O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

domingo, 15 de dezembro de 2013

INIMIGO SELF-SERVICE

Todo animal está numa cadeia alimentar e os mamíferos, por mais espertalhões que sejam, nem sempre conseguem safar-se disso. Assim, nossos antepassados sofreram muito, sem visão noturna dos lêmures, sem a cauda preênsil ou a pelagem vasta dos haplorrinos. Durante milênios, os inimigos sempre foram os mesmos e afligiam sobretudo os velhos, doentes e filhotes, devorados por terríveis serpentes, astutos carnívoros e aves de rapina inclementes. Mas cedo também se viu que adultos fortes poderiam ser vítimas de outros inimigos. Debilitavam-se por causa de insetos parasitas e carrapatos, instintivamente arrancados pelo companheiro ao lado, em atitude solidária, espremidos ou comidos com uma dentada automática. Outros parasitas internos não eram visíveis, mas depois de um tempo, algumas atitudes igualmente instintivas como ingerir certas plantas ajudaram a combatê-los. Nenhum desses inimigos era mais estranho que a morte natural, que rondava qualquer um, forte ou fraco, causada pela velhice ou por alguma razão desconhecida.
Nunca nos faltaram inimigos. As trevas traziam um pouco de sossego às almas extenuadas de tanto arriscar a vida na procura de alimentos, mas paradoxalmente o sono era interrompido pelo grito de algum integrante do bando, subitamente devorado. Mas dominamos o fogo, já completamente bípedes e nus, e o perigo das trevas diminuiu.
Com a agricultura, a fome também passou a ser menos frequente. Com a cidade, a segurança aumentou. Mas não cessaram os inimigos. De início, eram as pragas que frustravam as colheitas. Mas logo em seguida, os inimigos brotaram de dentro da própria espécie. Fora das muralhas, tribos inimigas se batiam para entrar. Dentro delas, os assaltos eram apenas um dos tipos da multifacetada violência. Para se evitar o caos, nasceu a lei e a civilidade; paradoxalmente, com ela, a perversão de fazer o mal pelo mal.
Não urrávamos mais, nem batíamos mais no peito para estabelecer hierarquias. A essa altura, subíamos aos púlpitos. O inimigo agora passara a ser exclusivamente verbal. Suas ideias não nos agradavam de modo algum. Nem as nossas lhe ecoavam no peito como verdades. Acusávamo-nos mutuamente. Ao menos, concordávamos na mútua inimizade.
Estávamos certos que, além de nossas muralhas, nada de nosso existia. Todo o mundo era barbárie e, portanto, era nosso inimigo. Até que veio alguém mais poderoso e derrubou nossas fortificações. Passamos a fazer parte de um império e nosso rei foi levado vexaminosamente acorrentado como escravo para uma terra longínqua e dele nunca mais ouvimos falar. Ficamos sob domínio de um rei estranho que não era nosso vizinho. A ele, de coração ou contra a vontade, juramos fidelidade, sem jamais vê-lo, e auxiliamo-lo nas guerras contra outros inimigos, que ainda não estavam sob seu império.
Até que um dia, convicto dessa situação lamentavelmente resignada, alguém adoentado mentalmente passou a ver nessa nossa pena eterna à subserviência uma centelha de futuro. A alforria, obviamente, não estava neste mundo, mas após a nossa morte. Centenas de outros profetas repetiam essa mesma ladainha. Continuamos resignados, mas felizes. Sim, pois pior que os inimigos que nos escravizavam ou que nos saqueavam, pior que nossa condição mortal de súdito, havia algo ainda mais terrível, que tornava esses males irrisórios. A chave desse futuro era de uma simplicidade incrível: uma unção, um batismo, uma declaração, enfim, uma certeza cega no Bem, o verdadeiro rei que vencerá esse superinimigo. E a felicidade dessa revelação lançou novamente homens contra homens. Diziam: no fundo todos somos iguais, mas há um inimigo ainda mais invisível que todos os anteriores e essa é a causa de todo nosso mal. Criam que haverá uma redenção contra a abstração de todo o mal na figura igualmente abstrata de um bem infinito, que se importa conosco, porque somos seus filhos.
E esse raciocínio infantil de um ser desamparado mostrou que devíamos lutar contra os demônios que se escondiam nas ainda muitas sombras das vinte e quatro horas que regulavam o nosso organismo animal. De nada adiantou Santo Agostinho argumentar que o mal não existia. A fé na existência de um inimigo poderoso como o Mal é muito maior.
Um dia, alguém inventou a luz elétrica e a multidão de seres fantasmagóricos que povoavam a mente e as narrativas de pessoas muito dignas acabou por esvanecer-se por causa da incredulidade de quem nunca as via por mais que as buscasse. Chegou-se a conclusão que ou eram mentiras ou eram alucinações. Mas o Mal ainda era a melhor explicação para a existência dessas alucinações.
Pouco antes, porém, atenuara-se a certeza da cisão entre o homem divinamente amparado e a natureza, que existia apenas para o servir ou para o aterrorizar. Tornou-se óbvio que não há cisão alguma, mas continuidade histórica. Se esse continuum era cercado de fossos, na verdade, foram todos criados pela extinção dos elos perdidos. Nesse sentido, nosso organismo é uma extensão somente um pouco diferente de seres similares, mas ambos teriam um ancestral comum. Abalou-se com esse discurso nossa certeza de sermos filhos de um bem que nos protege, mas as alucinações continuavam e desconfiou-se que seriam apenas ecos arquetípicos desse passado animal, produzidos por nosso cérebro.
E eis que o cérebro passou a ser nosso inimigo. E ainda mais terrível. Não se tratava mais de um animal selvagem, nem de um espírito maligno, nem da tribo vizinha, nem do desconhecido que mora ao lado, nem de nosso irmão. Nosso inimigo agora era nós mesmos. Estávamos a mercê de uma massa cinzenta cheia de vontade própria, que habita em nós mesmos. Reféns de nós mesmos, passamos a desejar queimar até a morte o Horla que habita em nós, mas, queimando nossa própria casa, acabamos por vitimar os empregados, que nada tinham a ver com nossos delírios. De novo estávamos num beco sem saída, situação em que nos encontramos agora e que Giannetti descreveu magnificamente no seu livro A ilusão da alma.

Mas o conclusão disso tudo é que nossa razão de vida depende de um inimigo, senão de nada adiantaria ao nosso espírito irrequieto de símio trancar-se em casa, buscar o êxtase ou o conhecimento, enveredar pela vida política, viajar para terras distintas, como diz Sêneca em A tranquilidade da alma. E quem diz que preenche esse vazio com isso ou com aquilo normalmente histericamente reforça tudo o que foi dito até agora, pois faz isso em nome de um inimigo. Partidos políticos se digladiam, patrões e empregados se enfrentam, religiosos  lamentam que haja ateus e ateus ironizam religiosos. Estamos num mundo cronicamente inviável, diria Sergio Bianchi. Fazendo tudo isso não estão todos corroborando que a indiferença quase budista almejada pelos estoicos é quase impossível? Não estamos todos construindo diariamente o fight club, de David Fincher?
Por fim, meu leitor, se você quer ser meu inimigo, basta ler com atenção o que eu digo, distorcer minhas palavras ou então apenas pautar-se no que o senso comum fala de mim, mas deve fazer isso com aquela mauvaise foi, de que fala Sartre. Todas as vias são válidas para a inimizade, por mais paradoxais que sejam: discordar é o charme do intelectual, ironizar faz parte da alma de quem quer convencer, acusar é a arma de quem quer o poder. Não é o amor, mas o ódio que nos une. E não se consegue bater no peito e ser líder de um bando de símios se não tiver bem equipado com razões. Um mudo somente seria líder se houvesse excesso de falatório, pois o silêncio somente é apreciado em meio às bombas que despencam. Fora esses momentos, a irrequietude sempre foi nossa marca. Os sons da natureza nos deprimem. Será nosso medo atávico de voltarmos à nossa condição original?
Mas, ao fim e ao cabo, transitando por tantos rumos, imperando de maneira soberana, podemos sentar-nos confortavelmente e escolher nosso inimigo predileto. Temos hoje esse direito. Quem conseguiria viver uma vida sem um inimigo? Ele nos dá razão de existir e esconde o oco de nossa insegurança e da nossa pequenez.

Aproximamo-nos dele, curvamo-nos e gentilmente - para que não se ofenda com alguma inflexão brusca de voz - dizemos-lhe no ouvido mui galantemente: permitir-me-ias esta contradança? E assim grudados, apaixonados, dançaremos uma vida inteira, inseparáveis, eu e meu inimigo, no mais perfeito autoengano, na mais absoluta inconsciência.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

SINCRONICIDADE

"Se não é logo na primeira vez que as coisas acontecem para nosso deleite, decerto na segunda haverá melhor sintonia com os nossos atos."
 
Por que pensamos assim? Eu sempre achei que a existência desse silogismo é o motivo pelo qual nos autolouvamos como racionais.
 
Famílias que moram no subúrbio acordam de manhã para mais um dia de labuta. De novo e eternamente, avós berram contra a parede e donas-de-casa entoam sua ladainha de tédio e frustração rodrigueana. Algumas, no decorrer dos anos, engrossaram o caldo dos produtivos e orgulhosamente caminham junto com a horda dos esperançosos. Não há escolha: ou nos lançamos à azáfama insuportável ou paramos tudo só para contemplar o absurdo? Tertium non datur?
 
 
 
Dizem que só podemos refugiar-nos desse dilema por meio da fé. Conversa velha essa, desde que surgiu o epicurismo, após a queda da pólis grega. Por causa dessa resignação afirma-se: sim, alguém excelente virá ou algo maravilhoso decorrerá deste ou daquele seu modo de agir. Segundo esse raciocínio, nada de bom reside no agora, apenas no deus Futuro. E se agirmos para acelerar seu advento, a frustração decorrente de nosso agir fará levantar-se uma outra nova fé, do meio dos escombros. E assim consecutivamente, ad saecula saeculorum.
 
Não é essa a mensagem messiânica do Encoberto? De um salazar à espreita rastejante na penumbra, como na lama de um lago escocês escuro, emergindo ovacionado pela Pessoa que o louvara enquanto o via no platônico Mundo das Ideias? Não é óbvio que se revestirá inexoravelmente de crua realidade, tão logo incensado como líder, quer com sufrágio, quer com sangue? Descobre-se então (defunto ideal ou ideal defunto?) que a rosa encoberta deve ser substituída por outra rosa, posta nos fuzis de quem restabelece aquilo que nunca deveria ter mudado... Nessas horas, é o deus Passado que ressurge. Novamente decepção. Longa longa decepção, muito mais que uma vida suporta. Mas que fazer se a mensagem daquela Pessoa tem sob sua base uma má etimologia: mens agitat mollem?
 
Ou será que é o nosso cereal matinal que está gritando? É tanto barulho que não conseguimos ouvir absolutamente nada que faça sentido. É nossa fome que nos lança, quer à ação quer ao comodismo? Ou são as indústrias que não param de trabalhar para aplacá-la? Elas dão o que queremos e tornam as manhãs feias com sua fuligem lançada ao ar, com seu vinhoto lançado à água, com o chumbo lançado à terra, com os resíduos lançados ao fogo. Conseguiríamos viver sem essa poluição tão amada? O que importa é a moral da história: tenho aquilo pelo que batalhei.
 
Desesperançados, caminhamos indo e vindo: entre as passeatas, rumo ao patrão que chuta  nossos fundilhos e, devagar, empacados no rush, rumo ao nosso lar, para acordarmos de novo amanhã e fazermos tudo igual. E teria algo mais que fazer? Isso faz parte do contrato social que assinamos. Para que buscar o porquê se a culpa é toda nossa, quando atribuímos superioridade e poder a quem nos humilhou, humilha e humilhará. Ciente dessa culpa, olhamos para o nada e lamentamos a vida, como quem não tem participação nenhuma. A culpa, obviamente, dizemos no nosso auto-engano, são os outros. "Eu sou uma vítima", berra Alex DeLarge, consciente do mal que a Ciência lhe infringiu. Rimos ou choramos dessa tremenda contradição?
 
 
Vender sua alma, prostituir seu corpo, que diferença faz quando o batom é passado nos lábios e vamos em busca de valores que não nos fazem crescer como indivíduos mas apenas de valores que importam à nossa sobrevivência? Um leão faz o mesmo que um homem tentando capturar uma zebra. Uma lula faz coisa idêntica esticando seus tentáculos. Flores são subprodutos não só do sol e da água, mas também do estrume. E sorrimos, às vezes, nas gaiolinhas onde nascemos. Fugir delas parece pior.
 
Tudo isso aconteceu e acontecerá. Passaram já trinta anos exatos desde que Sting cantou Synchronicity II, dando-nos as ferroadas de quem quer nos policiar. Mas ferroar por quê? Acaso não posso ferroar de volta, sem sequer pensar na razão da ferroada? Policiar de quê? Há nessas palavras mais iluminação do que num raciocínio prosaico? Sem dúvida não, mas a vaidade e o estilo fazem as diferenças de nossas miragens. E cantarolar parece que nos redime. Não é à toa que a contemplação estética e a música nos trazem provisoriamente algo de redenção, schopenhauerianamente pensando. O conteúdo, ao fim e ao cabo, é uma questão de reconhecer o que nos é óbvio desde que descobrimos bem novinhos que a mentira existe. Diante da decepção, enredamo-nos num casulo mais duro que a casca de uma macadâmia.
 
Nesses trinta anos, o mundo caminhou para uma realidade ainda mais esfarrapada do que naquele clip, mas na verdade o estudo de nossa etologia mostrará que continua(re)mos andando em círculo, em busca do esfacelamento total, ao estilo do planeta Terra do Wally. Somos os lemingues lendários que oscilam entre autodestruição e a falta de sentido de nossas buscas. Ou não sabemos onde chegar ou apenas somos programados para viver e, nesse caso, nada foge ao destino. Como os trilobitas foram um dia os donos do planeta, um dia chegará nossa vez. Átropos cortará o fio, sempre do mesmo jeito. Ninguém pode impedi-la. O fado do cérebro do hominídeo é o suicídio coletivo e, enquanto isso não ocorre, competimos uns com os outros, darwinianamente, porque queremos que nosso suicídio seja melhor do que o do nosso próximo.
 
 
 
Resta-nos apenas olhar para o longe no final do dia? Para o nada que cedo ou tarde virá, sem nunca ter-nos deixado? Será esse nada onipresente aquilo que, no auge das civilizações, convencionamos chamar de Deus?
 
Não, lá longe, onde não enxergo, lá onde é impossível que eu esteja, não há nada de interessante. Não há nada melhor do que o que está aqui na minha frente, na minha mão. Lá nesse lugar ansiado há apenas alguém sujeito às mesmas frustrações que tínhamos antes de iniciar nossa viagem em sua direção. Naquele loch não há um monstro, não há mirabile visu. Apenas um homem igual a mim,  ansiando o mesmo que eu. Nossa única diferença era a distância que nos separava. Nossas semelhanças são muito mais gritantes, embora inexplicavelmente desinteressantes.
 
Mas se, a despeito de tudo, o deus esperado não surge, nem nada equivalente, nunca, de onde vem essa cega esperança, se não das profundezas do desequilíbrio de um gene enlouquecido que tirou nossa cauda e nossos pelos e nos fez ciente de nossa nudez e fragilidade? Enquanto isso, os faróis de nosso carro iluminam o lugar que chamamos de lar, porto seguro de nossos prazeres, certeza do bendito e salutar esquecimento dessa condição limitada, incompatível com nossas expectativas megalomaníacas. E nesse momento, nossa dor se vai. E sorrimos.
 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

O AQUI-E-AGORA

Afoitos, sobretudo quando estamos envolvidos pelo calor juvenil que pulsa nas nossas veias, aprendemos a valorizar o aqui-e-agora. Não digo que isso seja bom ou ruim. Na verdade, a cognição enreda uma fantasia de individualidade que, no turbilhão heraclitiano das coisas, precisa de âncoras para que entendamos algo. Nosso entendimento não é dos melhores, mas também não é de se jogar fora. É necessário que ele exista, de alguma forma, para nossa sobrevivência e para nossa perpetuação.
 
Que é de fato o aqui-e-agora? Não me refiro ao meu dia comezinho e às aventuras domésticas hodiernas de quem mal teve tempo de almoçar, enredado em obrigações acumuladas. Não. Não falo de mim. Seria muito chato. Falo do contexto em que me insiro.
 
O que houve hoje todos conhecem. Não saberão dele quase nada amanhã. Tão óbvio, que parece truísmo indigno de ser relatado. Que adianta descrever o calorão paulistano que fez hoje à tarde, seguido de um friozinho e de sua promessa de chuva? No noticiário, há manifestações por toda parte, todos sabem. Sabemos também que hoje estamos à véspera da copa e das eleições. Não. Não é isso. Tampouco deveria importar ao leitor (a não ser ao bisbilhoteiro) a minha saúde física e mental ou a minha vida amorosa ou o que eu comi ou se ainda tomei banho ou não. Não lhe importaria de fato se peguei fila no cartório e no correio, se meu cartão Sodexo parou de funcionar, se estou preocupado com o que espero que ocorra amanhã. Não.
 
O aqui-e-agora, nesse sentido, é tão banal, seja vivido, seja entwitterado, seja enfacebookado, que só pode gerar o tédio. É algo que só tem o poder de nos jogar em rosto aquilo que pensamos ser, isto é, aquilo cuja confirmação tememos ouvir: o nada. Precisamos de sonhos, de fantasia, de mentiras e de fábulas até mesmo para termos coragem de nos pendurar numa corda.
 
Mas foi assim dez anos atrás? 2003 foi o ano do primeiro flash mob. Nesse ano, a prefeita de São Paulo era Marta Suplicy e nela arremessaram uma galinha preta. O presidente eleito do Brasil era Lula, após três tentativas anteriores. O de Cuba era Fidel Castro. Na Argentina o presidente era Nestor Kirchner e na Bolívia depunha-se Gonzalo Sánchez. Era época do ranzinza George W. Bush e Saddam Hussein ainda estava vivo, apesar do Iraque invadido, com a biblioteca de Bagdá destruída e as peças sumérias, de inestimável valor, saqueadas do seu museu. Num atentado, morria o diplomata Sérgio Vieira de Melo. Ano do novo Código Civil, da criação das subprefeituras de São Paulo. O ônibus espacial Columbia havia explodido no ar. A TAM se havia fundido com a Varig. No mar, o naufrágio do Tona Galea, em Cabo Frio. Na ciência, descobriu-se um novo domínio de seres vivos (Archaea). O Homo rudolfensis deixava de existir, considerado sinônimo do Homo habilis quase ao mesmo tempo em que se descobria o Homo sapiens idaltu. Por outro lado, também se descobria que 99,4% do genoma do chimpanzé é igual ao do homem. O Texas e a Georgia descriminalizam o homossexualismo. Os irmãos Chapman alteram originais de Goya. Havia epidemia de SARS na China. Falando em China,  foi o ano do primeiro voo entre Taipé e Xangai e do primeiro astronauta chinês. O juiz corregedor Antônio Machado José Dias foi assassinado. O sexagenário José Nelson Schincariol sofre o mesmo destino. No acidente de Alcântara morriam vinte e uma pessoas. Apontando para o futuro (que é hoje) havia o programa Brasil Alfabetizado. No cinema, Carandiru, de Hector Babenco e Elefante, de Gus van Sant. Terremoto no Irã, com vinte mil mortos. Após treze anos, o genoma humano acabava de ser transcrito. Blecaute nos Estados Unidos e Canadá, por mais de trinta horas. Michael Jackson havia sido preso e Arnold Schwarznegger era eleito governador da Califórnia. Beatifica-se Madre Teresa de Calcutá.
 
 
E dez anos antes, em 1993? Era a época do presidente Itamar Franco, vice de Collor. Fernando Henrique ainda era ministro da Fazenda. Houve um plebiscito sobre o regime a ser adotado no país e o parlamentarismo não emplacou. Lançou-se o Plano Decenal Educação para Todos, com vista à erradicação do analfabetismo. As primeiras operadoras de celular surgiam no Brasil.O papa de então, João Paulo II, já demonstrava sofrer do Mal de Parkinson. Na Venezuela, Ramón José Velásquez subia no lugar de Carlos Pérez, que acabava de sofrer impeachment. Era a época de Fujimori no Peru e de Menem na Argentina. O PDS se fundia com o PDC e surgia o PPR: o prefeito de São Paulo era Maluf e o governador era Fleury. Roberto Marinho entrava na Academia de Letras. Privatiza-se a Companhia Siderúrgica Nacional. Nos Estados Unidos, Bill Clinton; no Iraque, Saddam Hussein; em Cuba, ainda Fidel, que acabava de suspender a proibição do uso de dólares em seu país. Tolerância zero contra a criminalidade de Nova Iorque, declara Giulianni. Era época da guerra da Bósnia, mas na Irlanda do Norte, ao contrário, finalmente se declara a paz. Igualmente, nesse ano, Israel e a Palestina assinavam o Acordo de Paz de Oslo. Em Ruanda, Habyarimana também fazia um acordo de paz com os rebeldes tutsi. No Brasil, a chacina da Candelária e de Vigário Geral. É o ano da primeira Marcha para Jesus. Por outro lado, foram cinquenta dias de enfrentamento com fanáticos religiosos do Texas, culminando em 80 mortos. Em Mumbai, um atentado deixa 300 mortos. Descobrem uma pedra de basalto, com o nome do rei Davi, que remontava ao século IX a. C. José Saramago lançava In nomine Dei. No cinema, O pequeno Buda de Bertolucci e Parque dos dinossauros, de Spielberg. Na TV passava a novela Mulheres de areia. Michael Jackson dá uma entrevista bombástica em que fala dos abusos cometidos por seu pai e sobre sua doença de pele. Deixava de existir a Tchecoslováquia e na Espanha, o catalão passou a ser a língua das relações de consumo na Catalunha. Independência da Eritreia.
 
 
 
Em 1983, dez anos antes, o presidente dos EUA era Reagan e o de Cuba, novamente, Fidel Castro. Havia surgido a lei de normatização da língua catalã. No cinema, O Retorno de Jedi, de George Lucas. No Iraque, 8000 curdos eram mortos e Saddam Hussein assassinava 90 pessoas de uma mesma família. Era época da guerra entre Irã e Iraque. Michael Jackson lançava Thriller e Glória Perez terminava Eu prometo, de Janete Clair, recém-falecida. No Chile estava Pinochet e no Brasil, Figueiredo. Na França, Mitterand; na Romênia, Ceausescu; na Alemanha, Helmut Kohl; na Inglaterra, Thatcher. O papa era João Paulo II. Outro polonês, Lech Walesza recebia o Prêmio Nobel da Paz. Surgia o primeiro vírus de computador.
 
Um passo de mais dez anos para trás nos leva a 1973. Nos Estados Unidos estava Kissinger e em Cuba, adivinhem: Fidel Castro! Na TV passava O bem-amado, de Dias Gomes, e estreava Chico City. Gilberto Gil fazia um show-protesto na USP e Chico Buarque, juntamente com Edu Guerra, estreavam Calabar. Nesse ano, funda-se a Sabesp. Na Romênia, estava Ceausescu; no Chile, sobe Pinochet por meio de um golpe; na Argentina está Perón e no Brasil, Médici. Golpe de estado hutu em Ruanda. Pelo mundo regiam Franco, Chiang Kai-shek, Idi Amin Dada e Baby Doc. Houve o cessar-fogo do Vietnã e os EUA são denunciados de inúmeras atrocidades. Ano do caso Watergate. Época do enriquecimento do Iraque devido ao brutal aumento do preço do petróleo. No cinema, Jesus Cristo Superstar. Construíam-se as Torres Gêmeas do World Trade Center. Mais uma vez, países surgem: é o ano da independência da Guiné-Bissau.
 
Em 1963 eu não havia nascido ainda, mas consta que em Cuba estava, como sempre, Fidel Castro e na Espanha, Franco. O presidente americano era Kennedy. Um plebiscito novamente escolhe presidencialismo. Estávamos em plena Guerra do Vietnã. Godard lançava Le mépris, Plínio Marcos Enquanto os navios atracam e Quando as máquinas param. Na TV, a novela de Nelson Rodrigues A morte sem espelho e Rubem Fonseca também paquera a televisão com Os prisioneiros. O presidente era João Goulart e o papa Paulo VI sucedia João XXIII. Charles de Gaulle vetava a entrada do Reino Unido no bloco CEE. Os holandeses saíam da metade ocidental de Nova Guiné. É o ano da independência de Zanzibar. Os chineses acusam Krushchev de pactuar com o capitalismo. O Tibete volta a ser região autônoma.
 
Em 1953, quem presidia o Brasil era Getúlio Vargas. Ano da Morte de Stalin e da coroação de Elizabeth. Época da expedição Roncador-Xingu e do primeiro contato com os índios txucarramãe. Época do "varre, varre, vassourinha" de Jânio Quadros, da primeira bomba H russa e do primeiro supersônico americano. Nelson Rodrigues escrevia A falecida. A estrutura de dupla-hélice do DNA finalmente é reconhecida por Watson e Crick. Cecília Meireles escrevia o Cancioneiro da Inconfidência. Mazzaropi lançava o filme Candinho. Na Pérsia (futuro Irã) houve um terremoto em Tourod, com mais de 900 mortos. Reza Pahlevi sobe ao poder num golpe militar. É época da Guerra da Indochina (futuro Vietnã). Funda-se a Petrobras, o Parque Ibirapuera e o Monumento das Bandeiras.
 
 
 
Chegamos à metade do século passado, tão perto e tão distante. Convulsões parecidas, esperanças que se revelaram fracassos, mortes de tiranos que não findaram o sofrimento das vítimas. Em muitos lugares, o tempo parece que não passa, já em outros, a alta velocidade das mudanças é visível. Se, em vez de nosso passo de tartaruga, de dez em dez anos, saltássemos 50 anos, iríamos para 1903. Nos EUA estaria Roosevelt, o papa era Pio X e o presidente do Brasil, Rodrigues Alves. Fazia-se a primeira viagem de automóvel, de quase dois meses, entre São Francisco e Nova Iorque e também a primeira decolagem de avião dos irmãos Wright. O Acre era anexado ao Brasil. Oswaldo Cruz fazia a campanha contra a Febre Amarela. Einstein estava se casando com Mileva Maric. Mussolini era membro do Partido Socialista Italiano. No Congresso de Londres havia cisão entre os mencheviques e bolcheviques. O filme da época era Quixote, de Ferdinand Zecca. Havia uma grande seca no Nordeste.
 
Cem anos antes, em 1803, a Louisiana era comprada da França, após ter sido reconquistada aos espanhóis. Napoleão invadia o Piemonte. França e Inglaterra estavam em guerra. A primeira locomotiva Trevithick rodava nas ruas de Londres. Em 1703 iniciava-se a construção do Palácio de Buckingham e funda-se S.Petersburgo. Época da Guerra da Sucessão Espanhola. Portugal alia-se à Inglaterra: Pedro II de Portugal contra Felipe V. Em 1603, James I, filho de Mary Stuart, acumulava os tronos da Escócia e da Inglaterra. Estávamos em plena guerra dos 80 anos. Havia peste na Espanha. Os franceses desembarcavam no Maranhão. Em Pádua, Galileu olhava para os céus. Em 1503, na costa brasileira um batalhão inimaginável de insetos que povoava o Brasil zunia a ponto de serem ouvidos das naus ancoradas. Américo Vespúcio fundava uma feitoria em Cabo Frio e publicava seu Mundus novus. Da Vinci pintava a Gioconda e Gil Vicente escrevia O auto dos reis magos. Era a dinastia Ming.
 
Bom momento para pararmos e daqui olharmos para frente. Onde foi parar a promessa de eternidade de cada conquista humana? O que foi que se perdeu com essa esperança pouco planejada? Pior: que houve com os planos perfeitos que tanta euforia nos deram? Temos tempo de salvar algo se esquecermos todas as antigas tentativas? Temos certeza de que não lamentaremos a perda de algo que hoje não nos faz falta? O último que atirou nos dodôs pensou nisso? Será que nossa ignorância do passado não nos deixa outra vez embevecidos demais com o novo? Os astecas dominando os toltecas e os rapanui chegando à Ilha de Páscoa tiveram talvez a mesma sensação. Onde estão eles agora? Por que nossa história futura seria diferente?

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

TUDO O QUE VOCÊ PROCURA: AQUI!

Genes não têm o que fazer. Adoram um dos melhores momentos da vida para brincar de baralho. Misturando as cartas, fazem uma bela zoeira. O resultado disso é mais vida no planeta. Nada mal. Passará aquela e virá esta. Acabou a história.
 
Mas... é só isso? Vivemos porque estamos vivos? Não é muito sem graça?
 
Aparentemente no carteado dos hominídeos surgiu um defeitinho que nos aterroriza. Esse probleminha que está na nossa cachola afirma incessantemente que deve haver um sentido em viver. E inventaram uma porção de sentidos para nos sossegar. Vivemos para isso, para aquilo, porque no futuro blábláblá, porque na outra vida blábláblá. Eu me pergunto: será tão difícil assim estar sozinho consigo mesmo? Por que é estranha a figura do homem primitivo e gregário? Não há por que estranhar, pois sempre fomos dependentes dos outros. Lendas afirmam que os homens eram sozinhos e só aprenderam a ficar juntos após construir as cidades e os templos. Não vejo razões para acreditar nisso. O bando faz parte da evolução dos primatas, seres gregários de forma ininterrupta. Nunca vi macaco sozinho. Por que teria havido um momento em que o homem solitário teria aprendido a viver em bandos? Nunca aprendeu, porque o homem sempre foi coletivo, desde seus mais primitivos e rabudos ancestrais. O ermitão, sim, é a evolução do homem coletivo ao solitário e não o contrário.
E o homem tem razões para preferir o bando a si mesmo: não temos dentes afiados para atacar, nem temos o rabo de nossos ancestrais para nos mover entre as árvores, não temos pelos para nos defender do frio e, além disso, temos uma cabeçona que mal nos deixa nascer. Como hienas, caçamos, nos defendemos e nos aquecemos melhor juntos. Esse macaco neotênico, de tanto ser selecionado por feras, de tanto ver seus parentes devorados pelos monstros que habitaram este planeta, precisou desenvolver um cérebro voltado para o trabalho conjunto e, com ele, nasceram a consciência, a paranoia e o medo. Surgiu finalmente o naked ape.
 

Em resumo, é isso: somos um bicho que se sente bem no aconchego do bando, por sermos indefesos, à mercê das fantasias de um cérebro que nos deu consciência, previdência e muita agressividade. Se se mexe um inseto do nosso lado, dá-lhe sapatada. Se é um mero passarinho, merece estilingada. Só pra ver o bichinho estrebuchar. Se queremos uma árvore, plantamo-la. Se a árvore nos faz sombra demais, cortamo-la. E, depois de aprontar tudo isso, vamos lá cutucar nossa arte: que bicho curioso é esse tal de homem! Não há toca em que não tenha entrado, não há clima que não supere, nem profundidade do mar, nem altura. É um bicho frágil e medrosíssimo, mas não podia e não pode demostrá-lo para os monstros que o circundam, nem aos seres inofensivos, nem mesmo para os seus pares. Por isso, o covardão bate no peito, urra e encena uma valentia convincente. Afinal, tudo que conseguiu foi na base da porrada. Nessas horas dá até medo desse animal ridículo. Mas havia uns bichões maiores, que não tinham medo desses showzinhos: avançavam com seus cornos e cascos pra cima dos bandos de enfezadinhos pelados. No entanto, a vitória dos mais fortes durou pouco tempo: o homem se armou de pedras e lanças. E caíram todos eles: mamutes, megatérios, gliptodontes, toda a megafauna e todas as baleias, à medida que o homem povoava os continentes.
O ser humano, depois de tanta vitória contra tudo, devia parar de ser medrosinho, mas não teve jeito. Não houve como o homem vencer a escuridão traiçoeira, o granizo, os tsunami, os terremotos, os vendavais, os meteoros, as doenças, em suma, a morte. Esses inimigos invencíveis começaram a ser chamados de deuses. E o que estava fora de seus limitados sentidos, sobretudo o invisível, passou a ser povoado de novos monstros, que não conseguia vencer. O macaco cabeçudo que povoara o planeta estava de novo com medo e, nessa época, nem tinha mais afinidade com a natureza que acabara de destruir. Há muitas gerações pensava que nada tinha a ver com ela. Criou suas etologias, suas explicações, surgiram xamãs, surgiram pregadores, surgiram filósofos e cientistas. A natureza passou a ser algo ao qual nós, ex-macacos, obviamente nos opúnhamos. Ela lá, eu cá.
 
 
E a oposição era tanta que o homem passou a pensar só na humanidade. No conforto de seus construtos mentais lhe bastavam as relações interpessoais, a política e a vida coletiva. Natureza era coisa do passado. Surgiram leis, surgiram regras e as religiões. Explicações oficiais, coordenadas com sua língua e cultura, seguidas de punições exemplares aos hereges. Surge o poder absoluto, os reinos e o comércio. É verdade que, nessa bárbara visão das coisas, os outros homens que pensam diferente nunca diferiram das espécies que foram extintas. Os homens sempre se mataram, assim como matam as outras espécies. Matam tudo o que é heterogêneo. Basta que pronunciem diferentemente e que a sua cultura seja distinta. Shibboleth. Por fim, mesmo a homogeneidade não escapou: matam dentro das sociedades que abrigaram as diferenças, matam dentro das suas próprias famílias. Não sossegam. Gostam de destruir e nem sempre têm consciência disso.
Mas quando está quietão, sem matar, sem falar ou sem pensar, o homem está só diante de si e percebe o vácuo da consciência do presente eterno: a náusea de estar só. O homem, tão agressivo, nessas horas sofre e fica tão frágil quanto a formiga recém-esmagada pelos seus próprios pés. Sente falta de alguém que lhe diga o que fazer. Alguém que lhe tire essa horrível sensação de consciência de que a vida é apenas o transcorrer do viver.
Nesse momento um megafone de um carro que vende xampus anuncia:
"Já percebeu como aqueles momentos especiais debaixo do chuveiro são capazes de transformar seu dia?" Isso! Aí está a sua salvação, homem solitário: o consumo! Compre! As propagandas querem induzir você a transformar uma experiência banal de solidão em um delírio orgástico. Entregue-se!
 
 
E o homem aprontou mais essa. Descobriu que tudo está bem ali, somente para redimir sua alma: livrarias, padarias, agências de turismo. Os produtos atuais são permeados de uma filosofia que faz seus consumidores sentir-se exclusivos, diferenciados, especiais. Consumi-los promove quase como uma mudança taurobólica, cujo sangue bovino nos redime, transformando-nos, escravos, em  almas livres. Milhões de pessoas prometem extrair de vez o seu mal-estar-consigo-mesmo, seu vazio, sua fragilidade, sua burrice. Basta acreditar. Se os prometedores acreditam, não é importante. E os que aceitam a ajuda de uma resposta certa tornam-se orgulhosos como Sócrates com o cálice de cicuta à mão. Sim: vemos vantagens nas teorias e cedemos de bom grado. Sócrates, por exemplo, cansado de chatear os atenienses, estava ansioso para encher o piquá dos mitológicos defuntos no Hades quando tomou um golão e empacotou. Isso sim é autoestima! Mas se você não tem, há quem venda baratinho. Quanto está disposto a pagar?
Mas isso me faz pensar que o mundo afundou, desde os pré-socráticos, na charlatanice da filosofia barata. E mais louco que Sócrates só Platão. Para ele, o mal era o resíduo do caos sobre o qual o Demiurgo moldou as coisas, inspirado nas Ideias. Por incrível que pareça, o produto vendido por Platão é o de que o real não é o real. O real platônico, o real de fato, é um troço hiperurânio, em suma, aquilo que Platão inventou para si mesmo, para que fosse o real. E que invenção! O Mundo das Ideias de Platão é uma espécie de pirâmide imaterial, com o Bem no topo, acima de todas as oposições, com as quais gera figuras e números ideais. Essa coisarada não estaria exatamente na nossa mente, mas em algum lugar (num mundo paralelo? acima de nós? abaixo de nós? não sei). São apenas alcançáveis pela nossa mente e pela nossa alma, numa espécie de lembrança. O Demiurgo é algo que não é nem ideia nem realidade, uma piração intermediária, um deus ensanduichado entre a birutice de Parmênides e o turbilhão de Heráclito. Ali no meio, por amor, essa figura estranha, inferior às ideias, mas superior à nossa alma, ficou a fim de por ordem no nosso chiqueiro material, criando a ilusão que nos atormenta. O Cristianismo gostou muito disso. Santo Agostinho tentou conciliar essas ideias com os livros do Velho Testamento, dizendo que as contradições e os absurdos eram figuras de linguagem. Kierkegaard também quase embirutou nessa tarefa conciliadora.  Demócrito foi esquecido e, ao que tudo indica, Platão seria o primeiro a liquidar seus escritos. O pré-socrático que defendia os átomos e o materialismo não concordava com a tese inicial de Platão: de que o sensível só pode ser explicado por algo que não é sensível. Mas parece mais sensato. Eu me pergunto, vendo todo esse esforço para aceitar a loucura ao longo de mais de dois milênios: afinal de contas, o homem não se contenta com os medos reais? Precisa de mais? Aparentemente sim.
 
 
 
Talvez criando medos irreais, o homem ache que o medo real seja fichinha. Ou talvez assim consiga o que mais deseja: perder definitivamente a capacidade de diferenciar o real do irreal. Se evoluísse para isso, talvez ficasse mais aliviado do tormento de sua consciência. O estado pré-racional seria, assim, o ápice da evolução: cabeças encolhidas e não aqueles supercérebros dos ETs. Por exemplo: os ursos polares também estão em extinção (como o homem já esteve um dia antes de ser salvo pelo seu cérebro inchado), mas não têm consciência disso. Quando dois ursos polares machos se encontram, frequentemente lutam até a morte, manchando a neve com o sangue vermelho. O macho, sem consciência marxista, pensa que o que está em jogo não é sua classe mas apenas seus próprios genes. "Dane-se a espécie", pensaria um urso, se fosse consciente como nós. 
Chegamos a tal nível de irracionalidade? Infelizmente não. Mas podemos fingir que somos irracionais, que não temos consciência, que we don't care. Pobre homem. Esse fingidor, porém, quando estiver sozinho, longe de seu bandinho junto com o qual fez seus excessozinhos, diminuída a adrenalina motivada pelo exibicionismo, sabe avaliar muito bem que tem culpa. Nessas horas, volta-se ao deus que inventou e pede perdão. Mas ninguém está ali. A besteira já foi feita. Com um pouco de sorte, pode enlouquecer-se e tornar-se de fato o irracional que tanto ambiciona. Ou então, pensando bem, com um instinto de autopreservação aguçado, possa chegar à conclusão, típica do Homo insipiens, de que o lance Matrix de Platão foi uma sacada e tanto.
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

NEM RECORTAR NEM CONTEMPLAR

Há tempos penso que todo recorte está a serviço de uma ideologia. Se há algo difícil de explicar, como as manifestações populares recentes, logo setores antagônicos se apressam para arriscar teses acerca de seu substrato. Criticantes apontam que as insatisfações vêm da carência de algo esperado e os criticados se orgulham do substrato supostamente por eles pavimentados. Alguém poderia questionar se as pessoas têm hoje mais tempo ou mais vontade para o protesto. Ora, a falta de tempo determina a falta de vontade. Mas, inversamente, a vontade não vem de um excesso de tempo. Aliás, o tempo humano é algo disputado pela sanha da cobiça. Por isso criaram-se leis trabalhistas: para que o seu tempo fosse compatível a uma vida digna. Se a vida não é digna, então os criticantes estão certos. Por outro lado, os criticados não faltam completamente com a verdade, apenas se valem de retórica. Numa democracia, o caminho há de ser pavimentado. Se não o fosse, estaríamos nas bibocas e barranqueiras do silêncio forçado. O protesto válido é o protesto ouvido e se é silenciado, como fazer-se ouvir senão penosamente? Como a causa do mal está associada à potência, a qual, por sua vez, é configurada conforme a sua intenção, a desculpa do criticado, portanto, quase tem o tom de uma ameaça. Devemos curvar-nos e agradecer pelo pavimento sob nosso chão?
O problema central aqui é a autoria. Ninguém pavimentou chão nenhum. Ele foi pavimentado aos poucos, conjuntamente, lentamente e ainda há muito buraco. Mas ninguém protesta sem algum engajamento. Isso significa quase invariavelmente não temer o ridículo. Por isso tanto engajamento, sobretudo em épocas pouco democráticas, é velado. O discurso camuflado é, porém, somente eficaz quando o tirano não é inteligente.
Mas, se nenhum recorte é neutro, antes tem pressupostos, os quais escancarados se tornam ridículos para uns e dogma para outros, qual seria a situação oposta ao recorte? Aparentemente o inverso de recortar é contemplar sem julgamento algum. A verdade fanática de quem é a favor ou contra algo seria superada em nome de uma única formulação: não existe a verdade. Será isso sempre positivo? Penso que não. Lido com questões complicadas, como Etimologia. Ora, é consabido que nesse assunto há tantas opiniões e tanto chute que raramente alguém tem coragem de atribuir-lhe algum caráter de ciência. Mas em muitíssimos escritos meus eu argumento (e provo) que não há razão por que a Etimologia não possa ser uma ciência. Apenas não é porque ainda não é. Trata-se de algo como a Astronomia no tempo de Galileu. A postura anti-recorte de que falei acima aceita tudo e esse relativismo cético absoluto chega às beiras da insanidade.
 
 
Por exemplo, recentemente fui à magnífica exposição Mestres do Renascimento no CCBB onde pude apreciar, entre tantas obras, a belíssima Adorazione dei pastori, de Lorenzo Lotto, de 1534. Além da fila hedionda que enfrentei, da falta de informação sob os quadros expostos, o que mais me chocou foi uma linha do tempo. Como é uma das coisas que mais adoro, fui lê-la. Uma das informações lá constantes causou-me um ceticismo tremendo, beirando o asco. Dizia algo sobre Thomas Morus e sobre seu neologismo utopia, que, segundo o texto, viria do grego útopos. Novidade: essa palavra não existe em grego antigo (apesar de encontrar quase meio milhão de ocorrências no Google hoje). Aliás, no blog anterior, eu havia dito que acho a palavra utopia esquisita, porque a negação é feita com o advérbio grego ou "não" em vez do prefixo a-, algo que é ainda muito surpreendente para mim (e a falta de produtividade desse u- negativo mostra que também não foi algo do gosto de outras pessoas cultas da época).
Bom, voltando ao que eu dizia, alguém que se vale apenas da contemplação sem nenhum engajamento achará isso uma picuinha. A minha pró-cientificidade etimológica parece uma firula, mas uma coisa é reconstruir uma verdade, outra bem diferente é inventá-la por algum mecanismo enlouquecido. A pessoa que diz "utopia, do grego útopos" tirou isso de onde? É uma impostura ou uma brincadeira como o do caso Sokal (vide o livro Fashionable nonsense de Alan Sokal e Jean Bricmont)? Explicar essa etimologia fantasiosa como fruto da ignorância de grego da parte de seu autor é menos grave do que desnudá-la sob a acusação de delírio ou má-fé, certamente. De qualquer forma, não consigo ver, como o cético radical, ao menos na minha especialidade, que a verdade (ou algo parecido com ela) seja igual à descarada e provada não-verdade.
Pois bem, o engajamento é ridículo e a postura blasé com a verdade não é menos. Que saída temos? Se não quero ser um fanático nem um Diógenes de Sinope, onde no infinito continuum de opções intermediárias eu amarro o meu burro? Como viver sem recortes e ao mesmo tempo buscar a verdade? O oposto hoje em dia não parece razoável (viver com recortes e não buscar a verdade).
O empresário produtor de azeite Tales de Mileto pensava que o princípio de todas as coisas era algo imutável. Como era difícil para seu contemporâneo Anaximandro aceitar a sua sugestão de que esse princípio era a água, criou uma abstração, herdando-a provavelmente do orfismo. Para Anaximandro, a geração das coisas a partir desse "princípio indeterminado" gerava uma injustiça que só era expiada com sua corrupção. É fácil ver aí alguns brotinhos da planta que enxertada daria os frutos do pensamento judaico-cristão no período pós-alexandrino. Pitágoras de Samos (se existiu, pois é uma figura diluída entre seus discípulos) bebeu na mesma fonte de Anaximandro quando divulga a teoria da metempsicose. Dizem seus longínquos sucessores, a partir de cópias muito modificadas, que a tortura do ciclo infinito das reencarnações só poderia ser interrompida com uma vida filosófica de contemplação. Mas os pitagóricos, diferentemente dos céticos que aparecerão mais tarde, associavam essa contemplação que deu tantos frutos surpreendentes (como a identificação do princípio com os números) com verdades bastante discutíveis, algumas bizarramente supersticiosas, vindas quer de uma cabeça insana, quer de uma tradição convergente, quer do mero fruto simbólico das palavras. Seja como for, o espanto é parte da sensação de quem lê qualquer coisa real ou inventada sobre o pitagorismo.
 
 
Ninguém pode acusar a atitude excêntrica desses pré-socráticos de insinceridade e impostura. Até porque não há documentos suficientes para provar isso. Mas se toda a doxografia está certa, mesmo aí havia o embrião perigoso do dogma. Quando o veneradíssimo número dez (1+2+3+4) dos pitagóricos, do qual tantas propriedades se auferiam, acabou não sendo aplicável ao número dos nove "planetas" da época (que incluía a lua), inventou-se, para completar o esquema, uma Antiterra, cuja tradição deve ter tido curiosos meandros neomedievais até hoje no discurso esotérico. Assim, o famoso teorema dos triângulos retângulos e a Antiterra formam proverbialmente os dois lados de uma mente complexa. Se Pitágoras existiu.
Mas a Ciência superou isso, ao menos no plano discursivo. Se o recorte de que tudo é dez não combina com o pressuposto tudo deve ser demonstrado, abandona-se esse dez miraculoso, abandona-se a Antiterra e não se fala mais nisso. Não foi assim com a Alquimia? Vivendo sem recortes definidos e à busca da verdade, a ciência quando não conspurcada pelos interesses é a saída para o paradoxo acima. Os cientistas da gema em sua ascese quase agostiniana em nada diferem dessa lendária postura dos crotonenses. Repito: falo da ciência como epistéme, como conhecimento, como scientia, substantivo abstrato do verbo scire "saber", nada mais.
Essa ciência de que falo nada mais é que a busca pitagórica, propositalmente anônima, o desejo de diluir-se para que a verdade possa emergir, tão diferente do ensaísmo dogmático das celebridades.  Nietzsche, popularmente conhecido como "doido", teria traduzido o fragmento de Anaximandro de Mileto como "de onde as coisas têm seu nascimento, para lá também devem afundar-se na perdição, segundo a necessidade; pois elas devem expiar e ser julgadas pela sua injustiça, segundo a ordem do tempo". Heidegger achou isso obscuro demais, errôneo filologicamente, e propôs (para desespero do tradutor da série Pensadores da Editora Abril), após 28 páginas de discussão em que mostrava erudita- e confusamente (para dizer o mínimo) a necessidade da segmentação correta da frase grega, esta outra tradução, bem mais clara, a seu ver: "segundo a mantença; deixam pois ter lugar o acordo e assim também o cuidado, um para o outro (no penetrar e assumir) do des-acordo". Tive preguiça de ver o original alemão. Quem entendeu, explique-me por favor. Isso é ciência no sentido que propus acima? Veja, ciência não se opõe à filosofia.
Apresso-me a dizer que não falo daquela ciência alvo-fácil, sobre a qual Sokal & Bricmont falam. Não falo de positivismo, até porque acho que Comte era um biruta bastante ignorante e que sequer mereceria ser vidraça de pedrada. Positivismo em nada se distingue de obscurantismo. Positivismo para mim é o oposto da racionalidade. E ninguém até hoje provou que a irracionalidade é boa. Quando muito, é algo legal num momento de bebedeira, da qual não duvido que os pitagóricos tivessem se abstido. Essa irracionalidade tão propagada pela religião dos filmes dos EUA e tão pouco praticada pela economia desse mesmo país acabou tornando-se onipresente. Esgueirando-se como uma osga, mefistofelicamente nasceu do Iluminismo. Yin saindo do yang, coetaneamente tanto na dinastia Zhou quanto na Jônia.
Enfim: recorto o que me interessa ou contemplo tudo sem julgamento? Não saberia dizer. Nos dois lados há hipocrisia. Nos dois lados há vontade de poder. Nos dois lados há, no fundo, apenas memes de explicações e posturas perante o mundo. Aceite-as ou esnobe-as. Se não sumirem completamente, como na mensagem das inscrições maias, ou parcialmente, como na das egípcias, a escrita dará um jeito de praticar a injustiça de Anaximandro, ressuscitando-as.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

QUANTO CUSTA SUA UTOPIA?

No início do século XVI, Thomas Morus criou a palavra utopia. O neologismo pegou. Confesso que a leitura de Morus não foi a mais excitante que tive na minha vida. Talvez não goste muito da formação da palavra utopia e isso tenha influenciado. Ou talvez não goste muito de utopias. Não sei dizer o que foi exatamente. Mas, com certeza, não estaria no coro daqueles que exigiram sua cabeça. Naquilo que posso chamar de minha utopia, ao menos, tais violências não aconteceriam. A antipatia com a palavra talvez tenha algo de "normativo" ou, como dizem os chomskyanos, de "agramatical": não há muitas palavras com esse bizarro prefixo u- grego, que significa "não". Pareceu-me, quando consegui dissecar a palavra, que Morus não era bom neologizador. Não é diferente a situação dos que se metem a escrever em latim hoje em dia e há áreas em que isso é absolutamente importante, como na Taxonomia (os nomes científicos mais bizarros que já vi são os criados pela Paleontologia). Mas, convenhamos: ser culto já era, diriam alguns. Ninguém se importa com hibridismos e quem faz isso corre o risco de ser tachado de purista. Obviamente hoje em dia ninguém mais pensaria seriamente em consertar um hibridismo como televisão, como fariam sem pestanejar os adeptos das pataquadas de Castro Lopes no final do século retrasado. Mas, paradoxalmente, muitos que reconhecem essa insensatez estão prontos a crucificar quem escreva fora da norma culta. É um risco escrever. Mas risco de quê? Por que o medo de ser ignorante é tão grande assim hoje? Não somos sempre todos nós ignorantes em algo? Ruim mesmo é ser ignorante em tudo, pois revela não ter paixão por nada. Em vez da aurea mediocritas, os tempos belicosos de hoje fazem que os mortais tomemos partido ou a favor da norma culta ou a favor da língua falada. E com isso nascem rótulos. Alguns absurdos.
Por exemplo, você sofre de parasquavedequatriofobia? Se sim, também deve sofrer de falta de conhecimento etimológico. Se não fosse um amigo genial meu (cujo nome omito por não saber se posso citá-lo), teria dificuldade em perceber que nessa palavra estranha estão escondidos os nomes da sexta-feira e do número 13 em grego moderno. Então por que não é parasquevodecatriofobia, pergunta meu eu castrolopesco? Enfim, existe mesmo um número significativo de pessoas com essa fobia ou é outro pseudorrótulo? Há remédio para isso? Suponho que as pessoas que sofram desse mal não sabem que os dias (incluindo a sexta-feira 13) são bastante convencionais, afinal um dia não tem 24 horas exatas. Além disso, dependemos de um momento-zero arbitrário, de modo que a cada quatro anos precisamos ter anos bissextos. Divago: mesmo sabendo disso, os pacientes assim rotulados continuariam parasquavedequatriofóbicos? Dá vontade de sair em passeata e pedir para consertarem tudo isso, mas não saberiam nem por onde começar.


Já que, mais uma vez, a vontade de consertar o inconsertável tomou conta do mundo, desde as vésperas da Primeira Guerra Mundial, eu nesta modesta página de blog estou determinado a  resolver um dos problemas mais cruciais de todos os tempos: a pobreza. E digo a tempo: não me refiro à pobreza de alma. Essa não tem cura. Não há utopia que dê conta do recado. Refiro-me à pobreza material.
Lá vai. Esses dias li um artigo de um ex-ministro. Não digo quem escreveu, nem onde escreveu, porque vão rotular-me disso ou daquilo. Sim, é impossível que um ser humano no mundo virtual fale algo sem ser rotulado. Mas temo que o voyeurismo virtual seja pura malandragem. Todo mundo tem alguma opinião, na maior parte das vezes, podre. Afinal, não somos oniscientes. E também erramos a cada palavra que falamos ou teclamos. Quem nega isso é um tremendo hipócrita. E os que dizem que não têm uma opinião no mínimo esquisita sobre algum assunto polêmico poderiam nos ensinar algo sobre ética. Mas preferem ficar enigmaticamente calados. Serão modestos demais para isso?
No fundo, o lado paparazzo de flagrar o outro sem calças, maximizado pelo hediondo Facebook (mas também exercível a partir de blogs como este) é uma evolução megadimensionada do antigo e provinciano fuxico. O índice de fofocalidade de um povo se mede pela quantidade de acessos. Mas fofoca, para além da sua função desmoralizante, é algo inútil. E mais: presta-se ao conservadorismo. No limite, se ninguém mais emitir suas opiniões, manterá o status quo. Se todos pensam igual, por que expor ideias polêmicas? Por que discutir? Por que, enfim, mudar? Nosso instinto de formiga sequer nos faz ver que há tanajuras entre nós, as quais alimentamos. O remédio contra a besteira individual tem sido a besteira coletiva. Não sei julgar qual é melhor nem qual é pior.
Pois bem, o ex-ministro a quem me referi defendia o Capitalismo. Obviamente é mais fácil defender o Socialismo. São raros os que conseguem defender o Capitalismo e não são malvistos. A razão disso é porque a usura é um pecado feio. No capítulo 21 do Evangelho de São Lucas não se fala da viúva que deu tudo que tinha e por isso era melhor do que os ricos, segundo a visão do Cristo? Sempre que leio isso é impossível deixar de pensar nas raízes cristãs do Socialismo e, daí, a sua aceitação e simpatia. Nesse sentido, o Capitalismo é menos palatável e quem o defende sabe o que está fazendo, pois está amparado, quase sempre, por seus pares.


No entanto, a oposição é falsa e tem raízes metafóricas. O Socialismo é uma utopia enquanto o Capitalismo é uma realidade. O Socialismo é ideal e o Capitalismo é uma ação. Se ouvimos que houve crise no primeiro sistema é porque sua implementação na prática sempre foi duvidosa. Nunca haverá crise real no segundo porque não se extinguirá a usura. Para um regime socialista impecável seria preciso uma ética sobre-humana, o que esteve longe de acontecer nos exemplos de nossa história e talvez de nosso futuro. Por outro lado, o Capitalismo aparentemente não tem ética, por isso precisa ser regulamentado por leis trabalhistas ou então, cinicamente, por pesquisas que provem que se o empregado comer e não ficar encarcerado com correntes nos pés terá vida produtiva mais longa e aumentará os lucros da empresa. A crítica real ao Capitalismo é, na verdade, a crítica à usura humana. Não há crítica possível para coisas reais, só para as teóricas. Senão, eu teria severas críticas à morte, à existência do apêndice vermiforme, da vesícula biliar e de outros vestígios inúteis da evolução.
Eu não entendo nada de Economia, por isso, resta-me apenas a utopia para achar alguma solução para deitar-me nessa cama de abrolhos. Pois bem, para haver o tal Socialismo utópico, seria preciso que houvesse conscientização universal e eu já passei da idade de acreditar que isso seja possível. Se um é consciente, o outro não é: dolorosamente simples assim. Vejam o lixo nas ruas, a falta de educação no trânsito e tantas outras coisas. Lamentar torna-nos amargos e irritantes. Implementar à força não é uma boa solução. Violência revolucionária também não é garantia de sucesso, pois oportunistas sempre há, quem não sabe? Prefiro a razão, ainda que tortuosa.
Calcula-se que há 50 trilhões de dólares no mundo. Essa é a estimativa e eu não sou economista para saber se é mais ou menos. Uns dizem que são 170 trilhões, mas fiquemos com a estimativa anterior, mais baixa. Suponhamos que haja 8 bilhões de pessoas no mundo. Provavelmente há menos. Dividindo 50 trilhões por 8 bilhões temos 6250 dólares por pessoa. Isto é o que, perseguindo o raciocínio socialista, deveríamos ter equanimemente nos nossos bolsos. Uma família com dez pessoas teria 62500 dólares. Não é mal, mas sem dúvida seria um incentivo à explosão demográfica (e a consequente diminuição do valor per capita, se constantemente recalculado). Ora, distribuir hoje de modo tão radical seria, no mínimo, um problema. Obviamente quem tem mais que 6250 dólares reagiria e não são poucos. Como a implementação disso seria absurda, abandono esse raciocínio.
Então façamos o contrário: deixamos tudo como está. Pobres e ricos, com imensas diferenças sociais. Mas acrescentemos um fator novo: ninguém pode ter mais do que um bilhão de dólares. Imaginemos que ter mais de um bilhão de verdinhas seria mais do que antiético: seria um criminoso digno dos tribunais internacionais. Quem tivesse mais precisaria doar o excedente a um órgão que o repartiria equitativamente a quem tem menos. O bilionário com certeza ficaria menos rico, mas os pobres deixariam a miséria? Só posso imaginar que, com certeza, uma pessoa com esse valor máximo não sofreria. Suponhamos que uma pessoa viva 80 anos. Isso equivale a 29200 dias de vida. São exatos 34246,57 dólares por dia para o bilionário gastar como quiser. Nada mal, pois estou contando todos os dias (desde que nasceu até o derradeiro).
Se os excedentes fossem distribuídos a partir dessa fictícia lei do teto de um bilhão, muita mudança ocorreria: novas empresas surgiriam, nova concorrência, o capitalismo não seria a farsa que se tornou desde a descoberta da América. Se há ética na Medicina, há ética na Ciência, não há razões para não haver ética na Economia e o teto máximo, aparentemente, seria uma boa solução. O Socialismo não seria imediatamente implementado, mas a concorrência (essa deusa capitalista) seria preservada e ao mesmo tempo, a desigualdade diminuiria. Não seria preciso nenhum sangue derramado e, de sobra, explosões populacionais seriam contidas para evitar a pulverização dos valores extrabilionários. Aí sim rumaríamos ao melhor dos mundos e não à piada leibniziana, que no fundo espelha algo de comodista no seu bojo teórico.
Seria tão difícil assim lançar a ideia de um teto máximo internacional a curto prazo? Veja, não falamos de causa e consequência, mas de ética. Os líderes religiosos, que somente sobrevivem por causa do mundo espiritual, não poderiam ajudar a divulgar essa ideia, em vez de papagaiar suas opiniões anticientíficas e reacionárias contra aborto, homossexualismo e outras bobagens?
Com o tempo, o teto seria considerado muito alto e, acostumados com a ideia, poderíamos baixá-lo ainda mais. A qualidade dos produtos aumentaria porque haveria mais concorrência, a população atingiria patamares confortáveis e a pobreza sumiria, apesar de continuar existindo mais ricos e mais pobres. A usura infinita seria apenas uma lembrança de uma triste histeria humana, como tantas outras presentes nos livros de história que hoje sequer conseguimos entender direito e, se incontrolável por ser natural, seria controlada pelo superego financeiro do teto máximo.
 


Da teoria para a prática: façamos a conta para hoje. No mundo todo, há uns 1500 bilionários e o mais rico deles tem pouco mais de 70 bilhões. Somados, têm uns 5 trilhões de dólares. Suponhamos que cada um fique com apenas um bilhão. Sobrariam 3,5 trilhões de dólares para dividir entre o restante da população mundial. Quanto seria isso? 437,50 dólares para cada um. Como a maioria dos bilionários têm mais de 60 anos, meu crítico diria que não vale a pena deixar um velhinho em apuros e não resolver a solução mundial. Mais que isso, a perseguirmos nosso raciocínio zombeteiro, na prática, apenas bilionários seriam afetados: muito milionário ficaria feliz com esses 400 e poucos dólares vindos de seu amigo bilionário. Dinheiro de pinga, certamente.
Qual seria a solução? A ideia do teto máximo parece tão boa. Quem dá menos então? Baixaríamos o teto para cem milhões? Seriam 4375 dólares para cada um em vez de apenas 437,50. Não temo a zombaria do meu raciocínio. Sei vagamente que muito desse dinheiro é virtual e nem existe de fato fisicamente. Aliás, Economia é uma das muitas coisas que ignoro solenemente e tenho minhas dúvidas se gostaria de perder meu tempo entendendo-a. Não substituiria um livro que fale da vida sexual dos tisanuros por algo que me explique definitivamente aquele jargão medonho dos teleprofetas analistas de mercado que matraqueiam sobre os mecanismos neokeynesianos. Acima de tudo, não é fácil calcular o que é um valor.
Não sei se ficou claro, mas nessas minhas divagações sempre advogo a causa da linguagem. Usamo-la para falar coisas sérias e asneiras. Às vezes, também serve para falar asneira com roupagem de coisa séria ou, ironicamente, o contrário. Portanto, implacável crítico, se digo dislates ou asnices, não me obrigue, por isso, a cometer tuitercídio. Nem mesmo twitter eu tenho.


terça-feira, 11 de junho de 2013

OPINO, PORTANTO EXISTO?

Eu vivo dizendo que aquisição de linguagem é algo que ocorre a vida toda e não só quando somos bebezinhos. Recentemente, uma nova palavra - vlog - entrou em meu repertório lexical. Decerto já existe há muito tempo. Sei que sou mais dado a coisas arcaicas. Já me chamaram mais de uma vez de renitente às novidades. Injusta acusação nesse caso: sou apenas desinformado (aliás, belíssimo o par mínimo blog: vlog, difícil para os hispanofalantes). Como muitos sabem, a fonética está entre minhas paixões. Sobretudo me intriga a ligação que estabelece entre a dicotomia real / mental (ou, dito de outro modo, ondas/ imagem cerebral). Por isso, pedi aos meus pupilos que fizessem um trabalho de transcrição fonética de alguns desses vlogs. Na correção, fiquei espantado com a quantidade de pessoas querendo externar suas opiniões na internet. Algumas falavam coisas tão próximas do senso-comum, que me causaram não só cansaço, mas infundiram pena. Outras arrojadíssimas, metralhavam seus palpites, beirando a histeria. Outras ainda tinham atitudes tão particulares, que nada poderia impedir o choque de quem as visse e ouvisse. Poucas eram interessantes. De fato, fascínio é algo raro demais hoje em dia. Será que o acostumado com tudo perderá o fascínio pelas coisas? Pensando profundamente sobre essa enxurrada de opiniões banais na internet, acabei projetando-me neles.  Lembrei-me do meu blog, sim, deste texto que está lendo. O crítico verá algo de metalinguístico aqui.
 
 
Queremos estar presentes em tudo. É um novipecado contra os mandamentos da sociedade moderna, por exemplo, não ter Facebook. Pensa o vulgo que a pessoa que assim age ou é velha demais, ou é antissocial, ou tem algo a esconder. Deixo ao meu crítico a minha classificação exata, pois eu mesmo não sei. Mas será mesmo que uma existência é estar no meio das outras formigas? Não há vez para o ermitão? Foi por isso que algum deus teria criado o Universo? Estava sozinho demais? E depois que se encher das palhaçadas da sua própria criação, vai deletar a conta, como eu fiz com as minhas "redes sociais"? Fará o demiurgo algo assim como quando desligamos a TV, fartos de Big Brother? Essa excitação de ter o poder de ligar e desligar coisas inúteis deve deixar mesmo qualquer um sentindo-se onipotente. Mas não é menor do que a excitação de estar no meio do burburinho, rindo ou ofendendo, integrado em tribos que se autorrivalizam, avaliando tudo com dedinhos para cima e para baixo, nesse voyeurismo esquisito e histérico dos dias de hoje. Aliás, antes fosse mesmo voyeurismo! Mas chochamente não vejo transgressão alguma. É algo como que uma inércia, uma necessidade e, estranhamente, um dever.
Há necessidade de dizer que estamos presente ainda neste planeta e, mais do que isso, que representamos valores, ainda que sejam confusos. Estátuas, quadros e livros eternizararam muitas pessoas que são ponto de partida de nossas discussões e raciocínio,  mais tarde foram as fotos e os filmes e isso não teve mais fim. Tudo hoje está à disposição do infeliz primata dono do planeta, seja uma pixação, um blog, um vlog, não importa se é algo redundante ou desnecessário. Senso-comum se mistura com a sapiência, originalidade com o senso-comum, auto-ajuda com a violência, tudo parece estar à busca de um pretenso raciocínio claríssimo e uma vontade imensa de eternizar-se.
Afinal de contas, um indivíduo é um indivíduo, indivisível como se diz. Mas, cá entre nós, há coisa mais sem individualidade que a assombrosa maioria dos indivíduos?
Nessas opiniões de todos os tipos, não me choca apenas a certeza que flui de suas bocas-metralhadoras, sem pausa e sem turno. Qualquer um faz isso hoje em dia. Até mesmo o assassino de Woolwich explicou-nos cartesianamente o porquê de sua atrocidade insana em frente a uma câmera, com seu cutelo ensanguentado na mão. Certeza agora é algo fácil de se ter. Basta ser inseguro, ler duas linhas de qualquer coisa e repeti-las incessantemente. E, melhor de tudo: é de graça.
 
 
O que me choca ainda mais é haver opiniões de todos os tipos e que não há mais o medo do ridículo. Alguns aparentemente até têm alguma consciência parcial desse medo. Nos vlogs falam uma besteira e se autocorrigem, rapidinho, improvisando uma autocrítica, animadinhos ou entediadinhos, só para fazer um gênero homogeneamente diferente. Vivemos no meio de um standup comedy coletivo. Que fizemos para merecer isso? Será isso o inferno do fim dos tempos?
Ao mesmo tempo, observo que muitos da minha idade ou mais velhos não padecem dessa enfermidade. Falam da exposição dos mais jovens. O medo da exposição de um sentimento ou de uma convicção se reduz ao medo de termos inimigos? Ou também ao medo de perdermos aliados?
Imaginemos duas pessoas que convivam há muito tempo e nunca expuseram suas opiniões sobre algo. Provavelmente agem assim, porque pensam que sua opinião não seja relevante para o que fazem conjuntamente (mas pode ser por algum outro motivo). Mas eis que a opinião de uma delas aflora, de um modo ou de outro. Imediatamente essa pessoa estará fragilizada. Se a opinião exposta é idêntica à do outro que ocultava, verá que tem um aliado (exceto se o ocultador for hipócrita ou sofrer de autoengano). Mas e se a opinião não for a mesma, ou, pior ainda, for exatamente a contrária? Com muito azar terá um inimigo, mas sem dúvida terá um ex-aliado, com quem não poderá contar com o mesmo entusiasmo e dedicação.
Será por causa desse risco que os mais velhos expõem tão pouco suas opiniões, ao contrário dos mais jovens (que, por definição, ainda não viveram suficientemente e, na sua maioria, não experimentaram situações distintas das que vivem com seus pares)? Talvez seja algo de hoje essa capacidade de vivermos com gente que pensa como nós e expulsar com igual facilidade os que não pensam identicamente? É isso que dá uma certeza quase patética a algumas pessoas quando afirmam asnidades?
No passado, as redes sociais eram reais e bem pequenas. Resumia-se ao contato presencial. Aos mais velhos, durante boa parte de sua vida, exigiu-se mais do que se exige hoje para afirmarem algo como certo, embora errassem mais por causa da falta de informação. Fazia-se o que era possível para aceitar o diferente e a integração era conflituosa devido à máxima de que o certo era o valor da maioria. O choque do indivíduo com essa sociedade idealmente uniforme gerava o pária e o cauteloso. Falava-se de vigiar e punir. Hoje, dizem que felizmente é o contrário. No entanto, para os ermitãos convictos, como eu, tanto faz. Vivemos ainda em círculos limitados. Qualquer restrição é um limite e nunca vi tanta gente restritiva como hoje em dia com seus amos e odeios, com suas tribos e suas convicções dogmáticas avessas a qualquer questionamento. Para mim, isso não é feio nem bonito. Simplesmente não mudou tanto quanto se pensa.
O ermitão corre o risco de ser visto como reacionário. Não entendem que ele é apenas tímido. Aprendi que ser tímido é ser sinônimo de agressivo. Há os que gostam de ser agressivos, eu não. Procuro não ser, pois meu estopim é curto. Sofro, porém, quando sou (obviamente sofrer a agressão é pior do que ser agressivo). Além disso, o reacionário não aceita a mudança. Eu aceito, apenas lamento quando chamam inércia de mudança. Os rótulos me irritam. E toda vez que me acusam de algo ou ouço alguém acusar alguém de algo, fico apatetado e volto à minha caverna. No começo, sentia culpa, mas descobri que amo ser esse troglodita. Jamais seria um bom político, nem odeio quem o seja. Apenas lamento toda má política. Lamento quem não entende que reciclar lixo é bom. Toda vez que vou à padaria, preciso falar que não quero sacolinha de plástico além do invólucro de papel para meu pão (segue-se diariamente um sustinho do funcionário após o gesto automático e gentil de querer mimosear-me com a maldita sacola, gesto repetido, imagino, um milhão de vezes por dia com todos os clientes). Quase um ano depois da primeira postagem neste blog a situação das faixas de segurança pouco mudou. Obviamente, essa situação se perenizará a despeito do bom-senso. É tão difícil assim a lógica delas ou tanto faz?
 
 
Ontem por segundos não atropelei um rapaz. Parei na faixa de segurança para uma moça passar. Sorriu simpática e me agradeceu (eu, trogloditamente, mesmo com vontade, nunca retribuo esse agradecimento com a mesma simpatia, porque não fiz mais que a minha obrigação e não quero ser cúmplice de um mais um hábito urbano: não posso envaidecer-me de ser minimamente civilizado, seria injusto, pois ninguém, exceto o doido da vila, agradece ao semáforo por ter ficado verde). O carro do meu lado, como sempre, parou também (fazem sempre isso, não por solidariedade, suponho, mas por falta de personalidade e pelo mesmo motivo instintivo dos homens-formigas do Facebook: aposto que o mesmo motorista não pararia se eu não tivesse respeitado a faixa - sim, até nisso há falta de personalidade, a culpa é sempre do outro). Ok, estamos perante o melhor dos mundos, melhor até do que Leibniz esperaria: um pedestre querendo passar e os motoristas paradinhos. Tudo sob controle. Pois bem, a moça, mesmo assim, quase foi atropelada por um ciclista, que ultrapassava o carro do meu lado pela esquerda, mas se desviou a tempo e chocou-se com outro ciclista, igualmente sem freios que ultrapassava pela direita (ou era muita coincidência ou estavam juntos), o qual foi arremessado por cima do meu carro e caiu na minha frente, quando justamente eu estava começando a acelerar e a mover-me (a moça nesse instante já havia passado por mim). Por um segundo (se eu tivesse acelerado um pouquinho mais) teria passado por cima dele. O ciclista levantou-se, sem qualquer arranhão visível, assustado e irritado com o mico. Nem olhou para mim. Mal se recompôs, jogou a bicicleta com violência na calçada, dando uma bronca no ciclista que se chocou com ele. Fiquei surpreso com a minha fleuma. Já a havia experimentado algumas vezes. Coitado, mais uma vítima da ilusão berkeleyana de que o mundo não existe! Apenas ele e sua bicicleta, velozes numa ladeira feita para seu deleite. Foi duro o chão que o recebeu e refutou sua teoria. Poderia ter sido pior: poderia ter sido o nada da morte. E eu, que há pouco não existia no mundo do ciclista, hoje estaria íntimo de sua família (no mau sentido), respondendo judicialmente pelo seu atropelamento fatal, à caça de testemunhas improváveis e da intangível justiça.
Mas quando justifico minha eremitania (ou ermitãozice, se preferir) criticando meio-mundo, tenho algumas certezas. Reacionário eu sei que não sou. Nem hipócrita. Basta ser meu amigo, vir até mim e lhe contarei o que penso da vida, das pessoas e do mundo. Até quem se arroga mais liberal se choca normalmente quando abro um pouco da minha boca. Um dia talvez tenha coragem de escrever aqui tudo o que penso, mas não sei se todos os que me leem são meus amigos. É mais fácil encontrar um inimigo empenhado em nos entender do que um amigo com a paciência requerida de leitor. Além disso, meus amigos são muito diferentes uns dos outros. Não há muitos fios que amarrem meus amigos entre si. Se não há fios, não há web e, portanto, não há spider. De armadilhas feita com fios de seda estou cheio, embora ame as aranhas e a aracnologia. Com amigos se vive. Amizade, para mim, é o oposto do saber teórico. Tem de ser delírio nietzscheano.
Talvez essa sensação de comunhão da sociedade moderna, advinda de toda a visão parcial do mundo, faça que a transparência de opiniões hoje seja quase total, sem se pensar nos riscos, nas perdas, nas frustrações e nas tristezas da perda. Falar ou escrever sempre foi dar uma opinião. Então por que há opiniões que ofendem, frustram, chocam e outras que simplesmente expõem valores largamente compartilhados e são inócuas? Quanto maior a comunhão, maior será o choque de uma opinião contrária. Como seria a fórmula exata entre (não) concordar, chocar e reagir? Que faz que alguém se mova, com uma bandeira na mão no meio do formigueiro humano? Quebre? Mate? Ame? Chore?
 
 
Mais enigmaticamente ainda: por que todos, sem exceção, defendem a sinceridade? Não acreditar nunca na sinceridade alheia é um convite à angústia. Acreditar sempre é um convite à decepção. É estranho: angústia e decepção não deveriam estar em pólos opostos de um continuum. Se estou certo, o que estaria no meio? Se gostamos da sinceridade, por que nos incomodamos com opiniões desastradas, tão comuns nos jovens, mas não exclusivas deles? Talvez infrinjam alguma lei do nosso obscuro bom-senso? Não respeitam o nosso direito à insinceridade, provavelmente. Não entendem que temos medo? Uma única opinião pode ser mal-entendida, gerar um preconceito contra nós mesmos. Rótulos nascem quase invariavelmente de compreensões parciais. Quem teria, oras, capacidade para compreender completamente o outro? Impossível. Não queremos ser vítimas do preconceito. Mas, com nosso recato, reclusão e timidez talvez reforcemos o preconceito, como se afirmássemos que tem raízes reais.
Por ora, não sei como solucionar isso e duvido que alguém saiba. Afinal, estou quase certo, que nas vésperas de algum paroxismo social semelhante a tantos outros narrados pela História, haverá talvez um dia horrendo em que não seja permitido nem mesmo alienar-se.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

BÍLIS NEGRA

Sou fascinado por raízes e étimos. Algumas perdas vocabulares do latim me surpreendem: ater significava "negro", portanto, devia ser uma palavra bastante usada pelos romanos. Por que sumiu? Das poucas heranças que sobreviveram, há a palavra atrabiliário, raramente usada e que tem sentidos bastante distintos como "melancólico" ou "irascível". Há uma ponte entre a tristeza e a ira que a Etimologia revela e a Psicologia explica. Atrabiliário é, na sua origem, quem tem a bílis negra e evidentemente esse termo médico era uma imitação do grego melancólico, ou seja, uma invenção latina pautada numa mera tradução do grego (ou decalque, falando tecnicamente), tanto quanto cachorro-quente é decalque de hot-dog.
Quando me apaixono por um autor costumo ler toda sua obra. Foi assim com Platão, com Maupassant, com Richard Dawkins e agora, com Oliver Sacks. Comecei a ler seu romance autobiográfico Uncle Tungsten, no qual revela sua infância e a sua casa, que teve de abandonar por volta dos seis anos devido à Segunda Guerra Mundial. Toda a narrativa é embebida de saudade e de certa melancolia.
Mas que é a melancolia? Estaria ela ligada a uma fraqueza de forças, que permite que mal levantemos da cama? Uma lentidão, uma tristeza, uma prostração, uma das fases da psicose maníaco-depressiva? Sabemos que nela estamos sensíveis em excesso, desencantados e deprimidos. Há quem goste dessa sensação, pois parece que é uma espécie de comunhão com as musas (ou com as moiras?), uma espécie de fonte que nos deixa zonzo, favorecendo o devaneio lírico e a meditação profunda. Esse encanto literário sempre está longe da terrível realidade dos que padecem clinicamente, uma confortável idealização de tristezinhas que nos acometem aqui e ali, resultado evidentemente de uma falta de regulação glandular. Resumidamente, essa visão bonita da melancolia nada mais é que uma das muitas bobagens dos escritores românticos. A depressão pra valer, sobretudo na nossa pele, é algo evidentemente ruim: impede-nos de raciocinar, interrompe-nos a vontade de viver e abre-nos abismos intransponíveis nas coisas mais simples, bloqueando nossa criatividade e fazendo-nos ver a verdade nua e crua, sem as nossas generalizações fantasiosas redentoras.


Gosto de entender a melancolia mais como uma tristezinha saudável, em vez da tristezona abominável da depressão, que freamos dentro de nós, mesmo inconscientemente. Todos sabemos que uma melancolia, quando curtida e treinada diariamente, corre o risco de evoluir para depressão. Mas se isso é feito em terreno seguro não-pantanoso das  nossas ideias, pode tornar-se uma forma inigualável de chegarmos à própria compreensão de sua existência.
Se não somos responsáveis pela nossa tristeza, uma vez que podemos culpar nossa pituitária, afinal, o que é que nos move à tristeza? Que pensamentos são invariavelmente tristes? Para uma pessoa que tem alexitimia não é fácil responder isso, tanto quanto não é fácil responder o que é a alegria. Mas nem todos nós somos alexitímicos, embora os que nos circundam nos obrigue a calar na maioria das vezes. A tristeza a meu ver vem invariavelmente da mesma coisa: do passado.



O passado em si não deveria ser triste. Se perdemos um amor, um cargo, nossas riquezas, nossos amigos, nossa família, a paz, a alegria ou a saúde, isso é um fato impossível de ser recuperado. Essa perturbação pode ter terminado no momento do extinção da ação ou pode estender-se até hoje. Pensar nisso causa tristeza obviamente, mas uma vez acontecido algo ruim, acontecerão outras coisas, boas ou neutras também. Se não acontecem, é porque perderam o sabor pela coisa ruim, mas se não foi tão ruim assim, os que sofrem podem aguardar: ainda sofrerão mais no futuro com coisas piores.
De qualquer forma, toda tristeza implica uma mudança. E, nesse caso, uma mudança para pior. Mas sejamos agora sinceros: teria sido, de fato, o momento anterior à mudança o melhor de nossa vida ou exageramos de propósito? Alguém personificou a oportunidade como uma corredora careca com um rabo-de-cavalo, o qual teríamos de segurar, impedindo-a de correr, para não a perdermos de vista. Se essa moça - a Oportunidade - é tão exótica assim, por que não a reconhecemos prontamente quando passou diante de nós? Ou a reconhecemos mas deixamo-la fugir, apatetados por sua rapidez? Teríamos evitado a mudança maligna que nos deixa hoje tristes? Não seríamos melancólicos hoje? Veja, essa fábula toda, muitas vezes, reside na idealização de que antes era o melhor dos mundos: um Éden perdido, um delírio de Rousseau.



 
Mas o antes sempre foi igual ao depois. Apenas há algo incômodo no meio, que poderíamos esforçar para esquecer. Mas, em vez disso, cultuamo-lo, como marco de nossa vida e se torna uma cicatriz sempre aberta. Se ontem era saudável e hoje sou doente, isso não deveria importar: era eu antes, continua sendo eu depois. Só deixarei de ser eu quando morrer. Aí não serei nada. Que diferença faz? Tanta quanto a minha existência antes de nascer.
Para aplacar a melancolia, o pensamento político, ecológico e religioso inventam mundos melhores, que existirão, segundo eles, mas num futuro quase sempre inatingível. Contudo, perdas são coisas que não impedem o mundo de existir. Decerto há retrocessos, há desencanto, há extinções e isso gera tristeza e revolta, deixando-nos atrabiliários (com os dois sentidos que falamos no início). Isso é natural e legítimo. Mas por que a ilusão? Somos mais felizes iludidos? Somos todos crianças, querendo ser enganadas? Precisamos histericamente de mundos além-túmulo, de sociedades totalmente harmônicas, de esperança?
A esperança estava na caixa de Pandora. Portanto, era um mal, assim como os que de lá escaparam. Mas, como ficou trancada lá, não sabemos sua cara, portanto a idealizamos. Durante a minha infância, esperando dia após dia que minha mãe melhorasse da terrível doença renal que a acometeu, nutria a vã esperança. Quando morreu, após terrível sofrimento, concluindo o ciclo da doença, o que era totalmente previsível, vi que por décadas a esperança me escarnecera diariamente. Passei a odiá-la. Nos meus escritos pessoais, chamei-a pelo nome que os antigos gregos sabiamente lhe deram: Elpís. Entre ter esperança e fazer algo, sempre optei pela segunda alternativa.
Depois de muito refletir, hoje ainda me é claro que o lado maligno da mudança é a esperança: é ela que gera a tristeza, a melancolia, a depressão. Por outro lado, viver sem esperança parece algo horrível, quase um convite ao suicídio. Mas não é. Milênios de discurso pró-esperança fazem que não vejamos o óbvio e ajamos como crianças.
 



Se soubermos que ela, com seu rosto bonito e falso, nos engana mais do que qualquer vilão, não seremos necessariamente deprimidos, fatalistas ou resignados por estarmos desamparados do ideal ou do irreal. Veremos quem somos: um saco de carne com prazo de validade, que anda, pensa, se reproduz, mas sobretudo sonha, pois devemos buscar o prazer junto a tudo (e a todos) que nos circunda. Entendido isso perfeitamente, saberemos deixar, sem revolta alguma, nosso legado positivo ao mundo real que nos acolheu, quando não existirmos mais. Isso sim é a alegria da vida, tão óbvia, mas tão apagada por idealizações absurdas, traumas e coisas que não existem mais, nem existirão. Não se trata de um otimismo ingênuo, mas a aceitação do real, do material, do concreto.
Para mim, pensar desse modo sempre foi melhor do que pensar em quimeras e construtos coletivos, afinal, isso já nos é ensinado pela própria Humanidade. O egoísmo de deixar nosso bom legado àqueles que amamos na forma de felicidade, tolerância e paciência poderia ser nosso projeto pessoal de eternidade. Parece paradoxal aliar esse egoísmo ao altruísmo da proposta. Mas não é.