O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

domingo, 31 de janeiro de 2016

EXPRESSÃO E CONTEÚDO

Quando era estudante de Linguística, ouvi que Saussure havia descoberto que a língua se compunha de signos e que esses eram uma junção de significantes e significados. Alguns estudantes mais velhos que eu falavam de Peirce, como alguém que teria pensado além, com seu signo de três faces. Do jeito que aprendi, parecia-me (e talvez a muitos que me falaram tais coisas) que Saussure era um sábio no princípio de uma nova era e que Peirce era um questionador revolucionário. Muitos anos depois, apaixonei-me pela Historiografia da Linguística e pela questão de como ideias são transmitidas de forma enviesada e simplificada, para não dizer errônea, às vezes fruto de má leitura, às vezes de algum entusiasmo político ou simplesmente da infalível obtusidade de quem se arroga superior por ser a única espécie racional do planeta. Mas a racionalidade sempre tem dois lados: um deles, a inteligência, que não se confunde com a razão, o outro é a burrice, que nada mais é que uma de suas facetas mais fascinantes. 



De fato, Peirce, quase duas décadas mais velho que Saussure, ressuscitara uma ideia antiga, que se encontra em Locke, nos medievais e começa, ao menos historicamente, nos estoicos. Foi nessas águas remexidas por Peirce e por outros que Saussure pautou suas famosas aulas, transcritas por alunos que o veneravam. No entanto, transmitidas por bocas alheias, não eram suas as palavras, nem poderiam ser. O resultado atual é curioso: aquilo que é mais conhecido de Saussure não é 100% dele. Isso só foi piorando com a boataria intelectual: Saussure obviamente não inventou o signo linguístico. Por que então tanta gente inteligente ou dedicou sua vida toda a defender algo que lhe foi mal contado ou, motivada pelo espírito que nos faz gostar de ser liderados, defendeu o indefensável mesmo sabendo que tudo repousava apenas em artifícios imaginários que nos dão segurança, algo típico do inseguro e do fanático? 

Hjelmslev, por exemplo, diz que Saussure era "pioneiro indiscutível" e "o único teórico que deve ser citado", ignorando todo o século XIX, mesmo os seus antigos colegas dinamarqueses, cuja tradição em linguística remonta ao século XVIII, entre os quais vem à mente uma larga tradição de personalidades, como Rask, Nyrop e Jespersen. 

Saussure não fundou a Linguística, termo que circulava desde o século XVI. Já havia até mesmo livros sobre Historiografia da Linguística, como o de Benfey, publicado quando Saussure tinha 12 anos. Tampouco inventou a Linguística Geral, termo que já era usado décadas antes de ele lecionar essa disciplina em Genebra. Quando era uma criança de sete anos, já havia uma Société de Linguistique de Paris, à qual o jovem estudante Saussure se afiliou e onde se destacou. Ainda apreciando anacronismos, não poderia ter sido Saussure quem ensinou semântica ao seu mestre Bréal, vinte e cinco anos mais velho, nem é do genebrino o entendimento de que a língua é uma instituição social, pois isso já estava nos escritos de Whitney, trinta anos mais velho que ele. 

Por ser um feroz leitor de temas para além da linguística da época, como a sociologia e a psicologia, pode-se afirmar que quase nada do que está no Cours de linguistique générale é original, apesar de ser inquestionável a genialidade de Saussure, um indoeuropeísta, cujos insights não foram compreendidos senão anos depois de sua morte, após a descoberta da língua hitita. Genialidade, contudo, que foi parcamente registrada pelo seu próprio punho e, mirabile visu, não foi reconhecida, senão por poucos, pelo que realmente escreveu, como seu Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes

Didático e exigente, Saussure alimentou a admiração dos seus alunos, que publicaram (e distorceram involuntariamente) suas aulas. A excelente e já antiga edição crítica de Tullio de Mauro do Cours já punha os pingos no is anos antes mesmo de eu estudar Linguística. Por que aprendi errado, então, e só às custas do meu esforço consegui desaprender? O ensino serve às vezes para desinformar e confundir? Enfim, por que ser genial é quase sempre considerado sinônimo de ser original? Isso não seria demasiadamente hegeliano e romântico? O próprio De Mauro não esconde a sua paixão pelo mestre de Genebra respondendo a essas perguntas ambíguas. 

Quando, na pós-graduação, fiz uma disciplina sobre História de Roma, algo aconteceu, que muito me impressionou. Num dos seminários, uma aluna mostrou com enorme riqueza de detalhes que, no Império Romano, durante a transição do principado à monarquia absoluta, o Cristianismo sofreu um verdadeiro sincretismo com ritos e lendas pagãs. Jamais tinha ouvido falar do mitraísmo e não havia associado com tanta clareza a ideia de que os valores cristãos eram tão parecidos com os do Neoplatonismo, seu rival pagão. A moça, não fosse eu na época já ateu, me teria facilmente convencido de que havia falta de originalidade e sentido na inspiração divina da mensagem cristã, dada a quantidade de informações irrefutáveis que apresentou. Mas, crucifixo pendurado ao pescoço, fez questão de concluir sua brilhante apresentação afirmando sua fé particular em um Deus todo-poderoso, criador dos céus e da Terra e em Jesus, seu filho. A mesma sensação de perplexidade eu tenho lendo o estupendo The case of God, da eruditíssima Karen Armstrong. Por que existem pessoas que conseguem levantar dados históricos de forma tão genial mas não combiná-los com sua fé e vida pessoal? Isso sempre me causará extrema perplexidade.



A isso não chamo burrice. Fazer um esforço hercúleo para testar seus valores, questioná-los e superá-los é o que o símio humano tem de mais louvável e incrível. Conseguir combinar harmoniosamente seus próprios valores com a diferença é talvez o elemento admirável de nossa espécie. É o que justifica os nossos neurônios a mais. A burrice é outra coisa. É atitude dos que se recusam a olhar pelo telescópio na peça Leben des Galilei, de Brecht: os avessos à inteligência aliam a fragilidade existencial à pura falta de esforço para ter a informação adequada. E se eu achasse que existe de fato pecado, essa combinação, para mim, seria o maior de todos os pecados. É isso que alavanca o ódio e os gestos assassinos mais frequentes do mundo. É isso que impede a comunicação mais do que a barreira natural das línguas. Há limitações naturais, sabe-se, mas elas, creio eu, podem ser superadas por estratégias que minimizam sua exposição e pelo esforço do autoconhecimento, que evita o auto-engano.

O mundo moderno está empapuçado de tanta informação. Dá uma preguiça danada informar-se e acreditamos numa osmose emanada das redes sociais. A informação está aí, escolhemo-la como num menu. O conhecimento hoje em dia é self service. Assim sendo, não acredito que a burrice seja mais um traço nacional de que nos devemos orgulhar. No Brasil estamos numa cilada terrível: por um lado, a opinião emanada de políticos que falam coisas sem pensar, sem pesquisar, sem considerar a inteligência do ouvinte. Por outro, a informação mal feita de uma oposição que acusa a situação. 

Mais do que a desarticulação da expressão da presidente, acusada por Celso Arnaldo Araujo, impressiona-me a sua falta de conteúdo. Lapsos de expressão cometemos todos nós, a mim mais do que eu desejaria. E nesse quesito, os chamados erros de expressão são algo que só se justificam por meio de uma leitura vaugelasiana da gramática. Quem não diz "comê"? "Falá"? "Cantá"? Basta que sejamos gravados desatentos e que nos ouçamos depois. A falta do -r do infinitivo é a regra do português brasileiro, somente rompida na solenidade de discursos, onde pode parecer inadequada, mesmo assim apenas ao ouvido mais sensível e obcecado com o fato. Além disso, aparentementente, pela expressão falha não se atinge um conteúdo falho. O conteúdo falho se manifesta sim em atos questionáveis: mesmo que a expressão seja a mais capenga, arrevesada, contraditória e pleonástica, ela pode conter algo inteligente. O que nos faz perceber a falta de inteligência é a ausência do ato inteligente. Mas a atitude normativa das gramáticas desde o século XVII parece ter ódio à diversidade de expressão e para cada uma tem um carimbo. 



O conteúdo é manifestado, como dissemos, parte na expressão, parte na ação e é na ação que podemos flagrar a inteligência do conteúdo e não na expressão. Tomadas de decisão é que, de fato, parecem ser a janela de nossa alma. Assim, cansados da embromação de ministérios e de outras autoridades, surgem a histeria e o desejo de extermínio, perante um inimigo de alguns centímetros que transmite febre amarela, dengue, chikungunya e zika, a qual tem gerado fortes suspeitas de vínculo com o pavoroso aumento de microcefalia nas Américas e no Brasil em particular. Nossa espécie pouco afeita a perder seus privilégios, diante de algo que não está bem, evoca com facilidade uma Endlösung.

O medo do desconhecido é o mais conhecido medo que temos. É ele que nos faz declarar como ameaça à nossa existência o bichinho que Lineu chamara de Culex aegypti e que mudou, de forma tortuosa para Aedes aegypti (e que deveria se chamar, desde 2004, de fato, Stegomyia aegypti, se critérios atuais de nomenclatura fossem, de fato, respeitados). Jornalistas, querendo enfatizar as já conhecidas contradições e inconsistências das declarações institucionais, partem da nossa mais nobre capacidade intelectiva, a generalização, para afirmações que se espalham mais rápido que as doenças acima referidas. Uma vez que a pressa da imprensa quase nunca permite que afirmações sejam pautadas em pesquisa e muito menos em análise, amiúde faz isso de forma desinteligente, lançando um facho de escuridão juntamente com a informação, que deveria iluminar.

Anteontem, o Jornal Nacional anunciou que havia sujeira no Palácio da Alvorada (http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/focos-de-mosquito-sao-vistos-metros-do-palacio-da-alvorada.html). Grande novidade. Há sujeira no país todo. Nunca fomos uma Áustria ou uma Suíça. Outro dia vi em minha rua um ecocaminhão de coleta seletiva, verde, com dizeres lindos sobre lixo reciclável e sustentabilidade, cujo motorista, na minha frente, jogou um copinho de plástico com resto de café bem na calçada. Brasília mesmo, cidade da reportagem acima mencionada, construída para ser sonho e não decair como a antiga capital Rio de Janeiro, mesmo que rodeada de periferias que nada se assemelham ao platônico Plano Piloto, não poderia ser exceção à nossa falta de educação. A reportagem seria apenas inócua, mas, feita para chocar, como se já não tivéssemos motivos suficientes com o cenário político, teria de fato chocado se não fosse uma tremenda e imperdoável falha jornalística que me tirou totalmente a atenção do seu conteúdo:  aos 1:10, a voz do repórter diz "E na casa da presidente Dilma Rousseff? No Palácio da Alvorada encontramos mosquitos no Espelho D'água. Não é o da dengue, mas serve de alerta".

Não, nessa cena rápida, esses bichinhos olhudos que estão nadando de costas não são mosquitos. E se não são mosquitos, não são os da dengue, obviamente. Se ele tivesse visto araras, não seriam araras da dengue, com certeza. Os bichos que o incauto repórter viu especificamente nesse espelho d´água nem de longe se parecem com mosquitos. São vorazes hemípteros notonectídeos. Provavelmente jogaram larvicida para matar o coitado do bichinho que nada tem a ver com doença nenhuma. Ou seja,  pensei naquele instante, qualquer inseto é sinônimo de sujeira? O ideal seria estarmos livres de todos eles, mesmo dos que se alimentam dos nossos inimigos, como deve ser o caso desses que foram confundidos com mosquitos? Postei um comentário no site. Outro rapaz afirmou que eram larvas de libélula. Não são. Nunca vi larva com asa, muito menos nadando de costas. O desgosto da burrice me fez pensar: o repórter, o rapaz e eu estamos dizendo coisas distintas, ora, é óbvio que, nesse assunto, sou eu quem está com a razão (basta pesquisar a palavra "Notonecta" no Google, leitor incrédulo). Como fazer para que uma opinião com conteúdo se distinga de trilhões de outras sem conteúdo que só servem para confundir? Parece que vivemos, com o excesso de informação, apenas numa coleção de expressões sem conteúdo julgável: todos parecem ter razão embora muito poucos a tenham.

No dia seguinte, esperei em vão pelo "erramos" do William Bonner. Era a vez de Chico Pinheiro continuar a reportagem e verificar a promessa do Ministro da Saúde, Marcelo Castro. Houve outras reportagens sobre o mesmo tema, nesse mesmo dia, mas o que apareceu numa delas me chocou ainda mais. Não é que aos 0:59 mostrou-se um girino como se fosse uma larva do Aedes aegypti?! Veja como seus próprios olhos: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/mutirao-de-combate-ao-aedes-aegypti-e-realizado-em-250-cidades-de-sp.html


E pior ainda - rir para não chorar! - a mocinha agente de Saúde que quer conscientizar a população de São Bernardo do Campo sobre o perigo da água parada está vestida de mosquito ou de libélula? Afinal de contas, a fantasia dela tem quatro asas e o tal vilão alado, como qualquer díptero, tem apenas duas. Nas aulas de biologia aprendemos que mosquitos e moscas têm duas asas e dois balancins pequenos e não quatro asas desenvolvidas, mas, pelo jeito, os agentes de segurança não reconhecem o facínora que procuram e estão caçando outros insetos. 

Pode parecer detalhe besta mas não é. Isso nos dá a medida exata de nossa ignorância atual e o quanto não sabemos sobre aquilo de que temos mais certeza, a ponto de não pormos em dúvida o que vagamente sabemos, nem checar nada, antes de dar nossa opinião. Ou seja, nunca pensamos que pode estar errado aquilo que nossa mais profunda convicção nos faz imaginar certo.

Ora, são essas profundas convicções as causas de nossos atos mais impensados. Toda consequência irracional vem de uma profunda racionalidade equivocada. Radicalizando, toda violência (verbal ou com sangue pingando tanto nas mãos quanto nos machados) vem da mais abjeta ignorância. Deveríamos cuidar para que nosso lado pouco inteligente não aflore subitamente. Deveríamos cuidar ainda mais para que não aflore o tempo todo. O único remédio é o estudo das fontes certas. Ora, quem sabe falar sobre inseto? Bons entomólogos. Por que satisfazer-se com o palpite de um ilustre que não tem especialidade naquilo sobre o que discorre? Não é à toa que o niilismo, o relativismo, a indiferença e a boçalidade tem sido a regra deste século de maravilhosa democratização da informação. 

Se racionais todos somos, é preciso aprender a ser inteligente. Isso não vem no nosso DNA. Requer um pouco de esforço diário.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

EVOLUIR SEM PROGREDIR

Ando chateado, pois desde que a revista em que escrevia foi extinta por causa da crise atual, perdi meu ritmo mensal ensaístico, tal como se pode ver pelas frequentes interrupções das postagens mensais de meu blog, mas planejo retomá-las ano que vem com a mesma periodicidade antiga. O dia-a-dia também se me mostrou bem cruel neste ano de 2015 e em janeiro já sabia que não haveria este ano em minha vida, tantas foram as atribuições, tarefas e compromissos de minha agenda.

Por causa da ressaca de 2015, que está já no seu fim, talvez deva escrever, por falta de melhor assunto, algo sobre uma micropolêmica surgida do conhecimento casual da pouca opinião que há sobre as minhas linhas. Já faz um bom tempo, uma amiga me disse que um amigo dela começou a ler meu blog e ficou chocado com algo que escrevi. Opiniúdos e opiniosos há por toda parte, mas o que me espantou foi que ela dizia que ele achara estranho que eu tivesse dito (talvez mais de uma vez) que não entendia Hegel. Um professor universitário não pode dizer isso, dizia. Claro que posso, ri.

Mas talvez por "entender" ele tenha entendido outra coisa. Sou obviamente limitado como todos o são, mas ao confessar não entender Hegel não quis dizer que sou limitado a ponto de não tentar entender o que Hegel diz. Pelo contrário, se me destaco por algo é pelo meu esforço para entender o outro, muitas vezes frustrado porque as regras do jogo proposto pelo outro, na maior parte das vezes, não são expostas, mas inferidas. Mas se é assim na vida, não é preciso que seja na exposição do filosofar.

Hegel me impressionou quando era jovem, mas hoje em dia, de fato, tirei-o de cima do pedestal do meu jardim dos grandes filósofos e coloquei-o no chão do lado do bebedouro dos passarinhos. Sem dúvida, trata-se de um filósofo com magnífica verve. Nietzsche também o é e nunca me incomodou, porque a proposta de Nietzsche é ser pura verve. Mas o que me chateava à medida que entrava no cipoal das imagens de Hegel é que ele queria querer me ensinar algo e ao mesmo tempo não queria que eu estivesse ali. Como não tenho talento para ser cuspido, perguntei-me sobre o porquê de sua atitude.


Qualquer um fica impressionado quando Schopenhauer azedamente chama Hegel de impostor. Não chego a tanto, até porque não o conheci pessoalmente para fazer esse julgamento. Nem é por isso que preciso tomar partido em relação a um dos dois grandes filósofos, tão diferentes um do outro. Não sei se Hegel foi um impostor, se reciclou ideias de Fichte, de Schelling e dos gregos que conhecia tão bem, fazendo-as suas. Se fez isso, por mais que o culpássemos por infringir o dogma romântico da criatividade, sua escrita continuaria tão original que não parece justo reduzi-lo plagiário. Quanto ao que sinto hoje em dia por Hegel, só posso apresentar sob a forma uma admiração murcha. Vejo-o a distância, tal como aconteceu com outras figuras e obras pelas quais minha primeva ignorância alimentava alguma admiração simbiótica. O meio dizia que Hegel era legal, eu concordava. Até que o enfrentei, com todo o respeito e com a melhor das boas intenções.

E não eram quaisquer pessoas que aumentavam em mim a promessa de encontrar na leitura de Hegel um portento: eram os escritores que mais me haviam influenciado e moldado meu modo de pensar. Penso que, indiretamente, até mesmo meu estilo, que julgo tão meu, veio indiretamente daqueles que amava, os quais por sua vez amavam Hegel. Aquela coisa de tese, antítese e síntese me arrepiava e me dava óculos para ver tudo, enquanto não havia lido Hegel de fato. Sim, pensava, Hegel bebera decerto em alguma fonte divina para ter tido essa ideia genial.

Quando descobri que tinha talento para epistemologia lendo e compreendendo Locke, Berkeley, Leibniz, Hume, Popper, entusiasmei-me. Cheguei a Kant e tive a real dimensão da minha limitação, pois Kant também me cuspiu de seu texto na primeira leitura. Não que Kant seja inacessível, não é isso. Tanto não é que voltei a enfrentá-lo e a cada releitura, entendo-o mais. Mas lê-lo de forma correta requer que sentemo-nos em silêncio excepcional e dediquemo-nos ao seu raciocínio. Trata-se de um pensamento muitíssimo sutil, algo como estudar uma língua completamente nova, como observar fascinantes detalhes por meio de um microscópio, como montar peças de um enorme quebra-cabeça. Kant, compreendido, dá-nos um sentimento de respeito reverencial misturado com medo ou espanto, algo que em inglês se diz awe. Impossível não pensar: como alguém pôde conseguir manter seu juízo de forma tão constante e direcionada? Kant devia ser um alienígena.



E o aspecto crescente do progresso, de Locke a Kant, não parava aí. Fichte, que dizia basear-se em Kant, antes da fase em que não estava com medo de perder seus cargos e começou a falar asnices germanófilas, criou um admirável sistema "kantiano" com foco no individual. De kantiano, o próprio Kant percebeu que não tinha nada, mas o que Fichte escreveu tem momentos admiráveis, de uma originalidade que beiram o lírico, não fosse de fato filosofia.

O que se segue, com Hegel, foi algo bem diferente. Explico: a dialética de Hegel prevê sempre um status quo, seu dramático aniquilamento e uma espécie de reconstrução dourada feita das ruínas do primeiro estágio com o que há de bom do segundo, ou seja, uma espécie de outro status quo novinho em folha, muito melhor que o primeiro. Essa visão positiva de progresso incomoda qualquer pessoa honesta.

Para que possamos engolir isso, temos de aceitar que a realidade não é mais substância alguma, mas apenas sujeito e espírito, daí a sensação de a filosofia hegeliana (e fichteana) não se assentar no mundo real: caminha e se transforma sem parar. Bom, Heráclito já tinha dito isso nas auroras do Ocidente. Até aí, morreu o Neves. 

Quando Hegel coloca a Religião após a formação do Espírito em sua Fenomenologia e dela extrai o Saber Absoluto, meio que desprezando a passagem da Lógica para a Mecânica, Física e Física Orgânica, ordenando, a seguir, seu produto numa nova sequência: Arte, Religião e Filosofia (sobretudo a filosofia alemã, especificamente a dele, se pensarmos no seu crescendum ininterrupto), aí uma pessoa sensata deveria atenuar um pouco sua admiração pelo grande filósofo, fechar o livro, pensar um pouco e perceber que está diante de alguém que está forçando a sua amizade com essas tríades que vêm de algum mundo plotiniano. Até mesmo Platão acharia isso um delírio.

Por que são sempre três e não sete etapas? E eis que Hegel se mostra, nesse seu raciocínio tortuoso e embriagado, antes de tudo, sob a veste de um grande orador, alguém que não conseguimos acompanhar sempre, pois entre etapas claras há sempre o levantar de uma fumaceira verbal que não nos permite seguir seu raciocínio. Aí vem as regrinhas dos exegetas: só entendemos a cientificidade de sua metafísica se dilatarmos alguns significados, se especificarmos outros, se aceitarmos seus paradoxos, enfim, se estivermos no mesmo mood de seu palavrório.

Mas se não estivermos, cometemos algum pecado contra o pensamento filosófico ocidental? 

No caso de Hegel, não basta projetar-se no momento histórico para entendê-lo como figura histórica. É preciso segui-lo como um discípulo segue um mestre, senão leva-se a pecha de grosseiro ignorante. Por mais louvavelmente aplicado, inteligente e obcecado que Hegel tenha sido com suas questões (na verdade, tanto quanto qualquer outro filósofo deva ser), vejo que em Hegel, assim como na maior parte dos que o sucedem, habitava (e habita) o sentimento de impor que o que afirma é algo maior do que o de seus sucessores, ou porque eram mais limitados ou porque eram muito esquecidiços. 

Ora, ninguém poderia mais negar as questões e as soluções levantadas por Kant, mas o filósofo de Königsberg humilhara demais seus leitores com seu bem-sucedido projeto de vida dedicado à filosofia. O falto de imaginação ou de talento não aceitaria que a fala kantiana era o fim da conversa: claro que era possível fazer mais, avançar, modificar, melhorar, superar, mas quanto conseguiriam isso doravante? Perante à quantidade absurda de informações hoje em dia, às vezes vejo que estamos de novo perante o mesmo problema, mas não quero me dispersar misturando passado com presente.

A geração mimada que recebeu toda a volumosa informação encadernada e organizada numa estante tem vontade de jogá-la toda no chão e botar fogo em tudo. Por quê? Talvez o nosso lado chimpanzé explique paradoxal apego e ódio simultâneos à geometria, mas não levantemos razões biológicas desta vez. 

Essa vontade de jogar tudo que é belo e perfeito para o alto se justifica não por um mecanismo obscuro numa dimensão oculta da História, mas porque o indivíduo quer reinar, dane-se a conquista da mente coletiva. Sim, o tal Espírito hegeliano nada mais é que o Eu fichteano travestido com palavrório. Não é grandioso, mas mesquinho e muito egocêntrico. Esse Espírito que navega no tempo, imponderável e quase inimaginável, só supera as aquisições reais pelo simples fato de ser impalpável, vago, subjetivo e, acima de tudo, contraditório. Na verdade, supera uma pinoia. Em vez de antítese e síntese, o que eu vejo de fato é destruição e perda.

Os cristãos não superaram Platão. Fizeram um sincretismo cuja separação ainda hoje é difícil de desfazer. Houve perda quando o conhecimento egípcio se desfez, para não falar dos maias e de tantos povos que da barbárie migraram para o nada. Onde está a síntese? Ninguém honesto conseguirá enxergar porque sobrou muito pouco do progresso do passado.

Em vez de afirmações, refutáveis por meio de novos pressupostos e dados, oferece-nos Hegel uns círculos místicos e umas espirais enigmáticas. Por que têm esse formato e não são pirâmides, dodecaedros ou esferas infinitamente concêntricas? Também essas formas geométricas estão lá no meio de nossos estranhos arquétipos humanos e são formas fáceis para nos convencer sem que haja de fato argumentos para seu formato. A redação hegeliana hipnotiza, não convence o leitor aplicado que confessa não entendê-lo. Sentimo-nos um discípulo sempre a interpretar a fala solipsista do mestre e isso, de alguma forma, já estava superado no momento em que Hegel propõe sua dialética. A proposta da clareza dos ingleses nunca convenceu a mente barroca alemã, desde o tempo de Leibniz. Voltou tudo para trás. Não houve síntese, houve antítese após antítese.



O estranho é que Hegel não nos esconde isso. Pelo contrário, dá-nos muitas provas de ter consciência do que faz: compara, por exemplo, sua dialética com um triunfo báquico. Pergunto: por que então tanta coisa se erigiu sobre um terreno construído por ébrios? Por que se parou de discutir o que vinha sendo ponderado seriamente por Hume e por Kant e o sólido ficou fluido? Será que porque, dando um saltinho para o lado, temos algum modo de escapar das questões de dentro do círculo e, em terreno fora dele, podemos ironicamente debochar de quem está procurando sentido nas palavras dentro dele? Na verdade, o que vejo de original em Hegel é a descoberta dessa fórmula, copiada por todos os que vieram depois, com talento para filosofia ou não. O triunfo báquico é o triunfo do preguiçoso e do que despreza o leitor. Está aí o Transgressing the boundaries de Alan Sokal como prova de que ninguém mais se importa em ser desprezado.

Convenhamos: Hegel não se contenta em ser antítese de Kant pois se acha com talento para ser síntese. Mas, caramba, quem foi então a antítese de Kant para chegarmos à síntese de Hegel? Fichte? Schelling? Hegel não tem dúvida que ele próprio é uma síntese e seus precursores são antíteses: essa egolatria lhe custou perder a amizade de Schelling.

Mas o leitor adora e quer ser seu novo amigo.

Lemos Hegel à cata de uma dica sua que nos ilumine. Aceitamos suas contradições com complacência. Entendendo-o, pensamos que somos seus camaradas. Mas é com base em benevolências e em fisiologismos que se aufere o tão desejado saber? Ou a busca da verdade foi abandonada no exato momento em que se instituiu esse comportamento? As aulas lotadas de Hegel, odiadas com inveja por Schopenhauer, deram às hordas cada vez menos hábeis o salvo-conduto de transitar no Mundo das Ideias, vestidos com mantos de reis, tal como o batismo prometia, com seu poder libertador do mundo carnal, até então, único, antes mesmo do surgimento dos cristãos. Dica: basta usar o abracadabra "Hegel" e tudo o mais lhes será acrescentado.

Essa êxtase que se vê escancaradamente em Nietzsche é a coluna cervical velada do hegelianismo e da filosofia seguinte, coisa fácil de se fazer no mundo pós-Hegel. Não podes com o peso da história? Lança no meio da cerração tudo o que te incomoda. Eis a fórmula para a máquina dialética sempre caminhar adiante e progredir sem que olhemos os precipícios em volta da estrada. Canta no teu trajeto, ó neófito hegeliano, o seguinte mantra: "toda coisa é um silogismo". Triunfo báquico.

A tempo: "superar", por fim, não é uma boa tradução para o famoso e propositalmente ambíguo verbo alemão aufheben da metalinguagem hegeliana. Melhor seria "suspender", que aparecem em algumas traduções. A imagem é clara: criar-se-ia um suspense enquanto a síntese não se efetuasse. Nesse suspense, tudo fica em suspenso: a lógica, a vontade de entender, a própria dialética que supõe existir. Paradoxo: tudo parou quando os conceitos começaram a rodar ininterruptamente. Finalmente houve a vitória da ambiguidade alemã sobre a definição inglesa!

Enfim, há quem goste. Mas, pergunto-me, onde está a limitação de quem pensa de modo contrário e não suspende completamente suas ideias para desenvolver algo belo, como quando uma bailarina necessita de um apoio no chão para seu rodopio, algo que nos causa tanto awe quanto a embriaguez? A tríade invocada por Hegel, se não vem de Deus ou de um mundo imaterial, parece ser apenas um engenhoso mecanismo retórico e não uma verdade atingida. Não funciona, em última análise, como bom pressuposto de nada. 


Já dizia Mario Bunge em seu Chasing reality que os pressupostos não são suficientes para caracterizar coisa alguma e que a mudança é sempre fruto da emergência ou da submergência de propriedades. Kant descobriu a estrutura dos fenômenos e da razão no nosso conhecimento, mas o realismo, no sentido de Bunge, parece bem mais produtivo se um dia fosse alcançado. Mas os produtos racionais da imaginação embriagada, mais fáceis e mais belos, são mais atraentes. Enfim, é atrás deles que vamos para superar nosso infinito tédio de primata consciente da própria morte. Não tenho esperança, como os materialistas, de que isso um dia seja aceito por todos.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

IGNOTO CONHECIMENTO

Uma das coisas que sempre me fascinou foi o conhecimento. O acaso me fez, aos dezessete anos, perdido numa cidade grande e desarraigado das minhas comodidades familiares, conhecer aqueles que me contaminariam com seu prazer pelo puro conhecimento. Se sempre me intrigou por que os insetos ou as línguas eram tão distintos, ainda mais me intrigava ser infinita a pesquisa que me alimentava com o conhecimento. A pluralidade necessita de olhos treinados.

Lembro-me de ter ficado fascinado com os livros Explicações científicas e Definições, de Leônidas Hegenberg, que mencionei em todos os cursos que ministrei e que supunha já falecido há muito tempo quando, em 2012, nos googles da vida, deparei-me com a notícia de seu falecimento, poucos meses antes, aos 87 anos. Hegenberg me apresentou a lógica e a filosofia da ciência de uma forma que, imagino, ninguém o teria feito melhor naquele momento.




Desarraigado e desajustado, tentei reproduzir na cidade grande tudo que fazia na minha primeira vida interiorana: andar de bicicleta, lutar karatê, frequentar a igreja presbiteriana. Tudo em vão. Não era a mesma coisa porque não eram as mesmas ruas e os prédios de minha cidade. Entediado com o trânsito paulistano, ia a pé da pensão da Liberdade ao Centro Cultural de São Paulo e, depois, da moradia estudantil no Crusp à antiga Biblioteca de Pinheiros, que ficava do lado do Shopping Eldorado e lia de tudo, num arremedo do que fazia na Biblioteca Pública de Botucatu e no Centro Cultural da mesma cidade. Foi nessas bibliotecas primevas que conheci o casal Soares, primeiro em livros e depois ao vivo. Foi lá que eu tive contato com Rubens Romanelli, Edwin Williams, Menéndez-Pidal, Sapir, Mattoso Câmara Jr e Pottier. Foi ali que sonhei em aprender todas as línguas do mundo, embora só tivesse à disposição inglês, francês, alemão, latim, grego, esperanto e bororo.

Como os títulos da Biblioteca de Pinheiros não me davam nenhum tesão especial, resolvi ocupar meu tempo de moradia estudantil lendo-os conforme a ordem da estante e não foram poucas as porcarias com que me deparei. Lá havia um calhamaço de um maluco chamado Pietro Ubaldi. Aliás, encontrei seu opus magnum num sebo um dia desses. O título já diz tudo: A grande síntese, uma espécie de sistema que juntava espiritismo, darwinismo e física. Aliás, um pequeno desvio no assunto, motivado talvez pelo delírio das lembranças do conhecimento pleno ubaldiano: nesse mesmo tempo de juventude, nas mesmas prateleiras li outra obra igualmente maluca, o clássico Mahabharata.


Deixando a tergiversação, volto ao tópico do conhecimento puro, introduzido em minha alma por Hegenberg. Lembro-me que um amigo de um amigo me havia recomendado o livro Filosofia da Ciência, de Rubem Alves, obra que devorei e reli mil vezes, tornando-me fã incondicional desse mineiro e antropofagicamente delirava ser igual a ele, na presunção juvenil da época, embora nenhum dos filósofos citados tivesse sido lido até então. 

Foi aí que tomei coragem de enfrentar a linguagem da filosofia. Afinal de contas, pior que o da religião não deveria ser. Apaixonei-me pelo Discurso do Método, de Descartes, anacronismo que logo consertei tentando ler a obra completa de cada filósofo em ordem cronológica. Delirei com os pré-socráticos e lamentei com a certeza de que nunca mais o homem terá a liberdade de pensamento daquela época.

Depois disso, meti-me no cipoal de Platão, cuja obra inteira li até os 19 anos. Logo depois, desilusão: fui cuspido pelas Categorias de Aristóteles, que tentei ler em muitas línguas, até mesmo em grego. O meu interesse pela filosofia era alimentado pela enigmática colega de graduação Cândida, que nem sei se está viva ou morta. Desisti da minha grandiosa empreitada e só uma década depois a retomei, ainda fielmente em ordem cronológica, mas não a obra completa. Aristóteles me convenceu que era loucura. Não era, mas enfim, parece ser.

A filosofia substituía os meus inquéritos religiosos da puberdade. Demorou muito para eu substituir meus heróis Platão, Pascal e Descartes por outros: Bacon, Locke, Berkeley, Berkeley, Hume, Kant e Popper. Esses autores me fizeram entender que havia um tipo especial de filosofia que me agradava. Era a Epistemologia e não aquela que se afundava no obscurantismo, como a de Hegel, Comte, Heidegger e caterva, exceção feita ao grande Nietzsche, que sempre me agradou, talvez pelo tom de profeta, mas não vejo esses autores como representantes de uma Filosofia, no sentido estrito da palavra. Para mim, todos os problemas da filosofia foram explicitados até Kant. De lá pra cá, só restam alguns atores de teatro, cuja performance místico-literária se desenrola numa espécie de palco com holofotes e, para mim, é muito desanimador ler a maioria dos filósofos do século XIX em diante (exceção feita a um Schopenhauer, com certeza). O primeiro desses fanfarrões talvez tenha sido Leibniz e o mais enfadonho, sem dúvida, seja Hegel. Realmente a França deu um mau exemplo para o mundo, que a Alemanha e os Estados Unidos imitaram.

Mas se, por um lado, a teoria do conhecimento virou arte do desencanto, na verve obscura de um Rousseau, de um Voltaire, dos Stürmer (dos quais Goethe devia envergonhar-se de ter criado na sua provecta idade), dos insuportáveis filósofos românticos e de sua ainda mais insuportável fama (bem que Hume avisara quando propõe a sua chocante destruição dos livros inúteis), por outro lado, a arte posterior à minha época preferida (rarissimamente, diga-se de passagem) também toca a questão do conhecimento, assunto predileto dos meus filósofos prediletos.

A arte cinematográfica, porém, costuma tocar nesse assunto de forma canhestra e atrapalhada, quando penso num Glauber Rocha ou num Godard. Mil vezes o entretenimento que nos presenteia um Truffaut ou um episódio dos X-men à transformação da sala de projeção em uma sala de doutrinação, quase o método de tortura terapêutica em Laranja Mecânica, do divino Kubrick!



Recentemente me vi surpreendido com um filme japonês muito curioso a que assisti a bordo do avião. Trata-se de 暗殺教室 (Ansatsu Kyôshitsu), traduzido para o inglês como Assassination classroom. O que era para ser um entretimento que beirava o nonsense enredou-me sobre o Atlântico com pensamentos muito inusitados, a ponto de eu assistir ao filme duas vezes para acreditar no que estava vendo.

É verdade que hoje em dia somos bombardeados com imagens asquerosas de violência. Nosso mundo se tornou aos poucos num grande culto visual ao Éros e ao Thánatos, cujos limites estão ainda para ser definidos. O exibicionismo de pessoas que seriam naturalmente ignoradas pelo mundo, não fosse pela desproporção das atitudes, hoje filmadas ou orquestradas, vem desde a época em que postulei a morte da minha filosofia predileta e só aumenta cada vez mais ano após ano. Tendo sido tais pressupostos já enrijecidos com uma certa convicção, que graça teria para mim Assassination classroom, cujo enredo, se é possível de ser resumido, trata do objetivo comum da humanidade de matar um professor em sala de aula? Ainda mais sendo eu mesmo um professor, por que não refutei o tema do filme com asco?

Há três figuras de professores no filme. Um deles é um monstro alienígena amarelo, sorridente e extremamente educado, com corpo de polvo e velocidade extraordinária, batizado de Koro-sensei pelos alunos. Uma segunda professora era inicialmente uma aluna intercambista com intuito comum de matar esse mesmo monstro e que se torna sua amante. Um terceiro é um professor sadomasoquista que também tem a intenção de matar o professor-monstro, como todos à sua volta. O desejo do assassinato do monstro não era apenas motivado pelo fato de que ele prometia destruir a terra, mas também por haver uma recompensa em dinheiro.

Os alunos estabelecem, ao longo do filme, uma relação ambígua com o extraterrestre, pois se estão incumbidos de dar um fim à sua vida (algo que ninguém consegue, dada a sua velocidade), por ser uma ameaça, por outro, tornam-se tão polidos e cultos quanto ele.

Diacho, que significa "matar o professor"? Perguntava-me. Uma metáfora para a superação dos discípulos? Se fosse isso, este filme talvez seja o maior poema visual encomiástico à figura docente que eu conheço. Não é à toa que os alunos desajustados o prefiram ao professor sádico.

Uma aluna-robô, criada com o intuito de destruí-lo, também não consegue a empreitada e ainda por cima atrapalha as aulas com seu tiroteio ininterrupto. Seria uma crítica à internet? O lado irônico é que, não tendo amigos, tal aluna é transformada em rede social após conhecer os perfis (fornecidos pelo próprio professor extraterrestre). Inofensiva, após essa metamorfose, torna-se, como os outros, incapaz de matar/superar o professor Koro (e o seu conhecimento?).

Se estou certo na minha interpretação, um elogio tal à figura do mestre só poderia ter vindo mesmo de um país oriental. Não foram poucos, porém, que me querem convencer que eu esteja viajando na maionese. Pode ser. Precisaria rever. Mas, supondo que esteja errado, eu não seria o primeiro a pensar que se o construto mental não condiz aos fatos, danem-se os fatos. Apenas seria incoerente com o que penso acreditar.

Revi esses dias outro filme mais cult com os mesmos óculos. Dessa vez, trata-se de um filme completamente diferente, mas, segundo a minha vontade, com a mesma temática.

Sim, vontade, pois se persigo linha por linha o que um Kant fala, levando a sério a sua obsessão que nunca o fez sair de Königsberg, faço-o porque tenho obrigação de entendê-lo. Outros, que julgo não ter a intenção tão séria, como um Hegel, que se contradiz o tempo todo, ficará para sempre dependente da minha vontade ou não como qualquer obra de arte ou filme do cinema.



O segundo filme com a mesma temática do conhecimento, se não sobrevejo novamente, é Only lovers left alive do impagável Jim Jarmusch. Vampiros de quatro gerações, um deles contemporâneo de Shakespeare, outro do final do século dezoito, outra do período romântico e uma quarta mais moderna, retratam o tédio que causa a vida, na solidão de um mundo estrangeiro, não povoado por iguais.

Os não-vampiros são chamados depreciativamente de "zumbis": são eles que ditam as leis e, para continuarem impercebidos, submetem-se a elas. O custo da vida longa para os entediados e exangues vampiros é perceber a decadência de seu entorno em vários âmbitos, por exemplo, a decadência moral, ecológica e estética que os circunda.

O que me fez evocar esse filme no meio deste assunto do conhecimento é o lamento igualmente frequente na fala dos vampiros acerca da decadência intelectual. Cultíssimos, os vampiros viveram com as maiores personalidades literárias, filosóficas, científicas e artísticas. Falam delas com intimidade: Shakespeare era um idiota, Byron era um cretino, Wollstonecraft era deliciosa. Seu conhecimento vem da vivência e da leitura, conforme a idade. A vampira, mais jovem, idealiza essas figuras e gosta de ouvir as histórias do companheiro. O mais velho é, aliás, o próprio escritor Cristopher Marlowe.

O paraíso estava no passado, tese do filme. Não é à toa, penso, que se chamam Adam e Eve. O conhecimento, aliás associado à maldição da mortalidade causada pela fruta proibida edênica, é o que mais abunda nas suas longuíssimas vidas vampirescas. Não são imortais, mas a longevidade é uma tortura, pois veem esse conhecimento decair ou levar à destruição do planeta. Têm sede da antiga beleza, anseio faminto que se torna irrefreável ao verem um casal apaixonado. Que mais belo poderia haver que o amor? Que escolha poderiam ter se não desejassem o belo? Platão concordaria plenamente. A busca do conhecimento é, em última instância, a busca do belo.

Desajustados como eu era, saindo da minha cidade, e sou, por não quase nunca encontrar afinidades intelectuais e estéticas, a maldição de quem anseia o conhecimento é ter uma vida longa demais entre zumbis. Diferente das ficções, nem sempre há monstros para pautar nossa existência e que nos instiguem a superá-los.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O FIM DA ORIGEM

Dizem que quem não faz algo de maneira racional, perde-se na bagunça dos seus resultados e de seus pensamentos. A racionalidade, essa alcandorada faceta humana, é pintada como o ápice de nossos feitos, nosso último ato animal e nosso primeiro passo rumo ao divino. Sem a organização, esse magnífico subproduto da razão, não progredimos, não vamos além da nossa condição animal e do desgraçado ramerrão dos nossos dias medianos. Como seres que queremos cada vez mais, dialeticamente negamos o passo anterior e preferimos pisar degraus desconhecidos, aventurando-nos em escadas hipotéticas.

Mas aquilo que não existe é às vezes algo muito mais concreto do que o mundo captado pelos sentidos. E, para isso, sempre nos valeremos da contradição, palavra amaldiçoada por lógicos, taxada de pecado, irracionalidade, bestialidade e outras palavras de doesto.


Entretanto, o pensamento racional deve ter sido expelido de nossas circunvoluções cerebrais. Não por um gênio, mas por um animal muito medroso ou muito preguiçoso. Se não raciocinasse, o animal cairia na armadilha de quem o espera com a boca escancarada. Se não raciocinasse, teria de fazer a mesma coisa inúmeras vezes. Para que repetir uma tarefa, se posso ficar sem fazer nada? "Melhor pensar do que me esfalfar", concluiu o primeiro sábio, depois de dar um urro e bater no peito com êxtase. Conclusão: a origem da inteligência (humana ou não) é o medo ou a preguiça. 

Mas se Kant foi o mais inteligente dos homens, não seria injustiça dizer que era também o mais medroso ou o mais preguiçoso de todos? Algo medroso talvez ele fosse, pois Kant jamais ousou ferir-se: não se casou, não se mudou de Königsberg, mal viajou para fora de lá: ficando onde estava, tornou-se proverbialmetne previsível como a circunvolução de um planeta que circula o sol. Atitude inteligente, para quem cedo se cansa das aventuras da vida, as quais nos pontuam com prazeres muito fugazes e nos marcam com dores muito atrozes. Para evitar a loucura dos audazes que se dão mal e a decepção dos que querem manter o gozo eternamente, fica-se onde está. Foi o que Kant fez: não se conhece vida mais monótona que a dele, nem uma psique mais extraordinariamente rica, racional e organizada. 

Prova-se, portanto, que Kant foi medroso, mas seria injustíssimo dizer que foi igualmente preguiçoso, pois escreveu compêndios extensíssimos de forma organizada com a finalidade de vislumbrar, com olhos quase transcendentais, aquilo que ninguém havia visto e que, ainda hoje, mesmo acompanhando seus passos sem qualquer cochilo, é difícil de ver. Ora, quem organiza as ideias desse modo, trabalha-as de forma sistemática e as redige de forma tão primorosa não pode ser chamado de preguiçoso.

Conclui-se, em flagrante contradição com o anteriormente dito, que Kant era racional, portanto medroso, mas de modo algum preguiçoso como teria sido o hipotético primeiro racional. Contradição? De modo algum. Apenas um silogismo bastante falho. Se é certo que foi a preguiça que criou a razão, como argumentamos acima, a razão de modo algum permanece, depois de inventada, numa mente preguiçosa. A preguiça física é muito distinta da preguiça mental. E uma vez parida a razão, tornamo-nos escravos viscerais dela e de seus frutos bizarros. A razão passa a funcionar sozinha como um monjolo em moto perpétuo: cria um mundo muito distinto daquele em que vivíamos antes de a criarmos por preguiça, aliás, um mundo tremendamente agitado.

Esse mundo da racionalidade é algo que não tem pé na realidade. Se por "realidade" entendemos aquele nível de percepção em que seres com nossas dimensões vivem, concluo que, por mais genial que tenha sido o seu encadeamento lógico de ideias, Kant, por não ter ampolas de Lorenzini, jamais entenderá o que um tubarão ou uma arraia sentem quando se aproximam de uma fonte eletromagnética. A realidade do tubarão é diferente da de Kant. Sem esse elemento, o genial prussiano terá entendido como a mente humana funciona, jamais a mente elasmobrânquia.

O racional, provado está, só funciona para nossa espécie e, ao fim e ao cabo, trata-se apenas de uma loucura qualquer, como todo comportamento estranho de um inseto ou de uma anêmona, que jamais teremos condição de avaliar mesmo sendo etólogos gabaritados. Já que não avaliamos o que as outras espécies fazem e não teremos jamais a sua opinião, por falta de manifestação, a bicharada se dá mal na reunião que decide quem é o bicho mais sabido. É voto vencido quando se põe em sufrágio quem é o mais bacana do reino animal. Claro que somos nós. 


Algo parecido fizeram os homens ao inventar as línguas. O mundo todo está recortado em formas lexicais, categorias morfológicas, regras sintáticas que me são compreensíveis mas não a ti, ó falante de náuatle ou de chinês que não me lê. Aliás, no mundo categorial, tão alheio ao mundo real e ao mundo mental, nascem bizarrices que se interporiam o tempo todo nos nossos silogismos, não fossem alguns que se detivessem pormenorizadamente na sua ilogicidade intrínseca - entre eles o mais hábil de todos, Kant - expurgando o que é inútil na nossa tosca argumentação, como um médico que retira um tumor.

No mundo real, uma cadeira é algo inimaginável, pois não há uma única perspectiva a partir da qual devemos olhar, senão a nossa mesma. No mundo mental, uma cadeira é uma experiência abstrata a partir de seres muito distintos que julgo iguais e existentes e ainda mais abstrata quando comunicada a outrem. No mundo categorial, uma cadeira é simplesmente uma coisa feminina que não é verbo. Pergunto-me: se para além desses três mundos não há nada, onde mora exatamente a racionalidade da qual nos vangloriamos se sequer sabemos o que é uma cadeira ela-mesma?

Kant sabia disso. Não era simplista e tinha a real dimensão do quão limitado era tudo o que fazia, da mesma forma que Pascal também sabia. Diferentemente dele, porém, não se entregou conscientemente à loucura, pois lamentava, no seu íntimo tão reservado, que seus pseudosseguidores do idealismo alemão fossem para um caminho que não o da razão. Mesmo assim, detectara que a razão é um prurido do intelecto, afinal, o inato e o percebido juntos não produzem por si só a razão. A razão é um non sequitur. 

Aquilo que é belo, por exemplo, não é um elemento do intelecto. O juízo estético não se funda apenas na beleza mas também no sublime. Fruir a beleza é apenas um dos inúmeros prazeres estéticos possíveis. Se soubesse como Hegel leria isso, jamais teria escrito.

Mas voltemos a Kant. Todos nós sabemos que apreciamos com as pernas bambas aquilo que é colossal, o que é inimaginavelmente grande e o absurdamente pequeno, o que tentamos alcançar com o atrevido e hiperbólico nome de "ilimitado". O que nos emociona e nos assusta atinge nossa alma pouco afeita ao blasé. Um vulcão e um furacão são sublimes, pois entre sua magnipotência e nossa nauseante condição mortal instaura-se uma dramática consciência de finitude e de insignificância. 

O desmedido é irmão do imagético e - ai! - vivemos num mundo em que a imagem nos informa e, ao mesmo tempo, embota qualquer senso de comedimento. Tornamo-nos entediados perante tantas imagens. Nesse crescendum do universo das imagens, perderemos um dia nosso senso de sublime? Vivemos num mundo performático e nada mais nos surpreende. Nosso exibicionismo tende a fracassar se não tocamos no osso dos valores alheios. Somos sabidamente desesperados e mais do que nunca temos chance de sermos alguém com uma atitude extremamente covarde que tenha visibilidade. Cuidado! Um novo homem está surgindo. Mais frágil e, portanto, mais agressivo. 

Antes, o ser humano servia-se de inofensivas pedras, fogo, flechas, balas e bombas. Hoje serve-se de letais fotos e câmeras. O arremedo de Übermensch atual destrói monumentos milenares, continua matando covardemente inocentes, mas, diferentemente de antes, hoje filma seu próprio assassinato. O novo homem tem lançado aviões apinhados contra montanhas.

Esse novo ser age desse modo, na frente de todo mundo, porque está mais desesperado do que nunca e faz de tudo para que a sua existência seja conhecida e divulgada. Haverá sempre alguns insanos que aprovam seus feitos no meio da grande massa que quer assustar. Contudo, o importante mesmo para o cameralgoz é que não seja ignorado, que não seja apenas mais um na massa amorfa da humanidade. Se não age na frente de todos, fá-lo perante seus colegas. Novas tribos brotam da massa das pessoas inexpressivas que se julgam imensamente diferentes umas das outras.

Silêncio. O homem atual está falando. "Aqui está meu carimbo para quem recicla lixo, para quem come carne de porco, para quem não comunga da minha opinião política, para quem não acredita no meu deus". O homem atual é irracional? Não. Tem excesso de razão. Age por meio dela. Como sabemos, a razão divide, classifica de forma inquestionavelmente lógica, como os animais daquela enciclopédia chinesa de Borges que mimetizava os anseios de John Wilkins. Tudo que é minimamente diferente é imensamente distinto na razão. Com a razão, veem-se imensos abismos onde só há deserto. E, pior, mata-se por isso. Talvez seja o momento para admitirmos que a nosso prazer pela destruição seja apenas algo demasiadamente humano, justamente por sermos racionais. Distinguimos o indistinguível pela razão.

O tédio nos impele a isso, assim como nossa baixíssima auto-estima, mas nada mais que nosso desespero de perceber que somos um ridículo nada alavancará nosso potencial desejo de destruição. Uma lei moral tão simples quanto a de não fazer a outrem o que não queremos para nós mesmos parece ser esquecida por seres sem empatia ou então perversamente quebrada por puro tédio. Confundem-se facilmente valores sociais e valores humanos. Isso ocorre já faz tempo: num mesmo conjunto de conhecidos mandamentos, matar alguém pesa tanto quanto pronunciar uma palavra monossílaba em vão ou quanto desejar para mim algo belo que não me pertence. É muito difícil manter o equilíbrio mental quando não vemos diferenças entre coisas naturalmente tão distintas. Reunimos o irreunível pela razão.


Nosso problema, portanto, não é a irracionalidade de alguns, mas a racionalidade de todos. A animalidade do homem mata menos que a razão. E não é o nosso intelecto que nos tem feito conviver bem. O bom convívio, como qualquer um sabe, é pautado em regras que, de longe, são meros construtos práticos: só podem ser chamadas de racionais no sentido de que são pactos em que, a contragosto, nivelamos as nossas diferenças. Esses pactos só são atingidos após longas guerras e enquanto está viva a memória de suas consequências.

Decerto haverá pessoas que pulam nas jugulares das outras e comem-lhes as carnes como leões, mas, convenhamos, essas são minoria. A barbárie humana é mais comumente arquitetada na mente. Há muito de recorte social e psicológico. Há muito do que é tolerável para outros integrantes do seu bando, minoria ou maioria na sociedade em que vive. 

Mas a barbárie não se contenta em destruir o próximo. O novo homem tem atingido também memórias recalcadas. Destruir quadros, livros, relíquias, templos e estátuas, para além do seu asqueroso caráter midiático, parece querer apontar para outro paradoxo: busca-se o fim da origem. O que age assim pensa: "quem sabe se nascermos de novo, de outra forma, seremos algo mais que criaturas limitadas?". Nesse autoengano, talvez o mais grave sintoma de nossa esquizofrenia social moderna, parece que estamos todos de acordo.

A tabula rasa, de tempos em tempos, é enaltecida, para depois dar azo a um remorso muito estranho. Sim, acabou a origem. E daí? Conseguimos recriar algo de fato? Ou nossa imaginação é pasteurizada demais para isso? Valeu a pena destruir a semente dos nossos tormentos? Ou ela jaz imaterial e fantasmagórica na nossa mente, como avejão que arrasta correntes, perturbando nosso sono? Terei de fato destruído algo? Ou terei criado um monstro ainda mais incompreensível que me atormenta? Somos pais do nosso próprio Horla. Um iconoclasta com alguma consciência saberá do que estou falando. 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

OFENDEIS-VOS DIARIAMENTE? DEVERÍEIS

Palavras sempre são um amontoado de sons, que criam imagens sonoras e significados, em qualquer língua do mundo. Esses significados são elásticos e não unívocos. Uma vez pedi a um grupo de alunos que me escrevessem num papel o que era uma pessoa patife e que exemplificassem com algum tipo de situação. Esperava alguma heterogeneidade na resposta, mas não tanta. Praticamente não houve duas pessoas que entendessem a palavra do mesmo jeito. Para uma, patife era uma pessoa fraca à ingestão do álcool, para outra era um arrematado mau-caráter, para outra era uma pessoa boba e fácil de ser enganada, para uma quarta era uma pessoa que dizia coisas desagradáveis, para uma quinta era uma pessoa muito covarde, para uma sexta era ainda outra coisa. Todos estavam concordes com algo, porém: se fosse chamado de patife, partiria para cima do ofensor. Patife antes de significar qualquer coisa era uma palavra ofensiva e nada mais.

Foi aí que pensei que o que se chama "significado" em linguística, psicologia e em tantas outras áreas na verdade são duas coisas distintas. Um significado descritivo (que variava muito entre as respostas dos alunos) e um significado valorativo (que era o mesmo). Definitivamente, patife não era uma palavra que poderíamos usar para elogiar.

Ou era? Um namorado carinhosamente poderia chamar a amada de patife, com outra entoação e num outro contexto e ninguém sairia ofendido. Essa entoação, que dizem não ser tão importante no português quanto no chinês, significava alguma coisa extra. Nasce o vaguíssimo conceito de contexto.



Para mim, quem quer entender o significado das palavras no sentido científico usa de uma carta na manga quando evoca essa entidade do além chamada "contexto". Na verdade, se pensarmos bem, o contexto não é nada. Ou é tudo. Em que consiste o contexto quando o amado chama sua amada de patife e ela sorri em vez de ficar emburrada ou brava? O contexto são os dois envolvidos, seu histórico e a aparente contradição absurda entre a palavra, pronunciada de forma particularmente incomum, e a certeza da projeção do sentimento alheio. Em outra situação, chamaríamos de contexto qualquer outra coisa. Nada é mais vago e impreciso que o conceito de contexto e se alguém diz que é cientista evocando essa alma penada, engana-se. Não há definição suficiente para a variável "contexto".

Assim sendo, dependendo da situação, ofendemos ou não. E o que é a ofensa? Hoje essa pergunta não é ociosa, pois estamos numa época de fortes suscetibilidades. Pessoas se identificam com grupos, amam ser rotuladas e rotular os demais, exigem a leitura unânime e inequívoca das palavras. Não há, no mundo de hoje, dez mil sentidos para "patife". Há um só. E ele deve ser procurado nas redes sociais para que não sejamos politicamente incorretos. E ai de quem não o faz.

Ilusão. Há, sim, milhões de sentidos e sempre haverá, infelizmente nem sempre tão ricos quanto deveriam para honrar a afamada inteligência da espécie humana. A maioria desses sentidos ou é hipervaga ou hiperespecífica. Não saberíamos dizer quantos seriam realmente necessários.

Mas enfim, há o sentido corrente ou da moda. E se alguém é displicente com isso ofenderá necessariamente.

A medida de uma agressão, contudo, é mensurável de forma mais clara pelo agredido do que - obviamente - pelo agressor. Uma pessoa que machuca, magoa ou maltrata não poderia de modo algum ser o mesmo que legisla sobre o limite do que é e do que não é agressão. Isso é óbvio e vale para situações que são qualificadas como ofensas físicas, morais e mentais. Essa ideia é, em tese, perfeita e mais do que defensável.

Mas como dizíamos, estamos lidando sempre com situações e com palavras. Se as situações, com ou sem palavras, definem um quadro onde a justiça pode atuar, já o terreno das palavras é muito pantanoso. Pois, com palavras, não apenas interagimos para comunicar objetivamente uma ação, mas também subjetivamente. Às vezes funcionam ao avesso, como no caso dos namorados citados acima.

Além disso, com as palavras podemos fazer arte. E qual o limite entre a agressão deliberada em arte e a provocação, que tanto sucesso fazia em outras épocas? A provocação tende à crítica subjetiva mais do que à descrição objetiva. Será que o reino do subjetivo corre riscos?

Uma crítica artística a um cenário incômodo do que se passa ou se passou ou se passará na sociedade real ou fictícia é, quase sempre, uma provocação. Seria ela também uma agressão? Devia ser sempre um caso de justiça? Num pesadelo, sim, mas de olhos abertos, melhor não. O teatro, os romances, os poemas e as exposições sempre estiveram cheios de elementos provocativos, exceto talvez nas tiranias que delimitavam o que é arte e o que é entartete Kunst.




Se Tarantino me incomoda muito e me agride, censurá-lo seria uma opção? Ouvir um sim causa um aumento da democracina no nosso sangue, antecedido de arrepios e de aumento do nosso globo ocular. Como? Será que alguém um dia poderia cogitar esse absurdo? Às vezes acho que a resposta a isso é tão incerta quanto o que fará um inexperiente numa corda-bamba.

Na dicotomia agredido-agressor, mesmo que um autor seja eximido por liberdade poética (algo que sempre foi feito nas épocas esclarecidas do vaivém da humanidade), devemos pensar na situação da agressão de forma mais ampla, que nos faz pensar num teorema interessante: havendo grupo agredido, necessariamente o grupo não-agredido é, por definição, o agressor? Veja, não digo mais nada sobre indivíduos agredidos, mas sobre grupos e o número de conjuntos possíveis com a totalidade dos indivíduos tange o infinito!

Supondo que haja dois grupos A e B. Historicamente A oprimiu B, mas hoje B não é mais oprimido por A. O grupo A tem a característica X e o grupo B tem a característica Y. Por causa dessa característica X é que A justificou sua opressão histórica sobre B. Hoje, não importa se as pessoas são X ou Y. Ainda há alguns A que oprimem alguns B por causa da característica X, mas isso é um caso de polícia. Não é desses que quero falar. Quero falar de C, que também tem a característica X e de D, que tem a mesma característica Y. É justo deduzir que A e C são iguais, mesmo que C nunca tivesse oprimido ninguém? É justo deduzir que B e D são iguais, mesmo que D nunca tivesse sido oprimido? No extremo, supondo que C tivesse sido oprimido por E e que D tivesse oprimido F, não seria extremamente redutor (e errôneo) que A e C sejam chamados de opressores e que B e D, de oprimidos? E se A e C não existem mais, apenas seus descendentes A' e C'. Seria justo que A e A' sejam considerados igualmente opressores e C e C' igualmente oprimidos? Se de um lado temos uma característica que reúne acidentalmente (portanto de forma preconceituosa) verdadeiros opressores e pessoas de fora da história e de outro, verdadeiros oprimidos e pessoas do lado de fora da história, não estaríamos sendo injustos com C ou com A' e privilegiando injustamente D e B'? Não estaríamos sendo ou hipersimplificadores ou acreditando excessivamente na hereditariedade? Nessa situação toda, parece não haver espaço nem para a lógica nem para o perdão.

Mas é assim que o bicho-homem pensa. A lógica é o fruto do cansaço da fome e o perdão é o fruto do cansaço das guerras. E é basicamente o que somos: rebentos da fome e guerra. O Homem com H maiúsculo, o tal do ser humano, idealmente projetado, donde se deriva o sentido etéreo de Humano e de Humanidade, é, na verdade, alguém que cansou de passar necessidades e cansou de brigar. Mas há momentos em que não precisamos nos preocupar com a comida do dia seguinte e nem com as pessoas além de nossa tribo. É nesse momento de suposta tranquilidade que voltam a fome e a guerra, como que vindas do nada. E nossa história é esse pêndulo desastrado.

Mas diante da iminência desses males, é ruim que não alertemos que o pensamento lógico se prepara para transformar-se em breve num amontoado de hipergeneralizações e de simplificações formulaicas, mesmo que haja ainda muito para ser discutido. Há pouquíssimas pessoas dispostas a ouvir essa discussão, tão certos andamos.

Enquanto isso, formam-se clãs, que se ofendem mutuamente com nomes pouco inteligentes. E o ofensor se regozija com a sequência de sons que profere, enquanto o ofendido se escandaliza pelos formantes sonoros que trazem a mensagem agressiva. 



Se, num zoológico, alguém põe um nome chinês num urso-panda, não ofenderá ninguém porque não há nenhum costume histórico de ofender chineses, usando o termo "urso-panda". Outros pobres animais, em vez de se sentirem ofendidos por causa do nosso especismo, cedem contra a vontade seus nomes ao ofensor, o qual age com inevitável desconhecimento de causa. Se A ofende B com a palavra G, que designa um outro animal diferente do bicho humano só porque pensa que B tem supostas características de G ou porque pensa que todo G vem da mesma região de B ou porque pensa que G é desprezível, errará nas três vezes: as características de G normalmente são muitos distintas de B para um olhar atento, nem todo G vem, com certeza, da tal região e G tem qualidades que o arrogante A não tem nem nunca conseguirá ter ou enxergar.

Que é o inflacionado cérebro humano comparado com o olhar agudo da águia, com a audição dos lobos, com a eletrorrecepção dos ornitorrincos, com as ampolas de Lorenzini dos tubarões, com a criptobiose dos tardígrados?

A arrogância humana nasceu quando o primeiro hominídeo derrubou um animal muito mais poderoso que ele. Perdeu completamente o seu complexo de fracote e até esqueceu dos seus deuses nesse dia. O poder do homem não vem do seu cérebro, mas da primeira armadilha que criou. Desde então, o hominídeo reflete sobre as vantagens da traição. Desde então conseguiu perceber que do verdadeiro pode decorrer o verdadeiro e o falso, horror lógico que dizem ser inadmissível na implicação condicional: passou a ser verdadeiro que, sendo x verdadeiro, y poderá ser tanto verdadeiro quanto falso.

Depois disso, o homem nunca mais dispensou esse ingrediente básico para o sucesso de sua inflacionada auto-estima canhestra: a arrogância da onipotência, a ponto de fazer deuses à sua semelhança. E aplicou-a a tudo que se move, inclusive a outros homens. É hora de aplicá-la a si mesmo.

Ofendamo-nos diariamente. Quero dizer, não mutuamente, nem reciprocamente, mas reflexivamente. Cada um deveria ofender a si mesmo e não ao outro. Diga todo dia diante do espelho: você que me olha, você não vale nada, mas eu gosto de você. Quem sabe, essa síntese paradoxal entre a humildade e o amor próprio salve a humanidade da próxima hecatombe.