O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O MÁXIMO IDIOTA (1999) (cap. I-IV)

Baltasar Creamundos
 
 
O MÁXIMO IDIOTA
 
Autobiografia
  
 
1999
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Baltasar Creamundos (1968-1999) é pseudônimo de José Joaquim Beligerante Manso do Rego dos Prazeres Soares Barbosa Lima e Silva Sobrinho. Nasceu em uma colônia indígena no alto Solimões e foi raptado por um naturalista belga que caçava neurópteros e se compadeceu da fragilidade do menino, que seria imolado como oferenda a um deus indígena. Quando chegou a Natal, o naturalista deixou o menino nas mãos de Ermengarda de Jesus, sóror-chefe do convento das Irmãs da Nossa Senhora do Parto Doloroso. O menino foi criado como mulher até a idade dos dezoito anos quando lhe foi revelado o verdadeiro sexo. Casou-se com Maria Epitácia Negrimelenas, que lhe apôs o sobrenome Lima e Silva. O sobrenome juntamente com uma rocambolesca árvore genealógica que provinha de Abraão, envolvendo diversas figuras fantásticas, desde reis, condes e barões até um pirata escocês de três braços foram inventados pela própria Ermengarda. Baltasar nunca soube que seu pai verdadeiro era o índio Ñaqyburema Papyrunganga, que também pouco se interessou pelo filho, mas recebe os direitos autorais de sua obra. Maria Epitácia morreu dois meses depois do casamento, ainda virgem, segundo relatos do próprio Baltasar. Apaixonado por Flamínia Tília do Vale, tenta raptá-la, mas volta para seu esposo Adamastor Vale da Tília. Baltasar escrevia compulsivamente, até doze horas por dia. Estocava quatro toneladas de escritos num galinheiro aberto, sujeito a intempéries inúmeras e à imundície dos animais, muitos dos quais estava durante sua vida em estado deplorável e ilegível. Um dia antes de sua morte explodiu o galinheiro. O pouco que sobrou foram fragmentos, reunidos em edição póstuma por Jesuíno da Paixão Redentora, seu único amigo, que publicou sem nexo nem ordem sob o título Neodadaismo acidental. A capa do livro, em que aparecem penas de galo, foi idealizada pelo artista plástico Manuel della Mattavendetta, pseudo-irmão de Baltasar. Baltasar salvou da explosão somente o Máximo Idiota, que aqui vem impresso. Ele mesmo justificou a exceção: “neste livro tenho uma síntese de todas as toneladas de papel que foram pelos ares. Neste livro sintetizo a mim e ao mundo, escarrando com deboche a seriedade da loucura ou desesperando-me diante da alegria que não me diz respeito”. Sobre o porquê da estranha atitude, explicou: “nunca fui com a cara do galo”. No mesmo dia, Baltasar engasgou-se com uma azeitona. Todas as tentativas de salvá-lo foram vãs. Suas últimas palavras: “Que saco! Estava tão boa aquela empada!”
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CAPÍTULO I

 

Gênesis

 



H

á muita coisa que não existe. E é tão fácil saber o porquê: o concreto é uma coisa muito difícil de entender, pois se encontra no limiar do óbvio, dentro da plena definição do normal. Por isso abunda mais o que não há. Não há a justa democracia, o sublime das explicações racionais, o sucesso do amor-livre. Nãoum deus-irmão, apenas um deus-amigo, um deus com o qual se une o interesseiro. O não-há reina sobre mim e sobre ti, assim como aquele círculo prateado que despeja sua luz tosca sobre nossos corpos. Círculo que se afigura perfeito devido à nossa imperfeição da visão. Assim como a ilusão de um momento que nunca chega, que nunca chegará, ao menos contigo. Círculo que lança sua bênção sobre nós, amaldiçoando-me particularmente. Sua cara prateada ainda parece que vejo. O arrepio daquele momento ainda parece que sinto. O quarto inunda-se com a luz tosca, luz que me faz definir pouco os objetos caoticamente arranjados. Tosca como o futuro que assinei sob sua bênção. O calor dos corpos ainda se sente. Quem não sentiria? Também sou comum, embora me esqueça sempre. Também sou animal: é isso que há. Mas não se procura entender o que é ser animal. Todos preferem contentar-se com o que não há. O animal que não é tão animal. Isso deveriam ser todos e o são. Por que eu não seria? Por isso sinto ainda o beijo suado no chão. Sobre nós, o que não há: a transcendência.

O amanhã estava assinado hoje, nesse momento. Como se o passado não houvesse. E há o passado... O amanhã estava naquela bênção-ameaça, amor obrigatório, incontestável, testemunhado por toda legião de seres que não há. Se queres, leitor, são demônios. Outros diriam que são deuses. Prefiro não classificar. Estavam ali, apesar de não existirem. Sua luz macia e luminosa tocava nossos corpos e sua delicadeza parece que ainda sinto. Também tenho dúvidas, leitor. Será que há o único do momento? Nunca mais revivi, ao menos. Reviverei? Certamente, o passado repete-se a todo momento. É incrível como não saímos nunca do lugar, apesar de andar tanto.

Mas não quero falar do futuro. Muito se falou sobre o que não há, e com muito mais propriedade do que eu poderia fazê-lo. Quero descrever aquela luz sedosa e ereta, que vinha direita da janela, sobre os corpos que se moviam. Estavam ali, sob ela, como se não pudessem estar em nenhum outro lugar. A luz poderia se espalhar, iluminar qualquer outro objeto, mas estava sobre nós... e pesava. Ao menos em mim pesava muito, embora eu flutuasse dentro duma bolha que me fazia não ouvir nada do meu arredor. Uma bolha?

Mas isso tudo não houve. O quenão foi ali. Está no papel, assinado. Está numa festa e em apertos de mão. Em champanhe, em compromissos civis. Isso há. Mas por que não falo disso? Não foi menos sublime. Ali também estavam muitos dos deuses, mas não todos, como na noite enluarada. Os corpos cheirosos daquele dia nem pareciam os mesmos deste dia banhado de suor. A aliança concreta quedeveras não tem comparação com o tudo que preenche o nada, que existe ainda mais do que a aliança. Aquilo é matéria, isso é matéria divinizada. Portanto, sobre a verdade embebida do não-há é que falarei, e não fui o primeiro. Haveria outro modo de fazê-lo?



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CAPÍTULO II

 

O Velho

 

A

o leitor, pouco se lhequem são esses corpos. A mim, não. Estão aqui, ao meu lado como a lembrança de alguém muito querido. Semprealguém muito querido, ou não? Querido por quem? Essa é a única pergunta de peso que te farei, leitor. Sim, porque o amor recíproco é a mais absurda das contradições. Antes do dia da conjunção, houve algo. Parece distante, pré-genético. Algo ancestral, arquetípico, longínquo. Um velho sentado lia com pervicácia e com a competência de sua letra de semi-alfabetizado. Esse ancestral lia sobre tudo o que não há naqueles livros embolorados. Devorava trechos, não importando se estava em língua estranha, incompreensível para ele ou para qualquer um. Do lado de fora, dois demônios. O rosto do velho está apagado entre suas imensas orelhas. A fala dele revela que um de seus pés está em margem segura e o outro afundado na lama. Desde o queantes da letra se percebe isso. Eu ao menos percebo. Velho relógio, que lança em mim o temor em forma de líquido cronometrado. O sem-sentido do velho sempre venerarei, assim como a desconfiança do inconcreto que se . A água benta cai suja sobre minha face. Vejo sua face irada, mas isso não tem a ver com o momento da varanda. Ele e os dois demônios estão fora. Não esperam: fazem o momento. O momento do triunfo da juventude. Sim, demoniozinhos pequeninos estão . Vê-se o fumaréu, ouve-se o estalido, que se torna estrondo por causa da longa corneta de concreto, cuja boca está na varanda. A pólvora fedida e o estrondo imenso desexorcizam o velho. Trazem-no para o que há, para afundá-lo ainda mais no que não há. Afinal de contas, é essa a função dos demônios. Esse velho agora tem mais uma prova que se mescla às que nunca existiram a não ser para ele. Como aquela prova, que houve, aquela imagem, esculpida em fruta roubada, armada qual um espantalho em seu quintal, criatura à imagem e semelhança dos demônios. Mete-se a foice naquela careta hedionda, esculpida no mamão, apaga-se a vela metida dentro da fruta, queimam-se as pernas e braços trabalhosamente amarrados, pulveriza-se, reza-se sobre a maldita aparição. Riem os demônios enquanto vêem o velho se afundar. Sim, uma vez dentro do não-há poucos podem escapar. Eu sou um deles. Saí de . Não conheço ninguém que tenha feito o mesmo.

Lembro-me da primeira vez que tentei sair. Levava um pote de leite nas mãos e uma igrejinha compeliu-me a persignar-me. Será que Deus existe mesmo? Engoli aquele pensamento a seco, sem o leite, persignei-me de novo. Era o Diabo que falara em meu ouvido? Não, mais tarde descobri que um daqueles demônios que torturara o velho tinha sido eu mesmo. Então quis segurar a mão do meu colega, mas era tarde. Há muito havia havido. Ri-me naquele momento, agora devo chorar. Não disse que sempre ficamos no mesmo lugar? Aquele velho está em mim, quando te vejo e te desejo. O cuitelo do fictício amante da esposa do velho não era fictício quando perseguia sua esposa. O choro da velha parece-se tanto com o teu gozo de amor. Acredito que está explicado o porquê desse amante estar entre nós. É meu convidado e tu, perplexa, me perguntas por quê. Agora entendo bem por que eu, demônio, quis vingar-me desse velho. Como pude perceber tão a tempo? Se deixasse para mais tarde, ele teria morrido sem minha vingança de antemão. Meu mandamento é este: vinga-te assim que puderes e prazerosamente. Eis a moral que deves extrair daqui e que me ensinaste. Vinga-te de mim, imploro. Mas me torturas: tua vingança é não me obedecer!



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CAPÍTULO III

 

O segundo demônio

 

Q

uem era o segundo demônio? Bem o sei, pois ainda o é, ao passo que eu não posso sê-lo. O segundo demônio vive em mim e, às vezes, o desejo, assim como ele sempre me desejou e talvez ainda me deseje. Por isso, a luta imensa e a necessidade de exagerar seu poder é tão grande entre nós. Agora, não tanto, porque não sei ser demônio. E como anjos não há, sou apenas alguém. Disfarço o demônio resignadamente. Consola-me saber que o dever tolhe o poder, jamais o querer. E esse querer ferve nas profundezas do dever. Sua superfície é lívida e tranqüila, mas da região bêntica está vindo uma explosão que levanta metros de sujeira. Não sou nem superfície nem explosão. Bóio nessa região intermediária que sentirá a terrível turbulência daqui a pouco. Mas e o demônio? Pergunta-me impaciente o leitor. que sei de tudo, não me contento com a onipotência. Quero também a ti, maldito leitor. Ou esqueceste das funções do demônio? Se não vais para baixo, meu colega, que pode estar a teu lado te levará. E farás companhia ao velho. Quanto ao segundo demônio, pouco sei, a não ser do desejo mútuo. Ele derrubava qualquer paliçada que obstasse seu caminho. Na sua procura pelo nada, diz ter arrombado a alma de tudo. Sofre muito, com certo prazer esse demônio. Primeiro, teve de mudar sua imagem magra e engordar, ficar atraente. É o que ele me diz a mim, que nada sei dele. Nem parece que se lembra daquele detalhe imenso que me pertencia e do qual se ria muito. Esse detalhe, leitor, pode ser o que quiseres. Desde o mais vil detalhe da carne, até o mais elevado dom da alma. Não tendo conseguido me usurpar, usurpou a um mais fraco e reina absoluto. Não poderia ser diferente. Agora mostra-me os altares que erigiu. Quebra alguns por capricho, pois quer mostrar-me que os tem. Como se dissesse: “faz o mesmo”. Erigi um altarzinho, até bem caprichado e ele derrubou o seu, que parecia cópia do meu, não fora levantado antes. Em seu lugar, construiu um monumento formidavelmente horroroso, ao qual tive de me render. Invejo-o do profundo das minhas entranhas. E ele, sabendo de minha inveja, finge sentir saudade do altar destruído e descreve-me cada momento da construção do horrível colosso, monstro hediondo e disforme, cujas pernas e mãos aos milhares se manifestam. Olhando o colosso, não se sabe para que lado parece ir. Quero levá-lo comigo, mas este não cabe no meu bolso, como tantas outras coisas que roubei ao demônio. Resigno-me a admirá-lo e uma dor me consome. não posso ser como o demônio. Se o fui, não reconheci minha chance. Minha vingança é escrever sobre o que ele me nega e para esse colega de carne e osso, sangue de meu sangue, dedico minha inveja. Ele esteve no dia do velho, mas não no dia da conjunção. Ele deveria ser meu futuro e estava nas entrelinhas, quando o luar nos abençoou, mas era engano meu. Apenas um caso de compreensão inadequada. Esse engano me acorrentou ao que há e agora não posso ser um demônio. Como vês, leitor, culpo o luar de não me deixar ser aquilo que jamais seria. Com ou sem luar, não seria demônio. Ë preciso ter o dom, que me foi negado por mim mesmo. Não, nem o velho, nem o demônio, nem o luar, nem tu sois culpados. Ele está ainda mais fundo, sob a explosão. Procuremos.



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CAPÍTULO IV

 

Doutores

 

L

indo um dia achou alguém o fato de o menino Jesus estar conversando com doutores da Lei. Eu sei quem é esse alguém. Hoje é fácil dizer seu nome. Sonhou para mim mesmo destino e construiu-o tijolo sobre tijolo. Se houve mais alguém além dela, está numa bruma tão cerrada que nada posso ver. Seu desejo se fez carne e fugiu desembestadamente. Tanto que quis pará-lo e não pôde. Essa carne, o primeiro demônio, esse desejo, sou eu? Desculpa-me, leitor, é claro que não sabes responder. Mas esse desejo era o dela mesma. Pode-se dizer que ela gerou ao que lhe foi vetado. Palavras geram atos, isso é a coisa mais óbvia que alguém pode pronunciar. Mas os atos ferem e a cura de nossas feridas é o futuro e o futuro faz-se, com amor ou sem ele. E vem na forma da vida, que carrega toda a culpa daquele que agiu. Dar à luz é vingar-se. Eu sou uma vingança e não consigo deixar de sê-lo. A hóstia no momento da comunhão odiosa daquela que gerou a vingança feriu toda sua língua. Queimou-a tanto, que quis vingar-se no último instante de sua vida. Quis sorvê-la de novo. Também desobedeceu a ordem que me gerou. Tarde demais descobriu que nada lhe podia ser vetado. Algo que com medo, digamos, pois não é fácil lutar contra nossa imagem no espelho. Se nada lhe tivesse vetado, eu seria o primeiro demônio, mas não o sou. Ela lançou-se no não-há, tão profundamente que nunca a pude seguir. Na beirada do poço via, por vezes, sua imagem rodando, rodando e era tão fundo que me impressionava que alguma luz ainda estivesse e que pudesse vê-la. Essa imagem me levou aos doutores. E foram muitos, muitíssimos, diria, tantos que nem ousaria especular um número. Nesse momento, a história se torna complexa. Mas falo de alguns a seguir. Agora cumpre lembrar-me daquele homem, estendendo-me uma cédula barata como recompensa de meu espetáculo. A figura girava, girava e o menino escrevia, escrevia. Amigo da escrita bustrofédica, diria alguém mais tarde. No momento queria ir na direção contrária à dos pais. Vingança? Vejamos mais tarde. Mas dizia instintivamente querer seguir seus passos, mas o contradizia a seqüência da prolação, previamente combinada, qual uma senha, que dava algo que um sentido passageiro àquela inutilidade. Uma nota de alguns cruzeiros. Isso realmente há. Quantos doutores havia? Pensas. Não te digo, leitor. O que importava então era a lousa repleta e a consciência da minha pouca animalidade. Incrível como tudo é simbólico. No momento, apenas era importante para o menino cumprir a profecia. Raptado, o menino percebera que sabia. Terrível momento. Fora numa pequena e inocente manifestação de um colega. Esse menino cruel pisoteou-o com sua arrogância. O sono suave e homogêneo retratado por aquele pequeno futuro amigo foi indesculpavelmente interrompido por uma fanfarra militar barulhentíssima. E nem sentido havia nessa fanfarra, feita apenas para impressionar. E conseguiu. Ei-lo entre os doutores. Quem era esse coleguinha? Impossível saber agora. No momento, o importante não era ele, era a profecia. E eu, isto é, aquele menino, tinha aquela missão. Vingou-se de mim algum dia? Não sei. Há pouquíssima chance de fazê-lo agora. Os doutores seguintes foram pálidas caricaturas daquele que estendia a nota, como verás. Para dizer a verdade, pouco importa quantos e quem foram. A profecia seria completada com ou sem ele. Quem determinou isso foi aquele padre. Aquele, que vetou aquela que me gerou. Parece-me que sinto o fundo do poço onde ela gira. Sim, cheguei ao fundo do poço. Há aqui embaixo um túnel. Muitíssimo escuro, diga-se de passagem. Não sei o que encontro . Certamente apenas o nada que é o tudo.
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(continua)
 
 

domingo, 11 de maio de 2014

A MARCA DE CAIM

Diz a Bíblia que o lavrador Caim (em hebraico, Qayin) trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor e que, também, seu irmão Abel (hebraico Hevel) a trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. E por alguma razão, que não está clara no texto (mas está na interpretação de padres, pastores e rabinos, bem como nos filmes hollywoodianos), Deus preferiu a carne e ignorou a verdura. A aparente arbitrariedade divina fez Caim perder a cabeça e matar o irmão de forma traiçoeira. Deus (que, no mesmo livro de Gênesis, tende a preferir parcialmente alguns a outros, sobretudo no meio de tantas guerras descritas) não gostou do homicídio de Caim e o amaldiçoou. O próprio solo, que era muito fértil, apesar de não ser mais o solo do Éden, foi amaldiçoado. O ser humano não dava uma bola dentro mesmo!
 
 
A partir de então, Caim teria de ser nômade, sempre à procura de novas terras, uma vez que todo local onde se estabelecesse seria ingrato nos seus frutos. Não entendo por que não mudou de profissão (na época, ao que tudo indica, só havia duas: a de agricultor e a de pastor). Caim achou injusta a maldição, mas ainda havia mais: Deus (apesar de onisciente e, portanto, já deveria saber que isso tudo ocorreria, mas não impediu) decreta que Caim não deveria ser morto por nenhum justiceiro ou por outro motivo qualquer. Pelo contrário, deveria sofrer vivendo e que qualquer que o matasse seria vingado sete vezes. Para que reconhecessem o primeiro homicida, pôs-lhe um sinal (dizem que na sua testa, mas a Bíblia não fala onde). Depois disso, não fala mais nada, a não ser de sua descendência maldita. Duro de entender é quem era a mulher de Caim, que o acompanhou à terra de Node.
 
Como toda história curta do Gênesis, esse mito (provavelmente babilônico) tem uma força dramática semelhante a todos os mitos de todos os outros povos e é comparável em dramaticidade às passagens homéricas. Mais que isso, essa história, de tão contada, entranhou-se na alma (ou na mente, ou no superego) de boa parte da população mundial, quer como verdade factual, quer como símbolo de algo muito verdadeiro. Caim e seu estigma são metáforas pungentes daquilo que se chama Justiça (cultuado como deusa ou deus por tantas culturas) e que, como uma entidade que ainda merece letra maiúscula em português, parece sobrepor-se às nossas ações, à nossa consciência e ao nosso livre-arbítrio.
 
Bom, justiça seja feita, mas afinal, o senso de justiça é inato no homem ou é algo que arduamente aprendeu quando passou a conviver em cidades e não mais em bandos de familiares? Experimentos de psicologia (com seus fundamentos e pressupostos questionabilíssimos) bem como observações etológicas encontram-na em toda parte, nas mais variadas etnias e até mesmo nas mais variadas espécies, quer de vertebrados quer de invertebrados. Eu seria mais cauteloso, mas não me estenderia nas deficiências de pressupostos que desembocam em conclusões que transformam ciência em curiosity.
 
Todos sabemos que, para haver justiça, é preciso memória. Acompanhará bem meu raciocínio quem viu o espetacular filme Memento, de Christopher Nolan (traduzido pessimamente no Brasil por Amnésia, apesar de o protagonista explicar que não tem amnésia). E todos sabemos, a memória é algo bem falha, por isso inventou-se a escrita.
 
 
Acho que não estarei repetindo aqui uma história que me impressionou. Se me lembro bem (risos), não falei ainda dela. Temos (todos concordarão) pouca memória de sonhos que povoam nossas horas de sono, mesmo dos que acabamos de ter. Por exemplo, com base em registros de meu diário pessoal, escrevi em 19 de janeiro deste ano o seguinte:
 
"Esta noite acordei com a certeza de duas coisas: meu primo viera morar perto de mim e, na mudança, pegou emprestado meu balaio de roupas, que eu não conseguia reaver por causa de suas constantes viagens. Outra certeza era que ao bater meu carro, dando ré, eu tinha a experiência de aquilo ter ocorrido uma segunda vez. Essas duas certezas, porém, eram falsas. Dizendo melhor, na verdade, agora, acordado, sei que essas informações são falsas, pois nem meu primo se mudara para perto de minha casa, nem eu batera meu carro dando ré. Essas informações provieram de sonhos, apesar de parecerem vívidas de manhã e indistinguíveis de experiências reais, na minha memória."
 
O estigma de Caim também necessitaria da memória de todos, senão novamente teríamos uma arbitrariedade divina ao punir com uma maldição quem não soubesse do homicídio.

Mas isso não vem ao caso. Pergunto-me: teriam nossas certezas esse mesmo caráter dos sonhos, isto é, estariam elas não ancoradas na realidade, mas somente em imagens que, quando muito, são transubstanciações sincréticas de experiências, as quais de fato teriam ocorrido? No caso acima, eu reconheci, depois de pensar muito e sem sofrimento algum, qual foi a bagunça que fiz na minha mente ao criar as duas imagens, mas não seria interessante detalhá-las num blog como este, pois não quero expor as profundezas do meu subconsciente e tampouco elas interessariam ao leitor, com certeza. Mas parece que essas visões noturnas que os sonhos nos promovem diariamente (das quais nos esquecemos quase completamente sempre) são papéis preenchidos por dêiticos vazios. Mas se são assim, de onde vem o enredo que promove essa imagem na nossa mente, confundindo nosso senso de realidade?
 
Pior que isso: há de fato uma realidade, perguntaria um filósofo radical como Berkeley ou tudo é apenas um jogo sintático, transformado em imagens projetadas na nossa mente? Por que esse tipo de exercício onírico existe? Para nos ensinar algo? Por que a evolução o privilegiou e não o fez sumir, já que é custoso com suas informações falsas e nos deixa tão vulneráveis, ao dormir, a ponto de algum predador poder facilmente nos comer, de tão indefesos quando voltamos toda nossa atenção a uma espécie de delírio? Qual, enfim, é a função real dessa verdade paralela criada? Nossa mente é metafórica, talvez, e tem necessidade disso?
 
 
Não tenho resposta para essa doideira que é o sonho, mas Oliver Sacks, como sempre, discorre maravilhosamente bem sobre o limite entre realidade e alucinação no seu último livro Hallucinations. Talvez lendo-o, o leitor chegue à sua própria conclusão. No futuro, narrarei sobre outros sonhos se for do interesse expresso do meu leitor. Anoto-os às vezes assim que acordo, pois é certo que sumirão da minha mente. Mas esse sumiço é intrigante. Se são importantes para a evolução, por que costumam sumir, quando não são por demais impactantes no nosso espírito? Ou será que não somem totalmente de fato e povoam nosso subconsciente como experiências-fantasma? Mistério após mistério.
 
Mas o que contarei é ainda mais perturbador e espero que o leitor tenha humildade suficiente para reconhecer-se no meu relato e não me julgar como louco de cima de algum trono. Pois bem, assistia eu no dia 05 de maio de 2013 a um filme com meu filho, a saber, From dusk to dawn, famosíssimo e quase obrigatório para os cinéfilos. Há anos queria vê-lo e mesmo assim, perdi o início, pois me surpreendi com o filme já começado, zapeando pela TV. Nos meus fragmentos de memória havia uma cena até então muito clara: meu amigo Wagner, que não vejo há mais de vinte anos, no porão de minha casa em Botucatu (onde ficava meu quarto), chegava, sentava-se à minha cama e comentava esse classic trash movie, detalhando a bizarra transformação dos vilões em mocinhos e a súbita aparição de vampiros. Meu filho, cético como todo adolescente que acha seu pai uma besta, armado de toda a parafernália informacional e tecnológica de hoje em dia, foi diretamente aos créditos quando disse que o filme era do tempo da minha adolescência. Fiquei surpreso quando me mostrou que havia algo errado aí, pois o filme era de 1995 e que não era de Tarantino, mas de Robert Rodriguez.

Pensei: "como assim de 1995?". Então não foi o Wagner, nem foi em Botucatu o acontecimento que se passava na minha cena mental. Nessa estranha náusea sartriana, minha memória vaguejou entre os personagens da minha história: teria sido a Luciana, o Antônio, o Maurício, o Sílvio, o Whilk, o Amílton? Nessa época eu não era mais um adolescente que vivia em Botucatu, mas o que eu fazia então? Já dava aulas em faculdades? Nem mesmo disso me lembrava. A sólida e certa imagem deu lugar a um desespero de memória em que nada mais fazia sentido. Antes desse episódio, havia tido uma outra impressão errada similar, a qual, porém, não me havia desestabilizado: tinha certeza de ter visto o filme Ghost Dog com minha ex-mulher, mas o filme na realidade é de 2007 e eu já me havia separado dela há anos. Nesse momento pensei: vi o filme de Jim Jarmusch com alguém, mas com quem? Ou será que o vi sozinho? Será que confundi esse filme com outro, do mesmo diretor, a saber Stranger than Paradise (que minha memória até agora dizia chamar-se Lost in Paradise, mas que o divino Google me fez corrigir) ou será que novamente estou confundindo tudo?
 
 
A memória é aparentemente algo metonímico. Depois de um conflito entre a informação mental e a real, como o que eu tive, só sossegamos se criarmos uma outra história verossímil que substitua a memória provada falsa por refutação dos dados. E foi o que fiz: não era mais Wagner que desceria as escadas de minha casa de infância, mas meu amigo Whilk que me visitara no Crusp e narrara o enredo rocambolesco. No dia seguinte, imaginava que não fora ele, mas o Amílton. Alguém, juro, fez isso. Ou não fez e eu estou misturando tudo na cabeça? Como nunca tive tantos amigos, é de fato perturbador uma incerteza tão grande.
 
De qualquer forma, em 1995 eu já fazia mestrado e obviamente só posso ter ouvido falar desse filme depois desta data. De fato, poderia ter acontecido a qualquer momento dos dezoito anos subsequentes (com certeza não foi depois de 2013, pois é a data do meu diário). Então o terminus a quo é 1995 e o terminus ad quem, 2013. É a única certeza que tenho. Pior: houve alguém de fato ou são vários fatos e pessoas, mesclados num único delírio, que chamo de memória? A informação de que era um filme de vampiros pode ter vindo de qualquer lugar e a cena que vejo em minha mente pode estar relacionada a outra conversa, envolvendo filmes ou não, com o Wagner ou não. A conexão, o sentido, a certeza, enfim, quase tudo que pensamos estar intactos na nossa memória é criação de uma mitologia pessoal? Como conseguimos guardar algo na mente?

Não é à toa que nós humanos não nos entendemos. Será que com tudo fazemos essa confusão? Ou somente com o que está remotamente associado a algo factual, ainda que importante à nossa biografia? A necessidade da precisão e da ancoragem faz-nos procurar as respostas mais próximas aos fatos. O sossego da alma parece estar aí. Na comprovação de que a loucura é apenas para os outros, jamais para nós mesmos, julgamo-nos representantes do animal racional que dizem que somos. Isso é importante para a nossa sanidade mental. Mas e se isso que chamamos de loucura for, de fato, a média e a normalidade da racionalidade? Não sei quem me falou aquilo que imagino ter existido, não sei quando nem onde, a não ser delimitando os tempos e locais impossíveis, nem sei com certeza se o que está na minha memória condiz com algo que realmente aconteceu. Mas a pergunta que vem agora é a mais terrível de todas: se não sei sequer sobre o que vivenciei, o que eu sei de fato? Sócrates não teria exagerado dizendo que só sabia que nada sabia? Enfim, a vivência pessoal perde completamente o seu valor por não ser algo rigorosamente real?
 
 
Quando penso nessas questões sempre me lembro (risos) das memórias de Montaigne. Leio-as paradoxalmente com prazer e desconforto, desconfiado que esse filósofo francês zomba o tempo todo do leitor (ou que perdeu totalmente o juízo por causa da senilidade). Ensinou-me que às vezes é preciso ter humildemente a consciência da incerteza. Em momentos como os de hoje, em que temos grande segurança de quem somos, do que gostamos e do que odiamos, remeto-me ao tempo de Montaigne, em que católicos instituíam seus tribunais de inquisição e que protestantes faziam igualmente seus excessos para se impor. Nesses tempos em que a tolerância não era a regra, reconheço os tempos de hoje. Talvez não fosse o caso de termos menos certeza e, em vez disso, tentarmos procurar os pressupostos daquilo que julgamos certo?
 
Como disse acima, só há justiça quando há memória, contudo, a memória é traiçoeira. Concluímos que a justiça se converte paradoxalmente em sinônimo de injustiça. Falta o real e, na sua falta, quem dita a realidade é quem está no poder. No entanto, muitas realidades insanas foram promulgadas em forma de leis, muitos líderes fizeram seus seguidores descerebrados agirem como verdadeiros loucos e isso só foi possível de se reconhecer a posteriori. A história está repleta de momentos em que o quase divino homem revela sua animalidade falha, mas sobre isso já falei muitas vezes aqui. Depois de ocorrida e reconhecida uma previsibilíssima atrocidade, sempre se buscam os culpados em portadores de estigmas, como os de Caim. Mas isso nem sempre é algo simples, daí a sede de justiça pode facilmente transformar-se em histeria. Cuidemos para não sermos vítimas de nossa própria loucura natural.
 
 
 

sábado, 12 de abril de 2014

HOMO INSIPIENS

Durante o Renascimento, enalteceu-se muito a racionalidade humana, postura que se contrapunha à triste imagem medieval do homem como um ser decaído pelo pecado de Eva. Mas, no fundo, essa imagem otimista não mudou tanto assim:  o especismo autoencomiástico do homem sempre se baseou na sua suposição de criatura privilegiada,  feita à imagem e semelhança do Deus bíblico. Tal apologia a si mesmo se vê novamente nos dias de hoje. Desconfio que o recurso do autolouvor talvez queira esconder algo mais presente em nós do que nossa inteligência.
E o que seria mais caracterizador de nossa espécie se não a nossa racionalidade?

Ouso responder, de chofre: nossa burrice.
Provam-no as frequentíssimas decisões sofismáticas dos cérebros humanos e suas atitudes movidas por puro hábito. Sim: a burrice é a regra e não a exceção de nossa espécie.


Onipresente no nosso dia-a-dia - muito mais do que qualquer esforço civilizatório que precisaria ser treinado e que seria artificial demais para a inércia de nosso raciocínio - por meio dela, agimos quase sempre. Por impulso e não por racionalidade, desembaraçamo-nos facilmente dos arreios criados pela observação registrada por longa sequência de gerações. Queremos o aqui-e-agora. Se desejamos o pilar, arrancamo-lo, mesmo que toda a casa desabe sobre nossa cabeça. Somos eminentemente irracionais, tanto quanto qualquer outro animal. A racionalidade é um suspiro esporádico.
A burrice é algo natural. Provemos. O maior inimigo do urso polar não é o homem ou o aquecimento global, mas o próprio urso polar. Dois machos, ao encontrarem-se, não se aliam. Matam-se, se preciso, movidos ambos pela instrução "mate-o", ditada pela máquina burra que acende essa vontade nas suas cabeças de urso. Um urso a menos seria vantagem para quem? Não é para a própria espécie, apesar do ritual milenar de vencer os rivais para garantir a propagação de seus genes (e não os dele). O que não estava previsto, no raciocínio ursino era o surgimento de um inimigo maior que outro macho (o homem, o aquecimento global etc.). Ignorando esse inimigo, continuam a fazer irracionalmente sua ursada genética. Igualmente burras, as mariposas não previram a existência de lâmpadas elétricas e burramente vão em sua direção, movidas pelo aguçadíssimo sentido desenvolvido pela seleção natural, o qual as dirige à luz. Burrice. A não-adaptação inteligente a mudanças graves não pode ter outro nome.
Igualmente os homens, mesmo sabendo que há superpopulação, procriam-se; sabendo que faltará dinheiro no fim do mês, gastam. "Como se não houvesse amanhã" (perdão, jamais pensei que citaria Renato Russo). Como se não houvesse outros que pensam igualzinho. O hedonismo é inevitável; o egoísmo, irrefreável; o egocentrismo é a lei. O mundo, mes enfants, c'est moi.
Frase boa para um tirano. Aliás, tomem cuidado com a burrice. Ao lado dela estão as instituições, o poder e a maioria. Altiva, a burrice nos olha de cima de seu trono, circundada de um séquito imenso. Dedo em riste, está pronta para apontar todas as nossas falhas. Segue-se um aplauso após a acusação.
Sócrates cansou-se de ir à Ágora, portanto, após julgado, só pôde atrair a comoção de seus fiéis discípulos. Sua sentença foi apenas um episódio nas decisões pouco inteligentes da humanidade unida (desculpe-me, Izzy Stone, se não concorda comigo). Caiu Sócrates e tombaram injusta e impiedosamente tantos outros, quando a burrice vergonhosamente proferiu sua sentença. Prova-se assim que nem sempre foi a maldade a responsável por cabeças rolarem.
Quem sofre invariavelmente, podem perceber, é o ermitão, que sucumbe  sob a mão de Salomés pouco afeitas à ideia de que cada cabeça é uma sentença, com o perdão do trocadilho. Na verdade, a frase da Queen of Hearts é a única proferida pela tirania: um non sequitur equivalente ao diagnóstico viciado e reiterado do mau médico. O que a gigantesca massa, em sua maioria absoluta, mais teme é o pensamento distinto de um único indivíduo. O divergente que não se adapta a grupo algum é um perigo inquestionável para a maioria absoluta, que berra: abaixo o conjunto unitário! Meus queridos leitores que discordam de mim, saibam que este sempre foi o lema geral em toda a história da humanidade. Sintomático, não?
Há vezes, porém, que a coisa é diferente: depois de muito empenho de autoconsciência um povo genocida devidamente punido por tribunais internacionais consegue enxergar sua loucura coletiva e, por isso, as pessoas ficam tão avessas a pensar conforme a massa, que passam um bom tempo a valorizar a sua própria opinião e a sua atitude individual. No entanto, duvido que essa reação coletiva à burrice se torne permanente como prática social. E como é passageira, novamente, isso é sintomático: parece que o que há e sempre houve foi a vontade de seguir o liderzinho mais próximo, caso contrário, chelloveck, Alex tolchokará seu gulliver e seus yarbles muito horrorshowBog knows tudinho com seus glazzies, meu droog...


Diga-me, então, se entre Xerxes e seus Imortais não se interpõe, como apóstase necessária, a violência para com aqueles que ousam discordar das burrices que vêm do Mundo das Ideias? A massa se cala perante o tirano ou é cúmplice de sua perversidade? Ou pior, enxergando-se como poder superior, a massa, na união de suas burrices individuais, não promoveria talvez violência ainda maior? A vaca, consciente de sua força e de seus chifres, não escornearia quem a espetasse? Mas seria apenas uma vaca, exemplarmente punida e transformada em churrasco. Mas se uma súbita consciência se apossasse coletivamente de seus cérebros bovinos (exemplo válido também para elefantes, rinocerontes e cavalos), o homem teria chegado a ser o que é agora? Bom, difícil de responder, de qualquer forma, agora é bem tarde, pelo menos posso deduzir que essa revolução motivada pela rebeldia animal seria hoje impossível, após a invenção das armas de fogo.
Por fim, subverte-se o poder. Os persas desapareceram, subiram os alexandrinos. Que nasce depois? A fragmentação e, por conseguinte, a inveja, que necessita da igualdade para existir. A verdade é a seguinte: se todos quisessem tomar o lugar do tirano, em vez de terminar com a tirania, não teríamos um segundo de tranquilidade na nossa vida. Opta-se, portanto, muitas vezes, por deixá-lo lá fazendo suas tiranicezinhas. E chama-se "estratégia" esse tipo particular de burrice.
Mas, convenhamos, não é de poder que estou falando. Falo da burrice lato sensu, isto é, da nossa tendência a falar somente o que foi ouvido, como se nosso cérebro fosse uma máquina de carne moída: nela não há transformação. Não existe grosso modo fotossíntese de palavras. E eis uma bela definição para a burrice. Entra carne em pedaços, sai carne moída.

E poderia ser diferente? Não sei, mas acredito, às vezes, que sim. As incrivelmente poucas vezes que transformações reais foram documentadas assemelham-se a  pedaços de cartas boiando no vastíssimo oceano. Muitos desses papeizinhos já não boiam: foram diluídos, decompuseram-se anônimos. Seu conteúdo agora é inimaginável. Novidades reais são como formigas esmagadas involuntariamente sob botinas de trabalhadores indiferentes ao seu formicídio, empenhados em erguer uma estátua para alguma divindade.
Resta-nos então a resignação? Pior, resta-nos assumir que somos assim e, diante disso, aprender a nos temer. Como dissemos, na seleção natural, nada é mais perigoso do que sua própria espécie (vide o caso do urso polar). Bactérias parecem menos burras que nós, pois se adaptaram a todas as situações da Terra e assistirão de camarote o dia da desintegração do sistema solar. Até lá, já teremos sumido como espécie há muito tempo. Inútil encomendarmos um ingresso antecipado para nosso tataratataraneto ou então pedir a São Pedro que dê um jeitinho de arrumar-nos um lugar privilegiado, no alto de alguma nuvem.
Dercy Gonçalves (1907-2008) resumiu bem a nossa situação lamentável: se me lembro bem, certa vez, disse ela que, perto de outras pessoas, agia como a lady que sabemos que era, mas assim que não houvesse mais ninguém olhando, jogava no chão o papel da bala que estava chupando. Triste é a confusão tropical entre inteligência e esperteza, mas, enfim, deveríamos assumir (como ela) que nosso cérebro não foi moldado apenas para raciocinarmos. E está certíssimo, caso contrário não seríamos vítimas de tantas músicas virais.
Chegou o momento tão esperado de dar um conselho. Todo dia deveríamos, ao acordar, ir imediatamente ao espelho, olhar-nos bem nos olhos e dizer "eu sou burro, uma coisa completamente ilógica, nada o que eu creio faz sentido, nada do que eu faço é útil, mesmo assim, gosto de viver e gosto de conviver com aqueles que me dão prazer, amém". Não sei se ajudei.
Dizem que, com Copérnico, o homem foi rebaixado, deixando de ser o centro do universo. Depois, com Darwin, foi ainda mais rebaixado, pois deixou de ser a criatura preferida de Deus. Por fim, com Freud, deixamos de ter certeza de que estamos plenamente conscientes do que fazemos. Essas descobertas inteligentes, espaçadas por muitos anos de burrice, tornaram o homem mais triste, mas não o tornaram mais sábio. Com elas, convive ainda, na maior porção do nosso ser e no nosso íntimo mais burro, uma esperança de que esses pensadores se enganaram e que tudo que afirmaram ainda poderá ser refutado pelo inverso. Faltaria talvez reconhecer que pensamos assim, apesar de não nos faltarem provas de que estamos enganados. Somos burros por comodismo, mais do que por opção.

Não concorda? Responda então: há algo dentro de você que sempre diz "eu quero, eu anseio muito por ser uma besta"? Certamente não. Por que não dizemos isso, talvez nem mesmo Freud explique. Mas eu desconfio que é porque somos burros sem ansiarmos sê-lo, isto é, por inércia, e não como um objetivo de vida. Parece que Lutero chegou confusamente perto dessa consciência, pois sofria de um desamparo psicológico muito complexo, mas, mesmo ele, sucumbiu a premissas que criou para atenuar seu sofrimento e deu, obviamente, duzentos passos para trás.
Que fique claro: não somos apenas ignorantes. É algo muitíssimo mais grave: não queremos, na verdade, saber de nada que nos convença de que não temos razão. Mesmo se o argumento que nos convenceria viesse da nossa própria cabeça! Afinal, esse argumento sinistro pode ser apenas um índice de loucura (diz o cientista) ou, pior, a voz de um demônio (diz o religioso).

sexta-feira, 28 de março de 2014

A INFINITUDE DA NÃO-CHUPETA

Há palavras cujo sentido parece fácil de captar. Por exemplo, facilmente compreendemos o que é alto a partir do que é baixo. Da mesma forma, sabemos o que é algo limitado, por isso concluímos que deva ser igualmente fácil entender o seu oposto Mas não é bem assim.
 
O cérebro humano tem um mecanismo curioso (que alguém pode achar muito lindo, mas eu tenho certeza que é um bug). Esse mecanismo se chama negação e, com certeza, é fruto da nossa evolução ou de alguma mutação bizarra. Seja como for, acabou favorecendo o homem a ser o que ele é.

Não há nenhuma língua do mundo que não tenha a negação. Todos os povos negam, negaram e negarão. É aquilo que se chama de "universal linguístico". Isso nos faz crer que não aprendemos a negação, mas que ela sempre esteve em nós, desde que o espermatozoide de nosso pai fecundou o óvulo de nossa mãe.

O bebezinho chora, aponta: ainda não sabe falar. Mas se lhe dermos a chupeta, afasta com a mão ou aprende a fazer "não" com a cabeça. O objeto desejado é o enigma que esse mini-Homo sapiens, qual uma esfinge, oferece à sua desesperada mãe que o quer mimar a todo custo. Pense bem nessa cena prosaica. Não é verdade que ele não saiba o que quer. Pelo contrário: ele sabe o que não quer. E aquilo que quer (e para o qual aprende cedo a apontar com o dedo), tem algo de não-chupetitude.


Passa-se um pequeno intervalo de tempo e logo o veremos falando. Se lhe pergunto: você quer a bola?, não precisará mais chorar, pois poderá responder "não". De onde veio o não das nossas expressões linguísticas e paralinguísticas? Mistério. O pequeno falante sabe que o que quer pertence ao conjunto das não-bolas e pode esclarecer-nos o mistério de seu desejo por meio de outra palavra que tenha algo de não-bolidade. No caso, trata-se a câmera fotográfica do pai, obviamente negada, o que desperta, ato contínuo, outro berreiro dos diabos.

O primatinha voluntarioso e irrequieto não sossegará nunca. Tornar-se-á um primatão ousado e beligerante: lutará por aquilo que quer e é de seu direito. Mais tarde será um velho primata que deseja o que não tem mais, pois ficou no passado. Qualquer ser humano está sempre insatisfeito desde que saiu do líquido uterino até o último contato com a realidade por meio dos sentidos.
 
Essa insatisfação humana é algo que o tortura. Ela faz que só gere problemas e faça besteiras para sua própria vida e para a dos outros. Interfere em tudo, quase sempre de modo devastador. Dificilmente não chamaria a atenção de um alienígena que estudasse nossa etologia. Obviamente, outros animais também interferem no meio-ambiente, na extinção de outras espécies e na confusão geral (as plantas também fazem isso, afinal, viver é, por definição, interferir na vida de outra espécie ou na de outros indivíduos da sua própria espécie). Mesmo assim, é difícil dizer que o homem seja um bicho normal: seu comportamento, visto no conjunto, parece mais o de uma praga resistente, de uma barata, de uma formiga e de todas aquelas bactérias que têm imenso sucesso evolutivo. Mas a onipotência humana é ilusória: pequenas mudanças climáticas ou algum asteroidezinho daria cabo facilmente de suas pretensões de ficar com a Terra só para si e participar de alguma rave no dia em que o nosso sol se transformar numa supernova.

Para mim, é incrível que ainda haja tantas pessoas que se incomodem com essa visão realista dos fatos. Por séculos, fala-se que há no homem uma alma e que é um ser especial, expulso ou não do Paraíso. Tudo que cria busca mimar ainda mais o homem. Os renascentistas, por exemplo, bajularam-no de modo quase enjoativo. Mas deixo essa conversa para outra oportunidade: voltemos à questão da negação.

Como dizia, o ilimitado é, segundo alguns, fácil de entender: o Universo é ilimitado, Deus é ilimitado, os números são ilimitados e alguns otimistas concluem que a capacidade cognitiva do homem também seja ilimitada... e por aí vai. Como disse, parece que, sabendo o que é limitado, por meio da estranha ferramenta de raciocínio chamada "negação", chegamos com muita facilidade ao conceito de ilimitado. Mas não é bem assim. Não temos a menor ideia do que é o ilimitado. Aliás, como já dissemos, a negação não é uma ferramenta de raciocínio adquirida por meio de esforço, conquistas científicas ou tecnológicas, mas antes é um mecanismo inato. O bebezinho nasce com ela, da mesma forma que os animais fazem coisas extraordinárias, movidos por impulsos instintivos admiráveis. A negação está no nosso código genético, em alguma circunvolução cerebral, na química e na física, predeterminadas e esculpidas pela evolução. De qualquer forma, custa-nos a entender isso: tudo que é limitado parece ter um contraposto ilimitado, tudo que é concreto e fácil de atingir teria uma contraparte imaterial e inatingível etc. Sem essa brincadeira verbal, o conceito de ilimitado não nasceria. Paradoxalmente, pensando assim, o ilimitado acaba sendo uma radicalização do limitado, pois foi motivado pela consciência (por vezes escondida e encabulada) de que nós somos extremamente limitados.
 
E como somos! Não temos olhos de águia, mas nos consolamos dizendo que os nossos não são tão ruinzinhos como os de alguns outros animais. Entretanto, mesmo com nossos olhos supostamente potentes ou potencializados por lentes e cirurgias, só vemos um pequeno círculo à nossa frente. Não vemos sequer a aranha que se pendura no teto prestes a cair na nossa cabeça, nem o assassino que se aproxima de mansinho com uma faca atrás de nós. Só vemos um pouco do que está na nossa frente, se houver luz suficiente e se o dia estiver bem claro, isto é, se nada estiver entre nós e o que queremos enxergar ou se não estiver longe demais. Caramba, é ou não é uma limitação dos diabos?
 
Gabamo-nos de nossa simpática empatia, que nos faz ser homens integrais, caridosos e altruístas. Tudo bem, vemos e tentamos entender o outro, mas sequer podemos entrar no seu raciocínio. Só um ser onisciente poderia e queremos ser como esse ser ideal. Armamo-nos de tanto conhecimento que até andamos ultimamente empanturrados de tanta informação. Mesmo assim, continuamos não conseguindo entrar no pensamento do nosso mais próximo. Armamo-nos, para tal, somente de indícios: das suas palavras, das suas entonações, dos seus gestos e do seu comportamento para deduzir o que está na sua cachola. E já nos damos por satisfeitos, convencidíssimos de que somos sabidos. Mesmo assim, há, para nosso espanto, todos os dias, notícias de amigos que rompem com a amizade, notícias de mães que matam filhos, notícias de pessoas que se suicidam e outras coisas assombrosas que, quando próximas de nós, nos marcam perenemente.
 
Então: pergunto, o ilimitado seria mais um desejo do que uma realidade? Queremos ser oniscientes e onipresentes, mas não somos. Essa triste condição faz imaginar que haja algo ou alguém que seja. Mas e se não houver? Que diferença faz? Continuaríamos limitados.

Sim, limitados, mas apenas nesta vida - diria alguém que me lê, alertando-me - mas, querido leitor, novamente: que garantias há de que alguma outra vida exista senão esta? Experiências de pós-morte e visões são válidas? Ou são, novamente, apenas indícios de outras coisas e, ademais, como já dissemos, indícios não são fatos: o fato de alguém parecer triste não é prova de que de fato está. E mesmo se estiver, nem a nossa certeza de sua tristeza poderia consertar a causa de se sentir assim, que está em algum momento passado. Será por isso que o mundo perfeito está sempre, segundo tantos, num tempo futuro, à nossa espera? Ou, de novo, não seria só nossa vontade pregando-nos uma peça, sem fundamento algum no real? Outra chupeta que queremos?

O Universo é imensíssimo e provavelmente infinito, portanto, aquilo que é infinito é ilimitado. Saber disso não basta para entendermos a distância entre algo mensurável e algo imensurável? Sim, pode ser, mas de que universo estou falando? Daquele observável por alguém que tenha as dimensões de um homem ou de um titã do tamanho de Galactus, personagem da Marvel? Esse universo é ilimitado para mim, que tenho 1,70m, ou para um ser que teria o tamanho do universo? E que tamanho é esse?


Nada melhor que analogias para entender o absurdo em que me metemos meditando sobre isso. Um vírus não pensa obviamente. E abaixo dele não há vida. Lá estão apenas as moléculas, os átomos e as partículas subatômicas. Ele próprio não é vivo. Um vírus, se fosse beneficiado com uma consciência, presenteada por um deus misterioso ou por um milagre semelhante àquela pedra negra de 2001: a Space Odyssey, não teria condição talvez de saber muita coisa.

Alguns vírus medem 20 nanômetros enquanto as menores bactérias medem meio micrômetro. Se o mesmo vírus medisse 2 metros (o tamanho de um ser humano altinho), a referida bactéria mediria respectivamente 50 metros, nada menos que a proporção entre o homem e uma baleia-azul. Tudo bem, esse vírus sabidão conheceria uma bactéria, mas vejamos o que mais. Se ambos tivessem sido beneficiados pela consciência distribuída pelo misterioso deus benevolente, as bactérias não seriam particularmente atraídas pelos vírus, da mesma forma que uma baleia-azul ignora a presença de um humano, mas os vírus se encantariam com o tamanho das bactérias.

Entra uma pulga na história. Nessa proporção, o inseto teria 75 quilômetros de tamanho. As bactérias precisariam de telescópios para saber da existência das pulgas e os vírus inicialmente as colocariam no terreno das hipóteses e teria meios de confirmar sua existência. Um homem de 1,70m, nessa escala, teria 1,7 milhões de km. Se a existência de uma pulga ainda pudesse ser reconhecida pelos senhores cientistas vírus e bactéria, um homem seria algo próximo do inimaginável.  



Mas isso não é nada perante o universo que conhecemos. Imagine a dificuldade do homem de lidar com as galáxias, que - agora fora dessa escala doida que inventamos -  têm, no mínimo, 30 quadrilhões de quilômetros num universo, cujo tamanho conhecido é de uns 45 bilhões de trilhões de quilômetros (ou algo parecido). Ou seja, de nada adiantaria que vírus, bactérias ou pulgas tivessem consciência, raciocínio ou tecnologia, pois seriam tão impotentes com relação ao universo quanto nós mesmos, humanos, somos. Também desconheceriam o ilimitado.

Cada ser vivo está eternamente encerrado dentro da escala em que existe, dentro das suas ignorâncias, das quais não conseguiria sair a não ser por meio de mecanismos de imaginação, como a poderosa ferramenta da negação a que nos referimos acima. Negar, imaginando um oposto tão tangível quanto as coisas que percebemos, é apenas uma loucura simplista.

Portanto, esses polos, arquitetados por meio de uma ficção, formam uma simplificação tosca da complexidade que envolve o que é difícil de ser observado, dadas as nossas limitações. Não geram conhecimento, contudo. Caso contrário, já nasceríamos bem sabidinhos, pois, como já disse, a polarização entre a coisa e sua negação é atávica, genética, evolutiva, característica da espécie, muito possivelmente uma mutação, um defeitinho nosso que chamamos imodestamente de raciocínio magnífico.

Estamos de novo perante a chupeta. Hoje vivemos em plena era do conhecimento, uma espécie de déjà-vu do Renascimento quinhentista: a internet é a imprensa do século XX. Sonhamos que um dia seremos oniscientes. Queríamos isso faz muito tempo... parece-me que desde o Éden com sua frutinha (que dizem as más línguas, era uma maçã Fuji). Mas será que quando tudo estiver finalmente ao alcance de nossas mãos, não nos emocionaremos mais por conquista alguma? Uma mãe telepata daria a chupeta na hora certa, a câmera fotográfica do pai, a boneca da irmã para o bebezinho destruir. O bebê ficaria contente. Para que precisaria aprender a falar? Todavia falaria, pois o gene tagarela já estava prestes a ser acionado, por pura inércia. Mas falaria o quê? Certamente nada de interessante a não ser para si mesmo.

Quem é consciente do apocalíptico mundo que nos espera, caracterizado recentemente, de forma magnífica, pelo filme Her, do genial Spike Jonze, por vezes consegue boicotar o tentador atalho asfaltado até o Paraíso, forçando-se a trilhar, por livre e espontânea vontade, um caminho pedregoso, bem mais longo. Isso não nos cura da insatisfação,  mas, talvez, sei lá, seja uma proposta de vida e uma solução.