O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

O INVISÍVEL

De repente está tudo aí. Anos atrás reclamei que ninguém respeitava as faixas de segurança e ninguém as respeitava mesmo. Não digo que possamos hoje atravessá-las de olhos fechados em cruzamentos sem semáforo e que todos os motoristas respeitarão a vida dos transeuntes em vez de preferirem a urgência de ficar parados alguns metros adiante. Mas, verdade é que alguma mudança se vê, ao menos em São Paulo, nesse quesito. E a mudança foi súbita. Algumas outras questões de cidadania, impensáveis anos atrás, por causa de uma suposta passividade do brasileiro, decretada fatalisticamente por sociólogos, que diziam conhecer sua essência, hoje são o ponto principal a ser considerado antes de qualquer atitude. Mudanças acontecem. Primeiramente o que há é uma pequena mudança pontual, depois e em pouco tempo, haverá o suficiente para toda a situação mudar, como gotas de tinta azul pingando numa banheira de água translúcida.

Mas o distraído imerso na banheira que não vê o gotejar ou, vendo-o, não se importa com isso, tem direito a espantar-se com a água toda azul, pouco tempo depois, e seu corpo também, a ponto de manchar a toalha em que secará seu corpo? Dirá que a mudança foi imperceptível, quando na verdade estava ali como qualquer mudança. Não tinha nada de invisível. Chocamo-nos muito fácil, mesmo que sejamos abalroados por indícios óbvios diariamente.



A mudança é um minúsculo embrião. Ocupará todo o espaço necessário para que se torne possível. Só não cresce aquilo que é impossível. Só não ocupa espaço se não for necessário. O que necessita de algo, porém, não segue nenhuma teleologia, nenhum plano, nenhum objetivo, nenhuma lembrança. Segue apenas sua fugaz e inconsequente vontade. Para o que tem vontade, não há entorno, não há nada além de si mesmo. Não é razoável pedir razoabilidade à vontade. Quem tem vontade, diz: "eu preciso disso", mesmo que seja a coluna de um edifício que desabará sobre sua cabeça.

Desabado o edifício, torna-se a vontade visível. Enquanto circulava, como brisa ou subreptícia sombra, não era menos visível, mas teima o mistagogo que era sim invisível e imprevisível. Não o culpemos. Todos somos sedentos de mistérios. Imaginar a vontade de mudança como invisível é apenas uma charmosa conversa para boi dormir.

O invisível de fato não muda nada. O invisível não existe se não muda. Tudo que existe é visível, direta ou indiretamente. Se o vento fosse invisível, de fato, não moveria as plantas. Se Deus fosse invisível, de fato, não surpreenderia os homens. O que se move existe. Mas nem tudo o que é movido é causado por algo que existe. As causas, essas coisinhas esquisitas a que se ligam as mentes humanas, são indiferentemente visíveis ou invisíveis, existentes ou inexistentes.

A única lei do universo é o movimento. Enquanto o universo não se movia, ele não era causa de nada, mesmo existindo. Não é possível mover-se e não ser causa de algo. O imóvel inexistente é a mais incompreensível das coisas: porque não causa nada. Para ser causa é preciso mover-se. Causa e movimento são a mesma coisa.



Um movimento sem causa é incompreensível. Uma causa sem movimento é um paradoxo. Portanto, são a mesma coisa. Por que dois nomes? Porque o movimento é para os nossos sentidos o que a causa é para nossa mente. Costuma-se ver a causa como anterior ao movimento. Mas, e se a causa pudesse ser imaginada como algo posterior ao movimento? Diriam: aí não seria causa, seria finalidade. Assunto sem fim... Quanta tinta já correu sobre a existência ou a inexistência das causas finais! Na verdade, o local da causa não está nem antes nem depois do movimento. Causa e movimento são a mesma coisa. 

Se caminho, digo que faço isso porque quero ir até ali. Então a causa de meu caminhar é a vontade de ir até ali? Não, isso é falso, essa causa antes do movimento não existe. A causa do meu mover é querer estar ali e o querer é algo que existe, movendo-se ou não: o mover-se é como a causa se realiza, como passa a existir para os outros. Achar que intenção é sinônimo de causa sempre foi um erro crasso que só pode ter raízes nas pobrezas lexicais das línguas.

Como seres volitivos, nosso querer se dá pela análise da circunstância em que estamos, a qual invariavelmente não é boa ou seria melhor se fosse de outro jeito. Portanto, querer é algo que está ligado à vida e à existência. A vida é movimento. Se é movimento, a vida também é causa, como dissemos. E da mesma forma que a existência não é sinônimo de causa nem de movimento, a vida tampouco o é.

Se causa é movimento, ao dizer: "chove", digo o mesmo que: "o movimento das gotas de chuva são a causa de minha mente pensar que chove". A existência dessa chuva depende de um julgar, meu ou de outrem, se de fato chove. A frase "chove" é verdadeira se eu ou alguém julgar que "é possível ver como uma verdade que o movimento das gotas da chuva são a causa de minha mente pensar que chove". Se deliro e digo chove, quem não vê a minha chuva de delírio poderá tolerantemente entender que aquela é a "minha verdade", não a "dele". A verdade, portanto, nesse sentido, depende de uma conivência e de uma tolerância, mas quem garantirá que não delira o que não vê a chuva? Nesse caso, dois julgamentos antagônicos não são suficientes: seria preciso uma terceira pessoa, e mais outras, e só depois de muitos dizerem: tu deliras é que poderemos falar de uma verdade consensual. O bom delírio, retamente assim designado, portanto, estará restrito, após esse veredito, a uma só pessoa, que diz que chove, e não a todos, que dizem que não chove. Mas, e se o grupo está dividido e metade afirma e a outra metade nega a existência da chuva? Nesse caso, a palavra delírio se torna abusiva e deveria ser substituída por outra mais aceitável, por exemplo, opinião. Concluindo, o delírio é uma opinião personalíssima e uma opinião nada mais é que uma verdade cindida. O relativista, portanto, torna o sentido da palavra "verdade" algo muito elástico e plural, portanto, inútil para se chegar a verdades consensuais.



Será delírio, porém, imaginar uma verdade consensual, compartilhada por todos, inquestionável? Não seria essa verdade um ser sem movimento, uma anticausa, uma causa de nada, portanto, um não-ser? Como equivaler a qualquer movimento um ser assim? Por que o universo de repente se expandiu, se era apenas algo que existia, sem mover-se e, portanto, sem causar bem ou mal algum?

A tempo: a verdade razoável não é a verdade consensual. 

Como seria? Para que a razoabilidade prevalecesse e vencesse, seria preciso a tirania do razoável? Seria preciso que fôssemos razoáveis à força? Seria preciso haver um mecanismo que reprimisse aquilo que não é razoável? Ora, uma verdade não-razoável é fundamento, portanto, causa e movimento de atitudes não-razoáveis. Se isso é personalíssimo, chama-se crime, pecado, delito, mancada. Se a verdade não-razoável é verdade cindida, é instalação do caos, voluntas maligna, inconsequência, convulsão. Pensemos: quantas vezes o ser humano não se pautou por ela e ainda se pautará? Para que a vontade não-razoável não prevaleça é preciso memória, lembrança dos seus movimentos (ou de suas consequências). Só se perdoa que a vontade não-razoável prevaleça quando é a sua primeira vez, isto é, quando suas consequências ainda são desconhecidas, ou quando a falta de memória existe de fato. Para que isso não acontecesse, o ser humano armou-se (em vão) de estelas, lápides, certidões, documentos, poemas e tudo que a escrita ou o mito teimam em imortalizar.

Mas há quem diga que o movimento é de tal forma alicerçado no momento atual, que não há duas vezes uma mesma verdade razoável ou não-razoável. Esse raciocínio tão agitado é, paradoxalmente, tão estéril quanto o não-movimento ou quanto a verdade consensual, não por ser anticausa e não-ser, mas por ser inútil ultracausa e super-ser. 

O movimento real está entre a negação e o além.

Não se confunde, porém, com nenhum dos dois, pois, confundindo-se, seria falta de movimento ou excesso de movimento. E nada disso seria útil. Nada disso seria razoável. Não serve para o raciocínio e, por conseguinte, não serve para a vontade e para a vida. O movimento real não é legislado pelo desejável, mas pelo razoável, que depende da memória, que depende do registro, que depende de quem os leia e os avalie. O que está fora do real é o invisível, que nada causa. Invisível porque não existe ou porque é inútil. Pena que nem todo ser inexistente ou inútil seja invisível: se fosse, só haveria causas razoáveis e a vontade se pautaria nelas. Mas porque é visível, a imaginação, irmã da insatisfação, lança-o à baila e convivemos com esses seres visíveis inexistentes e inúteis de forma cansativa e desnecessária, imaginando que fazem parte de nossa cara e gabada racionalidade humana.





quarta-feira, 22 de junho de 2016

QUESTIONAR E CONSTRUIR

Hoje, qualquer pessoa, armada de smartphone, consegue informar-se sobre algo de que não sabia nada cinco minutos atrás. Uma palavra deixa de ser apenas um nome e se torna conceito após uma consulta ao oráculo Google. Nossa até então ignorância se torna luminosa sapiência fugaz, que deve ser ruminada no atropelar-se ininterrupto por manadas de informações. Em vez de sabermos apenas soletrar o nome de uma palavra, agora nos inteiramos rapidamente de seu conteúdo e esse neoconhecimento - se assim podemos chamá-lo - tem a semelhança de um finíssimo véu de seda que pomos um sobre o outro, numa pilha sem fim, onde jamais o reencontraremos. Ao lado do antigo conhecimento enciclopédico de poucos, erigiu-se o conhecimento wikipédico de muitos, que sequer leem o verbete completo: apenas o suficiente para reforçar aquilo que já sabem, pondo um pouco de rejunte no seu pequeno e vaguíssimo conhecimento real. Eis o ser mais notável nos dias de hoje: o ignorante orgulhoso de sua ignorância. Para atingirmos esse nível, sem dúvida alguma, é desejável uma boa dose de autoengano.



A abundância de informações de hoje em dia nos permite ser críticos. Nunca houve tanta facilidade em questionar. Se essa facilidade advém de alguma capacidade lógica, ninguém negará que é preciso uma boa dose da nossa conhecida eterna falta de saciedade. Ora, desde que o cérebro inchou e o homem se pôs a raciocinar em cima de construções mentais, a falta de saciedade é a ordem do dia, da hora, do minuto. Até aí, morreu o Neves. Mas a pergunta que nos cabe fazer aqui só pode ser uma: é possível questionar, sem querer destruir? Alguém dirá que destruir faz parte da etapa seguinte ao questionar. Senão, vejamos.

Se concluo que algo não é bom - e, suponhamos, isso é inegável - que faço com essa conclusão?

Serei conservador? Porque concordo que não é bom mas - dane-se! - herdei-o de alguém de quem gosto.

Serei revolucionário? Já que me parece óbvio, uma vez detectado que algo não é bom, devemos riscá-lo da face da Terra.

Serei alienado? Mesmo vendo que não é bom, direi a mim mesmo que é bom, sim e chamo para a briga quem discordar de mim.

Enfim, o fato de alguém questionar, vendo que algo não é bom, não significa nada. A reação seguinte dependerá de como lidará com aquilo que deixou de ser bom. A crítica, portanto, levantará multidões de conservadores, revolucionários e alienados, que, em seguida, passam a engalfinhar-se e pulam uns nos cangotes dos outros. Nada de novo está sendo dito.

Ora, uma crítica incita, gera ou sugere a mudança da imagem do criticado, independente da reação escolhida. Nesse grande momento, o criticado não tem mais o direito de ter a sua essência da mesma forma que sempre foi e ainda era, momentos antes.

O criticado pode, por exemplo, permanecer sob urros dos que detectam a sua mudança de imagem. Mas a destruição é, necessariamente, o ato contínuo à crítica? É a destruição que o conservador e o alienado devem temer? É à destruição que o revolucionário deve almejar? Não há uma outra via? Decerto há, além do mero deixar como está. Se a solução mais comum, banal e imediata do pós-crítica é a destruição, nada impede que o oposto também possa ocorrer. E o oposto da destruição não só é a manutenção do status quo, mas também a construção.

A construção, porém, alerto, é algo raro, raríssimo no mundo atabalhoado do símio racional. Por quê? Se formos atentos ao mundo, essa resposta é quase óbvia. Acima de qualquer coisa, construir requer engenho. Falemos seriamente agora, quem não percebe que a inteligência é a mais fugaz de todas as manifestações dos milênios de humanidade? Sem esse engenho, não há construção nenhuma, apenas repetições de fórmulas que já não deram certo e foram esquecidas. A nova tentativa de algo que já sofreu crítica é uma lamentável forma de demonstração de que a espécie humana é tão inteligente quanto qualquer sapo, qualquer pelicano, qualquer quadrúpede que vagueia babando pela terra. Para mim, não há novidade nenhuma nesse fato, mas algumas pessoas ainda podem se escandalizar com a comparação do semidivino homem com torpes animais.

Repensando um pouco, percebemos que criticar significa romper a inteireza de algo que funcionava, bem ou mal. Ora, o primeiro passo após a ruptura da inteireza é geração de polos abstratos, extremamente maniqueístas, que facilitam o nosso questionar. Portanto, não se constrói nada logo após a crítica. Quando o rei percebe que está nu, só lhe cabe tapar as vergonhas. Nenhuma outra solução poderia ocorrer-lhe no momento. Quem não concordar, observe melhor doravante: é essa a regra.

Conclui-se, de forma quase tautológica, que é mais fácil destruir que construir. A crítica alavanca destruição apenas por vicioso hábito e é sobre a fedentina do ser desintegrado que demorará para surgir algo de fato novo. Eis a regra de ouro: é mais fácil substituir o ruim pelo pior do que criar algo absolutamente novo. Os românticos, nesse ponto, foram os mais equivocados dos homens.



Quando a metade boa, a esquerda (onde está o coração), do visconde Medardo de Terralba planejava sua máquina, no maravilhoso conto Il visconte dimezzato, de Italo Calvino, não conseguia pensar em nada simples, que pudesse trazer felicidade a todos, e, por isso, visando à mais útil das construções, construiu a máquina mutante mais inútil de todas. Mestre Pietrochiodo, sempre a serviço da utilidade, só consegue ser um eficaz servo da vontade de poder e do sadismo da outra metade má, a direita, do mesmo visconde, que havia sido partido ao meio numa guerra. Será que Calvino detectou que o bem é inábil como a mão esquerda de um destro e só constrói coisas inúteis que não saem do esquemático mundo das ideias dos projetos, enquanto ao mal se atende muito prontamente e até com certa criatividade, pois, de alguma forma, tem mais a ver com nossos hábitos?

Mas o homem não está fadado ao mal. A prática do mal é tão insuportável quanto a teoria do bem. I nostri sentimenti si facevano incolori e ottusi, poiché ci sentivamo come perduti tra malvagità e virtù ugualmente disumane. Se destruir é algo corriqueiro, mas não é o ideal, construir parece ser a solução.

Mas há uma diferença enorme entre destruir e construir para além dos prefixos que os distinguem como meros opostos. Construir requer paz, construir requer tempo. Da amalucada tabula rasa só sai fumaça, cinza, monturos de cascalho. Derruba-se uma edificação em tempo dez mil vezes menor do que o utilizado para erguê-la. Prova disso é que a história da humanidade vê claras mudanças após o surgimento do machadinho de pedra, do bronze, da pólvora e da bomba atômica. Essas invenções, marcos da revolução paleolítica, do domínio mesopotâmico, da ascensão europeia e do mundo pós-moderno, são pontos históricos importantes, contudo muito distantes de qualquer construção, pelo contrário: foram alavancas da destruição. Pensar não é, de modo algum, construir e, como vimos, questionar, ao contrário, é praticamente o botão destinado à destruição. A construção não vem nem do raciocínio nem do questionamento: vem do cansaço demoradíssimo que beira o desespero entre uma guerra e outra.

Cadê, ó otimista Nietzsche, o teu super-homem do outro lado da corda? Cadê, ó Marx, o teu paraíso após a revolução do proletariado? Cadê, ó Comte, o teu pensamento positivo que nos abraçará depois de tudo? Cadê, ó Hegel, os valores da tua amada Prússia, objetivo do espírito da humanidade após dez mil sínteses e antíteses? Nada mais que boas ideias. Nada mais que frutos do questionamento. Esperamos eternamente algo que nunca virá. Tudo ruiu.

Toda construção, observem, é gerada por outro caminho: toda construção vem do cansaço. E aparentemente não estamos ainda fartos de sangue e corpos eviscerados para dizer que o tempo da bonança eterna chegou. Ainda conseguimos suportar muita tristeza, ainda gostamos que muita loucura rompa nosso tédio. E eis que o bando está de novo em convulsão, pela infinitésima vez, batendo no peito de maneira exibicionista, como gorilas machos prestes a se enfrentar. Gritam esses gorilas: eu questiono! Eu sei questionar! Aprendi agora mesmo! 

Retomemos: construir, ao contrário, requer paz e tempo. Paz que só vem quando tudo está ruim demais depois de ter estado péssimo. Tempo que anda lento e demorado enquanto nossa mente cozinha o angu da invenção realmente útil que nos tirará do sufoco. Pior: nem todo mundo pode construir, nem todo mundo tem essa capacidade. Infelizmente. Somos todos racionais? No atacado? Uma ova. A minoria da minoria da minoria conseguiria dar um primeiro passo em direção à construção, isso se tiver a sorte de não morrer de fome no meio do caminho, ou de loucura. Não se constrói nada em convulsão e com impaciência. Todo discurso de um mundo melhor imediatamente após uma revolução é balela. Esse discurso, porém, nos pega por dentro, nós, sedentos de justiça e de espólios. Há uma Mutter Courage dentro de cada um de nós. Construir para quê, se é possível viver como abutre? Pensa o raciocínio estreito, o da maciça maioria. 


"Mas para construir é preciso destruir", diz o que pensa fazer algo com seu cérebro distinto de ser submetido a ele. Do yin nasce o yang, diz a sabedoria oriental. Balela! A destruição é ímpeto, é força inata do australopiteco pós-moderno. Vem nos genes, é brinde, junto com a sua cognição e tantas outras coisas do destino, de onde não fugirá, A criança mói o chocalho e ri. Destruição nada mais é que o modus operandi do primata humano. A construção é outra coisa. Não se deixe levar pelos prefixos que, na sua oposição, só refletem uma nesga da onipresente burrice das tradições e das culturas. Construir é quase um acaso. Construir significa: estou farto mas não vou esperar ninguém. Construir significa: eu sou meu líder, eu sou meu deus, eu sou a pessoa que vai tirar-nos desse enrosco por um caminho que ninguém enxergou. Quem constrói não segue lampiões no escuro, aventura-se sozinho, às vezes cai em buracos e morre. Por isso não se constrói tanto. É preciso coragem para construir sem destruir. É preciso mais do que um cérebro herdado de peixes e lagartos. É preciso ter uma obsessão inútil, com alguma ligação misteriosa com o Mundo das Ideias, prestes a ser usada no momento limítrofe da loucura. É preciso ser beijado pelo acaso.

O construtor não é um usurpador, não é um líder, não é um gênio. É apenas uma pessoa cansada. Alguém que não quer seguir, não quer compartilhar, não quer nada além do que sempre quis. E o que queria não era importante para ninguém até então, até a situação ficar crítica. É alguém que faz prevalecer a sua vontade, de maneira natural, por necessidade de todos. O construtor é o único que consegue parir algo que seja relevante de fato. Todos o agradecerão, embora raros sejam os que deixam seus nomes registrados. É o inventor da porcelana, dos calendários, do arado, da escrita, do quinino, das abluções rituais, de tantas soluções úteis, com as quais séculos de ciência culta não conseguem comparar-se. Que falta faz a presença de um único construtor no mundo arrogante e maluco de hoje! Há mais de dois séculos não surge um digno desse nome!

quarta-feira, 4 de maio de 2016

NON SEQUITUR

Aos poucos a história da Humanidade viu que a etnia e o gênero dos indivíduos não são elementos que devam entrar no julgamento dos seus comportamentos, a ponto de haver leis que amparem a tolerância e o respeito pela essência individual. Inclui-se aí também a religião: é feio imaginar, por exemplo, que um físico não seja um bom físico por ser teísta. Ele tem o direito de sê-lo ainda que nos pareça contraditório. Assim, pouco a pouco, foram detectados e tornados legisláveis a xenofobia, racismo, o sexismo, o machismo, a homofobia, a transfobia, o antissemitismo, o elitismo, o bairrismo e o especismo.

Mas por que essa tolerância não é geral e irrestrita? Paradoxalmente também por causa das leis e das regras de comportamento. Ninguém é dependente de drogas ou adúltero impunemente, sem julgamentos morais ou legais. Não é a mesma coisa de gostar de amarelo ou de azul. Por causa dessa zona entre o crime e o permitido, uma esposa abnegada esconderá de todos seu fascínio por vídeos pornô; um líder religioso só contará piadas politicamente incorretas longe dos microfones; muitos, como a personagem de Rubens Fonseca, terão seu Passeio Noturno até serem investigados pela polícia. Assim sendo, há regras sociais para o que é e o que não é correto. O Direito legisla sobre a complexa etologia humana.

Mas há zonas mais profundas naquilo que chamamos ético. Hoje em dia ainda não é feio declarar que alguém seja indigno da nossa confiança por reproduzir um discurso que odiamos. A essa postura intolerante costuma-se dar até mesmo alguns nomes positivos. Talvez porque todos acreditemos, cada um em sua tribo, na fábula do Homem Integral, advinda de uma mitologia em nós arraigada, a despeito de a vivência nos demostrar diariamente a sua inexistência.



Qual a importância se um ator famoso não tiver a mesma convicção política que a minha? Deixará de ser um bom ator? Posso avaliar a capacidade de um jogador de futebol pela sua religião? Deixará de ser um bom biólogo alguém que tem práticas sexuais que me são estranhas? Isso, de fato, não é um julgamento ético: é apenas um non sequitur.

Deem um microfone ao cantor pop e ele só falará asnidades sobre política: deixará, por isso, de ser um bom cantor? Flagrem o ganhador do Prêmio Nobel de Matemática com uma espingarda matando passarinhos e sua racionalidade será questionada. Cairão em desgraça, esmagados pela opinião pública após descobertos pelos jornais, mas onde está a contradição? Decerto, um padre que prega o "não matarás" não pode ser acusado de assassinato, pois se ninguém pode assassinar, muito menos ele deveria fazê-lo e isso, de fato, seria escandaloso. Mas onde está a contradição ética do professor de literatura Immanuel Rath ao apaixonar-se por Lola Lola, der blaue Engel

Essa ética fumacenta é algo que cobramos do outro para destruí-lo. Se o que se cobra é cobrado de todos, a destruição moral do indivíduo é corroborada por algum tipo de justiça, mas e quando todos se julgam iguais nas suas sentenças morais distintas? A justiça pode intervir sempre, mas  que acontece quando permanece calada?


Enfim, se escuto um saxofonista maravilhado e para ele projeto os meus melhores sentimentos até o momento em que ele começa a falar de criacionismo, em franca oposição ao que penso, deixará de ser um bom músico? Tornam-se imediatamente suas composições odiosas pelo simples fato de não concordarmos com algo que não seja a especialidade que o define como saxofonista? Simples: o chamado raciocínio acerca dos valores humanos não merece o nome de raciocínio. É uma fera com dentes sangrando que pula sobre qualquer um que lhe roube uma rosa. Fera que ataca, mesmo saciada.

Tenho o direito a ficar indisposto e parar de meu geneticista favorito por causa de seus comentários sexistas num canal de TV; posso desapaixonar-me de um pintor quando leio no jornal sobre a sua crueldade contra algum parente; posso parar de procurar os filmes de um cineasta que amava quando vejo um vídeo em que externa opiniões políticas lamentáveis a um repórter, mas todas essas pessoas deixaram de ser, de fato, bons profissionais depois que a decepção tomou conta de mim? Fizeram realmente algo que me desagradou na sua profissão e na sua obra? Se o geneticista mescla sexismo nas suas teorias, se o pintor promove a violência em seus quadros, se o cineasta faz de sua obra um palanque ideológico, meu descontentamento parecerá razoável, mas e se nada daquilo que me é abjeto conspurcar o seu trabalho, terei o direito de desapontar-me? Algo evitará que eu enxergue máculas de sua índole na mensagem de sua obra? Se usássemos corretamente o juízo, veríamos muitas vezes que tais pessoas não poderiam ser criticadas pelo ofício que exercem nem pela obra que produziram. Mesmo assim, justifica-se o meu desprezo subsequente ao meu desapontamento? 

Mais absurdo ocorre quando a crítica injusta é anacrônica ou quando promove uma injustiça ainda maior. Incensado o acadêmico durante décadas, uma vez feita uma declaração que se reputa infeliz, seu passado se anulará e deixará de ter sido um bom profissional se nada do que escreveu tem a ver com a atual declaração odiosa? Pior ainda, se a declaração é polêmica e gera ódio em uns e admiração em outros, não há dúvida que será ainda menos ético o ofendido que detém algum poder e o usa para impedir a reimpressão das obras do agora ex-excelente acadêmico ou para tirá-las do mercado, ainda que nelas não se encontre uma única linha compatível com a declaração infeliz que fizera. Mesmo que o tenha feito por justificada senilidade.

O mito do Homem Integral é gerado pelo non sequitur da disposição daquele que recebe a mensagem e a julga com seus valores permeados de amnésia seletiva, numa afrontosa violência à lógica e à razão. Cadê tu, Homo sapiens, que te vanglorias de teu raciocinar?

Será o poeta que eu tanto gostava de ouvir agora insuportável por ter-se declarado leitor de uma obra que abomino? Será o psicólogo que me analisava brilhantemente agora o epígono da incompetência só porque assiste a uma novela pavorosa e porque torce pelo meu time rival? Serão os laços de longa amizade esfacelados porque meu amigo aderiu a uma seita alternativa que me é desprezível ainda que eu, como seu amigo, entenda conscientemente que assim o fez para amenizar alguma angústia existencial que não desconheço? Não levarei mais a sério aquele competentíssimo professor de geografia porque foi flagrado numa festa de sexo grupal? Será o pintor que eu amava agora um idiota conceitual porque se declarou fã de um conjunto musical de péssimo gosto? Será a cantora de ópera uma incompetente por não saber dar a opinião ecologicamente correta sobre casacos de pele? Será o médico que me atende agora uma pessoa indigna de confiança porque foi preso junto com um traficante num baile funk? Será meu marceneiro alguém que nunca mais contratarei por estar respondendo a um processo judicial que me escandaliza? Por mais que odeie a atitude de alguém, convenhamos que não há razão na passionalidade. 

Alguma razão do escândalo, do desprezo e da punição só existiria se a atitude fosse contraditória, mas a contradição não está entre a função da pessoa que julgo e a atitude lamentável que cometeu. A contradição, se há, encontra-se entre a imagem equivocada do Homem Integral (competente, belo e ético) idealizada a partir do nada e a atitude individual incomum que incomoda. É aí que nasce o que supra-individualmente chamamos de "errado". Talvez haja mesmo uma diferença entre ética e moral. Não houve violação por contradição com o instituído, apenas uma espécie de desvio de conduta inesperada para a minha visão pessoal daquilo que se configuraria como uma pessoa boa. 



Ninguém achará imoral se o leão devorar o funcionário do zoológico, mas acharia estranho se um urso panda o tivesse feito. A atitude do panda nos pareceria imoral, por trair as nossas expectativas advindas de sua pretensa fofura, ainda que saibamos que tenha tamanho, garras e dentição para agir como o leão. A surpreendente ferocidade do panda romperia o nosso status quo, porque ele nos parece consciente de sua força e, ao mesmo tempo, equilibrado em não a usar para nosso mal. Mereçamos essa deferência ou não, o panda é-nos mais confiável que o leão. Pelo mesmo motivo, ninguém ficaria admirado se o funcionário saísse ileso da jaula do urso-panda mas sim da do leão. 

Nossa moral humana é uma espécie de etologia do Homem Integral, um ser ideal, um Sócrates ou um Cristo. Mesmo no plano das ideias, não nos cansamos de nos decepcionar e, mesmo assim, diariamente rompemos relações, riscamos nomes de nossa agenda, paramos de ler livros, de ver filmes, de apreciar o que nos dava prazer e nos causava admiração. Em nome desse Homem Integral, restrinjo minha vida, paro de ousar, paro de conversar, paro de expor o que penso e, paradoxalmente, torno-me mais convicto, mais feroz. O mundo é o culpado. O mundo está tornando-me assim. Sou uma vítima! Será? 

Será que a imensa massa de informação nos tornará milhões de seres ferozes? Um dia será normal esperar que devoremos quem entre na nossa jaula? Pior: um dia se admirarão porque não devoramos quem entrou na nossa jaula? É essa a etologia que criamos, protegendo-nos do mundo que nos ameaça e que lamentamos existir? Serão nossos ídolos todos quebrados pela decepção? Serão todos nossos amigos e parentes afastados por impossível convivência e por divergência de opinião? Será que, enfim, a tolerância se tornará palavra arcaica, mito do passado, algo que só supostos idiotas pregaram? Enfim, será desfeita a comunicação, as línguas deixarão de existir e as pessoas sobreviverão emitindo grunhidos óbvios, num apocalipse à la Mad Max? Um pensamento paralelo enviesa nossa lógica para a área de nossas fobias e alavanca nossa paixão e nosso ódio, nosso instinto animal e nossas defesas de sobrevivência. 

Não conseguimos desenvolver a razão pura que imaginamos ter, quando fingimos ser setecentistas. Quem justifica o que faz mediante essa razão contaminada e enviesada, esconde a vontade de fazer calar, de impor, de destruir o outro. E quanto mais alguém for inconsciente de que sua razão é espúria, maior será a sua má-fé: com mais convicção chegará ao termo de seus objetivos, mandando matar ou aniquilando com as próprias mãos. Para chegar a esse ponto, basta desconhecer que tudo aquilo em que crê é apenas um ídolo construído a partir do medo daquilo que não aprecia. Todo julgamento negativo é assim.

Será parecido o julgamento positivo? Infelizmente sim. Se amo, defenderei, custe o que custar. Tenho medo de perder. Novamente, aguçarei minhas garras de animal e prepararei minhas presas. O bicho mais feroz é o acuado que se defende. E só se defende aquilo que se ama demais.

A lógica não ama nem odeia porque, como mostra John Stuart Mill, tem um defeito intrínseco em seus silogismos:a conclusão faz parte da premissa maior. É inútil: mero brinquedo para passar tempo. Por que o homem seria lógico? A vida dele é preciosa. Não tem tempo para brincar de coerência. A maior parte do tempo do homem é preocupação com sobrevivência, o resto é carência. Só o fanático perde o pé da realidade e se imagina numa trincheira eterna. O que mais quer o fanático é a paz para sempre. Por isso explodiria o planeta.


A passionalidade é tida como oposto da racionalidade, mas isso não precisaria ser assim. Da mesma forma que é possível a sandice fria e apática, também pode haver lógica inflamada e rigorosa. Se há loucos para todos os gostos, verifica-se que a genialidade convicta tampouco precisa ser necessariamente aloprada. Talvez o que dificulte o entendimento disso seja  o cacoete mental ocidental que associa o herói ao embaixador do ético. A nossa encarquilhada visão repetitiva será a maior causa de nossa destruição. O mito do bom velho que aprendeu e serenou-se confunde razão com impotência. Mas a razão, para ser eficiente, precisa ser vigorosa, caso contrário, dá margem às bacantes do non sequitur e à sua orgia irrefreável. Se não queremos que dominem, não lhe deem microfone, nem caneta, nem teclados. O alucinado faz sua função de alucinar. Não podemos cobrar-lhe razão. Isso é função de quem se diz não ser alucinado ou não quer ser alucinado por não achar graça na violência contra a lógica e por não sentir prazer nos abusos do non sequitur.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

O MELHOR DO NADA

O século XIX foi incensado por muitos como um século no qual a ciência vicejou, a filosofia triunfou, as grandes ideias surgiram. Sob a ótica dos que assim pensam, talvez esse período só fique atrás do século XX em grandeza e na exuberância do conhecimento. Talvez eu não seja o único que pense que as maiores contribuições do Ocidente foram interrompidas no século XVIII, Na verdade, após a Revolução Francesa, tudo o que vemos é uma decadência da razão, manifestada pela supervalorização do individual. Isso já tinha sido anunciado por Berkeley e Hume. A razão, gravemente enferma, tentou ser recuperada por Kant. Mas o golpe de misericórdia e a pazada de cal foram dados por Fichte, Schelling e Hegel.



Morto o lógos, nasce uma nova razão de ser para a filosofia. No meio da cantilena hegeliana, que ecoou por todo o século XIX, havia a voz dissonante de Schopenhauer, o último pensador. Dezoito anos mais novo que Hegel e tendo vivido quase 30 anos depois da morte dele, Schopenhauer era seu maior adversário. Como uma escavadeira, seu discurso arrancava as raízes das árvores materialistas, realistas e idealistas. Com uma competência até então inédita, lia e compreendia Kant, a ponto de mostrar-lhe os erros de raciocínio. Reduziu suas doze categorias a uma só: a causalidade, enaltecendo-a. Estávamos diante de um verdadeiro continuador de Hume e Kant, pois, em suas obras, eram impiedosamente desmascaradas as palavras do "sicário da verdade", do "mercenário acadêmico", do autor das "palhaçadas filosóficas", isto é, do seu maior rival, Hegel, colega de trabalho, de quem tinha indisfarçada inveja e por quem alimentava indescritível desprezo.

A voz de Schopenhauer é forte; a sua verve, prodigiosa; a sua verdade, azeda; a sua capacidade de nos arrebatar, quase infinita. O materialismo, segundo ele, erra ao negar o sujeito, reduzindo-o à matéria; o idealismo - quando investe contra o que chama de absurdos acadêmicos - erra porque porque nega o objeto, reduzindo-o ao sujeito. Na verdade, diz Schopenhauer, o mundo é representação minha. Tout court.

Nesse afunilar-se (tão romântico) do mundo à dimensão do eu, Schopenhauer, convertido a uma visão hindu de um brahman europeizado, trazido pelos Schlegel, insere no sistema secular da Teoria do Conhecimento, nascido na Inglaterra com Ockham e Bacon e adubado por Locke, um elemento alienígena de raízes budistas: uma coisa chamada "vontade", diz ele, está em tudo. Nem mesmo Spinoza seria tão ousado ao apontar para algo tão individualmente difuso: o schopenhauerismo, tão preciso e convincente, traz à baila kantista um ser digno de qualquer amalucado panteísta. A vontade, força que faz crescer as plantas e dá forma aos cristais, que dirige agulhas imantadas e nos faz sonhar, evitando o tédio e o suicídio, essa vontade sobrenatural passa para o panteão da epistemologia, um tanto clandestinamente, acompanhada da maravilhosa prosa poética de Schopenhauer. Se não somos lúcidos, caímos como um patinho na sua conversa.


É a morte do raciocínio, iniciado por Aristóteles, óbito causado pela reintromissão de um elemento odiosamente irrefutável, que deve ter vindo do mundo das ideias platônicas. É a volta da retórica, do filósofo que chama atenção para si, como faziam os sofistas. Nesse ponto, Schopenhauer não era muito distinto de seu arquiinimigo. Buscando a verdade, Schopenhauer. tenta ser preciso e universal, mas involuntariamente nega o científico e introduz a poesia na filosofia, como mais tarde Nietzsche confirmará e como o provará um batalhão futuro de outros mercenários acadêmicos, muito piores que Hegel, cuja argumentação se funda em trocadilhos e tatibitates. Schopenhauer jamais imaginaria o mal que acabou fazendo, com a melhor das intenções, ao rasgar o véu de Maia. Ora, mais tarde nos ensinaria Popper que o irrefutável não pode participar de ciência alguma. O que fez Schopenhauer não foi Teoria do Conhecimento. Apenas trouxe à baila uma palavra poderosa.

Quem pode com um ser tão estranho quanto essa vontade, comum a pessoas, animais, plantas e pedras? Tal coisa é, no fundo, nada mais que outra versão do minúsculo bule celestial de Russell, que rodopia em órbita elíptica em torno do Sol. Aceitando o seu conceito novo de vontade, tudo o mais é aceito no discurso de Schopenhauer: o papel da arte, a ascese, a necessidade de meditar, a noluntas. Um edifício inteiro pode ser construído em um segundo após apresentação de elementos irrefutáveis. Uma teologia da vontade, se alguém quisesse, teria nascido aí. Por sorte, Schopenhauer tinha poucos fãs enquanto viveu.

Pouca gente percebe que o século XIX é tomado por obsessões. Uma delas é o sequencialismo, presente nas etapas hegelianas, na cadeia ascensional schopenhaueriana de seres na força da natureza (do vegetal ao humano) e no ridículo conceito de progresso de Comte (da teologia à ciência positiva, passando pela metafísica). Segundo esses três autores, tão diferentes, há, entre os pressupostos assumidos, uma necessidade na sequência de etapas e, tendenciosamente, julgam-se as mais antigas não só como as menos preparadas para o mundo, mas também, cronocentricamente, a última etapa (diga-se de passagem, aquela na qual o filósofo está) será invariavelmente a melhor e a mais bela. Talvez só Marx, que passava tantas necessidades materiais no presente, tenha adiado, naquela época, a melhor das etapas para o futuro, como faz o cristianismo.



Comte era dez anos mais novo que Schopenhauer e morreu três anos antes dele. Por mais que sejam indialogáveis, há semelhanças que saltam aos olhos, das quais Hegel não dista tanto. O primeiro disparate é a questão da causalidade: síntese das categorias kantianas para Schopenhauer, mas peça inútil no sistema positivista, a causalidade parece ser um ponto nevrálgico nas duas concepções, assim como era a phýsis para os pré-socráticos. Comte, papa de sua própria religião, citando trechos inexistentes de Aristóteles, endeusando a sua amada e sua mãe numa curiosa antítese religiosa,  é a prova de que a máquina racional pode parar a qualquer momento por inação. À busca de epifanias, Comte, que era culto demais, resolveu um dia parar de ler, numa espécie de arremedo de revolta socrática com a escrita. Ora, todos sabemos que Alzheimer existe e melhor besuntar a memória sempre, pois, mesmo que funcione mal, nossa insistência é melhor do que deixá-la ao léu enferrujando. Por mais benevolente que queira ser, pergunto-me, muitas vezes: por que levar a sério uma figura como Comte, por que o citar entre os filósofos, se não se diferencia do mais boçal comentarista de boteco? Comte é estranhíssimo, superficial, esquisito, chega a dar pena do seu raciocínio, que beira a insanidade. Por que está em toda antologia de filosofia e não, por exemplo, outro esquisitão, como Antoine Court de Gébelin?

Será que por trás dessa loucura haverá um gênio que não enxergo?  Normalmente por trás da loucura só há loucura. Nesse caso, uma loucura tristemente canhestra que sistematiza o senso comum. Sua aversão às causas só pode ser explicada biograficamente, pelo seu triste relacionamento amoroso e familiar. Comte quer esquecer e nada melhor para conseguir seu intento do que abandonar o conceito de causa. É assim que se faz quando um ser deprimido por seus pensamentos quer tomar uma atitude enérgica e é subjugado por um espírito de heroísmo, de canalhice ou de crueldade. É assim talvez que também tenha agido Schopenhauer ao dizer que o fenômeno é uma ilusão, embora, diferentemente de Comte, não tenha perdido a sanidade mental.

A razão que pifa torna-se teimosa, já nos alertam, de várias formas, filósofos fleumáticos como Russell e Popper. A entrega ébria ao irrefutável, presente em Hegel, Schopenhauer e em Wittgenstein, é uma saída à detecção dessa teimosia. O dogmatismo está sempre nas sombras do nosso lado insano do raciocinar hominídeo, como Nietzsche nos parece sempre estar mostrando nas suas profecias. Comte foi incapaz de enxergar isso tudo. Nesse ponto, o meu desprezo de leitor mistura-se com alguma pena remanescente do meu cristianismo da infância. Lê-lo me deixa impressionado e cheio de comiseração: ele não poderia ter feito melhor. O que não impede de ser um mau menino, quando, como Platão e Hume, resolve queimar todos os livros que não sejam do seu gosto. Por conte, só existiriam 13 poetas. Pouco se aproveita do palavrório de Comte. É verdade que nos impressiona seu lado feminista, insight que atingiu por certos caminhos tortuosos, nos quais Clotilde de Vaux (ou a sua idealização beatriciforme) lhe levou uma luminária à frente. Sinceramente, a sociologia poderia ter tido um fundador mais digno.




Fato é que Schopenhauer, trazendo um elemento espúrio à razão, proveniente de um mundo das ideias qualquer, um elemento ad hoc cujas raízes apenas se alicerçam na poeticidade de algumas tragédias pessoais, Hegel, trazendo um método confuso, delirante e contraditório cheio de impáfia e profecia, e Comte, trazendo um arremedo simplista de fatos e de metas, conseguiram - os três juntos - moldar a modernidade da filosofia sobre três facetas demasiadamente antiiluministas, a saber, o mistério, a obscuridade e a futilidade, raízes do futuro pseudocientificismo e do vago psicologismo. Dando assim uma nova aura medieval àquilo que é pós-setecentista, são precursores de tudo que é hoje mecânico, galopante e ultrassônico, em suma, da mais profunda ignorância atual. O Ocidente parece que está no seu fim, de fato, como dizem os orientais. Essa morte começou faz tempo, em meados do século XVIII, bem antes da Revolução, no meio da tagarelice francesa e da maluquice alemã.

Pois bem, cadê a razão de que o homem branco ocidental moderno se vangloria? Que alternativa tem de fato, a não ser os acordos de paz, após as guerras que se arrastam após a mais absoluta irracionalidade? A paz não se funda na lógica nem na ciência, muito menos na religião. A paz é gerada a partir da tolerância, que não é prerrogativa nem descoberta de nenhuma linha filosófica, de nenhuma conclusão científica, de nenhum mensagem divina. Pax, shalom, salam, palavra tantas vezes entoada, que não significa nada quando não se quer dialogar. Comte achava que essa paz se encontrava no ritualismo de sua seita positivista, espécie de irmã gêmea do catolicismo. Schopenhauer achava que essa paz vinha de uma noluntas  quase budista. 

Mas, espere um pouco: o que isso tem a ver com filosofia que se vinha fazendo até então? Nada. Não fora por Stuart Mill e alguns neokantianos menores, Hume teria de esperar dois séculos para que fosse novamente acompanhado. É assim que acontece quando explodem revoluções, com grandes intenções e pouco controle. Em vez da receita positivista da Ordem e Progresso, temos o infernal ciclo de retrocessos humanos, que não acompanha qualquer trajeto divino ideal, tal como Vico já percebera tantos séculos antes. Homo sapiens... que piada de mau gosto a de Lineu quando te nomeou! Atitude típica de quem crê que o melhor momento é agora. O nunccentrismo nunca esteve tão forte. Todavia, o momento já atingido só será avaliado no futuro, se nele houver mentes sãs. Espere a decadência e verá como ela lhe parecerá infinita, ó ser que se julga imortal!

sexta-feira, 4 de março de 2016

O VERDADEIRO E O VEROSSÍMIL

Um dia um rapaz jogou uma pedra e ela, voando, caiu numa vidraça. O rapaz quebrou a vidraça? Sim, o rapaz quebrou a vidraça. Mas o rapaz quis quebrar a vidraça? Não, não queria quebrá-la: jogou a pedra para cima naqueles ímpetos simiescos que temos de lançar coisas para cima, sem pensar numa consequência tal como quebrar vidraças, o que houve de fato. Poderia, porém, igualmente ter caído na cabeça de um transeunte ou sobre a sua própria cabeça. Quebrando a vidraça, afirmo que o rapaz causou um dano material? Talvez, mas tanto quanto quis causar um dano físico no segundo caso a outrem ou fez uma tentativa de suicídio no terceiro. Então, o signo paroxítono de seis fonemas e três sílabas, transposto graficamente como verdade, na nossa língua e na nossa época atual depende não só do fato, mas também da intenção por trás do ato (se o fato for um ato). Em outras línguas e em outras épocas talvez significasse algo parecido? Não temos certeza. A verdade, ao que tudo indica, não é algo simples: além da intenção, no caso acima, requer uma sociedade e uma língua que a traduza. Ora línguas são seres complexos de que os seres humanos se servem, enlaçadas em certas épocas e lugares.

Mas parece que ignoramos isso. Usamos a palavra verdade como elemento principal da ciência, da religião, do direito e da nossa vida. Reconhecemos a verdade e a mentira, na prática. E se a reconhecemos, não devíamos falar nada que não fosse verdadeiro, no entanto, a mentira existe. Não há quem possa negar. E se negássemos, criaríamos a estranha circunstância, talvez exclusiva das crianças, de nunca nos termos deparado com a mentira virando uma esquina da nossa vida. O que é muito improvável.

A verdade, portanto, é um totem para o conhecimento, para a fé, para a justiça e para o nosso equilíbrio mental. Todas essas coisas são importantes.

Não podemos dizer de maneira simples que o rapaz está mentindo, ao dizer que não jogou a pedra ou ao dizer que a janela não foi quebrada por ele ou, pior, que a janela não foi quebrada não obstante haja evidências. Provavelmente, se sabe que mente, foi o medo que o fez agir assim: algo como o medo de ser descoberto, medo de ser culpado por outros. O medo também poderá ser tanto, que é possível até que não saiba que mente. No primeiro caso, estará sendo hipócrita; no segundo, autoengana-se. E o auto-engano é mais normal do que se imagina.

Mas na falta da verdade, possível de ser ocultada por não ser testemunhada, como a célebre árvore que cai solitária sem que ninguém a veja, o que cabe é o verossímil. O rapaz estava só e disso não teremos a menor dúvida daqui em diante. Isso é um fato. A eles se somam outros dois: a vidraça, que foi quebrada naquele instante, e a pedra que ali estava. Esse é um acordo de compreensão entre mim e você, leitor.

Mas se não foi ele quem quebrou a janela, a pedra que a quebrou seria um meteoro? Seria a materialização ex nihilo de uma pedra? Ou terá sido enviada miraculosamente por um deus ou outro ser sobrenatural? Fato é que, se não somos céticos como Hume, o rapaz estava ali sozinho e a vidraça se quebrou por meio de uma pedra, que (segundo nossa experiência) não se materializam nem se lançam sozinhas contra vidraças. Resumidamente, qual a chance de esta pedra singular agir de forma tão distinta das outras pedras, com o comportamento tão distinto de toda a matéria até hoje catalogada, para concluirmos ser o caso algo sobrenatural? Não bastasse isso para dizer que a defesa do rapaz é surpreendente, encontraram-se digitais na pedra. Qual a chance de um meteoro ter criado ranhuras tão sutis que se assemelhassem perfeitamente às digitais do rapaz? Dirá qualquer pessoa de bom senso: será mínima, cada vez menor, à medida que aparecem evidências contrárias ao senso comum. E, de fato, coisas de probabilidade mínimas podem ocorrer, mas sua justificativa não tem verossimilhança. O verossímil é o mais próximo que temos da verdade.




O filósofo brasileiro Leônidas Hegenberg já nos alertou há tempos sobre o tríplice significado da palavra "verdade". O que une fatos à exclusão do inverossímil, para a ciência, é o que os gregos chamavam de alétheia. A verdade de uma reconstrução de um ato é o que os juristas latinos chamam de veritas. A verdade que envolve nossa confiança moral em Deus é o que em hebraico se chama de emunah. No primeiro caso, fala-se de evidências, no segundo de probabilidade e no terceiro de fé. O que chamamos "verdade" pode ser metaforizado como um doce que não podemos parar de mexer, para não desandar. Os três ingredientes desse doce são esses três conceitos cunhados em épocas e sociedades distintas. O verossímil é um doce que improvisamos, na falta de um desses ingredientes ou na quantidade não ideal para se fazer o doce perfeito. E é no verossímil que se deve basear a justiça, pois a verdade pura é inalcançável, por ser algo múltiplo e abstrato, como o que quer crer o ceticismo de Hume.

Nesse ponto, Hume, aliás, é tão perturbador - talvez mais do que a sua fonte de inspiração, o crente Berkeley - que foi preciso nascer Kant para salvar a filosofia do conhecimento de um colapso total, colapso maior do que o já havido entre os sofistas na época de Platão ou nas desilusões decadentistas durante o período alexandrino, romano e medieval. A partir do raciocínio de Hume não se pode falar sobre a justiça, pois ele fechou as portas da filosofia. Kant tentou reabri-las e teria conseguido com seu gênio, se não fosse uma horda de loucos atropelá-lo no vestíbulo da mansão filosófica. O resultado é que ainda hoje estamos nas suas trevas, algo difícil de aceitar pelo homem ultramoderno. As respostas da filosofia acabaram no século XVIII. E o que se segue não é a mesma coisa, pois se centrou na ética e na existência, questões que infelizmente nunca serão respondidas.

Isso não quer dizer que a verdade seja vã. De modo algum. A verdade, com sua capacidade adaptativa proteica ou quase viral, hoje é o centro das discussões filosóficas sobre ética e existência. Mas de que verdade se fala? Os três elementos do doce, no seu eterno remexer na panela, pendem cada hora para um lado e, nessa polissemia, adquirem tons mais fortes, seja na revelação que os fatos nos apresentam, seja na verossimilhança do relato, seja na confiança moral que depositamos em quem relata. Em suma, é difícil avaliar se algo é verdadeiro somente pelos fatos, pela reconstrução da ação ou pelo valor daquilo que está perante nós, pois cada um desses três elementos mudam incessantemente nosso ânimo de forma pouco racional. Que fazer se, ao apelarmos para o racional, envolvemos um ato extremamente irracional de um ser que vê o mundo sob o exclusivo ângulo de sua espécie?



Então o rapaz jogou a pedra e quebrou a janela, só ele sabe disso. Mas teme as consequências e diz que não foi assim. Mente. Sabemos disso ele e eu, que escrevi este texto e inventei essa situação. Você que lê também sabe, porque eu contei. Mas observe, que curioso: fingimos cumplicemente que eu não existo e que você não sabe, senão meu raciocínio não será acompanhado por você. Somente esse acordo entre mim e você, leitor, permite que imaginemos o rapaz jogando a pedra, quebrando a janela e mentindo.  O "suponhamos que" da lógica, o "dado que" da matemática, a cumplicidade de um romance são formas variadas desse fingimento ou dessa ficção, chame como quiser. Mas nos pressupostos de um diálogo e no dia-a-dia, não temos acordo algum. Ou seja, só podemos saber que existe uma mentira na fala do rapaz por meio dessa espécie de má-fé semiconsciente acordada entre nós, na qual podemos abstrair e ver os fatos tais como são. Ora os fatos não dizem nada por si e, se continuarmos nesse raciocínio, chegaremos a Hume. Como o relato sempre tem chance de ser mentira, sempre teremos dúvida. A dúvida é a essência da verdade empelotada na panela como alétheia.

Ok, nunca saberemos se o rapaz jogou ou não a pedra ou se, jogando, quebrou ou não a janela, pois ele tem a opção ou o impulso auto-enganoso de mentir. Assim sendo, nossa busca da verdade deve mexer ainda mais a panela e agora a coloração do doce aponta para outro ingrediente: a veritas. Procuram-se indícios outros além da pedra, da janela e do relato. As digitais, por exemplo, poderão dizer que está mentindo, como vimos acima. Na falta delas, outros dirão que esse rapaz tem mania de lançar pedras para o ar, que já o viram fazer isso, que faz isso com frequência. Ou, pelo contrário, que nunca teria feito algo tão gratuito e impensado quanto jogar a pedra numa janela. Outros ainda, poderão obviamente mentir sem provas que já foram vítimas de seus apedrejamentos. Enfim, os novos fatos se somarão e reconstruiremos o estado de espírito do rapaz e sua relação com pedras e janelas. Os diversos relatos se sobrepõem e, alguns serão verossímeis, outros não: tanto sobre o fato de ele ter jogado ou não a pedra quanto se, tendo jogado, fez isso intencionalmente ou não. Essa verdade é mais difícil, porém, mais útil. E para a reconstrução Hume talvez não seja o mais indicado. Essa conclusão serve de alento à filosofia, que se sente ainda viva. É esta a verdade filosófica que hoje se procura. A primeira é caso encerrado, pois será sempre a mesma solução: o niilismo. Entende-se o porquê do divórcio da ciência e da filosofia. A primeira, sempre procurou, desde os gregos, a alétheia e gerou a guerra infinita entre a dedução e a indução. A segunda procura a verdade sob a forma de justiça, a verdade como veritas. 



Mas isso é pouco.

O rapaz diz: "joguei a pedra, confesso, mas foi sem intenção". A verdade se estabelece. Os fatos se encaixam. Parece haver solidez entre o que alétheia levanta e o que veritas julga, a tal ponto de falarmos impropriamente que há aí uma única verdade. Mas falta algo. Algo imprevisto e fruto talvez de um elemento obscuro persa que se travestiu de neoplatonismo cristão. Uma verdade ainda mais curiosa. E, espanto, não houve até hoje um Hume que a separasse da veritas. Os ateus exsurgentes não conseguiriam. O rapaz não fez de propósito. Todos sabemos. O outro lado da verdade é que ele não queria. Terá talvez de pagar a janela, mas, ninguém diria que não é um bom rapaz, exceto seus inimigos. Mas, fato é, que mesmo tendo feito sem querer, fez. Enfim, a confiança é algo que pode ser restaurada ou não e o perdão não restaura a confiança da mentira, por mais que, com pena do rapaz, nos coloquemos como medrosos no lugar do quebrador de janelas. Fato é que, distraído, poderá quebrar outras janelas, lançando outras pedras para cima. Fato é que poderá sempre falar mentiras. Essa verdade de que não é um quebrador de janelas, verdade enquanto emunah, que se pauta não nos fatos, nem nas reconstruções, mas na confiança, não se restaura depois de uma mentira, a menos que não tivéssemos a memória. Mas temos. Tudo indica que sabemos que, nesse caso, não teve a intenção de quebrar as janelas, mas o mesmo caso aponta que provavelmente será distraído: a sua inocência não o fará quebrar outras janelas, pois seu impulso de jogar pedras para o alto está além do seu raciocínio e pregado na espontaneidade de como trata o mundo de forma tátil, pegando pedras nas mãos e jogando inconsequentemente para o alto.

Só a prova torturante de que a confiança foi perdida faria alguém autoconsciente não voltar a fazer o que costumava fazer ou que fez. Enquanto esse trauma não se instala e se mostra real nas ações, não haverá o lado emunah da verdade. Esse é o nível mais difícil de ser atingido e a razão pela qual o perdão cristão não é algo que seja universalmente aceito, pois útil ele é, convenhamos. Todos sabemos que há oportunistas que se beneficiam do perdão. Existe a reincidência. Existe a hipocrisia. Esse é o ponto mais complexo que a filosofia poderia discutir hoje em dia. No entanto, a filosofia se separou da ciência no século XVII mas não se separou da religião até hoje. Pensa conseguir dialogar com a ciência, muitíssimo dela já apartada, mas só consegue dialogar com questões comuns da religião, a saber, ética e existência. Nesse ponto, hoje estamos tal como na Idade Média e o máximo que se conseguiu depois de duas guerras mundiais foi um relativismo inútil e solipsista, que se demole aos poucos e perde rapidamente terreno, no Ocidente, mediante a violência dos dogmáticos, que representam nada mais que a regra da nossa espécie autointitulada racional ao longo das longas eras da humanidade.