O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

NOSSO TATARAVÔ: REI DO FUTURO


Fala-se muito sobre a vida. Sobre o que ela é ou como deveria ser, sobretudo em um planeta sob condições distintas das do nosso. O saudoso Sagan já simulou a existência de longos e baloniformes bichões jupiterianos. Nessa toada transplanetária, consigo até imaginar um diálogo entre dois seres cultos em Vênus.

Um venusiano, espantado com as notícias, disse a seu amigo, igualmente venusiano:

- Nossos cientistas descobriram enormes nuvens de metano na atmosfera da Terra. Isso talvez seja prova de que lá haja vida.
Ao que o outro teria respondido:
- Não fale abobrinha. A Terra é fria demais para abrigar vida.

Os venusianos desse diálogo não são menos estranhos do que aquele cientista terráqueo respeitadíssimo que se "confessou" cético acerca da fosfina de sua atmosfera, detectada pelos que resolveram analisar computacionalmente aquela névoa esquisita do nosso planeta vizinho. Não acreditando que a fumarola tenha a ver com alguma forma de vida venusiana, recomendou, suavemente peremptório, entre sorrisos e desvãos de uma hipocrisia dificilmente confessável, nos meandros de seu desajuizado raciocínio exato, que a biologia, obviissimamente abaixo da química na escala comtiana, precisaria esperar para ver se não se tratava antes de um processo químico, o qual seria (adianta, aliás) totalmente desconhecido e, portanto, impossível de ser reproduzido em laboratórios terráqueos. Assim avança a calota despegada da roda do automóvel da ciência em alta velocidade. Ou seja, a patroa física primeiro e só depois a empregada química: se sobrar um ossinho, joga-se para a biologia debaixo da mesa e as humanas que passem fome. Parece ser esse o pensamento altivo e comtiano, universal e absoluto de todos os bem-educados, o qual une milagrosamente gênios e boçais, misturando divulgadores da ciência como Dawkins com Newton, Hawking e outros,  numa Santa Ceia dos Pensadores, entre os quais Einstein está no lugar de Jesus. Quanta vontade de se enturmar no panteão do logos!

É engraçado como falta lógica àquilo que se intitula exato: primeiro se descobre de que modo desconhecido se obtém uma substância e, só depois de conhecermos o desconhecido, é que vamos para o mais desconhecido ainda. Não sabia que havia gradações no desconhecimento e na ignorância humana! Se eu  pudesse dar algum palpite, deixaria os biólogos analisarem futuras amostras trazidas da atmosfera venusiana antes dos químicos, senão possíveis esporos replicadores vão achar nosso planeta superlegal e multiplicar-se igual o aguapé brasileiro levado à África, que entope os rios de lá. Nossas companheiras venusianas finalmente farão a grande revolução, devolvendo às arqueias terrestres a vastidão que antes lhes pertencia, transformando nosso planeta azul em vermelho ou roxo. Que saudade devem ter do ar cheirando deliciosamente a ovo podre. Hoje, escondidas em fontes termais e rachas cheias de lava nas placas tectônicas, nossas arqueias anseiam pelo ácido sulfídrico necessário à sua vida e danem-se os seres respiradores, como essa pequena elite vegetal e animal, filhos desse Júpiter decepador do falo do pai Saturno. Com o calorão atual, até que essa situação está bem favorável, convenhamos, mas vou calar-me porque tenho até medo das minhas profecias. Faço-as sem querer (ou li o livro sagrado das arqueias e o leitor não sabe).



Mudando de assunto, quando fico de mau humor e o santo de Vaugelas baixa em mim, como baixa em qualquer bom cristão ateu como eu, percebo que a questão é outra. A primeira coisa que me ocorre quando falam de venusianos é: por que os habitantes de Vênus não são chamados de venerianos, uma vez que a base da formação da palavra derivada é o radical de Veneris, genitivo da palavra da terceira declinação latina Venus? Algum cientista brilhante, que sabia bem pouco latim, decerto criou a palavra em inglês ou em francês e ela viralizou, travestindo-se em línguas periféricas, como o português. Eu, porém, não veria o culto manipulador de pipetas e lunetas, criador desse neologismo, numa santa ceia em que Jesus fosse Schuchardt. 

Assombra-me a existência de resquícios paleozoicos da lógica vaugelaisiana em minha contida mente quando ouço alguém dizer, por exemplo, que "Vênus é redondo", uma vez que não imagino nada mais feminino do que Vênus. Mas, ok, logo volto a ter bom-senso e explico para mim mesmo que, oras, Vênus é a google translation de Afrodite. Pois bem, se até dizem que uma comida é afrodisíaca (por exemplo uma ostra), pensando nas ereções, não deixa de ser engraçado encontrar-se Vênus nessa bacanália, mesmo que o falocêntrico significado de "afrodisíaco" tenha a ver, subjetiva ou objetivamente, mais com Marte (ou Ares) do que com a deusa da concha de Boticelli. Freud me perdoe, mas não pude evitar de pensar nessa conclusão, a partir de premissas tão transparentes.

Mais infame é o fato de a desnudíssima Vênus, com seus seios estupefacientes, ser evocada para denominar uma camisa, feita de látex, que cobre o saturnino falo masculino. E de novo, lembro-me da condescendência da paródia, que inclui Madame Curie naquela orgia masculina do quadro. Consolo-me: talvez ela fosse só uma amiga voyeur dos participantes daquele encontro maçônico men only

Explico-me: na provocativa paródia de um Einstein haNotzri, as minorias foram prestigiadas: além da Madame Curie representando as mulheres, Hawking ocupa a cota dos cadeirantes e também há um negro, Neil deGrasse Tyson. Mas faltaram medievais, índios e aborígenes nesse festim ocidental da razão e da correção, convenhamos. E também anônimos, porém geniais pobres favelados  que serão para sempre desconhecidos. Peço desculpas, ainda estou apatetado com a imagem evocadora de uma alegria infantil do "já ganhou". Na verdade, é algo triste: o próprio entusiasta que criou a boba piada não saberia explicar racionalmente, por exemplo, por que Pasteur está no lugar de Judas Iscariotes, ainda mais em época de pandemia. Ok, não falarei mais sobre isso. Não voltará mais a acontecer. Continuemos doravante discorrendo sobre coisa séria.



O leitor não acha estranho que a concha onde se encontra a Vênus boticelliana não seja uma venerídea, mas uma escalopídea? Uma tremenda insensatez. Nessas horas, Vaugelas se coça na tumba de novo, amaldiçoando as regras de  Nomenclatura Zoológica e pedindo ao diabo que faça alguma coisa e que lhe tenha alguma empatia. Por algum motivo, leitor, esse demônio bulgakoviano a que me refiro fez-me lembrar de Napoleão, pai da burocracia, aquela coisa que pulsa e tem vida própria, de cujo raciocínio lógico decorrente, herdado das cabeças recém-decapitadas da Revolução, alicerçou o que Niemeyer chamou de Brasília (que significa "Brasil" em latim incompreensível aos Césares): a cara burocrática do Brasil, quando todos sabemos que a verdadeira cara do Brasil é aquela cidade exportadora de Cristos Redentores para o interior, cidade maravilhosa de onde nunca a capital deveria ter saído. Usina de non sequitur que une os três poderes, como os três elementos do conjunto unitário da Santíssima Trindade, a lógica brasiliense irradia-se sob a forma de um arremedo de justiça para quem legisla, de arremedo de lei para quem executa e de arremedo de execução para quem julga, com promessas quadrianuais de brioches eternos para quem só precisaria de palha. Bom, afinal, foi isso que fez Napoleão, quando começou esdruxulamente a redenominar à guisa dos pré-românticos todas as regiões com nomes romanos e paleovênetos. Hoje, a mais boçal gaulesa, que não consegue pronunciar uma proparoxítona, autocentrada como recomenda Descartes, declara-se no seu WhatsApp ser feliz por estar na santa ceia das nações civilizadas. Não é igual a quando me referia à intromissão de Dawkins no credo? Voltei ao assunto... por que aquilo me incomoda tanto? 

Voltando à vaca fria, os cientistas venusiano têm certezas e os nossos também: controlam a sua ignorância, a menos quando estão bem cevados de brioches, com seus artigos comentados e debatidos. Leitor, o que chamam hoje de cancelamento é mais antigo do que se imagina e se encontra infiltrado  na história da Humanidade, igual àquele líquen seco do fim do inverno, apegado aos troncos cochilentos, à procura de um boquirroto como Dixon, que saiu urrando asnalmente a "verdade" de que abaixo do Equador (curiosamente onde estão os aborígenes que lançaram seu nome para fora do terrível anonimato) não há ciência linguística alguma. Sinceramente, quando alguém tão sagaz dá um arroto tão alto, em que se ouve nitidamente afirmações como "a língua portuguesa e a espanhola são a mesma", sou acometido de uma surdez instantânea e não consigo ler mais nada proveniente dessa boca esculachada que redige: é a rise and fall da minha esperança. Ó pensamentos, como podeis virar palavras mais fétidas que ácido sulfídrico? Foi assim, por exemplo, quando Pinker, pouco depois de caluniar Jespersen, fez aquela piada de mau gosto, por escrito, com seu amigo japonês. Bom, para quê? Licença dos gênios? Amém, então.

Muitas vezes quero ler um livro de sintaxe e o autor se dá ao direito de falar sobre lógica, quero ler sobre lógica e o autor menciona a umbanda, quero ler sobre umbanda e o autor fala de etimologia, quero ler sobre etimologia e o autor fala sobre história do Brasil, quero ler sobre história do Brasil e o autor fala de economia, quero ler sobre economia e o autor fala de psicanálise. Stop. Há limites e todo organismo vivo que não tem um trambolho de um cérebro simbolizante para atrapalhar sabe quais são seus limites. Eu quero que tudo seja muito claro, senão me recuso a prosseguir.

Mas enquanto eu estava aqui batendo papo com o leitor, a sonda que foi coletar o material em Vênus já  voltou. Lá está o químico abrindo a tampinha da coleta, sem máscaras, e, como aconteceu com Pandora, o nosso universo, com seus Galileus, Oppenheimers, Newtons, Sagans, Edisons, Aristóteles e Darwins ficou num vermelhume e num marronzume de dar inveja a Marte. A Bíblia escrita pelos descendentes desse tataravô redivivo do ancestral das moneras e dos neomuras será bem outra. Aguardemos. Seu evangelho será escrito com ARNt e flagelina. Não, leitor, neomura não é o nome do japonês ironizado por Pinker, mas a palavra que será estampada nas novas muralhas do Ser futuro, que fará o oxigênio voltar para o lugar donde nunca deveria ter saído: a composição das rochas. E o mar ficará viscoso e, quem sabe, o plástico que jogamos nele um dia fará com que (como na tabula rasa de Shiva) dele ressurja novamente o nosso Messias respirador? Estou sendo bobo caindo na esparrela do otimismo leibniziano: neomura é algo terráqueo demais. Arqueomura, esse novo e horrível hibridismo, fundado na ignorância dos sábios que criam palavras como "venusiano", talvez lhe seja o nome mais adequado ou, melhor ainda, para terminar a piada, xenomura....