O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

Minha foto
Sou um saci sumério de Botucatu.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A VERDADE, NADA MAIS QUE A VERDADE

Mente quem acha que a fala humana serve para comunicar-se, pois o seu verdadeiro objetivo é a mentira. A mentira quase não é o propalado vício condenável por todas as culturas, mas um impulso humano difícil de ser domado. O fenômeno da mentira, visto de forma pouco judiciária, associa-se àquele outro estranho fenômeno que Sartre denominou mauvaise foi e que é tão esplendidamente exemplificado no seu romance La Nausée.

Um dia A prometeu que faria B a C se C fizesse D, mas após C ter feito D, o cara-de-pau do A negou ter prometido que faria B a C. Esse tipo específico de mentira (se é que A se lembrava de fato de ter prometido B a C) é conhecido como "não-cumprimento de promessa" e quem o comete é demonizado pelos alemães com o título de unzuverlässig, palavra mais feia que qualquer ofensa à genitora. O não-cumprimento de uma promessa gera com frequência a ira, quando não mortes. Muitas desavenças houve até que alguém bolasse um modo de não necessitarmos de coisas fugazes como memórias para sustentarmos as promessas. Surgiu a ideia do registro que, se descumprido, geraria no mínimo uma pendenga judicial. Assim nasceu o conceito abstrato da justiça.



Heráclito já disse com sua bela obscuridade que tudo é liquidamente fugaz, mas o conceito de promessa parece querer ter a pretensão de quebrar essa máxima. Uma promessa fugaz é uma contradição, pois a perenidade faz parte da definição de uma promessa. E o perene sempre foi uma obsessão humana por ser algo que alimenta a esperança e a alegria. Talvez por isso, não bastava que alguém tivesse ouvido Homero ou Jesus e em seguida registrado suas palavras: foi preciso inventar algum tipo de gravação magnetofônica para registrar a voz de nossos ídolos. Pouco depois, alguém sentiria falta de eternizar o próprio momento e substituíram-se os quadros, não suficientemente realistas, por fotografias. Mesmo tendo gravado a voz de alguém declamando seu poema, mesmo tendo fotografado essa mesma pessoa nesse momento, por insatisfação, foi preciso juntar as duas coisas e criar a filmagem, para que ressuscitássemos nossos ídolos mortos falando e movendo-se como nós, ainda vivos. Ainda assim, estávamos cientes de que apreciávamos apenas uma pequena parte de sua existência e isso obviamente ainda parece pouco. Os reality shows deram o passo seguinte: prendendo algumas pessoas numa casa, presenciamos, ainda que apenas durante meses, a sua existência e nos parece satisfazer o fato de essa existência ser tão artificialmente criada.

Qual será o próximo passo? Monitorar cada segundo da vida de uma pessoa, por dentro e por fora, não só mostrando o que faz na cozinha e no banheiro, mas dentro de seu cérebro e órgãos? Nosso voyeurismo, fruto da nossa necessidade de controle da fugacidade, nos empurrará a meios cada vez mais ousados, até vermos como funcionam e deixam de funcionar cada espasmo e pulsar durante cada ato? Será que assim saberemos, por fim, se as pessoas que cruzam nosso caminho na rua movimentada são gênios ou idiotas? Saberemos quais são suas preferências sexuais nesse confessionário pós-moderno? Seremos alertados se são assassinos ou se são suicidas? E mesmo quando cada movimento de intestino de cada pessoa do mundo ao longo de toda sua vida for monitorado, ainda talvez não nos satisfaçamos, porque estamos longe de termos a onividência divina.

Sêneca diria que isso é loucura, pois natura semina nobis scientiae dedit; scientiam non dedit. Aliás, se me perguntassem aonde quer chegar o Homem, diria que uma boa resposta seria ver o que ele imagina existir em Deus. Parece que as qualidades divinas, por nós mesmos atribuídas, são exatamente as que são invejadas por nós, símios que sofrem de atriquia, presos na insegurança da mentira iminente e da traição certa do amigo mais querido. Armado até os dentes, em cada ato de covardia, o exibicionista bicho-homem simula a onipotência divina. A cada cyberbisbilhotagem, o hacker sente o gozo de estar próximo da propalada onisciência.



A sensação de controle das variáveis, que os cientistas regozijam em ter nas mãos, não é diferente. Cada previsão corroborada, cada dado controlado, cada descoberta antiintuitiva faz que o cientista prove um pouco da realidade inacessível a nossos sentidos limitados e nos mostre o quanto estamos longe da intuição quotidiana. E se a percepção científica é distinta da percepção comezinha, a ciência é o que nos faz alçar a situação de semideuses. Só nos falta a eternidade.

Mas - espanto! - há quem não creia na ciência, mesmo que o cientista se mate provando que uma conclusão científica é um dado puro, sem a atuação de nossa vontade, enfim, a vida como ela é. Na verdade, não acreditar na ciência pode ser pura burrice, mas esse acesso de pirronismo que afeta paradoxalmente sobretudo os mais crentes é justificável quando pensamos que por trás da ciência há um limitadíssimo cientista. Ora, é natural que homines amplius oculis quam auribus credunt, diria novamente Sêneca, portanto a verdade é que uma conhecimento científico arduamente adquirido quando é negado só pode ter uma razão: nossa incapacidade de entender os pressupostos daquele conhecimento.

Há decerto algum estímulo em alguma glândula da nossa matéria cinzenta que nos dá algum regozijo quando experimentamos o domínio de algo ou de alguém. Isso faz pensar que nossa espécie é movida por instintos que a tornam uma espécie de dominatrix. Seu chicote é implacável quando as coisas saem do controle. E o conhecimento científico é um controle, mas não o único. Daí muitos se darem ao luxo de dizer que não creem na ciência, como se fosse algo tão simples quanto dizer que não creem em sacis, em caiporas ou em qualquer coisa que não veem.



Ninguém nasce com tendência ao masoquismo, mas o sadismo parece pulular nas veias da nossa espécie. Somente depois de muito choro, de muita conversa e de muitas experiências frustradas, torna-se, enfim, em adulto, com alguma assimilação dos bens milenares de civilidade. Quando aprende que não deve fazer isso ou aquilo, que não pode ser assim ou assado como ele quer, mal sabe que, antes de seu nascimento, houve revoluções e muitas desgraças que originaram aquele valor  que quer destruir, conhecido como Bem.

Evidentemente, valores existem para ser questionados. Mas nem sempre o questionamento universal dos valores traz aquilo que os cidadãos modernos costumam chamar ingenuamente de progresso. Há coisas arduamente conquistadas sob a forma de valores imiscuídos a bobagens. Imaginar que o joio será separado do trigo por causa da nossa eficiente lógica é um delírio. Todo apelo a um progresso natural nada mais é que um conto-de-fadas, criado pela mauvaise foi humana. Nasceu da sua boba crença de superioridade sobre as espécies. Nem tudo melhora, só porque tudo muda. Não concordará comigo o relativista, dizendo que só existem mudanças e não há mudança para melhor, nem para pior. Didaticamente, bêbado de mauvaise foi, me ensinará que mudança é adaptação e os valores independem da mudança.

Mas o relativista não enxerga que há estabilidade nas mudanças, obviamente, porque elas nem sempre são controladas por entes que têm vontade própria. Há mudanças que dependem da vontade e outras que independem. Se eu dou uma banana à questão do aquecimento global porque sou cético e não vejo diferença entre a declaração de um xamã e a de um cientista, decerto não consigo acompanhar o raciocínio do cientista. Se o raciocínio do xamã é algo que requer que lidemos com analogias, o do cientista requer que conheçamos dados e algo do raciocínio lógico. Se não sou imaginativo, o que o xamã me diz é loucura. Se sou ilógico, as extensas cadeias de causas e consequências do cientista não fazem para mim o menor sentido.

Então falta, talvez, para entendermos o que nos diz o cientista, autopoliciar nosso pensamento, senão seremos distraídos por imagens que se interpõem entre seus silogismos. Mas se quisermos ser sensíveis ao que nos diz o xamã, devemos esquecer o que significa coerência e entregar-nos ao contrário do que as evidências e as consequências nos apontam, ou seja, àquilo que se chama fé. Convenhamos, não é fácil ter as duas coisas ao mesmo tempo. Fé e coerência não são compatíveis. Só conseguiremos uni-las se formos autoenganados ou se tivermos duas personalidades.

Hoje com a informação abundante, há um fenômeno talvez novo e bastante interessante. O conhecimento self-service que nos faz pensar que estamos além desses dois tipos de personalidade, a do crítico e a do prosélito. Não estamos. O crítico não aceita. O prosélito não questiona. Ninguém está além da crítica ou do proselitismo. Somos apenas seres que se apegam ou não a discursos e as razões disso são profundamente individuais. A verdade contida nesses discursos não importa. E se somos cientes disso, não sofremos da mauvaise foi: simplesmente somos crápulas.



Razões profundamente individuais, sem dúvida. Freud ressuscita com seu charuto à boca e nos pergunta: "essa individualidade viria da nossa alma?" O cético diz que não. O prosélito diz que sim. 

Individuais, sem dúvida... mas seriam genéticas? O cético dirá não. O prosélito dirá sim. O cético não tem evidências de que não sejam. Os prosélitos também só têm esgares e uma rala evidência de que sejam. Enfim, surpresos, observamos que o cético e o prosélito não se confundem respectivamente com o cientista e o religioso. O inverso também pode ocorrer!

Individuais, sem dúvida... mas viriam do nosso meio e de nossa educação? Da nossa experiência e de nossa vivência? O cético não diz que não. O prosélito não diz que sim. Sem querer, concordam e se entreolham espantados, pois estão acostumados à quizila. Palavras vagas fazem que todos entrem em acordo. Não há uma única direção nelas. O meio nos muda e mudamos o meio. A educação nos muda e mudamos a educação. A dupla implicação parece ser menos eficiente à avaliação de verdade que a implicação simples. Nesse limbo é que estão os acordos de paz.

Toda verdade gera ira - explica-nos o mestre relativista com sua empáfia de guru - porque o que é verdadeiro para um é falso para outro. Mas, pergunto a esse sabichão: "o que não é nem verdadeiro nem falso para ninguém gera a tolerância?". Aparentemente sim. A necessidade de viver em comunidade fez que tolerássemos o que não nos parece verdadeiro às custas de úlceras que se formaram porque nosso superego nos obriga a não esganar o próximo. O que não é nem verdadeiro nem falso sobrevoa o nervosismo das polêmicas. Está ali, elemento não-distintivo, coisa amorfa que merece pouca atenção do cérebro brigão do hominídeo, mas é algo que deveria ser mais bem observado e, talvez, cultuado.

sábado, 10 de janeiro de 2015

O BOM-SENSO DE CADA DIA DAI-NOS HOJE

É uma maravilha. Até o mais insano concordará comigo. Não há quem acredite não ter bom senso. O que ajuda e o que empurra, o que salva e o que mata, o que grita e o que ouve, o que julga e o que é julgado. O bom-senso é a menor unidade das relações interpessoais, tanto quanto o átomo é a menor unidade da matéria ou o DNA a menor unidade da vida. 

Se todo mundo está satisfeito com a sua quantidade de bom-senso, ninguém saberá defini-lo sem usar uma palavra chave, a saber, a palavra "eu". Rousseau achava razoabilíssimo que as pessoas abdicassem de suas mesquinharias em prol de um bem comum. O duro é saber quem terá bom-senso para fazer a partilha desses bens abdicados. Mas se todos apontassem, na época, para o próprio Rousseau, ele decerto teria aceito de bom grado, pois não tinha dúvida que deveria ter na sua coroa o título de homem mais sensato da Humanidade. Mas ninguém foi doido para tal, obviamente, o que não impediu a humanidade de ir atrás de líderes que prometiam o imprometível.



O curioso é que, mesmo que todo mundo levasse consigo seu quinhão de bom-senso, não há acordos entre as pessoas. Recentemente vi o estupendo filme Relatos salvajes, de Damián Szifron. Acho que essa película resume tudo o que já disse sobre a natureza demasiadamente animal do rei da evolução. Sim, rei por meio de golpe, não por causa do mérito. 

Pense no homem recém-formado, com seu cérebro gigante, inteligentíssimo como provou sê-lo, pelo menos até a invenção das armas. Sem elas, não teria domado bicho nenhum, pois os búfalos não são sensíveis à retórica. Sem as armas, seria eterna vítima dos lobos e outros carnívoros. Teria de correr diariamente atrás do pão nosso de cada dia e teria de saber poupá-lo. Mas a evolução do cérebro do homem parou, milênios atrás, quando inventou a primeira arma. Sim, a evolução do cérebro era apenas uma reação e necessitava da energia vinda de outras partes do corpos.  Com isso, tornou-se um bicho frágil, tão desprovido de força e de agilidade, que poderia causar dó. Com a primeira arma, contudo, transformou-se em monstro, maior que os tigres dente-de-sabre que o perseguiam. Com ela nasceu também o desperdício: uma preguiça gigante era abatida e a carne apodrecia porque ninguém conseguia comer tudo. Não tinha problema, no dia seguinte, abatia-se outra. Até as preguiças gigantes virarem poesia.

E quando as armas deixaram de ser de pau ou de pedra, piorou. Bastou que se inventasse o bronze e surgiram os impérios. A crueldade dos assírios se tornou proverbial. Era mesmo necessário arrastar pessoas em correntes pelo deserto, com os olhos vazados? Não. Mas a crueldade criava o status necessário para o temor e para que o animal bruto novamente se impusesse. Para que cérebro se temos armas? E as armas se sofisticaram: projéteis que atingem distâncias inimagináveis para o antigo troglodita; gases tóxicos e corrosivos, que implodem nossos pulmões; bombas incendiárias ou desintegradoras, que penetram o âmago da estrutura da matéria.



Diz o etólogo Frans de Waal que a empatia é um dom genético que aparece também em outros animais. Assim sendo, a evolução nos deu a capacidade de olhar para um ser que não é alguém de nosso círculo familiar e sentirmo-nos momentamente no lugar dele ou como se fosse ele. Virou até filosofia, travestida de religião, quando se prega o amor ao próximo. Mas acreditar que todos um dia terão na teoria e prática esses valores ditos cristãos é pura utopia: não tenho a menor dúvida que a admirável capacidade de empatia é muito variada entre as pessoas. Algumas sofrem ao ver alguém sofrendo; outras, ao contrário, regozijam-se ao fazer alguém sofrer e nem se abalam. Portanto, se não é a inteligência nem a empatia que nos distingue dos demais animais, o que é?

Talvez a arrogância. Uma fera tem dentes e garras, ruge, ameaça, ataca, mata cruelmente, mas parece que, quando não faz isso para se alimentar ou por diversão, costuma fazê-lo para garantir a sua preponderância num determinado território. O homem instintivamente faz o mesmo e se sai muito bem com suas armas ou com seus bandos e como o território humano não tem limites, sente um regozijo quando escala a mais alta montanha do mundo, quando vence desertos e geleiras. Por outro lado, fica muito triste porque percebe que nunca sairá da via láctea, nem jamais poderá ir ao centro da Terra. As suas limitações o irritam e a religião ocidental sempre o lembrou dos seus limites, por exemplo, na imagem da presunçosa Torre de Babel ou nos outros desafios que fez à divindade, como o de Arachne. A modéstia, advinda tardiamente, por meio da consciência, parece bem humana, tanto quanto a arrogância.

Então vejamos bem: a inteligência parou de crescer porque temos armas, a empatia não é algo que valha a pena desenvolver na lógica do egoísmo evolutivo, a modéstia é válida somente depois que caímos e dura bem pouco. Fora isso,  nosso corpo é franzino e nossa mente é volátil. Burro, antipático e arrogante, eis a imagem especular do homem racional, altruísta e admirável. Não é sua sombra. Trata-se apenas do outro homem, tão verdadeiro quanto o pintado de dourado pelos antropólatras do Renascimento.

A racionalidade humana requer coerência, mas amamos a incoerência, porque sem ela seríamos desumanos, como alardearam e oficializaram os chamados "românticos" já no fim do século XVIII, reação imediata, preguiçosa e previsível às conclusões do século XVII, com seus formalismo rigoroso e com suas exigências quase irrealizáveis para um pobre símio recém-saído da savana. Ou seja, o que o romantismo pregou com o sucesso de uma revolução obviamente francesa é que não queremos ser autômatos, que queremos a imprevisibilidade e ela requer a falta de lógica. 

Pirar é legal, convenhamos. Pensando assim, logo partimos das premissas para a conclusão e da teoria à prática: joguemos a nossa garrafa de cerveja na calçada no nosso momento de descontração. Este é o raciocínio que presencio mais frequentemente, vendo a sujeira pós-final de semana: somos moderninhos, conscientes, muito engajados, mas há quem faça a faxina para nós. Digam-me: quem realmente consciente tem coragem de arremessar um pedaço de papel no chão? Mas o tempo dos papéis de bala já eram. Agora são garrafas, tampinhas, maços de cigarro, absorventes, preservativos, um lixo nojento que se encontra após as baladas dos bares da rua Augusta que inexistiam até a década de 90. 



O vizinho, que mantém seu quintal muito bem cuidado, joga um bilhete de Zona Azul no meu jardim, apesar de ter abundantes lixeiras na sua casa. Sequer pode mentir, dizendo que não foi ele: o número da placa está no bilhete amassado. Uma vez, Dercy Gonçalves disse numa entrevista que jamais jogava lixo na rua se alguém estivesse vendo, mas bastava que não houvesse testemunhas e faria isso com muito orgulho. Bons tempos os da hipocrisia de Dercy! Hoje liberou geral e quem joga lixo na rua tem até alguma razão política, ética e mais demonstrável que a fórmula da lua do conde de Pontécoulant. 

Perante esses grandiosos feitos da espécie humana, lembro-me da cena do filme Cronicamente inviável (2000) em que meninos urinam na soleira de uma casa. São ofendidos por pessoas que passam, mas para o espanto do espectador, entram em seguida na mesma casa urinada, pois era lá que eles moravam. O absurdo é exatamente este: quem mijaria na porta da própria casa? Mas só conseguimos indagar isso quando possuídos pelo frio demônio da racionalidade. Falta pouco para concluirmos, contudo, que uma ação como essa é coerente, dado o nosso comportamento cada vez mais voltado ao irracional e retórico. O mesmo homem que berra pelos seus direitos na fila do supermercado porque o que está diante dele demora e o faz perder preciosos minutos não se importará se tirar o tempo dos que estão depois de si, demorando ainda mais tempo. Afinal, é possível provar por meio da sua semilógica que as pessoas na fila que estão atrás dele não são ele próprio, centro incontestável da indignação, maior representante da racionalidade e da coerência humanas.


Não, não, não. O homem racional não existe. Mas atos racionais sim. O que está por trás de um monumento de racionalidade humana ou é o acaso ou, na melhor das hipóteses, algum exagero casual de coerência de raciocínio que somente alguns poucos tiveram. E quem o teve, teve-o raramente. Mesmo assim, só uma parcela da racionalidade é conhecida, pois raramente pode levar à criação de algo que seja do gosto do bem comum e que sirva para enaltecer a espécie. Portanto, não foram os chineses que inventaram a porcelana: foi um único sujeito que vivia no território chinês, imitado por outros depois do seu heureka, por acaso, chineses. Se não tivesse havido um Faraday, um Maxwell, um Heimholtz, um Marconi, um Edison e tantos outros esquisitões não haveria nada daquilo de que o mundo moderno se orgulha hoje. Sem eletricidade não haveria Facebook. Estaríamos lendo sob luz de velas, como na comovente autodescrição de Maquiavel. A coerência de um gênio pode até ser imitada, mas não é dom geral, convenhamos, e por causa de uma noite mal dormida, o mais racional dos homens se torna tão ilógico quanto o mais incoerente de todos. Um ser coerente o tempo todo não é humano. Pena.

Se não há coerência, não há racionalidade. Nada mais a dizer sobre isso. Louvaremos, então, para compensar, a nossa irracionalidade? Não conseguimos sequer fazer isso, porque todo nosso pensamento é estruturado. Não conseguimos torná-lo amorfo nem mesmo enchendo a cabeça com droga pesada, como fazem as personagens do filme Fear and loathing in Las Vegas (1998). O máximo que podemos atingir, procurando a irracionalidade, é algum chavão hipergenérico com tinturas de profundidade mística. A fluidez do ser é algo que não nos é concebível. Não de todos os ângulos, por isso é tão difícil entender as raízes da matéria e os confins do universo. Conclusão: não dá para ser racional nem completamente irracional. Estamos presos no medíocre mundo estruturado das sociedades heteróclitas e das palavras ambíguas. Pena.

Palavras têm significado, mas têm sobretudo valores. Volta e meia uma palavra se torna tabu, porque reflete um pensamento sob vigilância, que, se deflagrado, provoca indignação social, processos, cadeia, morte. Palavras já não são meras sequências de sons impunemente pronunciados, nem feixes de significados com os quais podemos brincar, como Henfil e outros chargistas faziam. Recentemente, o fetichismo neo-irracional deu vida ao terceiro elemento do signo: a referência. Falar uma palavra má evoca o mal, macumba que tínhamos esquecido desde a revolução industrial. Ao falarmos merda há quem sinta o cheiro do material pós-digestão expelido pela cloaca ou pelo ânus (dependendo da sua origem) e essa imagem evoca o próprio contexto da defecação na mente sensível do ouvinte. 

Cripticamente, perguntaremos: os que sofrem de problemas naquela fase freudiana específica e inominável anterior à fálica, segundo as bizarras conclusões psicanalíticas, verão nessa minha frase confusa alguma mensagem subliminar provocativa? Sei lá, sim e não, só se fizer e se não fizer sentido o que eu disse. 

O policiamento de todos contra todos é uma realidade no mundo pós-pós-moderno, tanto quanto nas épocas mais fechadas e antiquadas. Foi esse policiamento, sob outro manto, que fez Descartes fugir para a Suécia e morrer de pneumonia à busca de um financiamento, que se mostrou excessivamente caprichoso. "Matei Descartes porque Descartes era meu", podia ter pensado a rainha Kristina, inconsciente de que o amedrontado Descartes era, na verdade, de toda a Humanidade. Do mesmo jeito pensa o boçal que deixa um garrafa no meio-fio.

A violência verbal e física, que cresce exponencialmente, parece ganhar prestígio no mundo neo-irracional atual, embora se fale tanto de "paz", de "amor", de "igualdade", de "justiça", de "coerência" e de "tolerância". Quem permitiu isso? Nós mesmos, nessa bizarria atual conhecida como redes sociais, mostrando-nos para todos. Aposentamos a hipocrisia para ficarmos com a histeria. E se tivesse ocorrido alguma evolução social, até teria sido uma boa troca, mas não houve nada. Os valores hoje em dia são pasteurizados. Não se permitem meios-termos. Ou você é X ou é não-X: estamos à beira do Grande Paradoxo. 


Concluímos acima que não somos racionais, mas aferramo-nos em poucas opções. Cobramos que alguém se decida entre o verde ou o lilás. O azul não é opção. Quem definiu foi o uso e a horda. O que está na boca de todos é o que existe. O que está nos livros, empoeirando-se e servindo de repasto de tisanuros, um dia voltará a ser lido?

Sim, o mundo é muito maior que essa lengalenga anacrônica atual. Tudo adquire uma tonalidade muito mórbida hoje em dia porque não se sabe mais o que é humor e o que é o mundo além-umbigo. Não é porque nos escandalizamos com o lixo jogado na rua que merecemos o título de reacionário, de direitista, de antirrepublicano, de elitista e outras baboseiras, marcas de Caim na nossa testa. De onde veio essa necessidade classificatória? Da insegurança infantil que assola os terráqueos atuais? Exigir é bom, mas realizar é melhor. E realizar não é vestirmos uma couraça e despedir-nos de esposa e filho para ir à luta. Há um Aquiles lá fora que arrastará nosso corpo, que nosso pai terá de reclamar. Se eu pudesse aconselhar algo para alguém, pediria que fosse menos valente, mais incisivo e menos choramingão. Faria votos que buscássemos a culpa em nós mesmos e que nos arrependêssemos mais das nossas inevitáveis idiotices de seres semirracionais. Afinal de conta, nunca saberemos se nosso líder é tão rosadinho como as pétalas que saem de sua boca: o seu trono está longe demais e só tenho notícias indiretas dele. Por que pôr a mão no fogo por algo ou alguém que não conheço nem nunca conhecerei?

Que em 2015 sejamos sim mais céticos e mais críticos, mas não massinha na mão de bebês voluntariosos que, sinceramente, nem sei quem são. 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

DEIXE-ME BUZINAR E CHUPAR LARANJA

Como muitos amigos meus sabem, antes de decidir estudar Letras e ser etimólogo, eu queria ser entomólogo. Minha paixão pelos artrópodes era tal, que não via nada além deles na minha frente. Essa obsessão parece um pouco a história que Oliver Sacks conta sobre sua relação juvenil com a química em seu maravilhoso livro Uncle Tungsten. Pois bem, como toda paixão, ela passou da noite para o dia. A transição é meio complicada de explicar, mas já que comecei a falar disso, vamos lá.

No começo, eu tinha dó de matar os insetos, mas minha mãe, misteriosa como a mãe de Sacks e como todas as mães, autorizou-me a fazer isso, dizendo que não era pecado. Com a aprovação de Deus, desde então, lá no início da década de 80, passei a coletar insetos. Os moleques da vizinhança achavam aquilo tão diferente, que me presenteavam com bichos mortos encontrados em suas casas. Somente insetos, aracnídeos e crustáceos participavam das minhas caças solitárias ou em bandos de moleques, entre os quais estavam primos e vizinhos em Botucatu. Íamos para uma região conhecida como Morro do Peru e Bocaina. Não saíamos dos terrenos baldios e das matas. O resultado disso foram milhares de insetinhos mortos: besouros, borboletas, gafanhotos, libélulas e muitos outros. Havia tantos na natureza que jamais pensei que um dia sumiriam, mas sumiram, sobretudo os que eu mais amava, os quais se encontravam com facilidade sob os troncos podres, tijolos e pedras: opiliões, colêmbolos e outros estranhos seres. Aliás, lembro-me que, um dia, revirando pedras, encontrei um zoráptero. Só a história dele daria um blog.


Olhava os pequeninos por um microscópio presenteado pela minha mãe. Não me interessava pela histologia ou pelo interior deles. Amava suas armaduras, seus espinhos e quelíceras, suas maravilhas feitas de queratina, seus olhos e ocelos, suas pernas articuladas. Aos poucos, passei a venerar a nomenclatura zoológica. As leis do ICZN pareciam-me tão lógicas, tão perfeitas, que ainda hoje me fazem pensar que a nomenclatura zoológica foi o feito humano mais próximo da racionalidade. Encantava-me o fato de insetos tão pequenos terem nomes tão complexos. Um primo, que havia cursado seminário, deu-me seus livros de latim e grego e eu comecei a entender o que significavam.

O prof. Benedito Soares, que trabalhava na UNESP de Botucatu e que me tratava como o filho que nunca teve, convenceu-me também a estudar alemão. E como não saía de quatro bibliotecas da minha cidade (a Biblioteca Municipal, a do Centro Cultural, a da UNESP e a do EECA, onde estudava), travei contato com outras línguas: espanhol, italiano, russo, esperanto, bororo. Nesse momento, veio a súbita metamorfose. Resolvi, do dia para a noite, fazer Letras, apaixonado pelos livros de Sapir e Câmara Jr que encontrei. Mudar de paixão foi fácil. O difícil, pensava, seria contar ao prof. Benedito que havia virado casaca. Ensaiei muitas vezes como lhe diria, mas não foi necessário porque ele faleceu quando estava no terceiro ano do Colegial.

Nessa época, mas sobretudo depois dos dezessete anos, resolvi que não mataria mais insetos. Ainda hoje salvo as baratas que entram em minha casa. Uma vez fiz isso com as mãos, mas não recomendo, porque fiquei com uma diarreia horrível, provavelmente psicológica. Sou fiel a esse princípio, tanto quanto um jainista digambara, mas obviamente não pelos mesmos motivos. Não adianta convencer-me que insetos não sentem dor, por exemplo. Todos os insetos espetados que tenho em casa são da década de 80 e os que aparecem datados depois disso foram achados mortos. Essa mudança de atitude, na verdade, resultam de questionamentos elaborados, longe de casa, à lógica de minha mãe. Contudo, penso que, dentro de mim, já tinha a vontade de não matar mais os insetos, afinal, nunca gostei dos estilingues dos moleques. Pela mesma razão, escondia a espingarda de meu pai quando meu primo ia em casa, ávido de matar os pobres anus que se dependuravam no taquaral.


Mas, naquela época, a natureza era tão abundante, que me dava a certeza de que tudo ficaria intocado para sempre. Um dia, pensava, poderia apresentar, vivos, a meus filhos, um a um, os insetos que coletei. Ainda tinha essa sensação quando finalmente busquei minha coleção em Botucatu, a qual se deteriorou por falta de cuidado e manutenção, nos longos anos em que não tinha moradia fixa. Ao ver meu megalóptero irrecuperável pela destruição dos corrodêncios, todas minhas coloridas libélulas coletadas na Bocaina destruídas, o meu enorme belostomatídeo transformado em poeira, ainda me consolava a ideia de que eles estavam por aí, para sempre, e que não fazia mal jogá-los fora, afinal, um dia, quem sabe, encontraria outro espécime morto, que substituiria o estragado da minha coleção. Vão engano.

Ninguém fala disso, mas a extinção dos insetos é real. Nos últimos tempos tem havido uma redução tão absurda na quantidade de espécies, que não saberíamos nem ao menos avaliar qual é a porcentagem atual dos ainda existentes. Borboletas comuníssimas, como a monarca, desapareceram. Que houve na sua longa e milenar rota do hemisfério norte para o hemisfério sul, com pausa para namoro e congelamento no México?  Aliás, para onde foram todas as borboletas? Hoje, no interior de São Paulo, vejo somente alguns pierídeos, um ou outro papilionídeo, mas sumiu a maioria dos licenídeos, inúmeros heliconídeos e centenas de outras espécies comuníssimas. Imaginem as que já eram raras! Faltam olhos treinados como os meus para perceber isso? Certo dia, indo a Maringá, vi várias espécies que cria extintas. A fauna entomológica paulista está indo cada vez mais para o Sul? Por quê?

Na capital, por exemplo, na USP e no Parque Trianon, vejo diversos insetos que não encontro há anos no interior de São Paulo. Um pouco de mata intocada faz esse milagre. Aliás, por incrível que pareça, entre os paredões de concreto da capital, ainda vejo animais que há décadas não se encontram no interior, cheio de canaviais e seus pesticidas. Não são só vaga-lumes, mas todo tipo de inseto. No cemitério da Consolação, por exemplo, há uma linda espécie de borboleta alaranjada que nunca havia visto antes, com as asas posteriores com uma espécie de cauda, semelhante à dos papilionídeos, embora não seja um. A primeira vez que a vi estava perdida dentro da padaria. Há mais de uma década vejo-a zanzando pelas árvores do cemitério e do atual corredor de ônibus. Na Cidade Universitária, perto do estacionamento, flagro periodicamente uma vespa Pepsis, que, por gerações, leva suas aranhas para uma mesma toca, num ritual que eu percebo há mais de vinte anos.



Mas cadê os elaterídeos tão divertidos, com seus pulos imensos, que eu gostaria de mostrar para meus filhos? Sumiram. Crisomelídeos, melonídeos, escarabeídeos e outros insetos tão comuns estão cada vez mais raros.

Entre os desaparecidos está o cerambicídeo Compsocerus violaceus, besouro vermelho com élitros metálicos, azuis ou verdes, com intrigantes pompons na antenas. Uma obra-prima da evolução. Há décadas procuro um em vão. Lembro que, para mostrá-lo para alguma visita em casa, quando criança, bastava ir ao quintal de meu avô, vizinho ao meu, e lá eu achava alguns exemplares em poucos minutos.

E assim andava eu solitário, nos últimos anos, sem meus amigos de infância e, sentado na sala dos professores, eis que vejo na soleira o meu saudoso cerambicídeo. Morto! Alguém, entrando na sala (espero não ter sido eu mesmo), pisou-o de maneira certeira. Estava lá esmagadinho. Coletei-o e já está espetado na minha coleção, todo torto e explodido com o pisão. O anterior, que datava de 1981 estava com a cor apagada e era de uma feiúra que doía. 

Mas fiquei imaginando se não era o último da espécie. Cada inseto que revejo depois de décadas me dá essa sensação. Sei que são danados, que se escondem. Milhões de anos de infortúnios lhes garantiram uma capacidade de adaptação muito maior do que a de nossa frágil e pretensiosa espécie, mas, mesmo assim, o pensamento de que será a última vez na vida que os verei é inevitável. Espero, porém, que não seja a última vez na vida de um ser humano que se importe com eles, pois o espetáculo da existência desses bichos é indubitavelmente algo muito mais admirável que a contemplação de qualquer pintura renascentista. Mas ninguém se importa com os insetos.

Segundo exegetas respeitadíssimos, entre eles, com certeza, o douto Athanasius Kircher diria que, antes do dilúvio, Noé não precisou recolher um casal de cada espécie de inseto em sua famosa arca, pois, afinal de contas, como todos sabiam - pelo menos até chatos como Francesco Redi, Lazzaro Spalanzani e Louis Pasteur provarem o contrário - os insetos empesteariam o mundo de novo, assim que as águas do dilúvio baixassem, brotando espontaneamente da lama. Pena que a abiogênese não seja verdade (ou que tenha sido verdade apenas uma única vez há 4,4 bilhões de anos): os insetos somem sim da face da Terra por muitos fatores (o homem é um deles), mesmo depois de milhões de anos de existência bem-sucedida. Como não têm alma, não posso consolar-me em revê-los nem mesmo no post mortem.


Voltando a casa, fui à internet e eis que tenho uma surpresa. Lendo este site: http://www.revistas.ufg.br/index.php/pat/article/view/2675 descobri que o citado besourinho de pompom nas antenas é uma praga de frutas cítricas em alguns Estados brasileiros. Os agrônomos são muito criativos: chamam-no de besouro-viola. Fiquei muito feliz com a capacidade de adaptação de meu amigo danadinho. Não havia frutas cítricas no Brasil, na época do descobrimento. Os europeus eram incapazes de entender que gabiroba, uvaia ou umbu são frutas também e tiveram de trazer maçãs, laranjas e uvas. Como as frutas nativas eram consideradas mato, privaram de comida milhares de espécies de insetos, que acabaram ou morrendo (quando eram seletivos demais) ou se adaptando, comendo essa comida importada das lavouras humanas. Nosso amigo resolveu atacar os laranjais. Ótimo.

Mas convenhamos: ele, tão simpático e bonitinho, não tem cara de praga.

Decerto, se é bonito, tem alma boa e não teve escolha, diria Rousseau, defendendo nosso bom selvagem. Assim é a vida: adaptou-se e, por isso, vai levar veneno na cabeça, com certeza. Aí, o homem chupa feliz sua laranja com veneno, mas livra-se do inconveniente besourinho de pompom.

Isso me fez lembrar uma reportagem atual (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/198960-a-invasao-das-pererecas.shtml), sobre a invasão da perereca antilhana Eleutherodactylus johnstonei em um bairro de São Paulo. Racional, um biólogo explicou a um jornal da TV que o anfíbio é prejudicial para as espécies nativas (pergunto-me quais são as outras espécies da ampla fauna de anfíbios do Brooklin...).

Ora, uma praga por definição é uma espécie bem-sucedida num ambiente diferente daquele de origem ou uma espécie autóctone que se adaptou e passou a se alimentar das plantas úteis ou belas, do ponto de vista humano. Os lindos aguapés brasileiros viraram praga em alguns lugares da África. Algumas pragas são maléficas, trazem doenças, mas o pobre anfíbio apenas quer cantar, atrair umas pererequinhas para namorar (sim, só os machos coaxam) e como são milhões, não deixam ninguém dormir à noite.

O anunciado holocausto batráquio justifica-se pelo fato de que são incômodas, pois os assobios, medidos em altíssimos decibéis, atravessam até mesmo as vidraças anti-ruído e, portanto, chateiam a espécie mais importante do Brooklin, um primata chamado Homo sapiens. 

Gás tóxico resolverá tudo, pois acabará com a invasora caribenha, mas, raciocinando com o biológo da entrevista, também matará as supostas espécies nativas que deveriam ser protegidas de sua invasão (para não falarmos dos insetos que servem de alimento para aranhas e passarinhos igualmente nativos ou não).

Daqui a pouco choramingaremos porque vivemos num deserto. Quem mandou as pererecas não serem como os pardais, invasores igualmente alienígenas mas quietinhos?


Ninguém quer ser incomodado, sobretudo por pererecas estrangeiras barulhentas, que não têm juízes para defender seus direitos coaxatórios. Nesses casos, face à indiferença e à falta de empatia, a pena de morte parece a única solução. E como são pequeninas, inofensivas e não sabem falar para se defender, quem é que vai ligar quando, após sumirem todas, juntamente com seu incômodo chiado intermitente parecido com o som de engrenagem, a paz se reestabelecer, para que possamos ouvir tranquilos as buzinas dos automóveis que passam pelas avenidas, cantando os pneus, com música de baixo nível em alto volume?

Detalhe sórdido: os anfíbios são a única classe de vertebrados em risco de extinção. Isso já é anunciado há anos. Talvez o Equador tenha ainda uma grande fauna, mas os sapos e rãs do Brasil estão com os dias contados. Com a seca dos últimos tempos, a situação piorou. Vi três sapos atropelados, fugindo de uma lagoa recém-seca na USP, sem ter para onde ir. Nesse sentido, matando as pererecas estrangeiras, só estaremos contribuindo para que os anfíbios sumam mais rápido de nosso planeta, para ficarmos sozinhos nele, comendo nosso hambúrguer e contemplando o pôr-do-sol diante do nosso lindo litoral poluído.  Na certa, mesmo com esse cenário, alguém jobinianamente dirá: como a natureza do Brasil é linda!

A espécie de perereca caribenha achou um jeito de sobreviver, não nas Antilhas, mas aqui no nosso proverbialmente acolhedor país, que a receberá, ao que tudo indica, com um banho de ácido. Assim tratamos as espécies que nos chateiam e abundam demais.

Mas calma, alertam os sapientíssimos repórteres de nossa imprensa: tudo será feito com cuidado, para não afetar a flora e a fauna nativas, igualzinho quando criamos uma hidrelétrica. Garantem-nos os jornais que especialistas, tal como Noé, coletarão exemplares de todos os animais da área a ser inundada, inclusive minhocas, proturos e dipluros que vivem sob as pedras ou nas profundezas do solo. Serão salvas, prometem os jornais, todas as plantas, inclusive o mais reles vegetal indeterminado e inútil à indústria farmacêutica. Anotarão certinho, sem a menor necessidade de voltarmos ao original, todas as inscrições rupestres e gravuras pré-históricas das imediações, mesmo as de cavernas subterrâneas desconhecidas. Todos os fósseis serão coletados, não se preocupe. Toda a vida será recriada num outro solo, com outro pH, num Ararate maravilhoso, com outro subclima. Lá os indivíduos se adaptarão felizes, num hábitat completamente diferente, sem estranhar nadinha. Isso é certíssimo. Como dizia Henfil: deu no New York Times!



Mas e se, céticos dessa competência maravilhosa, em vez disso, deixássemos as pererecas invadir toda a cidade? Teríamos apenas de conviver harmoniosamente com elas e com seu ruidoso rangido. Elas fariam parte do cenário, como a poluição, os carros e a violência, não menos incômodos. Talvez nossos ouvidos evoluíssem para adaptar-se ao barulho enlouquecedor, após longo período de adaptação, no qual teríamos de dormir de dia e trabalhar de noite. Humanos, pensem na sua própria evolução, let them be!



terça-feira, 25 de novembro de 2014

BERKELEY VERSUS NIKON

A discussão epistemológica desenvolvida na Inglaterra, sobretudo no século XVII é, para mim, a mais fascinante de toda a história da Filosofia. Nascida de um Bacon e antecedida de um Duns Scotus, o auge da polêmica, sem dúvida alguma, começa com Locke, contra o qual reagirão Leibniz e Berkeley. A mesma Inglaterra verá nascer o genial Hume e, séculos depois, Popper. No mesmo século de Locke temos Newton e, depois deles, futuros defensores, como o ácido Voltaire, e antagonistas, como Reid, defensor do senso comum. Na França, o pontapé da discussão entre racionalistas e empiristas havia nascido com Descartes e com o terrível Pascal.

Dos argumentos levantados pró e contra, tenho as minhas predileções, que não interessam nesse momento. Talvez seja inquestionável que o mais perturbador de todos esses nomes citados seja o bispo Berkeley (leia-se "Barkly"), cuja filosofia não teve sucessores à altura. Esse filósofo gerou e gera todo tipo de reação: consternação, espanto, admiração, escárnio e fingida indiferença. Todo mundo, até o comentarista mais neutro, acha que Berkeley viajou na maionese e, como que reagindo por um Abwehrmechanismus qualquer, sempre tem um adendozinho sobre o porquê do absurdo de seu raciocínio. Compreensível, mas ninguém pode acusá-lo de falta de lógica.


E é de fato surpreendente o que Berkeley faz com as palavras em seu pequeno livro. A primeira vez que li A treatise concerning the principles of human knowledge, senti-me caindo das nuvens. Os mesmos argumentos usados ali aparecem diluídos num esquisito diálogo entre as personagens Hylas e Philonous. Berkeley estava falando sério? Aparentemente sim. Aliás, é estranho fazer essa pergunta cética quando se trata do maior anticético do ocidente.

A grande questão que Berkeley ataca é a nova ideia newtoniana de que a matéria é algo real. Leitor, quer acabar com os argumentos de um ateu? Negue a matéria. Mas a realidade da matéria nos parece tão óbvia, que negá-la pareceria sinal de loucura. Obviamente, muitos ironizaram esse pensamento, mas estranhissimamente Berkeley era um empirista muito mais radical que Locke e Newton. Partindo das mesmíssimas premissas de Locke, chega a conclusões opostas. "Onde foi que cochilei?", pensa o leitor e voltará a reler em vão as passagens, procurando onde exatamente Berkeley sai do mundo concreto e familiar a todos nós para saltar num mundo completamente alheio à nossa intuição. Não , o leitor não encontrará onde está o pulo do gato. Isso porque o raciocínio de Berkeley é cristalino e terrivelmente lógico.

Berkeley era muito religioso e diz que sua obra é uma tentativa de conter o ateísmo. Imitemos seu raciocínio. O computador em que você está lendo este texto existe, certo? Como sabe disso? Oras, porque você o vê. E de fato, tudo que eu vejo, ouço, cheiro, eu penso que exista. Isso é uma verdade que parece indiscutível. E de fato, eu, você e Berkeley concordamos com isso. E se você, leitor, não concorda, não precisa nem continuar lendo. Você não pensa como Berkeley, pois acredita que está sendo enganado pelo deus maligno das ilusões que Descartes hipotetiza inicialmente para depois refutar no seu Discours de la méthode. Se as coisas que vemos e sentimos não são reais, deduziremos que Deus é mau porque nos engana o tempo todo. Deus seria o malin génie. Se você é fiel à ideia de um Deus bom, tem de acreditar que o que vê existe e que Deus não o engana. Você mesmo terá de concordar que tenho absolutamente certeza de que algo existe apenas quando estou perante algo que eu percebo existir. Esse ("ser, existir") é percipi ("ser percebido"), nos dizeres de Berkeley.


Mas dizer que algo existe não é dizer que algo é real, enfatiza Berkeley. O restaurante em que comi hoje existia totalmente enquanto eu almoçava nele. Voltando para casa, penso que continuará a existir. Tenho tanta certeza, que volto no dia seguinte, pois a comida era boa. No entanto, encontro-o demolido. Longe dos sentidos, eu acreditava tão fortemente que ele continuava existindo quanto no momento em que estava dentro dele, mas me enganava. Mas Berkeley não fala de as coisas existirem apenas para um eu cartesiano. A existência de algo não pode ser relativa.

Se este computador existe porque ele é percebido por mim, o mesmo valerá quando eu sair da sala e não mais o enxergar, pois lá, digamos, há outra pessoa que continua vendo-o. Ele existiu porque é perceptível, por mim ou por qualquer pessoa mas isso não diz nada sobre a sua realidade. Pode não ser mais percebido por mim, que estou na cozinha agora, mas continuará sendo percebido por essa pessoa que continuou na sala. Isso basta para dizermos que existe absolutamente. Portanto, o problema não é que algo existe somente se eu perceber, mas é preciso que alguém perceba. Se x é percebido por alguém, x existe. Até aí não parece que haja nenhum absurdo.



Mas alguém poderá pensar: bom, um século antes de Berkeley não havia microscópios e dois séculos antes, não havia telescópios, então não existiam bactérias antes da invenção dos microscópios e nem anéis em torno de Saturno antes de Galileu os ver? Aliás, essas grandezas infinitas, tão acima e tão abaixo de nossas percepções, entre as quais estamos ensanduichados atormentaram Pascal. Alguém, inspirado nessas questões, fez surgir aquela famosa perguntinha filosófica "se uma árvore cair numa floresta e ninguém à sua volta ouvir, ela fará barulho?" e suas variações (http://en.wikipedia.org/wiki/If_a_tree_falls_in_a_forest). Obviamente Berkeley responderia a essa pergunta que sim, a árvore existe, porque Uma Mente não-humana que a percebe  e essa mente pertence a Deus.

Assim sendo, o que há são apenas mentes percipientes e seres percebidos. A existência desses seres consistem em ser percebidos, sem necessidade de pensarmos na sua realidade material. Esses seres percebidos formam diretamente ideias nas nossas mentes sem qualquer necessidade de abstração: isto é o mecanismo do conhecimento humano, segundo o nosso filósofo irlandês.

Mas, estranho, se tudo que existe se resume, no raciocínio berkeleyano, a mentes (spirits) e ideias, a mente que percebe, por si só, seria também uma ideia? O que ela é se não consegue ser percebida por si mesma? Responde o bispo filósofo que as mentes não são seres perceptíveis, portanto não podemos conhecê-los, mas sabemos que existem. Como não temos ideia do que é a mente alheia, não me parece, à primeira vista, uma inverdade o que diz. Nessa rígida dicotomia entre mentes e objetos, a matéria newtoniana parece não encaixar-se em nenhuma das duas: a matéria não é uma mente e a matéria não é objeto. Não pode existir independentemente da relação mente-objeto se não for um objeto. A fonte disso tudo, de novo, aproveita Berkeley, perante nosso espanto, só pode ser Deus. O proselitismo não perde oportunidades.

Bom, se as coisas existem de fato - e Berkeley não o nega - só temos acesso a elas pela percepção que gera ideias na nossa mente. Nós não somos seres mas mentes percipientes. Nesse sentido, Berkeley acha inúteis conceitos como "abstração" e "realidade": that the things I see with mine eyes and touch with my hands do exist, I make not the least question. The only thing whose existence we deny, is that which philosophers call matter or corporeal substance. As coisas existem, mas a matéria, no sentido newtoniano, não existe, pois não é nem mente nem ideia. 

E ainda há mais: o mecanismo do conhecimento perpetrado pela mente não depende de nós. Não posso estar diante de uma maçã e querer ver uma pera. Nem mesmo uma pessoa que sofre de delírios tem esse poder de escolher o que quer enxergar. Não posso escolher entre enxergar e não enxergar. Se enxergo, enxergarei; se sou cego, não enxergarei. Conclui, portanto, que as ideias que aparecem na minha mente não são fruto da minha vontade, independente de serem reais, sonhos ou delírios. Concordaria com isso a senhora cega que tinha visões, mencionada por Oliver Sacks em seu livro Hallucinations,  devido à Síndrome de Charles Bonnet.


A argumentação de Berkeley parece absurda mas, num exame atento, mostra-se muito consistente. De fato, argumenta que as coisas existem para além do momento atual da percepção de um só indivíduo. Diz também que as coisas existem enquanto são percebidas e se não há quem as perceba, não deixarão de existir. E, por fim, concorda que as coisas existem na mente. A existência não depende da nossa vontade. Deus aí se ingere, no seu discurso, como detalhe necessário para a inexistência de uma matéria independente de uma mente percipiente.

Pensei na época que li Berkeley que raciocínios desse tipo só poderiam ser seriamente considerados depois dos problemas impostos pelos novos dados advenientes da invenção do telescópio e do microscópio. E de fato, o ateu Hume considerava Berkeley um grande gênio. Antes da invenção desses aparelhos, ninguém teria a necessidade de reagir contra o ateísmo dessa forma, isto é, insurgir-se contra a realidade da matéria usando tal tipo de argumento. Dizendo de outro modo, Berkeley jamais teria chegado a essa conclusão se não fosse a conquista tecnológica da época e se tivesse escrito algo antes dessas invenções, não seria considerado um grande religioso, mas um louco ou um herege.

Mas, ainda no terreno das conjecturas, imaginei que se uma outra máquina moderna tivesse sido inventada naquela época, teria dado ainda mais dor de cabeça a Berkeley, que amassaria os seus interessantes escritos e os jogaria no lixo. Por sorte, demorou mais alguns séculos para ser inventada e hoje temos o delicioso texto de Berkeley. A máquina a que me refiro é a câmera fotográfica.

Pois bem, se a foto capta a árvore, não sendo uma mente de um espírito, e, posteriormente, alguém que não viu a árvore, toma conhecimento de sua existência apenas pela sua reprodução fotográfica, ninguém negaria que essa segunda pessoa estaria de fato percebendo-a tanto quanto a primeira. Como explicar isso? Percebendo a imagem (fidelíssima, quando pensamos nas fotos atuais) de algo que existe, estabelecer-se-ia o conhecimento de sua existência, independentemente da existência de Deus ou não. Com certeza, Aristóteles não chamaria uma foto de mímesis. Uma foto não é um quadro , pintado por meio do esforço humano de uma representação, como são nossas memórias. É algo mecânico que depende de um clique. E isso tanto é tão verdade que o surgimento das câmeras pôs abaixo a pintura realista e a arte da pintura só não desapareceu porque surgiram impressionistas, surrealistas, pontilhistas etc. Uma foto, mesmo artística, está mais próxima da realidade do que uma ideia numa mente percipiente, convenhamos. E isso vale tanto para fotos banais quanto para fotomontagens ou fotos artísticas.

Assim sendo, o arrazoado racional parece sucumbir perante a verdade empírica trazida por Berkeley. Prova-se que o que existe é real. E se acha isso óbvio, porque é lógico que seja assim, você estará usando a palavra "lógico" num sentido muito popular. Não é graças à lógica e ao raciocínio que sabemos disso (porque nesse ponto Berkeley é impecável e conseguiu provar-nos o contrário), mas graças à nossa experiência, que diz que, de algum modo, a matéria independe de nossa percepção. E se não depende, por que seria necessário admitir uma Grande Mente que tudo vê? Newton, tão religioso quanto Berkeley, parece ter mais razão sendo contraditório do ponto de vista lógico. Os defensores do materialismo também. Essa intuição, nesse momento histórico, faz que Newton seja considerado um gênio.

Berkeley representa a última tentativa de argumentação racional da existência de Deus da história (tentativas que começaram na Idade Média). Só restará aos religiosos voltar à primitiva ideia de um Deus que dependa da fé tertuliana do credo quia absurdum e não que tenha algo a ver com essas bizarras discussões epistemológicas: que seria Ele, se não é um ser antropomórfico, nem uma supermente, nem o ser spinoziano que se confunde com a matéria, nem o ser que descubro fazendo o exercício de Pascal? Entende-se daí por que as portas do Iluminismo se abriram.




E quem continuará a conversa e nos responderá a essa pergunta será o religioso Voltaire, que dirá: eu não sei, você não sabe, ninguém sabe. Para ele, toda opinião humana é um espetáculo de sua tremenda ignorância. Mas ironicamente, diz-nos Voltaire, saber que ninguém sabe não nos impede de nos matarmos uns aos outros. Todos têm certeza de que estamos obviamente com a razão. E o que é a razão? Algo inútil hoje em dia.

A inteligência da qual a única espécie de hominídeo sobrevivente se vangloria e narcisisticamente imputa a nosso Criador aparentemente tornou-se inútil depois que se inventaram as armas. E isso faz muito tempo. O cérebro se desenvolveu para que o fraco animal pelado e sem rabo sobrevivesse às feras e às intempéries, defendendo-se com sua inteligência. Mas após a invenção da primeira arma, o raciocínio não vale mais nada. Quem tem razão sucumbe ao desarrazoado. De que adianta o cordeiro dizer: a te decurrit ad meos haustus liquor?

Moral da história: concordando ou não com Berkeley, eu não tenho respostas e você - surpresa! - também não tem. Mas talvez haja uma diferença entre sofrer ou não de autoengano... Você saberia dizer se já se enganou hoje? Não precisa responder, afinal isso é uma outra conversa. 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

POR QUE O PORQUÊ ESTÁ NO AMANHÃ?

O hoje não está com nada. Já amanhã, aí sim! Veremos no amanhã a explicação de tudo. Certamente não será hoje o melhor dia da minha vida, este reles dia cheio de defeitos, que amanheceu nublado, não! Mesmo que hoje tenha sido um ótimo dia, um dia ainda mais belo, o mais belo de todos, virá amanhã (e quando amanhã for chamado de hoje, será o que hoje chamamos de depois de amanhã...). Sim, no dia subsequente, após nosso sono noturno, na aurora de uma promessa cumprida! O amanhã virá, após as agruras das infinitas vinte e quatro horas que nos atormentam. O hoje não vale nada. O legal é o amanhã. Portanto, não façamos nada de substancial hoje, pois o amanhã promete! Em suma, o hoje é fichinha perto do amanhã.



Esse raciocínio é universal, porque a esperança - esse adorável defeitinho de nosso cérebro - nos empurra a pensar desse modo. Com isso, o realmente melhor dia de nossas vidas escorre pelos nossos dedos sem percebermos. Só numa profunda depressão, num amargor nostálgico horrível, damos conta disso. Mas o pensamento de que amanhã será melhor que hoje é com razão a causa de nossas ansiedades e angústias, algo de que muitos outros animais parecem livres.

Nesses pruridos confusos que se costuma chamar de mente racional, descobrimos que há causas. Mas há causas e causas. Se eu chuto a bola e ela vai para a frente (e não para trás), diremos que o chute foi a causa do movimento da bola. Esse raciocínio é tão óbvio e tão entranhado no nosso raciocínio que parece que nada pode contradizê-lo. Contudo, o bicho humano é tão doido que já houve muitos que mostraram que a coisa não é assim.

Leibniz foi um desses doidos. O chute causou o movimento da bola, ok, mas eu tive a vontade de chutar antes do chute. Assim sendo, a minha vontade veio antes do chute e foi a causa dele. Mas de onde veio a minha vontade? Que a causou? Nesse raciocínio, muitos chegaram à identificação da causa primitiva numa palavra que explica tudo: foi Deus.

O universo é algo em expansão, mas para expandir seria preciso que tudo estivesse junto e se estava tudo junto antes do Big Bang, por que necessitou expandir-se? Se no primeiro momento tudo estava numa inércia estática perfeita, porque houve a necessidade de começar a mover-se? Qual teria sido o primeiro motor? Dirão alguns, seguindo o raciocínio aristotélico: Deus.


A vontade de Deus é o que faria as coisas acontecerem. É a causa primeira, o ato de criação. E o que aconteceu antes da criação já foi objeto de especulações infinitas. Leibniz resolveu enfrentar a questão com uma solução muito original. Para ele, existe Deus, obviamente. E Deus, no seu ato de criação, criou umas coisas muito difíceis de se entender, chamadas mônadas. As mônadas não seriam reles átomos físicos. Elas estão longe do lamacento e limitado mundo físico nos seus textos ensaísticos. Parecem-se como microdeuses gerados por Deus, tão complexos quanto Ele, mas limitados pelo fato de não serem Deus, afinal de contas, Deus não deixou de existir quando criou as mônadas, mas Deus seria a maior de todas as mônadas e tem algo que nenhuma delas tem, senão, oras bolas, não seria Deus. A criação das mônadas, portanto, não é exatamente uma mitose de um deus amebóide, pois cada um apresenta dentro de si algo da complexidade do universo. E as mônadas são simples e/ou complexas, tanto faz. Tudo é mônada, sim, num discurso que mais lembra as maluquices atordoantes da filosofia indiana. Pitágoras, Anaxágoras, Nicolau de Cusa, Giordano Bruno e Leibniz devem ter fumado a mesma erva, não é possível! Cada mônada representa todas as outras, contém em si o universo inteiro, é em si mesmo um microcosmo, contém todas as leis do universo, sintetiza toda a história do universo e  - essa é a melhor parte - está tremendamente isolada em si mesmo das outras mônadas.

Sim, pois se eu machuco meu pé e ele dói, Leibniz acha que não há uma relação entre o machucar meu pé e a dor que eu sinto, pois o meu pé já estava predestinado a machucar-se e minha mente desde todo o sempre estava sincronizada, para, nesse momento, sentir dor. Portanto, deduz Leibniz, não há causa entre uma coisa e outra. Não entendeu? Normal. Não há paradoxo algum em um único indivíduo ser louco e inteligentíssimo: o que disse Leibniz, ressuscitando a abandonada causa final e o que diziam pitagóricos, platônicos e neoplatônicos são apenas indícios da encruzilhada para onde leva a loucura da racionalidade. No entanto, isso é loucura e nada mais que loucura. Ídolos, diria Bacon.



O que me deixa intrigado era a capacidade de Leibniz ser do contra. Não é qualquer um que tem a pachorra de escrever um livro como Nouveaux essais sur l'entendement humain, que só é compreensível se lermos o An essay concerning human understanding, de John Locke. A paciência de Leibniz chega ao absurdo de contestar integralmente o texto de Locke. Não há problema algum em achar defeitos na obra de alguém, mas alguma coisa está errada quando não achamos nenhuma qualidade. E a obra de Leibniz é uma resposta quase frase a frase à obra de Locke. Quando Locke morreu, Leibniz desistiu de publicar a obra. Os motivos não são claros, mas especula-se que deve ter havido alguma piedade no seu coração para com o oponente defunto ou então as questões pessoais com a Inglaterra, como a acusação injusta movida pelos newtonianos contra ele a respeito do roubo intelectual que teria cometido, possam ter pesado nessa decisão.

Fato é que somente os alemães não ignoraram a excentricidade do sistema de Leibniz, que estava associada ao seu proverbial otimismo e a uma capacidade inédita à diplomacia. Devemos-lhe a gênese daquilo que hoje chamamos de equipes de trabalho acadêmico. Eu, hoje vendo o desenlace dessas questões, admito que há gênios de todos os tipos.

O que me intriga não é a proposta em si, que revela o lado genial e criativo de Leibniz, mas algo como que um reacionarismo à visão pragmática trazida pela nova ciência da época. Esse reacionarismo é constrante na história da filosofia. Os progressos da Inglaterra na área da Ciência eram inegáveis nessa época. A feliz conjunção das ideias pragmáticas de Ockham e de Bacon com a clareza metodológica cartesiana produziram ingleses seiscentistas notáveis, como Newton e Locke, os quais alavancariam as discussões pertinentíssimas de Berkeley, Hume e, mais recentemente, de Popper. E esses autores antigos não são ateus, pelo contrário, embora talvez alguns de seus seguidores o sejam. Por que havia então tanta reação a essas ideias?

Aparentemente foi uma descoberta científica que gerou toda a comoção da discussão da época: a invenção do microscópio. Esse instrumento atormentou Pascal e puxou o freio de mão de Leibniz. Não foram os únicos. Parecia terrível que houvesse insondáveis universos minúsculos dentro e abaixo do nosso universo visível, da mesma forma que o telescópio de Galileu já havia mostrado, acima dele, universos gigantescos sem uma ordenação compreensível, tal como profetizara Giordano Bruno. Uma onda de humildade assolava esses gigantes intelectuais do século XVII que pensavam do seguinte modo: estaríamos sendo presunçosos demais afirmando que são universais as leis e as verdades na nossa ínfima zona de existência? Seríamos arrogantes demais se pensássemos que somos independentes desse contínuo atordoante? Na verdade, o homem onipotente renascentista, que tenta reerguer-se com a ciência, paradoxalmente leva uma nova chapoletada do homem mísero cristão, a criatura expulsa do Paraíso, que usa, nesse golpe, instrumentos novos, criados paradoxalmente por inventores racionais.

Motivo para sentir-se mísero não falta ao homem e essa tendência já se vê desde que os gregos, outrora tão altivos na sua ágora indefectível, quando foram dominados pelo império macedônio e pelo raciocínio persa, trazido de roldão por Alexandre. De um só golpe, todos os cidadãos se tornaram súditos. "Não" - diz esse homem vencido - "a felicidade não pode mais ser atingida hoje". Desse momento de resignação nasce o paradoxo do amanhã augurante: "contudo, no amanhã" - continuavam - "voltaremos ao estado perfeito de outrora, quer depois que eu morrer (num paraíso, do tipo egípcio), quer durante a minha própria vida, com a liberação das amarras da servidão mediante o mistério do batismo (de sangue, como queriam os taurobolistas, ou de água, como faziam os cristãos)". Não parece à toa que essas ideologias tenham florescido em impérios e não em democracias, entre súditos e não entre cidadãos.


O súdito é visto como uma criança pelo seu lider (escolhido ou imposto), o qual assume o papel de pai que constrange suas vontades infantis. Um verdadeiro cidadão, envelhecido pela experiência, não tem líder, pois sabe que sua opinião é tão respeitável e defensável como a de outro qualquer. Qualquer prática que mistura esses dois polos entre a tirania e a democracia efetiva, é algo bizarro e cheio de defeitos. No entanto, a mistura entre tirania e democracia é a regra prática sobre a qual zanza a maioria dos homens do planeta. Mas quem pensa como Leibniz, tão próximo de seres protetores que o mimam, acredita que há um absoluto, um norte que justifique sua felicidade. Seres afeitos à mordomia de um pai superprotetor são profundamente contrários à ideia da inutilidade de um destino, da ausência real de objetivos, da loucura da existência de um norte preprogramado por um ser melhor e superior. Preferem autoenganar-se para ser reles humaninhos e reles cidadãozinhos, para gozar das benesses de um tirano. Esse norte, tão difícil de se desapegar por causa da nossa preguiça e inépcia mental, é invariavelmente algo bem definido e, nas mentes infantis de tantos adultos, algo extraordinariamente claro.

Diz-se que a criança aprende a mentir logo que nasce, pois precisa do autoengano para suportar esse mundo imperfeito, tão diferente da invariabilidade do líquido amniótico em que estava imerso, como que numa eternidade feliz. O corte do cordão umbilical é o primeiro trauma do recém-nascido, que é obrigado a comer e a respirar. A necessidade de mentir para si mesmo torna-se questão de sobrevivência para essa massa gordurenta chamada cérebro, tão afeita à decepção e à loucura. A sanidade é o objetivo preprogramado pela evolução que nos orienta para entender esse mundo novo pós-uterino. Mas o mundo não nos ajuda, então, entre os objetos de nossa sanidade há algo que se convencionou chamar de absoluto. E esse absoluto parece a razão de tudo.

Mas não é, infelizmente. Não há nada além do que existe. E diariamente confirmamos isso, a tal ponto de ser quase desnecessário comprovar essa sentença. Por que será, então, que é tão difícil que convivamos com essa verdade? O que parece certo e seguro é a infinita dimensão de nossa ignorância. Mas sermos ignorantes não quer dizer o mesmo que haver algo que seja mais sábio que nós. Se houvesse, teríamos matado a charada e teríamos deixado de ser ignorantes. Seríamos, pelo contrário, bem sabidinhos.

E entre os sabidinhos está Leibniz. Pena que sofria desse autoengano. Pascal, que era mil vezes mais religioso, aparentemente percebera isso, no entanto, sofreu ainda mais, durante metade da vida, com a autotortura incessante de seus pensamentos. Será então por isso? Teremos apenas duas escolhas: ou nos autoenganamos ou nos autotorturamos? Talvez. Mas se somos conscientes disso, a experiência já nos mostrou que nascerá uma terceira via.



Pensemos: somos limitados, não há nada além (a não ser o arrepiozinho vago daquele que nos contradiz furioso) e se houver ou houvesse, não seria necessariamente melhor, nem mais perfeito, nem a favor de nós. Seria apenas algo que ignorávamos e nada confirmaria o que já sabemos, pois não há indícios, no meio de nossa imensa ignorância, que já descobrimos e conhecemos o que ignoramos. Isso me é frustrante, mas se eu aceitar isso, sem me achar mísero ou desamparado e se pensar que, apesar de ridiculamente limitado, não devo ficar deprimido nem fazer o que é contrário aos princípios morais e éticos que me ensinaram e me constituem como o indivíduo social que sou, simplesmente descobrirei que não há um legislador supremo que exerce uma justiça real e incompreensível sobre mim. Serei livre, exceto pelos meus escrúpulos e devo responder por eles por não ser um ermitão. Quando chegar nesse grau de raciocínio, pensarei que, aí sim, serei, dentro do otimismo leibniziano, senhor de meus atos neste mundo atual. Se somos os senhores, seremos responsáveis pelo que faremos hoje e pelo mundo futuro que virá após nós. Civilidade e respeito não precisam emanar, por meio de hipóstases misteriosas, de um Bem absoluto. Sabermos que não somos pajeados, nem súditos de ninguém é a única forma de falar sobre um futuro. 

Voltando-nos, como agentes, ao bem individual e comum, não mais regidos por uma causa final, seremos melhores conosco, com o mundo que nos cerca e com o mundo que virá depois. A causa final é inútil, apesar de essa bizarrice aristotélica ter sido abraçada por tantos intelectuais e ressuscitada desesperadamente toda vez que surgia uma nesga de materialismo. Igualmente inútil é a hierarquia do ser. Plotino fumou do mesmo cachimbo que Platão. 

A busca da resposta no além foi e é sempre uma opção, apimentada com a revigorante afirmação de que nosso trajeto de vida é uma soma de escolhas divinas ou das melhores orientações para nosso livre arbítrio e não uma combinação hipercomplexa de casualidades e causalidades. Todavia, se somos como máquinas, devemos ser máquinas complexíssimas. Mesmo se aceitássemos isso, não deduziríamos necessariamente daí que alguém nos tenha construído. A metáfora do relógio pára aí: não há relojoeiro algum. Apesar de complexos, somos tão previsíveis quanto um pardal que cai numa armadilha, pois nossa mente é como que um arremedo simplicíssimo da realidade, essa sim, infinitamente mais complexa, e esse foi o bicho-papão que assustou o bebê recém-nascido, quando abriu os olhos e, ato contínuo, refugiou-se no primeiro projeto de um mundo de autoenganos. Foi essa realidade, a única que nos é possível, associada ao programa genético que nos faz entendê-la, que transforma o caos em ordem.

Mas atenção: trata-se da nossa ordenação e não a ordem de fato, não é a ordem divina, senão seríamos, aí sim, presunçosos demais. Trata-se apenas de uma ordenaçãozinha de uma espécie particular dentre as milhões que já existiram neste planeta, pela qual temos especial afeição a ponto de sentirmo-nos centro do mundo e parelhos às nossas divindades, ou seja, trata-se apenas da ordenação da espécie humana a que eu e você pertencemos.