O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

sábado, 10 de abril de 2021

DIÁLOGO COM UM JAVALI

De fraque e pince-nez, o esbelto senhor de meia-idade levanta-se e sai de seu apartamento. 

Sorrindo, abre a porta do elevador. Dentro havia um imenso javali.

 

- Que felicidade! Quanto tempo esperava sua visita! Por favor, entre! Entre!

 

O javali, com um olhar perdido, ao perceber-se livre, passa velozmente por aquele que propiciou sua saída. Encontrando a porta do apartamento aberta, corre agitado e lá dentro se mete. Lentamente, o anfitrião o segue, recebendo-o simpaticíssimo:



- Seja bem-vindo, meu amigo!  É de fato momentoso esse nosso encontro. Alia Menecles, alia porcellus loquitur, não é verdade? Desculpe-me pela grosseria. Não quis compará-lo com um porco ou com um cateto. Aliás, vendo-o mais de perto, vejo que há um quê de babirussa. Não, com certeza, sua estirpe é de facóqueros, ou me engano? Sou pouco informado sobre distinções específicas entre artiodáctilos suídeos, perdão. Permite-me doravante que o trate por “tu”? É estranho o que tenho vontade de dizer-te: apesar de desconhecer-te completamente, representas-me de alguma forma.

 

O javali, que inicialmente o olhava hostil e acuado, intrigado com as cores da mobília daquele imenso apartamento, caminhava sem parar, enquanto o anfitrião convidava-o para a sala de estar, fechando atrás de si a porta da entrada.

 

- O meu convite tem uma nobre finalidade e a ela iremos sem delongas. Antes, queria saber se compartilhas comigo a ideia de que Nastássia seja a mais emblemática personagem de Преступление и наказание, escrita por aquele que é, na sua essência, um presente de Deus, ha ha ha! Imagina! Se todos os Teodoros fossem de fato assim, aquele imperador destas bandas subequatoriais não teria que, no exílio, ter recostado sua cabeça num travesseiro cujo conteúdo era nossa terra roxa. Permite-me rir, meu amigo, imaginando essa cena do antigo imperador. É que me passou uma ideia ainda mais engraçada pela mente: como pode o nome de Deus, tão grego, ser escrito com F no prenome daquele romancista? Ah, esses russos…

 



Dita a bazófia, riu, muito alto, de sua própria sagacidade, enquanto abria uma garrafa de champanhe.

 

- Quantas lendas, não é mesmo? Enfim... importa apenas o que é de fato, não acha? Desculpe pelo riso vulgar de agora há pouco: quis apenas que te descontraísses. É tua casa, sinta-te à vontade. Perdoa-me estar falando tanto. É sempre esse o meu jeito de evitar o silêncio absoluto: a tagarelice. Tortura-me a calmaria, não sei por quê. Fato é que, como tu, provavelmente, não consigo suportar as palavras quando não proferidas por mim mesmo.Que pensas disso tudo?

 

Terminada a questão, o javali, acostumando-se com o lugar, que analisava com curiosidade, esvazia o conteúdo do intestino sobre o tapete persa do anfitrião, dando um pequeno grunhido de satisfação.

 

- Ah, não te incomodes com isso. Acontece o tempo todo. Vamos para a sala de jantar e continuemos lá nossa conversa. Sabes que eu conheci um senhor devoto de Harpócrates? Morreu, coitado. O mundo não saberá nunca quem foi, mas eu o conhecia muito bem. Será esse o destino de todo morto: o desconhecimento total de sua existência? Cá comigo eu penso, que mesmo vivo esse conhecimento é impossível, até mesmo dos mais próximos. Quando não de si mesmo. Deixa-me fechar esta porta, por favor, para que o cheiro não invada a sala de jantar. Preferes gim ou rum? Ah, sim, provavelmente não bebes, ao menos não diante dos outros, ha ha ha.

 

Piscou cúmplice um dos olhos. O javali, excitado em sua fúria e fome com o tom de voz estridente e com os sorrisos marotos do seu anfitrião, acabava de derrubar um vaso, que, ao cair, partiu também um grande espelho. O ruído do desastre acabou por assustá-lo, fazendo-o soltar um grito estridente e uma agitação desabalada. Em seguida, parecia ainda mais enfurecido por não ver outras portas abertas. O anfitrião continuou:

 

- Vê, por gentileza, esse quadro imenso nesta parede. É meu pai. Uma grande pessoa. Não te assustes por estar nessa posição, deitado, com essa baioneta. É apenas pose de tiro de guerra. Prestou o exército, mas não chegou a ir a guerra alguma. Problema nos olhos. Essas espartanas exigências, sabes como é... Aliás, tenho uma granada dele em alguma dessas inúmeras gavetas, se os criados não ma roubaram, ha ha ha! Bom, deixemos de falar de amenidades. É preciso que questões candentes se resolvam, uma vez que pulsam nas nossas mentes desde o início dos tempos, não é verdade? Convoquei-te porque sei que tua contribuição seria ímpar. Mas me pareces com fome. Sei que és onívoro, mas podíamos começar com umas castanhas, certo? Preparamos essa mesa porque tínhamos ciência de teus gostos. Nada de trufas, pois seria piegas, embora com certeza descobrirás no teu prato uma comedida pitada do precioso cogumelo.

 



O javali, confuso com a penumbra do recinto, sentindo o cheiro recendente da comida, pôs-se de pé à mesa e, marcando seu território, arrastou o prato com a queixada, fazendo-o cair estrondosamente no chão. Seu conteúdo foi sofregamente engolido com várias bocadas barulhentas e desconfiadas. O anfitrião, quase simultaneamente, já se encontrava sentado, sorria e, brindando àquela reunião, escolhia os talheres corretos para mordiscar um pouco dos acepipes. Acompanhava o convidado em seu repasto.

 

- O que mais intriga, na verdade, é vermos árvores caindo o tempo todo. E elas caem quase na cabeça de silvícolas que se banham naqueles lamentáveis rios de mercúrio. Parece-me agora um tremendo exagero o que eu dissera sobre desconhecermos nosso destino. Se não sabemos o nosso, o deles todos sabemos: a cova ou a mendicância em uma cidade vizinha, o preconceito, a pobreza, a fome. Terrível, não? No entanto, se continuamente brindarmos à nossa tríplice origem, aparentemente haverá uma espécie de anestesia que nos dará sempiterna satisfação e orgulho, fazendo-nos esquecer da miséria alheia. É sempre esse orgulho que nos renova, não? Brindemos.

 

Antes de beber, pôs delicadamente um cálice sob a mesa, ao lado da comida pisoteada. O javali olhou intrigado, derrubou o xerez com o focinho e o ignorou, sofregamente mais entretido em remexer as mandíbulas cheias de comida, talvez porque o cheiro alcoólico não lhe apetecera.

 

O anfitrião, com os pensamentos sempre distantes em algo provavelmente etéreo, abotoando-se melhor, continuou suas fáticas e mui educadas ponderações.

 

- Estive eu cá pensando sobre algo candentemente importante: o contrário de inferno seria o superno, certo? O ser humano se arvorou como superior, mas a desigualdade, a injustiça, a crueldade, tudo isso não se mistura ao conceito renascentista que ressuscita a mais famosa máxima protagórica? E mesmo a empatia, o amor ao próximo e tudo que dizem distinguir-me de um javali, com o perdão de ser tão direto, na verdade, não é algo que podemos usar como blefe dum jogo hipócrita no qual o que importa de fato é a destruição? Pense nos parasitas: alguns não precisam nem de boca, nem de patas, nem mesmo de uma forma definida, pois lhes basta que seus genes passem adiante. Se o homem é um geoparasita, não se trata de neotenia a nossa falta de pelos, nossa cabeça grande tão parecida com a dos fetos! Sim, seria apenas reflexo da perda necessária de ganhos evolutivos para nos adaptarmos: sem clorofila, os animais aprendemos a viver da destruição… Pensando assim, a falta de rabos nos antropoides seria, na verdade, o primeiro cordão umbilical cortado da mãe árvore, certo? Sem a água dos peixes e anfíbios confiamos na nossa gordura; sem ovos reptilianos, na nossa história familiar; por fim, é a nossa homeostase que nos faz ignorar o futuro? Invejosos das aves, nós, mamíferos, nem sempre aprendemos a voar e essa ignorância nos fez valorizar tantas outras perspectivas! Tudo que nos é deficiente é uma glória, não? Acho que sabes do que falo. O importante não é o recalque pelo que não temos, mas o orgulho dos nossos valores, tão facilmente compreensíveis, pois se pautam unicamente em nós mesmo, não? Desculpa-me, novamente, pela arenga, mas não paro de pensar nisso e tenho certeza de que concordas comigo. Segue meu raciocínio. Pelados e regelados, medrosos por não enxergarmos longe nem no escuro, não foi preciso que o córtex prefrontal de símio humanoide invadisse vitoriosamente a área de olfato, anexando-a e subjugando-a, para que com o cúmulo da fragilidade, eu me tornasse o que sou hoje, o ser mais orgulhoso do planeta? Ou estarei eu sendo presunçoso e prepotente, pois essa pretensão de dominar o universo talvez não tenha sido exclusividade minha. Que achas, tu, já que não és humano? Diz-me, por gentileza, meu amigo suíno. Não teriam tido as finadas trilobitas uma sensação de superioridade parecida com a humana? Não terão a mesma certeza hoje mesmo os incríveis fungos, sem cérebro, ao espalharem-se por quilômetros debaixo da terra? Digo-te, porém, uma coisa, como advogado de defesa da minha espécie: na falta de olfato, temos metal, pólvora e fissão nuclear. Perante a nossa ignota indigência banhada em autoengano, quem estaria certo? Jó ou Da Vinci? Deduz-se facilmente dessas premissas que pensar demasiadamente nisso seria um convite à depressão. Sem dúvida o seria, mas se soubermos ponderar as coisas, veremos o que há de maravilhoso no processo e não apenas o lamentável.

 



Para respirar um pouco, feito esse longo e austero discurso, levantou-se um pouco e acendeu um cigarro, tirado de uma gaveta. O javali evitava contatos visuais enquanto essas ponderações haviam sido trabalhosamente tecidas, completamente alheio. Saciado, andava em volta da mesa, agitado, e incomodado porque não achava ainda uma saída óbvia, mas conseguiu facilmente empurrar uma porta entreaberta com o focinho e subiu uma escada. O anfitrião entendeu que o suíno queria familiarizar-se com o ambiente e resolveu mostrar-lhe a casa. Não parava de mostrar cada candelabro, cada estátua, cada detalhe arquitetônico e vincular essas coisas a correntes estéticas, cada uma de seu tempo. Seguiu-o com passos lentos e elegantes, que contrastavam com a agitação do javali, que estranhava aquele ambiente tão pouco selvagem. O senhor, sempre meditativo, alisou os bigodes e retomou o seu fio de raciocínio:

 

- Mas, afinal, lamentável e maravilhoso para qual ser que habita este planeta, não é mesmo? Saberias pensar comigo? Ah, vejo que te entreténs com outras coisas. Deixa tudo isso para lá. Cansa-me às vezes falar do real. Não há nada mais aborrecido do que falar da própria dor ou, pior, ouvir sobre a dor dos outros. Horas há que entendo muito bem a alienação dos que se fecham em clausuras. E ser de uma espécie qualquer é viver numa clausura. Invejo os que gozam apenas porque subsistem nas agruras da sobrevivência. Existência para quê, se basta a subsistência, não é verdade? Um dia a existência deixa de ser! Um dia a essência também deixa de existir. Concluo que o que nos une, de fato, é estarmos sempre numa eterna crise.

 

O javali finalmente encarou-o com seus pequenos olhos vermelhos e focou sua atenção finalmente no anfitrião. Sua fúria inata, dir-se-ia, subitamente se convertia numa estranha empatia. Nesse momento, soltou um grunhido muito diferente. Uma testemunha juraria que, de uma maneira demasiadamente humana, teria dito um claro e surpreendente “concordo contigo”. Ambos agora pareciam esboçar um sorriso, fundamento de qualquer princípio de comunicação, como dizem.

 

É foi nesse exato momento que ouvimos um grito medonho e houve desde então muito movimento naquele prédio. Vizinhos gritando, bombeiros e suas sirenes. Todos se amontoavam à porta recém-arrombada daquela residência.

 

- Eu desviaria teu olhar desta cena final - disse o antes bem composto senhor.  Paixão e compaixão, afinal, o que são?

 

Eu estava no meio daquela multidão apinhada no umbral de seu apartamento e testemunhei que meu vizinho, o pacato seu Mênecles, estava ali sentado no chão, com o javali morto ao seu lado, com a barriga aberta por uma imensa faca, agora cravada no queixo do pobre animal. Tinha seu rosto alvo, sua boca, o queixo, o peito, o fraque, a gravata, as luvas, tudo encharcado de sangue e de fezes. As mangas esfarrapadas e o braço um pouco ferido revelavam ter havido alguma resistência do pobre animal. Meu vizinho falava agora com uma voz guinchante quando se aproximavam dele tentando afastá-lo das tripas recém-tiradas da barriga do animal morto, que insistia em devorar. Levado, enfim, por policiais e enfermeiros, que o imobilizaram, perorava aos que o olhavam petrificados, babando em abundância:

 

Expressar o que se sente, meus queridos, é pouco! O homem é, sem dúvida, muito melhor do que os demais animais, que são incapazes de romper um pacto, uma vez estabelecido – disse mastigando - Homo traditor! Mesmo se os não-humanos viessem um dia a falar, jamais conceberiam o que é a traição, essa característica divina que nos caracteriza. .

 

E, retirado finalmente do apartamento, podia-se ouvir lá fora:

 

- Enclausurada nas almas doentes das pessoas, a monstruosidade era tão bonita… Tinha um certo apelo poético, não concordam, vocês, que me olham tão pálidos? Que triste isso tudo, não? Lamentável, deveras. Saudade de quando todos davam suas opiniões boçais bem baixinho, bem sozinhos, quase mudos. O que nos resta agora indubitavelmente será fazer de conta que não é da nossa conta, porque, afinal de contas, o que conta é o que temos para contar, não concordam?