O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

ESPANTO E INTOLERÂNCIA

É difícil saber se um dia o ser humano viveu em função somente de sua prole ou, desde todo o sempre, andou em bandos, mas fato é que um bando é rival de outro desde sempre. Migrando, sem saber nada de agricultura, procurou estabelecer-se em algum território cuja posse se definia pela sua simples presença. Se o território já estava ocupado, era disputado na mão, na pedra, na clava, na flecha, no tiro. Desde sempre foi assim: este bando, querendo invadir o território alheio e roubar-lhe os bens; aquele bando, querendo expulsar o que julgava invasor. Nesses assuntos, a justiça tirava férias por motivos óbvios: o que é justo para um bando não é nunca para outro. Mesmo depois de acordos e definições de fronteiras, volta e meia, questiona-se tudo em nome da história ou da razão, invariavelmente com uma dose enorme de violência.

Verdade é que aparentemente uma criança já sabe a comoção que lhe causa a violência cometida para com o outro. Isso não me conduz necessariamente a pensar como Rousseau. Em muitos contextos e discursos, filosóficos, religiosos ou políticos, busca-se a racionalização da barbárie. Nesse momento, não é mais possível falar de animal racional, mas de cinismo. 

Custaria muito discurso até convencermos a todos que o outro é igual a nós. Mas não é. O mesmo tanto seria gasto para convencermos que o outro não é igual a nós. Mas é.



Se o outro não é diferente de nós, o outro somos nós, seja ele vítima, seja agressor. É dessa consciência que vem a vergonha de sermos Homines sapientes. Seria preferível ser um bicho mais pacífico, se é que há algum. Nós, como espécie, nos sobreexcedemos no quesito da violência. A criança chocada perante a primeira cena violenta, aceita-a mais tarde por causa dos discursos e até mesmo se regozija com ela. Nesse momento, o outro não parece mais ser da nossa espécie. Mas é.

A tragédia da Estônia, por exemplo, ensanduichada entre nazistas e estalinistas, é maravilhosamente transmitida no filme Risttuules, mas a Estônia criou posteriormente a categoria de "cidadãos de categoria indeterminada" (est määratlemata kodakondsusega isik). Perdoar até mesmo os descendentes dos soviéticos invasores lhes parece ser a mais difícil das atitudes. Isso é apenas um exemplo da limitada justiça que o homem imaginou ter para com os trilhões de assassinos que já povoaram terra, e ainda imaginará. 

Já que é assim, por que falar tanto em paz, peace, мирسلام ou שלום? Se a justiça humana é tão precária, por que gastar tanta saliva discorrendo sobre teses tão teóricas acerca do perdão, como se fosse a mais elevada das qualidades humanas? Perdoar parece ser algo impossível de fato para uma vítima: o autoengano lhe custaria uma morte lenta por estresse. Parece mais fácil odiar, não só quem comete o delito, mas toda a tribo dos delituosos.

Odiar parece algo indigno de um ser racional e civilizado: parece que somente os discursos mais irracionais escancaram a baixaria do ódio. Vão engano: o ódio mais chocante é aquele que justifica, pela mais fria razão, a existência absoluta de seus pressupostos, os quais são, na verdade, quase sempre, muitíssimo discutíveis. Se há um erro nas argumentações, não está nas deduções, mas nos fundamentos das premissas, antes de começarmos a silogizar. Ora, não há como fundamentar as premissas de modo a todos ficarem concordes. A harmonia dos pressupostos é algo que só não seria utópico depois de haver muita dissensão e isso, se um dia ocorrer, será só depois de o ser humano ser atingido como espécie e não como elemento de uma tribo. A meu ver, contudo, o mais trágico é que, quando isso ocorrer, não terá consciência alguma, assim como o braço não tem consciência de sua paralisia após um derrame e nada mais pode fazer contra isso.

Hoje vivemos dias de ódio, movido, entre muitas coisas, pelo conhecimento daqueles que justificam racionalmente o seu desprezo pelo outro. Esse conhecimento, como sabemos, ampliou-se. 



No início, o conhecimento do outro se restringia ao conhecimento dos heróis dos mitos tribais: o outro, nessa época, era paradoxalmente o mesmo, aquele que nos fundou, o Mavutsinin de cada aldeia, todas localizadas na sua Murena, o centro do universo. 

Só os impérios permitiram o homem conhecer a história do bárbaro que o dominava e assim, Gilgamesh se tornou Noé e a cobra falante se introduziu no paraíso, palavra, aliás, de origem persa. Nasceu o casamento intercultural, a figura do poliglota sedento de vender seus badulaques. Nasceu o embrião da diplomacia, o pensamento elevado de Marco Aurélio, o conceito de "próximo". Mas mesmo assim, o outro continuava sendo um monstro a avançar sobre o bem estabelecido, ainda que o nosso status quo estivesse sob a guarda de um leviatã que, do alto da sua bondade, deixava o homem sobreviver, oprimindo-o e explorando-o.

E do conflito dos impérios políticos, religiosos e filosóficos, nasceram os valores. Uma cópia de livro não custaria mais o trabalho braçal de um escriba ou de um copista, nem teria mais o preço de um rebanho de cabras medievais. Com o mecanicismo, a imprensa chegava e, com ela, o outro nos era conhecido por navegadores e por Montaignes. O outro novamente invadia nossas posses, materiais e imateriais. A invenção da imprensa chocou-nos e, ato contínuo, veio a censura, a galope, violenta e necessariamente como as antigas guerras tribais na savana. Se a imprensa nos trazia o conhecimento, também trazia novamente o espanto e a intolerância, algo que parece mais natural que o efeito após a causa, na mesa de bilhar de Hume.

O que nos surpreende, todavia, olhando a história retroversamente, é que poucos sabiam ler e os que sabiam estavam feudalmente acordes com suas auctoritates até o nascimento da ciência ocidental moderna. Mas a ciência chegou, ressuscitando Pitágoras e vendo números em tudo. Galileu teve de humilhar-se, pois não bastavam as evidências. Nunca bastam e nunca bastarão. Mal sabia que era um novo outro e que o ser humano não é movido pela razão. Jamais teremos um planeta como Vulcan, terra natal da estirpe de Mr. Spock.


Tudo bem, o pedido de desculpa vem e, cedo ou tarde, a ignorância é reconhecida, parcialmente. Mas nunca deixará de haver espanto e intolerância porque não é possível que o outro se converta em um dos nossos se não tem os mesmos pressupostos. Não há como imaginar como seria uma censura global da internet: agora somos nós contra nós mesmos. O outro parece não fazer sentido. Escancarou-se quem é de fato o bicho homem e seu id, ou seja, estamos perante o grande temor de Freud externado na sua correspondência com Einstein.  

Se na época da imprensa, do rádio e da televisão, poucos eram atingidos diretamente e, mesmo assim, tanta comoção ocorreu, bem como tanta manipulação, que dizer de um novo meio que escancara o outro de uma vez por todas e que para conhecê-lo basta ter ouvidos e olhos totalmente desreprimidos por qualquer mecanismo ideológico? O ódio deu um salto formidável. Os espantos não cessam, minuto a minuto. A intolerância para com aquilo que é espantoso aumenta exponencialmente. A razão, encurralada na vertigem da sua queda, encontra o perdão no meio do caminho, misturado com a ambiguidade do desprezo, do ódio, da tristeza e da angústia de ter visto ou ouvido algo diariamente que mata nossa tão cara ingenuidade.



Se a guerra hoje é um negócio, como me dizia há pouco, numa conversa, um amigo meu, isso só comprova a condição hominal de ser violento. Se a espécie humana fosse de fato o ser sábio cujo nome científico a taxonomia apressadamente lhe atribuiu, não haveria comércio de armas. Se os seres humanos fôssemos racionais, venderíamos mais livros do que armas. Mas os livros que atiçam o ódio são os mais vendidos e se tornaram armas também. O mesmo se pode dizer das redes sociais e das páginas da internet. Basta que se invente uma impressora 3D para que imediatamente alguém cogite usá-las para construir metralhadoras: o bem que nos proporciona um novo conhecimento é sempre infinitamente menor que o mal involuntariamente gerado pelo seu inventor. É um ciclo que não se consegue interromper com discurso nenhum: argumentos requerem pressupostos e pressupostos não são universalmente aceitos, na maior parte das vezes, por causa da nossa má vontade, da nossa má intenção, da nossa má fé ou da nossa preguiça. 

Se não tolero o outro, não é minha culpa: são todos os meus pressupostos, alimentados desde a primeira infância, que estão em cheque. Como perdoá-lo? Não sei. Como não ficar triste? Não sei. Como conviver com ele? Não tenho a menor ideia. Tudo indica que o futuro, que transformará o bando primevo numa aldeia global, nos reserva uma convivência conflituosa demais, estressante demais, algo que nos fará sempre oscilar entre as figuras dos indivíduos desencantados e das formigas que roboticamente seguem sua programação de cortar, picar e levar para o formigueiro. 

Se aceito o outro, com fingidamente resignado relativismo, eu sofrerei, porque os pressupostos com que nasci e os valores que quero passar a meus filhos se calam e morrerão comigo, em respeito ao Übermensch requerido pelo novo contexto histórico que pegou a todos de surpresa.

Se não aceito o outro, com militante engajamento, vomito a necessidade da tabula rasa e de uma esperança, escancaro também meu autoengano, pois sei ou saberei, com náusea, que isso é um blefe num poker cujo resultado pode ser minha vitória ou minha aniquilação. Transmitirei o DNA de meu pensamento ao preço de o espanto e de a intolerância continuarem. Só haveria nisso algum prazer, se em mim houvesse alguma tendência sádica infantil. Mas isso nem sempre é a regra. Na maioria das vezes, é o mais puro autoengano que me moverá, se assim decidir agir.

Enquanto se esgrouvinha minha personalidade, aumenta o incômodo em meu estômago e oscila o desalinhamento das minhas opiniões, entre meu silêncio e minha histeria. Com sorte, não serei atingido por um outro louco, enquanto estou na gangorra da indecisão.

Mas não há terceira opção: ou tolero ou não tolero. 

Se tolero, o outro não faz nada de mais, pois o outro é um ser humano como eu, portanto, somos nós que fazemos, ainda que eu não faça, nem queira fazer. O autoengano aqui é óbvio. 

Se não tolero, o outro é quem sempre foi: o outro, que sempre me espantou e por quem tenho ódio desde a infância. 



No primeiro caso, buscarei a iluminação, no segundo, a justiça e em ambos, afogo-me no autoengano. 

A iluminação é um fechar de olhos, a justiça é um pedido de socorro. Tudo continuará movendo-se ao nosso redor, independentemente de pararmos para contemplar e julgar ou de nos pormos a caminhar juntos. Foi assim que nasceu o conceito de destino. Acreditamos piamente que há uma causa final. Mas não há, a menos que queiramos novos autoenganos. 

Se um outro diz que há sim e acreditamos que não há, de novo estamos um frente ao outro e confrontam-se antigos impérios intelectuais ou morais, com seus argumentos políticos, científicos, filosóficos ou religiosos. E todos se acham detentores da mais límpida "lógica". Esse é o único ponto em que concordaremos. Descartes, rasgando seus escritos e com as malas para a Suécia, matou a charada! 

E o clima sueco matou Descartes, que tinha tanto medo de morrer.