O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

terça-feira, 31 de março de 2015

ESSE CORPO MATERIAL AINDA ME MATA

Não é fácil viver. Isso já muitos declararam. Contudo, o problema não está na vida, mas na consciência de que a vida é a única coisa que temos e que somente a temos por algum tempo. A vida antecede o nosso eu. Antes não éramos, logo não seremos, mas, conosco ou sem nós, a Vida continua. Isso é óbvio e certeiro, a menos que o Malin Génie de Descartes esteja de fato divertindo-se. Pensando nisso, um egípcio ou um indiano, vendo a feia lagarta se transformar numa linda borboleta, consolou-se com seu cérebro humano generalizador e metaforizou a metamorfose: viu-nos como lagartas. Mas a metáfora é falsa: a vida da lagarta é longa, apesar de limitada, e a borboleta, apesar de voar, tem vida breve. Não há uma pós-borboleta. A metamorfose não tem a ver com a transformação de nosso corpo em luz transcendental. Só serve de metáfora para um anseio humano.

E é incrível ver a certeza com que Platão narra sobre o Mundo das Ideias, como Plotino descreve com precisão as suas hipóstases ou como qualquer monoteísta fala sobre a vida pós-morte. Reencarnações e transmutações teorizadas pelos pitagóricos, pelos kardecistas e pelos hinduístas, qual a diferença senão no detalhamento descritivo de seu desejo? No fundo são apenas metáforas para nossa vontade de continuar vivendo.







Batismos - essa invenção persa herdada pelos gregos - que encerram a vida de uma hereditária impureza edênica ou que dão um upgrade num plano intangível, são atos estranhos: servem de consolo para aqueles que vivem uma vida que não desejam, determinada por alguém ou por algo que nunca viu. Tantos ritos, indígenas ou não, ecoam no fundo de nossa alma: quanta ilusão nas cerimônias de iniciação e de transição! 

Um casamento muda o nome, mas não transforma ninguém, nem o crisma, nem um bar mitzvah, nada vai para além do simbólico, essa fruta inexistente, único alimento da qual nossa psique se nutre.
O símbolo, essa ambrosia dos mortais que nos dá força e ânimo, determinação e segurança, anestesiando a consciência de nossa monstruosa ignorância. É a pauta de nossos sentidos e de nossos pensamentos. É aquela coisa que chamamos de alma, cegos e um tanto estupidificados, no torvelinho dos nossos espantos diários. Resistindo ao fato de que apenas somos um sistema (extremamente) nervoso coberto de carne e ossos, como um churro, queremos ser feitos de outra matéria distinta de tudo que nos cerca. Esquecemos quase sempre que somos apenas esse sistema nervoso e que a carne, julgada bela ou feia, na qual se pautam todos nossos amores e ódios, é apenas sua vestimenta. Tanto esse sistema nervoso, que é o nosso eu abscôndito e ignoto, quanto a carne e ossos que o circundam, são fruto de uma coisa que, por falta de melhor nome, chamamos de evolução, mas que na verdade não sabemos para que existe, porque a finalidade, afinal de contas, não foi invenção dos acidentes evolutivos. Frutos de gambiarras e desacertos, essa coisa chamada de minha vida parece única e especial, apesar de haver tanta vida à minha volta. Por puro afeto vindo da convivência comigo mesmo, amo-a ou odeio-a. A maioria, aparentemente, faz como eu: ama-a, mas não são poucos os que dão cabo dela, certos ou não de uma nova vida, melhor ou não, justificando-se nas profundezas dos seus ímpetos e no fundamento enredado de suas razões. Odiar a própria vida pode ser um defeito de constituição do sistema nervoso ou algo adquirido ao longo das depressões, frustrações e faltas da já por nós enxovalhada esperança, quimeras que tantas vezes nos deram óculos para ver além de nós. E é com esses óculos que amamos ou odiamos o que está ao nosso redor, chegando ao ponto de, num amok ensandecido, fazer desaparecer conosco até mesmo vidas que queriam continuar vivendo. 




Mas o normal, para não falar de tristezas, é amar a vida e o nosso entorno. Amamos tanto que o destruímos, cegos com a certeza de que ficará tudo melhor se for como nós pensamos. O homem irrequieto não para com suas eternas mudanças. Nem todos contemplam essa vida amorável sob uma ótica zen. Não é fácil ver que não podemos voar, que as montanhas são intransponíveis, que as profundezas do mar são tão colossais, que a Lua não esteja ao alcance de nossa mão, que não conseguimos ver através das coisas, que não conseguimos ler os pensamentos alheios, que jamais veremos o átomo, que jamais estaremos no fim do universo, que sequer conseguimos enxergar ou ouvir o demasiado pequeno ou o demasiado grande, ou mesmo o que esteja a uma certa distância de nós, que nunca entenderemos algo que já passou: tudo isso nos mostra que somos tão restritos quanto qualquer outro ser vivo. Para isso a curiosidade humana, a sua irrequietude e alguma capacidade técnica inata deram à luz as ciências, que reduziram algumas de nossas limitações e nos tornaram mais seguros e, às vezes, arrogantes. Também a religião nos deu consolos, quando não aumentou nossas paranoias. Por fim, o próprio homem, eterno inimigo de si mesmo, nos constrange como aquilo que nos excede. Não é incomum que tenhamos medo de sair de dentro da nossa toca na sociedade ultramoderna, como quando, escondidos na savana, tínhamos medo de atiçar as feras com nossos movimentos de símio.

E perante o grande, o gigante e o infinito, lançamos as mãos para cima, disfarçando nossa impotência, e dizemos "dai-me um corpo, ó montes", como no poema de Lucian Blaga:


Daţi-mi un trup, voi munţilor


Numai pe tine te am, trecătorul meu trup,
şi totuşi
flori albe şi roşii eu nu-ţi pun pe frunte şi-n plete,
căci lutul tău slab
mi-e prea strâmt pentru straşnicul suflet
ce-l port.

Daţi-mi un trup,
voi munţilor,
mărilor,
daţi-mi alt trup să-mi descarc nebunia
în plin!
Pământule larg, fii trunchiul meu,
fii pieptul acestei năprasnice inimi,
prefă-te-n lăcaşul furtunilor cari mă strivesc,
fii amfora eului meu îndărătnic!
Prin cosmos
auzi-s-ar atuncea măreţii mei paşi
şi-aş apare năvalnic şi liber
cum sunt,
pământule sfânt.

Când as iubi,
mi-aş întinde spre cer toate mările
ca nişte vânjoase, sălbatice braţe fierbinţi,
spre cer,
să-l cuprind,
mijlocul să-i frâng,
să-i sărut sclipitoarele stele.

Când aş urî,
aş zdrobi sub picioarele mele de stâncă
bieţi sori
călători
şi poate-aş zâmbi.

Dar numai pe tine te am, trecătorul meu trup.

Sim, a verdade, depois da náusea (Sartre não poderia ter dado nome melhor a esse sentimento), depois de separar o que é real do que é pura ficção inventada pelos outros ou nós mesmos, em vez da depressão que nos faz jogar de edifícios ou lançar aviões em montanhas, apenas virá certeira (e frequentemente passageira). Com a consciência dessa verdade, talvez alguma alegria, que remete à maior de todas as obviedades: somente temos e amamos o nosso corpo passageiro e, no entanto, flores brancas e vermelhas não pomos na nossa testanem fazemos tranças nos nossos cabelos. 

Sim,  o eu lírico desse impactante poema, porta-voz e embaixador da nossa angústia, declara que o corpo é feito do barro mole do Éden, mas paradoxalmente é apertado demais para a alma violenta que carrega. 

O homem pensa mesmo que o seu corpo é como a montanha ou o oceano, algo tremendamente poderoso, mas, sozinho, tem consciência de que não é, refletindo em silêncio ou durante um mero incômodo e inofensivo resfriado.


Nosso eu recalcitrante quer roubar o corpo dessas coisas monumentais para descarregar  toda a sua loucura. Quer que seu tronco seja feito da vastidão da terra e que do solo se faça o novo peito para seu coração impetuoso, que abriga os furacões que nos esmagam. Se assim fosse, todo o cosmo ouviria nossos grandiosos passos e apareceríamos impetuosos e livres como pensamos que somos. 

Nosso amor se estenderia por todos os mares, sob a forma de braços vigorososselvagens e ardentes. Atingiriam o céu e, conforme nosso arbítrio, apanhariam as estrelas resplandecentes para beijá-las ou quebrá-las ao meio. Da mesma forma, nosso ódio seria tão imenso que esmagaria, com nossos pés de rocha, até mesmo os sóis. Nesse gozo de onipotência, poderíamos sorrir.

Mas nosso corpo passageiro não é assim. Nem nossa vontade tão poderosa. Nem nosso autodomínio. Nossa força e sentidos não são ilimitadas. Nossa coerência sofre para chegar a ser, no máximo, kantiana. Beiramos o ridículo quando pensamos diferente. Nossa vida depende dos outros. Depende se ingerimos algo ou não, ou se abrimos a porta e pomos os pés para fora de casa, ou não. Ficar sozinho em casa esperando a tragédia poderia ser a solução, se a tragédia não viesse sempre do lado mais imprevisível possível.


Vai-se nosso corpo, vai-se o nosso eu. É a vitória do Leviatã. Não há jardim das Delícias, mas tampouco há caldeirão infernal que nos cozinhe. Ninguém verá Osíris. No Duat, nosso corpo, indiferente ao vestibular post mortem e pesagem de nosso coração, vai rumo a Ammit, síntese do tríplice medo e impotência dos antigos. Mesmo que nosso coração seja mais pesado ou mais leve que a pena de Maat, iremos para o mesmo lugar. O medo do que há no pós-morte impediu alguém algum dia de fazer algum mal? A perda da fé no pós-morte realmente fez com que alguém fizesse maldades? Muitos dirão que sim, mas eu tenho minhas dúvidas. Com ou sem esses mundos fantásticos, sabemos julgar o que é errado e excessivo, porque está entranhado na nossa moral, que independe de sacis e iaras glorificados. O mau, quer tendo nascido com a sua maldade, quer a tendo adquirido com o passar do tempo, é indiferente a isso, exceto se foi doutrinado por lavagem cerebral, cuja técnica do endoctrinement nos explica tão bem Olivier Reboul. Mesmo assim, paradoxo dos paradoxos: o mau não se preocupa com nada disso e o bom vive uma vida inteira com medo de uma outra vida que nunca ninguém viu, esperando-a como prêmio da sua bondade. Esse comportamento não parece digno de uma espécie que se diz superior às outras em inteligência. Trata-se, quero crer, de um pensamento inevitável, difícil de desentranharmos da nossa cachola malconstruída pela evolução.


O bom é que, findo o eu e nada havendo (nem sofrimento nem regozijo) tudo volta a ser como quando não existíamos. Ninguém fica triste porque não existíamos antes de existirmos. Deveria haver paralelo para o período depois que existimos, mas se não há é porque gostamos de existir. Mesmo quem crê em vida no pós-morte chora porque uma pessoa querida se foi. Se cresse de verdade, estaria feliz por estar melhor que nós, afinal nossos amigos todos vão para o Céu e se fizermos um esforcinho, também iremos. Mas parece que só os fanáticos pensam assim. Mesmo quem crê em vida pós-morte luta para não morrer e em nada a convicção de que há segundo tempo diminuem a sua tristeza e sua vontade de continuar nesse mundo em que nosso corpo não é equiparável ao de uma montanha ou ao do solo em que pisamos ou ao do vasto oceano. Mesmo quem diz crer na outra vida dá graças a Deus por continuar estando aqui, por causa da sorte de não ter embarcado rumo à morte, mas se cresse mesmo, acharia pena não ter tido a chance de vê-Lo no melhor dos mundos. 


Deixemos de hipocrisia se não temos propensão para o enfadonho fanatismo. Estamos contentes com o certo, ainda que reclamando sempre. Estamos felizes com nossa limitação porque o ilimitado, mesmo na cabeça do crédulo, é algo que não se tem pressa de experimentar. Ainda que sofrendo de dores atrozes, queremos aferrar nosso corpo ao barro de que Adão foi gerado, em vez de hipostasiarmo-nos no plano da substância pura e eterna. É perfeitamente possível ao desconfiado bicho-homem - que aprendeu a não confiar nem em si mesmo - pensar sobre a sua mais firme certeza: "e se isso tudo só forem palavras?".