O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

MEDINDO O NOSSO RITMO

Houve uma época em que o indivíduo se definia como um ser com uma alma. Tendo cada indivíduo uma alma, a definição era circular, ainda que entendêssemos por alma algo que é exclusivo de um único indivíduo histórico ou algo que é compartilhado por diferentes indivíduos reencarnados. Recentemente, a definição do que vem a ser o indivíduo alterou-se com o endeusamento do ácido desoxirribonucleico, que deveria ter como sigla A.D., A.D.O.R.N., quando muito ADN, mas é chamado de DNA pelo simples fato de macaqueamos hoje tudo do inglês e não mais do francês.

Mas o DNA não é a impressão digital perfeita de que precisamos para caracterizar um indivíduo. Gêmeos idênticos têm o mesmo DNA, apesar de serem indivíduos distintos. Todas essas identificações alternativas para a individuação são uma completa balela, pois qualquer um que pensa saberá o que é um indivíduo: nada mais que um ser com uma história única. Assim, como o signo é signo de si mesmo, na formulação peirceana, um indivíduo é um ser que tem uma história única e uma relação histórica única com outros indivíduos. Basta-nos essa definição, circular como todas as melhores definições que existem.

E essa relação, como é? Obviamente variada e multifacetada. Um blog não daria conta de descrever todas as relações que um indivíduo pode ter com outros indivíduos, até porque "indivíduos" não são apenas seres humanos: meu papagaio é um indivíduo, a jaqueira do meu quintal é um indivíduo, a pedra que está na calçada é um indivíduo, o chafariz da pracinha de Ibitinga também é. São indivíduos, porque são representantes de entidades inexistentes fora de uma mente chamadas ideias: o papagaio, a jaqueira, a pedra e o chafariz in se


Mas uma dessas relações sempre me impressionou: o ritmo com que um indivíduo conduz sua existência.

É normal que pedras sejam lentíssimas. Não são totalmente imóveis: não vemos o ferro da sua superfície oxidar-se. Não nos importamos se uma lasquinha dela se torne um outro indivíduo depois de um pontapé nosso. Pedra não tem pressa. Continua razoavelmente reconhecível, se outro indivíduo não a mói: continua pedra por milhões de anos. Se pedra tem alma, é polêmica entre animista e não-animista. Fato é que você pode esperar sentado observando-a e não verá mudança alguma numa pedra exposta na sua frente.

Uma planta se move, apesar de não parecer. Da noite para o dia, uma roseira floresce. Se deixarmos uma câmera filmando porque não temos paciência de ver a gavinha enrolar-se ou o botão desabrochar-se, constataríamos que um vegetal nem é tão lento assim, comparado com uma pedra, e que essa coisa de o adjetivo "vegetativo" ser sinônimo de "imóvel" é algo muito injusto. Plantas são até muito rápidas. Sua velocidade é proporcional às transformações da matéria química orgânica de que se compõem suas células. Mesmo assim, perante um animal, é lentíssima: uma lesma tem velocidade supersônica comparada à dum pinheiro. 

A culpa de não termos ciência do ritmo de plantas e minerais é da nossa percepção, que nem tem capacidade de perceber que nosso planeta tem uma velocidade orbital média de 107000 km/h. 

Uma longuíssima vida de um ácaro do ponto de vista de um outro ácaro sempre é uma brevíssima vida do ponto de vista de um humano. O ácaro tem seu ritmo. Não o comparemos com o nosso ritmo de primatas. Mesmo assim, espécies de ácaros têm ritmos específicos e ácaros individuais têm ritmos diferentes. Indivíduos humanos também têm, como todos sabem. 



E isso ocorre nas etapas da vida também. Uma criança tem pressa. Uma pressa enorme. Talvez não como a pressa dum filhote de ave, que, de alguma forma ainda inexplicada, absorve imediatamente o que deve ser feito no mundo ao sair do ovo: o cuco recém-nascido, ainda ceguinho, sabe que tem de jogar rapidamente os ovos dos irmãos, usando as costas, para fora do ninho, antes da mãe adotiva voltar, porque no futuro só ele deverá ser alimentado. Sabe de alguma forma que ficará muitas vezes maior do que a mãe. Os patos de Konrad Lorenz têm pressa de olhar para a primeira coisa que veem, pois essa coisa será a mãe, agindo igual àquele patinho do desenho do Tom e Jerry. Bebês têm pressa, muito mais do que brotos de samambaia. Um broto perdido concorre com outro e uma planta é um monte de indivíduos se estapeando, roubando espaço do galho vizinho para sua própria fotossíntese. Cada folha, cada flor, cada semente na mesma planta quer ser uma nova planta. Com animais, mesmo com os sésseis como as esponjas, nada disso acontece: o indivíduo se confunde com aquilo que seu sistema nervoso representa e o primeiro élan vital deve ser muito mais rápido do que de qualquer planta. 

Um indivíduo animal é menos do que é a continuação do esporo ou da semente numa planta que reunirá muitos indivíduos. Para um animal, um indivíduo é a história solitária de um espermatozoide que surgiu no mundo com a função de fecundar um óvulo igualmente solitário. Ainda que alguém veja alguma semelhança metafórica entre uma azaleia florida e um ninho de abelhas, não há semelhança alguma. O DNA das abelhas operárias não vale nada porque não será passado para a frente, pois abelhas operárias são assexuadas. Mesmo assim, ninguém negará que são abelhas individuais. Se é verdade que o tal gene egoísta permite que a abelha deixe, naquele que foi picado, seu ferrão junto com suas tripas e morra, fato é que um indivíduo estéril como uma abelha operária ou uma mula são seres vivos e, portanto, cada abelha e cada mula é sim um indivíduo como qualquer outro ser com DNA útil. Como disse, o que conta para a existência dos indivíduos é a sua história, não seu DNA. É a sua ontogenia, não sua filogenia. A lasca da pedra é outra pedra, é outro indivíduo; a planária cortada ao meio passa a ser duas planárias, dois indivíduos. Cada um terá sua história depois de lascado e cortado. Não há indivíduo sem história. E a história, diferentemente da percepção de serem um ou dois indivíduos, é dada pelo próprio indivíduo e não por quem o observa. A história a que me refiro não tem nada a ver com um observador: tem a ver com o que o próprio indivíduo vivencia, no seu próprio ritmo.

Enfim, é o ritmo individual numa história que o caracteriza como indivíduo. Esse ritmo, observado, tem diferenças individuais do ponto de vista do observador. A criança parece lenta, mas como o broto de orquídea, tem pressa: precisa de luz senão fica cega, precisa movimentar-se senão se atrofia, precisa ouvir uma língua mesmo não sabendo o que é porque está equipada para caçar formantes, de maneira absoluta, instintiva, sem saber para quê. Isso é um dos maiores mistérios de todos e, na tentativa de explicá-lo inventaram-se teleologias absurdas e causas finais tão antropocêntricas que fariam qualquer ser realmente racional explodir de risos, admirado com a pretensão das etiologias humanas.



A criança é rapidíssima: sabe de alguma forma, desde quando era espermatozoide, que foi botada num mundo, onde se ouve um monte de barulho. Não é uma coisa nova, mas é um indivíduo de uma espécie. E não dispõe de nenhuma tabula rasa. Em sua cabeça há algo que lhe ordena: "preste atenção, cace formantes, imite, não pare". E veja que uma criança humana, dados o seu cabeção e seu aspecto de símio pelado, é um dos animais mais lentos que existem! Um filhote de gnu, ao nascer, cai, livra-se da placenta e já está preparado para correr junto com a mãe, fugindo dos guepardos. A estranha neotenia dos humanídeos deixou tudo bem lento, comparando-se com as proezas que fazem os peixes e outros vertebrados.

O ritmo cai, sossegados que ficamos, com a aquisição de uma muleta chamada língua, algo tribal que nos ilude, pois o mundo não é o que a língua diz que é, de tão filtrado que já está depois das restritíssimas limitações de nossos sentidos. A língua dos que acolhem as crianças humanas, desamparadas, enquanto seu cérebro incha com o intuito de coletar tantas indispensáveis fantasias históricas, é uma peneira sofregamente adquirida. Depois disso, fim da agonia: estará prestes para o que dizem ser o mundo. Seu ritmo decai. Mesmo assim, parece rápido demais quando vemos os inconstantes adolescentes, com sua dicção muito acelerada pelas novas e cada vez maiores ansiedades que o mundo lhes apresenta. Até há pouco tempo um mundo estava limitado à aldeia em que se nascia; hoje o mundo que abraça os recém-nascidos é um gigante que golfa instruções, difícil de ser assimilado, por mais rápidos que nasçamos. E como os jovens não têm como assimilar tudo, porque é impossível, sabem tanto quanto no tempo das pequenas aldeias, ainda que saibam mais coisas de fora de sua aldeia.

O cérebro não vai perder tempo aumentando para se adaptar à internet, pelo contrário, vai retrair. Se continuasse no ritmo da globalização, não nasceríamos. A despeito da opinião apocalíptica do profeta Yuval Harari, o cérebro não produzirá mais do que aquilo de que necessitamos. O cérebro cresceu quando o homem estava em perigo; se um dia for onisciente, não precisará de cérebro, que é o cúmulo  da confusão dos órgãos: por que Deus teria necessidade de lembrar-se? Um memória só serve para ser esquecida, reprimida ou recordada e um ser onisciente não precisa de nada disso, porque Ele sabe. O homem cônscio de todas as aldeias é um ser relaxado, que só precisará daquilo que seu presente exige. Conhecimento do passado, por exemplo, será algo inútil e não é preciso profecia para perceber isso. Basta ler os textos do passado para ver que há tempos o passado não é algo que nos completa.

Sabendo já a língua de nossa tribo, por que precisamos continuar prestando atenção em formantes precisos? A língua não é uma abstração, é apenas um desleixo necessário. Sem esse desleixo, o que importa mesmo é de um egoísmo que deixaria corado qualquer renascentista antropocêntrico. Não é o homem, mas o eu o que importa: a picaretagem do tagarelar filosófico oitocentista e novecentista já mostrou isso. Estamos já no paroxismos dos ideais pós-iluministas, surpresos como as personagens do livro Felicidade, de Eduardo Giannetti. Não haverá homem apolíneo. A muvuca do dionisíaco está a todo vapor. E quem pensa que isso significará maior tolerância está redondamente enganado. Sorte é que depois de destruída a atual humanidade talvez haja de novo evolução stricto sensu do hominídeo e, quem sabe, será a vez ou de uma das muitas espécies que se formarão por isolamento ou de algum outro bicho, pra variar, com algum outro órgão mais inchado que o prosencéfalo. Mas evolução não quer dizer cérebros ainda maiores ou mais eficientes: não haverá, no mundo em que evoluções são permitidas pela natureza, nenhum obstetra abalizado para permitir o parto de tais futuros humanos megacabeçudos. Os caminhos da evolução são insondáveis como os do acaso.



Uma interação social permite compararmos a variação dos ritmos individuais. Se é verdade que um mesmo indivíduo tem ritmos diferentes em distintas etapas de vida e se é verdade que, num mesmo dia, flagramo-nos com ritmos distintos, não há como negar que o ritmo de cada um só se mostra durante uma interação.

Não precisa ser o ritmo real, pode ser o imaginado. O velho que anda devagar na frente do jovem, com um guarda-chuva aberto, impedindo-o de ultrapassá-lo, enlouquece quem tem pressa, que, furibundo, solta um bafo de reprovação, ao conseguir desvencilhar-se do trambolho. Mas se o jovem pensasse que a pressa vem da meta diária, que é apenas uma das facetas do finalismo, talvez fosse mais tolerante. Na verdade, o que tem pressa não sabe aonde quer chegar. Apenas quer ultrapassar, maldizendo o que é lento. Não importa a causa da lentidão: o indivíduo com velocidade menor é uma pedra, uma touceira, uma lesma. Não é visão compartilhada por um carnívoro veloz como o mabeco, que certamente adora seres lentos, aliás, petiscos deliciosos. A lentidão em nada influencia o sabor da sua carne. Para o jovem mabeco, o lento e velho animal é causa de felicidade e não motivo de fúria.

O culto à rapidez chegará ao fim um dia. Não me refiro às vascas da morte individual. Não faz sentido a ideologia que iguala o mais rápido ao mais eficiente. A rapidez excessiva tem seu momento e sua utilidade, por exemplo, quando em vão tentamos fugir de um leopardo, mas na vida de hoje, com tantas comodidades, cumpre ser um pouco distenso. Não é preciso que a artrite nos atinja e que sejamos lentos porque não conseguimos ser rápidos. É preciso não desejar ser rápido. Há, de fato, milhões de produtos para consumir, o mundo inteiro para entender, todas as línguas para dominar, todo conhecimento para assimilar, mas calma: sempre fizemos isso quando saímos da nossa aldeia e numa quantidade dez milhões de vezes menor já era impossível há muito tempo, bem antes de eu e você termos nascidos, caro leitor. Por que satisfazer o que quer nossa ansiedade seria possível agora? Uma percepção imprecisa e instintiva de poucos formantes já nos bastou para que criássemos fonemas e entendêssemos o mundo. Por que a precisão agora seria necessária se jamais viveremos eternamente?