O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

O AQUI-E-AGORA

Afoitos, sobretudo quando estamos envolvidos pelo calor juvenil que pulsa nas nossas veias, aprendemos a valorizar o aqui-e-agora. Não digo que isso seja bom ou ruim. Na verdade, a cognição enreda uma fantasia de individualidade que, no turbilhão heraclitiano das coisas, precisa de âncoras para que entendamos algo. Nosso entendimento não é dos melhores, mas também não é de se jogar fora. É necessário que ele exista, de alguma forma, para nossa sobrevivência e para nossa perpetuação.
 
Que é de fato o aqui-e-agora? Não me refiro ao meu dia comezinho e às aventuras domésticas hodiernas de quem mal teve tempo de almoçar, enredado em obrigações acumuladas. Não. Não falo de mim. Seria muito chato. Falo do contexto em que me insiro.
 
O que houve hoje todos conhecem. Não saberão dele quase nada amanhã. Tão óbvio, que parece truísmo indigno de ser relatado. Que adianta descrever o calorão paulistano que fez hoje à tarde, seguido de um friozinho e de sua promessa de chuva? No noticiário, há manifestações por toda parte, todos sabem. Sabemos também que hoje estamos à véspera da copa e das eleições. Não. Não é isso. Tampouco deveria importar ao leitor (a não ser ao bisbilhoteiro) a minha saúde física e mental ou a minha vida amorosa ou o que eu comi ou se ainda tomei banho ou não. Não lhe importaria de fato se peguei fila no cartório e no correio, se meu cartão Sodexo parou de funcionar, se estou preocupado com o que espero que ocorra amanhã. Não.
 
O aqui-e-agora, nesse sentido, é tão banal, seja vivido, seja entwitterado, seja enfacebookado, que só pode gerar o tédio. É algo que só tem o poder de nos jogar em rosto aquilo que pensamos ser, isto é, aquilo cuja confirmação tememos ouvir: o nada. Precisamos de sonhos, de fantasia, de mentiras e de fábulas até mesmo para termos coragem de nos pendurar numa corda.
 
Mas foi assim dez anos atrás? 2003 foi o ano do primeiro flash mob. Nesse ano, a prefeita de São Paulo era Marta Suplicy e nela arremessaram uma galinha preta. O presidente eleito do Brasil era Lula, após três tentativas anteriores. O de Cuba era Fidel Castro. Na Argentina o presidente era Nestor Kirchner e na Bolívia depunha-se Gonzalo Sánchez. Era época do ranzinza George W. Bush e Saddam Hussein ainda estava vivo, apesar do Iraque invadido, com a biblioteca de Bagdá destruída e as peças sumérias, de inestimável valor, saqueadas do seu museu. Num atentado, morria o diplomata Sérgio Vieira de Melo. Ano do novo Código Civil, da criação das subprefeituras de São Paulo. O ônibus espacial Columbia havia explodido no ar. A TAM se havia fundido com a Varig. No mar, o naufrágio do Tona Galea, em Cabo Frio. Na ciência, descobriu-se um novo domínio de seres vivos (Archaea). O Homo rudolfensis deixava de existir, considerado sinônimo do Homo habilis quase ao mesmo tempo em que se descobria o Homo sapiens idaltu. Por outro lado, também se descobria que 99,4% do genoma do chimpanzé é igual ao do homem. O Texas e a Georgia descriminalizam o homossexualismo. Os irmãos Chapman alteram originais de Goya. Havia epidemia de SARS na China. Falando em China,  foi o ano do primeiro voo entre Taipé e Xangai e do primeiro astronauta chinês. O juiz corregedor Antônio Machado José Dias foi assassinado. O sexagenário José Nelson Schincariol sofre o mesmo destino. No acidente de Alcântara morriam vinte e uma pessoas. Apontando para o futuro (que é hoje) havia o programa Brasil Alfabetizado. No cinema, Carandiru, de Hector Babenco e Elefante, de Gus van Sant. Terremoto no Irã, com vinte mil mortos. Após treze anos, o genoma humano acabava de ser transcrito. Blecaute nos Estados Unidos e Canadá, por mais de trinta horas. Michael Jackson havia sido preso e Arnold Schwarznegger era eleito governador da Califórnia. Beatifica-se Madre Teresa de Calcutá.
 
 
E dez anos antes, em 1993? Era a época do presidente Itamar Franco, vice de Collor. Fernando Henrique ainda era ministro da Fazenda. Houve um plebiscito sobre o regime a ser adotado no país e o parlamentarismo não emplacou. Lançou-se o Plano Decenal Educação para Todos, com vista à erradicação do analfabetismo. As primeiras operadoras de celular surgiam no Brasil.O papa de então, João Paulo II, já demonstrava sofrer do Mal de Parkinson. Na Venezuela, Ramón José Velásquez subia no lugar de Carlos Pérez, que acabava de sofrer impeachment. Era a época de Fujimori no Peru e de Menem na Argentina. O PDS se fundia com o PDC e surgia o PPR: o prefeito de São Paulo era Maluf e o governador era Fleury. Roberto Marinho entrava na Academia de Letras. Privatiza-se a Companhia Siderúrgica Nacional. Nos Estados Unidos, Bill Clinton; no Iraque, Saddam Hussein; em Cuba, ainda Fidel, que acabava de suspender a proibição do uso de dólares em seu país. Tolerância zero contra a criminalidade de Nova Iorque, declara Giulianni. Era época da guerra da Bósnia, mas na Irlanda do Norte, ao contrário, finalmente se declara a paz. Igualmente, nesse ano, Israel e a Palestina assinavam o Acordo de Paz de Oslo. Em Ruanda, Habyarimana também fazia um acordo de paz com os rebeldes tutsi. No Brasil, a chacina da Candelária e de Vigário Geral. É o ano da primeira Marcha para Jesus. Por outro lado, foram cinquenta dias de enfrentamento com fanáticos religiosos do Texas, culminando em 80 mortos. Em Mumbai, um atentado deixa 300 mortos. Descobrem uma pedra de basalto, com o nome do rei Davi, que remontava ao século IX a. C. José Saramago lançava In nomine Dei. No cinema, O pequeno Buda de Bertolucci e Parque dos dinossauros, de Spielberg. Na TV passava a novela Mulheres de areia. Michael Jackson dá uma entrevista bombástica em que fala dos abusos cometidos por seu pai e sobre sua doença de pele. Deixava de existir a Tchecoslováquia e na Espanha, o catalão passou a ser a língua das relações de consumo na Catalunha. Independência da Eritreia.
 
 
 
Em 1983, dez anos antes, o presidente dos EUA era Reagan e o de Cuba, novamente, Fidel Castro. Havia surgido a lei de normatização da língua catalã. No cinema, O Retorno de Jedi, de George Lucas. No Iraque, 8000 curdos eram mortos e Saddam Hussein assassinava 90 pessoas de uma mesma família. Era época da guerra entre Irã e Iraque. Michael Jackson lançava Thriller e Glória Perez terminava Eu prometo, de Janete Clair, recém-falecida. No Chile estava Pinochet e no Brasil, Figueiredo. Na França, Mitterand; na Romênia, Ceausescu; na Alemanha, Helmut Kohl; na Inglaterra, Thatcher. O papa era João Paulo II. Outro polonês, Lech Walesza recebia o Prêmio Nobel da Paz. Surgia o primeiro vírus de computador.
 
Um passo de mais dez anos para trás nos leva a 1973. Nos Estados Unidos estava Kissinger e em Cuba, adivinhem: Fidel Castro! Na TV passava O bem-amado, de Dias Gomes, e estreava Chico City. Gilberto Gil fazia um show-protesto na USP e Chico Buarque, juntamente com Edu Guerra, estreavam Calabar. Nesse ano, funda-se a Sabesp. Na Romênia, estava Ceausescu; no Chile, sobe Pinochet por meio de um golpe; na Argentina está Perón e no Brasil, Médici. Golpe de estado hutu em Ruanda. Pelo mundo regiam Franco, Chiang Kai-shek, Idi Amin Dada e Baby Doc. Houve o cessar-fogo do Vietnã e os EUA são denunciados de inúmeras atrocidades. Ano do caso Watergate. Época do enriquecimento do Iraque devido ao brutal aumento do preço do petróleo. No cinema, Jesus Cristo Superstar. Construíam-se as Torres Gêmeas do World Trade Center. Mais uma vez, países surgem: é o ano da independência da Guiné-Bissau.
 
Em 1963 eu não havia nascido ainda, mas consta que em Cuba estava, como sempre, Fidel Castro e na Espanha, Franco. O presidente americano era Kennedy. Um plebiscito novamente escolhe presidencialismo. Estávamos em plena Guerra do Vietnã. Godard lançava Le mépris, Plínio Marcos Enquanto os navios atracam e Quando as máquinas param. Na TV, a novela de Nelson Rodrigues A morte sem espelho e Rubem Fonseca também paquera a televisão com Os prisioneiros. O presidente era João Goulart e o papa Paulo VI sucedia João XXIII. Charles de Gaulle vetava a entrada do Reino Unido no bloco CEE. Os holandeses saíam da metade ocidental de Nova Guiné. É o ano da independência de Zanzibar. Os chineses acusam Krushchev de pactuar com o capitalismo. O Tibete volta a ser região autônoma.
 
Em 1953, quem presidia o Brasil era Getúlio Vargas. Ano da Morte de Stalin e da coroação de Elizabeth. Época da expedição Roncador-Xingu e do primeiro contato com os índios txucarramãe. Época do "varre, varre, vassourinha" de Jânio Quadros, da primeira bomba H russa e do primeiro supersônico americano. Nelson Rodrigues escrevia A falecida. A estrutura de dupla-hélice do DNA finalmente é reconhecida por Watson e Crick. Cecília Meireles escrevia o Cancioneiro da Inconfidência. Mazzaropi lançava o filme Candinho. Na Pérsia (futuro Irã) houve um terremoto em Tourod, com mais de 900 mortos. Reza Pahlevi sobe ao poder num golpe militar. É época da Guerra da Indochina (futuro Vietnã). Funda-se a Petrobras, o Parque Ibirapuera e o Monumento das Bandeiras.
 
 
 
Chegamos à metade do século passado, tão perto e tão distante. Convulsões parecidas, esperanças que se revelaram fracassos, mortes de tiranos que não findaram o sofrimento das vítimas. Em muitos lugares, o tempo parece que não passa, já em outros, a alta velocidade das mudanças é visível. Se, em vez de nosso passo de tartaruga, de dez em dez anos, saltássemos 50 anos, iríamos para 1903. Nos EUA estaria Roosevelt, o papa era Pio X e o presidente do Brasil, Rodrigues Alves. Fazia-se a primeira viagem de automóvel, de quase dois meses, entre São Francisco e Nova Iorque e também a primeira decolagem de avião dos irmãos Wright. O Acre era anexado ao Brasil. Oswaldo Cruz fazia a campanha contra a Febre Amarela. Einstein estava se casando com Mileva Maric. Mussolini era membro do Partido Socialista Italiano. No Congresso de Londres havia cisão entre os mencheviques e bolcheviques. O filme da época era Quixote, de Ferdinand Zecca. Havia uma grande seca no Nordeste.
 
Cem anos antes, em 1803, a Louisiana era comprada da França, após ter sido reconquistada aos espanhóis. Napoleão invadia o Piemonte. França e Inglaterra estavam em guerra. A primeira locomotiva Trevithick rodava nas ruas de Londres. Em 1703 iniciava-se a construção do Palácio de Buckingham e funda-se S.Petersburgo. Época da Guerra da Sucessão Espanhola. Portugal alia-se à Inglaterra: Pedro II de Portugal contra Felipe V. Em 1603, James I, filho de Mary Stuart, acumulava os tronos da Escócia e da Inglaterra. Estávamos em plena guerra dos 80 anos. Havia peste na Espanha. Os franceses desembarcavam no Maranhão. Em Pádua, Galileu olhava para os céus. Em 1503, na costa brasileira um batalhão inimaginável de insetos que povoava o Brasil zunia a ponto de serem ouvidos das naus ancoradas. Américo Vespúcio fundava uma feitoria em Cabo Frio e publicava seu Mundus novus. Da Vinci pintava a Gioconda e Gil Vicente escrevia O auto dos reis magos. Era a dinastia Ming.
 
Bom momento para pararmos e daqui olharmos para frente. Onde foi parar a promessa de eternidade de cada conquista humana? O que foi que se perdeu com essa esperança pouco planejada? Pior: que houve com os planos perfeitos que tanta euforia nos deram? Temos tempo de salvar algo se esquecermos todas as antigas tentativas? Temos certeza de que não lamentaremos a perda de algo que hoje não nos faz falta? O último que atirou nos dodôs pensou nisso? Será que nossa ignorância do passado não nos deixa outra vez embevecidos demais com o novo? Os astecas dominando os toltecas e os rapanui chegando à Ilha de Páscoa tiveram talvez a mesma sensação. Onde estão eles agora? Por que nossa história futura seria diferente?