O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

BOBO ALEGRE

Não há quem não tenha ficado minimamente soturno depois da última pandemia. Não bastasse a violência que grassou sobre a Terra, tanto física quanto mental, durante dias de gráficos com números cada vez mais atos, agravados por ignorância, intolerância, corrupção e descaso, os sobreviventes que rastejaram cioranianamente para fora desse escorregador (ao mesmo tempo ralador) entraram em anos pós-pandêmicos cheios de guerras repugnantes e de discursos que não cessam sua escalada de sadismo e de irritante indiferença altiva. Com isso, não se viu mais espaço para o humor, para o deboche, para o surrealismo. Aparentemente esse novo mundo, o dos robôs que leem tuas necessidades na pauta visceral das tuas convicções, tirou todo o espaço dos que familiarmente chamávamos de "bobos alegres".

Não há mais onde expressarmos nossa ingenuidade diante de um mundo repleto de informações self service. Todo mundo é consciente, politizado, informado, fanático. Não o ser, hoje, é o maior pecado. O ingênuo é mal-vindo pois o fruto do conhecimento já foi mordido. O Paraíso, onde grassa a inconsciência do Bem e do Mal, é algo que não devemos desejar nem mesmo a recém-nascidos, que terão - dizem - seus futuros chips implantados por ciosos pais que só querem o progresso de seus filhos. O bobo alegre está em vias de extinção e é persona non grata no trem-bala que nos levará à completa decifração dos mistérios que foram escondidos de nós, paranoicos, até hoje. Queremos ser tudo (e de preferência tudo mesmo), exceto um bobo alegre.



Ninguém errará mais, embora não saiba como foram programados os corretores ortográficos. Em breve, ninguém saberá mais a inútil ordem alfabética herdada dos fenícios: para que servia a não ser quando procurávamos palavras em dicionários, que em muitíssimo breve não existirão mais em papel (como já não os há, senão em museus, os papiros e pergaminhos)?. Com tanta informação em enciclopédias virtuais, escritas colaborativamente, para que lermos livros? Eu sei tudo. Eu tenho tudo. E mais: não tenho o direito de não saber, não tenho o direito de pensar errado, não tenho o direito de não gostar por ter absolutamente tudo à distância de um apertar de botões. E se só há uma forma de fazer as coisas, todos sabemos: quem não sabe será o novo inferiorizado, o novo desprestigiado, o novo ignorante, o novo anátema. Cuidado!

Mas pelas ruas ainda perambulam pessoas que no seu círculo íntimo se permitem ser bobos alegres, mesmo no crescente avolumar-se de dados e informações. O descosido de tudo o que se diz não os tornou propriamente céticos, antes sua atitude é a de um ser que coevolui com o pedantismo universal. O novo bobo alegre não simula ser bobo. Ele é um bobo consciente. Consciência muitas vezes arraigada na sua mascarada ignorância e autoengano, é verdade, mas outras vezes, é uma forma de protesto.

O bobo alegre de hoje, diferente do da década de 70 do século passado, não esfrega na cara dos hipócritas verdades praticamente indiscutíveis nem expõe as contradições de forma irônica. O novo bobo alegre flutua catatonicamente na maré de discursos fundamentados em milhões de dados. Não pretende contradizê-los, apenas mostrar que seu excesso tem algo de engraçado. Com isso, enfrenta o mau-humor daqueles que se enganam pensando e agindo como se tivessem evoluído para um novo ser mais sério.

Tentemos fazer uma besteira muito grande para quebrar o gelo. Tentemos apresentar uma consideração infame que não seja sarcástica, apenas ridícula. Tentemos rir da circunspecta notícia com que acordamos hoje, dizendo algo espirituoso, mas o  oposto do que alguém diria. Tentemos não fazer o que todos decidiram fazer desde a semana passada ou desde o mês passado. Seremos ídolos se conseguirmos agregar propaganda à nossa atitude, mas seremos bobos alegres se não estivermos preocupados em convencer ninguém.

Com isso, o prazer se tornou enlatado. O riso tem hora. A ironia tem de estar de acordo com a sinfonia. A piada tem de ser correta para não ofender, embora todos estejamos prestes a ser ofendidos. Nada que escape do script das redes poderá ser apresentado de maneira gratuita sem ser entendido como algo imperdoável, embora tudo seja reversível no momento seguinte, se for hábil para reajustar a sintonia da toada universal. O improviso, meu caro leitor, passou a ser o pior de todos os pecados. Chamar atenção para si é o que todos fazem, mas é imperdoável que o outro o faça. Só eu posso, perante a batuta do Grande Maestro, novo nome do Big Brother.



Em suma, um momento de bobo-alegrismo é perdoável se no momento seguinte provarmos que sabemos flutuar nas ondas da Grande Situação. Ter sido bobo alegre por um instante é permitido se se pede perdão por ter destoado da Grande Verdade, que é O cerne de tudo  (se a arrevoada de maritacas humanas não estiver dizendo que é A cerne de tudo). O uso é mais do que a normalidade: é a Verdade. Ai de quem afasta dele e, em sendo bobo alegre, não faz uma rápida correção para não criar mal entendidos. "Sim", diz o bobo alegre hostilizado pelo desprezo de seu recente desafinamento no coro dos corretos, "se não quisermos ouvir sobre os direitos das alcateias, todos temos de abdicar ao nosso cargo arduamente conquistado de bobo alegre". Cuidado, lobos sabem controlar o bobo-alegrismo alheio muito bem, com seu olhar supostamente crítico e suas planilhas de julgamento. Apenas evitam os espelhos quando estão na postura de apresentar sua nota final.

Enquanto pede desculpas, o bobo alegre ri sozinho, imaginando que os lobos acharam que seu perdão era algo que deviam levar a sério. Enquanto ri escondido, chora por dentro, por não saber explicar o porquê de seu desespero ao fazer uma cara boba, menos alegre. Enquanto chora, morre de medo, que seus lábios se enrijeçam de tanto segurar o riso e que sua testa não franza mais, em compatibilidade com a gravidade de tudo que está voando à nossa volta, como varejeiras.

domingo, 28 de janeiro de 2024

MAIS UM NOVO MONOTEÍSMO

Depois de deduzir, com os anos de vida, que o maior colapso da Humanidade é indubitavelmente a vitória do Capitalismo, com sua sede medonha de escravizar, lembrei-me, convencendo-me disso, do império persa e de seus zaratustras. Filhos de deus com sua mensagem pipocaram na terra, acelerando a guerra das classes. E eis que a velha tradição cambaleava e ruía, de tão desgastada, em nome de uma revolução que promovia a desestagnação das classes. Como sempre, porém, o bilionário tradicional sucumbia e subia o milionário, assim como o milionário era vencido pelo rico. Oras, e que revolução não nos mostra que, ao fim e ao cabo que pobres milionários se tornarão novos bilionários e que ricos coitados se tornarão os novos milionários, que caçarão futuramente a cabeça dos novos milionários? E para quem nada herdou dos pais ou tem preguiça de ordenar, basta apenas seguir ordens para acreditar em algo que se assemelhe à paz. Isso é tão certo quanto o fato de o nazismo ser filho do capitalismo

Mas quem sou eu, leitor, para ensinar-lhe verdades? Apenas um irmão, um pai, um marido, um amigo, um professor, um colega, um escritor. Cartesianamente, o bom senso é de fato a coisa mais bem partilhada do mundo e ninguém próximo de mim tampouco me ensinará nada, certo? É preciso um padre, um demagogo, a voz alterada de uma pessoa em transe, a voz misteriosa de um deus anônimo vinda de um monte, um livro misterioso escrito por anjos ou uma mente de alguém que fale de modo estranho, enrolado em farrapos numa praça e rodeado de cães, para dizer-nos algo além do que nos ensina quem estiver à nossa volta. A emunah é algo muito diferente da veritas dos tribunais e totalmente distinta da alétheia dos cientistas. E é dessa face-revelação do cubo da Verdade de que estou falando. A voz, vinda de uma divindade, é algo irresistível para nós, que mal sabemos com certeza sobre o que existe de fato do outro lado da parede da cela que nos prende.

Então é assim: somos conscientes, senhores de nós mesmos, apoderados devido às nossas certezas e um tanto quanto acomodados, com vontade de acreditar numa vitória da razão em vez do êxito da força, tão primitiva quanto eficiente. Mas Nietzsche já nos dissera algo sobre a morte de Deus. Sinceramente, mesmo crentes, despido de toda má-fé, confessamos que já não somos tão temerosos do que há nas matas escuras quanto já fomos, porque no singrar das eras, desenvolvemos tochas, lanternas, luz elétrica e, armados, nos impusemos no planeta. Não queremos acreditar que Deus está morto, porque isso certamente seria uma tentação diabólica que nos infernizaria, então nos fiamos em algum tipo de justiça humana, ou então no rigor das nossas leituras religiosas, ou ainda na vagueza supersticiosa herdada de que algo há, nem que seja uma verdade cientificamente hipotetizada, testada e corroborada, desensanduichada de qualquer dimensão ou perspectiva. A dúvida socrática e persistente é por demais incômoda.

Mas sob a nossa carapaça exoesquelética culta jazem as vísceras de nosso substato temeroso, cheio de dúvidas pascalinas. Se Deus está morto, é preciso haver uma nova voz que ecoe e a substitua, pois nós, símios nus, esquivos e assustadiços, precisamos de um novo monoteísmo, de uma certeza que una nossas forças para caminharmos e desviarmos do precipício para o qual caminhávamos, parasitados pela lúgubre evidência do racional. Que voz é essa?

E eis que o arauto desse novo Deus, o profeta Jobs nos mostrou em 2007 a solução. Até então, grupos de redes sociais só falavam entre si e, no início, se defendiam da intrusão excessiva de capitalistas por meio dos chamados frames, bombas constituídas apenas de caracteres aleatórios. Converteram-se inocentemente em Facebook em 2003,  Orkut em 2004, Twitter em 2006. E-mails em que donos da verdade se expressavam eram raros e tachados de excêntricos pela maioria hoje fanática. Fascinava-nos a rapidez das mensagens no formato ICQ desde 1996, mas requeriam que chegássemos em casa, estivéssemos bem-disposto, a ponto de ligar o computador e ficar sentado na frente de uma tela. Todos esses eventos se fundiram na Hidra de Lerna chamado smartphone. E deixamos, a partir de então, cada vez mais, de atender telefonemas. Já havia um prenúncio do surgimento do novo deus na paulatina obsolescência do Skype, que já existia desde 2003. A nova etiqueta diz: ninguém quer ver teu rosto, ninguém quer ouvir tua voz, quando muito queremos só palavras e imagens, com sua Verdade embutida, que respondemos quando e se quisermos, sem que ou para que nos ofendamos mutuamente. Sedimentados no behaviorismo desses novos valores usurpados pelo iPhone nasceu glorioso o Whatsapp em 2009, dez anos após o Messenger e suas caras mensagens instantâneas. A história da evolução do novo monoteísmo poderia ser mais detalhada, mas com o novo golpe da irresistível gratuidade, povoou nossos bolsos com amigos e inimigos  ainda com Instagram em 2010, Telegram em 2013, TikTok em 2014, mas paremos aí, uma década atrás, quando a metamorfose já se delineava.


Estávamos prontos, passada a primeira década do século XXI, para louvar ao novo Senhor, o Celular. Ele já existia como telefone desde 1973, mas como divindade é algo bem mais recente, como demonstramos, coisa de uma década e meia, portanto. Esse misto de telefone, telégrafo, aparelho fotográfico, computador, leitor, televisão, aparelho de som, banco, agenda, bússola, espelho, enciclopédia, telescópio e tudo mais que se pôde transformar em aplicativo, foi muito além do que McLuhan imaginaria. E nesse período de metamorfose, esse amuleto, esse ídolo de bolso, espécie de Amon-Rá da contemporaneidade, converteu-se na fonte das nossas certezas e das nossas incertezas, das nossas alegrias e das nossas tristezas, do canhestro aproximar-se e do profundo afastar-se das nossas vontades. Na soma, aparentemente, o novo Deus nos paparicou à medida que nos desumanizava, porque humanos até então não apagavam ilusões (gerações anteriores viveriam com elas até a morte), desembotou nossa memória naturalmente embotada, promoveu uma profunda nostalgia que não se aplaca nunca, nostalgia até mesmo do que não vivemos e não viveremos. E agora apesar de soturnos e desiludidíssimos, seguimos a trajetória do paradoxo de nossa vida cheios de autoestima, cheios de memória, cheios de passado e sem futuro algum.

Aprendemos, um dia antes disso tudo, algo sobre nossa gênese: que um dia nascemos da lama, nascemos de uma explosão, nascemos de um ser monocelular, nascemos como bons selvagens etc. É preciso unirmo-nos: esse é nosso impulso instintivo de primata, e nada mais hominídeo do que por meio de ideias abstratas, explica-nos o monge Harari. Mesmo sendo lama com vontade de nos unir, sabíamos desde sempre que o conhecimento nos faz iguais a Deus e que o antigo fruto diabólico que impulsiona o gráfico da história de Vico no momento atual já não é uma serpente insidiosa com sua retórica, mas um objeto desejado, acessível por grupos de indivíduos, a maioria desconhecidos, que nos mimam dizendo que são à nossa imagem e semelhança. Sabemos também que há vários tipos de ser humano:  uns polidos, outros cruéis, uns que gostam mais de ouvir, outros que gostam mais de ver. Como, então, esse novo deus uno nos unirá? Parece impossível agora, mais do que nunca, mas é fácil perceber, pois fatos dizem por si só: o rol de valores do capitalismo e dos pecados contra a nova fé aparentemente é  unânime. Está aí o novo Vaticano, a nova Jerusalém, a nova Meca: o nosso novo norte, a direção de nossas preces, que já estava em construção há mais de meio milênio. O Capital nasceu como uma revolução antimonarquista, mas nos tornará vassalos novamente de idênticos senhores decapitados, porque não há outra regra de convivência entre os homens senão líderes e seguidores.

E quando isso ocorrer de forma absoluta em nível realmente internacional, fé boa será a fé capitalista, conhecimento bom será o conhecimento capitalista, arte boa será a arte capitalista e transgressão boa será transgressão que confirma a onipresença do capitalismo. Não, o deus Celular não é o meio usado pelo capitalismo, mas o fim desejado por ele. Transformar-se-á certamente em outra coisa, sempre disfarçando-se. Dizem que talvez em um chip instalado nos nossos pequenos cérebros, mas não sei. O que sei é que se aproveitará de todas as informações que lhe fornecemos de bom grado. O truque de seu poder é simples: o novo deus nos engana dizendo que nós é que somos deuses e timoneiros da embarcação da história. Nada mais falso. Na verdade os indivíduos não têm controle algum sobre si mesmos faz tempo e o deus Celular ou seu futuro substituto não diminuirá nossa necessidade de respirar, não consertará nossos ossos quebrados por uma queda, não corrigirá automaticamente o que aumenta ou abaixa demais nossa pressão sanguínea, nem harmonizará nossos batimentos cardíacos ou normalizará nosso sistema linfático. Como qualquer outro deus, é e será indiferente ao fato de sermos seres aeróbicos, reles indivíduos dependendo do poder corrosivo do oxigênio. Continuaremos iludidos, pois esse novo deus uno não nos alimentará, não nos fornecerá ar puro, não regulará a nossa psique adoentada pelos slogans da ideologia de Grandes Irmãos. Comprova-se assim que, como dantes, sem criatividade alguma, o que vem a ser de fato o ser humano, cada vez mais imerso em seu mundo de plástico, voyeurismo, fofocas e ódio. Achou-se finalmente um consolo tão divino quanto o de antes, para nos iludir de que somos tão imortais quanto os outros deuses que nós mesmos costumamos criar ao longo da nossa História de símio medroso que contempla o fim do mundo a qualquer momento.


quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

UM OCEANO DESCONHECIDO

Há quem diga que as coisas mais difíceis de se enxergar são aquelas demasiadamente grandes. Tudo o que se refere à existência, inclusive seres pretensamente sólidos, como nós mesmos, ensanduichados entre a enormidade do Universo e o quase-nada das partículas subatômicas, padece, portanto, de uma perspectiva tremendamente limitada. Essa visão pascalina daquilo que inegavelmente somos, costurada no manto de glória de indivíduos precocemente sábios, que tantos tormentos e tentações padeceram no deserto de sua genialidade, também entraria como um dos efeitos de nossa pulverulência: we're all dust in the wind: eu preciso destas palavras escrita.

Parece, no entanto, que não precisamos necessariamente nos colocar na posição do Demiurgo, para de cima do Universo, enxergar deiformemente a nossa pequenez. Basta imaginar estarmos um pouco acima, na Lua, olhando para os oceanos que cobrem nosso planeta, e veremos a pequena porção de água do Universo, de onde rastejamos sobre a lama antes de nos tornarmos os macacos eretos e altivos que somos. Curiosamente, daqui de cima, não consigo ver o ínfimo infeliz que teve de desbastar, medroso, o que já lhe havia sido presenteado em priscas eras, apenas para matar sua fome. E não é só de comida essa fome, dizem, é de diversão, de arte e de balé. Fato é que essa fome está ancorada num oceano invisível, ainda maior do que os admirados pelo observador selenita. 


O anfíbio que mantém sua notocorda e se imagina igual ao seu Demiurgo tem fome e só ela justificará a sua pouca empatia de carnívoro. Como fazer, se disponho de diversas fileiras de dentes ponteagudos, presenteados pelo meu DNA, se eu, anfíbio e carnívoro, me puser no lugar daquele que será por mim devorado e que tem uma ascendência? Se quem fome é o eu que se rasteja, no máximo apenas a prole lhe infundirá misteriosamente, por vezes, alguma empatia: eis o mistério dos Genes ou dos jinns. Mas ainda não saciado e sem os processos químicos que obnubilam a sua empatia, que impede, de fato, esse rastejante faminto de ser canibal? Fato é que essa empatia precisará ser turvada, para que não nasçam a piedade, o pecado, o remorso, a culpa e o arrependimento, rede de sinônimos, cognatos daquela coisa que uns dizem ser a tal consciência, única dos humanos. Estou bêbado de narcisismo especista se acredito nisso.

Mas aquilo contra o qual esses parassinônimos se digladiam também deve ter um nome, que é o próprio nome do oceano donde vem o tal anfíbio. Por que não chamá-lo de "egoísmo" e estendê-lo aos pré-anfíbios no insondável mundo aquático donde provieram, até bem próximo das arqueias ou de outros seres ainda mais primevos? O egoísmo, assim sendo, surgiu muito antes do sistema nervoso que define a unidade do ser vivo como um indivíduo, talvez esteja mesclado às células que nos defendem das agressões externas, talvez se resuma a uma molécula ainda desconhecida muito especial ou a uma interação de moléculas. Mas deixemos esse mundo onde ainda se podia ver Caos e Gaia. Retomemos nossos óculos e, com nossa miopia, tentemos divisar bem onde está esse oceano no planetinha ali embaixo.

Esse oceano Egoísmo é muito maior do que supúnhamos... Mal enxergamos o Pacífico ou o Atlântico daqui e pensávamos antes que eram ambos tão grandes! Na verdade, nem terras firmes se avistam. É um marzão, com ondas ora calmas ora procelosas, ubíquo, impressionantemente monótono na sua indivisibilidade. Seria esse oceano gigantesco o átomo de Demócrito e Leucipo? Como dizíamos, o demasiadamente grande se aproxima do invisível.

Além disso, tem a capacidade de permear entre o visível e serpenteia por meandros que alagam terras até agora tidas como firmes, causando a antítese de certezas, de pressupostos, de axiomas e de tudo que uma dedução precisaria. É falso, porém, dizer que é imprevisível e ilógico o comportamento desse oceano que acabamos de descobrir e que nitidamente enxergamos, após limparmos bem nossos óculos embaçados. O que é a verdade, aliás, perante o oceano do Egoísmo? Dobrem-se sábios, curvem-se íntegros, beijem-lhe os pés aqueles que andaram, qual Diógenes, com suas lanternas. Esse oceano já entrevíamos nos sofismas, nos poderes, nos exemplos e nas virtudes que não pertencem a este universo e só podem ser imaginadas sem nossos óculos.

ADENDO: patenteiem, por gentileza, essa descoberta e deem-me a glória por lhes ter revelado o mais abscôndito dos seres. Ele é e está, o tempo todo ele nada mais era que o Tudo que vive, viveu e viverá. O egoísmo sempre foi sinônimo da vida, só Hamurabi não sabia, mas Moisés sim, quando erigiu um ídolo a seu deus cioso que não gostava de honras ao seu irmão gêmeo Baal. O egoísta real, contudo, não existe fora das biosferas, nem aquém daquilo que um dia foi nomeado como vivo. Não se sucumbe a nenhuma tentação afirmando isso. Se apreciamos a verdade, aceitemo-la e não pensemos que ela foi jogada entre nós como o pomo de Éris; se não, retiremos nossos óculos, pisemos sobre eles e busquemos outros oceanos da coloração do nosso gosto. Apostaria esses meus óculos quebrados que todas as alternativas mais belas serão, infelizmente, bem menores.

sábado, 11 de novembro de 2023

O MAL

O Mal não é vermelho, não tem pés de cabra, tridente ou rabo pontiagudo. Mas o Mal existe: seria hipocrisia imaginar que seja algo relativo porque pontos de vista são diferentes. O Mal não tem nada a ver com pontos de vista. Nem chamo de Mal aquilo que infringe uma regra social discutida em debates, como evocam tantos moralistas e aprendizes de moralismo. O que eu chamo de "Mal" é amoral, porque não está associado ao que uma sociedade acha errado. Chamo de Mal aquilo que impede que uma vida transcorra sem interferência ou interveniência alheia. O Mal poderia estar no leão que me ataca de surpresa, saltando de uma moita, depois de espiar-me e me devora indefeso. Mas esse Mal é inevitável, pois a morte em si, por ser natural e parte da vida, não deve ser confundida com o que chamo de Mal. O Mal inevitável dos acidentes é causado por algo que não tem culpa: uma pedra que rola sobre minha casa, a água que me engole num redemoinho, a sede de sangue de um mosquito que me contamina com uma doença fatal, nada disso eu exemplificaria como o que quero definir como "Mal". Se eu incluísse no que chamo "Mal" essas coisas todas, meu texto seria confuso. Mas não quero confundir: anda que essas coisas não sejam boas, assim como não são a fome ou a sede ou outras necessidades apeladas pelo meu corpo, aplacadas ou não, aplacáveis ou não, chamar tudo isso de Mal seria muito pouco preciso e minha terminologia seria falha por ser demasiadamente abstrata. Nem tudo que não é bom faz parte daquilo que quero definir como o Mal.

O que chamo de "Mal" requer, antes de tudo, um outro ser pensante da minha espécie, que raciocina e que consegue comunicar-se em uma língua articulada e que não seja eu mesmo. Esse outro pertence a uma sociedade, igual à minha ou não, e tem uma biografia, necessariamente diferente da minha, mesmo que seja meu irmão gêmeo, exceção talvez feita aos xifópagos. A relação entre o Eu e o Outro já foi estudada por psicanalistas, por psiquiatras, por sociólogos honestos ou picaretas. Falo como leigo: infelizmente desconheço a teoria nas suas profundidades que a Terminologia exige. Falo, como sempre falei em meus textos, daquilo que me faz algum sentido vivendo. Não peço perdão se errar. Posso apagar tudo, no entanto, ainda que alguém dotado de uma memória absolutamente perfeita se lembre de tudo que disser, proferirei o que penso sobre isso que existe materialmente no mundo e que estou denominando "Mal".

Prefiro falar "mim" em vez de "o Eu" e uso "outro" com letra minúscula, para enfatizar o comezinho de minha reflexão, tão necessária à Verdade. Nessa relação entre mim e o outro, não direi que o Mal provenha sempre do outro. Isso é uma súplica a quem me lê: estou tentando ser o mais honesto possível com o que teorizarei ou descreverei a seguir. O Mal, como disse, existe, e para ser identificado requer que haja não só o outro, mas também eu mesmo. A proveniência ou causa do Mal pouco importa: ou eu sou a causa, ou o outro. Não faço diferença. 



Mais difícil do que caracterizar o Mal é falar sobre a consciência. O que seria a consciência? Uma espécie de certeza de que não ajo corretamente. Uma náusea. E o que significa "agir corretamente"? É reconhecer em mim o Mal. Portanto, se olho para minhas memórias (sempre falhas) e vejo nelas algo que eu poderia ter feito diferentemente, percebo que errei. Esse erro, portanto, é a fonte de eu me tornar consciente de que gerei aquilo que estou chamando de Mal, pois esse erro afetou a história do outro, mesmo que o outro seja eu mesmo.

Mas essa retrospecção de reconhecimento do erro nem sempre é seguido de arrependimento. Muitas vezes há orgulho, indiferença, desprezo ou, pior, a sensação de que não poderia ter sido de outra forma: essas reações ao reconhecimento do erro nada mais são que autoenganos, que são muito importantes, quer queiramos seguir vivendo, levando conosco o Mal pretérito, quer queiramos fazer o Mal maior a si mesmo, o suicídio, ou ainda o Mal maior ao outro, o homicídio. De qualquer forma, o reconhecimento aponta para um futuro, longo ou breve. E esse agir futuro é outro Mal. Assim sendo, o Mal pretérito inevitavelmente gerará o Mal futuro, a menos que a memória ajude e, como num encanto, apague o Mal passado. Mas isso só os felizes dementes, talvez, têm a sorte de vivenciar.

Numa criatura não demente, o futuro carrega o Mal passado e se não podemos modificar o passado, nem o esquecer, é sabido que a náusea só se aplaca com o autoengano e, para termos o feliz autoengano, estepe da demência, só mesmo afastando-se cada vez mais do Mal passado e das causas que o geraram é possível viver saudavelmente. Alguns chamam isso de hipocrisia, sobretudo os afetados pelo Mal alheio do qual não conseguem esquecer-se, nem autoenganar-se. 

O Direito declara que esses são vítimas e que precisam ser ressarcidas por meio da punição. É assim desde Hamurabi, imitado infinitamente, por exemplo, no livro de Levítico. Mas o Direito mistura o Mal amoral (que persigo para definir) com aquilo que socialmente se confunde com o Mal e, nesse momento, muitos impostores, repletos de autoenganos ou de má-fé, se aproveitam para vingar-se da causa do Mal e cometem novas injustiças, de modo que o Mal se perpetua agora, por outras causas mais complexas, desenoveladas de psiques e de valores históricos ou de seus questionamentos. O Direito não é a solução para o Mal. O Mal persistiria sem a justiça supostamente cega. O Mal está presente desde sempre por causa da consciência, como dissemos. Não há como extirpar a consciência, embora haja imenso interesse capitalista nisso. Seria muito lucrativo um mundo em que a mão de obra fosse inconsciente e obedientes a um DNA artificial, que manipule o comportamento individual, como supomos ocorrer entre as formigas em relação à programação de suas rainhas ou dos fungos que parasitam seu sistema nervoso.



O Mal tem de ser depurado para ser reconhecido: é apenas o Mal amoral que merece ser discutido, pois nele há uma verdade independente de opiniões. Uma episteme e não uma doxa, como queria Platão. Recapitulando, o Mal, independentemente de justiçado ou não, está na consciência de um ser humano não demente e requer um outro, que pode ser o seu próprio causador, o qual poderia ter vivido de outro modo, se não fosse acometido pela ação voluntária ou inconsciente daquele que resolver agir um dia, causando-o e impossibilitando-lhes milhões de outros futuros possíveis para ambos, sendas que jamais serão seguidas. O Mal, então, para ser formalizado, não depende de vítímas, mas de um pretérito perfeito e de um futuro do pretérito, não no sentido condicional, mas no sentido estrito de uma narrativa sincera e sem lacunas importantes de memória que possam ser retomadas, por serem lacunas reconhecíveis por qualquer um, tal como na frase "Napoleão invadiu a Espanha, em seguida, expandiria seu império até Portugal". Não é possível afirmar que tenha sido ato contínuo de Napoleão ter invadido Portugal como numa consequência de interação estudada pela Física, mas fê-lo Napoleão e poderia não o ter feito. Napoleão se arrependeu de ter invadido Portugal? Talvez não, mas quem poderá julgá-lo ou sequer imaginar seus pensamentos na Ilha de Santa Helena? Contudo, quem diz que Napoleão foi um herói sofre de autoengano ainda pior, por causa da sua inconfessada ignorância. Em que se distingue, portanto, autoengano e má-fé?


Tudo isso, porém, não nos impede de destilar o Mal puro, abstraído dos eventos, a ponto de ser passível de se transformar numa fórmula em que está o causador do Mal, o afetado pelo Mal, o reconhecimento de que a ação não teria ocorrido se o causador não tivesse agido e a conclusão de que vida subsequente à ação maléfica seria distinta de qualquer outra, que não ocorreu, se o Mal não tivesse sido causado. Mas dizer isso, desse modo, parece dizer que a ausência do Mal seria o Bem. Isso seria verdadeiro se houvesse uma vida sequer no planeta em toda sua existência que nunca tivesse sido afetada por Mal algum, quer no sentido que demos à palavra quer em todos os demais sentidos rejeitados. Mas isso seria contrário ao Mal amoral e praticamente se confunde com o Bem amoral. Nem mesmo crianças conhecem o Bem amoral, talvez só anjos e outras divindades ou entidades de planos idealizados da existência. O Bem amoral simplesmente não existe. Existe apenas algo que pode ser chamado de Bem se não tivesse sido afetado pelo Mal, mas não há vida que não seja afetada por algum tipo de Mal, de modo que o Bem puro é uma abstração e não existe, como o Mal. Diferentemente de um leão que simplesmente me devora, haverá sempre alguém consciente próximo de nós, convencido por alguma doutrina ou por algum discurso, que afetará nossa vida com algum Mal que possamos culpar, ao qual possamos atribuir nossa infelicidade, novamente imersos em autoengano, quer seja por memórias falhas, quer por nossa própria má-fé. Assim, não se vive uma vida sem passar diversas vezes pelo Mal e não se vive uma vida sem cometer, consciente ou inconscientemente, algum tipo de Mal.

Talvez os cristãos estejam certos quando dizem que nossa vida é um lamento e que a única saída é o perdão: embora seja uma espécie de má-fé, o perdão nos livra do homicídio ou do suicídio. Talvez o perdão seja, de fato, a única forma de prosseguir vivendo seguros numa trincheira enquanto a guerra infinita do Mal não termina. Para não afirmar isso com má-fé, confesso que sei que essa fórmula de autoengano não foi criada pelos cristãos, embora tenha sido divulgada eficazmente por eles, mesmo quando foram extremamente hipócritas ou malfeitores ao longo da História. No entanto, o perdão talvez tenha alguma razão de ser, pois, de fato, ao que tudo indica, encontra ecos numa Grécia sem ágora ou, mais longe, numa Pérsia de população resignada, tal como se lê nas entrelinhas de um Marco Aurélio, cuja filosofia parece um cântico, ou mesmo na desilusão nietzschiana posta na boca de Zaratustra. Talvez a solução do perdão seja reflexão humana ainda mais antiga e contemporânea da encarnação do Mal sob a forma das guerras e dos impérios, fruto da cobiça da tecnologia do bronze, sabidamente muito mais eficiente que a pedra e a lança que costumeiramente lançamos uns contra os outros na nossa pré-história cotidiana.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

SÓ LHE PEÇO UMA COISA

Sim, você pode imaginar o que lhe pedirei. Preciso do meu corpo. 

Minha alma foi devastando-se na jornada conhecida como "existência", mas meu corpo é mais que o Ser dos filósofos. Meu corpo é único. Não importa se tenho um irmão gêmeo: não estou falando de DNA. Meu corpo, independente do que o estimulou ou do que o constrangeu para agir como tem agido, é meu e só meu. Nada é meu, exceto meu corpo. Não preciso de outro, idealizado, nem menos perfeito: isso seria o corpo de uma alma insatisfeita. Refiro-me ao corpo que me dói, ao corpo que necessita de água e de ar, ao corpo que é só meu, independentemente do que me digam. Por isso, tire-me tudo, menos meu corpo. Em troca, não tirarei o seu: antes das primeiras legislações isso já era óbvio, pois é tácito nas matilhas, malgrado alguém sempre se arrogue a tomar o poder do bando. Fique com o poder, deixe-me o meu corpo.

É com meu corpo que acordo, querendo ser compreendido enquanto corpo. É com meu corpo que digladio o tempo todo pensando ser óbvio para quem me ouve ou me lê, mas não o é, porque só uso palavras intrincadas e quem me ouve ou lê não me entende. Diabos, não têm todos a mesma percepção de si? Meu corpo sempre bastou-me. De que preciso mais para dizer-me vivo? Não é meu corpo que me acusa que estou saudável? Não é meu corpo que dá os primeiros sinais do meu delírio? Não é meu corpo que acorda comigo todo dia, dialogando consigo mesmo enquanto eu, perplexo, tento entendê-lo e explicá-lo para quem não o entende, ou seja, para mim mesmo, na maior parte das vezes?

E, afinal, não há nada que entender. Qual é a ação do corpo senão viver? Viver pura e simplesmente, sem filosofias, sem hipóteses, sem dúvidas. O corpo não tem dúvidas quando para de pulsar e deixa de ser. Quem me convencerá que há outra vida senão a que meu corpo, qual maestro, rege com sua batuta? Talvez por isso o torpor me seja tão ridiculamente elucidativo, tão violentamente revelador, tão tristemente eufórico, tão verdadeiramente suscetível às satânicas versões da alma, que perora e conclui que não é corpo. Deixemos a alma com seus complexos.



Não há o que elucidar, nem se revela o que todos sabem: não há nada além do corpo. E isso não deveria infundir tristeza. Viver é a alegria e não há tristeza no não viver. Quem discorda dizendo que há gradações qualitativas no viver não entendeu nada do que eu disse. Não há problema essa sua incompreensão. Sugiro que se desnude e se olhe no espelho sem reprovações: quem sabe entenderá. Se, mesmo assim, não compreende, não há necessidade de continuar lendo.

As tragédias só existem por causa da alma. O corpo é infenso às tragédias. O corpo foi criado para resistir. Com uma só célula ou com mais. No corpo só há vitórias. Não se traduz a palavra "desgraça" na linguagem do corpo, mesmo que ele viva alguns segundos apenas. Que dizer então de coisas tão caras e tão vazias, como a bondade, a beleza, a justiça, a esperança, a saudade, a angústia? Nada disso faz sentido, porque tudo deriva de uma definição que requer a forma negativa da graça e isso não faz sentido na lógica do corpo. No corpo tudo é graça, tudo é luz, tudo é movimento e coisas bizarras como a vontade, a intenção e os objetivos, tão caros ao neurastênico sistema nervoso que produz a insatisfação só geram a ilusão da existência de uma alma paralela ao corpo. Paradoxo dos paradoxos: sem isso, o corpo vivo seria pedra; com isso, o corpo vivo morre antes do programado.


Francamente, por que haveria um corpo imortal? Que graça há nessa tal imortalidade? O fracasso é o epígono do ser que se deseja imortal. O corpo imortal seria uma coisa medonha, carente de bondade, insatisfeito de beleza, sedento de justiça, iludido pela esperança. O corpo imortal angustia-se e é saudoso. O corpo imortal morre de vontade, fenece de intenções, sucumbe de tantos objetivos. O corpo imortal é o oposto do corpo, portanto, é a própria definição de desgraça. O corpo não entende o que venha a ser esse epíteto "imortal" que alguém lhe queira atribuir em seus delírios.

Nesse reinício de escritura, caro leitor, nesse meu novo testamento em vida, posso parecer estar convidando outros corpos a pensar. Mas, na verdade, o convite é diverso: que deixem seus corpos viverem, até que se tornem novamente matéria inerte e que arremessem não seus corpos pela janela, mas sim suas roupas, para conseguirem ver-se no espelho, satisfeitos.