O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

domingo, 29 de dezembro de 2019

A FRIALDADE INORGÂNICA DA TERRA

Se há causas, então as gradações entre o que é quântico, atômico, químico, biológico, social e individual existem em saltos didaticamente comtianos, mas se não as há, cobre-nos uma serração tão densa, que nosso terceiro olho jamais conseguirá intuir o que há por trás. Ou são falácias os pressupostos que nos cercam ou são de uma inabalável e misteriosa verdade. Se Laplace não está certo, então o mundo foi feito para que nós, filhos mimados de Deus, o observássemos. Ou a bola de bilhar bate em outra, de fato, na mesa de Hume ou o relativo que se dane, pois só estamos caindo infinitamente num precipício. Ou a flecha de Zenão atinge o seu alvo ou estamos numa infinita tese/antítese verbal entre o que há e o que não há. Ou estamos num otimista ensopado de desconhecimento ou nem sequer poderemos saber o que ignoramos. Não há uma terceira opção, a não ser para aquele que diz que tanto faz. Esse, contudo, segue o ritmo de alguma coreografia, sem sabê-lo, mistura ovos com bugovos e sequer saberá um dia do que estou falando.

Dizem que a Química é um passo no edifício científico, situada entre as trovoadas elétricas com raios portentosos vindos de núcleos atômicos e a primeira mitocôndria ou o primeiro cloroplasto. Na didática escada entre o fosso sem fim dos quarks e o livre arbítrio de um hominídeo, está a Química, diz o beato que se denomina positivista. Ela é tudo e ela não é nada, como o são todos os degraus dessa escada e de escadas similares.

Oliver Sacks amava a Química, como nos conta em seu Uncle Tungsten: memories of a chemical boyhood (2001), escrito quatorze anos antes de morrer. Podemos discutir se a alma de Oliver Sacks vive algures, mas seu corpo, o mesmo que escrevia seus admiráveis e cativantes livros, hoje indubitavelmente é só química. Se há uma alma eterna destinada justamente a Oliver Sacks, ela não nos ensinará mais nada, pois tudo o que sabemos do indivíduo Sacks está nas lembranças de quem o conheceu e ainda vivem, metaforicamente, apenas nas suas declarações, reportagens e textos que deixou. Comecei a escrever mensalmente neste blog há sete anos, como serei daqui a mais sete? Leitor, procura-me em 2026 e responde-me se desci a escada da Biologia para a Química, graças aos seres decompositores.



Só sei dizer que a Química de que falarei e que nos importa não é a tabela de Dmitrij Mendeleev, do hidrogênio ao oganessônio. Isso é coisa demais. Para nosso mundo, bastam duas dezenas de elementos. Pode até ser que o pouco urânio que há entre nós rachará o planeta num infeliz dia ou que devemos muito ao hélio que está lá longe, no sol. Para mim, tanto faz. Danem-se todos os gases nobres. Não devo nada a eles, diretamente, a menos que estejamos falando de cadeia de causas que constrói a fictícia escada. Aí sim, não gostaria de ser injusto: muito obrigado ao tataravô do tataravô do meu tataravô pela sua contribuição como gameta e mais ainda ao acaso, pois de tantos óvulos e espermatozoides desperdiçados, justamente a exata sequência de linhagem culminaria em mim, gerando-me. Não, não vamos detalhar demais essa química inútil. Falemos do essencial.

E o que seria o essencial? Se tudo fossem pedras neste planeta, não haveria diferença entre o grande e o pequeno, entre o irrisório e o abundante, entre a lava e gás nobre. Tudo estava apenas no perpétuo vir-a-ser heraclitiano. Mas a vida nos deu a ilusão de um stop and see. Eis que do inorgânico surgiu o orgânico, dizem, mas talvez esse dia momentoso só seja desde sempre uma metáfora inversa. Indubitavelmente a única coisa que sabemos é que de orgânicos nos tornamos inorgânicos. "Faça-me o obséquio de trazer reunidos cloreto de sódio, água e albumina" já disse um famoso paraibano, nascido em Sapé.

Moída toda a inorgânica massa da Terra, teremos irrisórios percentuais de hidrogênio, contudo o hidrogênio está em 65,4% de tudo que é vivo. Se há algo que podemos associar à vida é esse átomo inclassificável, que não se enquadra em nenhum outro grupo que poderia chamar de irmão. Abundante na vida, abundante no universo, raro na crosta terrestre e na sua atmosfera. O maior de todos os mistérios.

Estranho isso, porque diríamos que é o oxigênio que molda a vida, mas de que vida estamos falando? Da nossa?  Não se esqueça de que estamos nos degraus do meio da pseudoescada comtiana. Não. É exatamente o contrário: o oxigênio é o elemento mais frequente dos seres que não são considerados vivos: o corrosivo oxigênio está em 63% de tudo que é mineral contra 25% daquilo que vive na Terra. Para a vida, o oxigênio é literalmente secundário, uma espécie de Zeus que destrona injustamente o Kronos de hidrogênio. E não nos esqueçamos do terceiro lugar: o carbono, que equivale a 7,5% da massa da vida e, ao mesmo tempo, forma irrisórias porcentagens naquilo que não vive. Se somos esse buquê de hidrogênio, oxigênio e carbono, a morte é um ser tricéfalo de oxigênio, silício e alumínio. Há, de fato, essa Guerra Fria entre a Biologia e a Geologia ou isso são fake news? Há tanto silício naquilo que não vive quanto há oxigênio nos seres que rastejam ou movem seus cílios e flagelos. Há tanto carbono naquilo que se reproduz quanto alumínio naquilo que cede sem delongas aos flertes  da Física. E o que se segue? Para os vivos ainda há o que se dizer sobre o nitrogênio, o fósforo e o enxofre; para a desolação da não-vida (que nada mais é que sinônimo de pré-vida e de pós-vida) merecem resenha ainda o sódio, o cálcio, o magnésio e o potássio.

E é aí que nos enganamos e onde tudo se mistura: aquilo que compõe a não-vida e que não é alumínio nem silício é preciso para que a vida se efetue, embora aquilo que esteja nos rankings menores da vida não pareça afetar a serenidade eterna da não-vida. A vida, portanto, depende daquilo que se considera morto. O sódio corresponde a 0,001% da massa da vida e também faz parte de 2% da não-vida. Idem o potássio. E nosso equilíbrio hídrico depende de ambos esses elementos.

Hidrogênio, sódio e potássio são do grupo 1 da tabela periódica. Só os dois últimos são metais alcalinos. O lítio também é, mas tanto faz: para a maioria da vida terráquea, o lítio não importa. Aliás, quase todos os elementos abaixo do quarto período não têm relação óbvia com o que vive, com exceção do pesado iodo e do molibdênio, sem o qual nossa tireoide e nossas enzimas sofrem e extraímo-los do leite, peixes, mariscos e cereais. Sem o sódio e sem o potássio não haveria equilíbrio hídrico, nem impulsos nervosos, nem relaxamento muscular, teríamos problemas na regulação sanguínea, não haveria síntese do glicogênio e de proteínas. Ao longo da nossa existência pós-rastejante e pós-escalante, os depilados hominídeos lambemos sal avidamente, bebemos leite e comemos carnes, frutas e verduras: nosso fígado fornece o piruvato para nosso círculo de Krebs e o lítio que se lasque.


Um nadica de matéria e o sódio se transforma em magnésio e, abracadabra, o potássio se faz cálcio, desencarnando de suas vidas alcalinas para assumir um corpo alcalino-terroso. E eis que magnésio e cálcio são importantes para nossas contrações musculares e para tudo que produz energia em nós, para nossos ossos e dentes, para a coagulação, para nossos batimentos cardíacos. Nosso modus vivendi nada autotrófico precisou e precisará de mais leite e verdura. Sem vegetais e sem ovelhas, cabras e vacas não haveria o homem?

Mais estranho é precisarmos de cromo, manganês, ferro e cobre para nosso metabolismo: da mesma forma que o oxigênio era venenosíssimo para nossos avós unicelulares fermentadores, que seria da nossa hemoglobina e da nossa respiração sem esses metais de transição? E se não tivéssemos extraído zinco de mariscos, ovos e fígado, como seriam nossa cicatrização, nossos hormônios e nossa digestão? Estranho! Não precisamos de escândio, titânio, vanádio, níquel, ítrio, zircônio, nióbio e tantos outras pecinhas da puzzle de Mendeleev: nossa vida não requer nada disso. Boro, gálio e arsênio não são bem-vindos, mas sem selênio não há tocoferol: e o macaco que só comia frutas precisou de mais mariscos, fígado e carne para deixar de ser anêmico e infértil. E os sambaquis provam como nossos ancestrais se dedicaram a isso. Nossos ossos e dentes dependem de flúor, além de fósforo. Flúor? Não me espanta que até ontem éramos todos banguelas. Aliás, sem fósforo não há ATP nem ácido nucleico. Haveria uma greve dentro de nós. Todos sabemos que flúor, cloro e iodo são halogênios necessários à vida, mas... por que não o bromo? Se eu me encontrasse um dia com Deus, perguntaria isso, assim que ele parasse de me mandar figurinhas pelo WhatsApp.

Mas de todos os não-metais, o mais interessante é o nitrogênio. Que seria a vida sem nitrogênio? Uma vida que não se reproduz?  Uma não-vida? A que se uniria a desoxirribose de nosso DNA? Sem as bases nitrogenadas púricas e pirimídicas, não haveria prêmio Nobel nem para Watson, nem para Crick. O nitrogênio é o sopro de Deus, é o fiat da vida no barro de Adão. E esse sopro não poderia jamais ser absorvido por nossos pulmões. Porque quem fixou o nitrogênio na Terra não tinha pulmões. Sequer eram plantas, mas bactérias. Se não fossem cianobactérias, o nitrogênio boiando no ar não se transformaria no íon amônio. Se não fosse a Nitrosomonas na terra ou o Nitrosococcus no mar, o amônio não se tornaria nitrito. Se não fosse o Nitrobacter na terra ou o Nitrococcus no mar, esse nitrito não seria nitrato. Se não fosse o íon amônio e o nitrato não se formariam as bacteriorrizas e nada seria absorvido pelas raízes das plantas. Que plantas preexistiriam a elas? Se não fossem outras espécies de bactérias desnitrificantes, o nitrogênio não voltaria ao ar. Se não fosse o chorume de nossas excretas e de nossos cadáveres, o solo não teria nitrogênio suficiente. Sem as bactérias que fazem o milagre de serem ímã de nitrogênio não haveria vegetais porque as plantas não conseguem respirá-lo a não ser em ação coordenada com essas bactérias e nós, animais, não obtemos nitrogênio de outra forma a não ser pela alimentação. Nós, animais, pagamos nosso tributo, contribuindo para  o ciclo com nossas excreções de ureia e ácido úrico e com nossa morte.


Será toda a complicada engenharia da vida apenas uma forma de sermos pasto para essas admiráveis bactérias, que dependem de nossas excreções e de nossa morte assim como precisamos de ovos para  termos retinol suficiente para nossa pele não ficar escamosa e não sofrermos de cegueira noturna? Será que todas as nossas mitoses e meioses, com suas incríveis prófases, metáfases, anáfases e telófases, que geraram tantos Júlios Césares, Olivers Sachs, da Vincis, Adams Smiths, Teslas, Mao Tsé-tungs e Stalins não é apenas um pretexto para sermos repastos de bactérias, essas sim, senhoras do nosso planeta, imagem e semelhança de um ente divino abscôndito? Enquanto isso, ilude-nos o evangelho da cobalamina e, por causa de seus versículos, entupimo-nos de ovos para termos bons neurônios e glóbulos vermelhinhos e fugimos da satânica malformação de hemácias. Continuamos roendo nozes em busca do santo graal de ácido fólico para que nossos fetos nasçam viçosos. Embriagamo-nos com um coquetel de tiamina, riboflavina, nicotinamida e ácido pantotênico, para, com a boca cheia de cereais, cantarmos loas à nossa sapiência e esconjurarmos o beribéri e a pelagra, a insuficiência cardíaca, a fotofobia e os formigamentos. Saltitaremos por causa de nosso excelente metabolismo de carboidratos e de nossa respiração celular, que nos dará ainda alguns anos antes de entrarmos no menu dos decompositores, voltando a ser, entre muitas coisas, o nitrogênio com seu místico número sete.

Da moira desse picnogênio livrai-nos, ó são Augusto dos Anjos! Eis a mais inútil das orações.