O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

sexta-feira, 4 de março de 2016

O VERDADEIRO E O VEROSSÍMIL

Um dia um rapaz jogou uma pedra e ela, voando, caiu numa vidraça. O rapaz quebrou a vidraça? Sim, o rapaz quebrou a vidraça. Mas o rapaz quis quebrar a vidraça? Não, não queria quebrá-la: jogou a pedra para cima naqueles ímpetos simiescos que temos de lançar coisas para cima, sem pensar numa consequência tal como quebrar vidraças, o que houve de fato. Poderia, porém, igualmente ter caído na cabeça de um transeunte ou sobre a sua própria cabeça. Quebrando a vidraça, afirmo que o rapaz causou um dano material? Talvez, mas tanto quanto quis causar um dano físico no segundo caso a outrem ou fez uma tentativa de suicídio no terceiro. Então, o signo paroxítono de seis fonemas e três sílabas, transposto graficamente como verdade, na nossa língua e na nossa época atual depende não só do fato, mas também da intenção por trás do ato (se o fato for um ato). Em outras línguas e em outras épocas talvez significasse algo parecido? Não temos certeza. A verdade, ao que tudo indica, não é algo simples: além da intenção, no caso acima, requer uma sociedade e uma língua que a traduza. Ora línguas são seres complexos de que os seres humanos se servem, enlaçadas em certas épocas e lugares.

Mas parece que ignoramos isso. Usamos a palavra verdade como elemento principal da ciência, da religião, do direito e da nossa vida. Reconhecemos a verdade e a mentira, na prática. E se a reconhecemos, não devíamos falar nada que não fosse verdadeiro, no entanto, a mentira existe. Não há quem possa negar. E se negássemos, criaríamos a estranha circunstância, talvez exclusiva das crianças, de nunca nos termos deparado com a mentira virando uma esquina da nossa vida. O que é muito improvável.

A verdade, portanto, é um totem para o conhecimento, para a fé, para a justiça e para o nosso equilíbrio mental. Todas essas coisas são importantes.

Não podemos dizer de maneira simples que o rapaz está mentindo, ao dizer que não jogou a pedra ou ao dizer que a janela não foi quebrada por ele ou, pior, que a janela não foi quebrada não obstante haja evidências. Provavelmente, se sabe que mente, foi o medo que o fez agir assim: algo como o medo de ser descoberto, medo de ser culpado por outros. O medo também poderá ser tanto, que é possível até que não saiba que mente. No primeiro caso, estará sendo hipócrita; no segundo, autoengana-se. E o auto-engano é mais normal do que se imagina.

Mas na falta da verdade, possível de ser ocultada por não ser testemunhada, como a célebre árvore que cai solitária sem que ninguém a veja, o que cabe é o verossímil. O rapaz estava só e disso não teremos a menor dúvida daqui em diante. Isso é um fato. A eles se somam outros dois: a vidraça, que foi quebrada naquele instante, e a pedra que ali estava. Esse é um acordo de compreensão entre mim e você, leitor.

Mas se não foi ele quem quebrou a janela, a pedra que a quebrou seria um meteoro? Seria a materialização ex nihilo de uma pedra? Ou terá sido enviada miraculosamente por um deus ou outro ser sobrenatural? Fato é que, se não somos céticos como Hume, o rapaz estava ali sozinho e a vidraça se quebrou por meio de uma pedra, que (segundo nossa experiência) não se materializam nem se lançam sozinhas contra vidraças. Resumidamente, qual a chance de esta pedra singular agir de forma tão distinta das outras pedras, com o comportamento tão distinto de toda a matéria até hoje catalogada, para concluirmos ser o caso algo sobrenatural? Não bastasse isso para dizer que a defesa do rapaz é surpreendente, encontraram-se digitais na pedra. Qual a chance de um meteoro ter criado ranhuras tão sutis que se assemelhassem perfeitamente às digitais do rapaz? Dirá qualquer pessoa de bom senso: será mínima, cada vez menor, à medida que aparecem evidências contrárias ao senso comum. E, de fato, coisas de probabilidade mínimas podem ocorrer, mas sua justificativa não tem verossimilhança. O verossímil é o mais próximo que temos da verdade.




O filósofo brasileiro Leônidas Hegenberg já nos alertou há tempos sobre o tríplice significado da palavra "verdade". O que une fatos à exclusão do inverossímil, para a ciência, é o que os gregos chamavam de alétheia. A verdade de uma reconstrução de um ato é o que os juristas latinos chamam de veritas. A verdade que envolve nossa confiança moral em Deus é o que em hebraico se chama de emunah. No primeiro caso, fala-se de evidências, no segundo de probabilidade e no terceiro de fé. O que chamamos "verdade" pode ser metaforizado como um doce que não podemos parar de mexer, para não desandar. Os três ingredientes desse doce são esses três conceitos cunhados em épocas e sociedades distintas. O verossímil é um doce que improvisamos, na falta de um desses ingredientes ou na quantidade não ideal para se fazer o doce perfeito. E é no verossímil que se deve basear a justiça, pois a verdade pura é inalcançável, por ser algo múltiplo e abstrato, como o que quer crer o ceticismo de Hume.

Nesse ponto, Hume, aliás, é tão perturbador - talvez mais do que a sua fonte de inspiração, o crente Berkeley - que foi preciso nascer Kant para salvar a filosofia do conhecimento de um colapso total, colapso maior do que o já havido entre os sofistas na época de Platão ou nas desilusões decadentistas durante o período alexandrino, romano e medieval. A partir do raciocínio de Hume não se pode falar sobre a justiça, pois ele fechou as portas da filosofia. Kant tentou reabri-las e teria conseguido com seu gênio, se não fosse uma horda de loucos atropelá-lo no vestíbulo da mansão filosófica. O resultado é que ainda hoje estamos nas suas trevas, algo difícil de aceitar pelo homem ultramoderno. As respostas da filosofia acabaram no século XVIII. E o que se segue não é a mesma coisa, pois se centrou na ética e na existência, questões que infelizmente nunca serão respondidas.

Isso não quer dizer que a verdade seja vã. De modo algum. A verdade, com sua capacidade adaptativa proteica ou quase viral, hoje é o centro das discussões filosóficas sobre ética e existência. Mas de que verdade se fala? Os três elementos do doce, no seu eterno remexer na panela, pendem cada hora para um lado e, nessa polissemia, adquirem tons mais fortes, seja na revelação que os fatos nos apresentam, seja na verossimilhança do relato, seja na confiança moral que depositamos em quem relata. Em suma, é difícil avaliar se algo é verdadeiro somente pelos fatos, pela reconstrução da ação ou pelo valor daquilo que está perante nós, pois cada um desses três elementos mudam incessantemente nosso ânimo de forma pouco racional. Que fazer se, ao apelarmos para o racional, envolvemos um ato extremamente irracional de um ser que vê o mundo sob o exclusivo ângulo de sua espécie?



Então o rapaz jogou a pedra e quebrou a janela, só ele sabe disso. Mas teme as consequências e diz que não foi assim. Mente. Sabemos disso ele e eu, que escrevi este texto e inventei essa situação. Você que lê também sabe, porque eu contei. Mas observe, que curioso: fingimos cumplicemente que eu não existo e que você não sabe, senão meu raciocínio não será acompanhado por você. Somente esse acordo entre mim e você, leitor, permite que imaginemos o rapaz jogando a pedra, quebrando a janela e mentindo.  O "suponhamos que" da lógica, o "dado que" da matemática, a cumplicidade de um romance são formas variadas desse fingimento ou dessa ficção, chame como quiser. Mas nos pressupostos de um diálogo e no dia-a-dia, não temos acordo algum. Ou seja, só podemos saber que existe uma mentira na fala do rapaz por meio dessa espécie de má-fé semiconsciente acordada entre nós, na qual podemos abstrair e ver os fatos tais como são. Ora os fatos não dizem nada por si e, se continuarmos nesse raciocínio, chegaremos a Hume. Como o relato sempre tem chance de ser mentira, sempre teremos dúvida. A dúvida é a essência da verdade empelotada na panela como alétheia.

Ok, nunca saberemos se o rapaz jogou ou não a pedra ou se, jogando, quebrou ou não a janela, pois ele tem a opção ou o impulso auto-enganoso de mentir. Assim sendo, nossa busca da verdade deve mexer ainda mais a panela e agora a coloração do doce aponta para outro ingrediente: a veritas. Procuram-se indícios outros além da pedra, da janela e do relato. As digitais, por exemplo, poderão dizer que está mentindo, como vimos acima. Na falta delas, outros dirão que esse rapaz tem mania de lançar pedras para o ar, que já o viram fazer isso, que faz isso com frequência. Ou, pelo contrário, que nunca teria feito algo tão gratuito e impensado quanto jogar a pedra numa janela. Outros ainda, poderão obviamente mentir sem provas que já foram vítimas de seus apedrejamentos. Enfim, os novos fatos se somarão e reconstruiremos o estado de espírito do rapaz e sua relação com pedras e janelas. Os diversos relatos se sobrepõem e, alguns serão verossímeis, outros não: tanto sobre o fato de ele ter jogado ou não a pedra quanto se, tendo jogado, fez isso intencionalmente ou não. Essa verdade é mais difícil, porém, mais útil. E para a reconstrução Hume talvez não seja o mais indicado. Essa conclusão serve de alento à filosofia, que se sente ainda viva. É esta a verdade filosófica que hoje se procura. A primeira é caso encerrado, pois será sempre a mesma solução: o niilismo. Entende-se o porquê do divórcio da ciência e da filosofia. A primeira, sempre procurou, desde os gregos, a alétheia e gerou a guerra infinita entre a dedução e a indução. A segunda procura a verdade sob a forma de justiça, a verdade como veritas. 



Mas isso é pouco.

O rapaz diz: "joguei a pedra, confesso, mas foi sem intenção". A verdade se estabelece. Os fatos se encaixam. Parece haver solidez entre o que alétheia levanta e o que veritas julga, a tal ponto de falarmos impropriamente que há aí uma única verdade. Mas falta algo. Algo imprevisto e fruto talvez de um elemento obscuro persa que se travestiu de neoplatonismo cristão. Uma verdade ainda mais curiosa. E, espanto, não houve até hoje um Hume que a separasse da veritas. Os ateus exsurgentes não conseguiriam. O rapaz não fez de propósito. Todos sabemos. O outro lado da verdade é que ele não queria. Terá talvez de pagar a janela, mas, ninguém diria que não é um bom rapaz, exceto seus inimigos. Mas, fato é, que mesmo tendo feito sem querer, fez. Enfim, a confiança é algo que pode ser restaurada ou não e o perdão não restaura a confiança da mentira, por mais que, com pena do rapaz, nos coloquemos como medrosos no lugar do quebrador de janelas. Fato é que, distraído, poderá quebrar outras janelas, lançando outras pedras para cima. Fato é que poderá sempre falar mentiras. Essa verdade de que não é um quebrador de janelas, verdade enquanto emunah, que se pauta não nos fatos, nem nas reconstruções, mas na confiança, não se restaura depois de uma mentira, a menos que não tivéssemos a memória. Mas temos. Tudo indica que sabemos que, nesse caso, não teve a intenção de quebrar as janelas, mas o mesmo caso aponta que provavelmente será distraído: a sua inocência não o fará quebrar outras janelas, pois seu impulso de jogar pedras para o alto está além do seu raciocínio e pregado na espontaneidade de como trata o mundo de forma tátil, pegando pedras nas mãos e jogando inconsequentemente para o alto.

Só a prova torturante de que a confiança foi perdida faria alguém autoconsciente não voltar a fazer o que costumava fazer ou que fez. Enquanto esse trauma não se instala e se mostra real nas ações, não haverá o lado emunah da verdade. Esse é o nível mais difícil de ser atingido e a razão pela qual o perdão cristão não é algo que seja universalmente aceito, pois útil ele é, convenhamos. Todos sabemos que há oportunistas que se beneficiam do perdão. Existe a reincidência. Existe a hipocrisia. Esse é o ponto mais complexo que a filosofia poderia discutir hoje em dia. No entanto, a filosofia se separou da ciência no século XVII mas não se separou da religião até hoje. Pensa conseguir dialogar com a ciência, muitíssimo dela já apartada, mas só consegue dialogar com questões comuns da religião, a saber, ética e existência. Nesse ponto, hoje estamos tal como na Idade Média e o máximo que se conseguiu depois de duas guerras mundiais foi um relativismo inútil e solipsista, que se demole aos poucos e perde rapidamente terreno, no Ocidente, mediante a violência dos dogmáticos, que representam nada mais que a regra da nossa espécie autointitulada racional ao longo das longas eras da humanidade.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

O CÍRCULO DAS MUTAÇÕES

Ninguém negará que todo ser é algo. Um dia, paulatina ou bruscamente, todo ser deixa de ser o que é e passa a ser outra coisa. Em resumo, o ser é e um dia deixa de ser.

Isso pode ser motivo de orgulho: o ser deixou de ser o que era. Ou motivo de vergonha: o ser não é mais o ser que era. A maioria absoluta dos seres deixam de ser sem qualquer avaliação, mas nós não somos assim: a essência do homem é julgar.

O ser deixa de ser o que era. Evoluirá, melhorará, pois ainda não era o que queria ser. Sendo agora outra coisa distinta do que já foi, olha para trás e diz altivo e satisfeito: "fui, já não sou, sejam como eu". Ou então o ser deixa de ser o que era. Decairá, piorará, pois já foi aquilo que não é mais. Sendo agora outra coisa distinta do que já foi, olha para trás e diz saudoso e triste: "fui, já não sou, não sejam como eu".



Os seres que evoluem ou os que decaem orgulham-se de dispor de uma consciência que lhes mostra quanto tem melhorado ou quanto tem piorado. Sobem a um púlpito e relatam sua ascensão ou queda. Tornam-se exemplos a ser seguidos ou a ser evitados.

Mas o ser que se orgulha ou se envergonha daquilo que já foi é completamente distinto do ser que não sabe que mudou. O ser inconsciente não percebe a sua própria mudança. Ele pensa sempre ser. Não acredita na possibilidade de um dia deixar de ser o que é, muito menos de já ter deixado de ser há tempos. Não acredita que melhorou, pois sempre foi bom. Tampouco acredita que piorou pela mesma razão: sempre foi bom. Que ser inconsciente não acreditaria na bondade de sua essência imutável? Entendendo isso, entende-se Platão. O ser e o bem se confundem quando a mudança não existe. Se o ser era bom e se torna mau, acredita sempre ter sido bom. Se era mau e se torna bom, acredita nunca ter sido mau.

O primeiro não aceita a sua mudança. O segundo nega para si seu passado mau. É isso a má-fé.

Que ser acreditaria sempre ter sido mau se um dia foi bom? Quem se creria eternamente mau ao tornar-se bom? Parece paradoxal a experiência de que nada permanece deteriorado eternamente num ser realmente inconsciente das mudanças. E qualquer nesga de consciência, nesses casos, subitamente emergida de um ser inconsciente, parece ser uma dolorosa e nauseante verdade, equivalente à primeira mordida do fruto do Paraíso. Verdade que beira o insuportável, por isso evitada, de natureza quase diabólica.

Se o ser inconsciente não acredita que piorou, tampouco acreditará que melhorou. E sendo bom ou mau, às vezes não consegue avaliar se melhora ou piora a cada atitude, pois lhe falta a dolorosa consciência, a qual permitiria que julgasse as coisas como são. Entra aí o olhar do outro que julga a sua inconsciência de fora e redige, depois disso, o seu veredito.

Esse julgador é um ser como qualquer outro, consciente ou inconsciente da mudança. Se consciente, sabe que há mudança no ser julgado e sabe também que ele, enquanto julgador, também é um ser mutável. Se inconsciente, o ser julgador não sabe que o ser julgado muda, tampouco que ele mesmo, julgador, pode um dia mudar ou ter mudado.

Mas há situações muito comuns que geram consequências para além da coerência lógica que vinculam a mudança à consciência.

Há seres conscientes que se sabem mutantes, mas não aceitam a mudança alheia.
Há outros seres conscientes que se sabem mutantes, tanto quanto os seres julgados, mas fingem a imutabilidade de si, do outro ou de ambos.
Há seres que não se imaginam mudando, mas admiram-se com a mudança alheia.
Há seres que não se imaginam em mutação e, portanto, não aceitam a mudança de nada, por mais evidências que tenham das mudanças alheias a si.

Tanto a consciência quanto a ausência dela, portanto, geram situações para além da sua visão de ser, projetada ao outro como idêntica a si. Esse julgamento advém de conflitos, maravilhamentos, intolerâncias e má-fé.



Nada disso ocorre se no julgamento proferido do julgador for declarado que o julgado é idêntico ao que julga. Mas que seria julgado por mim acerca daquilo que eu sou?

Dessa forma, o julgador, sabendo que o julgado não é ele, julgador, volta-se para o julgado como melhor ou pior que ele, julgador. E daí nascem o conflito, o maravilhamento, a intolerância e a má-fé.

No conflito, a suposta mera diferença de essência entre o julgador e o ser julgado é suficiente para o veredito, tão logo seja detectada.

No maravilhamento, posterior à detecção da distinção, conclui-se que a diferença do julgado em relação ao julgador é boa, inofensiva, útil e bela.

Ao contrário, na intolerância, a diferença emergente aponta para o lado oposto: é má, deletéria, inútil e feia.

A má-fé, longe de ser excepcional, contudo, é o último passo a ser dado. A diferença não é vista apenas como óbvia, boa ou má. Independente do julgamento consciente, perverte-se para o oposto: se é óbvia, torna-se oculta; se é boa, procura alguma maldade; se é má, evidenciam-se qualidades boas. Se essa perversão é inconsciente temos o auto-engano. Se é consciente, temos a hipocrisia.

Assim sendo, no conflito, no maravilhamento, na intolerância e na má-fé, nada que é oculto se torna óbvio, nada que é bom se torna mau, nada que é mau se torna bom. Enfim, o julgamento sequer se efetua e, se se efetuou, foi pervertido.

Se a perversão faz parte do raciocínio de quem julga acerca daquilo que se julga, quem deve julgar esse raciocínio? Um outro julgador? Algo que está além do ser? Mas esse ser para além do ser pode ser, como qualquer outro ser, mutável ou imutável, ou pior, consciente ou inconsciente da sua mutabilidade ou imutabilidade. Aparentemente, o julgador do julgamento não é muito distinto do julgador do julgado, a menos que nele não haja conflitos, maravilhamentos, intolerâncias ou má-fé.

Mas isso é impossível, pois tal ser seria inconsciente e, por isso, não poderia ser julgador e, portanto, nada para ele seria bom ou mau. Nada mudaria, de fato, no seu julgamento supremo, pois o ser jamais deixaria de ser: tanto o seu próprio ser quanto o do outro.

Na impossibilidade de haver um ser que julgue o julgamento, os únicos julgadores que há, como sempre e para sempre, julgarão os julgados. Ao julgarmos os julgadores, julgaremos que seu julgamento reflete algo de conflituoso, de maravilhoso, de intolerante ou de pervertido. A justiça do julgamento é solicitada, mas não havendo julgadores de julgamento, o que resta é observar que o que julgamos imaginar como nosso julgamento é, na verdade, uma opinião, ou seja: não julgamos de fato o julgamento, pois o julgamento agora é, na verdade, o que está sendo julgado e nós nada mais somos que novos julgadores.

Acima de nós, portanto, haverá outros que julgarão os nossos julgamentos e, nesse momento, nosso julgamento será julgado e o julgador, vindo de fora, assim como fizemos há pouco, nos anulará, como anulamos o primeiro julgador.


Em suma, o julgador não importa: basta o julgamento. A ele sempre estará vinculado um julgador qualquer, alheio e num nível acima do que se pautou o julgamento e a ele exclusivamente caberá a justiça que declara o conflito, que cala maravilhado, que reage intolerantemente ou que perverte com má-fé.

O círculo se rompe apenas artificialmente mediante acordo ou violência, mas esses são apenas expedientes corriqueiros e práticos do julgar humano, nascidos da insatisfação e da impaciência que causa o ciclo infinito entre o resultado conhecido como julgamento e o elemento alheio de um segundo julgador que não participara do julgamento inicial. A consciência da inutilidade do círculo infinito ou a má-fé que propõe uma saída alternativa para o dilema são as únicas razões levantadas. de fato, mas é possível detectar facilmente que se tratam de elementos externos e alheios às verdades da mudança do ser, da existência de uma consciência, da inevitabilidade de um julgamento.

Assim, os artifícios, conquanto úteis, são impostos. A violência, ainda que eficiente, não deriva logicamente da justiça e o acordo, ainda que legítimo, é apenas uma demonstração de cansaço da consciência do ciclo infinito, causado pelo julgador alheio ao julgamento previamente estabelecido.

domingo, 31 de janeiro de 2016

EXPRESSÃO E CONTEÚDO

Quando era estudante de Linguística, ouvi que Saussure havia descoberto que a língua se compunha de signos e que esses eram uma junção de significantes e significados. Alguns estudantes mais velhos que eu falavam de Peirce, como alguém que teria pensado além, com seu signo de três faces. Do jeito que aprendi, parecia-me (e talvez a muitos que me falaram tais coisas) que Saussure era um sábio no princípio de uma nova era e que Peirce era um questionador revolucionário. Muitos anos depois, apaixonei-me pela Historiografia da Linguística e pela questão de como ideias são transmitidas de forma enviesada e simplificada, para não dizer errônea, às vezes fruto de má leitura, às vezes de algum entusiasmo político ou simplesmente da infalível obtusidade de quem se arroga superior por ser a única espécie racional do planeta. Mas a racionalidade sempre tem dois lados: um deles, a inteligência, que não se confunde com a razão, o outro é a burrice, que nada mais é que uma de suas facetas mais fascinantes. 



De fato, Peirce, quase duas décadas mais velho que Saussure, ressuscitara uma ideia antiga, que se encontra em Locke, nos medievais e começa, ao menos historicamente, nos estoicos. Foi nessas águas remexidas por Peirce e por outros que Saussure pautou suas famosas aulas, transcritas por alunos que o veneravam. No entanto, transmitidas por bocas alheias, não eram suas as palavras, nem poderiam ser. O resultado atual é curioso: aquilo que é mais conhecido de Saussure não é 100% dele. Isso só foi piorando com a boataria intelectual: Saussure obviamente não inventou o signo linguístico. Por que então tanta gente inteligente ou dedicou sua vida toda a defender algo que lhe foi mal contado ou, motivada pelo espírito que nos faz gostar de ser liderados, defendeu o indefensável mesmo sabendo que tudo repousava apenas em artifícios imaginários que nos dão segurança, algo típico do inseguro e do fanático? 

Hjelmslev, por exemplo, diz que Saussure era "pioneiro indiscutível" e "o único teórico que deve ser citado", ignorando todo o século XIX, mesmo os seus antigos colegas dinamarqueses, cuja tradição em linguística remonta ao século XVIII, entre os quais vem à mente uma larga tradição de personalidades, como Rask, Nyrop e Jespersen. 

Saussure não fundou a Linguística, termo que circulava desde o século XVI. Já havia até mesmo livros sobre Historiografia da Linguística, como o de Benfey, publicado quando Saussure tinha 12 anos. Tampouco inventou a Linguística Geral, termo que já era usado décadas antes de ele lecionar essa disciplina em Genebra. Quando era uma criança de sete anos, já havia uma Société de Linguistique de Paris, à qual o jovem estudante Saussure se afiliou e onde se destacou. Ainda apreciando anacronismos, não poderia ter sido Saussure quem ensinou semântica ao seu mestre Bréal, vinte e cinco anos mais velho, nem é do genebrino o entendimento de que a língua é uma instituição social, pois isso já estava nos escritos de Whitney, trinta anos mais velho que ele. 

Por ser um feroz leitor de temas para além da linguística da época, como a sociologia e a psicologia, pode-se afirmar que quase nada do que está no Cours de linguistique générale é original, apesar de ser inquestionável a genialidade de Saussure, um indoeuropeísta, cujos insights não foram compreendidos senão anos depois de sua morte, após a descoberta da língua hitita. Genialidade, contudo, que foi parcamente registrada pelo seu próprio punho e, mirabile visu, não foi reconhecida, senão por poucos, pelo que realmente escreveu, como seu Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes

Didático e exigente, Saussure alimentou a admiração dos seus alunos, que publicaram (e distorceram involuntariamente) suas aulas. A excelente e já antiga edição crítica de Tullio de Mauro do Cours já punha os pingos no is anos antes mesmo de eu estudar Linguística. Por que aprendi errado, então, e só às custas do meu esforço consegui desaprender? O ensino serve às vezes para desinformar e confundir? Enfim, por que ser genial é quase sempre considerado sinônimo de ser original? Isso não seria demasiadamente hegeliano e romântico? O próprio De Mauro não esconde a sua paixão pelo mestre de Genebra respondendo a essas perguntas ambíguas. 

Quando, na pós-graduação, fiz uma disciplina sobre História de Roma, algo aconteceu, que muito me impressionou. Num dos seminários, uma aluna mostrou com enorme riqueza de detalhes que, no Império Romano, durante a transição do principado à monarquia absoluta, o Cristianismo sofreu um verdadeiro sincretismo com ritos e lendas pagãs. Jamais tinha ouvido falar do mitraísmo e não havia associado com tanta clareza a ideia de que os valores cristãos eram tão parecidos com os do Neoplatonismo, seu rival pagão. A moça, não fosse eu na época já ateu, me teria facilmente convencido de que havia falta de originalidade e sentido na inspiração divina da mensagem cristã, dada a quantidade de informações irrefutáveis que apresentou. Mas, crucifixo pendurado ao pescoço, fez questão de concluir sua brilhante apresentação afirmando sua fé particular em um Deus todo-poderoso, criador dos céus e da Terra e em Jesus, seu filho. A mesma sensação de perplexidade eu tenho lendo o estupendo The case of God, da eruditíssima Karen Armstrong. Por que existem pessoas que conseguem levantar dados históricos de forma tão genial mas não combiná-los com sua fé e vida pessoal? Isso sempre me causará extrema perplexidade.



A isso não chamo burrice. Fazer um esforço hercúleo para testar seus valores, questioná-los e superá-los é o que o símio humano tem de mais louvável e incrível. Conseguir combinar harmoniosamente seus próprios valores com a diferença é talvez o elemento admirável de nossa espécie. É o que justifica os nossos neurônios a mais. A burrice é outra coisa. É atitude dos que se recusam a olhar pelo telescópio na peça Leben des Galilei, de Brecht: os avessos à inteligência aliam a fragilidade existencial à pura falta de esforço para ter a informação adequada. E se eu achasse que existe de fato pecado, essa combinação, para mim, seria o maior de todos os pecados. É isso que alavanca o ódio e os gestos assassinos mais frequentes do mundo. É isso que impede a comunicação mais do que a barreira natural das línguas. Há limitações naturais, sabe-se, mas elas, creio eu, podem ser superadas por estratégias que minimizam sua exposição e pelo esforço do autoconhecimento, que evita o auto-engano.

O mundo moderno está empapuçado de tanta informação. Dá uma preguiça danada informar-se e acreditamos numa osmose emanada das redes sociais. A informação está aí, escolhemo-la como num menu. O conhecimento hoje em dia é self service. Assim sendo, não acredito que a burrice seja mais um traço nacional de que nos devemos orgulhar. No Brasil estamos numa cilada terrível: por um lado, a opinião emanada de políticos que falam coisas sem pensar, sem pesquisar, sem considerar a inteligência do ouvinte. Por outro, a informação mal feita de uma oposição que acusa a situação. 

Mais do que a desarticulação da expressão da presidente, acusada por Celso Arnaldo Araujo, impressiona-me a sua falta de conteúdo. Lapsos de expressão cometemos todos nós, a mim mais do que eu desejaria. E nesse quesito, os chamados erros de expressão são algo que só se justificam por meio de uma leitura vaugelasiana da gramática. Quem não diz "comê"? "Falá"? "Cantá"? Basta que sejamos gravados desatentos e que nos ouçamos depois. A falta do -r do infinitivo é a regra do português brasileiro, somente rompida na solenidade de discursos, onde pode parecer inadequada, mesmo assim apenas ao ouvido mais sensível e obcecado com o fato. Além disso, aparentementente, pela expressão falha não se atinge um conteúdo falho. O conteúdo falho se manifesta sim em atos questionáveis: mesmo que a expressão seja a mais capenga, arrevesada, contraditória e pleonástica, ela pode conter algo inteligente. O que nos faz perceber a falta de inteligência é a ausência do ato inteligente. Mas a atitude normativa das gramáticas desde o século XVII parece ter ódio à diversidade de expressão e para cada uma tem um carimbo. 



O conteúdo é manifestado, como dissemos, parte na expressão, parte na ação e é na ação que podemos flagrar a inteligência do conteúdo e não na expressão. Tomadas de decisão é que, de fato, parecem ser a janela de nossa alma. Assim, cansados da embromação de ministérios e de outras autoridades, surgem a histeria e o desejo de extermínio, perante um inimigo de alguns centímetros que transmite febre amarela, dengue, chikungunya e zika, a qual tem gerado fortes suspeitas de vínculo com o pavoroso aumento de microcefalia nas Américas e no Brasil em particular. Nossa espécie pouco afeita a perder seus privilégios, diante de algo que não está bem, evoca com facilidade uma Endlösung.

O medo do desconhecido é o mais conhecido medo que temos. É ele que nos faz declarar como ameaça à nossa existência o bichinho que Lineu chamara de Culex aegypti e que mudou, de forma tortuosa para Aedes aegypti (e que deveria se chamar, desde 2004, de fato, Stegomyia aegypti, se critérios atuais de nomenclatura fossem, de fato, respeitados). Jornalistas, querendo enfatizar as já conhecidas contradições e inconsistências das declarações institucionais, partem da nossa mais nobre capacidade intelectiva, a generalização, para afirmações que se espalham mais rápido que as doenças acima referidas. Uma vez que a pressa da imprensa quase nunca permite que afirmações sejam pautadas em pesquisa e muito menos em análise, amiúde faz isso de forma desinteligente, lançando um facho de escuridão juntamente com a informação, que deveria iluminar.

Anteontem, o Jornal Nacional anunciou que havia sujeira no Palácio da Alvorada (http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/focos-de-mosquito-sao-vistos-metros-do-palacio-da-alvorada.html). Grande novidade. Há sujeira no país todo. Nunca fomos uma Áustria ou uma Suíça. Outro dia vi em minha rua um ecocaminhão de coleta seletiva, verde, com dizeres lindos sobre lixo reciclável e sustentabilidade, cujo motorista, na minha frente, jogou um copinho de plástico com resto de café bem na calçada. Brasília mesmo, cidade da reportagem acima mencionada, construída para ser sonho e não decair como a antiga capital Rio de Janeiro, mesmo que rodeada de periferias que nada se assemelham ao platônico Plano Piloto, não poderia ser exceção à nossa falta de educação. A reportagem seria apenas inócua, mas, feita para chocar, como se já não tivéssemos motivos suficientes com o cenário político, teria de fato chocado se não fosse uma tremenda e imperdoável falha jornalística que me tirou totalmente a atenção do seu conteúdo:  aos 1:10, a voz do repórter diz "E na casa da presidente Dilma Rousseff? No Palácio da Alvorada encontramos mosquitos no Espelho D'água. Não é o da dengue, mas serve de alerta".

Não, nessa cena rápida, esses bichinhos olhudos que estão nadando de costas não são mosquitos. E se não são mosquitos, não são os da dengue, obviamente. Se ele tivesse visto araras, não seriam araras da dengue, com certeza. Os bichos que o incauto repórter viu especificamente nesse espelho d´água nem de longe se parecem com mosquitos. São vorazes hemípteros notonectídeos. Provavelmente jogaram larvicida para matar o coitado do bichinho que nada tem a ver com doença nenhuma. Ou seja,  pensei naquele instante, qualquer inseto é sinônimo de sujeira? O ideal seria estarmos livres de todos eles, mesmo dos que se alimentam dos nossos inimigos, como deve ser o caso desses que foram confundidos com mosquitos? Postei um comentário no site. Outro rapaz afirmou que eram larvas de libélula. Não são. Nunca vi larva com asa, muito menos nadando de costas. O desgosto da burrice me fez pensar: o repórter, o rapaz e eu estamos dizendo coisas distintas, ora, é óbvio que, nesse assunto, sou eu quem está com a razão (basta pesquisar a palavra "Notonecta" no Google, leitor incrédulo). Como fazer para que uma opinião com conteúdo se distinga de trilhões de outras sem conteúdo que só servem para confundir? Parece que vivemos, com o excesso de informação, apenas numa coleção de expressões sem conteúdo julgável: todos parecem ter razão embora muito poucos a tenham.

No dia seguinte, esperei em vão pelo "erramos" do William Bonner. Era a vez de Chico Pinheiro continuar a reportagem e verificar a promessa do Ministro da Saúde, Marcelo Castro. Houve outras reportagens sobre o mesmo tema, nesse mesmo dia, mas o que apareceu numa delas me chocou ainda mais. Não é que aos 0:59 mostrou-se um girino como se fosse uma larva do Aedes aegypti?! Veja como seus próprios olhos: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/mutirao-de-combate-ao-aedes-aegypti-e-realizado-em-250-cidades-de-sp.html


E pior ainda - rir para não chorar! - a mocinha agente de Saúde que quer conscientizar a população de São Bernardo do Campo sobre o perigo da água parada está vestida de mosquito ou de libélula? Afinal de contas, a fantasia dela tem quatro asas e o tal vilão alado, como qualquer díptero, tem apenas duas. Nas aulas de biologia aprendemos que mosquitos e moscas têm duas asas e dois balancins pequenos e não quatro asas desenvolvidas, mas, pelo jeito, os agentes de segurança não reconhecem o facínora que procuram e estão caçando outros insetos. 

Pode parecer detalhe besta mas não é. Isso nos dá a medida exata de nossa ignorância atual e o quanto não sabemos sobre aquilo de que temos mais certeza, a ponto de não pormos em dúvida o que vagamente sabemos, nem checar nada, antes de dar nossa opinião. Ou seja, nunca pensamos que pode estar errado aquilo que nossa mais profunda convicção nos faz imaginar certo.

Ora, são essas profundas convicções as causas de nossos atos mais impensados. Toda consequência irracional vem de uma profunda racionalidade equivocada. Radicalizando, toda violência (verbal ou com sangue pingando tanto nas mãos quanto nos machados) vem da mais abjeta ignorância. Deveríamos cuidar para que nosso lado pouco inteligente não aflore subitamente. Deveríamos cuidar ainda mais para que não aflore o tempo todo. O único remédio é o estudo das fontes certas. Ora, quem sabe falar sobre inseto? Bons entomólogos. Por que satisfazer-se com o palpite de um ilustre que não tem especialidade naquilo sobre o que discorre? Não é à toa que o niilismo, o relativismo, a indiferença e a boçalidade tem sido a regra deste século de maravilhosa democratização da informação. 

Se racionais todos somos, é preciso aprender a ser inteligente. Isso não vem no nosso DNA. Requer um pouco de esforço diário.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

EVOLUIR SEM PROGREDIR

Ando chateado, pois desde que a revista em que escrevia foi extinta por causa da crise atual, perdi meu ritmo mensal ensaístico, tal como se pode ver pelas frequentes interrupções das postagens mensais de meu blog, mas planejo retomá-las ano que vem com a mesma periodicidade antiga. O dia-a-dia também se me mostrou bem cruel neste ano de 2015 e em janeiro já sabia que não haveria este ano em minha vida, tantas foram as atribuições, tarefas e compromissos de minha agenda.

Por causa da ressaca de 2015, que está já no seu fim, talvez deva escrever, por falta de melhor assunto, algo sobre uma micropolêmica surgida do conhecimento casual da pouca opinião que há sobre as minhas linhas. Já faz um bom tempo, uma amiga me disse que um amigo dela começou a ler meu blog e ficou chocado com algo que escrevi. Opiniúdos e opiniosos há por toda parte, mas o que me espantou foi que ela dizia que ele achara estranho que eu tivesse dito (talvez mais de uma vez) que não entendia Hegel. Um professor universitário não pode dizer isso, dizia. Claro que posso, ri.

Mas talvez por "entender" ele tenha entendido outra coisa. Sou obviamente limitado como todos o são, mas ao confessar não entender Hegel não quis dizer que sou limitado a ponto de não tentar entender o que Hegel diz. Pelo contrário, se me destaco por algo é pelo meu esforço para entender o outro, muitas vezes frustrado porque as regras do jogo proposto pelo outro, na maior parte das vezes, não são expostas, mas inferidas. Mas se é assim na vida, não é preciso que seja na exposição do filosofar.

Hegel me impressionou quando era jovem, mas hoje em dia, de fato, tirei-o de cima do pedestal do meu jardim dos grandes filósofos e coloquei-o no chão do lado do bebedouro dos passarinhos. Sem dúvida, trata-se de um filósofo com magnífica verve. Nietzsche também o é e nunca me incomodou, porque a proposta de Nietzsche é ser pura verve. Mas o que me chateava à medida que entrava no cipoal das imagens de Hegel é que ele queria querer me ensinar algo e ao mesmo tempo não queria que eu estivesse ali. Como não tenho talento para ser cuspido, perguntei-me sobre o porquê de sua atitude.


Qualquer um fica impressionado quando Schopenhauer azedamente chama Hegel de impostor. Não chego a tanto, até porque não o conheci pessoalmente para fazer esse julgamento. Nem é por isso que preciso tomar partido em relação a um dos dois grandes filósofos, tão diferentes um do outro. Não sei se Hegel foi um impostor, se reciclou ideias de Fichte, de Schelling e dos gregos que conhecia tão bem, fazendo-as suas. Se fez isso, por mais que o culpássemos por infringir o dogma romântico da criatividade, sua escrita continuaria tão original que não parece justo reduzi-lo plagiário. Quanto ao que sinto hoje em dia por Hegel, só posso apresentar sob a forma uma admiração murcha. Vejo-o a distância, tal como aconteceu com outras figuras e obras pelas quais minha primeva ignorância alimentava alguma admiração simbiótica. O meio dizia que Hegel era legal, eu concordava. Até que o enfrentei, com todo o respeito e com a melhor das boas intenções.

E não eram quaisquer pessoas que aumentavam em mim a promessa de encontrar na leitura de Hegel um portento: eram os escritores que mais me haviam influenciado e moldado meu modo de pensar. Penso que, indiretamente, até mesmo meu estilo, que julgo tão meu, veio indiretamente daqueles que amava, os quais por sua vez amavam Hegel. Aquela coisa de tese, antítese e síntese me arrepiava e me dava óculos para ver tudo, enquanto não havia lido Hegel de fato. Sim, pensava, Hegel bebera decerto em alguma fonte divina para ter tido essa ideia genial.

Quando descobri que tinha talento para epistemologia lendo e compreendendo Locke, Berkeley, Leibniz, Hume, Popper, entusiasmei-me. Cheguei a Kant e tive a real dimensão da minha limitação, pois Kant também me cuspiu de seu texto na primeira leitura. Não que Kant seja inacessível, não é isso. Tanto não é que voltei a enfrentá-lo e a cada releitura, entendo-o mais. Mas lê-lo de forma correta requer que sentemo-nos em silêncio excepcional e dediquemo-nos ao seu raciocínio. Trata-se de um pensamento muitíssimo sutil, algo como estudar uma língua completamente nova, como observar fascinantes detalhes por meio de um microscópio, como montar peças de um enorme quebra-cabeça. Kant, compreendido, dá-nos um sentimento de respeito reverencial misturado com medo ou espanto, algo que em inglês se diz awe. Impossível não pensar: como alguém pôde conseguir manter seu juízo de forma tão constante e direcionada? Kant devia ser um alienígena.



E o aspecto crescente do progresso, de Locke a Kant, não parava aí. Fichte, que dizia basear-se em Kant, antes da fase em que não estava com medo de perder seus cargos e começou a falar asnices germanófilas, criou um admirável sistema "kantiano" com foco no individual. De kantiano, o próprio Kant percebeu que não tinha nada, mas o que Fichte escreveu tem momentos admiráveis, de uma originalidade que beiram o lírico, não fosse de fato filosofia.

O que se segue, com Hegel, foi algo bem diferente. Explico: a dialética de Hegel prevê sempre um status quo, seu dramático aniquilamento e uma espécie de reconstrução dourada feita das ruínas do primeiro estágio com o que há de bom do segundo, ou seja, uma espécie de outro status quo novinho em folha, muito melhor que o primeiro. Essa visão positiva de progresso incomoda qualquer pessoa honesta.

Para que possamos engolir isso, temos de aceitar que a realidade não é mais substância alguma, mas apenas sujeito e espírito, daí a sensação de a filosofia hegeliana (e fichteana) não se assentar no mundo real: caminha e se transforma sem parar. Bom, Heráclito já tinha dito isso nas auroras do Ocidente. Até aí, morreu o Neves. 

Quando Hegel coloca a Religião após a formação do Espírito em sua Fenomenologia e dela extrai o Saber Absoluto, meio que desprezando a passagem da Lógica para a Mecânica, Física e Física Orgânica, ordenando, a seguir, seu produto numa nova sequência: Arte, Religião e Filosofia (sobretudo a filosofia alemã, especificamente a dele, se pensarmos no seu crescendum ininterrupto), aí uma pessoa sensata deveria atenuar um pouco sua admiração pelo grande filósofo, fechar o livro, pensar um pouco e perceber que está diante de alguém que está forçando a sua amizade com essas tríades que vêm de algum mundo plotiniano. Até mesmo Platão acharia isso um delírio.

Por que são sempre três e não sete etapas? E eis que Hegel se mostra, nesse seu raciocínio tortuoso e embriagado, antes de tudo, sob a veste de um grande orador, alguém que não conseguimos acompanhar sempre, pois entre etapas claras há sempre o levantar de uma fumaceira verbal que não nos permite seguir seu raciocínio. Aí vem as regrinhas dos exegetas: só entendemos a cientificidade de sua metafísica se dilatarmos alguns significados, se especificarmos outros, se aceitarmos seus paradoxos, enfim, se estivermos no mesmo mood de seu palavrório.

Mas se não estivermos, cometemos algum pecado contra o pensamento filosófico ocidental? 

No caso de Hegel, não basta projetar-se no momento histórico para entendê-lo como figura histórica. É preciso segui-lo como um discípulo segue um mestre, senão leva-se a pecha de grosseiro ignorante. Por mais louvavelmente aplicado, inteligente e obcecado que Hegel tenha sido com suas questões (na verdade, tanto quanto qualquer outro filósofo deva ser), vejo que em Hegel, assim como na maior parte dos que o sucedem, habitava (e habita) o sentimento de impor que o que afirma é algo maior do que o de seus sucessores, ou porque eram mais limitados ou porque eram muito esquecidiços. 

Ora, ninguém poderia mais negar as questões e as soluções levantadas por Kant, mas o filósofo de Königsberg humilhara demais seus leitores com seu bem-sucedido projeto de vida dedicado à filosofia. O falto de imaginação ou de talento não aceitaria que a fala kantiana era o fim da conversa: claro que era possível fazer mais, avançar, modificar, melhorar, superar, mas quanto conseguiriam isso doravante? Perante à quantidade absurda de informações hoje em dia, às vezes vejo que estamos de novo perante o mesmo problema, mas não quero me dispersar misturando passado com presente.

A geração mimada que recebeu toda a volumosa informação encadernada e organizada numa estante tem vontade de jogá-la toda no chão e botar fogo em tudo. Por quê? Talvez o nosso lado chimpanzé explique paradoxal apego e ódio simultâneos à geometria, mas não levantemos razões biológicas desta vez. 

Essa vontade de jogar tudo que é belo e perfeito para o alto se justifica não por um mecanismo obscuro numa dimensão oculta da História, mas porque o indivíduo quer reinar, dane-se a conquista da mente coletiva. Sim, o tal Espírito hegeliano nada mais é que o Eu fichteano travestido com palavrório. Não é grandioso, mas mesquinho e muito egocêntrico. Esse Espírito que navega no tempo, imponderável e quase inimaginável, só supera as aquisições reais pelo simples fato de ser impalpável, vago, subjetivo e, acima de tudo, contraditório. Na verdade, supera uma pinoia. Em vez de antítese e síntese, o que eu vejo de fato é destruição e perda.

Os cristãos não superaram Platão. Fizeram um sincretismo cuja separação ainda hoje é difícil de desfazer. Houve perda quando o conhecimento egípcio se desfez, para não falar dos maias e de tantos povos que da barbárie migraram para o nada. Onde está a síntese? Ninguém honesto conseguirá enxergar porque sobrou muito pouco do progresso do passado.

Em vez de afirmações, refutáveis por meio de novos pressupostos e dados, oferece-nos Hegel uns círculos místicos e umas espirais enigmáticas. Por que têm esse formato e não são pirâmides, dodecaedros ou esferas infinitamente concêntricas? Também essas formas geométricas estão lá no meio de nossos estranhos arquétipos humanos e são formas fáceis para nos convencer sem que haja de fato argumentos para seu formato. A redação hegeliana hipnotiza, não convence o leitor aplicado que confessa não entendê-lo. Sentimo-nos um discípulo sempre a interpretar a fala solipsista do mestre e isso, de alguma forma, já estava superado no momento em que Hegel propõe sua dialética. A proposta da clareza dos ingleses nunca convenceu a mente barroca alemã, desde o tempo de Leibniz. Voltou tudo para trás. Não houve síntese, houve antítese após antítese.



O estranho é que Hegel não nos esconde isso. Pelo contrário, dá-nos muitas provas de ter consciência do que faz: compara, por exemplo, sua dialética com um triunfo báquico. Pergunto: por que então tanta coisa se erigiu sobre um terreno construído por ébrios? Por que se parou de discutir o que vinha sendo ponderado seriamente por Hume e por Kant e o sólido ficou fluido? Será que porque, dando um saltinho para o lado, temos algum modo de escapar das questões de dentro do círculo e, em terreno fora dele, podemos ironicamente debochar de quem está procurando sentido nas palavras dentro dele? Na verdade, o que vejo de original em Hegel é a descoberta dessa fórmula, copiada por todos os que vieram depois, com talento para filosofia ou não. O triunfo báquico é o triunfo do preguiçoso e do que despreza o leitor. Está aí o Transgressing the boundaries de Alan Sokal como prova de que ninguém mais se importa em ser desprezado.

Convenhamos: Hegel não se contenta em ser antítese de Kant pois se acha com talento para ser síntese. Mas, caramba, quem foi então a antítese de Kant para chegarmos à síntese de Hegel? Fichte? Schelling? Hegel não tem dúvida que ele próprio é uma síntese e seus precursores são antíteses: essa egolatria lhe custou perder a amizade de Schelling.

Mas o leitor adora e quer ser seu novo amigo.

Lemos Hegel à cata de uma dica sua que nos ilumine. Aceitamos suas contradições com complacência. Entendendo-o, pensamos que somos seus camaradas. Mas é com base em benevolências e em fisiologismos que se aufere o tão desejado saber? Ou a busca da verdade foi abandonada no exato momento em que se instituiu esse comportamento? As aulas lotadas de Hegel, odiadas com inveja por Schopenhauer, deram às hordas cada vez menos hábeis o salvo-conduto de transitar no Mundo das Ideias, vestidos com mantos de reis, tal como o batismo prometia, com seu poder libertador do mundo carnal, até então, único, antes mesmo do surgimento dos cristãos. Dica: basta usar o abracadabra "Hegel" e tudo o mais lhes será acrescentado.

Essa êxtase que se vê escancaradamente em Nietzsche é a coluna cervical velada do hegelianismo e da filosofia seguinte, coisa fácil de se fazer no mundo pós-Hegel. Não podes com o peso da história? Lança no meio da cerração tudo o que te incomoda. Eis a fórmula para a máquina dialética sempre caminhar adiante e progredir sem que olhemos os precipícios em volta da estrada. Canta no teu trajeto, ó neófito hegeliano, o seguinte mantra: "toda coisa é um silogismo". Triunfo báquico.

A tempo: "superar", por fim, não é uma boa tradução para o famoso e propositalmente ambíguo verbo alemão aufheben da metalinguagem hegeliana. Melhor seria "suspender", que aparecem em algumas traduções. A imagem é clara: criar-se-ia um suspense enquanto a síntese não se efetuasse. Nesse suspense, tudo fica em suspenso: a lógica, a vontade de entender, a própria dialética que supõe existir. Paradoxo: tudo parou quando os conceitos começaram a rodar ininterruptamente. Finalmente houve a vitória da ambiguidade alemã sobre a definição inglesa!

Enfim, há quem goste. Mas, pergunto-me, onde está a limitação de quem pensa de modo contrário e não suspende completamente suas ideias para desenvolver algo belo, como quando uma bailarina necessita de um apoio no chão para seu rodopio, algo que nos causa tanto awe quanto a embriaguez? A tríade invocada por Hegel, se não vem de Deus ou de um mundo imaterial, parece ser apenas um engenhoso mecanismo retórico e não uma verdade atingida. Não funciona, em última análise, como bom pressuposto de nada. 


Já dizia Mario Bunge em seu Chasing reality que os pressupostos não são suficientes para caracterizar coisa alguma e que a mudança é sempre fruto da emergência ou da submergência de propriedades. Kant descobriu a estrutura dos fenômenos e da razão no nosso conhecimento, mas o realismo, no sentido de Bunge, parece bem mais produtivo se um dia fosse alcançado. Mas os produtos racionais da imaginação embriagada, mais fáceis e mais belos, são mais atraentes. Enfim, é atrás deles que vamos para superar nosso infinito tédio de primata consciente da própria morte. Não tenho esperança, como os materialistas, de que isso um dia seja aceito por todos.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

IGNOTO CONHECIMENTO

Uma das coisas que sempre me fascinou foi o conhecimento. O acaso me fez, aos dezessete anos, perdido numa cidade grande e desarraigado das minhas comodidades familiares, conhecer aqueles que me contaminariam com seu prazer pelo puro conhecimento. Se sempre me intrigou por que os insetos ou as línguas eram tão distintos, ainda mais me intrigava ser infinita a pesquisa que me alimentava com o conhecimento. A pluralidade necessita de olhos treinados.

Lembro-me de ter ficado fascinado com os livros Explicações científicas e Definições, de Leônidas Hegenberg, que mencionei em todos os cursos que ministrei e que supunha já falecido há muito tempo quando, em 2012, nos googles da vida, deparei-me com a notícia de seu falecimento, poucos meses antes, aos 87 anos. Hegenberg me apresentou a lógica e a filosofia da ciência de uma forma que, imagino, ninguém o teria feito melhor naquele momento.




Desarraigado e desajustado, tentei reproduzir na cidade grande tudo que fazia na minha primeira vida interiorana: andar de bicicleta, lutar karatê, frequentar a igreja presbiteriana. Tudo em vão. Não era a mesma coisa porque não eram as mesmas ruas e os prédios de minha cidade. Entediado com o trânsito paulistano, ia a pé da pensão da Liberdade ao Centro Cultural de São Paulo e, depois, da moradia estudantil no Crusp à antiga Biblioteca de Pinheiros, que ficava do lado do Shopping Eldorado e lia de tudo, num arremedo do que fazia na Biblioteca Pública de Botucatu e no Centro Cultural da mesma cidade. Foi nessas bibliotecas primevas que conheci o casal Soares, primeiro em livros e depois ao vivo. Foi lá que eu tive contato com Rubens Romanelli, Edwin Williams, Menéndez-Pidal, Sapir, Mattoso Câmara Jr e Pottier. Foi ali que sonhei em aprender todas as línguas do mundo, embora só tivesse à disposição inglês, francês, alemão, latim, grego, esperanto e bororo.

Como os títulos da Biblioteca de Pinheiros não me davam nenhum tesão especial, resolvi ocupar meu tempo de moradia estudantil lendo-os conforme a ordem da estante e não foram poucas as porcarias com que me deparei. Lá havia um calhamaço de um maluco chamado Pietro Ubaldi. Aliás, encontrei seu opus magnum num sebo um dia desses. O título já diz tudo: A grande síntese, uma espécie de sistema que juntava espiritismo, darwinismo e física. Aliás, um pequeno desvio no assunto, motivado talvez pelo delírio das lembranças do conhecimento pleno ubaldiano: nesse mesmo tempo de juventude, nas mesmas prateleiras li outra obra igualmente maluca, o clássico Mahabharata.


Deixando a tergiversação, volto ao tópico do conhecimento puro, introduzido em minha alma por Hegenberg. Lembro-me que um amigo de um amigo me havia recomendado o livro Filosofia da Ciência, de Rubem Alves, obra que devorei e reli mil vezes, tornando-me fã incondicional desse mineiro e antropofagicamente delirava ser igual a ele, na presunção juvenil da época, embora nenhum dos filósofos citados tivesse sido lido até então. 

Foi aí que tomei coragem de enfrentar a linguagem da filosofia. Afinal de contas, pior que o da religião não deveria ser. Apaixonei-me pelo Discurso do Método, de Descartes, anacronismo que logo consertei tentando ler a obra completa de cada filósofo em ordem cronológica. Delirei com os pré-socráticos e lamentei com a certeza de que nunca mais o homem terá a liberdade de pensamento daquela época.

Depois disso, meti-me no cipoal de Platão, cuja obra inteira li até os 19 anos. Logo depois, desilusão: fui cuspido pelas Categorias de Aristóteles, que tentei ler em muitas línguas, até mesmo em grego. O meu interesse pela filosofia era alimentado pela enigmática colega de graduação Cândida, que nem sei se está viva ou morta. Desisti da minha grandiosa empreitada e só uma década depois a retomei, ainda fielmente em ordem cronológica, mas não a obra completa. Aristóteles me convenceu que era loucura. Não era, mas enfim, parece ser.

A filosofia substituía os meus inquéritos religiosos da puberdade. Demorou muito para eu substituir meus heróis Platão, Pascal e Descartes por outros: Bacon, Locke, Berkeley, Berkeley, Hume, Kant e Popper. Esses autores me fizeram entender que havia um tipo especial de filosofia que me agradava. Era a Epistemologia e não aquela que se afundava no obscurantismo, como a de Hegel, Comte, Heidegger e caterva, exceção feita ao grande Nietzsche, que sempre me agradou, talvez pelo tom de profeta, mas não vejo esses autores como representantes de uma Filosofia, no sentido estrito da palavra. Para mim, todos os problemas da filosofia foram explicitados até Kant. De lá pra cá, só restam alguns atores de teatro, cuja performance místico-literária se desenrola numa espécie de palco com holofotes e, para mim, é muito desanimador ler a maioria dos filósofos do século XIX em diante (exceção feita a um Schopenhauer, com certeza). O primeiro desses fanfarrões talvez tenha sido Leibniz e o mais enfadonho, sem dúvida, seja Hegel. Realmente a França deu um mau exemplo para o mundo, que a Alemanha e os Estados Unidos imitaram.

Mas se, por um lado, a teoria do conhecimento virou arte do desencanto, na verve obscura de um Rousseau, de um Voltaire, dos Stürmer (dos quais Goethe devia envergonhar-se de ter criado na sua provecta idade), dos insuportáveis filósofos românticos e de sua ainda mais insuportável fama (bem que Hume avisara quando propõe a sua chocante destruição dos livros inúteis), por outro lado, a arte posterior à minha época preferida (rarissimamente, diga-se de passagem) também toca a questão do conhecimento, assunto predileto dos meus filósofos prediletos.

A arte cinematográfica, porém, costuma tocar nesse assunto de forma canhestra e atrapalhada, quando penso num Glauber Rocha ou num Godard. Mil vezes o entretenimento que nos presenteia um Truffaut ou um episódio dos X-men à transformação da sala de projeção em uma sala de doutrinação, quase o método de tortura terapêutica em Laranja Mecânica, do divino Kubrick!



Recentemente me vi surpreendido com um filme japonês muito curioso a que assisti a bordo do avião. Trata-se de 暗殺教室 (Ansatsu Kyôshitsu), traduzido para o inglês como Assassination classroom. O que era para ser um entretimento que beirava o nonsense enredou-me sobre o Atlântico com pensamentos muito inusitados, a ponto de eu assistir ao filme duas vezes para acreditar no que estava vendo.

É verdade que hoje em dia somos bombardeados com imagens asquerosas de violência. Nosso mundo se tornou aos poucos num grande culto visual ao Éros e ao Thánatos, cujos limites estão ainda para ser definidos. O exibicionismo de pessoas que seriam naturalmente ignoradas pelo mundo, não fosse pela desproporção das atitudes, hoje filmadas ou orquestradas, vem desde a época em que postulei a morte da minha filosofia predileta e só aumenta cada vez mais ano após ano. Tendo sido tais pressupostos já enrijecidos com uma certa convicção, que graça teria para mim Assassination classroom, cujo enredo, se é possível de ser resumido, trata do objetivo comum da humanidade de matar um professor em sala de aula? Ainda mais sendo eu mesmo um professor, por que não refutei o tema do filme com asco?

Há três figuras de professores no filme. Um deles é um monstro alienígena amarelo, sorridente e extremamente educado, com corpo de polvo e velocidade extraordinária, batizado de Koro-sensei pelos alunos. Uma segunda professora era inicialmente uma aluna intercambista com intuito comum de matar esse mesmo monstro e que se torna sua amante. Um terceiro é um professor sadomasoquista que também tem a intenção de matar o professor-monstro, como todos à sua volta. O desejo do assassinato do monstro não era apenas motivado pelo fato de que ele prometia destruir a terra, mas também por haver uma recompensa em dinheiro.

Os alunos estabelecem, ao longo do filme, uma relação ambígua com o extraterrestre, pois se estão incumbidos de dar um fim à sua vida (algo que ninguém consegue, dada a sua velocidade), por ser uma ameaça, por outro, tornam-se tão polidos e cultos quanto ele.

Diacho, que significa "matar o professor"? Perguntava-me. Uma metáfora para a superação dos discípulos? Se fosse isso, este filme talvez seja o maior poema visual encomiástico à figura docente que eu conheço. Não é à toa que os alunos desajustados o prefiram ao professor sádico.

Uma aluna-robô, criada com o intuito de destruí-lo, também não consegue a empreitada e ainda por cima atrapalha as aulas com seu tiroteio ininterrupto. Seria uma crítica à internet? O lado irônico é que, não tendo amigos, tal aluna é transformada em rede social após conhecer os perfis (fornecidos pelo próprio professor extraterrestre). Inofensiva, após essa metamorfose, torna-se, como os outros, incapaz de matar/superar o professor Koro (e o seu conhecimento?).

Se estou certo na minha interpretação, um elogio tal à figura do mestre só poderia ter vindo mesmo de um país oriental. Não foram poucos, porém, que me querem convencer que eu esteja viajando na maionese. Pode ser. Precisaria rever. Mas, supondo que esteja errado, eu não seria o primeiro a pensar que se o construto mental não condiz aos fatos, danem-se os fatos. Apenas seria incoerente com o que penso acreditar.

Revi esses dias outro filme mais cult com os mesmos óculos. Dessa vez, trata-se de um filme completamente diferente, mas, segundo a minha vontade, com a mesma temática.

Sim, vontade, pois se persigo linha por linha o que um Kant fala, levando a sério a sua obsessão que nunca o fez sair de Königsberg, faço-o porque tenho obrigação de entendê-lo. Outros, que julgo não ter a intenção tão séria, como um Hegel, que se contradiz o tempo todo, ficará para sempre dependente da minha vontade ou não como qualquer obra de arte ou filme do cinema.



O segundo filme com a mesma temática do conhecimento, se não sobrevejo novamente, é Only lovers left alive do impagável Jim Jarmusch. Vampiros de quatro gerações, um deles contemporâneo de Shakespeare, outro do final do século dezoito, outra do período romântico e uma quarta mais moderna, retratam o tédio que causa a vida, na solidão de um mundo estrangeiro, não povoado por iguais.

Os não-vampiros são chamados depreciativamente de "zumbis": são eles que ditam as leis e, para continuarem impercebidos, submetem-se a elas. O custo da vida longa para os entediados e exangues vampiros é perceber a decadência de seu entorno em vários âmbitos, por exemplo, a decadência moral, ecológica e estética que os circunda.

O que me fez evocar esse filme no meio deste assunto do conhecimento é o lamento igualmente frequente na fala dos vampiros acerca da decadência intelectual. Cultíssimos, os vampiros viveram com as maiores personalidades literárias, filosóficas, científicas e artísticas. Falam delas com intimidade: Shakespeare era um idiota, Byron era um cretino, Wollstonecraft era deliciosa. Seu conhecimento vem da vivência e da leitura, conforme a idade. A vampira, mais jovem, idealiza essas figuras e gosta de ouvir as histórias do companheiro. O mais velho é, aliás, o próprio escritor Cristopher Marlowe.

O paraíso estava no passado, tese do filme. Não é à toa, penso, que se chamam Adam e Eve. O conhecimento, aliás associado à maldição da mortalidade causada pela fruta proibida edênica, é o que mais abunda nas suas longuíssimas vidas vampirescas. Não são imortais, mas a longevidade é uma tortura, pois veem esse conhecimento decair ou levar à destruição do planeta. Têm sede da antiga beleza, anseio faminto que se torna irrefreável ao verem um casal apaixonado. Que mais belo poderia haver que o amor? Que escolha poderiam ter se não desejassem o belo? Platão concordaria plenamente. A busca do conhecimento é, em última instância, a busca do belo.

Desajustados como eu era, saindo da minha cidade, e sou, por não quase nunca encontrar afinidades intelectuais e estéticas, a maldição de quem anseia o conhecimento é ter uma vida longa demais entre zumbis. Diferente das ficções, nem sempre há monstros para pautar nossa existência e que nos instiguem a superá-los.