O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

domingo, 29 de dezembro de 2019

A FRIALDADE INORGÂNICA DA TERRA

Se há causas, então as gradações entre o que é quântico, atômico, químico, biológico, social e individual existem em saltos didaticamente comtianos, mas se não as há, cobre-nos uma serração tão densa, que nosso terceiro olho jamais conseguirá intuir o que há por trás. Ou são falácias os pressupostos que nos cercam ou são de uma inabalável e misteriosa verdade. Se Laplace não está certo, então o mundo foi feito para que nós, filhos mimados de Deus, o observássemos. Ou a bola de bilhar bate em outra, de fato, na mesa de Hume ou o relativo que se dane, pois só estamos caindo infinitamente num precipício. Ou a flecha de Zenão atinge o seu alvo ou estamos numa infinita tese/antítese verbal entre o que há e o que não há. Ou estamos num otimista ensopado de desconhecimento ou nem sequer poderemos saber o que ignoramos. Não há uma terceira opção, a não ser para aquele que diz que tanto faz. Esse, contudo, segue o ritmo de alguma coreografia, sem sabê-lo, mistura ovos com bugovos e sequer saberá um dia do que estou falando.

Dizem que a Química é um passo no edifício científico, situada entre as trovoadas elétricas com raios portentosos vindos de núcleos atômicos e a primeira mitocôndria ou o primeiro cloroplasto. Na didática escada entre o fosso sem fim dos quarks e o livre arbítrio de um hominídeo, está a Química, diz o beato que se denomina positivista. Ela é tudo e ela não é nada, como o são todos os degraus dessa escada e de escadas similares.

Oliver Sacks amava a Química, como nos conta em seu Uncle Tungsten: memories of a chemical boyhood (2001), escrito quatorze anos antes de morrer. Podemos discutir se a alma de Oliver Sacks vive algures, mas seu corpo, o mesmo que escrevia seus admiráveis e cativantes livros, hoje indubitavelmente é só química. Se há uma alma eterna destinada justamente a Oliver Sacks, ela não nos ensinará mais nada, pois tudo o que sabemos do indivíduo Sacks está nas lembranças de quem o conheceu e ainda vivem, metaforicamente, apenas nas suas declarações, reportagens e textos que deixou. Comecei a escrever mensalmente neste blog há sete anos, como serei daqui a mais sete? Leitor, procura-me em 2026 e responde-me se desci a escada da Biologia para a Química, graças aos seres decompositores.



Só sei dizer que a Química de que falarei e que nos importa não é a tabela de Dmitrij Mendeleev, do hidrogênio ao oganessônio. Isso é coisa demais. Para nosso mundo, bastam duas dezenas de elementos. Pode até ser que o pouco urânio que há entre nós rachará o planeta num infeliz dia ou que devemos muito ao hélio que está lá longe, no sol. Para mim, tanto faz. Danem-se todos os gases nobres. Não devo nada a eles, diretamente, a menos que estejamos falando de cadeia de causas que constrói a fictícia escada. Aí sim, não gostaria de ser injusto: muito obrigado ao tataravô do tataravô do meu tataravô pela sua contribuição como gameta e mais ainda ao acaso, pois de tantos óvulos e espermatozoides desperdiçados, justamente a exata sequência de linhagem culminaria em mim, gerando-me. Não, não vamos detalhar demais essa química inútil. Falemos do essencial.

E o que seria o essencial? Se tudo fossem pedras neste planeta, não haveria diferença entre o grande e o pequeno, entre o irrisório e o abundante, entre a lava e gás nobre. Tudo estava apenas no perpétuo vir-a-ser heraclitiano. Mas a vida nos deu a ilusão de um stop and see. Eis que do inorgânico surgiu o orgânico, dizem, mas talvez esse dia momentoso só seja desde sempre uma metáfora inversa. Indubitavelmente a única coisa que sabemos é que de orgânicos nos tornamos inorgânicos. "Faça-me o obséquio de trazer reunidos cloreto de sódio, água e albumina" já disse um famoso paraibano, nascido em Sapé.

Moída toda a inorgânica massa da Terra, teremos irrisórios percentuais de hidrogênio, contudo o hidrogênio está em 65,4% de tudo que é vivo. Se há algo que podemos associar à vida é esse átomo inclassificável, que não se enquadra em nenhum outro grupo que poderia chamar de irmão. Abundante na vida, abundante no universo, raro na crosta terrestre e na sua atmosfera. O maior de todos os mistérios.

Estranho isso, porque diríamos que é o oxigênio que molda a vida, mas de que vida estamos falando? Da nossa?  Não se esqueça de que estamos nos degraus do meio da pseudoescada comtiana. Não. É exatamente o contrário: o oxigênio é o elemento mais frequente dos seres que não são considerados vivos: o corrosivo oxigênio está em 63% de tudo que é mineral contra 25% daquilo que vive na Terra. Para a vida, o oxigênio é literalmente secundário, uma espécie de Zeus que destrona injustamente o Kronos de hidrogênio. E não nos esqueçamos do terceiro lugar: o carbono, que equivale a 7,5% da massa da vida e, ao mesmo tempo, forma irrisórias porcentagens naquilo que não vive. Se somos esse buquê de hidrogênio, oxigênio e carbono, a morte é um ser tricéfalo de oxigênio, silício e alumínio. Há, de fato, essa Guerra Fria entre a Biologia e a Geologia ou isso são fake news? Há tanto silício naquilo que não vive quanto há oxigênio nos seres que rastejam ou movem seus cílios e flagelos. Há tanto carbono naquilo que se reproduz quanto alumínio naquilo que cede sem delongas aos flertes  da Física. E o que se segue? Para os vivos ainda há o que se dizer sobre o nitrogênio, o fósforo e o enxofre; para a desolação da não-vida (que nada mais é que sinônimo de pré-vida e de pós-vida) merecem resenha ainda o sódio, o cálcio, o magnésio e o potássio.

E é aí que nos enganamos e onde tudo se mistura: aquilo que compõe a não-vida e que não é alumínio nem silício é preciso para que a vida se efetue, embora aquilo que esteja nos rankings menores da vida não pareça afetar a serenidade eterna da não-vida. A vida, portanto, depende daquilo que se considera morto. O sódio corresponde a 0,001% da massa da vida e também faz parte de 2% da não-vida. Idem o potássio. E nosso equilíbrio hídrico depende de ambos esses elementos.

Hidrogênio, sódio e potássio são do grupo 1 da tabela periódica. Só os dois últimos são metais alcalinos. O lítio também é, mas tanto faz: para a maioria da vida terráquea, o lítio não importa. Aliás, quase todos os elementos abaixo do quarto período não têm relação óbvia com o que vive, com exceção do pesado iodo e do molibdênio, sem o qual nossa tireoide e nossas enzimas sofrem e extraímo-los do leite, peixes, mariscos e cereais. Sem o sódio e sem o potássio não haveria equilíbrio hídrico, nem impulsos nervosos, nem relaxamento muscular, teríamos problemas na regulação sanguínea, não haveria síntese do glicogênio e de proteínas. Ao longo da nossa existência pós-rastejante e pós-escalante, os depilados hominídeos lambemos sal avidamente, bebemos leite e comemos carnes, frutas e verduras: nosso fígado fornece o piruvato para nosso círculo de Krebs e o lítio que se lasque.


Um nadica de matéria e o sódio se transforma em magnésio e, abracadabra, o potássio se faz cálcio, desencarnando de suas vidas alcalinas para assumir um corpo alcalino-terroso. E eis que magnésio e cálcio são importantes para nossas contrações musculares e para tudo que produz energia em nós, para nossos ossos e dentes, para a coagulação, para nossos batimentos cardíacos. Nosso modus vivendi nada autotrófico precisou e precisará de mais leite e verdura. Sem vegetais e sem ovelhas, cabras e vacas não haveria o homem?

Mais estranho é precisarmos de cromo, manganês, ferro e cobre para nosso metabolismo: da mesma forma que o oxigênio era venenosíssimo para nossos avós unicelulares fermentadores, que seria da nossa hemoglobina e da nossa respiração sem esses metais de transição? E se não tivéssemos extraído zinco de mariscos, ovos e fígado, como seriam nossa cicatrização, nossos hormônios e nossa digestão? Estranho! Não precisamos de escândio, titânio, vanádio, níquel, ítrio, zircônio, nióbio e tantos outras pecinhas da puzzle de Mendeleev: nossa vida não requer nada disso. Boro, gálio e arsênio não são bem-vindos, mas sem selênio não há tocoferol: e o macaco que só comia frutas precisou de mais mariscos, fígado e carne para deixar de ser anêmico e infértil. E os sambaquis provam como nossos ancestrais se dedicaram a isso. Nossos ossos e dentes dependem de flúor, além de fósforo. Flúor? Não me espanta que até ontem éramos todos banguelas. Aliás, sem fósforo não há ATP nem ácido nucleico. Haveria uma greve dentro de nós. Todos sabemos que flúor, cloro e iodo são halogênios necessários à vida, mas... por que não o bromo? Se eu me encontrasse um dia com Deus, perguntaria isso, assim que ele parasse de me mandar figurinhas pelo WhatsApp.

Mas de todos os não-metais, o mais interessante é o nitrogênio. Que seria a vida sem nitrogênio? Uma vida que não se reproduz?  Uma não-vida? A que se uniria a desoxirribose de nosso DNA? Sem as bases nitrogenadas púricas e pirimídicas, não haveria prêmio Nobel nem para Watson, nem para Crick. O nitrogênio é o sopro de Deus, é o fiat da vida no barro de Adão. E esse sopro não poderia jamais ser absorvido por nossos pulmões. Porque quem fixou o nitrogênio na Terra não tinha pulmões. Sequer eram plantas, mas bactérias. Se não fossem cianobactérias, o nitrogênio boiando no ar não se transformaria no íon amônio. Se não fosse a Nitrosomonas na terra ou o Nitrosococcus no mar, o amônio não se tornaria nitrito. Se não fosse o Nitrobacter na terra ou o Nitrococcus no mar, esse nitrito não seria nitrato. Se não fosse o íon amônio e o nitrato não se formariam as bacteriorrizas e nada seria absorvido pelas raízes das plantas. Que plantas preexistiriam a elas? Se não fossem outras espécies de bactérias desnitrificantes, o nitrogênio não voltaria ao ar. Se não fosse o chorume de nossas excretas e de nossos cadáveres, o solo não teria nitrogênio suficiente. Sem as bactérias que fazem o milagre de serem ímã de nitrogênio não haveria vegetais porque as plantas não conseguem respirá-lo a não ser em ação coordenada com essas bactérias e nós, animais, não obtemos nitrogênio de outra forma a não ser pela alimentação. Nós, animais, pagamos nosso tributo, contribuindo para  o ciclo com nossas excreções de ureia e ácido úrico e com nossa morte.


Será toda a complicada engenharia da vida apenas uma forma de sermos pasto para essas admiráveis bactérias, que dependem de nossas excreções e de nossa morte assim como precisamos de ovos para  termos retinol suficiente para nossa pele não ficar escamosa e não sofrermos de cegueira noturna? Será que todas as nossas mitoses e meioses, com suas incríveis prófases, metáfases, anáfases e telófases, que geraram tantos Júlios Césares, Olivers Sachs, da Vincis, Adams Smiths, Teslas, Mao Tsé-tungs e Stalins não é apenas um pretexto para sermos repastos de bactérias, essas sim, senhoras do nosso planeta, imagem e semelhança de um ente divino abscôndito? Enquanto isso, ilude-nos o evangelho da cobalamina e, por causa de seus versículos, entupimo-nos de ovos para termos bons neurônios e glóbulos vermelhinhos e fugimos da satânica malformação de hemácias. Continuamos roendo nozes em busca do santo graal de ácido fólico para que nossos fetos nasçam viçosos. Embriagamo-nos com um coquetel de tiamina, riboflavina, nicotinamida e ácido pantotênico, para, com a boca cheia de cereais, cantarmos loas à nossa sapiência e esconjurarmos o beribéri e a pelagra, a insuficiência cardíaca, a fotofobia e os formigamentos. Saltitaremos por causa de nosso excelente metabolismo de carboidratos e de nossa respiração celular, que nos dará ainda alguns anos antes de entrarmos no menu dos decompositores, voltando a ser, entre muitas coisas, o nitrogênio com seu místico número sete.

Da moira desse picnogênio livrai-nos, ó são Augusto dos Anjos! Eis a mais inútil das orações.

sábado, 9 de novembro de 2019

DAS GUERRAS PÚNICAS AO BANCO CENTRAL BRASILEIRO

Quando eu era menino, uma vez, minha tia Lúcia me mostrou uma moeda antiga. Ela tinha grande apreço por aquela peça e não deixava ninguém mexer, pois dizia ser uma raridade. Disse que a tinha ganhado de um padre italiano. Havia inscrições nela e, depois de muitos pedidos, concedeu-me a honra de inspecionar sua valiosa relíquia e eu, provavelmente sem que ela visse, pondo um papel sobre a moeda, consegui decalcar com o grafite de um lápis as imagens do seu anverso e do seu reverso. Também tentei desenhá-la o melhor que pude no mesmo papel, como se vê na foto abaixo. Fato é que depois da morte de minha tia, a tal moeda desapareceu e, com o tempo, pude observar que de fato aquela moeda, que parecia de prata, devia ser muito antiga mesmo e ter algum valor. Num dos lados havia a representação duma embarcação sobre a qual estava escrito Q.LVTATI e no outro, uma efígie com a inscrição CERCO. Dias atrás encontrei o papel e resolvi perguntar ao meu sapientíssimo colega José Marcos se ele teria alguma ideia do que se tratava. Eis que sou informado por ele de que era um denário comemorativo de 109-108 a.C. que celebrava as vitórias navais de Quintus Lutatius Cerco contra os cartagineses na Primeira Guerra Púnica, ocorrida quase um século e meio antes. A distância entre o evento comemorado e a cunhagem do denário equivaleria temporalmente a uma moeda hoje, em 2019, em que se comemorasse a libertação dos escravos de 1888. Por outro lado, a distância entre a moeda de minha tia e o dia de hoje equivaleria aos vinte e um séculos de sua sobrevivência. Cunhada às vésperas do consulado do meu xará romano, faltava ainda um século para que os reis magos visitassem um certo menino nascido numa manjedoura, filho de uma famosa virgem. Meu primo, o primogênito da mesma tia que detinha essa raridade, acabou informando-me que a moeda se perdeu, assim como tudo que é guardado a sete chaves. Fim da história da moeda romana que apareceu e sumiu no interior de São Paulo.


Desde pequeno gosto de colecionar coisas (comecei com insetos, pedras, tampinhas de garrafa, maços de cigarro, livros) e herdei de meu avô uma pequena coleção de notas e moedas antigas, que tentei organizar o melhor que pude. Quero dizer, pensava que eram antigas, mas entre elas não havia nenhuma nota de réis. Adquirindo o catálogo de Cédulas do Brasil, de Claudio Amato et al. soube que a primeira cédula de réis é de 1833, segundo ano do reinado de D. Pedro II, quando ele tinha apenas oito anos e faltavam ainda mais oito para a sua coroação, ano em que Darwin viajava pelo mundo, em que Mérimée se envolvia com George Sand, em que Rugendas estava no México, em que os turcos deixam Atenas, em que os miguelistas foram vencidos em Portugal e se instala o liberalismo, em que Heine se exila em Paris, em que Lamartine é eleito para a Câmara de Deputados, em que Donizetti apresentava suas óperas Torquato Tasso e Lucrezia Borgia... enfim, um ano como qualquer outro. A primeira nota brasileira (a chamada R001 no catálogo de Numismática mencionado) mais parecia um cheque: no reverso não havia nada e, de fato, estampas no reverso só virão a aparecer a partir de 1870, quando D. Pedro II já contava 45 anos, sendo a primeira uma nota de 2000 réis (R014). A função do primeiro papel-moeda brasileiro era a de troco do cobre na província do Ceará. O preço de notas antigas varia muito dependendo do seu estado de conservação: num estado lastimável, que poderia ser encontrada com muitíssima sorte numa feira de bugigangas, vendida por alguém bem informado, equivaleria a duas notas e meia da cédula atual de maior valor, mas num bom estado de conservação, pode chegar a trezentas dessas notas. Curiosamente, a nota mais antiga não é a mais valiosa e eis aí uma das coisas mais antiituitivas da Numismática. O valor de uma cédula antiga está relacionado a diversos fatores. Desse modo, a primeira nota brasileira vale menos que uma rara nota de R$100,00 conhecida como "Ricupero sem Deus", feita em 1994 (C326) e há notas antigas que valem muitíssimo mais: percorrendo o catálogo acima mencionado, vejo, um tanto apressadamente, que talvez a mais valiosa seja uma cédula impressa três anos depois da primeira de todas (a chamada R067), com uma tiragem de pouco mais de sete mil exemplares, que equivaleria, num estado de conservação conhecido pelos numismatas como "supremo", a um valor quarenta vezes maior, ou seja, a um pouquinho mais do que um Mercedes Benz B 200 1.6 CGI Flex 7G-DGT 2018, pelo que o Google me informa agora.

A relação entre antiguidade, conservação, raridade e demanda que culmina num preço de catálogo não é algo fácil de entender. A moeda de minha tia pode ser vista em leilões da internet, mas, se com a nota super-rara de 1836 eu poderia comprar quarenta notas de 1833, a supracitada moeda antiga, apesar de seus 2127 anos, tem valor menor, às vezes um décimo do valor da primeira nota brasileira. Isso tudo parece um contrassenso. E é.


As notas brasileiras têm muitas particularidades que encantam colecionadores. As caríssimas notas de réis ocupam metade do mencionado catálogo. E há muitas estampas. Imagino que até o surgimento do cruzeiro em 1943, era preciso checar o valor e não a cor ou as dimensões das notas, tamanha era sua diversidade. Por exemplo, dez estampas diferentes foram impressas nos três anos do primeiro governo da República, de Deodoro da Fonseca, de 1889 a 1891, e o número de estampas foi multiplicando-se, de modo que só durante o governo Afonso Pena, entre 1906 e 1909, imprimiram-se vinte estampas diferentes: três de cinco mil réis (R091, R092 e R093), três de dez mil (R103, R104 e R169), três de vinte mil (R114, R170 e R115), três de cinquenta mil (R171, R123 e R124), três de cem mil (R135, R172 e R136), duas de duzentos mil (R173 e R147), duas de quinhentos mil (R157 e R174) e uma de um conto de réis (R175). Cada presidente da República Velha que subia ao poder apresentava um outro enxame de estampas exuberantes: só com Artur Bernardes, de 1922 a 1928, foram trinta e três. Mesmo Getúlio Vargas, entre 1937 e 1942, valeu-se de dezoito estampas diferentes de réis. O cruzeiro surgiu abstratamente: no anverso da nota C001 se dizia "um mil réis", pois era idêntica à nota R193 e nem carimbo havia para distingui-las: se o seu número de série ia até 278, eram réis, mas de 279 em diante, eram cruzeiros. Não é estranho que o termo merréis tenha sido desde então sinônimo de qualquer outro nome oficial (curiosamente algo muito parecido ocorre em Cabo Verde para os escudos, chamados de merrés pela população). Outros valores tiveram a mesma sina, até o surgimento de cédulas em 1943, nas quais estava, de fato, escrito, "cruzeiro", ainda autografadas como se fossem cheques. Detalhe: a primeira nota de dez cruzeiros, de 1943 (a chamada C018), tinha a estampa do próprio mui modesto Getúlio. Quando em 1966, no governo Castelo Branco, surgiu o Cruzeiro Novo, também apareceu a técnica do carimbo redondo, que eu vivenciaria posteriormente: a nota C113 tinha a mesmíssima estampa de Getúlio da nota de 1943, mas passava a valer um centavo de cruzeiro novo. Mais um detalhe: nessa nota, a palavra "ministro" estava grafada errada ("minstro"), corrigida mais tarde. Em 1970, as estampas mudam radicalmente com a ascensão do presidente Médici, mas o dinheiro ainda se chamava cruzeiro. Em 1986, sob o governo Sarney, o cruzeiro vira cruzado e os carimbos voltam: a nota com a figura do ex-presidente Juscelino Kubitschek valia cem mil cruzeiros na primeira versão de 1985 (a C176) e, carimbada um ano depois, valia cem cruzados (C179). Talvez culpando o formato redondo do carimbo, adotou-se auspiciosamente um triangular: a nota de dez mil cruzados, lançada em 1988 (C196) com a estampa de Carlos Chagas se tornaria dez cruzados novos (C202) em 1989. O presidente Collor usou carimbos retangulares, para trocar novamente o nome da moeda, e a nota de cem cruzados novos, de 1989, com o rosto de Cecília Meirelles (C206) da era Sarney se tornaria cem cruzeiros em 1990 na era Collor. O cruzeiro ganhou muitos zeros, por causa da inflação, de modo que, em 1993, um retrato de Mário de Andrade estampava uma nota de quinhentos mil cruzeiros (C231), que se tornariam, mediante carimbos novamente arredondados, em quinhentos cruzeiros reais (C236). A nota conhecida como a "baiana", de cinquenta mil cruzeiros reais (C240) foi a última da era pré-real. O cruzeiro real durou menos de um ano e a nota de dez mil, a "rendeira" é uma figurinha muito bonita à venda nas feiras, mas nunca circulou de fato.

Em meio a essa odisseia, há muitos detalhes curiosos. As 111 séries da chamada "nota do índio", de cinco cruzeiros de 1961 e 1962 (C111 e C112, respectivamente durante o governo Juscelino Kubitschek e João Goulart) é colecionada por alguns como um tipo especial de fetiche. Outros têm fissura pelas numerações baixíssimas. Cada maluco tem seu gosto. As notas plastificadas de dez reais de 2000 e 2001 com o rosto de Pedro Álvares Cabral (respectivamente C331 e C332), lançadas durante o governo FHC, inflacionaram-se, como as moedas da Olimpíada brasileira, por causa de colecionadores assistemáticos. Detalhe: na primeira se diz "Pedro A. Cabral" e na segunda, o "Álvares" está escrito por extenso. Em 1961, durante o curto governo Jânio Quadros, outro detalhe curioso: as notas de dez, vinte, cinquenta, cem, duzentos, quinhentos e mil cruzeiros (respectivamente C019, C022, C028, C034, C041, C046 e C054) voltam a ser todas da mesma cor azul, à semelhança de quando foram lançadas em 1943 (C018, C021, C024, C029, C037, C044 e C048). Seria muito fácil confundi-las, a não ser pelo reverso com cores variadas. O próprio governo Dutra achou melhor mudar a coloração delas do constante azul para a mesma cor do reverso em 1949 e 1950 (C065, C075, C083, C089, C094, C097, C099 e C104), mas Jânio, aos 44 anos, talvez tivesse saudades do aspecto e da coloração do dinheiro brasileiro na época de seus 26 anos... Curiosa também é a diferença das notas C146 e C146b, de cem cruzeiros, com a estampa representando o presidente Floriano Peixoto: assinadas em 1974 pelo ministro Mário Henrique Simonsen, durante o governo Geisel, essas notas são idênticas a não ser pela numeração e por um detalhe que só se pode ver contra a luz, na marca d'água: na primeira aparecerá Floriano Peixoto com uma gola baixa e na segunda, com uma gola alta. A marca d'água da nota de um real lançada em 1994 também se modifica em 1997, trocando a efígie da República por uma bandeira.

Falar de notas não é o mesmo que discorrer sobre moedas, sobre as quais hoje me abstenho de falar algo para além da minha experiência de infância com a rara moeda de minha tia. Pelas cédulas brasileiras se responsabilizaram várias instituições: o Tesouro Nacional do Império estendeu-se até a República e somente em 1906, assim que Afonso Pena assumiu a presidência, transferiu-se a responsabilidade para a Caixa de Conversão, substituída, vinte anos depois, pela Caixa de Estabilização, no governo Washington Luiz. O Banco Central do Brasil só lançaria notas mais de quarenta anos depois, sob o governo Médici e é o órgão responsável pela emissão de notas até hoje. Exceto uma. Por motivos que ainda me custam entender, mais de cem milhões de exemplares de uma nota de dois reais, a DZ, foram impressas na Suécia em 2016, sob o governo Michel Temer: em vez da costumeira indicação "Casa da Moeda do Brasil", lemos "Crane AB". De fato, a medida provisória 902/19 acabou com a exclusividade da Casa da Moeda do Brasil na fabricação de papel-moeda, moedas metálicas, passaportes e impressão de selos fiscais federais, alterando a lei 5895/73. Por que apenas essa nota foi emitida até agora é algo que não consigo entender.


Também é difícil entender o que são essas duas letras que aparecem no reverso de todas as notas da chamada segunda família do real desde 2010, sob o governo Lula (diferentemente do que ocorria com as cédulas mais antigas de real, que tinham a numeração no anverso). Na primeira família, que iniciou no governo Itamar, em 1994, essas letras não existiam. Teoricamente, no caso de notas de cinquenta e de cem reais, a primeira letra seria o próprio ano de 2010, quando a estampa de real mudou de formato experimentalmente, de modo que uma nota de cinquenta ou de cem reais começando com B teria sido impressa em 2011, uma com C seria de 2012. Ou seja, como estamos em 2019, estamos na letra J e a letra Z só sairá em 2035. Notas de 10 e 20 reais da mesma família saíram apenas em 2012, sob o governo Dilma Rousseff, de modo que A, neste caso, equivaleria a 2012; B, a 2013; C, a 2014 e estaríamos hoje no máximo com a letra H nesses valores. A letra Z, se a organização for mantida e se o real ainda existir, só sairá em 2037. Em 2013, ainda no governo Dilma Rousseff, saem as notas de dois e cinco reais da segunda família, de modo que hoje, seguindo o mesmo raciocínio, estaríamos na letra G, o que de fato ocorre. Uma nota dessas com a letra Z só será vista em 2038. Notas da primeira família ainda convivem hoje com as da segunda, com exceção da nota de um real recolhida. A última nota de um real foi impressa em 2003 (C254), no governo Lula, e tem uma série de diferenças com relação à primeira de 1994 (C241). É tão feia, que é conhecida na gíria dos feirantes vendedores de cédulas antigas por "real monstro".

A segunda letra das cédulas da segunda família equivaleria ao mês (A seria janeiro, B seria fevereiro, C seria março, L seria dezembro). Uma segunda letra depois de L não deveria existir, mas existe e aparentemente, salvo melhor juízo, deve estar reservada para impressões fora do país, por exemplo, a letra Z da supracitada nota DZ, assinada por Meirelles, pelo jeito, deve significar Suécia...

Tudo parece muito organizado. Será?

Nesse período de nove anos de circulação da "nota nova" de real, seis rubricas de ministros da fazenda aparecem nas notas, referentes a Guido Mantega (do governo Lula e Dilma Rousseff), Joaquim Levy e Nelson Barbosa (do governo Dilma Rousseff), Henrique Meirelles e Eduardo Guardia (do governo Michel Temer) e Paulo Guedes (do governo Jair Bolsonaro). Como a primeira letra representa o ano de impressão e a segunda, o mês, deveria ser fácil descobrir o ministro da época só por meio dessa combinação. Ou seja, notas de cinquenta e de cem de A a F devem ter a assinatura de Mantega (assim como as notas de dez e de vinte de A a D e as de A a C de dois e de cinco), depois, em 2015 deveríamos ver notas F de cinquenta e cem assinadas por Mantega, Levy e Barbosa (bem como notas D de dez e de vinte e notas C de dois e de dez), em 2016 deveríamos ver notas de Barbosa e Meirelles (G de cinquenta e cem, E de dez e vinte, D de dois e cinco), em 2017 deveria haver apenas notas assinadas por Meirelles (H de cinquenta e cem, F de dez e vinte, E de dois e cinco), em 2018 as notas deviam ter as assinaturas de Meirelles e de Guardia (I de cinquenta e cem, G de dez e vinte, F de dois e cinco) e hoje, 2019, somente notas assinadas por Guedes (J de cinquenta e cem, H de dez e vinte e G de dois e cinco).

Grosso modo, é o que vemos por aí, mas há coisas bastante difíceis de entender que ultrapassam essa lógica. Existe toda uma série de notas F de cem assinadas por Meirelles (FJ040932001 a FJ041760000), impressas em outubro de 2015, embora Meirelles só tenha assumido em maio de 2016, após o afastamento de Dilma Rousseff, mas antes do seu impeachment em outubro do mesmo ano. De dezembro de 2015 até maio de 2016 respondia como ministro da fazenda o economista e professor Nelson Barbosa. O mesmo ocorre com notas de 50 reais: uma série de notas E é assinada por Levy (EJ126144001 a EJ126720000), portanto, impressas segundo a lógica, em outubro de 2014, mas Levy só passou a ser ministro em janeiro de 2015. A nota de 20 também tem essa peculiaridade: notas C de dez e de vinte são de 2014, quando o único ministro era Mantega, mas há notas CD de vinte reais, portanto, de abril de 2014, assinadas por Levy, ou seja, oito meses antes de ele assumir o cargo (CD036360001 a CD036600000) e notas CJ de dez reais, portanto de outubro de 2014, assinadas por Levy (CJ089725001 a CJ138965000), que assumiria dois meses depois e por Meirelles (CJ138965001 a CJ139200000), que assumiria quase dois anos depois...

Também vemos esse comportamento curioso nas notas de cinco reais, por exemplo, em abril de 2015 teriam sido impressas cédulas nesse valor assinadas por Meirelles (CJ031380001 a CJ031800000), que ainda não era ministro, como vimos acima. O caso mais curioso é o do último ministro do governo Temer: Eduardo Guardia teria deixado o posto no dia 01 de janeiro de 2019, quando Guedes assumiu, mas ou a lógica das duas letras é completamente imprecisa ou nesse único e último dia de mandato (talvez em metade do expediente), ele teria lançado treze do extraordinário número de vinte e oito notas que assinou nos oito meses que ficou no Ministério da Fazenda, enquanto Meirelles se retirava para concorrer à presidência da República (conseguindo 1,2% dos votos e um amargo sétimo lugar). As notas lançadas pelo ministro Guardia nessa situação supostamente extemporânea seriam as com a letra G de dois e cinco reais, as H de dez e vinte reais, as J de cinquenta e cem reais. Se fosse possível produzir essas treze notas no primeiro de janeiro de 2019, seriam todas GA, HA e JA, mas há, além dessas, também notas de dois reais GB (que só poderiam ter sido impressas em fevereiro de 2019, quando Guedes já era ministro e não mais Guardia), de dez HB e HD (respectivamente fevereiro e abril de 2019), de vinte HE (maio de 2019), de cinquenta JC e JD (respectivamente, março e abril de 2019) e de cem JE (outubro de 2019). Para que foi preciso imprimir tanta nota nessa transição de governo, não sei. O catálogo de Amato Jr et al., impresso no primeiro semestre de 2019, já anunciava as notas de Guedes, mas desconhecia a existência dessa enxurrada de notas no arrebol da era Guardia.



A confusão não para aí. Uma dessas treze notas é estonteante e merece um parágrafo só para ela. Trata-se da nota de vinte reais com as letras HE. Teoricamente, se as regras acima apresentadas valessem, só poderíamos ter notas HE de vinte reais em maio de 2019 e com a assinatura de Guedes, no entanto, segundo o próprio site do Banco Central, as notas HE numeradas de 000000001 até  072615000 estão assinadas pelo ministro da fazenda Eduardo Guardia e pelo presidente do Banco Central Ilan Goldfajn, durante o governo Temer. Contudo, repetimos, essas pessoas deixaram seus cargos no fim de 2018, com a eleição do presidente Bolsonaro. Curiosamente, quase um milhão de novas notas HE de numeração 072615001 até 073540000 foram assinadas pelo ministro Paulo Guedes e pelo novo presidente do Banco Central Roberto Campos Neto. Isso não é atípico, pois algumas sequências de letras chegaram a ser assinadas por três ministros diferentes, como mostramos acima, por exemplo, as notas CJ de dez reais, assinadas pelo ministro Guido Mantega, pelo ministro Joaquim Levy e pelo ministro Henrique Meirelles. Alguns poderiam pensar que Guedes está tentando arrumar a confusão de seus antecessores, recuperando a lógica inicial das letras do reverso e de fato, não vi nenhuma nota circulando com a assinatura de Guedes durante o primeiro semestre de 2019 (como ainda são raras muitas células impressas por Guardia, sem nenhuma razão aparentemente fácil de entender). Essa seria uma explicação? Talvez.

Mais difícil de entender é que outras quase três milhões de notas HE de vinte reais, depois de Guedes assiná-las, voltaram a ter a assinatura do ex-ministro Guardia e do presidente do Banco Central Goldfajn (?!?!). Como assim? Durante o governo Bolsonaro? Depois de Guedes assinar um lote inteiro? Que confusão terá ocorrido na Casa da Moeda ou no Banco Central ou no Ministério da Fazenda? De fato, as notas numeradas de 073540001 até 077335000 estão nessa situação. Mas a complicação não parou aí. Segundo o site do Banco Central, um quarto lote de mais de vinte milhões de notas HE de vinte reais foi emitido depois disso tudo, assinadas, de novo, por Guedes e Campos Neto, ou seja, as de numeração 077335001 até 09885000. Aparentemente acaba aí a odisseia da HE, já por demais confusa, pois logo em seguida surgirá a HG de 20 reais e, conforme a lógica inicial retomada, essa nota HG teria sido lançada em julho de 2019. 

Mas... como prova a foto abaixo, tirada por um amigo meu, encontramos facilmente por aí notas com numeração superior a 09885000. O site do CISMECIR diz hoje que está atualizado. Pois bem, este  novo mistério ainda não foi resolvido: quantas mais notas HE de vinte reais foram produzidas ao todo e como depois dessas quantidades tão precisas de suas quatro versões, divulgadas, surgiu uma nova nota, a HG?



Muito ainda se poderia falar sobre o ziguezagueante percurso do dinheiro brasileiro e de sua história, sua relação com os dirigentes máximos do país, com os ministros da Fazenda, com os presidentes dos órgãos responsáveis por sua emissão, com os decretos que circundam a sua confecção, com as datas misteriosas e com sua organização numismática, pois não só de filosofia, insetos e línguas vive um blogueiro. Há quem aprecie a beleza de cédulas exóticas, sem se preocupar com nada disso, como aqueles que compram quadros de borboletas sem sequer saber que lepidópteros são insetos parentes um pouco distantes das moscas. É curioso pensar que algumas coisas podem conter em si um valor histórico mensurável, apesar de banais como objetos em si a ponto de serem confundidas com lixo. No caso do dinheiro antigo, muitas vezes, alguns gramas do seu metal que, derretido, geraria um valor indigno à sua nobreza ou, ainda, a transitoriedade de seu papel facilmente mofável ou devorável por traças traz em si um inestimável valor histórico e isso é paradoxal quando mensurável em moeda corrente: como pode uma nota de cinco reais com a qual eu mal compro um doce na padaria chegar a valer quinhentas vezes mais do que seu valor facial? Se a história, para o pragmático, gera apenas papel velho inútil, como frases de uma língua morta, é inegável que produzirá simultaneamente instigantes lembranças de priscos tempos, apreciadas pelo cientista e pelo historiador, ou ainda um fetiche quase erótico para o numismata apaixonado. Como dizia minha mãe, uns gostam dos olhos e outros, da ramela. Por onde andará agora a moeda da minha tia Lúcia?

domingo, 27 de outubro de 2019

I WOULD PREFER NOT TO


Há ideias que aparecem na nossa mente e se esvaem, caso sejam interrompidas, pois indicam o credo romântico e a mitologia dos bons escritores que tudo que vem diretamente da alma é bom e, não sendo mau, não deveria ser tolhido, portanto, se eu penso em falar sobre alguma coisa qualquer, esse assunto sobre o qual pretendo versar deve provir diretamente de um fluxo de pensamento que não poderia ser de modo algum censurado por superegos e tradicionalismos que embotem o reluzente brilho da ideia donde provém, já que todas as coisas originais deveriam ter pelo menos alguma pertinência no arrazoado que se pretende demonstrar, além disso, tudo que se sustenta nas premissas daquilo que se pretende demonstrar, caso seja a peroração límpida, advém duma conclusão já contida na mente do orador, a partir da qual ambas as premissas se arranjariam como que segmentadas do próprio conteúdo do resultado da fala, acrescidas de algum elo arbitrário que as sustentem, assim como quando alguém, querendo provar que as tartarugas voam, dirá que as tartarugas são aves e todas as aves voam, até que alguém lhe lembre que entre as aves não constam em nenhuma taxonomia quelônios como os cágados ou as tartarugas, nem é verdade que todas as aves voem, pois nos bastaria recordar dos kiwis, dos emus, das avestruzes e dos casuares, e, ao fim e ao cabo, demonstraremos a esse sofista que uma conclusão errônea só pode ser resultado de pressupostos igualmente errôneos, embora não seja interdito que essa frase em itálico também  possa ser uma conclusão errônea, porque não é impossível que haja conclusões errôneas a partir de premissas corretas, senão vejamos, dizer que todo homem é mortal não é errado, tampouco o é dizer que todo mortal está vivo e concluir, a partir dessas irrefutabilíssimas afirmações que todo homem está vivo, sentença na qual estaria contida a afirmação de que Aníbal está vivo, quando todos sabemos (e espero que tu, também, leitor) que o general cartaginês já não está entre nós neste mundo e, tendo ele sido mortal um dia, não o é mais, de modo que entre os mortais a que nos referíamos na segunda premissa não estariam os que já viveram, tampouco os que ainda viverão, outro modo de afirmar que todo mortal está vivo é, mediante tácita cumplicidade, uma espécie de sinônimo impróprio de outra frase, mais específica, a saber, "todo aquele que agora está entre nós e recebe o epíteto do mortal, isto é, todos os seres viventes, animais ou vegetais, mas não pedras, está vivo", contudo, verdade seja dita, jamais alguém entenderia, ao afirmarmos que todo mortal está vivo algo como todo mortal que já viveu e já morreu está vivo, pois isso introduziria desagradável contradição numa oração que nada tinha de contraditória, da mesma forma que também concordaria o leitor que ao afirmarmos que todo mortal está vivo não pretendemos referir-nos aos futuros mortais que ainda não nasceram, por conseguinte, uma oração inegavelmente verdadeira no que tange àquilo que denota inequivocamente sobre seres que vivem hic et nunc seria algo que somente com muita retórica poderia ser contestado, muito embora, conforme dissemos no início de nosso arrazoado, tudo o que vem da nossa alma, inclusive a contestação, seja algo bom e digno de ser analisado e - por que não? - refutado caso nele se detecte algo que não possa sustentar-se mediante a razão ou o sentimento, capacidade raramente utilizada como ferramenta de julgamento, pois, toda vez que algum elemento apaixonado aparece no juízo, alguém dirá que, embora tudo o que se pretende provar seja límpido, conspurcá-lo-ão adjetivos demasiadamente subjetivos, como se os raciocínios não dependessem de uma mente e essa mente não pertencesse a um indivíduo, o qual, com sua vida e modo de ver o mundo singularíssimos, ditará, conforme os seus próprios meandros cognitivos, tudo aquilo que é bom para si, sem deter-se em qualquer ideia universal (se há alguma) para tecer mandamentos próprios de comportamento, ainda que a sociedade e os costumes tenham promulgado outros diametralmente opostos, tal como é o caso daquele que sob os holofotes de uma peça de teatro está para declamar Camões - e assim quer a plateia -, mas naquele momento a vontade do ator é bagunçar o coreto e, improvisadamente, se põe a declamar um pot-pourri de Patativa do Assaré com Hilda Hilst e não só o intenta, mas também o faz ininterruptamente, a despeito dos tomates que zunem e, vez ou outra, atingem seu semblante, provindos de expectadores, que antes de comprar seus bilhetes para ouvir as odes do poeta renascentista, haviam feito a feira em local onde vicejam não só os supracitados tomates mas também gosmentos ovos que macularão a face do perverso declamador, a fim de que com cujos tomates justiça seja feita, pois regras de confiança como a existente entre ingresso e show são uma espécie de acordo tácito pacificador entre os viventes de uma mesma comunidade e se o expectador pagou por um belo e vermelhudo tomate, não esperaria que o feirante tivesse colocado na sacola um insosso chuchu ou quaisquer outros legumes de segundo escalão, se bem que (hipocrisia à vista!) não se teria  ofendido, sequer teria reclamado, se o barato tomate fosse substituído pelo louco feirante propositalmente por uma cara e suculenta alcachofra, com as mãos na qual, prestes a arremessá-la no rebelde ator, pensaria duas vezes e, ato contínuo, pô-la-ia de volta na sacola a fim de cozinhá-la em casa em água fervente para comê-la gostosamente, molhando suas folhas na manteiga, com total ausência de culpa perante a doideira do feirante, compensando (talvez por meio da mão de Deus), assim, a agrura de ter pago um caro ingresso e não ter ouvido o amado Camões, antes um arremedo de poema miscigenado que não fazia sentido para si, embora para aquele declamador o tivesse feito, como qualquer um poderia constatar vendo-o após a tomatada em seu camarim, limpando as gemas estateladas do seu rosto, com um sorriso satisfeito, malgrado as maldições, verdadeira trilha sonora provinda da boca espumante do diretor do espetáculo que acabara de demitir o improvisador por julgar aquela a última de suas loucuras que toleraria na sua vida em comum com ele, que exprimia um sorriso de quem solta grilhões de uma existência ditada por outros, tendo feito o seu gosto particularíssimo sublinhar-se perante todos aqueles que surpresos esperariam dele a submissão servil a um roteiro de um cartaz, qual clown alquebrado pela medíocre rotina de sempre superar-se na apresentação do mesmo espetáculo, em suma, uma desejada conclusão automática extraída como resposta a premissas que não foram ditadas por aquele que conclui, antes, pelo contrário, rompendo a expectativa, todos que se mostram pobremente humilhados pelo massacre dos poderosos poderiam concluir que mais fácil do que reagir de forma previsível, agressiva ou mesmo inteligente, no exercício de refutar aquilo que lhe é incômodo e indesejável, antes deveria pensar em como romper completamente a expectativa daquele que persegue seu raciocínio, de modo que em um recôndito inescrutável possa ditar as suas próprias premissas e enfim falar, qual Maupassant quando escreveu Sur l'eau, daquilo que deseja e que não tem conexão alguma com premissas anteriores, chutando a Terra de sua enfadonha órbita ao redor do Sol, pulando num lago repleto de focas com cara de papagaio, saltando desse mesmo lago cachoeira acima num rodopio parafuseante e perceber-se com asas de condor, soltando grasnidos ao conseguir ver o mundo com olhos de hiena e escutar tudo com ouvidos de feneco, em resumo, saber com a mais certa das certezas que do outro lado do rio, há um homem que tem os calções rotos de tanto colher quiquirijones de seu quiquirijonal, mas, obviamente, leitor, se isso não te agrada, se o que há de mais pessoal em ti precisa ser apagado pelo borrachão do bom-senso, imagina-te desalado, descachoeirado, des-hienoculado e desfenecorelhado e voltemos ao palco, para que sigamos novamente o script, mas se reclamares de algo, da plateia, agora eu com tomates na mão, gritar-te-ei "non sequitur!" e aí, quero ver se o que me dirás ao refutar-me, embora na verdade eu já o saiba, porque essa seria a situação mais comum desde que o homem se tornou o bípede senhor das falácias, i.e, dir-me-ás (e eu preferiria que não) que a incapacidade de seguir-te é que me faz ser rebelde, portanto, toda rebeldia é um ressentimento de um recalcado que não entende as regras do jogo ou, entendendo-as, não se conforma de ter perdido a partida, ao que eu  te peço vênia e te indago se todas as regras são para ti interessantes, se todas as partidas são necessárias e se todos os jogos, por definição, te dão tesão e, perante a inexorabilíssima resposta negativa a todas essas perguntas, terás de genuflexo dizer-me que tenho razão, não antes de me golpeares, como o lobo de Fedro indagando à ovelha o que ali fazia turvando sua água...


sábado, 14 de setembro de 2019

LE CHIEN ANDALOU C'EST MOI

Um vídeo que misturava música árabe com cigana produziu em mim ontem uma pequena epifania e por isso, resolvi falar de uma grande, que tive um dia e que não se repetirá tão cedo.

Mas antes falemos do fim do século XIX. Um ano antes da abolição dos escravos, em Almería, no sul da Espanha, nascia María Caparroz Rodríguez, filha de Miguel Caparroz e de Catharina Rodríguez. Maria se casaria com Gabriel Soler Díaz, nascido três anos antes na mesma cidade. María e Gabriel desembarcaram no Rio de Janeiro em 1911, durante o governo de Hermes da Fonseca, com respectivamente 24 e 27 anos, vindos na embarcação França. Esses dados foram extraídos de documento do Serviço de Registros de Estrangeiros da Polícia do Estado de São Paulo, lavrado em 1939, durante o governo de Getúlio Vargas. Nele se vê a foto de minha bisavó com seus 52 anos (talvez mais nova, se a foto for anterior ao documento), quase a minha idade atual. Soube por meio de tradição oral, na qual minha mãe participou ativamente, que a origem longínqua de minha família era a França. Talvez tenha confundido o nome do navio com a gênese dos Soler. Mais tarde, descobri que tanto Soler quanto Caparroz são nomes catalães e fiquei me indagando se eram catalães espanhóis ou franceses. O primeiro sobrenome significaria "agricultor" (literalmente "quem trabalha a terra") e se pronunciaria "sulê" e não "solér", como todos falavam. O segundo sobrenome significaria "ruivo" (literalmente "cabeça vermelha"). Até então só tinha encontrado o verbo soler do espanhol que significaria "acostumar-se" (ou soer, como está no dicionário de português), mas isso não fazia muito sentido. Contente, fui contar ao meu avô, que ainda vivia, sobre a nossa ancestralidade catalã. Presenciei pela primeira vez uma das famosas manifestações de raiva de meu avô (tão narrada por todos seus filhos, mas que um neto como eu jamais tinha vivenciado). Enquanto narrava minhas descobertas, ele, que havia retirado o chapéu de palha ao entrar em casa, coçava a calva, ouvindo-me meio desatento e calado. Cioso de sua andaluzidade, assim que terminei de expor minha tese, me disse nada mais, nada menos que Catalán é a puta que te parió, naquele português misturado com espanhol com que se dirigia a todo mundo. Minha mãe, justo aquela que me pariu deveras, estava na cozinha preparando o almoço e levou o maior susto. A conversa não continuou, obviamente, truncada como foi na sua base. E eu nunca entendi a razão da reação de meu avô. Talvez ele, católico fervoroso, tivesse preconceito em relação aos catalães, talvez associados a anarquistas. Não sei se meu avô conheceu algum catalão na vida para ter tido essa reação.


A minha infância foi permeada de narrativas antigas interpretadas de maneira mui pessoal por minha mãe, cuja vida pobre e cheia de percalços, além das relações atribuladas com alguns irmãos e com minha avó, extremamente violenta, traziam uma aura de fantasia, que, se não fosse por algum tipo de consciência, pareceria que eu mesmo teria vivido o que ela me contava. Meu avô, também chamado Miguel Caparroz, como meu trisavô, acrescido porém do Soler de seu pai, o seu verdadeiro sobrenome, que nos nomes espanhóis fica logo após o prenome (e não no fim do nome), era a única referência viva que eu tinha da epopeia da solerzada, junto com alguns irmãos vivos dele que eu raramente vi. Os seres anteriores a meu avô eram os nossos Kunta Kinte. E é na Certidão de Idade de meu avô, lavrada quatorze anos antes de eu nascer, sob governo Café Filho, que vejo o nome de meus trisavós paternos (Cleophas Soler e Anna Díaz). É lá também que descubro que meu avô se casou com minha avó em 1941 em Piramboia, pequeno vilarejo que frequentei algumas vezes com minha família, em visita a tios de minha mãe, quebra-cabeça difícil de reconstruir agora. As lembranças do sotaque de Piramboia da década de 70 eram grandes, pois me pareceram tão diferentes da de Botucatu, que chamaram a atenção de uma criança bem antes de ela se interessar por linguística. Incluíam entre seus traços característicos um hoje lendário -r retroflexo de infinitivo em situações informais, tão ausente (nessa flexão verbal) no chamado Português Brasileiro, que às vezes duvido de mim mesmo e de minha memória. Na única vez que conversei com outro nativo de lá (ou seria alguém que frequentava a cidade?), a saber, um guarda que por acaso estava no restaurante Rodoserv, que fica na Rodovia Castelo Branco, no exato momento em que eu também estava, pude confirmar que essa impressão era verdadeira, se não deliro de novo, induzindo o interlocutor a dar-me essa tão desejada informação. Meus avós se casavam em Piramboia e os japoneses atacavam Pearl Harbor oito meses depois.

Foi com certo desalento que descobri que meu avô não nascera na Espanha, mas um ano após meus bisavós desembarcarem no Brasil. Como a espanholada chegou em outubro de 1911 e ele nasceu em outubro de 1912, não posso sequer imaginar que minha bisavó o trouxesse no seu ventre, pois o sêmen de meu bisavó encontrou o óvulo de minha bisavó em terras brasileiras. Se há ainda margem para fantasia, posso pensar que a concepção de meu avô foi o resultado da alegria esperançosa de estarem em terras novas. Quando assisti ao filme Léolo, em 1992, pensei exatamente nisso. Mas a vida de meus avós e tios parecia mais um filme de Carlos Saura do que de Jean-Claude Lauzon. Na verdade, deve ter sido apenas descuido. Meu bisavô devia ser como meu avô, católico fervoroso, inimigo dos anticoncepcionais. Dizem que minha avó teria tido vinte e tantos filhos (cada parente diz um número), mas apenas dez chegaram a ver a luz do mundo, além de dois que morreram muito jovens (Irene e José Carlos sobre os quais pairam tantas outras lendas). Pobres e cheios de filhos, adotaram um décimo primeiro. O lado excessivamente religioso de meu avô era sempre lembrado pelos filhos: rezava o terço todos os dias e obrigava-os a rezar junto, com um cinto no joelho. E como havia muitos pequeninos, que se distraíam e bagunçavam, açoitava-os e exigia que recomeçassem tudo de novo. Isso deve ter acontecido uma vez ou outra. É difícil imaginar essa cena diariamente. Deve ser por isso que poucos continuaram católicos, embora a religiosidade fosse uma marca muito presente em todos de minha família. Meu avô, apesar da sua impressão, leitor, foi um anjo, se comparado com minha avó, que mereceria uma narrativa à parte, se eu tivesse informações sobre ela para além dos relatos de família. Quando ele faleceu em 1995, eu tinha já quase 27 anos e me arrependo de não ter tido mais conversas com ele sobre sua infância. Minha avó faleceu quando eu era muito pequeno. A data ninguém soube me informar, mas eu me lembro (pela memória da minha mãe) de estar incomodado com a fungação em volta de seu féretro, que eu disse ser nojenta e, ato contínuo, mereci uns bons tabefes maternos.

Antes de seus 83 anos de vida, meu avô sofreu algum tipo de AVC e ele só falava de coisas de seu passado, muitas vezes em espanhol. Em uma das poucas vezes que o vi antes de falecer, ele falava e agia como uma criança pequena e, com certeza, o ambiente em volta de sua cama não era sua casa em Botucatu, mas a Fazenda Água Virtuosa, atual Nova América, onde vivera, cuja língua usada era o espanhol andaluz. Acabo de saber que meu avô virou o nome de uma rua no Jardim Montemor III em Botucatu. Quem diria? Como ninguém sabe dizer direito quando eles vieram da zona rural para a cidade, imagina-se que minha avó, filha de portugueses, teria aprendido a falar um pouco dessa língua para comunicar-se com os sogros e cunhados. Minha mãe afirmava que ela e seus dois irmãos mais velhos, ao frequentar as primeiras séries do primário, não sabiam falar português e eram hostilizados por isso. Tios meus, muito mais jovens, que não vivenciaram nada disso, eram mais ligados nessas espanholices da família que os mais velhos: vá entender! Havia toda uma história sobre a riqueza de meu bisavô, que teria comprado o equivalente ao bairro do Lavapés de Botucatu e por sovinice e/ou perdulariedade, por hipotético desgosto de os filhos já brigarem pela herança em sua vida, teria quebrado uma mesinha de vidro com um murro, num acesso de raiva e dito ¡no quedaréis con nada! e teria torrado os cobres em jogatina e mulherio. Como meu avô foi o mais ingênuo na hora da partilha, reivindicando pouquíssimo para si, não teria conseguido reverter essa situação, diferentemente dos irmãos, daí ser pobre-pobre-pobre de marré deci enquanto os outros não eram tão ruins de vida assim. Essa era uma das versões. Se é verdadeira ou não, fato é que sempre há uma vítima em qualquer situação. Lendas com muitas versões: o mundo sem etiologia seria um sem-sentido só, se não imaginássemos raízes em estacas inférteis. O que faz a tradição oral senão milagres? Fato é que conheci alguns tios-avós e eles falavam com um sotaque brabo de espanhol andaluz. Por muitas vezes pude entrar e sair desse labirinto do fauno, corroborando ou refutando muitas narrativas. Teria que organizar todos os relatos confusos de minha mãe e todos os papéis que estão comigo, reunir tios e minhas dezenas de primos para juntar o quebra-cabeça e ao fim e ao cabo, não sei se conseguiria dizer algo mais seguro sobre o que foi a presença espanhola da família de minha mãe.


Obviamente, há a outra parte da família, a do meu pai, de origem no norte da Itália, de onde vem meu sobrenome, tão comum em Rovigo, no Vêneto. Mas essa é outra história. Até porque a ancestralidade do meu lado paterno, embora não menos interessante, não marcou tanto como a porção espanhola de meu avô materno, de tal forma que é para mim impossível assistir ao filme Cría cuervos, de Carlos Saura, sem chorar. E há muito mais Saura do que imagino: não vejo retrato melhor da sociedade espanhola dessa época se não pelo filme Ana y los lobos. Minha família andaluz era assim: parte dos filhos era hipercatólica (eu tinha uma tia-avó freira, chamada Soledad e um dos meus tios teria conseguido fugir do fardo de ter nascido como o segundo mais velho e, portanto, de ser padre, explodindo um colégio); parte, militaresca; parte, demasiadamente lasciva, como a família com que Ana vai morar. O que os reunia sempre era a mãe Espanha, que fará cem anos num outro filme, muito mais surreal. E também nos reunia a música andaluz, tocada altissimamente na vitrola, que eu ouvia, na voz de cantores como Marisol e Joselito, às vezes morrendo de vergonha por causa dos vizinhos, quando retornava da escola primária, assim que eu virava a esquina do quarteirão de casa. Minha mãe nascera em 1944, também no quase infinito governo Vargas, como meu pai, dois anos antes. Faleceria dois anos após meu avô, também com 52 anos, durante o governo FHC. Aos longo dos vinte oito anos que convivi com minha mãe, onze vividos longe dela, em outra cidade, sua presença, mesmo ausente, estava na forma da narrativa da espanholidade da família, embora isso representasse apenas um quarto de fato, pois metade dela era italiana por causa de meu pai e outro quarto era portuguesa, por causa de minha avó materna.

Mas essa espanholidade, dado o meu afastamento físico de meus parentes aos 17 anos, acabou com o tempo sendo sentida como uma bobagem, uma espécie de escape costumeiro que fazem muitos se dizerem italianos ou japoneses por causa da vergonha de ser brasileiro. Consciente disso, apesar de gostar de história e de diacronia, nunca fui obsessivamente procurar detalhes da vida anterior a esses meus antepassados, gente comum e simples, fugindo de uma Europa prestes a dilacerar-se com suas rusgas eternas. Minha origem sempre foi humilde e a de meus avós e bisavós também deveriam ser, apesar de tantas lendas, nada que consiga ser reconstruído para além de documentos de batismo manuscritos em igrejinhas obscuras e cartórios desagradáveis. No entanto, o lado calado e soturno dos descendentes de italianos do lado paterno da minha família se contrapunha tanto ao arrebatamento andaluz do lado materno, que, mesmo sem qualquer pretensão idealizada, era difícil de ignorar a sua presença, que se tornava muito visível nas festas familiares e nas discussões acaloradas. Mesmo desgarrado da sua ubíqua religiosidade, dos vieses políticos extremados e da pouca profundidade argumentativa, não sem alguma violência atávica que tenha marcado duramente a minha alma por meio de transmissão direta e indireta, nunca recusei por completo minha família como fez Léolo. Pelo contrário, sempre me senti um deles, de tal modo que meu sotaque arrefeceu, mas nunca sumiu. E eu gosto dele.



Mas não me sentia mais espanhol como quando era criança. Isso não. Se meu próprio avô, o que falava aquele andaluz arrevesado que só ouvi fora de minha família na boca de uma personagem taxista de Almodóvar, era brasileiro, assim era minha mãe, ainda que ela conseguisse falar espanhol com conhecidos chilenos, tocasse castanhola e dançasse tablao, recordando infinitamente os filmes da atriz-cantora Marisol que vira no cinema mocinha. Que felicidade imensa ela teria, se pudesse ver hoje os YouTubes dessa cantora. Eu choro aos cântaros quando os revejo, tamanha a lembrança do amor que minha mãe tinha por essa tal Marisol, que acabou sendo o nome da minha irmã e seria o meu, se eu tivesse nascido mulher. O mais curioso é que tenho irmãs gêmeas e a que nasceu cinco minutos antes, a que deveria ser a Marisol, conforme reza o registro, já que eu não pude ser a Marisol que minha mãe queria, também não se chama Marisol, porque minha tia Lúcia cismou durante o batismo (e enquanto meu pai as registrava) que ela não tinha cara de Marisol e convenceu minha mãe que a terceira filha é que tinha. Aquela que deveria ser a Marisol, e de fato é conforme o documento oficial, passou a se chamar Mara Sílvia e aquela que deveria ser a Mara Sílvia, por ser a que nasceu cinco minutos depois, tal como se lê no registro, se chama Marisol. Minha tia ganhou de David Lynch. Família permeada de lendas, como bem vê o leitor. Mãe, estou com seus LPs. Prometo que um dia devolvo a minhas irmãs, depois de transformar tudo em MP3, se elas jurarem não jogar fora.

Bom, eu, todo racionalzão, como meu leitor sabe, tento não me abalar com essas lembranças. Não sou espanhol e essa cantora lembra minha mãe, razão de eu chorar. É questão de emoção e não de identidade. Ponto final, como queríamos demonstrar. Só que não.

Eu já havia ido a Almería em 1995, pouco depois do falecimento de meu avô. Não fui por isso, mas porque estava na Europa, pela primeira vez, fazendo estudos. Não escutei o sotaque parecido com o de meu avô em Almería: falavam andaluzmente, mas não era o mesmo. Espantei-me com a cidade, que tem uma fortificação magnífica e que ninguém na família havia comentado. Foi uma experiência meio fria, pois achei tudo muito árido. Ou era eu? Perguntava-me se meus antepassados eram da cidade de Almería mesmo ou de algum povoado próximo, já que há uma jurisdição maior também chamada Almería. Enfim, valeu conhecer o local, mas Sevilla pareceu mais encantadora que Almería, tanto que voltei a Sevilla em 2010 em plenas festas, explorando melhor seus encantos e sobretudo sua noite. Foi quando ouvi os tablaos fora de minha casa pela primeira vez e me emocionei. De fato, não deve haver nada mais lindo na Terra, imagino e penso que sou neutro quando digo isso. Retornei a Sevilla, em maio de 2013. Sozinho dessa vez. A cidade não era a mesma, pois era época de crise ou não era época de festas. Além do espanto com a diferença que senti na cidade, apesar de apenas três anos separarem minhas idas, algo mais aconteceu e para que o leitor entenda plenamente o ocorrido, transcrevo notações de meu diário de viagem, pois convém que cessem as palavras esterilizadas de um narrador desapaixonado. Maupassant entenderia o que quero dizer:

Talvez sejam as quatro cañas que tomei, mas a Andalucía me faz de fato embriagar-me na ilusão da raiz. Sentado ao fim da tarde, por volta das 21h30, num desses restaurantes ao ar-livre europeus apareceu um cantor de flamenco. O compasso das palmas e a voz chorosa merecia mais do que as três moedinhas que lhe dei: a dignidade orgulhosa e a vergonha do pago em que se encontrava, fazia aquele senhor de meia-idade deixar-me tão emotivo que não sei se saberia explicar o que sentia. Se o tablao é algo folclórico, reinventado porque se extingue espontaneamente ao longo do tempo, fazendo sentido apenas no ideal do turista que o vê vicejante, eu não sei. Só posso dizer que me evoca lembranças vagas de discos que há muito não são tocados. Mais vivos na descendência do que na tosca origem de meu semiandaluz avô. Sinto como algo meu, mesmo tão estranho e alienígena. Ao meu redor só vejo cada vez mais do mesmo. As semelhanças mundiais entediantes, o lixo ao chão, grades e lanças protetivas às janelas, mesmo que não sejam regra, levam-me ao tédio, mas basta esta dança fictícia emergir dos infernos em que reside e sinto-me o mais vivo dos humanos.


No dia seguinte:

Embalado pelo espírito do flamenco fui, pela indicação do hotel, a um tablao chamado Los Gallos. Houve momentos de êxtase natural, simpatia e espontaneidade, mas a plateia demasiadamente estrangeira não foi suficiente para seguir a música com palmas e pisões, que é o espírito do tablao. No táxi, reclamei disso, ao que o motorista me contestou que o flamenco não está morto, nem é a suposição de Sevilla ser grande e cosmopolita demais o real motivo da ausência de espanhóis no público. Era verdade que o cantor mais sério era velho, mas havia no espírito de alguns outros mais jovens da equipe, sobretudo no guitarrista, um indício de vida do tablao. Indicou-me um lugar chamado Anselma, que fica na rua Pajas del Corro. Ao chegar no hotel, o senhor da portaria, sevilhano e feliz com meu comentário de que iria à Anselma, já se sentiu à vontade de falar-me em dialeto. Indicou-me mais outros dois grátis, La Madruga e Raya Real, próximo à Avenida de la República; indicou-me dois bares estupendos, um chamado Miami, próximo a la calle de la Triana ou en la calle de San Jacinto e un otro, chamado Golondra, si entendo bien a sua escrita, ao que tudo indica, numa rua chamada Alfareria. Quase nada disso havia nos guias (...) nesse momento penso que o tablao ocupa em mim o lugar que a religião ocupa em outros. A sensualidade do tablao é algo herético, profano. A tourada é outro lado da mesma violência, mas nesse caso não tenho afinidade ou raízes, talvez porque o abate de animais me vincule à minha metade incógnita, a paterna. Uma grande parte de mim, porém, é definida, ainda que ceifada muito cedo. Nisso consiste a identificação, a ideologia, o fanatismo, a falta de questionamento que abundam em todos e que julgo às vezes erroneamente em mim não existir. Os cultos de taurobolia seguiram os antigos atos dionisíacos e antecederam o deus sangrento e crucificado. O id não está no morno ou no apolíneo. Esse lado descompassado, interrompido, estranho, quase inesperado, é o ritmo do meu coração em antagonismo com a racionalização. Não se sabe quando se deve aplaudir, não se sabe se o show acabou. É uma ópera encenada por loucos, nela imperam os acidentes da vida.



E fui a Cádiz, a cidade mais surpreendente da Espanha. Um dia antes, eu me perguntava se, voltando ao Brasil, lembraria que uma casquinha de sorvete é um cucurucho, que desenham de um jeito curioso  o número 1, que "não vale a pena" se diz no merece la pena, que pronunciam o -ch- como nosso -x- de xícara quando dizem dicho e derecha. Mas já em Sevilha meu avô começou a reaparecer no estranho -ts- que é o modo como pronunciam -st-: não dizem usted, mas utsé, ouvi ¡qué sutso! como diria meu avô, cuja língua só explorei numa única tarde antes do AVC e anotei tudo em um caderno, que preciso reencontrar. Mal sabia que jamais esqueceria Cádiz. O dia anterior, tinha tentado ir à Anselma, mas os proprietários tinham ido à procissão do Rocío, como me informou aos berros uma senhora que tanto lembrava uma personagem vindo de minha família, talvez a tía Gertrudes, conhecida como tía Melaquita, pois segundo a lenda, quando meu bisavô morreu, teria agarrado a máquina de costura e antes mesmo do corpo esfriar teria dito la máquina es mía, 'ninguém' me la quita. Xinguei a santa por me privar de um tablao legítimo e nem imaginaria que, ao fim e ao cabo, estaria doido procurando uma imagenzinha da Virgen del Rocío, uma das preferidas de minha coleção. Percorri as feiosas ruelas de Cádiz até chegar à desproporcionalmente grande catedral. Logo após ouvir uns hicitse em vez de hiciste e um ara em vez de ahora, comecei a me familiarizar com aquela atmosfera. "Ele está aqui, nesta cidade", sim, meu avô reapareceria a qualquer momento naquele lugar por onde passaram muitas espécies de hominídeos, os misteriosos povos dos cromeleques, os tartésios, os fenícios, os celtas, os gregos, os romanos, os vândalos, os mouros e os castelhanos, sim, meu avô estava vivo, eu tinha certeza, não só na boca daqueles gaditanos, mas na luz que refletia no mar e no ar que respirava. Embora morto no Brasil e em Almería, ele renasceu em Cádiz quase involuntariamente. Ele estava ali, na África visível de cima da catedral, nas colunas de Hércules, com a cabeça da península deixando o Mediterrâneo para trás, mergulhando no Atlântico como uma caravela, entrando n'água como Crassigyrinus, ser do Carbonífero que desistiu da terra firme e resolver ser desanfíbio e destetrápode. César chegou a visitar o Templo de Hércules ali e o segundo momentoso momento foi quando eu cheguei. Era ali que o estanho buscado pelos fenícios (hoje mortos nas múmias do museu) se tornaria o bronze que revolucionaria o conceito de Estado na Humanidade, mas nada disso foi mais importante que o reencontro com o seu Migué. Pensei que encontraria em meu diário o relato exato do que senti, mas o que foi sentido foi sentido e não foi escrito. O que há escrito vem depois, no dia seguinte, sobre a decepção com um congresso, mas o que está na minha memória de fato foi o encontro com meu avô falecido em cada coisa que via e cada palavra que ouvia. Em cada esquina virada, parecia que eu ia topar com ele, vendendo guarapa. De volta a Sevilla, depois dessa epifania, a emoção que trazia dentro de mim ainda era muito clara, pois, quando descrevo o Real Alcázar, digo:


Acho que me comovi com as frases do guia simulando a voz de Mercúrio. Também me impressionei de saber que a estrutura foi parcialmente abalada pelo terremoto de Lisboa. Almocei e jantei regiamente e dei esmola a todos os pedintes que apareciam a cada quinze minutos. Comprei dois CDs da procissão do Rocío e também uma imagem da santa que espero que não quebre. Fiquei muito emocionado ao ver na TV os cantos andaluzes que integram três ou quatro gerações. É incrível como existem virtuoses mirins e pessoas com cara simples e voz poderosa. À noitinha sucumbi a um flamenco de turistas, já que são os únicos abertos esta semana. Mesmo havendo inovações amalucadas da parte do dançarino, gostei do show que durou uma hora apenas (...) Amanhã estarei no Brasil (...) sentirei saudades de ver cartazes dizendo coisas como "pinchos variados", "chacina", "chipirón", "tocar al timbre", "hay caracoles y cabrillas", "rogamos mantengan sus equipajes controlados en todo momento" (...) talvez eu seja mais sensível a isso aqui do que em Portugal. 

E chegando:

A doce volta à casa não tem aquela palpitação cardíaca de antes de enfrentarmos o novo, nem a comoção de rever o velho, mas algo de integração, algo como o encaixe de duas peças de quebra cabeça, um sentido integralizado, uma coerência, uma familiaridade.

Parecia que eu tinha acabado de ler aquela resenha explicando o Mulholland drive, de David Lynch. Mas isso não aconteceu em 2013. Aconteceu ontem. A desintegração causada pelo encontro com um morto justificava a minha comoção tão inenarrável. Peço perdão por ter sido tão fraco, leitor, deixando a peteca da minha razão cair. Dizem que isso é humano, mas na verdade é somente a prova de que há em mim algo que dizem não existir: um indivíduo.










domingo, 11 de agosto de 2019

A ARENA DO VÍDEO E A EXISTÊNCIA COM MAIÚSCULAS TROCADAS

Já mencionei em outra postagem que há, na filmografia de David Cronenberg, um fio-condutor que não se confunde simplesmente com o horror evidente e saliente. Nesses filmes, qualificados, sobretudo pelos vendedores, como trash, há a temática da fusão e do ser transformado. O elemento do horrível tem a estranha função estilística de despistar a mensagem básica do filme e seu fio-condutor.

Talvez dizer isso não convença muita gente, portanto, precisarei ser novamente spoiler, comparando duas obras, que estão mais estreitamente ligadas entre si: Videodrome (1983) e eXistenZ (1999). A minha descrição está mais detalhada, de longe, e mais correta do que o resumo apressado da Wikipedia. Conto o enredo todo, porque aposto que o leitor não verá esses filmes (deixará para vê-los num futuro que nunca se concretizará ou então não quererá ver o filme, cujas cenas grotescas e roteiro fragmentado requerem, de fato, estômago). Minha atitude pretende ser norteador: caso queira ler e depois assistir a ambos, verá que não se trata de um texto estraga-prazer (se a palavra "prazer" se pode aplicar-se de fato a Cronenberg). No fundo, foi um exercício meu de decifração do famoso maneirismo cronenberguiano. Parto da ideia de que nesses dois filmes há uma tese paralela ao enredo, que aponta de forma acusatória para os meios de comunicação, entendidos não como os macluhanianos meios de extensão que nos levarão a um Homo deus harariano, mas como uma espécie de droga, na qual o ser humano se dissolve, se despersonifica e se destrói. A mensagem cronenberguiana só se obtém parando em cada linha de diálogo, como eu fiz, e de modo algum assistindo relaxadamente a esses filmes propositalmente difíceis e feitos para ser odiados. Se a acusação da desintegração humana em máquinas não é novidade alguma hoje, época em que temos a redentora internet e suas filhas, as redes sociais, no bolso de nossas calças, junto com nossas carteiras, os WhatsApp, os Instagrams, os Facebooks, os Twitters e os Telegrams, verdadeiros redimensionadores das relações humanas, pois redistribuíram as nossas relações sociais (da mesma forma grotesca com que a Europa recortou a África em países quadrados, em desrespeito da história dos povos que lá habitavam), não podemos nos esquecer, antes de fazermos nossas caretas vendo esses dois filmes, que se tratava de uma mensagem profética. E é isso que eu percebo, depois de vomitar com as cenas do filme: acabei de ouvir um profeta. Mas de que adianta ouvir profetas? Profetiza-se o aquecimento global e o destino do microplástico nos oceanos, mas continuamos conduzindo nosso presente para o apocalipseO ser humano só dará razão aos profetas não quando se transformar no Homo deus, mas quando se transformar em Semihomo, única chance de continuar evoluindo. A outra opção será desaparecer da face da Terra, deixando que os vermes e bactérias resistentes nos façam o favor de se alimentar de nosso lixo num ambiente futuro inóspito.

O primeiro filme trata da Civic TV, canal 83, curiosamente o ano do filme, ou seja, o presente. Max Renn é acordado com uma fita de videocassete programada para funcionar como despertador, na qual sua secretária Bridey James diz I'm not a dream, although I've been told I'm a vision of loveliness. E, de fato, o mundo das imagens deixará, como sabemos, de ser um sonho. Max abandona seu sonho e ruma à consciência da realidade (time to slowly, painfully get back into consciousness). Saberemos que Max se interessa por filmes de pornografia e violência por causa de seu canal de TV e que se empolga cada vez menos com eles, pois não os acha mais tacky o suficiente, não o fazem turn on, concluindo que a boa qualidade dos filmes prejudica o sexo que expõe em rede nacional. Procura algo que seja tough e que realmente consiga break through. E esse desejo de superação dos limites e de insatisfação o levará a Harlan, que consegue piratear um satélite e apresenta uma cena de tortura de 53 segundos, provinda, segundo ele, da Malásia. Max considera que essas cenas de tortura chegam a ser insultantes por ser tão curtas e por serem "melhores" do que tudo que já pôde oferecer ao público. Max não sabe, mas nesse exato momento se lançou no Videodrome, que em português, não se traduz como "videódrome" (como se fosse uma "síndrome do vídeo", subtítulo erradamente atribuído à tradução brasileira do filme, pois em momento algum se associa o tema a uma síndrome ou a alguma doença aditiva), mas como "videódromo", ou seja, a uma arena em que os telespectadores são lançados para participar do jogo, como  mais tarde será explicado pelo professor O'Blivion. Max quer negociar e comprar os direitos do Videodrome.


Max oferece um cigarro a uma imagem, que é na verdade a mulher que está ao seu lado e será entrevistada juntamente com ele. Essa mulher é Nicki Brand. Max representa a TV, é a tevê cívica, Nicki é o rádio, a Personality. O rádio perde terreno para a TV, a personalidade perde terreno para o que é considerado cívico. Não é com a mulher que Max interage, é com a sua imagem, oferecendo-lhe um cigarro, mesmo que ela, de carne e osso, esteja de seu lado. Max oferece violência e pornografia aos que assistem a seu canal, o programa de Nicki (Emotional Rescue) ajuda pessoas desesperadas. Para uma delas, dirá "consigo ouvir você se desintegrando" e aconselhará que procure ajuda profissional. No programa de TV em que ambos estão sendo entrevistados (Rina King Show), juntamentes com o professor O´Blivion, Max se defende, dizendo que as pessoas querem violência e pornografia, mas nega que isso contribua para o mal-estar social; pelo contrário, é apenas um outlet inofensivo para suas fantasias e suas frustrações. A palavra outlet é uma palavra ambígua em inglês e significa metaforicamente "válvula de escape". Mas pode ser, menos metaforicamente, uma "tomada", como é o bioport, presente no corpo das pessoas no filme futurista eXistenZ, sobre o qual trataremos abaixoEnquanto Max imagina que seu canal de filmes violentos e pornográficos seja um ato social positivo, Nicki discorda, pois para ela vivemos em tempos de superestimulação: we crave stimulation for its own sake, we gorge ourselves on it. Nesse debate, a posição de O'Blivion tem os ares do conhecimento sedimentado na postura catedrática. Para ele, não se trata de um desejo de autoestimulação crescente, mas vivemos numa época de insensibilidade e de desumanização: a tela nada mais é que a retina dos olhos de nossa mente. O seu nome O'Blivion é falsoobviamente, porque o professor em si não é o esquecimento: trata-se apenas de um nome criado para sua imagem. Como ele, contudo, todos nós teremos nomes especiais em breve, nomes que farão os tubos catódicos ressoarem. Não sei como, mas Cronenberg profetizou na imagem do Esquecimento que ensina, a existência futura do Second Life. Daqui a pouco elegeremos representantes do governo que só existem nessa segunda forma de vida.

Max e seu canal são uma ameaça ao rádio. No entanto, ele deseja Nicki e ela parece receptiva com seu vestido vermelho e seu discurso de overstimulation, segundo a análise freudiana de Max. Nicki também deseja Max, por causa de seu masoquismo. Cada vez mais, Max se vê convencido que o Videodrome é o que ele procura, pois não tem custos: é apenas tortura, assassinato, mutilação. Harlan o conscientiza disso: Videodrome é apenas para pervertidos, é absolutely sicko. Max confessa que não consegue tirar os olhos das cenas do Videodrome, por serem incrivelmente realistas. Nesse momento, todos, inclusive nós, os espectadores do filme, sabemos que as cenas são de tortura real, mas Max não acredita nisso, apesar de achá-las incredibly realistic. Harlan acena que descobriu que aquelas cenas captadas pelo satélite não são da Malásia, mas de Pittsburgh. Na casa de Max, Nicki assiste também ao Videodrome e se excita e quer mais do que tudo ser participante do show dessa arena. Cedendo ao sadomasoquismo de Vicki, perante a TV ligada e durante as cenas do Videodrome, Max tem sua primeira alucinação, pois imagina estar dentro da arena onde as pessoas são torturadas. É momentoso, de fato, quando pela primeira vez a imagem se transpôs para a realidade. Vicki decide ir a Pittsburgh pois diz ter nascido para aquele programa, mas Max teme por ela: those mondo weirdo video guys they've got unsavory connections, they play rough, rougher than even Nicki Brand wants to play. Para Nicki, essas palavras são um desafio. Max imagina distinguir perfeitamente entre a violência que empurra para os telespectadores e a violência do mundo real; imagina não pactuar com a segunda; imagina que Videodrome é uma encenação, mas na verdade encobre para si mesmo que é um sádico e que sabe que Videodrome é um snuff movie, como tenta alertar-lhe a amiga Masha BorowczykQuantos Maxes não há hoje? E o número só aumenta cada vez mais.

Masha descobre quem está por trás de Videodrome. Não quer dizer nomes, pois parece muito perigoso envolver-se com assassinos, mas ele a suborna prometendo aceitar os filmes dela, que há pouco havia rejeitado por serem ingênuos demais. World is a shithole, diz Masha, e cede: quem está por trás disso tudo é O'Blivion. Cronenberg é coerente: só poderia mesmo ser ele. Que seria o esquecimento senão o superego que reprime os desejos do ego, desviando sua atenção? Max vai procurar O'Blivion em sua igreja, a Cathode Ray Mission, que salva a alma das pessoas sem-teto, oferecendo-lhes TV e comida: to watch TV will help patch them back into the world's mixing board. Não encontra o professor O'Blivion, mas apenas sua filha, Bianca, a qual lhe diz que o modo preferido do pai para conversar é o monólogo: ele não conversa com ninguém há 20 anos. Dá a Max uma fita de videocassete. Em casa, Max manuseia uma arma quando sua secretária Bridey bate à porta com sua fita-despertador. Max se enfurece com o modo que ela invade sua intimidade e espanca seu rosto. Enquanto bate, o rosto de Bridey se transforma no de Nicki. É a segunda alucinação. Max pede desculpas a Bridey e ela não sabe do que ele está falando, afinal de contas, ele não bateu nela de verdade. Quando sai, pega a fita dada por Bianca e novamente alucina, pois a fita parece ter vida e pulsa.



Na gravação da fita, O'Blivion afirma que, no futuro, o bem mais disputado do planeta será a mente das pessoas e que isso ocorrerá na arena dos vídeos, o Videodrome. A tela, a retina dos olhos da mente, é parte da estrutura física do cérebro, portanto, aquilo que emerge da tela de TV é a experiência nua e crua para o telespectador. Ou seja, as imagens são a realidade e a realidade passa a ser muito menos que a imagem. Isso soa moralista para Max, que ri. Mas O'Blivion continua, dessa vez, dirigindo-se ao próprio Max, numa nova alucinação, dizendo-se feliz que Max tivesse vindo até ele, pois até agora estava lidando com tudo isso sozinho. Informa que a realidade de Max já é metade realidade e metade alucinação. Max deverá tomar cuidado doravante para não se tornar uma alucinação completa. Por isso, precisará acostumar-se vivendo num novo mundo, muito estranho. A tese de O'Blivion é que as visões causaram um tumor no cérebro e não o contrário. São estranhas visões que coalescem e se transformam em uma carne incômoda. Retirado o tumor, ele foi chamado de Videodrome. Ele, O'Blivion, foi a primeira vítima do Videodrome. Enquanto fala, O'Blivion é morto diante dos olhos de Max. O algoz retira a máscara. É Nicki. Ela diz que o deseja: Come to me, come to Nicki, don´t make me wait, please. A TV parece viva, com veias, entumecida, arfando, Max parece fascinado, mais do que assustado. Os lábios de Nicki aumentam, projetam-se para fora da tela e ele parece estar sendo devorado. A cena é tremendamente bizarra e se assemelha a um filme da mesma época, Poltergeist (1982).


Max continua cético e diz a Bianca que o filme desencadeia uma série de alucinações. Bianca diz que o tipo da alucinação é determinado individualmente pelo tumor provocado por assistir ao Videodrome pela primeira vez. Diz que o pai já está morto há 20 anos. Videodrome é a próxima fase da evolução humana como um animal tecnológico (o Homo deus de Harari?). Como o pai, a certa altura, foi contra utilizá-lo, acabou sendo eliminado pelos parceiros. Como a vida nas telas é mais real que a vida privada de carne, ele não se importou com o perecimento de seu próprio corpo e sobrevive nas suas fitas de videocassete. O'Blivion ensinará a Max a entender que esse tumor não é de fato uma pequena porção de carne, incontrolável e sem direção, mas um novo órgão, uma nova porção do cérebro, um novo outgrowth, que teleologicamente produz e controla as alucinações, capaz de mudar a realidade humana. There is nothing real outside our perception of reality. Nesse momento, começa o horror propriamente dito. Max, ao ouvir essas palavras, se transforma na própria máquina que produz imagens: está com a arma na mão ouvindo O'Blivion, sua barriga tem uma cicatriz que coça e  ela se abre horrendamente. Ele guarda a arma dentro de si mesmo por meio desse novo orifício em sua carne.

A partir daí, nada mais do que acontecerá é possível de ser plenamente acompanhado pela razão do telespectador. Toca o interfone. Lá embaixo o espera o motorista de Barry Convex, um dos companheiros de O'Blivion, supostamente um dos que o eliminaram. Max ouve o que Convex tem a dizer por meio de uma TV em sua limusine (o fetiche por limusines também aparecerá noutro filme de Cronenberg, Cosmopolis, de 2012). Convex dirige uma ótica (Spectacular Optical), cujo lema é Keeping an eye on the world e que oferece inexpensive glasses for the Third World. Convex diz a Max que parte dos testes da máquina gigante de alucinações em que o Videodrome está envolvida foi captada por Harlan e agora Max está a par de tudo. Metido nessa imensa encrenca, Max sabe que Convex é poderoso, pois também oferece orientação de mísseis para a OTAN. O telespectador, nesse momento, coalucinando com Max, não sabe mais se o enredo do filme é algo que Max de fato vivencia ou faz parte das suas alucinações. Max não sabe se Convex quer ajudá-lo ou se deve ter medo dele. Diz que quer gravar as alucinações de Max em óculos especiais de realidade virtual. Max diz querer os copyrights de suas alucinações, mas Convex entende como uma piada e o ignora. Max coloca o equipamento em sua cabeça e Convex sai: you'll forgive me if I don´t stay around to watch. I just can't cope with the freaky stuff. 



Por meio desses óculos de realidade virtual, Max vê Nicki e ambos estão na sala de torturas. Max está no Videodrome com Nicki. What are you waiting for, love? Let´s perform. Let´s open those neural floodgates. Com os óculos de Convex, Max chicoteia um televisor e o espectador vê que a pessoa chicoteada é, na verdade, Masha e não Nicki. Max acorda e imagina estar sonhando. Do seu lado, na cama, vê Masha morta. Chama Harlan, mas quando ele entra no quarto de Max, informa que não há ninguém ali. O espectador começa a desconfiar que Harlan está envolvido com Convex e Max aparentemente também, mas Max desconfia ainda mais do que ele próprio pensa. Após uma briga com Harlan (I'm not some servomechanism you switch on), despedem-se e, no dia seguinte, vai ao seu estúdio, para ver as últimas transmissões do Videodrome, porque teme que o conteúdo de sua mente captado nos óculos de realidade virtual esteja sendo transmitido, e lá encontra Convex. Descobre que foi Convex quem proporcionara que ele construísse o seu canal anos atrás, com a finalidade de expô-lo ao sinal do Videodrome, por causa do sadismo que sempre negara para si mesmo: why would anybody watch a scum show like Videodrome? Why deny you get your kicks out of watching torture and murder? Num discurso, que parece ser pura alucinação, revela-se o plano: Convex quer tornar os norteamericanos mais durões do que o resto do mundo, pois têm de ser puros, diretos e fortes e ele usará Max para isso: nesse momento, o ventre de Max se rasga novamente e Convex enfia a fita em seu corpo, como se Max fosse o próprio instrumento em que rodaria o Videodrome.

A partir desse momento, uma voz ecoa na mente de Max, dizendo ser urgente que ele mate os parceiros do seu canal. Max tenta retirar a fita de dentro de seu corpo, mas extrai de dentro de si é a arma que estava lá guardada. Seu corpo e a arma se tornam uma coisa só: cabos ligam sua mão e seu braço à arma e tudo se cobre de carne. Max vai até o canal e mata seus colegas. Em vários momentos o espectador vê que seu braço está normal e que tudo na verdade é fruto da loucura de Max, mas essa imagem oscila com a da arma colada à mão deteriorada, não sendo possível afirmar racionalmente nada mais daí em diante sobre o que é real e o que é imaginário. Quando a voz lhe manda matar Bianca, sua mão está ainda mais disforme: You´re an assassin now for Videodrome, they can program you. Bianca foge dele e consegue mostrar-lhe por meio de uma filmagem que eles o estão enganando, pois eles mataram Nicki. Isso faz Max voltar a ter um pouco de consciência do que fez. Videodrome is death. Uma arma se projeta na tela e atira nele. Bianca diz que seria doloroso demais retirar a fita de videocassete e modificar a programação. You've become the video word made flesh (parafraseando o versículo bíblico de João 1:14), mas que há uma salvação: voltar-se contra o Videodrome, usando as armas que lhe deram. Death to Videodrome. Long live the New Flesh. Cronenberg retomará o tema da Nova Carne três anos depois, no seu filme The Fly.

No noticiário da TV de um mendigo, o telespectador sabe que de fato alguém matou os produtores do canal 86. Este é o único pé na realidade que podemos ter. Max vai à Spectacular Optical e encontra Harlan empacotando algo. Pergunta o que há na caixa. E Harlan responde: "sua cabeça". O telespectador fica confuso, porque o diálogo que se segue entre Harlan e Max pode ser pura alucinação. Ao enfiar novamente uma fita de videocassete na ferida de Max, a mão de Harlan é despedaçada e se torna um cabeçote; as cenas trash não param aí, pois, aos gritos, Harlan explode. Para completar o maneirismo quase hilário da cena, uma criança que passa na rua diz à mãe que quer ver o grande ka-boom. Tendo eliminado Harlan, Max entra num show, onde Convex discursa. A mão de Max está agora ainda mais deformada. Convex é baleado e, de uma forma desproporcional aos ferimentos que recebe, morre com muito sofrimento, totalmente destroçado de dentro para fora (lembrando uma acusação de Max contra Convex: you're rotting us from the inside) de onde emerge uma espécie de criatura semelhante a um tumor vivo e pulsante. A cena deve ser uma das mais trash do cinema internacional e com certeza propositalmente expulsa loas da maioria dos intelectuais. É assim que Cronenberg marca seu estilo.

Max vai até um barco abandonado e lá há uma TV onde a imagem de Nicki o guiará para o que deverá ser feito. Convence-o que aprendeu muito com Max desde a primeira vez que o viu, que a morte não é o fim. Max confessa que não sabe onde está agora, que teve problemas procurando o seu rumo. Nicki o consola: that's because you've gone as far as you can with the way things are. Videodrome não terminou com a morte de Convex: ainda existe, é muito grande e complexo. Max foi um mártir ferindo alguns dos responsáveis pelo Videodrome, mas não os destruiu. Para fazer isso, é preciso seguir a próxima fase: matar-se. Nicki argumenta: your body has already done a lot of changing, but that is only the beginning of the New Flesh e, segundo ela, Max terá de percorrer agora todo o caminho até o fim, ou seja, realizar uma total transformação em seu corpo, matando a Antiga Carne. Ela lhe mostra exatamente como deve proceder e Max vê na TV a sua imagem futura, atirando-se na cabeça. A TV explode e lança para fora vísceras. Max repete a mesmíssima cena e se mata.



A ingerência das máquinas e de quem as manipula sobre os espectadores é um tema sensível há muito tempo. Mas que isso conduzirá à transformação do corpo biológico na New Flesh é uma tese cara a Cronenberg e, recentemente, a Harari. O filme foi esquecido há muito, mas isso não o impediu que, no mesmo ano em que foi lançado Matrix (1999), o tema da alienação do homem pelas máquinas tenha sido repetido em eXistenZ. O filme das irmãs transgêneras Lilly e Lana Wachowski, segundo o parecer anônimo na capa do DVD que comprei, seria uma brincadeira de crianças perto desse novo filme de Cronenberg.

Desde o início, a fala dos atores de eXistenZ parece artificial, exigindo paciência de seus espectadores. Os atores, para o espectador ingênuo, parecem canastrões, mas tudo isso é proposital, como se verá, e só fica parcialmente evidente com o desenrolar da trama. Não temos mais a Civic TV, mas um futuro próximo, totalmente alterado, no qual a New Antenna Research desenvolve jogos de videogame. O lema da Antenna é we are a team, Antenna and you. Para o lançamento do jogo eXistenZ, da Antenna, foi convidada a maior designer de jogos do mundo, Allegra Geller, segundo a qual as pessoas estão programada para aceitar tão pouco, enquanto as possibilidades são enormes. O jogo é acessado por meio dos chamados slave-pods (que são definidos como metaflesh gamepods), que têm um estranho aspecto de órgão de ser vivo (o fio lembra um cordão umbilical e é chamado de umby-cord) e se plugam em uma tomada que todas as pessoas têm, o bioport, a qual está diretamente ligada à coluna vertebral. Nesse mundo distópico, as pessoas preferem games de esqui a esquiar de verdade. O ato de entrar nos mundos virtuais se chama port-in. Durante a apresentação, Noel Dichter entra, atrasado, em plena sessão de port-in, com um pod obsoleto. Allegra promete que todos serão transportados para o mundo de eXistenZ e estarão de volta num instante e que, durante isso, não devem entrar em pânico, não importando o que acontecesse. Allegra, a deusa dos jogos, é muito tímida, não tem vida social, fica a maior parte do tempo fazendo designs de jogos e talvez preferisse não mostrá-los a ninguém. Noel oculta em seu pod uma estranha arma, levanta-se aponta para Allegra durante a sessão e grita death to the demoness Allegra Geller. Atinge-a no ombro e é brutalmente fuzilado.

Temendo haver mais terroristas na sala, Ted Pikul é solicitado a retirar Allegra do recinto. Ted pega a arma de Noel e sai com ela. Allegra parece excitada e orgulhosa com o atentado, em vez  de assustada; ainda dentro do carro, em fuga, pergunta a Ted como ele se sentiria se alguém chegasse até ele gritando death do Ted Pikul. Ted estranha que ela saiba seu nome, mas ela esclarece que está escrito no crachá. Detalhe que só faz sentido depois. Allegra parece aborrecida porque está correndo perigo e lhe mandaram um pk-nerd para salvá-la: de fato Ted parece extraordinariamente ingênuo para a idade. Ted arranca do ombro ferido de Allegra o que supunham ser uma bala. Espantam-se, porque, na verdade, é um dente humano e eles percebem que a estranha arma de Noel é feita de ossos e seu carregador é um maxilar humano. The tooth fairy could go into the arms business, é a piada feita no momento. A salvo, Allegra se deita na cama e se entedia, dizendo-se wandering through eXistenZ. Ela gostaria de estar jogando, mas sem um parceiro é como se frustantemente fosse apenas um turista no mundo de eXistenZ. Nesse momento, Allegra se surpreende com o fato de Ted não ter um bioport. Ted é "virgem", porque ainda não foi fitted. Não será a única vez em que o ato de jogar videogame adquire conotação sexual no filme. Ted tem muita vontade de jogar os jogos de Allegra, mas diz entrar em pânico com a ideia de ter seu corpo perfurado cirurgicamente, algo que nessa distopia se faz em qualquer lugar, com risco infinitésimo de ter paralisia, segundo ela. É estranho para Ted que ela queira jogar enquanto está sendo perseguida por loucos. Allegra diz que o atentado ocorreu bem no momento do download do jogo e o único jeito de saber se está danificado é jogando com um amigo. Isso o convence a fazer um bioport em seu corpo num posto de gasolina.

O dono do posto tem o curioso nome de Gas (que muito espectador, sem ver o final do filme, lamentaria como algo de mau gosto)o qual reconhece Allegra, ajoelha-se a seus pés e diz que ela mudou a sua vida com seu jogo ArtGod, no qual ele é Deus, o artista, o mecânico. Ted pergunta como era a vida dele antes de ArtGod e Gas diz: I operated a gas station, e isso, para ele, agora, é apenas o seu nível de realidade mais patético. Enquanto Gas tenta instalar o bioport em TedAllegra vê um estranho animal de duas cabeças, algo que parece completamente irreal ao espectador, mas também fará sentido ao final do filme. Ted tem medo da instalação do bioport, mas Allegra violentamente o convence, dizendo que o corpo dele é a gaiola de sua fabricação, a qual o mantém preso e andando no menor espaço possível. Break out your cage, Pikul! Ted cede e Gas instala uma bioport em sua coluna vertebral. Allegra está ansiosa, não espera desinchar e conexa-se a Ted, o qual filosofa como é possível haver um orifício no corpo diretamente ligado ao meio externo sem haver infecções. Allegra ri: don´t be ludicrous, Ted e mostra, pondo a língua para fora, que a boca também é algo assim.


No entanto, algo dá errado e o pod de Allegra explode. Ela se enfurece, mas Ted garante que não foi culpa dele, pois teve nenhum surto, nem entrou em pânico. O pod continha a versão original de eXistenZ e custara uma fortuna. Allegra se sente trancada do lado de fora de seu próprio jogo; era a única coisa que dava sentido à sua vida. Gas reaparece armado e quer matar Allegra, como tentara fazer Noel, em troca de recompensa, pois sua cabeça está a prêmio. Novamente, Allegra parece excitada com a situação e fantasia como será sua morte e decomposição. Ted o mata.

Fogem novamente e tentam consertar o pod. Ted também vê sem grande espanto o pequeno monstro de duas cabeças. Encontram Kiri Vinokur, conhecido de Allegra, que faz uma operação no pod. Ted se maravilha, pois o pod é, na verdade, feito de carne e ossos. Kiri explica: the eXistenZ game-pod is basically an animal; it's grown from fertilized amphibian eggs stuffed with synthetic DNA. Boa definição para a existência humana, pensa o espectador atento a cada frase do filme. O pod não tem baterias: as pessoas são a sua fonte de energia, seu corpo, seu sistema nervoso, seu metabolismo. Se você se cansa, ele perde qualidade e não funciona adequadamente. É de se pensar que tanto o pod do filme eXistenZ, quanto o tumor do Videodrome são órgãos projetados pelo Homo deus que visam à condução do homem ao Übermensch.

Mas para o jogo da existência é preciso de um parceiro amigo e Ted is humming along already. Ted, contudo, é uma pessoa insegura: como jogar com a designer do jogo? Allegra diz que é perfeitamente possível vencer, numa partida de poker, a pessoa que inventou o poker. Nesse momento, entram em eXistenZ. Ted está encantado quando a realidade se modifica: I feel just like me. Aparentemente não há como distinguir a realidade desse mundo virtual  (como em Matrix a experiência virtual está acima da experiência real das pessoas conectadas), mas Allegra mostra que ele consegue manter algum distanciamento e que poderá perceber alguns cortes brutais, algumas desaparecimentos lentos e alguns morphs pequenos e cintilantes. Conhecem D'Arcy Nader, que lhes quer passar um jogo da Cortical Systematics que terão de jogar para descobrir por que estão jogando. A personalidade de Ted se modifica e ele é rude com D'Arcy. Espantado com a modificação súbita de sua personalidade, Allegra esclarece que não foi Ted quem foi rude com D'Arcy, mas seu personagem e que há coisas que precisam ser ditas, a despeito da vontade de Ted, para haver avanço no enredo do jogo. A realidade virtual, segundo Cronenberg, tem uma teleologia. Allegra concorda que é uma espécie de sensação esquizofrênica, mas que Ted se acostumará com isso. Ser um personagem dessa falsa existência, segundo Cronenberg, parece ser um retorno ao conceito de destino, um cancelamento total do livre-arbítrio. Quem luta contra isso, não joga. Allegra parece sempre manter um distanciamento do jogo, criticando o sotaque que foi implementado na personagem de D'Arcy e a qualidade dos diálogos. Essa Entfremdung de Allegra faz Ted perceber que a personagem de D'Arcy está em loop e que ele não sairá dessa situação enquanto não lhe disserem a frase correta, como se fosse uma deixa de teatro. Allegra lhe dá a dica de que é preciso mencionar o nome das personagens com que fala.

D'Arcy lhes diz que é preciso que entrem num novo jogo, dentro de eXistenZ, para continuarem a história. Essa nova entrada num segundo mundo virtual, dentro de outro mundo virtual, confunde o espectador e ocorre de um modo distinto do da entrada anterior: não há umbycords e o pod inteiro é sugado através do orifício do bioport de suas personagens. Quando isso acontece, eles se excitam e se beijam, mas Allegra entende que aquilo é apenas uma tentativa patética e mecânica de aumentar a tensão emocional para a próxima sequência do jogo. Ted começa a se preocupar com seu corpo real abandonado numa cama: não sabe se estão bem, pois podem estar famintos ou em perigo e não se darem conta disso, tamanha a alienação causada por eXistenZ. Ted se sente desencarnado e vulnerável. Allegra o tranquiliza, dizendo que estão bem e que sabem tomar conta de si sozinhos: they´re just where we left them. Segundo ela, todos os sentidos ainda estão operando e eles poderão sair do jogo quando bem quiserem.

O jogo da Cortical Systematics, dentro de eXistenZ, tem um cenário bizarro: Ted agora se chama Larry Ashen e está na Trout Farm, abrindo estranhos anfíbios e lançando-os numa esteira. Ao lado dele está Yevgeny Nourish. De fora, ninguém diria que é uma fábrica de pods. Aliás, quase tudo ali parece ser outra coisa. Larry automaticamente empacota as vísceras do anfíbio e põe o pacote numa esteira. A personagem Yevgeny é programada para dizer a Ted que há um restaurante chinês na floresta; Larry deverá pedir o prato especial e não deve aceitar um "não" como resposta. Entregando pacotes, Larry (ou Ted) encontra a personagem de Allegra, que se chama Barb Bricken, que já parece agir como as demais personagens, esperando a fala correta de Larry para interagir com ele, enquanto Larry, nesse momento, parece manter um certo nível de consciência achando o novo jogo pouco convincente, sujo, absurdo e grotesco.

No restaurante, o garçom chinês sugere um prato, mas Larry quer o  prato especial, como o instruiu Yevgeny. O garçom se recusa, mas Larry insiste, dizendo ser o aniversário de Barb. O garçom é convencido e todos os demais à mesa se retiram, num ato de protesto. Nesse momento, Larry (ou Ted) diz que quer pausar o jogo, pois se sente desconectado demais da sua vida real, pois parece haver algum elemento psicótico por trás disso tudo. Ao gritar: eXistenZ is paused! acorda no quarto, ao lado de Allegra. A vida real, aquela para qual se pode voltar quando bem quiser, parece-lhes completamente irreal e entediante. Allegra lhe mostra que precisam voltar àquele restaurante, pois não está acontecendo ali. Ted concorda, dizendo não tem mais certeza de nada, pois começa a se sentir um pouco como a personagem Larry. Decidem voltar ao jogo.



O prato especial é servido e é asqueroso, com aspecto podre. Entre os ingredientes do prato está o animal de duas cabeças que ambos haviam visto. Segundo o garçom, anfíbios e répteis mutantes proporcionam novas e anteriormente inimagináveis experiências de sabor. A personagem Larry começa a comer com as mãos e Ted não ter controle sobre o que Larry faz: I find it disgusting, but I can´t help myself. Novamente, como em Videodrome, há um destino programado contra o qual o homem infectado pela máquina não consegue lutar. Com os ossos da carne apodrecida que devora, a despeito de seu mal estar, Larry constrói a mesma arma que foi usada por Noel no atentado contra Allegra, no início do filme. This looks awfully familiar. Retira uma ponte dentária, que está em Larry mas inexiste em Ted, carrega a arma de dentes, engatilha e aponta para a cabeça de Allegra, repetindo a fala de Noel: death to the demoness Allegra Geller. Mas se contém, como se tivesse sido uma brincadeira. No entanto, Larry está sentindo uma necessidade premente de matar alguém e sabe que a pessoa que deve morrer nessa cena é o garçom, mesmo achando-o extremamente simpático. Allegra incentiva-o, lembrando que Larry já que não consegue evitar o homicídio e, portanto, deve curtir o que está prestes a fazer. Everything in the game is so realistic, I don´t think I really could. E, de fato, ao voltar, o garçom é macabramente trucidado, bem no momento em que pergunta o que pode fazer para que o almoço deles seja mais prazeroso. Os clientes não reagem à altura e atendem ao comando de não se importarem com a cena. Um cão captura a arma de ossos. Ao sair do restaurante, encontram Yevgeny, que havia preparado o prato especial e, didaticamente, explica que o garçom teve de morrer porque ouviu coisas demais quando os clientes estão comendo relaxadamente: era um traidor em potencial. Levando-os à criação de anfíbios que servem não só para a refeição, mas também para a confecção dos pods e de componentes para armas indetectáveis e hipoalergênicas, explica que a Trout Farm pertence à Cortical Systematics, mas um dia Yevgeny e outros participantes do movimento realista destruirão todos os pods de dentro deles mesmos. Matando o garçom, Larry e Barb provaram estar do lado dos realistas e serem confiáveis.

Em seguida, o caixa Hugo Carlaw conta que Yevgeny é um agente duplo e que o chinês morto era um contato na Trout Farm. A partir de então, as relações se tornam muito confusas. Larry diz não sabe mais o que estão fazendo ali naquele mundo deformado, cujas regras e objetivos são em grande parte desconhecidos, aparentemente indecifráveis e possivelmente inexistentes. Sentem que forças que não entendem desejam matá-los. Apesar de tudo isso, trata-se de um jogo que todos estão jogando. Indo ao local de trabalho de Barb, encontram um novo pod, que está doente. Barb tem um desejo incontrolável de se juntar àquele novo objeto e entrar em um novo jogo e mesmo com o péssimo aspecto do pod, ela faz isso, mas imediatamente se sente mal. Larry (ou Ted) corta o umby-cord e Barb (ou Allegra) começa a sangrar, convulsionando, prestes a morrer. Yevgeny  incinera o pod e toda a cena se converte numa guerra declarada entre realistas e Allegra. Todo o cenário pega fogo e eles acordam no quarto em que haviam entrado na eXistenZ. 

No entanto, percebem que o pod original também está infectado. Mas isso não é possível. Como um  evento de um jogo poderia mesclar-se à vida real? Está ocorrendo, sem dúvida, um estranho sangramento da realidade e Allegra desconfia que o real traidor foi Kiri, que deve ter modificado o bioport de Ted ao tentar "corrigir" a cirurgia feita por Gas, com o intuito de matar o pod e destruir todo o sistema da eXistenZ. Seguindo esse raciocínio, enfia um ressonador de biosporos na espinha de Ted, de modo que a infecção não atinja o seu cérebro. Lamenta que não poderão jogar enquanto isso.

No entanto, o pod não reage aos cuidados de Allegra e começa a morrer. Nesse momento, há uma  súbita explosão e entra Hugo Carlaw, vestido como um soldado, que informa que a revolta está iniciando e que o mundo todo está em chamas. A cena é tão surreal que eles percebem que ainda estão dentro do jogo. O soldado grita, dizendo que têm de sair dali, mas Allegra não quer abandonar seu pod moribundo. O soldado metralha-o. Observam que se trata da morte da eXistenZ e da vitória do realismo. Allegra tenta salvar-se, dizendo que estão do lado de Hugo, mas como poderia a designer dos jogos estar do lado dos realistas? O soldado afirma que sabe quem são eles e que não se esconderão dentro de um jogo para sempre. Kiri reaparece e mata Hugo com a arma de ossos. Allegra está revoltada por causa da morte de seu pod, mas Kiri afirma que ele está a salvo e que há uma cópia da eXistenZ. Kiri informa que está desertando, juntamente com os mais importantes de Antenna e migrando para Cortical Systematics. Convida-a para ir com ele, mas Allegra mata Kiri.

Ted fica assustado: como ela pôde fazer isso? Quem ela matará em seguida? A ele? Allegra o tranquiliza, dizendo que Kiri se tratava apenas de uma personagem de um jogo que estava bagunçando a cabeça dela. Mas Ted pondera se, de fato, eles ainda estão num jogo: se não estiverem, ela acaba de matar alguém de verdade. Allegra, porém, desconfia que não é um acidente que ambos, Ted e Allegra, ainda estejam juntos. Ao dizer isso, Ted aponta a arma para Allegra e ela entende por que Ted não tinha um bioport: Ted também é um realista, que quer matá-la. Ted confessa que, de fato, fez o sacrifício de ter um bioport para ganhar a confiança dela e conseguir aproximar-se dela. Allegra disse que desconfiara disso quando ele lhe apontara a arma no restaurante chinês e, por isso, estava precavida: aperta um botão e Ted explode. Ela não havia inserido um ressonador de esporos no corpo dele, mas uma bomba. Death to the demon Ted Pikul! Allegra excitada, imagina que ganhou o jogo e, de fato, aparecem adereços e uma coroa em sua cabeça. O jogo termina.


Há um circulo em que todos estão ali: Allegra, Ted, Noel, D´Arcy, Hugo, Kiri, Gas, Yevgeny e o garçom. O telespectador por fim entende que estavam jogando tranScendenZ, da empresa PilgrImage, há apenas vinte minutos, apesar de parecer estarem vivendo a história há dias. Isso explica finalmente o tom patético e canastrão dos atores do filme: representavam na verdade personagens da tranScendenZ. Isso explica como a "realidade" poderia comportar um bicho de duas cabeças, como uma pessoa que trabalhava num posto de gasolina se chamava Gas e tantos outros pontos soltos. A existência simplesmente não era real: a transcendência é. Merle, que conduzia o jogo, pergunta: imaginem só se vocês ficassem a vida toda em um jogo! Consola os que estavam insatisfeitos com suas personagens ruins, dizendo que não importa quão aborrecidas elas eram, pois todos ganhariam um certificado. No mundo real, agora, Allegra e Ted são namorados que gostam de jogar juntos, e o cão que pegou a arma logo depois que mataram o garçom, é seu animal de estimação. O designer de tranScendenZ é, na verdade, Yevgeny Nourish.

Na saída, Yevgeny confessa a Merle que estava um pouco perturbado com o jogo que acabaram de jogar, pois havia um forte tom anti-jogo nele advindo de um dos participantes, e que criou o enredo do assassinato de uma designer. Ted e Allegra se aproximam, dizendo ter algumas perguntas para Yevgeny. Allegra pergunta se ele não acha que deveria sofrer por causar tanto dano à raça humana e se não concordaria que o maior artista de jogos do mundo devesse ser punido por ter criado a mais efetiva deformação da realidade. Armados, Ted e Allegra matam Yevgeny e Merle. Death to the demon Yevgeny Nourish! Death to PilgrImage! Death to tranScendenZ. Os demais não reagem, como na cena da morte do garçom. Avançam agora sobre um dos participantes, o chinês, que, acuado, pergunta: "vocês não precisam atirar em mim! Digam-me: será que ainda estamos dentro do jogo?". Cronenberg decerto ficou, como muitos, eu inclusive, surpreso com o malin génie cartesiano e com a noção de realidade de Berkeley. O resto é estilo particularíssimo.

Tanto na realidade deformada, causada ou não por uma enfermidade, vinda ou não de mecanismos que invadem nossa alma, em Videodrome, quanto na peregrinação alienada para a existência com volta a uma transcendência, supostamente falsa, em eXistenZ, o espectador de Cronenberg precisa de um abracadabra, ou seja, de uma chave teórica com a qual semidecifra os enredos, assim como um biólogo tem à sua mão a chave teórica da evolução, valendo-se de dados suficientes para converter-se a um credo mais razoável que qualquer outro, mas ainda em busca de mais evidências e conexões perdidas e inexplicadas, as quais nunca serão suficientes, com deleitosos mistérios e espantos que o motivarão a continuar sua investigação. O pré-requisito de uma mente científica do espectador de Cronenberg é, portanto, uma exigência diferente da de quem assiste ao enredo de um artista que não seja cientista: o espectador de David Lynch, por exemplo, depois de muito racionalizar, não consegue retornar do desvario, acaba por desistir, entregar-se ao filme, embevecido de ceticismo. Se a realidade é algo que comanda a transcendência, a qual controla a existência, dentro da qual se vive a fantasia, Cronenberg decerto quer mostrar que, ao nos perdermos nos labirintos da ficção, desejada ou causada pelo Videodrome ou por eXistenZ, o ser humano desconhece, de fato, quem é e com quem interage.  "Cuidado", diz Cronenberg nas entrelinhas, "eu mesmo posso ser um Barry Convex ou um Yevgeny Nourish". Nessa postura de diretor agressor, Cronenberg, se assemelha às vezes a Lars von Trier. Sendo algoz, Max se supõe vítima, ou sendo manipulada, Allegra supõe que controla tudo. A consciência, nessa perspectiva filosófica, se dilui invariavelmente toda vez que o homem se alia à máquina: não há como exigir controle dos atos do ser humano, se ele mesmo desejou que sua vida transcorresse de maneira cômoda, abdicou seu livre-arbítrio, caminhando inconsciente em sua vida parcialmente programada (porque cada ser humano, desejando realizar seus planos, impôs-se uma teleologia e ruma a um objetivo vago, por mais enlouquecido que pareça, à distância ao outros ou para si mesmo). Falava-se na década de 80 que a TV teria esse poder alienante, e na década de 90 que eram os jogos que confundiriam a realidade (não é sobre isso que fala a trilogia de Matrix?): que pensará hoje o profeta Cronenberg (que ainda vive) acerca do poder absoluto atual da internet e das redes sociais sobre a mente de tantos humanos? Confesso não saber, mas em alguma entrevista que não vi decerto ele confirmará minhas hipóteses. Terá sido completada a transformação do homem-mosca-máquina ou o inimaginável ainda está por vir? As letras maiúsculas não-iniciais de McIntosh, iPad, iPhone, WhatsApp não são as mesmas de eXistenZ e de tranScendenZ? Que resta ao ser humano, aliado a tantas criaturas feitas à sua imagem e semelhança, senão o oblivion, isto é, o mais profundo dos esquecimentos? Esquecimento daquilo que um dia já foi ou conseguiu ser um pouco, hoje rumo à total irracionalidade, lutando por água, como em Mad Max, ao mesmo tempo que corre sem parar por desertos em busca de ideais sem sentido?