O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

PROPOSTA PARA SALVAR O MUNDO


Gosto de fumar um cigarro de palha debaixo de minha goiabeira e pensar em soluções para o mundo. Outro dia fiquei assim até escurecer e vi, na lâmpada de um poste, milhares de insetos: pequenos besouros, siriris, mariposas, debatendo-se, hipnotizados pela luz, cena tão prosaica que em nada acrescentaria à minha filosofia e à minha política se já sobre ela nesgas de pensamento não me houvessem cutucado.


A visão banal desse manufato-poste, imitação ridícula e quimérica do biofato-sol e do biofato-árvore, deu-me a luz necessária para achar a solução para salvar o planeta. Ora vos apresento, leitores. De graça.


Salvaremos o planeta se um dia os governos mundiais estiverem de acordo com o seguinte: proíbe-se a eletricidade das 19:00 às 5:00. Pronto. Simples assim. Essa suposta bênção, que se consubstanciou por Thomas Alva Edson na forma de lâmpadas, é a culpada de tudo.

Culpada não só de os meus queridos insetos se estatelarem e se carbonizarem buscando a luz tal como nós buscamos a paz ou a felicidade. Nossa mente insatisfeita de hominídeo só se preocuparia com o mal da luz elétrica se, hipnotizados, marchássemos inconscientes em direção a ela num suicídio involuntário tal como é o triste fim da vida desses pequenos artrópodes alados. Interromper a luz elétrica não faria só esse bem. Na verdade, atenuaria, pois insetos continuariam voando para lanternas movidas a pilhas, para fogueiras e para lampiões: não ficaríamos, com certeza, num escuro absoluto após a proibição. Decerto, como somos hominídeos, e, portanto, adoráveis e monstruosos, concederíamos que hospitais ainda tivessem as lâmpadas para bebês prematuros, assim como deveriam mantê-las acesas as granjas para a tortura das galinhas que nos alimentam. Tudo isso é de menos. Se podemos concordar que há algo de necessário na eletricidade para a manutenção de nosso status quo de reis do planeta, há dez mil vezes mais falta de necessidade dela à noite. 

Deixai de lado minha piedade para com os insetos, para que não me acuseis de pró-artrópode e portanto parcialíssimo. O que vos apresento, leitores, tem sim justeza e equilíbrio de raciocínio, senão vejamos.

Nós também estamos sendo atraídos, não por bulbos incandescentes, mas para telas, de computadores e smartphones. Nós estamos destilando o pior do nosso eu e isso não tem mais volta. Não quero propor nenhum tipo de proibição utópica contra isso. Não sou louco e sei das necessidades de destruição que se embrenham no nosso DNA. Mas pergunto se essa atração viciante precisa ser de fato algo que ocorra por vinte e quatro horas. O decreto universal do escuro obrigaria os malucos a comprar reatores e baterias potentes, cujo preço subiria estratosfericamente. Em algum momento futuro, passada a novidade da nova condição humana, mesmo os viciados nas telinhas veriam que não valeria a pena serem tão ansiosos e carregarem seus aparelhos durante o dia para usá-los no breu da noite primordial, nas saudosas trevas da origem das eras. Longas e maravilhosas trevas, que duraram milênios até o finzinho do século XIX. Como essa claridade eterna é recente!

Argumentareis que consequência imediata da falta de eletricidade à noite seria o aumento de incêndios nas cidades. Lampiões cairiam no chão, fogueiras descuidadas inflamariam tapumes, vigas, casas, quarteirões, bairros, cidades inteiras. Enfim, a impossibilidade da revogação da lei nos obrigaria a voltar a ser cautelosos. Menos ansiosos e mais cautelosos... vede, leitores, como já aparecem as vantagens, mesmo diante de uma face pintada como horrenda dessa incogitável lei que vos hipotetizo? 

E não param por aí as vantagens: a maioria se recolheria cedo, dormindo junto com o pôr do sol. Afagados pela sonolência do escuro, seríamos dominados pelos pensamentos incertos, pelo vaguear, pela mioclonia, nossas pupilas alternadamente se contrairiam e se dilatariam, anunciando a atividade onírica, recuperando nossa atividade física perdida no desgaste das opiniões exacerbadas que caracterizam o mundo pós-Facebook. Voltaríamos aos paradoxos dos sonhos, ao estado dissociativo natural que não requer droga alguma. Regressaríamos ao comedimento, ao estar de bem com o mundo, ao estar pronto para sua violência natural no despertar. Só dormindo sabemos diferenciar o banal do importante. Sem ele, não somos bichos, porque bichos dormem. Somos monstros, ávidos e sedentos por algo que queremos mais do que nossa própria vida e não sabemos o que é. Deixaremos de destruir o planeta se formos obrigados a não fazer nada e dormir.



Obviamente, há os contestadores. Os que pensarão que a lei é uma agressão à individualidade. A esses românticos, aconselho: matai-vos nas vossas esbórnias, tomai as vossas doses cavalares de absinto, sede coerentes com vossos spleens. Duvido que essa romanticalhada seja a maioria do ser que povoou o planeta. Se é, a maior culpada foi a luz, elétrica ou não, criada para quando o sol já se havia posto. Boêmios, bandidos e assassinos serão sempre minoria num mundo em que metade do dia são trevas absolutas. Quem se arriscará a sair no escuro pelas ruas com uma lanterna em semelhantes condições?

Sem a luz,  não haverá esse tantão de festas que alardeais sacar-vos do mundo, mas tampouco haverá telejornais que envenenam vosso sangue pré-coalhado à noite após a vossa estressante azáfama diária. Os YouTubes continuarão a destruir a nossa mente em nome da desejada onisciência, mas será só de dia. Sem programações inconclusivas na hora em que o sono REM deveria estar à toda, o hominídeo deixará de ser o idiota da contemporaneidade. Quem sabe redigirá uma nova Ilíada? Não há quem tenha capacidade de fazê-lo nos últimos séculos, tamanha a involução da nossa mente (que a Lei de Dollo me perdoe por dizer tal despautério).

Mas não só aos dorminhocos farei meu louvor. Decerto, o lusco-fusco tem seu valor como estímulo da mente. Mas essa beleza só se aprecia no limiar embriagado da melatonina. Afinal, não é uma passagens mais belas dos textos filosóficos aquela em que Niccolò di Bernardo dei Machiavelli narra numa carta a Francesco Vettori sua rotineira reverência à leitura, feita à noite, sob a luz de vela? Entrando no seu escritório, na virada do século XVI, sem o maquiavelismo característico que lhe incute o ícone-mãozinha-para-baixo das debiloides e engajadíssimas redes sociais, o fiorentino confessa que se despe de suas roupas suadas cotidianas e de suas botas sujas de lama, preparando-se para encontrar seus mortos amados, usando suas melhores roupas, de corte e de cerimônia. Decentemente trajado, é acolhido pela bondade dos homens do passado, que o alimentam com o único alimento que convém a um Homo dito sapiens, a única razão de ter uma vida individual e exclusiva: o conhecimento do que já se foi. A audácia, porém, de penetrar na alcova dos sábios é retribuída com tamanha humanidade que o filósofo não sente vergonha de dirigir-lhes a palavra. Esse momento de transcendência anula todo aborrecimento e desgosto a tal ponto de até a morte deixar de incomodar. A convivência quotidiana com o passado à meia-luz, portanto, no momento onirocrítico em que a vigília se transfunde em torpor, é o que mais se aproxima à entrada do Paraíso. Quanto disso se perdeu? Nosso panteão está vazio desde que a luz espantou o mistério. 


O torpor doce afastará os fantasmas. Descobriremos que não é na penumbra que vivem os lêmures e as assombrações. Mas na claridade eterna. O inferno deve ser assim. E o mundo moderno, por causa da eletricidade, é um preâmbulo da geena. Mil vezes o tormento goyesco em vez da claridade que tudo ilumina! O sono da razão produz monstros. De fato, não há razão sem sono.

Não só mariposas deixarão de se matar! Os corações demasiadamente hominídeos e sem piedade por esses vermes alados também devem refletir no que falo: imaginai, ó avaros, como a diminuição diária do consumo de energia encherá vossos bolsos. Será melhor do que o satânico consórcio já havido entre liberalismo e capitalismo! Com todos os homens relaxados, exceto os tarados incuráveis, haverá menos tensão de um contra o outro e não precisareis esconder-vos dentro de um batiscafo em fossas marítimas nem partir para outro planeta. Que capitalista e que liberalista ama a guerra exceto quem fabrica armas ou quem vende os despojos? Diminuído o número de maníacos frankensteinizados pelo Silicon Valley, há esperança, sim, na lei do apagão universal, em recuperar o lado verdadeiramente animal do homem, aquele que vale a pena, pois o lado hominídeo, esse, convenhamos, nos leva rapidamente para uma voragem sem fundo.

Meus caros, pensai bem: sem essa luz elétrica horrenda, veremos de novo as estrelas ora ofuscadas. Não há animal mais triste que o vaga-lume e os peixes abissais com lâmpadas acopladas no próprio corpo. Mesmo abençoados por sermos desprovido de luciferina, criamos holofotes para que só vejamos meio palmo diante de nós. Mas as trevas prometem-nos mais. Ressurgirá o infinito do céu e, com ele, a dimensão de que somos nada perante o universo. Esquecemo-nos disso. Cremos que não há mais luminares celestes e a lua hoje se perde no meio dos letreiros e outdoors iluminados. Que se apague tudo diariamente por dez horas! Há quem nunca tenha visto uma estrela cadente na vida. Reputo essa vida tão miserável quanto a de uma galinha enclausurada numa granja, subjugada na maktúbica condição desgalinácea de máquina de ovos.

E se, nessas condições, poder-se-ão ver melhor a lua e as estrelas, veremos também o sol comme il faut e valorizaremos cada minuto de sua luz. Talvez até tiremos a cara da tela também por causa disso. Por que não apostar nessa ficha? Se a vida é uma partida de poker, não temos o que perder. Nosso id já não precisará ser alimentado, concluiremos, pois não quereremos mais nos destruir com essa gana crescente do que inscientemente nos carece. Nosso id nunca fora antes tão obeso como o é hoje e, por isso, sabíamos diferenciar claramente o que é o mal. A luz elétrica fez que Ahura Mazda e Angra Mainyu se tornassem seres indistinguíveis.

A ininterrupta atividade das metrópoles, hoje mencionada de maneira orgulhosa, será vista como uma espécie de pesadelo no futuro, tão logo vejamos que a lei do escuro é de fato irrevogável por ser mais necessária à vida do que oxigênio. Voltaremos a enxergar melhor o rosto dos outros e saberemos de novo ler suas mentes. A sensação de falsa onipotência diminuirá. Nada como a escuridão para infundir o mistério em nossa alma. Se falta o mistério, bem sabeis, falta tudo ao ser que se diz humano. Não somos nem jamais seremos deuses, por mais que a retórica da eletricidade nos tenha conduzido a crê-lo.

Por que tanta claridade? Por que temos de enxergar tudo? Se fosse assim, deveríamos ter nascido morcegos, que, aliás, entendem melhor do mundo do que nós, por serem extremamente míopes.