seja, como humanos com algum tipo de fragilidade de longa data; tolerantemente entenderá que um texto é um texto é um texto é um texto. A falta real de solução para as encruzilhadas teóricas do evolucionismo e para a iminente implosão do capitalismo ou conduz a uma solução nova, algo dificílimo, senão quase impossível ou então ao ceticismo, outra via que não me agrada quando se toma o termo "cético" ao pé da letra. Uma terceira opção é imaginar a solução nova como já existente, mas sem marketing, ainda na esteira do raciocínio de Kuhn. A genialidade, a organização, a competência, a disciplina, o estoicismo e o planejamento não são do povo russo, como nos quer fazer engolir Huberman (sem Hellman's), mas do próprio Huberman: o povo russo que imagina é uma projeção (Freud de novo!) do quão brilhante é e aparentemente não percebe. Nunca imaginei que houvesse povo mais consciencioso e mais altruísta: parece birutice literária de um Thomas Morus (e, sorry, eu acredito mais em George Orwell). Huberman e Roth são notáveis, se seu fim era simplesmente convencer o leitor de que seu cobertorzinho preferido, que arrastam pela casa, é o mais cheiroso do mundo. Na melodia dos dizeres de Huberman, a burocracia bolchevique e os chefes improvisados da Gosplan parecem mais lindos que uma sonata de Bach. Mas, este olho é irmão deste. Não caio nessa, como já disse.

Leitor, por favor, se tu estiveres perante relatos e mais relatos pró ou contra uma tese, com insinuações e afirmações de calúnia contra sua antítese, as quais de alguma maneira te deem algum comichão mental, vê se o que está sendo dito não afronta a tua memória e o teu bom-senso: não sucumbas à tentação de deixar o teu senso crítico amarradinho do lado de fora, amordaçado para não ganir e acordar a vizinhança, enquanto ficas lá agarrado ao teu cobertorzinho, antes sente-lhe o fedor e não digas que isso é subjetivo.