O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

Minha foto
Sou um saci sumério de Botucatu.

domingo, 6 de julho de 2014

O VALOR DE UMA CONVICÇÃO

Após refletirmos muito, chegamos sempre a uma espécie de iluminação, que nada mais é que o doloroso óbvio. Mas sempre me intrigou muito por que algumas obviedades não são unânimes. E buscando a resposta para isso no passado, vejo a gênese de muitos vícios de raciocínio já na Antiguidade. E como esses vícios se encontram em culturas diferentes, dificilmente associadas por algum elo criado por algum contato, não consigo deixar de imaginar que algumas dessas obviedades sejam naturais. O difícil sempre foi e será ver-nos como objeto de contemplação e dizer: voilà, isto é natural e isto é cultural. Aliás, esse assunto dá pano para a manga e penso que posso falar disso depois.
 
No momento me intriga a convicção em si. Quando me convenço de algo não posso afirmar que aquilo seja óbvio para todos, mas que aquilo é óbvio para mim. E por que não é óbvio para todos, se o é para mim? Aqui está o mistério do provérbio "cada cabeça uma sentença". Ao mesmo tempo, os discursos relativistas e os céticos são irritantes. Parece que se seguirmos tanto Protágoras quanto Diógenes estaremos diante do nada, do absurdo que incomoda a vida, que precisa ser vivida a despeito de nossas convicções. Contudo, esses dois parecem que mais convergem no seu pensamento do que se opõem.
 
Como disse, temos uma vida e precisamos vivê-la. Isso é óbvio. Perante essa obviedade, Protágoras parece dizer-nos: por que a vivermos cheios de convicção? No mesmo acorde também nos indaga Diógenes de dentro de seu barril: por que não a vivermos sem convicção alguma? Tanto Protágoras quanto Diógenes tinham suas convicções e desprezavam as dos outros, que não tinham chegado a tal iluminação. Contudo, Diógenes a punha na prática, diz a lenda, ao passo que Protágoras ganhava a vida convencendo os outros de que sua convicção estava certa. Diógenes se incluía em tudo que afirmava, Protágoras não. Saber se Protágoras fazia isso conscientemente ou não é pedir demais dos fragmentos e dos testemunhos de sua prática. Diógenes dá-nos hoje a impressão de um louco; Protágoras, o de um  hipócrita, mas talvez estejamos sendo duros demais com ambos. Se Protágoras não era tão louco quanto Diógenes, com certeza também era alguém embriagado por sua convicção. Quantos não conhecemos assim?
 
 
 
 
Cumpre ainda prestar atenção no fato de que ambos os supostos antagonistas que descrevemos não eram contemporâneos e não poderiam nunca ter dialogado entre si. Protágoras é da geração de Empédocles, um pouco mais jovem que Parmênides, Anaxágoras e Zenão. Bem mais jovem que Heráclito. Protágoras tinha quase a mesma idade de Leucipo, a meu ver, seu maior antagonista, mas não de Demócrito. Também era mais velho que Sócrates. Platão mal tinha nascido quando Protágoras se foi. Por outro lado, entre a morte de Protágoras e o nascimento de Diógenes temos quase meio século, época em que floresceria o jovem Aristóteles.
 
Pois bem, já relatei outro dia que o que me impressiona em Parmênides é que, para ele, o pensamento também é um ser. Isso quer dizer que não só o vento, as pedras e as estrelas-do-mar são seres, nem que não só os elementos materiais e imateriais o são, mas que o modo como a nossa mente concebe essas coisas também o é. E isso explica sua convicção de que o não-ser não exista. Ora, não poderia existir mesmo, pensando desse modo, pois se pensamos no não-ser estaríamos, segundo seu modo de entender, criando um novo ser (ou seja, o pensamento) e o impensável não é algo sobre o qual não consigamos pensar. As aporias de Zenão, seu discípulo, são mais facilmente compreensíveis quando entendidas em uníssono com Parmênides. Se o pensamento é um ser, Aquiles nunca alcançará a tartaruga e ponto final. 
 
Reflexões similares devem ter impressionado Protágoras. Se o pensamento é um ser e o pensamento é tão diverso entre os homens, é impossível encontrarmos a verdade. Não haveria assim nem o bem nem o mal. Não há, raciocinando desse modo, nem verdadeiro nem falso. Enfim: Protágoras achou um jeito de viver a vida sendo sofista e deixar de lado uma convicção final, como tiveram os filósofos anteriores. Não é à toa que Protágoras afirma que as opiniões devem ser medidas pela utilidade: afinal, se não existe a verdade, tampouco existe a sabedoria e aquilo que para o saudável parece doce, para o doente parece amargo. O que os distinguiria é o fígado de cada um. Mas qual é o melhor fígado, se cada pessoa é um sistema independente a ponto de gerar pensamentos independentes? O fígado ideal não poderia estar nesse mundo, obviamente, como raciocinou  Platão mais tarde. Nascem então todas as obsessões do Ocidente e, com ele, o Cristianismo, fruto direto das reflexões gregas.
 
 
Mas, fazendo essa digressão, estamos novamente nos esquecendo de Diógenes: sem ele, o Cristianismo não teria esse ar cavernoso e tétrico que assumiu no início e que tanto assustava os romanos, impressionados com a nova religião que comia seu próprio Deus durante os cultos. Se Protágoras descobriu que a verdade não existe (e viveu bem, apesar disso, dando aulas sobre isso até ser expulso de Atenas), a voz de Diógenes se parecia mais com uma incômoda vuvuzela. 
 
Ideias filosóficas originais já vinham há muito do oriente, primeiramente jônico, com incríveis similaridades com reflexões de terras longínquas (como se entrevê lendo Laozi e Heráclito ou então, comparando as conclusões de Sidarta Gautama e do próprio Parmênides). Não se pode esquecer também do monismo crotonense, de substrato semelhante às ideias religiosas egípcio-hebraicas, visível desde os pitagóricos e escancarado por Xenófanes ou Platão (e tardiamente por Plotino, espécie de Kant neoplatônico). Essas ideias, combinadas e recombinadas, atingiam como um furacão o materialismo jônico que só sobreviverá em poucos, como Demócrito ou Aristóteles. Tentativas de síntese são poucas, mas se vê em Anaxágoras. Enfim, ler Descartes, quase dois milênios depois, lutando contra suas convicções provenientes quer de um génie malin terrível, quer da obviedade do real, nos faz entender que esse embate é antigo e que deveríamos refletir nele.
 
No entanto, esses embates salutares foram cedo abortados pela hipocrisia relativista, que sobreviveu à margem de Platão e de Aristóteles e ressuscitou sobretudo por causa do barril de Diógenes. O modelo dos grandes impérios orientais havia chegado ao Ocidente. De nada serviu o heroísmo de Leônidas no desfiladeiro das Termópilas, pois a alma grega já estava vendida. Era tarde demais. O pensamento persa, que remoera e simplificara o panteão alucinante das divindades indianas, vinha agora, fatal e desejado pelos gregos, na forma do maniqueísmo mais tosco e simplista. Os próprios hebreus preferiram Ciro e Dario a Nabucodonosor. O insidioso pensamento persa não era escrito, mas vazou pelos diálogos (como há muito já se fazia entre Oriente e Ocidente por meio de mercadores poliglotas e dos mercenários). O fim da pólis e o surgimento do império macedônio, que engoliu o império persa, serviu de modelo para os romanos, famosos caipiras da Itália que se assenhorearam do mundo. A primeira globalização estava em curso. O nascimento da Europa já dava os seus primeiros alvores e, daí, a conquista do mundo por ambiciosos que se diziam cristãos ou muçulmanos.
 
Pois bem, no meio dessas engrenagens que, aparentemente, poderiam ter sido paradas a qualquer momento por um acaso qualquer (se tivessem sido, gosto de pensar que hoje teríamos impérios astecas dando trabalho para a ONU), há figuras emblemáticas: vários jesuses e vários diógenes.
 
 
 
A noção de que existe uma Humanidade para além do tribalismo etnocêntrico e que o próximo deve ser respeitado na sua integralidade, a despeito das suas diferenças não é uma questão religiosa, mas propriamente filosófica e política, advinda da necessidade de convivência desse novo mundo que unia gregos e bárbaros. É um pensamento fácil, pois o contrário é sempre o convite à guerra e, portanto, indesejado. Como diz Camus "pestes et guerres trouvent les gens toujours aussi dépourvus". O império macedônio criou também a ideia do ser humano desprotegido e submisso, bem diferente daquela ágora fremente e arrogante que condenava ao degredo ou à cicuta. O modelo oriental de império, finalmente trazido por Alexandre, fez o civilizado sentir-se bárbaro, pois passou a ver o bárbaro como um irmão em nada pior, como faziam preconceituosamente até o tempo de Aristóteles. Por isso, os mercenários gregos admiravam as táticas de guerra persas e os romanos admiravam os gregos pela sua cultura. Cada vez mais viu-se o lado positivo do irmão bárbaro. A noção de amor ao próximo só é uma pequena decorrência, que deveria ser devidamente formalizada mais tarde, assim como fazem os manuais de auto-ajuda. Trezentos anos antes de Cristo, Epicuro aceitava nobres e não-nobres, livres e escravos, homens e mulheres em seu jardim. É devido ao Helenismo nascente e não ao Cristianismo que devemos a primeira ideia ocidental de que é preciso haver tolerância entre os homens. Quando Jesus pregou, isso já era consabido e divulgado como conhecimento geral da população, se não da região onde nasceu, de todo o entorno.
 
Também o batismo de João não era novidade. O centro do antigo poder político, antes traduzido como decisões próximas, como se via na atuação da Ágora ou de algum tirano. Agora, encontrava-se longe do cidadão, particularmente impotente às decisões da nova figura do imperador. Frustrado e deprimido, o cidadão, amarrado pelas novas leis sociais, pensava no renascimento de uma nova vida, mas não num renascimento pitagórico-platônico qualquer por meio da metempsicose, mas num renascimento maravilhoso, num mundo melhor e utópico. O renascimento da alma nesse mundo perfeito (e não mais no mesmo mundo defeituoso de onde proviera) era a única resposta possível ao desespero existencial da época. Mesmo não nascendo como escravos, todos eram subordinados ao poder invisível do império e não mais a um chefete democraticamente eleito ou a um tirano escolhido por consenso dos mais poderosos de sua cidade. A distância longínqua do líder fazia todos sentirem-se órfãos. O consolo do batismo que marcava essa nova vida nascera, portanto, como prática religiosa, seja por revigorantes e solenes banhos, seja por sangrentas práticas taurobólicas.
 
 
 
Esse contexto, no entanto, permaneceu plural até os exageros políticos de Santo Ambrósio. E a salutar divergência de opiniões, que ainda sobrevivia entre gregos e persas, sempre me faz pensar involuntariamente numa cena de filme bem ruim, Conan the Barbarian, que vi com meu primo no seu lançamento em 1982. Gostaria de rever a cena, a qual imagino existir de fato nesse filme, se não é mais uma pegadinha da minha memória. Schwarzenegger, bem fortão, limpando sua espada estava sentado com um peregrino (que não me lembro quem é) filosofando sobre religião. Alguém dizia acreditar nisso ou naquilo, mas aquele que ganha a discussão aponta o céu como sendo o maior dos deuses. E o céu da cena era imenso na tela do cinema, algo que realmente derrubaria qualquer argumento.
 
Pois bem, como vimos, esses discursos circulavam na época de Diógenes: o de que os seres humanos são iguais e o de que é possível renascer para uma outra vida melhor do que a porcaria em que vivemos. Mas faltava algo: o desprezo pelo conhecimento e o fanatismo, que acabaria com todo o blablablá grego. O grande marco do cristianismo foi opor-se à razão. Se não de forma acintosa e violenta, como fazia Taciano, Minúcio e Tertuliano, ao menos de forma equilibrada, como vemos num Santo Agostinho. De qualquer forma, todos os religiosos acreditariam que a fé é superior à razão senão não seriam religiosos. Mas para chegar a esse ponto, é preciso desqualificar a razão, tão procurada pelos gregos com ou sem lanterna. Por sorte, os filósofos realmente grandes nunca se convenceram totalmente da necessidade do aniquilamento da razão: Orígenes, Anselmo, Tomás, Descartes e mesmo Guilherme de Ockham entendiam a razão como um modo de chegar às verdades, uma vez que a ignorância e a intolerância ao racionalismo sempre lhes pareceram odiosas.
 
Mas como fazer isso? Desde a época de Fílon não era fácil o equilíbrio entre razão e fé nos livros bíblicos, que é um amontoado heterogêneo de textos escritos em línguas diferentes, em épocas diferentes e por autores diferentes. Poucos conseguiam defender a importância da dúvida, como Abelardo, pois era claro que ela provinha de Satanás, essa figura persa e tardia que mal aparece no Velho Testamento. Quando vejo um Roger Bacon afirmando que a verdade é filha do tempo, sinto que a dúvida e o ateísmo eram uma tentação sempre frequente no atormentado mundo medieval. Ainda mais atormentado quando os livros aristotélicos passaram da mão dos árabes para os sempre atrasados europeus que finalmente conseguiram lê-lo por meio de traduções em latim.
 
Pois bem, Diógenes não poderia ser cristão, por causa da época em que nasceu, mas dizia coisas parecidas com os futuros cristãos, por exemplo, que somente por meio de exemplos e de ações se chega à felicidade. Dava a entender também que devemos focar nossa individualidade (não como pensariam os cristãos, isto é, para salvarmos egoistamente nossa alma, mas para tornarmo-nos independentes dos outros). Seu modelo era o de Hércules. Diógenes escancarava seu total desprezo pelos prazeres, não porque os prazeres mundanos se opõem aos espirituais, pois essa distinção não existia ainda, mas falava apenas dos únicos prazeres que um ser humano pode experimentar enquanto vive, fazendo coro, nesse ponto, com os ascetas budistas e com São Francisco. Recusando a vida comum e coletiva, apontou-nos a redenção para uma filosofia pessoal, numa afronta total às regras sociais, atitude, aliás, de que também eram acusados os primeiros cristãos no tempo de Ambrósio. Sua parresía era na verdade uma chave para a liberdade e o prazer era visto como um obstáculo. Aceitando sua apatia, criava-se a singular situação de vermos o óbvio mas sermos indiferente a ele. Eis aqui o que mais liga a filosofia cínica (da qual Diógenes é porta-voz) das atitudes futuras (estoica, cética ou cristã). É impossível ler Marco Aurélio e não pensar num intercâmbio de ideias circulando oralmente, como na cena do anacroniquíssimo filme Conan.
 
Para esse mundo de poderes, de violências e de apatia ao óbvio, Aristóteles, contemporâneo de Diógenes, não era particularmente sensível. A maioria dos pensamentos aristotélicos permaneceram letra morta, até seu ressurgimento incômodo na Idade Média, tendo sobrevivido paralelamente entre os árabes.

Assim sendo, parece que há, no pensamento ocidental, dois tipos de convicção bem diferentes.
 
 
 
 
Um primeiro tipo de convicção se vincula ao óbvio e ao  racional (não necessariamente ao positivista), algo que paradoxalmente pode ser refutado pela própria razão (como quer Popper), mas que é obtido mediante perspicazes soluções controladas, as quais são tão esporádicas, que quase sempre são chamadas de geniais. Esse tipo de convicção, por vezes é provisoriamente destruída pelas ilusões provocadas pela limitação de nossos sentidos, no entanto, sai fortalecida, afinal, mediante os próprios sentidos e pela cognição humana, que nos fornece dados contraditórios sobre a matéria. Só na Inglaterra regicida, com Francis Bacon e com a salutar discussão iniciada por Locke e terminada com Hume, o europeu retomou lentamente o gosto por esse tipo de pensamento que já estava presente nos jônicos desde Tales. Podemos, antes dos ingleses, citar raros precursores admiráveis como Ramón Llull. Essa convicção nos fez compreender os saltos qualitativos na organização e na hierarquização dos princípios. Ainda que, por vezes, se diziam em franca oposição a Aristóteles, sempre estevem mais próximos do estagirita do que imaginaram.
 
O segundo tipo de convicção está no desprezo do óbvio. A ele se vinculam o pitagorismo, o platonismo (e não necessariamente o socratismo), o cristianismo, muitos renascentistas, Pascal e Spinoza. Mais natural, pois independente da razão policiada, converte-se rapidamente em obsessão pessoal ou social. Mais emocional, alia-se facilmente ao sentimento de desamparo humano frente a magnitude esmagadora do universo e à transitoriedade da vida, como em Rousseau. Como a raposa diante das uvas, diante desse espetáculo grandiosíssimo da vida que nos minimiza, voltamo-nos contra esse universo, negando-lhe poder e autocoroando-nos (assim como hoje fazem tantos nervosinhos munidos de arrogância intelectual, vaidosa e vazia diante da impotência colossal que nos oferecem as infinitas informações da internet). Recusando a própria vida, hierarquizam-se os fatos concretos não mais mediante o raciocínio, mas de maneira utilitária e muitas vezes tradicional, mas nada mais é, a meu ver, que a via mais fácil para as nossas certezas. Por muitíssimas vezes, essa atitude pareceu uma saída "racional" à questão das ilusões provocadas pela limitação de nossos sentidos. Mais surpreendente é vê-la exposta engenhosamente em filosofias reacionárias (ou convenientes) de personagens extremamente inteligentes como Berkeley, Leibniz, Hegel, para não falarmos de quase todos os filósofos modernos.
 
Associada a algum tipo de poder fanático ou a um excepcionalismo dedutivo, a verdade demagoga do segundo tipo de convicção torna-se por vezes uma arma mais perigosa do que o escancaramento das estranhas verdades obtidas por meio do primeiro tipo. Para mascarar esse poder terrível que detém em suas mãos, o segundo tipo vale-se muitas vezes do discurso renascentista da inquestionável superioridade humana e da manipulação emocional das consequências da desobediência à ordenação primitiva, que se não é abertamente divina, tem algo dela. Psicoanalisados de perto, revelam-se, no fundos, profundos medos nascidos no período infantil, os quais sobrevivem até o último suspiro.
 
Combinemos, meu amigo, que, como eu, se incomoda com o ceticismo radical: da próxima vez que dissermos que temos certeza de algo, perguntemo-nos de qual desses dois tipos de certeza estamos falando antes de proferirmos a próxima frase.
 
 
 
 
 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O MÁXIMO IDIOTA (1999) (cap. I-IV)

Baltasar Creamundos
 
 
O MÁXIMO IDIOTA
 
Autobiografia
  
 
1999
************************************************************
 
Baltasar Creamundos (1968-1999) é pseudônimo de José Joaquim Beligerante Manso do Rego dos Prazeres Soares Barbosa Lima e Silva Sobrinho. Nasceu em uma colônia indígena no alto Solimões e foi raptado por um naturalista belga que caçava neurópteros e se compadeceu da fragilidade do menino, que seria imolado como oferenda a um deus indígena. Quando chegou a Natal, o naturalista deixou o menino nas mãos de Ermengarda de Jesus, sóror-chefe do convento das Irmãs da Nossa Senhora do Parto Doloroso. O menino foi criado como mulher até a idade dos dezoito anos quando lhe foi revelado o verdadeiro sexo. Casou-se com Maria Epitácia Negrimelenas, que lhe apôs o sobrenome Lima e Silva. O sobrenome juntamente com uma rocambolesca árvore genealógica que provinha de Abraão, envolvendo diversas figuras fantásticas, desde reis, condes e barões até um pirata escocês de três braços foram inventados pela própria Ermengarda. Baltasar nunca soube que seu pai verdadeiro era o índio Ñaqyburema Papyrunganga, que também pouco se interessou pelo filho, mas recebe os direitos autorais de sua obra. Maria Epitácia morreu dois meses depois do casamento, ainda virgem, segundo relatos do próprio Baltasar. Apaixonado por Flamínia Tília do Vale, tenta raptá-la, mas volta para seu esposo Adamastor Vale da Tília. Baltasar escrevia compulsivamente, até doze horas por dia. Estocava quatro toneladas de escritos num galinheiro aberto, sujeito a intempéries inúmeras e à imundície dos animais, muitos dos quais já estava durante sua vida em estado deplorável e ilegível. Um dia antes de sua morte explodiu o galinheiro. O pouco que sobrou foram fragmentos, reunidos em edição póstuma por Jesuíno da Paixão Redentora, seu único amigo, que publicou sem nexo nem ordem sob o título Neodadaismo acidental. A capa do livro, em que aparecem penas de galo, foi idealizada pelo artista plástico Manuel della Mattavendetta, pseudo-irmão de Baltasar. Baltasar salvou da explosão somente o Máximo Idiota, que aqui vem impresso. Ele mesmo justificou a exceção: “neste livro tenho uma síntese de todas as toneladas de papel que foram pelos ares. Neste livro sintetizo a mim e ao mundo, escarrando com deboche a seriedade da loucura ou desesperando-me diante da alegria que não me diz respeito”. Sobre o porquê da estranha atitude, explicou: “nunca fui com a cara do galo”. No mesmo dia, Baltasar engasgou-se com uma azeitona. Todas as tentativas de salvá-lo foram vãs. Suas últimas palavras: “Que saco! Estava tão boa aquela empada!”
************************************************************

CAPÍTULO I

 

Gênesis

 



H

á muita coisa que não existe. E é tão fácil saber o porquê: o concreto é uma coisa muito difícil de entender, pois se encontra no limiar do óbvio, dentro da plena definição do normal. Por isso abunda mais o que não há. Não há a justa democracia, o sublime das explicações racionais, o sucesso do amor-livre. Não há um deus-irmão, apenas um deus-amigo, um deus com o qual se une o interesseiro. O não-há reina sobre mim e sobre ti, assim como aquele círculo prateado que despeja sua luz tosca sobre nossos corpos. Círculo que se afigura perfeito devido à nossa imperfeição da visão. Assim como a ilusão de um momento que nunca chega, que nunca chegará, ao menos contigo. Círculo que lança sua bênção sobre nós, amaldiçoando-me particularmente. Sua cara prateada ainda parece que vejo. O arrepio daquele momento ainda parece que sinto. O quarto inunda-se com a luz tosca, luz que me faz definir pouco os objetos caoticamente arranjados. Tosca como o futuro que assinei sob sua bênção. O calor dos corpos ainda se sente. Quem não sentiria? Também sou comum, embora me esqueça sempre. Também sou animal: é isso que há. Mas não se procura entender o que é ser animal. Todos preferem contentar-se com o que não há. O animal que não é tão animal. Isso deveriam ser todos e o são. Por que eu não seria? Por isso sinto ainda o beijo suado no chão. Sobre nós, o que não há: a transcendência.

O amanhã estava assinado hoje, nesse momento. Como se o passado não houvesse. E só há o passado... O amanhã estava naquela bênção-ameaça, amor obrigatório, incontestável, testemunhado por toda legião de seres que não há. Se queres, leitor, são demônios. Outros diriam que são deuses. Prefiro não classificar. Estavam ali, apesar de não existirem. Sua luz macia e luminosa tocava nossos corpos e sua delicadeza parece que ainda sinto. Também tenho dúvidas, leitor. Será que há o único do momento? Nunca mais revivi, ao menos. Reviverei? Certamente, o passado repete-se a todo momento. É incrível como não saímos nunca do lugar, apesar de andar tanto.

Mas não quero falar do futuro. Muito já se falou sobre o que não há, e com muito mais propriedade do que eu poderia fazê-lo. Quero descrever aquela luz sedosa e ereta, que vinha direita da janela, sobre os corpos que se moviam. Estavam ali, sob ela, como se não pudessem estar em nenhum outro lugar. A luz poderia se espalhar, iluminar qualquer outro objeto, mas estava sobre nós... e pesava. Ao menos em mim pesava muito, embora eu flutuasse dentro duma bolha que me fazia não ouvir nada do meu arredor. Uma bolha?

Mas isso tudo não houve. O que há não foi ali. Está no papel, assinado. Está numa festa e em apertos de mão. Em champanhe, em compromissos civis. Isso há. Mas por que não falo disso? Não foi menos sublime. Ali também estavam muitos dos deuses, mas não todos, como na noite enluarada. Os corpos cheirosos daquele dia nem pareciam os mesmos deste dia banhado de suor. A aliança concreta que há deveras não tem comparação com o tudo que preenche o nada, que existe ainda mais do que a aliança. Aquilo é matéria, isso é matéria divinizada. Portanto, sobre a verdade embebida do não-há é que falarei, e não fui o primeiro. Haveria outro modo de fazê-lo?



************************************************************


CAPÍTULO II

 

O Velho

 

A

o leitor, pouco se lhe dá quem são esses corpos. A mim, não. Estão aqui, ao meu lado como a lembrança de alguém muito querido. Sempre há alguém muito querido, ou não? Querido por quem? Essa é a única pergunta de peso que te farei, leitor. Sim, porque o amor recíproco é a mais absurda das contradições. Antes do dia da conjunção, houve algo. Parece distante, pré-genético. Algo ancestral, arquetípico, longínquo. Um velho sentado lia com pervicácia e com a competência de sua letra de semi-alfabetizado. Esse ancestral lia sobre tudo o que não há naqueles livros embolorados. Devorava trechos, não importando se estava em língua estranha, incompreensível para ele ou para qualquer um. Do lado de fora, dois demônios. O rosto do velho está apagado entre suas imensas orelhas. A fala dele revela que um de seus pés está em margem segura e o outro afundado na lama. Desde o que há antes da letra se percebe isso. Eu ao menos percebo. Velho relógio, que lança em mim o temor em forma de líquido cronometrado. O sem-sentido do velho sempre venerarei, assim como a desconfiança do inconcreto que se vê. A água benta cai suja sobre minha face. Vejo sua face irada, mas isso não tem a ver com o momento da varanda. Ele lê e os dois demônios estão lá fora. Não esperam: fazem o momento. O momento do triunfo da juventude. Sim, demoniozinhos pequeninos estão lá. Vê-se o fumaréu, ouve-se o estalido, que se torna estrondo por causa da longa corneta de concreto, cuja boca está na varanda. A pólvora fedida e o estrondo imenso desexorcizam o velho. Trazem-no para o que há, para afundá-lo ainda mais no que não há. Afinal de contas, é essa a função dos demônios. Esse velho agora tem mais uma prova que se mescla às que nunca existiram a não ser para ele. Como aquela prova, que houve, aquela imagem, esculpida em fruta roubada, armada qual um espantalho em seu quintal, criatura à imagem e semelhança dos demônios. Mete-se a foice naquela careta hedionda, esculpida no mamão, apaga-se a vela metida dentro da fruta, queimam-se as pernas e braços trabalhosamente amarrados, pulveriza-se, reza-se sobre a maldita aparição. Riem os demônios enquanto vêem o velho se afundar. Sim, uma vez dentro do não-há poucos podem escapar. Eu sou um deles. Saí de lá. Não conheço ninguém que tenha feito o mesmo.

Lembro-me da primeira vez que tentei sair. Levava um pote de leite nas mãos e uma igrejinha compeliu-me a persignar-me. Será que Deus existe mesmo? Engoli aquele pensamento a seco, sem o leite, persignei-me de novo. Era o Diabo que falara em meu ouvido? Não, só mais tarde descobri que um daqueles demônios que torturara o velho tinha sido eu mesmo. Então quis segurar a mão do meu colega, mas era tarde. Há muito já havia havido. Ri-me naquele momento, agora devo chorar. Não disse que sempre ficamos no mesmo lugar? Aquele velho está em mim, quando te vejo e te desejo. O cuitelo do fictício amante da esposa do velho não era fictício quando perseguia sua esposa. O choro da velha parece-se tanto com o teu gozo de amor. Acredito que está explicado o porquê desse amante estar entre nós. É meu convidado e tu, perplexa, me perguntas por quê. Agora entendo bem por que eu, demônio, quis vingar-me desse velho. Como pude perceber tão a tempo? Se deixasse para mais tarde, ele teria morrido sem minha vingança de antemão. Meu mandamento é este: vinga-te assim que puderes e prazerosamente. Eis a moral que deves extrair daqui e que me ensinaste. Vinga-te de mim, imploro. Mas só me torturas: tua vingança é não me obedecer!



************************************************************


CAPÍTULO III

 

O segundo demônio

 

Q

uem era o segundo demônio? Bem o sei, pois ainda o é, ao passo que eu já não posso sê-lo. O segundo demônio vive em mim e, às vezes, o desejo, assim como ele sempre me desejou e talvez ainda me deseje. Por isso, a luta imensa e a necessidade de exagerar seu poder é tão grande entre nós. Agora, não tanto, porque já não sei ser demônio. E como anjos não há, sou apenas alguém. Disfarço o demônio resignadamente. Consola-me saber que o dever tolhe o poder, jamais o querer. E esse querer ferve nas profundezas do dever. Sua superfície é lívida e tranqüila, mas da região bêntica está vindo uma explosão que levanta metros de sujeira. Não sou nem superfície nem explosão. Bóio nessa região intermediária que sentirá a terrível turbulência daqui a pouco. Mas e o demônio? Pergunta-me impaciente o leitor. Vê que sei de tudo, não me contento com a onipotência. Quero também a ti, maldito leitor. Ou esqueceste das funções do demônio? Se não vais lá para baixo, meu colega, que pode estar a teu lado te levará. E farás companhia ao velho. Quanto ao segundo demônio, pouco sei, a não ser do desejo mútuo. Ele derrubava qualquer paliçada que obstasse seu caminho. Na sua procura pelo nada, diz ter arrombado a alma de tudo. Sofre muito, com certo prazer esse demônio. Primeiro, teve de mudar sua imagem magra e engordar, ficar atraente. É o que ele me diz a mim, que nada sei dele. Nem parece que se lembra daquele detalhe imenso que me pertencia e do qual se ria muito. Esse detalhe, leitor, pode ser o que quiseres. Desde o mais vil detalhe da carne, até o mais elevado dom da alma. Não tendo conseguido me usurpar, usurpou a um mais fraco e reina absoluto. Não poderia ser diferente. Agora mostra-me os altares que erigiu. Quebra alguns só por capricho, pois quer mostrar-me que os tem. Como se dissesse: “faz o mesmo”. Erigi um altarzinho, até bem caprichado e ele derrubou o seu, que parecia cópia do meu, não fora levantado antes. Em seu lugar, construiu um monumento formidavelmente horroroso, ao qual tive de me render. Invejo-o do profundo das minhas entranhas. E ele, sabendo de minha inveja, finge sentir saudade do altar destruído e descreve-me cada momento da construção do horrível colosso, monstro hediondo e disforme, cujas pernas e mãos aos milhares se manifestam. Olhando o colosso, não se sabe para que lado parece ir. Quero levá-lo comigo, mas este não cabe no meu bolso, como tantas outras coisas que roubei ao demônio. Resigno-me a admirá-lo e uma dor me consome. Já não posso ser como o demônio. Se o fui, não reconheci minha chance. Minha vingança é escrever sobre o que ele me nega e para esse colega de carne e osso, sangue de meu sangue, dedico minha inveja. Ele esteve no dia do velho, mas não no dia da conjunção. Ele deveria ser meu futuro e estava nas entrelinhas, quando o luar nos abençoou, mas era engano meu. Apenas um caso de compreensão inadequada. Esse engano me acorrentou ao que há e agora não posso ser um demônio. Como vês, leitor, culpo o luar de não me deixar ser aquilo que jamais seria. Com ou sem luar, não seria demônio. Ë preciso ter o dom, que me foi negado por mim mesmo. Não, nem o velho, nem o demônio, nem o luar, nem tu sois culpados. Ele está ainda mais fundo, sob a explosão. Procuremos.



************************************************************


CAPÍTULO IV

 

Doutores

 

L

indo um dia achou alguém o fato de o menino Jesus estar conversando com doutores da Lei. Eu sei quem é esse alguém. Hoje é fácil dizer seu nome. Sonhou para mim mesmo destino e construiu-o tijolo sobre tijolo. Se houve mais alguém além dela, está numa bruma tão cerrada que nada posso ver. Seu desejo se fez carne e fugiu desembestadamente. Tanto que quis pará-lo e não pôde. Essa carne, o primeiro demônio, esse desejo, sou eu? Desculpa-me, leitor, é claro que não sabes responder. Mas esse desejo era o dela mesma. Pode-se dizer que ela gerou ao que lhe foi vetado. Palavras geram atos, isso é a coisa mais óbvia que alguém pode pronunciar. Mas os atos ferem e a cura de nossas feridas é o futuro e o futuro faz-se, com amor ou sem ele. E vem na forma da vida, que carrega toda a culpa daquele que agiu. Dar à luz é vingar-se. Eu sou uma vingança e não consigo deixar de sê-lo. A hóstia no momento da comunhão odiosa daquela que gerou a vingança feriu toda sua língua. Queimou-a tanto, que quis vingar-se no último instante de sua vida. Quis sorvê-la de novo. Também desobedeceu a ordem que me gerou. Tarde demais descobriu que nada lhe podia ser vetado. Algo que com medo, digamos, pois não é fácil lutar contra nossa imagem no espelho. Se nada lhe tivesse vetado, eu seria o primeiro demônio, mas não o sou. Ela lançou-se no não-há, tão profundamente que nunca a pude seguir. Na beirada do poço via, por vezes, sua imagem rodando, rodando e era tão fundo que me impressionava que alguma luz ainda estivesse lá e que pudesse vê-la. Essa imagem me levou aos doutores. E foram muitos, muitíssimos, diria, tantos que nem ousaria especular um número. Nesse momento, a história se torna complexa. Mas falo de alguns a seguir. Agora cumpre lembrar-me daquele homem, estendendo-me uma cédula barata como recompensa de meu espetáculo. A figura girava, girava e o menino escrevia, escrevia. Amigo da escrita bustrofédica, diria alguém mais tarde. No momento só queria ir na direção contrária à dos pais. Vingança? Vejamos mais tarde. Mas dizia instintivamente querer seguir seus passos, mas o contradizia a seqüência da prolação, previamente combinada, qual uma senha, que dava algo que um sentido passageiro àquela inutilidade. Uma nota de alguns cruzeiros. Isso realmente há. Quantos doutores havia? Pensas. Não te digo, leitor. O que importava então era a lousa repleta e a consciência da minha pouca animalidade. Incrível como tudo é simbólico. No momento, apenas era importante para o menino cumprir a profecia. Raptado, o menino percebera que sabia. Terrível momento. Fora numa pequena e inocente manifestação de um colega. Esse menino cruel pisoteou-o com sua arrogância. O sono suave e homogêneo retratado por aquele pequeno futuro amigo foi indesculpavelmente interrompido por uma fanfarra militar barulhentíssima. E nem sentido havia nessa fanfarra, feita apenas para impressionar. E conseguiu. Ei-lo entre os doutores. Quem era esse coleguinha? Impossível saber agora. No momento, o importante não era ele, era a profecia. E eu, isto é, aquele menino, tinha aquela missão. Vingou-se de mim algum dia? Não sei. Há pouquíssima chance de fazê-lo agora. Os doutores seguintes foram pálidas caricaturas daquele que estendia a nota, como verás. Para dizer a verdade, pouco importa quantos e quem foram. A profecia seria completada com ou sem ele. Quem determinou isso foi aquele padre. Aquele, que vetou aquela que me gerou. Parece-me que sinto o fundo do poço onde ela gira. Sim, cheguei ao fundo do poço. Há aqui embaixo um túnel. Muitíssimo escuro, diga-se de passagem. Não sei o que encontro lá. Certamente apenas o nada que é o tudo.
************************************************************


(continua)