O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

OFENDEIS-VOS DIARIAMENTE? DEVERÍEIS

Palavras sempre são um amontoado de sons, que criam imagens sonoras e significados, em qualquer língua do mundo. Esses significados são elásticos e não unívocos. Uma vez pedi a um grupo de alunos que me escrevessem num papel o que era uma pessoa patife e que exemplificassem com algum tipo de situação. Esperava alguma heterogeneidade na resposta, mas não tanta. Praticamente não houve duas pessoas que entendessem a palavra do mesmo jeito. Para uma, patife era uma pessoa fraca à ingestão do álcool, para outra era um arrematado mau-caráter, para outra era uma pessoa boba e fácil de ser enganada, para uma quarta era uma pessoa que dizia coisas desagradáveis, para uma quinta era uma pessoa muito covarde, para uma sexta era ainda outra coisa. Todos estavam concordes com algo, porém: se fosse chamado de patife, partiria para cima do ofensor. Patife antes de significar qualquer coisa era uma palavra ofensiva e nada mais.

Foi aí que pensei que o que se chama "significado" em linguística, psicologia e em tantas outras áreas na verdade são duas coisas distintas. Um significado descritivo (que variava muito entre as respostas dos alunos) e um significado valorativo (que era o mesmo). Definitivamente, patife não era uma palavra que poderíamos usar para elogiar.

Ou era? Um namorado carinhosamente poderia chamar a amada de patife, com outra entoação e num outro contexto e ninguém sairia ofendido. Essa entoação, que dizem não ser tão importante no português quanto no chinês, significava alguma coisa extra. Nasce o vaguíssimo conceito de contexto.



Para mim, quem quer entender o significado das palavras no sentido científico usa de uma carta na manga quando evoca essa entidade do além chamada "contexto". Na verdade, se pensarmos bem, o contexto não é nada. Ou é tudo. Em que consiste o contexto quando o amado chama sua amada de patife e ela sorri em vez de ficar emburrada ou brava? O contexto são os dois envolvidos, seu histórico e a aparente contradição absurda entre a palavra, pronunciada de forma particularmente incomum, e a certeza da projeção do sentimento alheio. Em outra situação, chamaríamos de contexto qualquer outra coisa. Nada é mais vago e impreciso que o conceito de contexto e se alguém diz que é cientista evocando essa alma penada, engana-se. Não há definição suficiente para a variável "contexto".

Assim sendo, dependendo da situação, ofendemos ou não. E o que é a ofensa? Hoje essa pergunta não é ociosa, pois estamos numa época de fortes suscetibilidades. Pessoas se identificam com grupos, amam ser rotuladas e rotular os demais, exigem a leitura unânime e inequívoca das palavras. Não há, no mundo de hoje, dez mil sentidos para "patife". Há um só. E ele deve ser procurado nas redes sociais para que não sejamos politicamente incorretos. E ai de quem não o faz.

Ilusão. Há, sim, milhões de sentidos e sempre haverá, infelizmente nem sempre tão ricos quanto deveriam para honrar a afamada inteligência da espécie humana. A maioria desses sentidos ou é hipervaga ou hiperespecífica. Não saberíamos dizer quantos seriam realmente necessários.

Mas enfim, há o sentido corrente ou da moda. E se alguém é displicente com isso ofenderá necessariamente.

A medida de uma agressão, contudo, é mensurável de forma mais clara pelo agredido do que - obviamente - pelo agressor. Uma pessoa que machuca, magoa ou maltrata não poderia de modo algum ser o mesmo que legisla sobre o limite do que é e do que não é agressão. Isso é óbvio e vale para situações que são qualificadas como ofensas físicas, morais e mentais. Essa ideia é, em tese, perfeita e mais do que defensável.

Mas como dizíamos, estamos lidando sempre com situações e com palavras. Se as situações, com ou sem palavras, definem um quadro onde a justiça pode atuar, já o terreno das palavras é muito pantanoso. Pois, com palavras, não apenas interagimos para comunicar objetivamente uma ação, mas também subjetivamente. Às vezes funcionam ao avesso, como no caso dos namorados citados acima.

Além disso, com as palavras podemos fazer arte. E qual o limite entre a agressão deliberada em arte e a provocação, que tanto sucesso fazia em outras épocas? A provocação tende à crítica subjetiva mais do que à descrição objetiva. Será que o reino do subjetivo corre riscos?

Uma crítica artística a um cenário incômodo do que se passa ou se passou ou se passará na sociedade real ou fictícia é, quase sempre, uma provocação. Seria ela também uma agressão? Devia ser sempre um caso de justiça? Num pesadelo, sim, mas de olhos abertos, melhor não. O teatro, os romances, os poemas e as exposições sempre estiveram cheios de elementos provocativos, exceto talvez nas tiranias que delimitavam o que é arte e o que é entartete Kunst.




Se Tarantino me incomoda muito e me agride, censurá-lo seria uma opção? Ouvir um sim causa um aumento da democracina no nosso sangue, antecedido de arrepios e de aumento do nosso globo ocular. Como? Será que alguém um dia poderia cogitar esse absurdo? Às vezes acho que a resposta a isso é tão incerta quanto o que fará um inexperiente numa corda-bamba.

Na dicotomia agredido-agressor, mesmo que um autor seja eximido por liberdade poética (algo que sempre foi feito nas épocas esclarecidas do vaivém da humanidade), devemos pensar na situação da agressão de forma mais ampla, que nos faz pensar num teorema interessante: havendo grupo agredido, necessariamente o grupo não-agredido é, por definição, o agressor? Veja, não digo mais nada sobre indivíduos agredidos, mas sobre grupos e o número de conjuntos possíveis com a totalidade dos indivíduos tange o infinito!

Supondo que haja dois grupos A e B. Historicamente A oprimiu B, mas hoje B não é mais oprimido por A. O grupo A tem a característica X e o grupo B tem a característica Y. Por causa dessa característica X é que A justificou sua opressão histórica sobre B. Hoje, não importa se as pessoas são X ou Y. Ainda há alguns A que oprimem alguns B por causa da característica X, mas isso é um caso de polícia. Não é desses que quero falar. Quero falar de C, que também tem a característica X e de D, que tem a mesma característica Y. É justo deduzir que A e C são iguais, mesmo que C nunca tivesse oprimido ninguém? É justo deduzir que B e D são iguais, mesmo que D nunca tivesse sido oprimido? No extremo, supondo que C tivesse sido oprimido por E e que D tivesse oprimido F, não seria extremamente redutor (e errôneo) que A e C sejam chamados de opressores e que B e D, de oprimidos? E se A e C não existem mais, apenas seus descendentes A' e C'. Seria justo que A e A' sejam considerados igualmente opressores e C e C' igualmente oprimidos? Se de um lado temos uma característica que reúne acidentalmente (portanto de forma preconceituosa) verdadeiros opressores e pessoas de fora da história e de outro, verdadeiros oprimidos e pessoas do lado de fora da história, não estaríamos sendo injustos com C ou com A' e privilegiando injustamente D e B'? Não estaríamos sendo ou hipersimplificadores ou acreditando excessivamente na hereditariedade? Nessa situação toda, parece não haver espaço nem para a lógica nem para o perdão.

Mas é assim que o bicho-homem pensa. A lógica é o fruto do cansaço da fome e o perdão é o fruto do cansaço das guerras. E é basicamente o que somos: rebentos da fome e guerra. O Homem com H maiúsculo, o tal do ser humano, idealmente projetado, donde se deriva o sentido etéreo de Humano e de Humanidade, é, na verdade, alguém que cansou de passar necessidades e cansou de brigar. Mas há momentos em que não precisamos nos preocupar com a comida do dia seguinte e nem com as pessoas além de nossa tribo. É nesse momento de suposta tranquilidade que voltam a fome e a guerra, como que vindas do nada. E nossa história é esse pêndulo desastrado.

Mas diante da iminência desses males, é ruim que não alertemos que o pensamento lógico se prepara para transformar-se em breve num amontoado de hipergeneralizações e de simplificações formulaicas, mesmo que haja ainda muito para ser discutido. Há pouquíssimas pessoas dispostas a ouvir essa discussão, tão certos andamos.

Enquanto isso, formam-se clãs, que se ofendem mutuamente com nomes pouco inteligentes. E o ofensor se regozija com a sequência de sons que profere, enquanto o ofendido se escandaliza pelos formantes sonoros que trazem a mensagem agressiva. 



Se, num zoológico, alguém põe um nome chinês num urso-panda, não ofenderá ninguém porque não há nenhum costume histórico de ofender chineses, usando o termo "urso-panda". Outros pobres animais, em vez de se sentirem ofendidos por causa do nosso especismo, cedem contra a vontade seus nomes ao ofensor, o qual age com inevitável desconhecimento de causa. Se A ofende B com a palavra G, que designa um outro animal diferente do bicho humano só porque pensa que B tem supostas características de G ou porque pensa que todo G vem da mesma região de B ou porque pensa que G é desprezível, errará nas três vezes: as características de G normalmente são muitos distintas de B para um olhar atento, nem todo G vem, com certeza, da tal região e G tem qualidades que o arrogante A não tem nem nunca conseguirá ter ou enxergar.

Que é o inflacionado cérebro humano comparado com o olhar agudo da águia, com a audição dos lobos, com a eletrorrecepção dos ornitorrincos, com as ampolas de Lorenzini dos tubarões, com a criptobiose dos tardígrados?

A arrogância humana nasceu quando o primeiro hominídeo derrubou um animal muito mais poderoso que ele. Perdeu completamente o seu complexo de fracote e até esqueceu dos seus deuses nesse dia. O poder do homem não vem do seu cérebro, mas da primeira armadilha que criou. Desde então, o hominídeo reflete sobre as vantagens da traição. Desde então conseguiu perceber que do verdadeiro pode decorrer o verdadeiro e o falso, horror lógico que dizem ser inadmissível na implicação condicional: passou a ser verdadeiro que, sendo x verdadeiro, y poderá ser tanto verdadeiro quanto falso.

Depois disso, o homem nunca mais dispensou esse ingrediente básico para o sucesso de sua inflacionada auto-estima canhestra: a arrogância da onipotência, a ponto de fazer deuses à sua semelhança. E aplicou-a a tudo que se move, inclusive a outros homens. É hora de aplicá-la a si mesmo.

Ofendamo-nos diariamente. Quero dizer, não mutuamente, nem reciprocamente, mas reflexivamente. Cada um deveria ofender a si mesmo e não ao outro. Diga todo dia diante do espelho: você que me olha, você não vale nada, mas eu gosto de você. Quem sabe, essa síntese paradoxal entre a humildade e o amor próprio salve a humanidade da próxima hecatombe.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

ALGUÉM ENCONTROU MINHA IDENTIDADE?

É bastante estranho. O homem descreve os fenômenos que se passam dentro do núcleo atômico, tem respostas para o que são os quasares nos lindes do Universo, teoriza como foi que surgiram as penas das asas dos pássaros, expõe o percurso silogístico do cérebro de um esquizofrênico, interpreta um autor obscuro, cura o até então incurável, cria aquilo que antes era ficção, no entanto, tem dificuldade de responder à pergunta: "quem sou eu?"

Por trás de todas essas descobertas independentes da experiência individual, às vezes até mesmo contrárias a ela, um homem individual pode fazer toda a sua espécie progredir, mas, embora a verdade subjetiva ou a Verdade do cosmos aflore, embora tudo isso saia dos espasmos cerebrais de um ser feito da mesma matéria de tantas outras coisas, esse eu não consegue se enxergar. Não consegue ver com nitidez quem ele é para além da massa molecular e da eletricidade que o compõem.

Se não sou idêntico a ninguém, em que consiste a minha identidade?



Mas será que não sou mesmo idêntico a ninguém? Toda espécie tem o único objetivo não de procriar mas de vencer-se a si mesma. Ignorando as outras espécies, sozinha, a espécie vence os obstáculos de seu entorno na forma de indivíduos que se julgam distintos uns dos outros. Vida e sobrevivência são, apesar de tudo, palavras sinônimas. Espantosa conclusão! Os quero-quero se julgam dono do mundo, assim como os símios humanos, os percevejos pentatomídeos, as holotúrias ou os copépodes. Que diferença faz a sua eficácia em destruir o entorno adverso? Que importância têm o seu tamanho, a complexidade de suas estruturas corporais, os seus sentidos, a sua capacidade de raciocinar ou seu instinto? Todos fazem a mesma coisa, não como espécie, mas como indivíduo.

E ignorando que é uma espécie, o indivíduo, graças a uma sensação de si mesmo ou a um self nascido dos trovões internos que coruscam da química chamada vida, consegue vitoriosamente desperdiçar seu pequeno tempo de existência  potencialmente feliz graças a essa maravilha chamada autoengano da individualidade. A mosca que me lambe a testa arrisca-se como outras três a fazer a mesma coisa e sequer está atenta à mão do lambido incomodado, que se desfere imensos golpes na calva, em plena autolesão. Mosquilda sequer percebe que está fazendo o mesmo que Moscolina e Moscarda, mas corre os mesmos riscos do safanão. Está fazendo certo, pois disso auferirá prazer: punctum uolucris paruulae uoluisti morte ulcisci; quid facies tibi, iniuriae qui addideris contumeliam? Dane-se a moral da história: arriscar é sinônimo de viver.

É o delírio da unicidade que fez a vida progredir. O ímpeto da fome e da necessidade fez as plantas cansarem-se do autocanibalismo de seus brotos novos. Arrancando as suas raízes do solo, caminharam, não mais resignadas, transformadas em bicho, rumo ao que sonhavam haver ali atrás daquela pedra misteriosa, malgrado o conselho de milhões de gerações antes do indivíduo audaz. O que distingue o animal do vegetal é o autoengano. Não havendo nada a perder, deu um passo seguro e foi pisoteado em seguida. Outro fez o mesmo, impulsionado pela mesma química e por sorte foi mais além. Ato contínuo, mil outros repetiram a ação, nenhum deles importando-se com o histórico desanimador do fracasso alheio. "O que tenho eu a ver com os meus parentes da minha mesma espécie? Sou completamente diferente!", diz a química irresistível do alto de suas peculiaridades imprevisíveis. Foi assim que de invertebrado a bicho alado, um desses teimosos seres dominou o mundo. Não foi graças à sua inteligência, como diz o livro sagrado de nossas lendas mais caras, mas à sua capacidade de não reconhecer no seu irmão o mesmo magnetismo inexplicável que o arrastava a fazer o que precisava ser feito. Sem lógica alguma, mas com muita determinação. Bendito seja o autoengano.



José Henrique da Silva tem um tataravô ucraniano e, como pertence ao meio artístico, obviamente mudou o nome para Josef Kalynychenko. O exotismo dos Ks e Ys faz José pensar que fez um upgrade na sua autoestima. Maria das Dores Oliveira descobriu que tem um cigano na família e hoje se sente indubitavelmente cigana, por isso hoje entende com orgulho por que sempre foi diferente. Outro dia, Carlos Pereira Assunção leu que o judaísmo se transmite pelo viés materno e, iluminado, descobriu que ele mesmo era judeu porque sua bisavó, mãe da sua avó materna era uma judia. Marco José de Souza é mestiço de japoneses, por isso se sente mais japonês que português. Felipe de Andrade Marinho resolveu fazer uma viagem à Nigéria em busca de suas raízes. Cláudio Peixoto Cunha, que se diz húngaro apesar de conhecer apenas quatro ou cinco palavras nessa língua, defende a volta da porção do território de seus bisavós anexada pela Romênia durante a Primeira Guerra. 

Os cálculos oficiais dos censos não incluem a emigração mental. A identidade é algo dificílimo de mensurar. Por que alguém neto de espanhóis com italianos se sente mais italiano que espanhol? Na queda de braços dos genitores, certamente, um deles prevaleceu com seu discurso ou aliciou com seu carisma o cérebro infantil do convicto.

Alguém conheceria, por acaso, alguma empatia por aquele que o discurso paterno fez odiar? Não se parecendo em nada com a sua espécie, a despeito de ter olhos, coração, história e afetos tão parecidos em sua essência, essa vítima será poupada? Quem o evitará de puxar o gatilho contra um ser assim totalmente diferente?

Quem nesse mundo aceita assumir a sua universal viralatidade? Quem admitirá que seus valores são uma mixórdia promíscua de sistemas mal-ajambrados de pensamentos? Por que descobrir isso, para tantos, é tão doloroso? Ou melhor: por que tenho essa certeza quase absoluta de que sou algo que nunca fui no passado? Negar isso de coração pode ser o epicentro de uma súbita loucura para espíritos frágeis e melindrosos. Parece-me que o que se esconde nessa questão é o fato de não se assumir o aqui e o agora.

Nada do que é atual e presente foi interessante no decorrer do dia de hoje. Mas outrora foi sim, dizem. É estranho ver pessoas nascidas na década de 90 com saudade da década de 80. É estranho ver pessoas que nunca puseram o pé na Polônia declararem-se poloneses. Parece que aquela história de uma gotinha de sangue escocês herdado do meu trisavô me faz um escocês. Supostamente, para essas pessoas, os átomos que compõem seu DNA devem ter a cor de alguma bandeira ou o formato de algum território. Devem cantar hinos nacionais quando se juntam na fecundação. Ou é mais provável que isso seja puro delírio?



Um avô famoso dá-nos certo orgulho, mas avós perdidos em gavetas empoeiradas, desconhecidos, dos quais temos parcas informações, provindas oralmente de um familiar mais delirante ou de inferência tortuosa de meia dúzia de documentos rotos, cuja índole nunca saberemos se toleraríamos, transformam-se em nossos ídolos e nos nossos parâmetros: régua que usamos para nos diferenciar. No fundo, não queremos ser iguais a ninguém com quem tediosamente convivemos. Aprecia-se mais o avô alienígena do que aquele avô de cujo sucesso sabemos sobejamente: esse até nos envergonha em público porque não conseguimos superá-lo. O que era bom demais não nos atrai, pois normalmente não somos capazes de ter nosso próprio nome em uma praça pública.

O autoengano há de se infiltrar sempre de forma muito insinuante. Convenhamos, a náusea de reconhecermos que estamos sendo infantis acreditando em novos papais noéis é dolorosa demais. Queremos acreditar na fantasia que criamos. Isto é, num mundo feito à nossa imagem e semelhança. Essa certeza provém da nossa sensação, dos nossos sentidos, da nossa alma, dizem muitos.

Erigimos com ela nossa new flesh. Observamos atentos que os bíceps de Rodrigo Santoro são sim de fato daquele tamanho que aparecem no filme 300. A voz robotizada da Fergie dos Black Eyed Peas é de fato linda e os shows ao vivo é que estão errados. Os cabos que mesclam a carne humana a máquinas em ExistenZ de Cronenberg são realidades quotidianas e prova disso é que foram requentadas em Matrix e no James Cameron's Avatar. Furibundos, louvamos a originalidade e queremos enganar-nos que o velhíssimo é algo novo e espetacular. Precisamos acreditar que máquinas do tempo sejam conceitualmente bastante razoáveis. Vivemos num mundo de atores-desenhos e de cantores tecnológicos: Gorillaz foi só um dos primeiros passos. O cyborg de que tanto se falava no passado está agora aí. Não há mais heróis que vençam dragões sozinhos. Nossa arma agora são pixels. Hollywood venceu a Segunda Guerra com guerras diárias contra alienígenas em tantos fins-do-mundo quanto seriam prováveis. Escondemos de nós mesmo que a morte é algo feio e lento. Por trás do glamour do herói ambíguo de falas afetadas e quase metrificadas não vemos triunfantes nosso miserável serzinho, carente de algo que não sabe o que é. Pode faltar tudo, dizem, menos a esperança.



Bom, uma coisa é certa: tudo é quase a mesma coisa que não é. Se houvesse um ser racional de fato neste planeta, ele riria dessa palavra "esperança". Pouco difere, pensaria, do suicídio da pobre mariposa que não consegue fugir da lâmpada. Não é atraída por ela, como dizem alguns que não entendem nada de mariposas: apenas no seu equipamento biológico não estava previsto o nascimento de um Thomas Edison. Ela faz o que pode. Nós também. Rumamos tristemente para um fim amortecido por autoenganos. Ferramenta ótima para arrastar nossa carne ao longo de décadas. O que estraga tudo é a consciência.

Mas permitam-me um aparte: a consciência que os românticos atribuem àqueles que puxam o gatilho em direção à própria cabeça nada mais é que outro estrondoso e sofisticado autoengano. Consciência não é isso. Consciência é algo pior que o desespero existencial que aflige o suicida: é a náusea que nos obriga a continuar vivendo desiludidos. Mas penso que há ainda opção de essa desilusão não nos tornar seres de amarga personalidade de convívio difícil. Podemos a qualquer momento, por exemplo, pintar nosso rosto de cores berrantes, dar uma gargalhada gostosa e pôr um nariz de palhaço. Sorrir parece a melhor solução para quem se pergunta, como o agnóstico Russell, sobre o quão patético é nos infernizarmos com pequenas rusgas, se estamos todos num minúsculo e ridículo barco perdido no meio da imensidão da poeira cósmica. O cético Hume chegou bem perto de concluir tudo isso também e adorava o convívio com os amigos, até que se meteu com o louco do Rousseau.

Enfim, como você pode esperar, se chegou até aqui em sua leitura. No final, concluirei o óbvio: a minha identidade nada mais é que você mesmo, leitor.

terça-feira, 28 de abril de 2015

VIVA O INÚTIL!

Palavras têm peso. Às vezes têm mais peso que significado. Se você chamar alguém de patife, estará ofendendo-o. Mas se perguntar à mesma pessoa, antes de ofendê-la, o que é um patife, provavelmente não saberá dizer o que significa ou, ao menos, terá entendido algo diferente da pessoa que a proferiu. Se ponderamos sentido e valores, sem dúvida, a balança penderá para o segundo. Podemos sequer saber o que significa algo, mas a simples evocação de certas palavras devolve-nos a realidade animalesca e cruel do irracionalíssimo bicho-homem.

Dentro da esfera do pesado orbita o inútil. Chamar alguém de inútil é lançá-lo no desprezo ou convocá-lo à peleja. Dizer que algo é inútil revela nossa atitude despiciente para com algo que existe mas não faria falta se não existisse. Mas o inútil é de fato assim?

O bicho-homem, sem alma e sem galardões eternos, rasteja neste mundo de onde brotou atônito. Precisa comer e beber, senão morre, afinal há tempos seus antepassados já não fazem fotossíntese. Precisa dormir, senão enlouquece. Precisa defecar e precisa copular. Precisa ter aconchego de um bando, senão afunda na depressão. Além dessas coisas animalescas aprendeu outras necessidades que orgulhosamente o distingue do resto da bicharada. Precisa falar com alguém, senão falará sozinho perdido num mundo próprio de devaneios. Precisa de dinheiro, senão não consegue disfarçar-se de superbicho perante si e perante os outros. E por aí vai.

Assim sendo, é tachado de inútil tudo que não o ajude a aparelhar-se para mostrar para si mesmo como a cereja do cume do bolo da criação divina. Inútil é algo que não serve para ser ingerido. Inútil é aquilo que tira nossas noites de sono. Inútil é aquele que não sabe se comunicar. Inútil é quem não está devidamente enquadrado na sociedade, pagando seus impostos e cumprindo sua função fática diária. Inútil é aquilo que não gera dividendos.



Certo dia vi um entrevistado que mostrava que tinha reflorestado uma fazenda sua. A terra, desbastada e cheia de bovinos, só dava mato raso. Nada mais além da grama do pasto nascia lá. Os mananciais viraram enxurradas, as quais, por sua vez, remodelaram a terra sob a forma típica da erosão. A diversidade natural ficou monótona. 

Tergiversação necessária: cheguei à conclusão que o oposto da ecologia é a geometria. O homem faz de tudo para livrar-se do caos das matas, que tanto lhe dão insegurança. No lugar delas põe caixotes imobiliários quadrados de cimento e ruas planas de asfalto. Sim, muito melhor sem insetos, sem animais selvagens, sem cobras, sem mato anônimo. O homem não sossegará enquanto o mundo não for um deserto total. 

Mas esse entrevistado tinha pensado o contrário do que você pode imaginar. Tinha reflorestado deveras: a mata revicejou, os riachos reapareceram e, com eles, as aranhas, os tucanos e os tamanduás. Esse homem pensou diferente do bicho-homem mediano? Não, não pensou, gostou de frisar na entrevista, afinal de contas não queria mostrar alguma fraqueza subumana. Ao repórter redarguiu que era um empresário. Definia-se como tal. Assim sendo, fez isso tudo visando ao lucro e não à ipsa natureza. 

Lucro. Palavra estranha. Os projetos de extensão agroflorestal ensinam a conservar a mata nativa, mas visando ao lucro. Danem-se as florestas, se o lucro não pode ser invocado. Quem quer saber de uma mata inútil? Uma mata por si própria? Uma mata ela mesma? Nummus maximus deus est.

Diversidade sem utilidade vira piada no mundo atual. Até mesmo os ecologistas arregaram. Esse discurso não comove ninguém. Pra que preservar baleia se há tanto óleo e carne nelas? Só por simpatia? Um macaco louco não se identifica com baleia. E se identifica, faz isso porque a acha bonitinha. Preserva mico-leão porque é dourado e borboleta que é azul. Quem quer preservar bicho inútil, melequento, sem cor aberrante, peçonhento? Simpatizam-nos os vertebrados, mas e os quilópodes, os nudibrânquios, os insetinhos marrons sem graça que se suicidam nas nossas lâmpadas?




O ser inútil está fadado a morrer: sentença ditada pelo cruel macaco presunçoso que dominou a terra. Entenda-se: inútil para esse primata em questão. 

E a arte inútil? O pensamento inútil? Que dizer disso? Há uma grande distância entre a inutilidade de palavras ou signos inúteis e a de seres. As palavras inúteis são abundantes no nosso dia-a-dia. Mas já se pensou em exterminá-las. Um tal de Vaugelas é considerado o criador do normativismo radical. Mas é inútil acabar com as palavras inúteis, provaram os românticos após Vaugelas.

Um pensamento útil não me ajudaria a tirar vantagem em toda a situação? Aparentemente sim. Contudo, um pensamento que me faça enriquecer é útil quando estou vivo e saudável, mas inútil se estou à beira da morte. Assim sendo, a utilidade de algo abstrato depende do momento de sua aplicação. Um coco é útil para matar minha fome e minha sede, a menos que eu esteja num lugar sem pedras e sem aparelhos onde possa quebrá-lo.

Assim sendo, parece-me que, paradoxalmente, a utilidade de algo depende de coisas que são alheias àquilo que está sendo julgado como útil: a utilidade do dinheiro depende da vida e a utilidade do coco depende de pedras.

Mas avalia-se esse segundo elemento que se infiltra como novo fator antes de produzirmos a sentença acerca da utilidade das coisas? Obviamente não. Quem diz que o dinheiro é bom não está pensando na morte. Quem diz que coco é bom nem cogita em pedras.

Assim, pergunto eu: de onde vem a certeza do pensador comezinho que se interpõe entre mim e o meu deleite com sua abjeta e preconceituosa sentença: ISTO É INÚTIL? Eu diria que vem do mesmo lugar onde nascem todas as outras certezas: da mesma precipitação ilógica do bando que nos impulsiona a fazer asneiras.


O raciocínio do homem visa o útil, diria Bacon, mas o útil depende de fatores impensáveis, como mostramos acima. Assim sendo, o raciocínio visa a coisas que dependem de fatores impensáveis. Não consigo imaginar nada mais inútil do que algo que dependa de fatores impensáveis, portanto, o raciocínio, de fato, visa ao inútil.

Deleito-me em compreender isso. O útil sempre pareceu-me demasiadamente cristão, demasiadamente marxista, demasiadamente raso. A inutilidade é o objetivo daquele que raciocina. Quem se apodera do inútil para construir o útil não raciocina. Monta um espantalho, aliás, coisa útil para espantar corvos e proteger a lavoura de milho, ensinam-nos os inúteis desenhos animados.

A inútil leitura da inútil filosofia torna-nos perspicazes e críticos, algo que é útil somente se os outros que nos circundam são menos perspicazes e menos críticos. Dormirmos a tarde toda é inútil para a Receita Federal mas útil para recuperar nosso corpo e mente cansados. O inútil conhecimento faz diferença no útil concurso. Aquilo que é inútil em potência é útil em ato? O inútil, no fundo, tem alguma utilidade?

Mas o raciocínio visa ao inútil, como provamos acima. Então o raciocínio visa a algo que, no fundo , bem no fundo, tem alguma utilidade? Parece que raciocinar sobre o inútil pode ser a coisa mais útil que podemos fazer hoje em dia. E raciocinar sobre o útil? Tentemos.

Podemos pensar que o útil seja apenas um gozo momentâneo. Quando digo que o dinheiro foi útil para fazer algo, encerro no passado a sua função utilitária. O lucro, que é útil, me faz preservar um monte de mato, que é inútil. O lucro foi útil no passado e será útil no futuro, já o mato foi, é e será inútil sempre. Vejo que a diferença entre o útil e o inútil não se revela apenas na negação: sub-repticiamente algo se insinua. Nova descoberta: trata-se da mesma diferença entre o que é transitório e o que é perene.

O útil, portanto, revela-se um capricho, algo que depende do momento e de suas idiossincrasias. O útil é algo fútil.

O inútil, concluo, é eterno, tanto quanto os grandes valores que alicerçam as grandes coisas que construímos.

O inútil, provamos, é o que devemos almejar. Nada mais útil do que perseguir o inútil.

O inútil, quem diria, é o que forma a enorme base pintalgada de desprezíveis e vãs utilidades.

Viva o inútil!


   








terça-feira, 31 de março de 2015

ESSE CORPO MATERIAL AINDA ME MATA

Não é fácil viver. Isso já muitos declararam. Contudo, o problema não está na vida, mas na consciência de que a vida é a única coisa que temos e que somente a temos por algum tempo. A vida antecede o nosso eu. Antes não éramos, logo não seremos, mas, conosco ou sem nós, a Vida continua. Isso é óbvio e certeiro, a menos que o Malin Génie de Descartes esteja de fato divertindo-se. Pensando nisso, um egípcio ou um indiano, vendo a feia lagarta se transformar numa linda borboleta, consolou-se com seu cérebro humano generalizador e metaforizou a metamorfose: viu-nos como lagartas. Mas a metáfora é falsa: a vida da lagarta é longa, apesar de limitada, e a borboleta, apesar de voar, tem vida breve. Não há uma pós-borboleta. A metamorfose não tem a ver com a transformação de nosso corpo em luz transcendental. Só serve de metáfora para um anseio humano.

E é incrível ver a certeza com que Platão narra sobre o Mundo das Ideias, como Plotino descreve com precisão as suas hipóstases ou como qualquer monoteísta fala sobre a vida pós-morte. Reencarnações e transmutações teorizadas pelos pitagóricos, pelos kardecistas e pelos hinduístas, qual a diferença senão no detalhamento descritivo de seu desejo? No fundo são apenas metáforas para nossa vontade de continuar vivendo.







Batismos - essa invenção persa herdada pelos gregos - que encerram a vida de uma hereditária impureza edênica ou que dão um upgrade num plano intangível, são atos estranhos: servem de consolo para aqueles que vivem uma vida que não desejam, determinada por alguém ou por algo que nunca viu. Tantos ritos, indígenas ou não, ecoam no fundo de nossa alma: quanta ilusão nas cerimônias de iniciação e de transição! 

Um casamento muda o nome, mas não transforma ninguém, nem o crisma, nem um bar mitzvah, nada vai para além do simbólico, essa fruta inexistente, único alimento da qual nossa psique se nutre.
O símbolo, essa ambrosia dos mortais que nos dá força e ânimo, determinação e segurança, anestesiando a consciência de nossa monstruosa ignorância. É a pauta de nossos sentidos e de nossos pensamentos. É aquela coisa que chamamos de alma, cegos e um tanto estupidificados, no torvelinho dos nossos espantos diários. Resistindo ao fato de que apenas somos um sistema (extremamente) nervoso coberto de carne e ossos, como um churro, queremos ser feitos de outra matéria distinta de tudo que nos cerca. Esquecemos quase sempre que somos apenas esse sistema nervoso e que a carne, julgada bela ou feia, na qual se pautam todos nossos amores e ódios, é apenas sua vestimenta. Tanto esse sistema nervoso, que é o nosso eu abscôndito e ignoto, quanto a carne e ossos que o circundam, são fruto de uma coisa que, por falta de melhor nome, chamamos de evolução, mas que na verdade não sabemos para que existe, porque a finalidade, afinal de contas, não foi invenção dos acidentes evolutivos. Frutos de gambiarras e desacertos, essa coisa chamada de minha vida parece única e especial, apesar de haver tanta vida à minha volta. Por puro afeto vindo da convivência comigo mesmo, amo-a ou odeio-a. A maioria, aparentemente, faz como eu: ama-a, mas não são poucos os que dão cabo dela, certos ou não de uma nova vida, melhor ou não, justificando-se nas profundezas dos seus ímpetos e no fundamento enredado de suas razões. Odiar a própria vida pode ser um defeito de constituição do sistema nervoso ou algo adquirido ao longo das depressões, frustrações e faltas da já por nós enxovalhada esperança, quimeras que tantas vezes nos deram óculos para ver além de nós. E é com esses óculos que amamos ou odiamos o que está ao nosso redor, chegando ao ponto de, num amok ensandecido, fazer desaparecer conosco até mesmo vidas que queriam continuar vivendo. 




Mas o normal, para não falar de tristezas, é amar a vida e o nosso entorno. Amamos tanto que o destruímos, cegos com a certeza de que ficará tudo melhor se for como nós pensamos. O homem irrequieto não para com suas eternas mudanças. Nem todos contemplam essa vida amorável sob uma ótica zen. Não é fácil ver que não podemos voar, que as montanhas são intransponíveis, que as profundezas do mar são tão colossais, que a Lua não esteja ao alcance de nossa mão, que não conseguimos ver através das coisas, que não conseguimos ler os pensamentos alheios, que jamais veremos o átomo, que jamais estaremos no fim do universo, que sequer conseguimos enxergar ou ouvir o demasiado pequeno ou o demasiado grande, ou mesmo o que esteja a uma certa distância de nós, que nunca entenderemos algo que já passou: tudo isso nos mostra que somos tão restritos quanto qualquer outro ser vivo. Para isso a curiosidade humana, a sua irrequietude e alguma capacidade técnica inata deram à luz as ciências, que reduziram algumas de nossas limitações e nos tornaram mais seguros e, às vezes, arrogantes. Também a religião nos deu consolos, quando não aumentou nossas paranoias. Por fim, o próprio homem, eterno inimigo de si mesmo, nos constrange como aquilo que nos excede. Não é incomum que tenhamos medo de sair de dentro da nossa toca na sociedade ultramoderna, como quando, escondidos na savana, tínhamos medo de atiçar as feras com nossos movimentos de símio.

E perante o grande, o gigante e o infinito, lançamos as mãos para cima, disfarçando nossa impotência, e dizemos "dai-me um corpo, ó montes", como no poema de Lucian Blaga:


Daţi-mi un trup, voi munţilor


Numai pe tine te am, trecătorul meu trup,
şi totuşi
flori albe şi roşii eu nu-ţi pun pe frunte şi-n plete,
căci lutul tău slab
mi-e prea strâmt pentru straşnicul suflet
ce-l port.

Daţi-mi un trup,
voi munţilor,
mărilor,
daţi-mi alt trup să-mi descarc nebunia
în plin!
Pământule larg, fii trunchiul meu,
fii pieptul acestei năprasnice inimi,
prefă-te-n lăcaşul furtunilor cari mă strivesc,
fii amfora eului meu îndărătnic!
Prin cosmos
auzi-s-ar atuncea măreţii mei paşi
şi-aş apare năvalnic şi liber
cum sunt,
pământule sfânt.

Când as iubi,
mi-aş întinde spre cer toate mările
ca nişte vânjoase, sălbatice braţe fierbinţi,
spre cer,
să-l cuprind,
mijlocul să-i frâng,
să-i sărut sclipitoarele stele.

Când aş urî,
aş zdrobi sub picioarele mele de stâncă
bieţi sori
călători
şi poate-aş zâmbi.

Dar numai pe tine te am, trecătorul meu trup.

Sim, a verdade, depois da náusea (Sartre não poderia ter dado nome melhor a esse sentimento), depois de separar o que é real do que é pura ficção inventada pelos outros ou nós mesmos, em vez da depressão que nos faz jogar de edifícios ou lançar aviões em montanhas, apenas virá certeira (e frequentemente passageira). Com a consciência dessa verdade, talvez alguma alegria, que remete à maior de todas as obviedades: somente temos e amamos o nosso corpo passageiro e, no entanto, flores brancas e vermelhas não pomos na nossa testanem fazemos tranças nos nossos cabelos. 

Sim,  o eu lírico desse impactante poema, porta-voz e embaixador da nossa angústia, declara que o corpo é feito do barro mole do Éden, mas paradoxalmente é apertado demais para a alma violenta que carrega. 

O homem pensa mesmo que o seu corpo é como a montanha ou o oceano, algo tremendamente poderoso, mas, sozinho, tem consciência de que não é, refletindo em silêncio ou durante um mero incômodo e inofensivo resfriado.


Nosso eu recalcitrante quer roubar o corpo dessas coisas monumentais para descarregar  toda a sua loucura. Quer que seu tronco seja feito da vastidão da terra e que do solo se faça o novo peito para seu coração impetuoso, que abriga os furacões que nos esmagam. Se assim fosse, todo o cosmo ouviria nossos grandiosos passos e apareceríamos impetuosos e livres como pensamos que somos. 

Nosso amor se estenderia por todos os mares, sob a forma de braços vigorososselvagens e ardentes. Atingiriam o céu e, conforme nosso arbítrio, apanhariam as estrelas resplandecentes para beijá-las ou quebrá-las ao meio. Da mesma forma, nosso ódio seria tão imenso que esmagaria, com nossos pés de rocha, até mesmo os sóis. Nesse gozo de onipotência, poderíamos sorrir.

Mas nosso corpo passageiro não é assim. Nem nossa vontade tão poderosa. Nem nosso autodomínio. Nossa força e sentidos não são ilimitadas. Nossa coerência sofre para chegar a ser, no máximo, kantiana. Beiramos o ridículo quando pensamos diferente. Nossa vida depende dos outros. Depende se ingerimos algo ou não, ou se abrimos a porta e pomos os pés para fora de casa, ou não. Ficar sozinho em casa esperando a tragédia poderia ser a solução, se a tragédia não viesse sempre do lado mais imprevisível possível.


Vai-se nosso corpo, vai-se o nosso eu. É a vitória do Leviatã. Não há jardim das Delícias, mas tampouco há caldeirão infernal que nos cozinhe. Ninguém verá Osíris. No Duat, nosso corpo, indiferente ao vestibular post mortem e pesagem de nosso coração, vai rumo a Ammit, síntese do tríplice medo e impotência dos antigos. Mesmo que nosso coração seja mais pesado ou mais leve que a pena de Maat, iremos para o mesmo lugar. O medo do que há no pós-morte impediu alguém algum dia de fazer algum mal? A perda da fé no pós-morte realmente fez com que alguém fizesse maldades? Muitos dirão que sim, mas eu tenho minhas dúvidas. Com ou sem esses mundos fantásticos, sabemos julgar o que é errado e excessivo, porque está entranhado na nossa moral, que independe de sacis e iaras glorificados. O mau, quer tendo nascido com a sua maldade, quer a tendo adquirido com o passar do tempo, é indiferente a isso, exceto se foi doutrinado por lavagem cerebral, cuja técnica do endoctrinement nos explica tão bem Olivier Reboul. Mesmo assim, paradoxo dos paradoxos: o mau não se preocupa com nada disso e o bom vive uma vida inteira com medo de uma outra vida que nunca ninguém viu, esperando-a como prêmio da sua bondade. Esse comportamento não parece digno de uma espécie que se diz superior às outras em inteligência. Trata-se, quero crer, de um pensamento inevitável, difícil de desentranharmos da nossa cachola malconstruída pela evolução.


O bom é que, findo o eu e nada havendo (nem sofrimento nem regozijo) tudo volta a ser como quando não existíamos. Ninguém fica triste porque não existíamos antes de existirmos. Deveria haver paralelo para o período depois que existimos, mas se não há é porque gostamos de existir. Mesmo quem crê em vida no pós-morte chora porque uma pessoa querida se foi. Se cresse de verdade, estaria feliz por estar melhor que nós, afinal nossos amigos todos vão para o Céu e se fizermos um esforcinho, também iremos. Mas parece que só os fanáticos pensam assim. Mesmo quem crê em vida pós-morte luta para não morrer e em nada a convicção de que há segundo tempo diminuem a sua tristeza e sua vontade de continuar nesse mundo em que nosso corpo não é equiparável ao de uma montanha ou ao do solo em que pisamos ou ao do vasto oceano. Mesmo quem diz crer na outra vida dá graças a Deus por continuar estando aqui, por causa da sorte de não ter embarcado rumo à morte, mas se cresse mesmo, acharia pena não ter tido a chance de vê-Lo no melhor dos mundos. 


Deixemos de hipocrisia se não temos propensão para o enfadonho fanatismo. Estamos contentes com o certo, ainda que reclamando sempre. Estamos felizes com nossa limitação porque o ilimitado, mesmo na cabeça do crédulo, é algo que não se tem pressa de experimentar. Ainda que sofrendo de dores atrozes, queremos aferrar nosso corpo ao barro de que Adão foi gerado, em vez de hipostasiarmo-nos no plano da substância pura e eterna. É perfeitamente possível ao desconfiado bicho-homem - que aprendeu a não confiar nem em si mesmo - pensar sobre a sua mais firme certeza: "e se isso tudo só forem palavras?".

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A VERDADE, NADA MAIS QUE A VERDADE

Mente quem acha que a fala humana serve para comunicar-se, pois o seu verdadeiro objetivo é a mentira. A mentira quase não é o propalado vício condenável por todas as culturas, mas um impulso humano difícil de ser domado. O fenômeno da mentira, visto de forma pouco judiciária, associa-se àquele outro estranho fenômeno que Sartre denominou mauvaise foi e que é tão esplendidamente exemplificado no seu romance La Nausée.

Um dia A prometeu que faria B a C se C fizesse D, mas após C ter feito D, o cara-de-pau do A negou ter prometido que faria B a C. Esse tipo específico de mentira (se é que A se lembrava de fato de ter prometido B a C) é conhecido como "não-cumprimento de promessa" e quem o comete é demonizado pelos alemães com o título de unzuverlässig, palavra mais feia que qualquer ofensa à genitora. O não-cumprimento de uma promessa gera com frequência a ira, quando não mortes. Muitas desavenças houve até que alguém bolasse um modo de não necessitarmos de coisas fugazes como memórias para sustentarmos as promessas. Surgiu a ideia do registro que, se descumprido, geraria no mínimo uma pendenga judicial. Assim nasceu o conceito abstrato da justiça.



Heráclito já disse com sua bela obscuridade que tudo é liquidamente fugaz, mas o conceito de promessa parece querer ter a pretensão de quebrar essa máxima. Uma promessa fugaz é uma contradição, pois a perenidade faz parte da definição de uma promessa. E o perene sempre foi uma obsessão humana por ser algo que alimenta a esperança e a alegria. Talvez por isso, não bastava que alguém tivesse ouvido Homero ou Jesus e em seguida registrado suas palavras: foi preciso inventar algum tipo de gravação magnetofônica para registrar a voz de nossos ídolos. Pouco depois, alguém sentiria falta de eternizar o próprio momento e substituíram-se os quadros, não suficientemente realistas, por fotografias. Mesmo tendo gravado a voz de alguém declamando seu poema, mesmo tendo fotografado essa mesma pessoa nesse momento, por insatisfação, foi preciso juntar as duas coisas e criar a filmagem, para que ressuscitássemos nossos ídolos mortos falando e movendo-se como nós, ainda vivos. Ainda assim, estávamos cientes de que apreciávamos apenas uma pequena parte de sua existência e isso obviamente ainda parece pouco. Os reality shows deram o passo seguinte: prendendo algumas pessoas numa casa, presenciamos, ainda que apenas durante meses, a sua existência e nos parece satisfazer o fato de essa existência ser tão artificialmente criada.

Qual será o próximo passo? Monitorar cada segundo da vida de uma pessoa, por dentro e por fora, não só mostrando o que faz na cozinha e no banheiro, mas dentro de seu cérebro e órgãos? Nosso voyeurismo, fruto da nossa necessidade de controle da fugacidade, nos empurrará a meios cada vez mais ousados, até vermos como funcionam e deixam de funcionar cada espasmo e pulsar durante cada ato? Será que assim saberemos, por fim, se as pessoas que cruzam nosso caminho na rua movimentada são gênios ou idiotas? Saberemos quais são suas preferências sexuais nesse confessionário pós-moderno? Seremos alertados se são assassinos ou se são suicidas? E mesmo quando cada movimento de intestino de cada pessoa do mundo ao longo de toda sua vida for monitorado, ainda talvez não nos satisfaçamos, porque estamos longe de termos a onividência divina.

Sêneca diria que isso é loucura, pois natura semina nobis scientiae dedit; scientiam non dedit. Aliás, se me perguntassem aonde quer chegar o Homem, diria que uma boa resposta seria ver o que ele imagina existir em Deus. Parece que as qualidades divinas, por nós mesmos atribuídas, são exatamente as que são invejadas por nós, símios que sofrem de atriquia, presos na insegurança da mentira iminente e da traição certa do amigo mais querido. Armado até os dentes, em cada ato de covardia, o exibicionista bicho-homem simula a onipotência divina. A cada cyberbisbilhotagem, o hacker sente o gozo de estar próximo da propalada onisciência.



A sensação de controle das variáveis, que os cientistas regozijam em ter nas mãos, não é diferente. Cada previsão corroborada, cada dado controlado, cada descoberta antiintuitiva faz que o cientista prove um pouco da realidade inacessível a nossos sentidos limitados e nos mostre o quanto estamos longe da intuição quotidiana. E se a percepção científica é distinta da percepção comezinha, a ciência é o que nos faz alçar a situação de semideuses. Só nos falta a eternidade.

Mas - espanto! - há quem não creia na ciência, mesmo que o cientista se mate provando que uma conclusão científica é um dado puro, sem a atuação de nossa vontade, enfim, a vida como ela é. Na verdade, não acreditar na ciência pode ser pura burrice, mas esse acesso de pirronismo que afeta paradoxalmente sobretudo os mais crentes é justificável quando pensamos que por trás da ciência há um limitadíssimo cientista. Ora, é natural que homines amplius oculis quam auribus credunt, diria novamente Sêneca, portanto a verdade é que uma conhecimento científico arduamente adquirido quando é negado só pode ter uma razão: nossa incapacidade de entender os pressupostos daquele conhecimento.

Há decerto algum estímulo em alguma glândula da nossa matéria cinzenta que nos dá algum regozijo quando experimentamos o domínio de algo ou de alguém. Isso faz pensar que nossa espécie é movida por instintos que a tornam uma espécie de dominatrix. Seu chicote é implacável quando as coisas saem do controle. E o conhecimento científico é um controle, mas não o único. Daí muitos se darem ao luxo de dizer que não creem na ciência, como se fosse algo tão simples quanto dizer que não creem em sacis, em caiporas ou em qualquer coisa que não veem.



Ninguém nasce com tendência ao masoquismo, mas o sadismo parece pulular nas veias da nossa espécie. Somente depois de muito choro, de muita conversa e de muitas experiências frustradas, torna-se, enfim, em adulto, com alguma assimilação dos bens milenares de civilidade. Quando aprende que não deve fazer isso ou aquilo, que não pode ser assim ou assado como ele quer, mal sabe que, antes de seu nascimento, houve revoluções e muitas desgraças que originaram aquele valor  que quer destruir, conhecido como Bem.

Evidentemente, valores existem para ser questionados. Mas nem sempre o questionamento universal dos valores traz aquilo que os cidadãos modernos costumam chamar ingenuamente de progresso. Há coisas arduamente conquistadas sob a forma de valores imiscuídos a bobagens. Imaginar que o joio será separado do trigo por causa da nossa eficiente lógica é um delírio. Todo apelo a um progresso natural nada mais é que um conto-de-fadas, criado pela mauvaise foi humana. Nasceu da sua boba crença de superioridade sobre as espécies. Nem tudo melhora, só porque tudo muda. Não concordará comigo o relativista, dizendo que só existem mudanças e não há mudança para melhor, nem para pior. Didaticamente, bêbado de mauvaise foi, me ensinará que mudança é adaptação e os valores independem da mudança.

Mas o relativista não enxerga que há estabilidade nas mudanças, obviamente, porque elas nem sempre são controladas por entes que têm vontade própria. Há mudanças que dependem da vontade e outras que independem. Se eu dou uma banana à questão do aquecimento global porque sou cético e não vejo diferença entre a declaração de um xamã e a de um cientista, decerto não consigo acompanhar o raciocínio do cientista. Se o raciocínio do xamã é algo que requer que lidemos com analogias, o do cientista requer que conheçamos dados e algo do raciocínio lógico. Se não sou imaginativo, o que o xamã me diz é loucura. Se sou ilógico, as extensas cadeias de causas e consequências do cientista não fazem para mim o menor sentido.

Então falta, talvez, para entendermos o que nos diz o cientista, autopoliciar nosso pensamento, senão seremos distraídos por imagens que se interpõem entre seus silogismos. Mas se quisermos ser sensíveis ao que nos diz o xamã, devemos esquecer o que significa coerência e entregar-nos ao contrário do que as evidências e as consequências nos apontam, ou seja, àquilo que se chama fé. Convenhamos, não é fácil ter as duas coisas ao mesmo tempo. Fé e coerência não são compatíveis. Só conseguiremos uni-las se formos autoenganados ou se tivermos duas personalidades.

Hoje com a informação abundante, há um fenômeno talvez novo e bastante interessante. O conhecimento self-service que nos faz pensar que estamos além desses dois tipos de personalidade, a do crítico e a do prosélito. Não estamos. O crítico não aceita. O prosélito não questiona. Ninguém está além da crítica ou do proselitismo. Somos apenas seres que se apegam ou não a discursos e as razões disso são profundamente individuais. A verdade contida nesses discursos não importa. E se somos cientes disso, não sofremos da mauvaise foi: simplesmente somos crápulas.



Razões profundamente individuais, sem dúvida. Freud ressuscita com seu charuto à boca e nos pergunta: "essa individualidade viria da nossa alma?" O cético diz que não. O prosélito diz que sim. 

Individuais, sem dúvida... mas seriam genéticas? O cético dirá não. O prosélito dirá sim. O cético não tem evidências de que não sejam. Os prosélitos também só têm esgares e uma rala evidência de que sejam. Enfim, surpresos, observamos que o cético e o prosélito não se confundem respectivamente com o cientista e o religioso. O inverso também pode ocorrer!

Individuais, sem dúvida... mas viriam do nosso meio e de nossa educação? Da nossa experiência e de nossa vivência? O cético não diz que não. O prosélito não diz que sim. Sem querer, concordam e se entreolham espantados, pois estão acostumados à quizila. Palavras vagas fazem que todos entrem em acordo. Não há uma única direção nelas. O meio nos muda e mudamos o meio. A educação nos muda e mudamos a educação. A dupla implicação parece ser menos eficiente à avaliação de verdade que a implicação simples. Nesse limbo é que estão os acordos de paz.

Toda verdade gera ira - explica-nos o mestre relativista com sua empáfia de guru - porque o que é verdadeiro para um é falso para outro. Mas, pergunto a esse sabichão: "o que não é nem verdadeiro nem falso para ninguém gera a tolerância?". Aparentemente sim. A necessidade de viver em comunidade fez que tolerássemos o que não nos parece verdadeiro às custas de úlceras que se formaram porque nosso superego nos obriga a não esganar o próximo. O que não é nem verdadeiro nem falso sobrevoa o nervosismo das polêmicas. Está ali, elemento não-distintivo, coisa amorfa que merece pouca atenção do cérebro brigão do hominídeo, mas é algo que deveria ser mais bem observado e, talvez, cultuado.