O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

sábado, 18 de setembro de 2021

O INDISCUTÍVEL

Houve uma época, no princípio dos tempos, em que algumas pessoas sabiam e outras não. As que sabiam haviam feito um longo trajeto: herdaram a novidade fenícia da escrita, a alexandrina solução da gramática, o vocabulário medieval, a ordem alfabética dos lemas e a enciclopédia, a democratização do ensino, o pré-primário, o ensino básico, o ginásio, o colégio, a faculdade, a pós-graduação, o mestrado, o doutorado, o pós-doc e ei-lo feito humano com H maiúsculo, feito e perfeito após o ziguezague no tempo cultural, ei-lo, sapiente que venceu o triátlon da educação, com a medalha de ouro de erudição, a compulsar alfarrábios, após ter decorado tabelas extensíssimas: introjetaram-se-lhe no cérebro fórmulas em demasia, algumas vindas desde os egípcios e transmitidas pelos pitagóricos, o cogito, o Novum Organum, as questões humeanas sobre bolas de bilhar que nunca se tocam, as soluções kantianas sobre as sinucas de bico, arremedadas por Fichte e estava pronto o chantilly da modernidade, com os questionamentos novecentistas e sua pitada intuitiva, se não zombeteira, e a amarga conclusão da necessidade da secularização de tudo, enquanto chorávamos sobre os cadáveres empilhados de nossos próximos e víamos as ruínas das guerras. Por fim, de batráquio, ei-lo, divo, ereto, apolíneo, senhor da certeza. Fazem bem os que estão ainda rastejando ao olhar para cima e vê-lo luzir, deus entre os homens, os quais, modestamente, chama de irmãos como se fosse um bom jesuíta, consultando calepinos doutrinários da Ética, falando a língua dos seres civilizados.

E esse que se dizia em sua modéstia igual aos que ainda reptilianamente se esfregavam nos seus pés jamais deixaria de ser ereto, pensava em seu auto-engano. Os olhos embotados dos répteis, que o viam quase hipnotizados, como que confirmavam essa sempiterna situação. De onde viria essa ilusória sensação? Sim, ilusória, porque era estrondosamente falsa.


À altura dos répteis, algum desses seres iluminados se dignou a baixar, mostrando-lhe um atalho. Não direi que os crocodilianos tenham sido ensinado a usar redes sociais, porque seria muito óbvio e liquidaria com a poesia desse texto, por isso que a imaginação de quem me lê conclua por si só. E ela concluirá, mesmo que não chegue ao fim das minhas palavras, profetizo eu com denodo. Fato é que, como dizem as más etimologias, em algum belo dia, um divo que odiava a si mesmo (ou que amava demais os répteis, tertium datur) propiciou que os que rastejavam se alcandorassem, de tal forma que hoje não é nada óbvio nem mesmo que répteis rastejem: a maioria não precisou trilhar caminho árduo nenhum como descrito acima, mas já está em pé de igualdade a qualquer divindade, se não estiver acima. E os répteis, na verdade, aproveitando essa momentosa oportunidade, deixaram de existir, termo consensualmente abolido, riscado pela hodierna novilíngua, a qual reza categoricamente que répteis e divos não se opõem mais, nem deveriam ter-se oposto jamais.

E na novilíngua propala-se ainda que nada é indiscutível. Tudo é objeto de discussão, em que, ao fim e ao cabo, uma solução sempre se impõe peremptoriamente, a assim-dita mais comedida de todas, a que deve sempre igualar répteis e divos. Porque nenhuma distinção há mais entre palavras opostas, como sabemos. Tudo que é indiscutível precisa ser urgentemente discutido, para que, ato contínuo, aceitarmos indiscutivelmente a solução. Alguém se lembrou que isso lembra tirania, palavra que não faz o mínimo sentido, lembrou outrem, uma vez que não há mais distinção entre o que é e o que não é tirania. Como se chegou a essa igualdade dos opostos? Não sei distinguir entre a tirania da discussão e a indiscutibilidade da tirania, mas ainda sinto os laivos de que há um quid que não as iguala.

Insone, pensava eu, tentando recordar-me da minha pré-história, mas apenas me vieram à mente as letras fenícias, lembremos, ou as letras cherokee, se logradamente abolíssemos o tempo, as quais foram uma solução indubitável entre o alfabetismo e o analfabetismo: diante daqueles monumentos coloridos do Egito, com seus glifos misteriosos, sentou-se algum arquissinaíta e pensou: "por que me privar do mistério do significado proveniente da ordem e das regras que desconheço? Por que não consoantes, cujo nome ainda não sei? Por que não gerar, qual um demiurgo, no esperma das letras, futuras vogais e acentos? Por que não possibilitar no DNA dessa argila de Adão o escrever na direção que eu bem entender, em vez de seguir os olhos de figuras zooantropomórficas, que caminham entre objetos e abstrações, representando assim as sequências das futuras sílabas no rebus que se afunda no passado obscuro?". E de navegadores, que só queriam cobrar suas dívidas, para rapsodos, que aposentaram sua memória, surgiu um novo status numa sociedade dantes tão desnecessariamente igual para aqueles monolíngues no idioma da violência, dando ainda mais poder ao bando de seus aliados saqueadores, singrando agora por mosteiros, por copistas que ciosamente amaciavam seus pergaminhos, malgrado as vândalas decapitações que a barbárie desburocratizada dos impérios perpetrava, fazendo que o leite derramado por um escravo grego fosse trazido novamente por um árabe culto, razão pela qual São Tomás precisava posicionar-se de algum modo, sem descontentar ninguém, sim, se o leitor não me entende, saiba que estou contando tudo de novo, sim, trata-se da saudosa história dos divos, que não existem mais...

Recupero o fio da meada, sim, eis aonde eu queria chegar: bateu-se o papel sobre a chapa e não mais havia uma cópia, mas cem, mil, milhares, se necessário, para dizer anonimamente tudo, tudo, tudo o que penso, sem que minha cabeça role. Para dizer absurdos, blasfêmias, loucuras, para falar sobre os sábios e erasmiar quanto quiser, sim, o conhecimento vitruviano se misturou novamente com o desconhecido, assim como quando a Academia e o Liceu viram, boquiabertos, um agostiniano misturar o absurdo com o arrazoado. Abrem-se-nos portas aqueles calepinos, mostrando-nos povos completamente nus algures, comendo uma perna humana e, eis que, com uma risada amarela, o divo Montaigne nos zomba, dizendo que ele, ninguém mais, foi o último falante nativo de latim. 

Alguém disse, afinal, relembro enquanto o sono não retorna benfazejo, que isso precisava parar e novamente o velho sadismo bateu à porta dos que lideram, para torturar, sempre em nome do mais sagrado, com um amor e uma piedade que só os divos dizem ter, mas que não comove suas vítimas, chamando atenção de químicos e físicos estupefatos em suas torres de marfim e lá está Voltaire dizendo: que horror se comete naquela península... Enfim, não espanto quando relembro que morre Arouet, morre, Lavoisier! No meio do cheiro de carne queimada, as luzes são apagadas com a fuligem das fábricas.

Sim, já havia havido quem destronasse as personagens do Evangelho e se representasse entre as moldura dos quadros, arrancados das catedrais, em situações comezinhas, com seus filhos e sua senhora; sim, eu sei, mas a fuligem que fez tossir aquele maluco e hipócrita caminhante solitário às margens de Genebra (ou o maluco será seu anfitrião inglês que duvida da existência das causas?), vendo mais uma aldeia antiga esvaziar-se, com famintos indo para a cidade à busca de esteiras rolantes ou dos que recompensarão sua existência mediante o troféu da perfeita mendicância (como hoje vejo quando um imenso jacarandá cai e debaixo dele correm indígenas, já exaustos e amarelos de tanto mercúrio nas águas de seu rio sagrado...), aquela fuligem, eu dizia, é o sinal de que nada mais tem retorno e todos irão para a capital à procura do capital. O resto? Mais do mesmo, cada vez mais, toda vez o mesmo.

E o mesmo, de fato, não tem fim, o mesmo parou o tempo quando todas as assimetrias se julgam regularizadas num horizonte sem fim: o mesmo é a regra para que nada mais haja para se discutir, nada mais além do que já se sabe. Para que Rousseau caminhava, e, junto com ele, Goethe, Humboldt, Garret? Ou a patranha sempre foi a regra desde Marco Polo, desde que humanoides com olhos no peito foram representados nos livros dos navegadores, desde que humanos com rabo foram citados por Max von Versen? Por que no século XXI seria diferente? Alguém conseguiu algum dia erradicar o vírus da estupidez? 

Perdão (despertei de vez), esqueci-me novamente de que não é possível discutir nada mais hoje em dia, pois a verdade sumiu entre opiniões opostas. Epistemes nunca existiram, dizem os que louvam a doxa acima de tudo. Mas, perdão, novamente, tenho mais uma pergunta: se há solução para os opostos, ela seria ortodoxa ou estamos diante de um paradoxo?

Mais que isso: há graus no que é indiscutível? Existe uma média entre coisas indiscutíveis? Há aquilo que é indiscutibilíssimo? 

Exemplifico: nada é mais indiscutível que uma ficção. Ficções são o que são e discuti-las seria perda de tempo, pois não há verdade, senão gozo fruído de sua forma e/ou de seu conteúdo. Digo mais: discorrer sobre algo com uma clareza indiscutível mostra-nos que a indiscutibilidade pode ser algo muito bom. Todavia, ponderando se tal afirmação é de uma imbecilidade indiscutível, nada deve haver de pior. Portanto, nada deve haver mais perfeito que a palavra "indiscutível" para evitar discussões.

Essa minha conclusão parece-me indiscutível. Eis que, ao acabar de enunciá-la, já vejo agora um leitor evocando Hegel sem tê-lo lido, fazendo a síntese das minhas indiscutíveis teses com suas discutibilíssimas antíteses e nada posso fazer para impedi-lo, a não ser vê-lo. Sentado, em minha posição de lótus, vejo-o e vejo-me, lamentando profundamente termos nós dois o mesmo lamentável cérebro bugado, como todo primata.