O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

NON SEQUITUR

Aos poucos a história da Humanidade viu que a etnia e o gênero dos indivíduos não são elementos que devam entrar no julgamento dos seus comportamentos, a ponto de haver leis que amparem a tolerância e o respeito pela essência individual. Inclui-se aí também a religião: é feio imaginar, por exemplo, que um físico não seja um bom físico por ser teísta. Ele tem o direito de sê-lo ainda que nos pareça contraditório. Assim, pouco a pouco, foram detectados e tornados legisláveis a xenofobia, racismo, o sexismo, o machismo, a homofobia, a transfobia, o antissemitismo, o elitismo, o bairrismo e o especismo.

Mas por que essa tolerância não é geral e irrestrita? Paradoxalmente também por causa das leis e das regras de comportamento. Ninguém é dependente de drogas ou adúltero impunemente, sem julgamentos morais ou legais. Não é a mesma coisa de gostar de amarelo ou de azul. Por causa dessa zona entre o crime e o permitido, uma esposa abnegada esconderá de todos seu fascínio por vídeos pornô; um líder religioso só contará piadas politicamente incorretas longe dos microfones; muitos, como a personagem de Rubens Fonseca, terão seu Passeio Noturno até serem investigados pela polícia. Assim sendo, há regras sociais para o que é e o que não é correto. O Direito legisla sobre a complexa etologia humana.

Mas há zonas mais profundas naquilo que chamamos ético. Hoje em dia ainda não é feio declarar que alguém seja indigno da nossa confiança por reproduzir um discurso que odiamos. A essa postura intolerante costuma-se dar até mesmo alguns nomes positivos. Talvez porque todos acreditemos, cada um em sua tribo, na fábula do Homem Integral, advinda de uma mitologia em nós arraigada, a despeito de a vivência nos demostrar diariamente a sua inexistência.



Qual a importância se um ator famoso não tiver a mesma convicção política que a minha? Deixará de ser um bom ator? Posso avaliar a capacidade de um jogador de futebol pela sua religião? Deixará de ser um bom biólogo alguém que tem práticas sexuais que me são estranhas? Isso, de fato, não é um julgamento ético: é apenas um non sequitur.

Deem um microfone ao cantor pop e ele só falará asnidades sobre política: deixará, por isso, de ser um bom cantor? Flagrem o ganhador do Prêmio Nobel de Matemática com uma espingarda matando passarinhos e sua racionalidade será questionada. Cairão em desgraça, esmagados pela opinião pública após descobertos pelos jornais, mas onde está a contradição? Decerto, um padre que prega o "não matarás" não pode ser acusado de assassinato, pois se ninguém pode assassinar, muito menos ele deveria fazê-lo e isso, de fato, seria escandaloso. Mas onde está a contradição ética do professor de literatura Immanuel Rath ao apaixonar-se por Lola Lola, der blaue Engel

Essa ética fumacenta é algo que cobramos do outro para destruí-lo. Se o que se cobra é cobrado de todos, a destruição moral do indivíduo é corroborada por algum tipo de justiça, mas e quando todos se julgam iguais nas suas sentenças morais distintas? A justiça pode intervir sempre, mas  que acontece quando permanece calada?


Enfim, se escuto um saxofonista maravilhado e para ele projeto os meus melhores sentimentos até o momento em que ele começa a falar de criacionismo, em franca oposição ao que penso, deixará de ser um bom músico? Tornam-se imediatamente suas composições odiosas pelo simples fato de não concordarmos com algo que não seja a especialidade que o define como saxofonista? Simples: o chamado raciocínio acerca dos valores humanos não merece o nome de raciocínio. É uma fera com dentes sangrando que pula sobre qualquer um que lhe roube uma rosa. Fera que ataca, mesmo saciada.

Tenho o direito a ficar indisposto e parar de meu geneticista favorito por causa de seus comentários sexistas num canal de TV; posso desapaixonar-me de um pintor quando leio no jornal sobre a sua crueldade contra algum parente; posso parar de procurar os filmes de um cineasta que amava quando vejo um vídeo em que externa opiniões políticas lamentáveis a um repórter, mas todas essas pessoas deixaram de ser, de fato, bons profissionais depois que a decepção tomou conta de mim? Fizeram realmente algo que me desagradou na sua profissão e na sua obra? Se o geneticista mescla sexismo nas suas teorias, se o pintor promove a violência em seus quadros, se o cineasta faz de sua obra um palanque ideológico, meu descontentamento parecerá razoável, mas e se nada daquilo que me é abjeto conspurcar o seu trabalho, terei o direito de desapontar-me? Algo evitará que eu enxergue máculas de sua índole na mensagem de sua obra? Se usássemos corretamente o juízo, veríamos muitas vezes que tais pessoas não poderiam ser criticadas pelo ofício que exercem nem pela obra que produziram. Mesmo assim, justifica-se o meu desprezo subsequente ao meu desapontamento? 

Mais absurdo ocorre quando a crítica injusta é anacrônica ou quando promove uma injustiça ainda maior. Incensado o acadêmico durante décadas, uma vez feita uma declaração que se reputa infeliz, seu passado se anulará e deixará de ter sido um bom profissional se nada do que escreveu tem a ver com a atual declaração odiosa? Pior ainda, se a declaração é polêmica e gera ódio em uns e admiração em outros, não há dúvida que será ainda menos ético o ofendido que detém algum poder e o usa para impedir a reimpressão das obras do agora ex-excelente acadêmico ou para tirá-las do mercado, ainda que nelas não se encontre uma única linha compatível com a declaração infeliz que fizera. Mesmo que o tenha feito por justificada senilidade.

O mito do Homem Integral é gerado pelo non sequitur da disposição daquele que recebe a mensagem e a julga com seus valores permeados de amnésia seletiva, numa afrontosa violência à lógica e à razão. Cadê tu, Homo sapiens, que te vanglorias de teu raciocinar?

Será o poeta que eu tanto gostava de ouvir agora insuportável por ter-se declarado leitor de uma obra que abomino? Será o psicólogo que me analisava brilhantemente agora o epígono da incompetência só porque assiste a uma novela pavorosa e porque torce pelo meu time rival? Serão os laços de longa amizade esfacelados porque meu amigo aderiu a uma seita alternativa que me é desprezível ainda que eu, como seu amigo, entenda conscientemente que assim o fez para amenizar alguma angústia existencial que não desconheço? Não levarei mais a sério aquele competentíssimo professor de geografia porque foi flagrado numa festa de sexo grupal? Será o pintor que eu amava agora um idiota conceitual porque se declarou fã de um conjunto musical de péssimo gosto? Será a cantora de ópera uma incompetente por não saber dar a opinião ecologicamente correta sobre casacos de pele? Será o médico que me atende agora uma pessoa indigna de confiança porque foi preso junto com um traficante num baile funk? Será meu marceneiro alguém que nunca mais contratarei por estar respondendo a um processo judicial que me escandaliza? Por mais que odeie a atitude de alguém, convenhamos que não há razão na passionalidade. 

Alguma razão do escândalo, do desprezo e da punição só existiria se a atitude fosse contraditória, mas a contradição não está entre a função da pessoa que julgo e a atitude lamentável que cometeu. A contradição, se há, encontra-se entre a imagem equivocada do Homem Integral (competente, belo e ético) idealizada a partir do nada e a atitude individual incomum que incomoda. É aí que nasce o que supra-individualmente chamamos de "errado". Talvez haja mesmo uma diferença entre ética e moral. Não houve violação por contradição com o instituído, apenas uma espécie de desvio de conduta inesperada para a minha visão pessoal daquilo que se configuraria como uma pessoa boa. 



Ninguém achará imoral se o leão devorar o funcionário do zoológico, mas acharia estranho se um urso panda o tivesse feito. A atitude do panda nos pareceria imoral, por trair as nossas expectativas advindas de sua pretensa fofura, ainda que saibamos que tenha tamanho, garras e dentição para agir como o leão. A surpreendente ferocidade do panda romperia o nosso status quo, porque ele nos parece consciente de sua força e, ao mesmo tempo, equilibrado em não a usar para nosso mal. Mereçamos essa deferência ou não, o panda é-nos mais confiável que o leão. Pelo mesmo motivo, ninguém ficaria admirado se o funcionário saísse ileso da jaula do urso-panda mas sim da do leão. 

Nossa moral humana é uma espécie de etologia do Homem Integral, um ser ideal, um Sócrates ou um Cristo. Mesmo no plano das ideias, não nos cansamos de nos decepcionar e, mesmo assim, diariamente rompemos relações, riscamos nomes de nossa agenda, paramos de ler livros, de ver filmes, de apreciar o que nos dava prazer e nos causava admiração. Em nome desse Homem Integral, restrinjo minha vida, paro de ousar, paro de conversar, paro de expor o que penso e, paradoxalmente, torno-me mais convicto, mais feroz. O mundo é o culpado. O mundo está tornando-me assim. Sou uma vítima! Será? 

Será que a imensa massa de informação nos tornará milhões de seres ferozes? Um dia será normal esperar que devoremos quem entre na nossa jaula? Pior: um dia se admirarão porque não devoramos quem entrou na nossa jaula? É essa a etologia que criamos, protegendo-nos do mundo que nos ameaça e que lamentamos existir? Serão nossos ídolos todos quebrados pela decepção? Serão todos nossos amigos e parentes afastados por impossível convivência e por divergência de opinião? Será que, enfim, a tolerância se tornará palavra arcaica, mito do passado, algo que só supostos idiotas pregaram? Enfim, será desfeita a comunicação, as línguas deixarão de existir e as pessoas sobreviverão emitindo grunhidos óbvios, num apocalipse à la Mad Max? Um pensamento paralelo enviesa nossa lógica para a área de nossas fobias e alavanca nossa paixão e nosso ódio, nosso instinto animal e nossas defesas de sobrevivência. 

Não conseguimos desenvolver a razão pura que imaginamos ter, quando fingimos ser setecentistas. Quem justifica o que faz mediante essa razão contaminada e enviesada, esconde a vontade de fazer calar, de impor, de destruir o outro. E quanto mais alguém for inconsciente de que sua razão é espúria, maior será a sua má-fé: com mais convicção chegará ao termo de seus objetivos, mandando matar ou aniquilando com as próprias mãos. Para chegar a esse ponto, basta desconhecer que tudo aquilo em que crê é apenas um ídolo construído a partir do medo daquilo que não aprecia. Todo julgamento negativo é assim.

Será parecido o julgamento positivo? Infelizmente sim. Se amo, defenderei, custe o que custar. Tenho medo de perder. Novamente, aguçarei minhas garras de animal e prepararei minhas presas. O bicho mais feroz é o acuado que se defende. E só se defende aquilo que se ama demais.

A lógica não ama nem odeia porque, como mostra John Stuart Mill, tem um defeito intrínseco em seus silogismos:a conclusão faz parte da premissa maior. É inútil: mero brinquedo para passar tempo. Por que o homem seria lógico? A vida dele é preciosa. Não tem tempo para brincar de coerência. A maior parte do tempo do homem é preocupação com sobrevivência, o resto é carência. Só o fanático perde o pé da realidade e se imagina numa trincheira eterna. O que mais quer o fanático é a paz para sempre. Por isso explodiria o planeta.


A passionalidade é tida como oposto da racionalidade, mas isso não precisaria ser assim. Da mesma forma que é possível a sandice fria e apática, também pode haver lógica inflamada e rigorosa. Se há loucos para todos os gostos, verifica-se que a genialidade convicta tampouco precisa ser necessariamente aloprada. Talvez o que dificulte o entendimento disso seja  o cacoete mental ocidental que associa o herói ao embaixador do ético. A nossa encarquilhada visão repetitiva será a maior causa de nossa destruição. O mito do bom velho que aprendeu e serenou-se confunde razão com impotência. Mas a razão, para ser eficiente, precisa ser vigorosa, caso contrário, dá margem às bacantes do non sequitur e à sua orgia irrefreável. Se não queremos que dominem, não lhe deem microfone, nem caneta, nem teclados. O alucinado faz sua função de alucinar. Não podemos cobrar-lhe razão. Isso é função de quem se diz não ser alucinado ou não quer ser alucinado por não achar graça na violência contra a lógica e por não sentir prazer nos abusos do non sequitur.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

O MELHOR DO NADA

O século XIX foi incensado por muitos como um século no qual a ciência vicejou, a filosofia triunfou, as grandes ideias surgiram. Sob a ótica dos que assim pensam, talvez esse período só fique atrás do século XX em grandeza e na exuberância do conhecimento. Talvez eu não seja o único que pense que as maiores contribuições do Ocidente foram interrompidas no século XVIII, Na verdade, após a Revolução Francesa, tudo o que vemos é uma decadência da razão, manifestada pela supervalorização do individual. Isso já tinha sido anunciado por Berkeley e Hume. A razão, gravemente enferma, tentou ser recuperada por Kant. Mas o golpe de misericórdia e a pazada de cal foram dados por Fichte, Schelling e Hegel.



Morto o lógos, nasce uma nova razão de ser para a filosofia. No meio da cantilena hegeliana, que ecoou por todo o século XIX, havia a voz dissonante de Schopenhauer, o último pensador. Dezoito anos mais novo que Hegel e tendo vivido quase 30 anos depois da morte dele, Schopenhauer era seu maior adversário. Como uma escavadeira, seu discurso arrancava as raízes das árvores materialistas, realistas e idealistas. Com uma competência até então inédita, lia e compreendia Kant, a ponto de mostrar-lhe os erros de raciocínio. Reduziu suas doze categorias a uma só: a causalidade, enaltecendo-a. Estávamos diante de um verdadeiro continuador de Hume e Kant, pois, em suas obras, eram impiedosamente desmascaradas as palavras do "sicário da verdade", do "mercenário acadêmico", do autor das "palhaçadas filosóficas", isto é, do seu maior rival, Hegel, colega de trabalho, de quem tinha indisfarçada inveja e por quem alimentava indescritível desprezo.

A voz de Schopenhauer é forte; a sua verve, prodigiosa; a sua verdade, azeda; a sua capacidade de nos arrebatar, quase infinita. O materialismo, segundo ele, erra ao negar o sujeito, reduzindo-o à matéria; o idealismo - quando investe contra o que chama de absurdos acadêmicos - erra porque porque nega o objeto, reduzindo-o ao sujeito. Na verdade, diz Schopenhauer, o mundo é representação minha. Tout court.

Nesse afunilar-se (tão romântico) do mundo à dimensão do eu, Schopenhauer, convertido a uma visão hindu de um brahman europeizado, trazido pelos Schlegel, insere no sistema secular da Teoria do Conhecimento, nascido na Inglaterra com Ockham e Bacon e adubado por Locke, um elemento alienígena de raízes budistas: uma coisa chamada "vontade", diz ele, está em tudo. Nem mesmo Spinoza seria tão ousado ao apontar para algo tão individualmente difuso: o schopenhauerismo, tão preciso e convincente, traz à baila kantista um ser digno de qualquer amalucado panteísta. A vontade, força que faz crescer as plantas e dá forma aos cristais, que dirige agulhas imantadas e nos faz sonhar, evitando o tédio e o suicídio, essa vontade sobrenatural passa para o panteão da epistemologia, um tanto clandestinamente, acompanhada da maravilhosa prosa poética de Schopenhauer. Se não somos lúcidos, caímos como um patinho na sua conversa.


É a morte do raciocínio, iniciado por Aristóteles, óbito causado pela reintromissão de um elemento odiosamente irrefutável, que deve ter vindo do mundo das ideias platônicas. É a volta da retórica, do filósofo que chama atenção para si, como faziam os sofistas. Nesse ponto, Schopenhauer não era muito distinto de seu arquiinimigo. Buscando a verdade, Schopenhauer. tenta ser preciso e universal, mas involuntariamente nega o científico e introduz a poesia na filosofia, como mais tarde Nietzsche confirmará e como o provará um batalhão futuro de outros mercenários acadêmicos, muito piores que Hegel, cuja argumentação se funda em trocadilhos e tatibitates. Schopenhauer jamais imaginaria o mal que acabou fazendo, com a melhor das intenções, ao rasgar o véu de Maia. Ora, mais tarde nos ensinaria Popper que o irrefutável não pode participar de ciência alguma. O que fez Schopenhauer não foi Teoria do Conhecimento. Apenas trouxe à baila uma palavra poderosa.

Quem pode com um ser tão estranho quanto essa vontade, comum a pessoas, animais, plantas e pedras? Tal coisa é, no fundo, nada mais que outra versão do minúsculo bule celestial de Russell, que rodopia em órbita elíptica em torno do Sol. Aceitando o seu conceito novo de vontade, tudo o mais é aceito no discurso de Schopenhauer: o papel da arte, a ascese, a necessidade de meditar, a noluntas. Um edifício inteiro pode ser construído em um segundo após apresentação de elementos irrefutáveis. Uma teologia da vontade, se alguém quisesse, teria nascido aí. Por sorte, Schopenhauer tinha poucos fãs enquanto viveu.

Pouca gente percebe que o século XIX é tomado por obsessões. Uma delas é o sequencialismo, presente nas etapas hegelianas, na cadeia ascensional schopenhaueriana de seres na força da natureza (do vegetal ao humano) e no ridículo conceito de progresso de Comte (da teologia à ciência positiva, passando pela metafísica). Segundo esses três autores, tão diferentes, há, entre os pressupostos assumidos, uma necessidade na sequência de etapas e, tendenciosamente, julgam-se as mais antigas não só como as menos preparadas para o mundo, mas também, cronocentricamente, a última etapa (diga-se de passagem, aquela na qual o filósofo está) será invariavelmente a melhor e a mais bela. Talvez só Marx, que passava tantas necessidades materiais no presente, tenha adiado, naquela época, a melhor das etapas para o futuro, como faz o cristianismo.



Comte era dez anos mais novo que Schopenhauer e morreu três anos antes dele. Por mais que sejam indialogáveis, há semelhanças que saltam aos olhos, das quais Hegel não dista tanto. O primeiro disparate é a questão da causalidade: síntese das categorias kantianas para Schopenhauer, mas peça inútil no sistema positivista, a causalidade parece ser um ponto nevrálgico nas duas concepções, assim como era a phýsis para os pré-socráticos. Comte, papa de sua própria religião, citando trechos inexistentes de Aristóteles, endeusando a sua amada e sua mãe numa curiosa antítese religiosa,  é a prova de que a máquina racional pode parar a qualquer momento por inação. À busca de epifanias, Comte, que era culto demais, resolveu um dia parar de ler, numa espécie de arremedo de revolta socrática com a escrita. Ora, todos sabemos que Alzheimer existe e melhor besuntar a memória sempre, pois, mesmo que funcione mal, nossa insistência é melhor do que deixá-la ao léu enferrujando. Por mais benevolente que queira ser, pergunto-me, muitas vezes: por que levar a sério uma figura como Comte, por que o citar entre os filósofos, se não se diferencia do mais boçal comentarista de boteco? Comte é estranhíssimo, superficial, esquisito, chega a dar pena do seu raciocínio, que beira a insanidade. Por que está em toda antologia de filosofia e não, por exemplo, outro esquisitão, como Antoine Court de Gébelin?

Será que por trás dessa loucura haverá um gênio que não enxergo?  Normalmente por trás da loucura só há loucura. Nesse caso, uma loucura tristemente canhestra que sistematiza o senso comum. Sua aversão às causas só pode ser explicada biograficamente, pelo seu triste relacionamento amoroso e familiar. Comte quer esquecer e nada melhor para conseguir seu intento do que abandonar o conceito de causa. É assim que se faz quando um ser deprimido por seus pensamentos quer tomar uma atitude enérgica e é subjugado por um espírito de heroísmo, de canalhice ou de crueldade. É assim talvez que também tenha agido Schopenhauer ao dizer que o fenômeno é uma ilusão, embora, diferentemente de Comte, não tenha perdido a sanidade mental.

A razão que pifa torna-se teimosa, já nos alertam, de várias formas, filósofos fleumáticos como Russell e Popper. A entrega ébria ao irrefutável, presente em Hegel, Schopenhauer e em Wittgenstein, é uma saída à detecção dessa teimosia. O dogmatismo está sempre nas sombras do nosso lado insano do raciocinar hominídeo, como Nietzsche nos parece sempre estar mostrando nas suas profecias. Comte foi incapaz de enxergar isso tudo. Nesse ponto, o meu desprezo de leitor mistura-se com alguma pena remanescente do meu cristianismo da infância. Lê-lo me deixa impressionado e cheio de comiseração: ele não poderia ter feito melhor. O que não impede de ser um mau menino, quando, como Platão e Hume, resolve queimar todos os livros que não sejam do seu gosto. Por conte, só existiriam 13 poetas. Pouco se aproveita do palavrório de Comte. É verdade que nos impressiona seu lado feminista, insight que atingiu por certos caminhos tortuosos, nos quais Clotilde de Vaux (ou a sua idealização beatriciforme) lhe levou uma luminária à frente. Sinceramente, a sociologia poderia ter tido um fundador mais digno.




Fato é que Schopenhauer, trazendo um elemento espúrio à razão, proveniente de um mundo das ideias qualquer, um elemento ad hoc cujas raízes apenas se alicerçam na poeticidade de algumas tragédias pessoais, Hegel, trazendo um método confuso, delirante e contraditório cheio de impáfia e profecia, e Comte, trazendo um arremedo simplista de fatos e de metas, conseguiram - os três juntos - moldar a modernidade da filosofia sobre três facetas demasiadamente antiiluministas, a saber, o mistério, a obscuridade e a futilidade, raízes do futuro pseudocientificismo e do vago psicologismo. Dando assim uma nova aura medieval àquilo que é pós-setecentista, são precursores de tudo que é hoje mecânico, galopante e ultrassônico, em suma, da mais profunda ignorância atual. O Ocidente parece que está no seu fim, de fato, como dizem os orientais. Essa morte começou faz tempo, em meados do século XVIII, bem antes da Revolução, no meio da tagarelice francesa e da maluquice alemã.

Pois bem, cadê a razão de que o homem branco ocidental moderno se vangloria? Que alternativa tem de fato, a não ser os acordos de paz, após as guerras que se arrastam após a mais absoluta irracionalidade? A paz não se funda na lógica nem na ciência, muito menos na religião. A paz é gerada a partir da tolerância, que não é prerrogativa nem descoberta de nenhuma linha filosófica, de nenhuma conclusão científica, de nenhum mensagem divina. Pax, shalom, salam, palavra tantas vezes entoada, que não significa nada quando não se quer dialogar. Comte achava que essa paz se encontrava no ritualismo de sua seita positivista, espécie de irmã gêmea do catolicismo. Schopenhauer achava que essa paz vinha de uma noluntas  quase budista. 

Mas, espere um pouco: o que isso tem a ver com filosofia que se vinha fazendo até então? Nada. Não fora por Stuart Mill e alguns neokantianos menores, Hume teria de esperar dois séculos para que fosse novamente acompanhado. É assim que acontece quando explodem revoluções, com grandes intenções e pouco controle. Em vez da receita positivista da Ordem e Progresso, temos o infernal ciclo de retrocessos humanos, que não acompanha qualquer trajeto divino ideal, tal como Vico já percebera tantos séculos antes. Homo sapiens... que piada de mau gosto a de Lineu quando te nomeou! Atitude típica de quem crê que o melhor momento é agora. O nunccentrismo nunca esteve tão forte. Todavia, o momento já atingido só será avaliado no futuro, se nele houver mentes sãs. Espere a decadência e verá como ela lhe parecerá infinita, ó ser que se julga imortal!

sexta-feira, 4 de março de 2016

O VERDADEIRO E O VEROSSÍMIL

Um dia um rapaz jogou uma pedra e ela, voando, caiu numa vidraça. O rapaz quebrou a vidraça? Sim, o rapaz quebrou a vidraça. Mas o rapaz quis quebrar a vidraça? Não, não queria quebrá-la: jogou a pedra para cima naqueles ímpetos simiescos que temos de lançar coisas para cima, sem pensar numa consequência tal como quebrar vidraças, o que houve de fato. Poderia, porém, igualmente ter caído na cabeça de um transeunte ou sobre a sua própria cabeça. Quebrando a vidraça, afirmo que o rapaz causou um dano material? Talvez, mas tanto quanto quis causar um dano físico no segundo caso a outrem ou fez uma tentativa de suicídio no terceiro. Então, o signo paroxítono de seis fonemas e três sílabas, transposto graficamente como verdade, na nossa língua e na nossa época atual depende não só do fato, mas também da intenção por trás do ato (se o fato for um ato). Em outras línguas e em outras épocas talvez significasse algo parecido? Não temos certeza. A verdade, ao que tudo indica, não é algo simples: além da intenção, no caso acima, requer uma sociedade e uma língua que a traduza. Ora línguas são seres complexos de que os seres humanos se servem, enlaçadas em certas épocas e lugares.

Mas parece que ignoramos isso. Usamos a palavra verdade como elemento principal da ciência, da religião, do direito e da nossa vida. Reconhecemos a verdade e a mentira, na prática. E se a reconhecemos, não devíamos falar nada que não fosse verdadeiro, no entanto, a mentira existe. Não há quem possa negar. E se negássemos, criaríamos a estranha circunstância, talvez exclusiva das crianças, de nunca nos termos deparado com a mentira virando uma esquina da nossa vida. O que é muito improvável.

A verdade, portanto, é um totem para o conhecimento, para a fé, para a justiça e para o nosso equilíbrio mental. Todas essas coisas são importantes.

Não podemos dizer de maneira simples que o rapaz está mentindo, ao dizer que não jogou a pedra ou ao dizer que a janela não foi quebrada por ele ou, pior, que a janela não foi quebrada não obstante haja evidências. Provavelmente, se sabe que mente, foi o medo que o fez agir assim: algo como o medo de ser descoberto, medo de ser culpado por outros. O medo também poderá ser tanto, que é possível até que não saiba que mente. No primeiro caso, estará sendo hipócrita; no segundo, autoengana-se. E o auto-engano é mais normal do que se imagina.

Mas na falta da verdade, possível de ser ocultada por não ser testemunhada, como a célebre árvore que cai solitária sem que ninguém a veja, o que cabe é o verossímil. O rapaz estava só e disso não teremos a menor dúvida daqui em diante. Isso é um fato. A eles se somam outros dois: a vidraça, que foi quebrada naquele instante, e a pedra que ali estava. Esse é um acordo de compreensão entre mim e você, leitor.

Mas se não foi ele quem quebrou a janela, a pedra que a quebrou seria um meteoro? Seria a materialização ex nihilo de uma pedra? Ou terá sido enviada miraculosamente por um deus ou outro ser sobrenatural? Fato é que, se não somos céticos como Hume, o rapaz estava ali sozinho e a vidraça se quebrou por meio de uma pedra, que (segundo nossa experiência) não se materializam nem se lançam sozinhas contra vidraças. Resumidamente, qual a chance de esta pedra singular agir de forma tão distinta das outras pedras, com o comportamento tão distinto de toda a matéria até hoje catalogada, para concluirmos ser o caso algo sobrenatural? Não bastasse isso para dizer que a defesa do rapaz é surpreendente, encontraram-se digitais na pedra. Qual a chance de um meteoro ter criado ranhuras tão sutis que se assemelhassem perfeitamente às digitais do rapaz? Dirá qualquer pessoa de bom senso: será mínima, cada vez menor, à medida que aparecem evidências contrárias ao senso comum. E, de fato, coisas de probabilidade mínimas podem ocorrer, mas sua justificativa não tem verossimilhança. O verossímil é o mais próximo que temos da verdade.




O filósofo brasileiro Leônidas Hegenberg já nos alertou há tempos sobre o tríplice significado da palavra "verdade". O que une fatos à exclusão do inverossímil, para a ciência, é o que os gregos chamavam de alétheia. A verdade de uma reconstrução de um ato é o que os juristas latinos chamam de veritas. A verdade que envolve nossa confiança moral em Deus é o que em hebraico se chama de emunah. No primeiro caso, fala-se de evidências, no segundo de probabilidade e no terceiro de fé. O que chamamos "verdade" pode ser metaforizado como um doce que não podemos parar de mexer, para não desandar. Os três ingredientes desse doce são esses três conceitos cunhados em épocas e sociedades distintas. O verossímil é um doce que improvisamos, na falta de um desses ingredientes ou na quantidade não ideal para se fazer o doce perfeito. E é no verossímil que se deve basear a justiça, pois a verdade pura é inalcançável, por ser algo múltiplo e abstrato, como o que quer crer o ceticismo de Hume.

Nesse ponto, Hume, aliás, é tão perturbador - talvez mais do que a sua fonte de inspiração, o crente Berkeley - que foi preciso nascer Kant para salvar a filosofia do conhecimento de um colapso total, colapso maior do que o já havido entre os sofistas na época de Platão ou nas desilusões decadentistas durante o período alexandrino, romano e medieval. A partir do raciocínio de Hume não se pode falar sobre a justiça, pois ele fechou as portas da filosofia. Kant tentou reabri-las e teria conseguido com seu gênio, se não fosse uma horda de loucos atropelá-lo no vestíbulo da mansão filosófica. O resultado é que ainda hoje estamos nas suas trevas, algo difícil de aceitar pelo homem ultramoderno. As respostas da filosofia acabaram no século XVIII. E o que se segue não é a mesma coisa, pois se centrou na ética e na existência, questões que infelizmente nunca serão respondidas.

Isso não quer dizer que a verdade seja vã. De modo algum. A verdade, com sua capacidade adaptativa proteica ou quase viral, hoje é o centro das discussões filosóficas sobre ética e existência. Mas de que verdade se fala? Os três elementos do doce, no seu eterno remexer na panela, pendem cada hora para um lado e, nessa polissemia, adquirem tons mais fortes, seja na revelação que os fatos nos apresentam, seja na verossimilhança do relato, seja na confiança moral que depositamos em quem relata. Em suma, é difícil avaliar se algo é verdadeiro somente pelos fatos, pela reconstrução da ação ou pelo valor daquilo que está perante nós, pois cada um desses três elementos mudam incessantemente nosso ânimo de forma pouco racional. Que fazer se, ao apelarmos para o racional, envolvemos um ato extremamente irracional de um ser que vê o mundo sob o exclusivo ângulo de sua espécie?



Então o rapaz jogou a pedra e quebrou a janela, só ele sabe disso. Mas teme as consequências e diz que não foi assim. Mente. Sabemos disso ele e eu, que escrevi este texto e inventei essa situação. Você que lê também sabe, porque eu contei. Mas observe, que curioso: fingimos cumplicemente que eu não existo e que você não sabe, senão meu raciocínio não será acompanhado por você. Somente esse acordo entre mim e você, leitor, permite que imaginemos o rapaz jogando a pedra, quebrando a janela e mentindo.  O "suponhamos que" da lógica, o "dado que" da matemática, a cumplicidade de um romance são formas variadas desse fingimento ou dessa ficção, chame como quiser. Mas nos pressupostos de um diálogo e no dia-a-dia, não temos acordo algum. Ou seja, só podemos saber que existe uma mentira na fala do rapaz por meio dessa espécie de má-fé semiconsciente acordada entre nós, na qual podemos abstrair e ver os fatos tais como são. Ora os fatos não dizem nada por si e, se continuarmos nesse raciocínio, chegaremos a Hume. Como o relato sempre tem chance de ser mentira, sempre teremos dúvida. A dúvida é a essência da verdade empelotada na panela como alétheia.

Ok, nunca saberemos se o rapaz jogou ou não a pedra ou se, jogando, quebrou ou não a janela, pois ele tem a opção ou o impulso auto-enganoso de mentir. Assim sendo, nossa busca da verdade deve mexer ainda mais a panela e agora a coloração do doce aponta para outro ingrediente: a veritas. Procuram-se indícios outros além da pedra, da janela e do relato. As digitais, por exemplo, poderão dizer que está mentindo, como vimos acima. Na falta delas, outros dirão que esse rapaz tem mania de lançar pedras para o ar, que já o viram fazer isso, que faz isso com frequência. Ou, pelo contrário, que nunca teria feito algo tão gratuito e impensado quanto jogar a pedra numa janela. Outros ainda, poderão obviamente mentir sem provas que já foram vítimas de seus apedrejamentos. Enfim, os novos fatos se somarão e reconstruiremos o estado de espírito do rapaz e sua relação com pedras e janelas. Os diversos relatos se sobrepõem e, alguns serão verossímeis, outros não: tanto sobre o fato de ele ter jogado ou não a pedra quanto se, tendo jogado, fez isso intencionalmente ou não. Essa verdade é mais difícil, porém, mais útil. E para a reconstrução Hume talvez não seja o mais indicado. Essa conclusão serve de alento à filosofia, que se sente ainda viva. É esta a verdade filosófica que hoje se procura. A primeira é caso encerrado, pois será sempre a mesma solução: o niilismo. Entende-se o porquê do divórcio da ciência e da filosofia. A primeira, sempre procurou, desde os gregos, a alétheia e gerou a guerra infinita entre a dedução e a indução. A segunda procura a verdade sob a forma de justiça, a verdade como veritas. 



Mas isso é pouco.

O rapaz diz: "joguei a pedra, confesso, mas foi sem intenção". A verdade se estabelece. Os fatos se encaixam. Parece haver solidez entre o que alétheia levanta e o que veritas julga, a tal ponto de falarmos impropriamente que há aí uma única verdade. Mas falta algo. Algo imprevisto e fruto talvez de um elemento obscuro persa que se travestiu de neoplatonismo cristão. Uma verdade ainda mais curiosa. E, espanto, não houve até hoje um Hume que a separasse da veritas. Os ateus exsurgentes não conseguiriam. O rapaz não fez de propósito. Todos sabemos. O outro lado da verdade é que ele não queria. Terá talvez de pagar a janela, mas, ninguém diria que não é um bom rapaz, exceto seus inimigos. Mas, fato é, que mesmo tendo feito sem querer, fez. Enfim, a confiança é algo que pode ser restaurada ou não e o perdão não restaura a confiança da mentira, por mais que, com pena do rapaz, nos coloquemos como medrosos no lugar do quebrador de janelas. Fato é que, distraído, poderá quebrar outras janelas, lançando outras pedras para cima. Fato é que poderá sempre falar mentiras. Essa verdade de que não é um quebrador de janelas, verdade enquanto emunah, que se pauta não nos fatos, nem nas reconstruções, mas na confiança, não se restaura depois de uma mentira, a menos que não tivéssemos a memória. Mas temos. Tudo indica que sabemos que, nesse caso, não teve a intenção de quebrar as janelas, mas o mesmo caso aponta que provavelmente será distraído: a sua inocência não o fará quebrar outras janelas, pois seu impulso de jogar pedras para o alto está além do seu raciocínio e pregado na espontaneidade de como trata o mundo de forma tátil, pegando pedras nas mãos e jogando inconsequentemente para o alto.

Só a prova torturante de que a confiança foi perdida faria alguém autoconsciente não voltar a fazer o que costumava fazer ou que fez. Enquanto esse trauma não se instala e se mostra real nas ações, não haverá o lado emunah da verdade. Esse é o nível mais difícil de ser atingido e a razão pela qual o perdão cristão não é algo que seja universalmente aceito, pois útil ele é, convenhamos. Todos sabemos que há oportunistas que se beneficiam do perdão. Existe a reincidência. Existe a hipocrisia. Esse é o ponto mais complexo que a filosofia poderia discutir hoje em dia. No entanto, a filosofia se separou da ciência no século XVII mas não se separou da religião até hoje. Pensa conseguir dialogar com a ciência, muitíssimo dela já apartada, mas só consegue dialogar com questões comuns da religião, a saber, ética e existência. Nesse ponto, hoje estamos tal como na Idade Média e o máximo que se conseguiu depois de duas guerras mundiais foi um relativismo inútil e solipsista, que se demole aos poucos e perde rapidamente terreno, no Ocidente, mediante a violência dos dogmáticos, que representam nada mais que a regra da nossa espécie autointitulada racional ao longo das longas eras da humanidade.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

O CÍRCULO DAS MUTAÇÕES

Ninguém negará que todo ser é algo. Um dia, paulatina ou bruscamente, todo ser deixa de ser o que é e passa a ser outra coisa. Em resumo, o ser é e um dia deixa de ser.

Isso pode ser motivo de orgulho: o ser deixou de ser o que era. Ou motivo de vergonha: o ser não é mais o ser que era. A maioria absoluta dos seres deixam de ser sem qualquer avaliação, mas nós não somos assim: a essência do homem é julgar.

O ser deixa de ser o que era. Evoluirá, melhorará, pois ainda não era o que queria ser. Sendo agora outra coisa distinta do que já foi, olha para trás e diz altivo e satisfeito: "fui, já não sou, sejam como eu". Ou então o ser deixa de ser o que era. Decairá, piorará, pois já foi aquilo que não é mais. Sendo agora outra coisa distinta do que já foi, olha para trás e diz saudoso e triste: "fui, já não sou, não sejam como eu".



Os seres que evoluem ou os que decaem orgulham-se de dispor de uma consciência que lhes mostra quanto tem melhorado ou quanto tem piorado. Sobem a um púlpito e relatam sua ascensão ou queda. Tornam-se exemplos a ser seguidos ou a ser evitados.

Mas o ser que se orgulha ou se envergonha daquilo que já foi é completamente distinto do ser que não sabe que mudou. O ser inconsciente não percebe a sua própria mudança. Ele pensa sempre ser. Não acredita na possibilidade de um dia deixar de ser o que é, muito menos de já ter deixado de ser há tempos. Não acredita que melhorou, pois sempre foi bom. Tampouco acredita que piorou pela mesma razão: sempre foi bom. Que ser inconsciente não acreditaria na bondade de sua essência imutável? Entendendo isso, entende-se Platão. O ser e o bem se confundem quando a mudança não existe. Se o ser era bom e se torna mau, acredita sempre ter sido bom. Se era mau e se torna bom, acredita nunca ter sido mau.

O primeiro não aceita a sua mudança. O segundo nega para si seu passado mau. É isso a má-fé.

Que ser acreditaria sempre ter sido mau se um dia foi bom? Quem se creria eternamente mau ao tornar-se bom? Parece paradoxal a experiência de que nada permanece deteriorado eternamente num ser realmente inconsciente das mudanças. E qualquer nesga de consciência, nesses casos, subitamente emergida de um ser inconsciente, parece ser uma dolorosa e nauseante verdade, equivalente à primeira mordida do fruto do Paraíso. Verdade que beira o insuportável, por isso evitada, de natureza quase diabólica.

Se o ser inconsciente não acredita que piorou, tampouco acreditará que melhorou. E sendo bom ou mau, às vezes não consegue avaliar se melhora ou piora a cada atitude, pois lhe falta a dolorosa consciência, a qual permitiria que julgasse as coisas como são. Entra aí o olhar do outro que julga a sua inconsciência de fora e redige, depois disso, o seu veredito.

Esse julgador é um ser como qualquer outro, consciente ou inconsciente da mudança. Se consciente, sabe que há mudança no ser julgado e sabe também que ele, enquanto julgador, também é um ser mutável. Se inconsciente, o ser julgador não sabe que o ser julgado muda, tampouco que ele mesmo, julgador, pode um dia mudar ou ter mudado.

Mas há situações muito comuns que geram consequências para além da coerência lógica que vinculam a mudança à consciência.

Há seres conscientes que se sabem mutantes, mas não aceitam a mudança alheia.
Há outros seres conscientes que se sabem mutantes, tanto quanto os seres julgados, mas fingem a imutabilidade de si, do outro ou de ambos.
Há seres que não se imaginam mudando, mas admiram-se com a mudança alheia.
Há seres que não se imaginam em mutação e, portanto, não aceitam a mudança de nada, por mais evidências que tenham das mudanças alheias a si.

Tanto a consciência quanto a ausência dela, portanto, geram situações para além da sua visão de ser, projetada ao outro como idêntica a si. Esse julgamento advém de conflitos, maravilhamentos, intolerâncias e má-fé.



Nada disso ocorre se no julgamento proferido do julgador for declarado que o julgado é idêntico ao que julga. Mas que seria julgado por mim acerca daquilo que eu sou?

Dessa forma, o julgador, sabendo que o julgado não é ele, julgador, volta-se para o julgado como melhor ou pior que ele, julgador. E daí nascem o conflito, o maravilhamento, a intolerância e a má-fé.

No conflito, a suposta mera diferença de essência entre o julgador e o ser julgado é suficiente para o veredito, tão logo seja detectada.

No maravilhamento, posterior à detecção da distinção, conclui-se que a diferença do julgado em relação ao julgador é boa, inofensiva, útil e bela.

Ao contrário, na intolerância, a diferença emergente aponta para o lado oposto: é má, deletéria, inútil e feia.

A má-fé, longe de ser excepcional, contudo, é o último passo a ser dado. A diferença não é vista apenas como óbvia, boa ou má. Independente do julgamento consciente, perverte-se para o oposto: se é óbvia, torna-se oculta; se é boa, procura alguma maldade; se é má, evidenciam-se qualidades boas. Se essa perversão é inconsciente temos o auto-engano. Se é consciente, temos a hipocrisia.

Assim sendo, no conflito, no maravilhamento, na intolerância e na má-fé, nada que é oculto se torna óbvio, nada que é bom se torna mau, nada que é mau se torna bom. Enfim, o julgamento sequer se efetua e, se se efetuou, foi pervertido.

Se a perversão faz parte do raciocínio de quem julga acerca daquilo que se julga, quem deve julgar esse raciocínio? Um outro julgador? Algo que está além do ser? Mas esse ser para além do ser pode ser, como qualquer outro ser, mutável ou imutável, ou pior, consciente ou inconsciente da sua mutabilidade ou imutabilidade. Aparentemente, o julgador do julgamento não é muito distinto do julgador do julgado, a menos que nele não haja conflitos, maravilhamentos, intolerâncias ou má-fé.

Mas isso é impossível, pois tal ser seria inconsciente e, por isso, não poderia ser julgador e, portanto, nada para ele seria bom ou mau. Nada mudaria, de fato, no seu julgamento supremo, pois o ser jamais deixaria de ser: tanto o seu próprio ser quanto o do outro.

Na impossibilidade de haver um ser que julgue o julgamento, os únicos julgadores que há, como sempre e para sempre, julgarão os julgados. Ao julgarmos os julgadores, julgaremos que seu julgamento reflete algo de conflituoso, de maravilhoso, de intolerante ou de pervertido. A justiça do julgamento é solicitada, mas não havendo julgadores de julgamento, o que resta é observar que o que julgamos imaginar como nosso julgamento é, na verdade, uma opinião, ou seja: não julgamos de fato o julgamento, pois o julgamento agora é, na verdade, o que está sendo julgado e nós nada mais somos que novos julgadores.

Acima de nós, portanto, haverá outros que julgarão os nossos julgamentos e, nesse momento, nosso julgamento será julgado e o julgador, vindo de fora, assim como fizemos há pouco, nos anulará, como anulamos o primeiro julgador.


Em suma, o julgador não importa: basta o julgamento. A ele sempre estará vinculado um julgador qualquer, alheio e num nível acima do que se pautou o julgamento e a ele exclusivamente caberá a justiça que declara o conflito, que cala maravilhado, que reage intolerantemente ou que perverte com má-fé.

O círculo se rompe apenas artificialmente mediante acordo ou violência, mas esses são apenas expedientes corriqueiros e práticos do julgar humano, nascidos da insatisfação e da impaciência que causa o ciclo infinito entre o resultado conhecido como julgamento e o elemento alheio de um segundo julgador que não participara do julgamento inicial. A consciência da inutilidade do círculo infinito ou a má-fé que propõe uma saída alternativa para o dilema são as únicas razões levantadas. de fato, mas é possível detectar facilmente que se tratam de elementos externos e alheios às verdades da mudança do ser, da existência de uma consciência, da inevitabilidade de um julgamento.

Assim, os artifícios, conquanto úteis, são impostos. A violência, ainda que eficiente, não deriva logicamente da justiça e o acordo, ainda que legítimo, é apenas uma demonstração de cansaço da consciência do ciclo infinito, causado pelo julgador alheio ao julgamento previamente estabelecido.

domingo, 31 de janeiro de 2016

EXPRESSÃO E CONTEÚDO

Quando era estudante de Linguística, ouvi que Saussure havia descoberto que a língua se compunha de signos e que esses eram uma junção de significantes e significados. Alguns estudantes mais velhos que eu falavam de Peirce, como alguém que teria pensado além, com seu signo de três faces. Do jeito que aprendi, parecia-me (e talvez a muitos que me falaram tais coisas) que Saussure era um sábio no princípio de uma nova era e que Peirce era um questionador revolucionário. Muitos anos depois, apaixonei-me pela Historiografia da Linguística e pela questão de como ideias são transmitidas de forma enviesada e simplificada, para não dizer errônea, às vezes fruto de má leitura, às vezes de algum entusiasmo político ou simplesmente da infalível obtusidade de quem se arroga superior por ser a única espécie racional do planeta. Mas a racionalidade sempre tem dois lados: um deles, a inteligência, que não se confunde com a razão, o outro é a burrice, que nada mais é que uma de suas facetas mais fascinantes. 



De fato, Peirce, quase duas décadas mais velho que Saussure, ressuscitara uma ideia antiga, que se encontra em Locke, nos medievais e começa, ao menos historicamente, nos estoicos. Foi nessas águas remexidas por Peirce e por outros que Saussure pautou suas famosas aulas, transcritas por alunos que o veneravam. No entanto, transmitidas por bocas alheias, não eram suas as palavras, nem poderiam ser. O resultado atual é curioso: aquilo que é mais conhecido de Saussure não é 100% dele. Isso só foi piorando com a boataria intelectual: Saussure obviamente não inventou o signo linguístico. Por que então tanta gente inteligente ou dedicou sua vida toda a defender algo que lhe foi mal contado ou, motivada pelo espírito que nos faz gostar de ser liderados, defendeu o indefensável mesmo sabendo que tudo repousava apenas em artifícios imaginários que nos dão segurança, algo típico do inseguro e do fanático? 

Hjelmslev, por exemplo, diz que Saussure era "pioneiro indiscutível" e "o único teórico que deve ser citado", ignorando todo o século XIX, mesmo os seus antigos colegas dinamarqueses, cuja tradição em linguística remonta ao século XVIII, entre os quais vem à mente uma larga tradição de personalidades, como Rask, Nyrop e Jespersen. 

Saussure não fundou a Linguística, termo que circulava desde o século XVI. Já havia até mesmo livros sobre Historiografia da Linguística, como o de Benfey, publicado quando Saussure tinha 12 anos. Tampouco inventou a Linguística Geral, termo que já era usado décadas antes de ele lecionar essa disciplina em Genebra. Quando era uma criança de sete anos, já havia uma Société de Linguistique de Paris, à qual o jovem estudante Saussure se afiliou e onde se destacou. Ainda apreciando anacronismos, não poderia ter sido Saussure quem ensinou semântica ao seu mestre Bréal, vinte e cinco anos mais velho, nem é do genebrino o entendimento de que a língua é uma instituição social, pois isso já estava nos escritos de Whitney, trinta anos mais velho que ele. 

Por ser um feroz leitor de temas para além da linguística da época, como a sociologia e a psicologia, pode-se afirmar que quase nada do que está no Cours de linguistique générale é original, apesar de ser inquestionável a genialidade de Saussure, um indoeuropeísta, cujos insights não foram compreendidos senão anos depois de sua morte, após a descoberta da língua hitita. Genialidade, contudo, que foi parcamente registrada pelo seu próprio punho e, mirabile visu, não foi reconhecida, senão por poucos, pelo que realmente escreveu, como seu Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes

Didático e exigente, Saussure alimentou a admiração dos seus alunos, que publicaram (e distorceram involuntariamente) suas aulas. A excelente e já antiga edição crítica de Tullio de Mauro do Cours já punha os pingos no is anos antes mesmo de eu estudar Linguística. Por que aprendi errado, então, e só às custas do meu esforço consegui desaprender? O ensino serve às vezes para desinformar e confundir? Enfim, por que ser genial é quase sempre considerado sinônimo de ser original? Isso não seria demasiadamente hegeliano e romântico? O próprio De Mauro não esconde a sua paixão pelo mestre de Genebra respondendo a essas perguntas ambíguas. 

Quando, na pós-graduação, fiz uma disciplina sobre História de Roma, algo aconteceu, que muito me impressionou. Num dos seminários, uma aluna mostrou com enorme riqueza de detalhes que, no Império Romano, durante a transição do principado à monarquia absoluta, o Cristianismo sofreu um verdadeiro sincretismo com ritos e lendas pagãs. Jamais tinha ouvido falar do mitraísmo e não havia associado com tanta clareza a ideia de que os valores cristãos eram tão parecidos com os do Neoplatonismo, seu rival pagão. A moça, não fosse eu na época já ateu, me teria facilmente convencido de que havia falta de originalidade e sentido na inspiração divina da mensagem cristã, dada a quantidade de informações irrefutáveis que apresentou. Mas, crucifixo pendurado ao pescoço, fez questão de concluir sua brilhante apresentação afirmando sua fé particular em um Deus todo-poderoso, criador dos céus e da Terra e em Jesus, seu filho. A mesma sensação de perplexidade eu tenho lendo o estupendo The case of God, da eruditíssima Karen Armstrong. Por que existem pessoas que conseguem levantar dados históricos de forma tão genial mas não combiná-los com sua fé e vida pessoal? Isso sempre me causará extrema perplexidade.



A isso não chamo burrice. Fazer um esforço hercúleo para testar seus valores, questioná-los e superá-los é o que o símio humano tem de mais louvável e incrível. Conseguir combinar harmoniosamente seus próprios valores com a diferença é talvez o elemento admirável de nossa espécie. É o que justifica os nossos neurônios a mais. A burrice é outra coisa. É atitude dos que se recusam a olhar pelo telescópio na peça Leben des Galilei, de Brecht: os avessos à inteligência aliam a fragilidade existencial à pura falta de esforço para ter a informação adequada. E se eu achasse que existe de fato pecado, essa combinação, para mim, seria o maior de todos os pecados. É isso que alavanca o ódio e os gestos assassinos mais frequentes do mundo. É isso que impede a comunicação mais do que a barreira natural das línguas. Há limitações naturais, sabe-se, mas elas, creio eu, podem ser superadas por estratégias que minimizam sua exposição e pelo esforço do autoconhecimento, que evita o auto-engano.

O mundo moderno está empapuçado de tanta informação. Dá uma preguiça danada informar-se e acreditamos numa osmose emanada das redes sociais. A informação está aí, escolhemo-la como num menu. O conhecimento hoje em dia é self service. Assim sendo, não acredito que a burrice seja mais um traço nacional de que nos devemos orgulhar. No Brasil estamos numa cilada terrível: por um lado, a opinião emanada de políticos que falam coisas sem pensar, sem pesquisar, sem considerar a inteligência do ouvinte. Por outro, a informação mal feita de uma oposição que acusa a situação. 

Mais do que a desarticulação da expressão da presidente, acusada por Celso Arnaldo Araujo, impressiona-me a sua falta de conteúdo. Lapsos de expressão cometemos todos nós, a mim mais do que eu desejaria. E nesse quesito, os chamados erros de expressão são algo que só se justificam por meio de uma leitura vaugelasiana da gramática. Quem não diz "comê"? "Falá"? "Cantá"? Basta que sejamos gravados desatentos e que nos ouçamos depois. A falta do -r do infinitivo é a regra do português brasileiro, somente rompida na solenidade de discursos, onde pode parecer inadequada, mesmo assim apenas ao ouvido mais sensível e obcecado com o fato. Além disso, aparentementente, pela expressão falha não se atinge um conteúdo falho. O conteúdo falho se manifesta sim em atos questionáveis: mesmo que a expressão seja a mais capenga, arrevesada, contraditória e pleonástica, ela pode conter algo inteligente. O que nos faz perceber a falta de inteligência é a ausência do ato inteligente. Mas a atitude normativa das gramáticas desde o século XVII parece ter ódio à diversidade de expressão e para cada uma tem um carimbo. 



O conteúdo é manifestado, como dissemos, parte na expressão, parte na ação e é na ação que podemos flagrar a inteligência do conteúdo e não na expressão. Tomadas de decisão é que, de fato, parecem ser a janela de nossa alma. Assim, cansados da embromação de ministérios e de outras autoridades, surgem a histeria e o desejo de extermínio, perante um inimigo de alguns centímetros que transmite febre amarela, dengue, chikungunya e zika, a qual tem gerado fortes suspeitas de vínculo com o pavoroso aumento de microcefalia nas Américas e no Brasil em particular. Nossa espécie pouco afeita a perder seus privilégios, diante de algo que não está bem, evoca com facilidade uma Endlösung.

O medo do desconhecido é o mais conhecido medo que temos. É ele que nos faz declarar como ameaça à nossa existência o bichinho que Lineu chamara de Culex aegypti e que mudou, de forma tortuosa para Aedes aegypti (e que deveria se chamar, desde 2004, de fato, Stegomyia aegypti, se critérios atuais de nomenclatura fossem, de fato, respeitados). Jornalistas, querendo enfatizar as já conhecidas contradições e inconsistências das declarações institucionais, partem da nossa mais nobre capacidade intelectiva, a generalização, para afirmações que se espalham mais rápido que as doenças acima referidas. Uma vez que a pressa da imprensa quase nunca permite que afirmações sejam pautadas em pesquisa e muito menos em análise, amiúde faz isso de forma desinteligente, lançando um facho de escuridão juntamente com a informação, que deveria iluminar.

Anteontem, o Jornal Nacional anunciou que havia sujeira no Palácio da Alvorada (http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/focos-de-mosquito-sao-vistos-metros-do-palacio-da-alvorada.html). Grande novidade. Há sujeira no país todo. Nunca fomos uma Áustria ou uma Suíça. Outro dia vi em minha rua um ecocaminhão de coleta seletiva, verde, com dizeres lindos sobre lixo reciclável e sustentabilidade, cujo motorista, na minha frente, jogou um copinho de plástico com resto de café bem na calçada. Brasília mesmo, cidade da reportagem acima mencionada, construída para ser sonho e não decair como a antiga capital Rio de Janeiro, mesmo que rodeada de periferias que nada se assemelham ao platônico Plano Piloto, não poderia ser exceção à nossa falta de educação. A reportagem seria apenas inócua, mas, feita para chocar, como se já não tivéssemos motivos suficientes com o cenário político, teria de fato chocado se não fosse uma tremenda e imperdoável falha jornalística que me tirou totalmente a atenção do seu conteúdo:  aos 1:10, a voz do repórter diz "E na casa da presidente Dilma Rousseff? No Palácio da Alvorada encontramos mosquitos no Espelho D'água. Não é o da dengue, mas serve de alerta".

Não, nessa cena rápida, esses bichinhos olhudos que estão nadando de costas não são mosquitos. E se não são mosquitos, não são os da dengue, obviamente. Se ele tivesse visto araras, não seriam araras da dengue, com certeza. Os bichos que o incauto repórter viu especificamente nesse espelho d´água nem de longe se parecem com mosquitos. São vorazes hemípteros notonectídeos. Provavelmente jogaram larvicida para matar o coitado do bichinho que nada tem a ver com doença nenhuma. Ou seja,  pensei naquele instante, qualquer inseto é sinônimo de sujeira? O ideal seria estarmos livres de todos eles, mesmo dos que se alimentam dos nossos inimigos, como deve ser o caso desses que foram confundidos com mosquitos? Postei um comentário no site. Outro rapaz afirmou que eram larvas de libélula. Não são. Nunca vi larva com asa, muito menos nadando de costas. O desgosto da burrice me fez pensar: o repórter, o rapaz e eu estamos dizendo coisas distintas, ora, é óbvio que, nesse assunto, sou eu quem está com a razão (basta pesquisar a palavra "Notonecta" no Google, leitor incrédulo). Como fazer para que uma opinião com conteúdo se distinga de trilhões de outras sem conteúdo que só servem para confundir? Parece que vivemos, com o excesso de informação, apenas numa coleção de expressões sem conteúdo julgável: todos parecem ter razão embora muito poucos a tenham.

No dia seguinte, esperei em vão pelo "erramos" do William Bonner. Era a vez de Chico Pinheiro continuar a reportagem e verificar a promessa do Ministro da Saúde, Marcelo Castro. Houve outras reportagens sobre o mesmo tema, nesse mesmo dia, mas o que apareceu numa delas me chocou ainda mais. Não é que aos 0:59 mostrou-se um girino como se fosse uma larva do Aedes aegypti?! Veja como seus próprios olhos: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/mutirao-de-combate-ao-aedes-aegypti-e-realizado-em-250-cidades-de-sp.html


E pior ainda - rir para não chorar! - a mocinha agente de Saúde que quer conscientizar a população de São Bernardo do Campo sobre o perigo da água parada está vestida de mosquito ou de libélula? Afinal de contas, a fantasia dela tem quatro asas e o tal vilão alado, como qualquer díptero, tem apenas duas. Nas aulas de biologia aprendemos que mosquitos e moscas têm duas asas e dois balancins pequenos e não quatro asas desenvolvidas, mas, pelo jeito, os agentes de segurança não reconhecem o facínora que procuram e estão caçando outros insetos. 

Pode parecer detalhe besta mas não é. Isso nos dá a medida exata de nossa ignorância atual e o quanto não sabemos sobre aquilo de que temos mais certeza, a ponto de não pormos em dúvida o que vagamente sabemos, nem checar nada, antes de dar nossa opinião. Ou seja, nunca pensamos que pode estar errado aquilo que nossa mais profunda convicção nos faz imaginar certo.

Ora, são essas profundas convicções as causas de nossos atos mais impensados. Toda consequência irracional vem de uma profunda racionalidade equivocada. Radicalizando, toda violência (verbal ou com sangue pingando tanto nas mãos quanto nos machados) vem da mais abjeta ignorância. Deveríamos cuidar para que nosso lado pouco inteligente não aflore subitamente. Deveríamos cuidar ainda mais para que não aflore o tempo todo. O único remédio é o estudo das fontes certas. Ora, quem sabe falar sobre inseto? Bons entomólogos. Por que satisfazer-se com o palpite de um ilustre que não tem especialidade naquilo sobre o que discorre? Não é à toa que o niilismo, o relativismo, a indiferença e a boçalidade tem sido a regra deste século de maravilhosa democratização da informação. 

Se racionais todos somos, é preciso aprender a ser inteligente. Isso não vem no nosso DNA. Requer um pouco de esforço diário.