O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

CERTEZA E CONFUSÃO

Crê-se piamente que o Homo sapiens é um ser racional e perante esse dogma, o maior pecado é dizer o contrário, isso é, que sua razão é tão confusa quanto a de qualquer outro animal irracional. Como em todo dogma, a dúvida não é muito bem-vinda da parte dos dogmáticos, enquanto a grande maioria pouco se importa honestamente com a verdade ou a falsidade de afirmações como essas. Será que só é mesmo racional o ser humano que honesta e dogmaticamente acredita que o ser humano é racional?  Mas é possível ser honesto e dogmático ao mesmo tempo? Para não se cair no pecado da irracionalidade, deveríamos ser claros e valermo-nos de definições para cada termo empregado em nosso discurso? Mas isso é possível? Dizem os que acham que a racionalidade é possível que sim. 

Por exemplo, se eu digo "bombril", podemos falar de uma marca registrada específica de uma lã de aço ou então vagamente de uma lã de aço qualquer e, a não ser para os empresários da Bombril S.A. ou para um usuário fiel das palhas de aço Bombril, que não abrem mão de seu Bombril stricto sensu, os dois significados, apesar de distintos, são iguais, apesar de haver questionamento quanto ao objeto a que se refere. Essa sutileza é por demais sutil. Vamos para outro exemplo.


Em língua portuguesa, a palavra "dado" é, como a maioria das palavras de todas as línguas, um item lexical bastante confuso ou, dito de outro modo, a sequência d+a+d+o pode ter vários significados que nem sempre coincidem. Um dado, por exemplo, pode ser um objeto cúbico usado tradicionalmente em jogos de azar ou um dado, entre outras coisas, pode ser algo conhecido sobre o qual formulamos um juízo. Assim, se eu disser que tenho dois dados, os quais, lançados têm a probabilidade x de caírem  com a face virada para cima, apresentando o número seis em ambos, e, após o lançamento, constatado o resultado, tenho um dado extraído do que os dois dados me fornecem e, relançados, tenho dois dados a partir dos mesmos dois dados e, outra vez lançados, temos três dados a partir dos mesmos dois dados, estarei sendo, no mínimo confuso. Só vou me fazer entender se disser que o leitor deve ser perspicaz e, pelo contexto, interpretar às vezes o uso "dados" com o sentido do inglês "dice" e, outras vezes, com o sentido do inglês "data". Para evitar esse tipo de confusão, um bom iluminista me dirá que preciso de sinônimos, a fim de se evitarem os homônimos. 

Mas alguns linguistas dizem que sinônimos não existem e têm provas de que, de fato, tem razão. Mas não é razão de que seja, de fato, tão certo, a ponto de se cobrarem provas nas provas dos alunos que sofrem, sem razão alguma, para seguir seu raciocínio. Isso é uma prova de que a prova sobre a prova da inexistência de sinônimos não é uma arma de doutrinação eficaz contra a praga dos homônimos. Nem é a razão de que a razão sobre a razão humana seja tão certa quanto duvidosa.

Matemáticos contornam esses percalços expressivos chamando a um dos homônimos de x e ao outro de y. Mas, enfim, uma simbologia, aplicada de maneira histérica, para evitar a falta de clareza da linguagem natural, pode também conduzir à total obscuridade da expressão formulaica da linguagem artificial de lógicos e formalistas afins. E, logicamente, nem tudo pode ser expresso logicamente e é incerto que a certeza não seja comprometida por esse excesso de clareza. 

Uma coisa é certa (ou não): falta de clareza não é confusão. A falta de clareza vem de uma definição pobremente estabelecida enquanto a confusão é a aplicação (in)consciente da falta de clareza. Mas quando paramos tudo, decididos a sermos claros? E, pior, o esforço de ser claro, por mais honesto e/ou necessário que seja, é algo que gera imediatamente uma clareza? Ou ainda alguém se valerá do nosso conceito claramente definido para usá-lo como quer, criando confusão, a ponto de o criador do conceito e dos termos definidos a partir dele não conseguir entendê-lo quando aplicado?


Quero ser claro. Paro tudo e resolvo definir tudo que conheço desconfundindo palavras confusas: evito que sejam homônimas ou que tenham seus escopos de aplicação nebulosos. Não adianta. Alguém perceberá que "dado" não é apenas algo que conheço, a partir do qual posso raciocinar, mas, de forma mais estreita, algo que é resultado da aplicação de um raciocínio. De fato, um fato que a natureza nos fornece é um dado e o resultado de um longuíssimo cálculo computacional, no limite da impossibilidade da cognição humana, também é um dado. Poucas pessoas o negarão. Mas por quê? O cálculo computacional arvora-se numa lógica (e não nas premissas que servem de input) e o fato natural é algo que só se penetra cognitivamente por meio de premissas fundamentadas em pressupostos, imersos no pântano mental de uma época, impossível de ser entendida por si só e profundamente desinteressante para as épocas seguintes a não ser por historiadores.

Um dado, assim, pode confundir-se tanto em seu resultado quanto em uma de suas premissas e isso é profundamente perturbador. Um dado, corrigir-me-ão com uma definição "melhor", é um enunciado apresentado à consciência, independentemente de sua origem, e que serve de base para minha cognição. Independente por quê? E se a sua origem for completamente mítica? Um boitatá é um dado? Alguém virá com sua mangueira de incêndio berrando "não": um dado precisa ter uma raiz empírica... Desculpem-me: isso é confuso.



Pois bem, se minhas premissas têm boitatás e são inseridas num computador, que se vale logicamente delas, o que resulta será um dado, mas um boitatá ele mesmo não é um dado. Um boitatá regurgitado, mastigado e olhado por óculos antropológicos, independentemente das premissas viciadas que esse olhar antropológico tenha sobre o boitatá, é um dado, mas o boitatá, tal como uma entidade, não é um dado. Não é um dado para quem? O meu vizinho viu um boitatá com os próprios olhos. Para ele é um dado, sim senhor, e não me venha dizer que viu porque estava bêbado, que interpretou mal um fogo fátuo, que é míope e o tal boitatá testemunhado na verdade era uma fogueira do outro lado do rio, que é uma recordação atrapalhada, que é um louco, que é o delírio momentâneo de um insano. Para meu vizinho, o boitatá de sua experiência única e pessoal é igual ao cometa Halley que apareceu há pouco tempo: é raro, mas existe, portanto é um dado e acabou a conversa. Ele tem razões para não tê-lo fotografado e se o fotografou, mas o borrão que aparece é inconclusivo, dane-se. Ele tem certeza e quem está fazendo confusão é você que não tem certeza e diz que sua certeza é confusa.

É preciso ser muito irracional para escrever sobre a certeza e é preciso ver-se como muito racional para escrever sobre a confusão. A certeza, concluo, dificilmente se separa de alguma confusão. A certeza advém de convicções que têm raízes não só em dados, mas também na má-fé e no delírio coletivo ou individual. Uma palavra abstrata qualquer causa esse delírio: "paz", "guerra", "amor", "ódio", "infância", "família", "segurança", "alegria", "estupidez". Tudo que é abstrato e tem raízes quilometricamente distantes do real é muito pouco passível de uma definição inequívoca. Tudo isso é um espermatozoide que, unido ao óvulo social, concebe a confusão. A confusão é muito mais que apenas um problema de definições claras. A confusão é o oxigênio, veneno terrível que corrói, transformado em certeza por causa de nossa vida aeróbica dependente da razão. Definir é um momento raro: parece-se mais com o relato espontâneo de Oliver Sacks, quando dizia que, ao mergulhar, sentia-se indubitavel- e profundamente feliz. Definir nos dá uma certeza, conduz-nos à felicidade, sentimo-nos impermeáveis ao ar infecto da confusão, mas após essa ebriedade, voltamos ao real porque - para dizer algo intimamente perturbador - sentimos saudades da confusão.

Veja bem, a confusão não é o delírio absoluto, muito menos o delírio da destruição. A confusão é o momento em que se fundem certeza e incerteza. É o momento que nos incita a viver. Se vivêssemos só de certezas, seríamos profundamente infelizes, porque a felicidade eterna conduz-nos à vontade de ser mortal e muitos deuses do Olimpo sentiram essa tristeza quando conceberam semideuses. A confusão, pelo contrário, conduz-nos à necessidade de termos certeza, mas é na confusão que somos mais bem adaptados. Na confusão distante do delírio absoluto somos menos suicidas do que na certeza: a esperança diabolicamente nos ajuda a sobreviver. Se cada ser humano, dotado de uma torturante consciência, se matasse assim que se deparasse com a náusea da confusão, não haveria um só humano sobre a Terra. 

Há, porém, como dito, vários graus de confusão. Mas se a confusão é desordenada, como dizer paradoxalmente que segue um crescendum? Pasmos, vemos que "grau" também se move pelas ondas inconstantes da polissemia. Uma coisa é dizer que o dia está quente porque reflete uma temperatura de 38 graus Celsius, outra coisa é dizer que um texto confuso por ser mal escrito é menos confuso que o delírio de um Lautréamont e esse, por sua vez, é menos confuso que o discurso de um surto esquizofrênico. Falta de ordem, falta de clareza, falta de método são confusões distintas, da mesma forma que são nomeadas como confusões os embaraços morais, as atrapalhações, as expressões pouco detalhadas, as expressões que visam propositalmente ao tumulto, os meros equívocos, uma infinidade de situações, algumas pérfidas, outras lamentáveis, outras corriqueiras, outras banais e/ou divertidas, que só são malvistas pela pessoa de escafandro no Mar da Certeza, topônimo que não consigo localizar em mapa algum.


Quanto mais me fio na lógica, mais lógicos encontro que desmontam as premissas brutalmente irracionais em que se fiam as premissas e o instrumental de que se valem meus silogismos. Quanto mais alegria encontro, borbulhando debaixo d'água, mais sombras incaracterísticas nadam à minha volta. Não é preciso estar à tona para deparar-me infeliz- e novamente com a confusão. Meus limitados sentidos, aqueles que me conduzem a uma parte de minha certeza, e meus limitados juízos, que me conduzem à outra parte, nasceram defeituosos por não serem oniscientes. E a onisciência não é prerrogativa de nenhum ser alado, rastejante ou vegetativo que eu saiba. Mas quem disse que eu sei tudo? Pode ser que os onicóforos do parque de Ibitipoca tenham o dom da onisciência, algo que jamais conheceremos, porque nem a certeza nem a confusão jamais nos deixarão chegar a essa premissa mínima. A chance de chegarmos a uma premissa mínima por meio da loucura, infelizmente, é ainda menor, penso eu, mas a chance de essa frase estar errada é igualmente tão imensurável quanto a de qualquer certeza ou a de qualquer confusão.

Por que tenho tanta certeza de que não podemos ter certeza de praticamente nada? Não estarei fazendo alguma confusão? Certeza e fé: eis dois sinônimos (e como já disse, sinônimos não existem). Ambas não são dadas apenas por instintos, mas por medos e por caminhos a ser evitados. E esses perigos são enunciados por palavras e palavras têm estruturas, têm obsessões morfológicas, têm regras de boa convivência sintática, têm a roupagem da moda de seus fonemas. Palavras não são coisas como onicóforos, boitatás ou direitos. Palavras são primevas conexões entre a certeza e a confusão, entre a felicidade e a loucura. Palavras têm casos morfossintáticos e não é o caso de nos esquecermos que sentimos seus sentidos em contextos, com textos ou sem textos: o significado nasce depois da palavra, senão, no início seria o significado e só depois a sua carapaça fonética, mas não: primeiro é o ruído, o som, o acaso de significar, só depois, bem depois, sentimos vontade de mergulhar, organizar, para dominar o outro, para dominar o mundo, porque percebemos que somos frágeis. Até esse momento éramos invencíveis: davam nossa chupeta quando pedíamos, riam quando fazíamos qualquer bobagem, manipulávamos, éramos felizes, até que o inimigo, que é nosso próximo, nos negou aquilo que era importantíssimo para nossos caprichos mais fundamentais. A partir daí, nasceu em nós a vontade de nos retrair, de observar e de falar como o outro. A partir daí tornamo-nos perigosos. E, destemidos e inconsequentes, não pararemos até o mar primevo tornar-se o nosso pretendido oceano de plástico: temor de consequências para quê? O futuro não está sempre sob controle do nosso presente? Essa nossa certeza nos conduzirá à confusão e, depois que estivermos totalmente confusos, em meio à destruição a que nossas premissas nos conduziram, perguntaremos: poderia ter sido de outro jeito? Pelo jeito não.

Nesse dia, caro leitor, nossa espécie irá definitivamente para o além-vida, onde já estão nossos primos trilobitas e nossos irmãos dinossauros, antigos donos do mundo, aos quais inconscientemente nos equipararíamos na proporção exagerada massa nitrogenada, se tivéssemos sido de fato racionais. No momento do trespasse da nossa espécie, nossa história terá sido finalmente escrita. E ninguém mais questionará se essa história foi certa ou confusa, talvez só os onicóforos de Ibitipoca.