O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

domingo, 21 de maio de 2017

O VALOR DO VALOR

Pensar sobre o valor das coisas não é algo fácil de se fazer nos dias de hoje. 

O valor não é algo intrínseco ao real, mas fruto de nossa cognição. Essa pequena afirmação pode ser entendida como pedra basilar do edifício do niilismo. Basta retirá-la para tudo desabar. Pessoas muito inteligentes no passado reconheceram a fragilidade de tudo, mas não se deixaram contaminar pela apatia que isso oferece. De fato, um niilismo de fachada é o maior índice da filosofia barata. É muito difícil ser um niilista convicto sem ser piegas e ator.

O niilismo, porém, não é a razão da fragilidade das coisas: já escrevi de forma pouco amistosa sobre a esperança. Aparentemente, niilismo não tem nada a ver com esperança, como tentarei demonstrar abaixo, da mesma forma que não tem nada a ver com ateísmo. Nossa cultura entrelaçou essas noções de tal forma que é difícil colocar na mesa os elementos básicos que sustentariam essa minha convicção. Não custa tentar, porém.

O niilista acredita no Nada. O mundo, como eu disse, não tem valores: atribuímo-lhos. Ponto final. Este diamante é uma pedra tal como um pedregulho qualquer. O valor não está nele. Esse papel com que pago minhas contas e se chama "dinheiro" não tem valor intrínseco: posso incinerá-lo e sua fumaça não valerá nada. O meu querido cachorro é apenas um aglomerado de sistemas biológicos em funcionamento: o que faz dele querido sou eu. O que chamamos de bens, seja materiais seja imateriais, na verdade é algo convencionado e reflete as minhas preferências. Se nem mesmo as cores existem, para que falar da existência realista dos valores? Perguntaria o niilista. Um niilista, porém, tem seus valores, apesar de não crer na sua materialidade. Senão, vejamos.

Para tirar todos os equívocos: não confundamos o ateu e o niilista. Todo niilista é ateu, mas nem todo ateu é niilista. Aliás, há toda uma horda de pessoas que se intitulam ateias, algumas com ridículo orgulho. Há, portanto, o falso ateu, o ateu retórico, o ateu fundamentalista, o ateu incoerente, há até mesmo ateus que não sabem que o são. Ateu é apenas uma pessoa que não acredita em determinadas divindades. Não é preciso muito. O niilismo requer mais. Alguém imagina que um ateu não tem valores, mas isso não é verdade. Ateus niilistas são um grupo minúsculo. Ateus niilistas que não têm valores alguns, contudo, não existem. Todos temos valores, niilistas ou não, ateus ou não. Mas essa confusão tem várias fontes. Por exemplo, o crente tem esperança que o injusto poderá viver bem nesta vida mas se danará no futuro post mortem. Esse discurso egípcio com milênios de existência tem base apenas na nossa triste sede de justiça, na nossa resignação e na nossa preguiça. Se o ateu não acredita sinceramente que haverá uma vida após a morte, na qual a justiça plena finalmente se estabelecerá, pedirá a justiça agora. 


O mesmo faz o niilista. Afinal, é aqui nós vivemos. E não vivemos solitariamente. Somos exemplares de uma espécie que vive em bando. E a regra número um do bando é a colaboração. Pode-se não acreditar na justiça após a morte, mas isso não impede um ateu ou um niilista de exercer o "aqui se faz, aqui se paga", não como uma lei supersticiosa da natureza, mas como exercício da justiça entre seres de bando, como somos nós, os homens.

Obviamente há niilistas hipócritas. Um hipócrita não é quem está convencido de que no mundo não há valores. Este apenas seria um realista. Um hipócrita sabe que há valores entre as relações humanas e se vale deles para seu próprio benefício. Ou seja, um hipócrita é um realista egoísta. Essa definição, contudo, ainda não está completa: nem todos os realistas egoístas são hipócritas. A diferença principal é que o hipócrita alardeia que acredita nos valores, mesmo não acreditando. Em suma, o hipócrita é um realista egoísta e mentiroso. Obviamente há niilistas que também são egoístas e mentirosos.

Mas há outros niilistas que, pelo contrário, sinceramente dizem não acreditar nos valores e, mesmo assim, são altruístas. Não há paradoxo algum nisso. Não acreditar nos valores é uma forma de humildade e não necessariamente um motivo para justificar a hipocrisia. Ser niilista não é ser amoral. Afinal de contas, não há nada mais terrível do que descontruir tudo e a si mesmo para chegar à condição do sincero niilismo. Quando falo isso, lembro-me de uma ilustração de um livro de Emil Cioran (1911-1995) que muito me impressionou: um homem descendo por um escorregador cuja base era parecida com a de um ralador de queijo. Esse homem não chegava até o fim do escorregador, pois fora destroçado pelo caminho e se resumia num monte de carne picada no meio do trajeto.

O niilista sincero sofre com a miserável condição humana e não é raro que tenha empatia com o outro que também sofre. Em vez de hipócrita, pode estender a mão ao outro, pode deixar de lado sua angústia para dar um segundo de alegria para alguém. O niilista valoriza o momento bom porque sabe que é difícil transitar por um bosque cheio de monstros ilusórios e cheio de fadas igualmente ilusórias como a vida. O humor do niilista às vezes é irônico, sua atitude amiúde é arrebatada: Nietzsche não tinha nada de niilista, pois era totalmente embriagado pela esperança. Niilistas de verdade não dão ouvido a fadas.



Esse niilista a que me refiro não é apático, muito menos é um suicida. Quer viver, mas sabe que esta vida tem limites. Por isso exige, cobra, chateia, porque, afinal, sabe que nenhum ser de outro planeta virá redimi-lo. O niilista usa o que está aí, não hipocritamente, mas em benefício dos outros, mais do que para seu próprio. Preocupa-se com o futuro em que já não mais estará na Terra, quando for povoada por outros miseráveis esperançosos. O verdadeiro niilista se indigna perante os fatos.

Se não há nada eterno - somente o provisório - e se não temos escolha senão viver nessa transitoriedade da vida, com suas limitações a que nos resignamos e contra as quais lutamos sem hipocrisia, sem sério prejuízo de ninguém, por que o niilista teria que aceitar que outros abusem dele ou abusem de outros mais fracos que ele? Não, o niilista pode não acreditar em nada porque sabe que não há nada, mas não tem escolha: é um ser de bando e o bando tem regras. O niilista se revolta.

Romper uma regra não é digno de quem quer viver em bando. Os ermitões verdadeiros é que rompem todas as regras: comem lesmas, andam nus, defecam em qualquer lugar. Cuidado! Podem até matar para comer a sua carne. Um ermitão é o limite da humanidade, pois está a um passo da loucura. Esse sim não tem regra. Não me venha com seu autoengano dizer-me que você é um ermitão. Se me lê, não é. 

As regras estão aí. Verbalizadas ou não. Quem as quebra, pode ter consciência pesada. Esses eu não julgo porque isso faz parte da humanidade. Mas julgo os que quebram e têm a consciência muito leve a ponto de dormir muito bem. Esses perderam a sua humanidade em algum momento da sua vida. Não são gente: são ermitões em seu mundo de mentiras. Não sabem viver em bando a não ser mentindo, roubando e matando. Na cara desses um verdadeiro niilista não se dignaria sequer a escarrar, tamanho o desprezo que lhe devota. Mas no quarto de acúmulos da justiça achará algo que lhe sirva, para que o hipócrita recupere sua consciência perdida e volte a ser gente, para viver entre nós.

É nesse momento talvez que o niilista se mostre paradoxal, porque tem alguma esperança de que esse miserável ermitão que afastou do bando reaprenda o valor dos valores: longe de seu mundo de mentiras, mas confinado numa solitária, na prisão da verdade.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

O QUERER

Não consigo imaginar uma língua em que a ideia do querer não possa ser expressa. O interessante é que quem quer quer algo, ou melhor dizendo, quem quer quer fazer algo. Se digo que quero uma maçã, na verdade quero comer a maçã ou pintá-la num quadro. A razão de eu querer a maçã apenas não é anunciada. Assim, minha impressão, quando ouço "quero uma maçã", é a mesma que se eu tivesse ouvido "quero ter uma maçã à minha disposição agora para comê-la em seguida". O querer, portanto, é um ato mental, distinto do ato seguinte, o de comer. E talvez por isso tantas línguas separam um verbo auxiliar de um paradoxalmente subordinado verbo principal (quer na forma de infinitivo, como em português, inglês, alemão, russo etc. em que se diz "eu quero comer uma maçã" quer na forma de uma oração subordinada como em romeno, búlgaro ou grego moderno em que se diz "eu quero que eu coma uma maçã"). No mundo real, o verbo expresso pelo auxiliar é um ato anterior ao principal: o auxiliar será um passado em relação ao principal futuro, quando o futuro for presente. Mas fato é que, se não se quer, não há o verbo principal algum. Então por que essa ilusão de subordinação de um verbo auxiliar em relação a um principal? Em japonês, por exemplo, a subordinação é tanta, que o traduzido pelo verbo "querer" é um sufixo do verbo principal: na frase uchi ni kaeritai desu "quero ir para casa", a ideia do querer é o -tai  colado ao verbo principal kaeru. Estranho pensar que, quando digo que quero fazer algo em português, o fazer seja o principal, pois está numa oração reduzida de infinitivo. Afinal, é o "auxiliar" que carrega as flexões (refletindo duas categorias fusionadas: uma, de tempo e modo; outra, de pessoa e número, para não falarmos da enigmática vogal temática). Será uma infeliz metáfora dos gramáticos imaginar o auxiliar fazendo tudo enquanto o principal se encontra no mundo infinitivo e simples das ideias? Ou estariam pensando os inventores da nomenclatura em verbos que não têm flexão alguma, como no inglês, no qual tais verbos não carregam nem a minguada flexão do -s da terceira do singular?

Fato é que os recortes do real, promovidos pelas línguas - real este mal lido pelo vezo gramatical e mal interpretado pelas correntes cientificizantes dos estudos da linguagem - são bem diferentes do real em si, o reino do referente, do qual a semântica pensa que tem algo a dizer, mas o diz amordaçada pela própria armadilha das idealizações e de sua retórica.



O querer, para começar, não precisa ter existência real. Não precisamos de muito para nos estimular. Basta que caiam nossos níveis de glicose. O estímulo que causa o que chamamos nossa voluntas pode ser, como todos sabem, apenas um pensamento, sem pé algum na realidade. Ok, die Gedanken sind frei, mas eles se parecem mais com um rebanho que conseguem passar pela porteira quebrada. O estímulo, real ou imaginado, não causa nenhum problema se não chega ao sistema límbico. Lá, o estímulo se transforma em outra coisa: não é apenas aquilo que nos excita, mas sim converte-se em necessidade.  Então, podemos dizer que a necessidade é um pré-querer e ela não seria necessidade, se não tivéssemos sido estimulados previamente de maneira real ou imaginária. E por que fomos estimulados? Porque antes de tudo, havia o gostar, isto é, na nossa história de vida, houve a obtenção de um prazer. O gostar está na história do indivíduo. É sobre o gostar que se erigem os estímulos, à mercê das coincidências do destino e de nossa loucura. Mas por que gostamos de coisas? Pergunta difícil, ligada à nossa condição de ser vivo: se não gostássemos de comer, de dormir ou de fazer sexo, nossa estirpe representada pelo nosso DNA simplesmente deixaria de existir. Há no gostar algo de programado, algo de paradoxalmente involuntário, da nossa espécie. A alma do gostar é o não-querer! Se não é isso, por que gostamos involuntariamente? 

Mas deixemos a obscuridade do gostar e voltemos ao nosso primeiro raciocínio. Algo nos estimula porque dele gostamos, obviamente: se não gostássemos, não nos estimularia e passaria batido, sem que sequer percebêssemos que existe. Esse estímulo, como dissemos, converte-se em necessidade. Percebemos que não temos aquilo que nos estimula. É nesse momento que a necessidade é registrada no nosso córtex cerebral como um desejo consciente, que instrui nosso corpo a agir. O nosso fazer (isto é, quando deixa de ser querer fazer e passa a ser simplesmente fazer) está seguindo instruções do nosso córtex e, nesse momento, podemos dizer que nosso corpo fez algo e que nessa ação houve uma intenção: alcançar aquilo que é desejado. Nosso sistema límbico, que gerou a necessidade face ao estímulo, nesse momento, se sente recompensado, e nossa cabeça se enche de opioides. Sim, querer algo é uma droga. Recompensados igualzinho a um cão de Pavlov, nossos neurotransmissores elevam os níveis de dopamina em circulação e nos dizemos satisfeitos. Isso tudo pode ocorrer sem que gostemos do que fazemos. Depois de recompensado e satisfeito, nossa consciência pode contaminar o prazer com um sentimento de destruição e, em vez de desfrutarmos dela, nasce o sentimento de culpa. Santa Dopamina! 



O superego, consubstanciado na forma da sociedade, balançará a cabeça e dirá: "que feio" ou "que lindo". E nessa hora a culpa vira pecado ou honra. Tudo isso por causa da nossa área tegmental ventral e do nosso córtex pré-frontal! Sem dúvida, há formas muito estranhas nesse mecanismo: por exemplo, algumas pessoas padecem de uma condição chamada de luto eterno. Investigadores descobriram nelas atividades do núcleo accumbens, o qual está vinculado à liberação da dopamina e ao consequente prazer! Ou seja, nem tudo que causa prazer está vinculado à sobrevivência: muito é puro vício, gostemos ou não de estar gostando.

Mas o desejo, se controlado pela aprendizagem, educação, sociedade e memória civilizatória da culpa, aparentemente se molda, o que faz que não sejamos uma máquina e que não exista de fato o inexorável, ao menos na aparência da maior parte das pessoas. Uma mensagem dos budistas, por exemplo, é o controle consciente do desejo, por eles considerado causa do apego e fonte do sofrimento. Mas o desejo, como vimos, nasce das necessidades e essas forma são moldadas pelos nossos estímulos do gostar. Não estaríamos, nesse caso, mirando o alvo errado? Quem não quer sofrer, não deveria ser cinica ou estoicamente indiferente a tudo? E seria possível isso? A esperança não faz o sangue correr na nossa amígdala e no nosso córtex orbitofrontal, indicando atividade do hipotálamo e do nosso querido núcleo accumbens? Está tudo misturado. Uma campanha Dopamina Zero está fadada ao fracasso, a menos que queiramos ser zumbis.

Temos neurônios-espelho: se alguém martela o dedo na nossa frente, nosso cérebro reage como se o ferido fôssemos nós. Conclusão: somos seres empáticos. Talvez um tubarão consiga facilmente atingir o nirvana, mas nossa espécie tem um cérebro complicado demais. Nossa amígdala é um sensor, que não consegue ficar indiferente a uma ameaça ou a uma perda. Nosso humor é involuntário, ainda que consciente. Temos ódio, temos aversão, temos humores: não há como policiá-los facilmente. Emoções são transitórias e comprovadamente mais rápidas do que qualquer atitude consciente. Basta olharmos para qualquer coisa e duzentos e cinquenta milissegundos antes de termos consciência do que vemos, a informação emocional já foi registrada. Você, leitor, conseguiria sinceramente ser consciente mais rápido e deter sua emoção? Só se tiver a agilidade de um tenista, mas, na nossa cabeça, nem tudo é planejamento.

Como dizíamos: querer é não ter. Quando o querer se torna conseguir, não é possível deter as consequências. Etimologicamente, o radical comum de "conseguir" e "consequência" mostra uma grande sabedoria. Se ter (ou obter) é bom, uma consequência será, no nosso mundo "real" e julgador, o nome que se dá àquilo que não é bom, depois que se obteve. Ora, o ter é o mesmo que o não-querer-mais. Parece "lógico" que o não-querer-mais não devesse ter consequências. Segue-se daí que ter é bom, mas do Bem nasce o Mal? Sim, porque do querer nasce o ter e do ter nasce o não-querer! Na verdade, o outro nome do não-querer-mais é tédio, a verdadeira semente do Mal e do non sequitur.


Se de um mal (não-ter e querer) nasce um bem (ter), igualmente desse bem (ter) nasce um mal (o tédio), que só deixa de ser mal quando se torna novo querer! Eis aí, escancarado, o "grandioso" raciocínio humano: um ser que sempre quer, um ser insatisfeito por causa de sua natureza, por causa de sua excessiva curiosidade! Louvada, na verdade, a curiosidade é nosso efeito nocebo.

O que se quer, normalmente, não é o que se pode ou o que se deve, pois, como vimos, o prazer nasce de zonas muito estranhas, anteriores a nós mesmos. Bebês sorriem; sua musculatura e movimentos protovoluntários asseguram o primeiro canal comunicativo entre mãe e filho. Em adultos, o sorriso das piadas evolui para o da maldade, o do escárnio, o do deboche e o do desprezo. Isso ocorre porque ideias de que gostamos são mais importantes que fatos: em nomes delas se ama e se mata. São para as ideias que riem os adultos. É para ideias comungadas entre amigos que sorri o vandalismo comunitário. É para uma ideia que sorri um lobo solitário. Uma ideia faz superar o medo; por isso gostamos dela. Contudo, ninguém negará hoje em dia de que precisamos urgentemente do mundo externo de volta. O mundo interno atualmente reina soberano na forma do Videodrome.

Temos acusado cada vez mais o outro de preconceito por causa dos nossos preconceitos; temos perseguido e linchado quem pensa contrário; exposto surpreendentemente nossa até então incógnita alma porque o interno está cada vez mais confuso com o externo. A barreira do Superego não existe mais? É a vitória do Ego, que abre caminho para libertar o Id preso? Uma coisa é certa: abertas finalmente as jaulas de todos os Ids, estaremos de volta à condição primal, anterior a toda barbárie, de novo próximo das hienas, mas agora um pouco menos inteligentes (pois a evolução humana depende de indivíduos e não de nossa condição como espécie) e, paradoxalmente, sem a evolução de nosso corpo à nossa defesa, afinal, hienas são bem mais musculosas e bem equipadas fisicamente que nós. Talvez nesse momento voltaremos a amar nosso corpo porque nossa mente nos aliciou à perda total (numai pe tine te am, trecatorul meu trup...). Com nosso corpo franzinamente evoluído, voltaremos a ser repasto do mundo e nossa carne, ossos e músculos não serão rejeitados por quem a evolução não agraciou com um cérebro idealizador. A ignorância, por fim, nos lançará aonde começamos e os demais seres viventes reconduzirão sua trajetória na terra sem outras incômodas interrupções motivadas por revoluções cognitivas, que dragaram tanta irrealidade desnecessária para o real.

Um pouco de realidade fez o ser humano sobreexceder-se mas um pouco mais anunciará sua bancarrota e sua real e triste condição. Nesse momento, não haverá mais nada para sorrir, pois ideologias e deuses não virão socorrê-lo. Não será mais Aquiles, que vence Heitor com armas e ajudinhas divinas. Seremos apenas eu, você e algumas hienas, que se admirarão ao nos rever, como nos velhos tempos, e se despedirão de nós para sempre.



O idealizar e a invenção do inexistente solapam qualquer querer. Até há pouco só existiam a mídia, a erudição e o senso crítico. O quarto elemento, que vemos hoje, scilicet, as redes sociais, entrou como um instrumento espúrio e vulgar, uma muleta rápida para quem faz a fisioterapia do senso crítico, como um atalho à erudição, como uma alternativa à mídia, mas hoje, o traidor quarto elemento, igual ao indesejado passageiro com quem Ripley tem de lutar no Alien de Ridley Scott, quer apenas nos destruir: é o Prometheus que não nos trará resposta alguma, apenas nos estrangulará e nos deixará apavorados, indagando o porquê de tanto investimento nessa arma, mais letal do que qualquer gás sarin ou qualquer bomba de nêutrons (com a diferença que sua atuação é muito mais lenta e nos tortura mentalmente há anos).

Não devemos abandonar esse barco em que nos leva o querer? A água que brota do furo do seu convés não é o suficiente para que pulemos fora? Ou a razão de não desistirmos é não sabermos nadar, já que jogamos ao mar o senso crítico, furamos a boia da erudição e ingenuamente nos cremos dotados de poderes para desmascarar o deus midiático? Há outra razão para vivermos lado a lado com linchadores? Ou isso faz parte do nosso Ego tolerante ou sádico, ditado pelo nosso gostar? Não é prudente que improvisemos logo uma tábua de salvação, já que a água que brota do furo já não pode ser contida?

É preciso aprender a querer.

domingo, 26 de março de 2017

AS MOSCAS

É pensamento meu recorrente -  e tema contínuo desse blog - a lembrança de que o reino hominal foi mais um dos delírios de nossa espécie. Que somos especiais é verdade, mas não menos especiais que um golfinho ou um pelicano. Se o homem é diferente de todas as espécies, também o é a holotúria e a girafa. O culto ao homem não é apenas fruto do quatrocentismo, como dizem os manuais de Literatura. Que a evolução das espécies conduz teleologicamente ao homem não é afirmação darwiniana, mas pode muito bem ser spenceriana e teve, de fato, grande sucesso dentro do pensamento positivista dito ateu. Paradoxalmente, também se vê essa ideia nos argumentos positivistas ditos espiritualistas com suas antiquíssimas raízes na metempsicose, quando descreve o homem como um elo mais próximo de Deus (afinal, como diz o livro de Gênesis, é sua imagem e semelhança) do que, digamos, o é um társio ou um musaranho. Se não quisermos contradizer o senso comum, afirmando escandalosamente, que eu acho, por exemplo, uma Ornidia obesa mais espetacular em atributos do que o nosso primata preferido, tenho que tentar entender que algo particular à espécie humana seja, sim, digna dessa louvação toda. Os etólogos, contudo, andam jogando um banho de água fria quando mostram a inteligência e os sentimentos de outros animais e lá vemos surpresos exemplos de chimpanzés aprisionados que parecem ter empatia com aves igualmente aprisionadas, orangotangos que decifram rapidamente um problema, pinguins que se reúnem, sem ajuda de comunidades do Whatsapp, para o mesmo lugar no planeta, caminhando quilômetros para proteger seus ovos de focas de priscas eras que jamais voltarão a chegar ali, borboletas que migram distâncias inimagináveis sem GPS, abelhas que aprendem truques como ratinhos de laboratório a despeito de seus cérebros menores e menos complexos. Ao fim e ao cabo, vemos todos esses milagres feitos pelos bichos e os chamamos desdenhosamente de "instinto". Penso eu, todavia, que há de haver algo que seja humano e que caracterize a nossa estirpe, algum instinto mais particular do que o da linguagem, algum sentimento mais terno do que o amor materno, algo que seja exclusivamente humano, assim como há atributos que são exclusivos da Agraulis vanillae ou da Turritopsis nutricola. 



Se eu apostasse, diria que é a esperança. A frase parece bonita, mas encerra em si algo terrível. A esperança é a mãe das revoluções, esses eventos convulsivos antecipados por uma época mediata que quase sempre chamamos de auge. Obviamente, entre o auge e a revolução alguém dirá que houve alguma decadência, mas isso não vem ao caso. O auge está sempre antes de uma mudança radical, num daqueles picos do gráfico da humanidade de Vico. Se não fosse assim, Sócrates não teria antecedido Alexandre, os estoicos não teriam antecedido o cristianismo, o iluminismo não teria antecedido a Revolução Francesa, o afã romântico hegeliano-comtiano-marxista não teria antecedido a Primeira Guerra. Os auges paradoxalmente parecem anunciar alguma necessidade de tabula rasa sedenta de esperança. Mas com que isso contribui de fato para o homem? Não falo do homem-deus, mas do homem-bicho, sem exoesqueleto, tão frágil que sucumbe a intempéries um pouco mais violentas que as usuais. Não encontrando nunca um espaço no mundo real, ao invés de prostrar-se diante da sua fragilidade, o homem preferiu criar seu próprio mundo e eleger-se síndico ou imperador desse mundo virtual, onde se sente tão bem.

Achamos o homem-bicho feio, porque nele reconhecemos a sua real hominidade, e acreditamos que o homem-máquina é mais belo e próximo da divindade. A máquina é nossa progênie, a nossa imagem e semelhança. Será? A geometria angulosa e antisséptica do belo ideal é de fato melhor que a arredondada e viscosa do belo natural? Pausa para ver nossa alma: não há modo de fazer isso melhor do que na arte e, na nossa atual era voyeurista, nada melhor que as imagens.


Em 1958, Kurt Neumann dirigiu um filme da Twentieth Century Fox que muitos coetâneos meus se lembram de ter visto na Sessão da Tarde quer na forma original quer nas péssimas continuações de Edward Bernds, Don Sharp e Chris Walas. Era a filmagem do conto de George Langelaan, The fly, que em português ficou horrivelmente traduzido como A mosca da cabeça branca. O enredo desse filme é sobejamente conhecido: lá está Vincent Price interpretando François Delambre, irmão do cientista assassinado pela esposa, que aparentemente enlouqueceu, pois narra uma história inverossímil para justificar seu crime ao inspetor de polícia Charas. A loucura de Helene Delambre parece estar no fato de não se sentir arrependida do homicídio do esposo Andre Delambre, mas ao mesmo tempo chocada toda vez que uma mosca dentro de casa é morta. O segredo de sua angústia está no fato de o marido, transgredindo as leis de Deus - como está claro numa das falas - ter descoberto o teletransporte. Em suas experiências, Andre, playing God, sacrificou o gato da família e depois a si mesmo: fazendo-se de cobaia, numa das suas experiências, não percebe a entrada de uma mosca no aparelho. A máquina, sempre confusa nos sofismas lógicos tão inadequados à nossa espécie, acabou por embaralhar os dois seres. Nessa mistura, uma das mãos e a cabeça são trocadas. O lado animal do humano Andre parece estar dominando sua mente: a mão de mosca já não obedece ao seu raciocínio e Andre pede para que a querida esposa o mate, escrevendo a súplica numa lousa contrariando os movimentos involuntários da sua rebelde pata de inseto sobre a qual não tem controle. O pedido termina com um comovente I love you. Vejam bem: a homem-mosca de Langelaan-Neumann não fala, pois tem cabeça de mosca, com antenas, ocelos, olhos compostos e um aparelho bucal completo: gena, palpos, arista, vibrissa etc. Ao menos foi essa a intenção da maquiagem. A mosca-homem, morta pelo inspetor, agoniza na teia de uma aranha pedindo socorro. Se a mulher é homicida matando um inseto, o inspetor também o é, raciocina François, conclusão que permite que a lei seja casuisticamente burlada e se simule o suicídio de Andre para evitar que Helene seja presa e internada numa clínica psiquiátrica.

O assim dito remake de David Cronenberg, quase 30 anos depois, é uma história completamente diferente. Apesar de ser mais conhecida por causa dos suas cenas com repugnantes vômitos corrosivos, traz uma mensagem muito mais próxima daquilo que se tratou no início deste texto: a esperança. A "versão" de Cronenberg não foca o produto duplo, quase um castigo divino à bisbilhotice da ciência, no qual há um homem-mosca e uma mosca-homem. O computador tosco daquela década de 80, dialogando com o novo cientista, Seth Brundle, numa sintaxe improvável da esperada inteligência artificial dos proféticos Prologs de então, confirma a decisão que tomou, diante dos inesperados dois seres que entram no telepod.  Seth perceberá, aos poucos, que a sua suposta evolução misteriosamente promovida pelo teletransporte não o aprimora rumo a um Übermensch, mas é o que é: uma evolução.  É nesse ponto que vemos que The Fly de Cronenberg não tem nada a ver com o texto original e tampouco tem a ver com a afirmação wikipédica de que se trata de algo similar a Die Verwandlung de Franz Kafka. A mosca cronenberguiana tem outra moral, senão vejamos.



A degradação física de Seth fica clara a partir do momento em que sua linda namorada-jornalista Veronica Quaife mostra que algo deu errado e, de fato, Seth não é mais Brundle, mas um híbrido, que chama de Brundlefly. Essa transformação não foi fruto de um castigo divino, mas de uma bobagem: Seth estava ciente de que o babuíno transportado com êxito há pouco precisaria ser analisado em laboratórios durante muitas semanas antes de a notícia ser veiculada (a paixão que nasce entre a Ciência e o Jornalismo neste filme daria panos para outras mangas), mas estava chateado porque, no dia da comemoração, sua amada teve que se retirar para falar com seu ex-namorado e patrão Stathis Borans, que a chantageava. Portanto, a infecção de Bundle pelos genes da mosca não é fruto da arrogância da ciência, mas de uma terrível fatalidade, de um descuido, motivado pela ingestão excessiva de álcool associada com a rivalidade com o ex do romance recém-surgido, algo pelo qual facilmente nos perdoaríamos se fosse conosco. Antes de ser cientista, Seth é humano, sábio porém fadado às bobagens características da nossa espécie. Fato é que o resultado não são dois seres híbridos, mas um só em lenta metamorfose (portanto, repetimos, essa metamorfose nada a ver com a súbita transformação de Gregor Samsa): o homem-mosca se transforma paulatinamente, de forma angustiante e desesperadora, em mosca-homem. O tema de Cronenberg não é o enredo original do conto, mas trata da degradação do homem. Mas ela ainda está longe de acontecer de fato, como nos mostra o final do filme.

O filme, portanto, seria realmente um trash movie se Cronenberg fizesse eco ao senso-comum, caracterizando essa degradação meramente como a transformação de um homem que se supõe Deus em um animal, mas, como em muitos outros filmes cronenberguianos, a sua mensagem vai mais além. O homem é homem antes de arrogar-se homem-Deus, mas só toma essa consciência no estágio de homem-bicho. O homem-mosca perde sim aos poucos as características humanas: não se torna mais vil porque é asquerosa, mas se torna menos empática, afinal, empatia não é o forte das moscas. Have you ever heard of insect politics? pergunta à namorada, ironicamente, tentando alertá-la de que os valores humanos estão sendo sobrepujados pelos valores artrópodes. Now the dream is over and the insect is awake (...) I´m saying. I´ll hurt you if you stay. Essa conclusão se dá após os altos e baixos de reflexão: a mescla foi uma vantagem ou não? A sua mudança corporal é, afinal, uma disease with a purpose? Antes de declarar que o sonho acabou definitivamente, agonicamente reflete que a doença wants to turn me into something else. Most people would give anything to be something else. I´m becoming something that never existed.

Que sonho é esse que acabou? The synchronicity of the two events may blur the individual effect. I will say now, however subjectively, human teleportation, molecular breakdown and reformation is inherently purging. It makes the man a king. Since I left the pod, I feel great. A emergência do inseto mostra, porém, que o homem-bicho não é o Zaratustra que se espanta com os que ainda não sabem da morte de Deus. O sonho que acabou é apresentado pelo próprio Seth, pouco antes de desdenhar a namorada e procurar outra parceira aleatória para seu sonho de perfect couple, de dynamic duo. Tawny, adquirida numa luta entre machos, é, na cabeça desse homem-bicho inconsciente, mais adequada para seu sonho lisérgico emergido involuntariamente pelo metabolismo alterado. Veronica não serve mais para suas pretensões de homem-deus, que surgem desse delírio provocado pelas drogas de seu próprio corpo: you´re afraid to be destroyed and re-created. Think you woke me up about the flesh? You only know society's straight line about the flesh. You can't penetrate society's sick gray fear of the flesh. E, parafraseando Alexander Pope, diz: drink deep or taste not the plasma spring! evocando as metamorfoses de Ovídio.

Não. Quem consegue apreciar essa passagem sem passar mal definitivamente entende que não estamos diante de um filme trash. 

A carne a que se refere será tema de muitos filmes de Cronenberg: a superação, a síntese após a aniquilação, aquilo que é o trabalho de Brundle: I build bodies, I take them apart and put them back together. Trata-se do tema da new flesh, um dos núcleos da sua filosofia cronenberguiana escondida por trás das imagens que nos desconcentram. Muito ainda é preciso dizer sobre ela (como tentamos mostrar em http://marioviaro.blogspot.com.br/2014/09/a-fusao-e-o-ser-transformado.html). This is not just sex and penetration, but penetration beyond the veil of the flesh. A deep, penetrating dive into the plasma pool. É a mensagem subliminar do filme e não qualquer coisa que procure na fala do Cronenberg ator (sim, como Hitchcock e Tarantino, ele está no meio do filme no papel de ginecologista). Será nesse plasma pool que reside nossa alma, perdida, mas que ainda ecoa no Brundlefly? Ou perde-se algo, como o bife teletransportado, que tem um sabor sintético?


 A frase mais conhecida do filme (be afraid, be very afraid) está longe de ser a mais importante e só serve para a publicidade.  O tema aqui é a primeira etapa evolutiva: o homem-Deus se torna consciente de que é homem-bicho ou, na expressão do computador com quem Seth dialoga: o human se mescla ao not human. Para convencer-se definitavemente, é preciso que as unhas e as orelhas caiam, enfim que seu corpo, sua única certeza, se deteriore. I´m scared, help me, ecoará Bryan Ferry. Mais tarde, falando despicientemente com os pedaços cadentes de seu ser, o Brundlefly filosofa shakespearianamente sobre o que é de fato evolução: you're relics. vestigial, archaelogical, redundant, artifacts of a bygone era, of historical interest only. Por isso, os momentos mais macabros enfatizam a humanidade ainda presente na mosca-homem, cuja transformação está prestes a se consumar: Agindo como uma espécie de Corcunda de Notre-Dame, Seth rapta a mulher grávida de uma clínica de abortos, horrorizada pela ideia de levar dentro de si um gusano tal como lhe parece nos pesadelos. O plano de Seth é chocante, mas está longe de ser a atitude egocêntrica de um vilão e muito menos de um animal: pretende fundir-se com a namorada grávida, de modo que ele, Ronnie e o bebê em formação se tornem uma só carne, numa fala que lembram os ritos matrimoniais. Just you and me? Yeah, is there someone else you want to bring along? Uma espécie de trindade é o resultado desejado pelo aberrante homem-animal: we'll be the ultimate family, a family of three, joined together in one body, more human than I am alone. Obvia e compreensivelmente, ela não entende a atitude do gosmento ex-namorado e, em meio aos seus berros, que facilitam a desconcentração do espectador, há uma cena emblemática: debatendo-se e segurando no seu maxilar, acaba por arrancá-lo. Nesse momento, todo horror é pouco: o homem-mosca se torna mosca-homem. Perdendo o maxilar, somem as derradeiras características de hominidade: a fala se torna impossível com o aparelho bucal do díptero recém-desenvolvido. Como se diz desde Aristóteles, o homem se distingue dos animais pela voz articulada (algo que Seth estava perdendo aos poucos a ponto de não conseguir mais dialogar com seu computador). Não só a queixada cai na cena de horror. Despedaçando-se o homem por inteiro, a metamorfose em animal se completa. Sobra pouco de humano em Seth, apenas os olhos. Sim, diferentemente da mosca de Langelaan-Neumann, que ficou famosa por uma cena em que a esposa de Andre Delambre é vista da perspectiva dos omatídios do inseto, no caso do monstro de Cronenberg, o último resquício de hominidade é a presença dos olhos de Seth, olhos muito humanos, aliás, tremendamente marcantes por causa da excelente escolha do ator Jeff Goldblum. Para apreciar essa cena de incrível sinopse filosófica é preciso ver o filme algumas vezes e, acostumado com o reviramento do estômago que causa naturalmente, poderemos entender a mensagem que está por trás como algo mais do que cenas feitas para impressionar.

Ora, o plano romântico de fusão que geraria um ser superior (more human than I am alone), acaba não dando certo. Stathis, mutilado no chão, atira no aparelho e Ronnie se salva. Em vez de fundir-se com a amada e com seu filho, o pobre Bundlefly, tentando sair do telepod, funde-se com a própria máquina que inventou. Esse tema aparece em vários filmes de Cronenberg a ponto de ser quase uma obsessão. O que vemos aí é a evolução que está longe de ser o Homo deus de Yuval Noah Harari: se o homem-animal nos dá pavor, o homem-máquina nos dá pena. O excelente resultado alardeado pela máquina (fusion of Brundlefly and Telepod successful) é de fato tão bizarro que, como no filme de Neumann, o monstro pede para morrer. Nos dois casos, a cabeça, que gerou a máquina, é atingida. Cronenberg conseguiu mostrar o que é a verdadeira degradação: não o homem-deus, nem o homem-animal, tampouco o homem-família, mas o homem-máquina, que se rasteja na sua disformidade e na sua irônica lógica que insists on purity. Resta apenas que sua mente seja destruída por quem ama, que continuou sendo humano por convicção ou por acaso.

Vida é percepção. O bicho pica e mata porque tem medo e fome. A máquina mata e sequer percebe. Os dois são igualmente amorais mas não são a mesma coisa. O homem não o funâmbulo que anda sobre uma corda estendida entre o bicho e Deus, como julgavam os positivistas e bem percebeu Nietzsche. O outro lado da corda, porém, não é o super-homem que imaginou tão otimista. O homem está, na verdade, entre o bicho e a máquina. Der Übermensch ist tot.




A ideia de um homem-bicho é algo escandaloso para o público, desde o tempo de Darwin, mas nem Zaratustra poderia prever que o real Übermensch estivesse tão perto. Seth nu e bêbado, como Noé, despede-se do seu irmão babuíno, e entra na sua arca, reencontrando-o ainda inconsciente de que é Bundlefly. The residue of another life. I wouldn't ask you to do anything that I wouldn´t do myself. A síntese, para Cronenberg, não é algo que devemos comemorar, como se acreditavam tão positivamente Hegel ou Nietzsche. A consciência da síntese do homem com o animal nos dá angústia, mas a síntese do criador com a criatura é, nessa linha de raciocínio, a sua total aberração e sua aniquilação. E a criatura humana não é o bicho, seu irmão, mas a máquina, seu filho. O fruto da síntese é algo que inspira horror e pena e não uma esperançosa evolução rumo ao cada-vez-melhor, como pensava Comte et caterva. Mas em que pensa o homem quando gera a máquina? The world will want to know what you're thinking, diz a repórter, 'Fuck' is what I'm thinking, diz o cientista. De fato, the flesh should make the computer crazy, like old ladies pinching babies, I haven´t taught the computer to be crazy by the flesh, the poetry of the steak, so I'll teach it now.

Diz-nos Cronenberg que, apesar de horrorizados do que com as cenas do filme, nos horrorizaríamos ainda mais se percebêssemos que a síntese do homem-bicho com seu verdadeiro filho, a máquina, já está entre nós. Não nas teias de aranhas que nos devoram, mas na telecomunicação e, hoje, ainda mais. em outras teias que nos enredam: as redes sociais. Isso pega de surpresa aquele que, como o Seth do início do filme, dizia, ironicamente, I hate vehicles. O Brundlefly matou a charada: at the very least it should make a fabulous children's book.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

ESPANTO E INTOLERÂNCIA

É difícil saber se um dia o ser humano viveu em função somente de sua prole ou, desde todo o sempre, andou em bandos, mas fato é que um bando é rival de outro desde sempre. Migrando, sem saber nada de agricultura, procurou estabelecer-se em algum território cuja posse se definia pela sua simples presença. Se o território já estava ocupado, era disputado na mão, na pedra, na clava, na flecha, no tiro. Desde sempre foi assim: este bando, querendo invadir o território alheio e roubar-lhe os bens; aquele bando, querendo expulsar o que julgava invasor. Nesses assuntos, a justiça tirava férias por motivos óbvios: o que é justo para um bando não é nunca para outro. Mesmo depois de acordos e definições de fronteiras, volta e meia, questiona-se tudo em nome da história ou da razão, invariavelmente com uma dose enorme de violência.

Verdade é que aparentemente uma criança já sabe a comoção que lhe causa a violência cometida para com o outro. Isso não me conduz necessariamente a pensar como Rousseau. Em muitos contextos e discursos, filosóficos, religiosos ou políticos, busca-se a racionalização da barbárie. Nesse momento, não é mais possível falar de animal racional, mas de cinismo. 

Custaria muito discurso até convencermos a todos que o outro é igual a nós. Mas não é. O mesmo tanto seria gasto para convencermos que o outro não é igual a nós. Mas é.



Se o outro não é diferente de nós, o outro somos nós, seja ele vítima, seja agressor. É dessa consciência que vem a vergonha de sermos Homines sapientes. Seria preferível ser um bicho mais pacífico, se é que há algum. Nós, como espécie, nos sobreexcedemos no quesito da violência. A criança chocada perante a primeira cena violenta, aceita-a mais tarde por causa dos discursos e até mesmo se regozija com ela. Nesse momento, o outro não parece mais ser da nossa espécie. Mas é.

A tragédia da Estônia, por exemplo, ensanduichada entre nazistas e estalinistas, é maravilhosamente transmitida no filme Risttuules, mas a Estônia criou posteriormente a categoria de "cidadãos de categoria indeterminada" (est määratlemata kodakondsusega isik). Perdoar até mesmo os descendentes dos soviéticos invasores lhes parece ser a mais difícil das atitudes. Isso é apenas um exemplo da limitada justiça que o homem imaginou ter para com os trilhões de assassinos que já povoaram terra, e ainda imaginará. 

Já que é assim, por que falar tanto em paz, peace, мир, سلام ou שלום? Se a justiça humana é tão precária, por que gastar tanta saliva discorrendo sobre teses tão teóricas acerca do perdão, como se fosse a mais elevada das qualidades humanas? Perdoar parece ser algo impossível de fato para uma vítima: o autoengano lhe custaria uma morte lenta por estresse. Parece mais fácil odiar, não só quem comete o delito, mas toda a tribo dos delituosos.

Odiar parece algo indigno de um ser racional e civilizado: parece que somente os discursos mais irracionais escancaram a baixaria do ódio. Vão engano: o ódio mais chocante é aquele que justifica, pela mais fria razão, a existência absoluta de seus pressupostos, os quais são, na verdade, quase sempre, muitíssimo discutíveis. Se há um erro nas argumentações, não está nas deduções, mas nos fundamentos das premissas, antes de começarmos a silogizar. Ora, não há como fundamentar as premissas de modo a todos ficarem concordes. A harmonia dos pressupostos é algo que só não seria utópico depois de haver muita dissensão e isso, se um dia ocorrer, será só depois de o ser humano ser atingido como espécie e não como elemento de uma tribo. A meu ver, contudo, o mais trágico é que, quando isso ocorrer, não terá consciência alguma, assim como o braço não tem consciência de sua paralisia após um derrame e nada mais pode fazer contra isso.

Hoje vivemos dias de ódio, movido, entre muitas coisas, pelo conhecimento daqueles que justificam racionalmente o seu desprezo pelo outro. Esse conhecimento, como sabemos, ampliou-se. 



No início, o conhecimento do outro se restringia ao conhecimento dos heróis dos mitos tribais: o outro, nessa época, era paradoxalmente o mesmo, aquele que nos fundou, o Mavutsinin de cada aldeia, todas localizadas na sua Murena, o centro do universo. 

Só os impérios permitiram o homem conhecer a história do bárbaro que o dominava e assim, Gilgamesh se tornou Noé e a cobra falante se introduziu no paraíso, palavra, aliás, de origem persa. Nasceu o casamento intercultural, a figura do poliglota sedento de vender seus badulaques. Nasceu o embrião da diplomacia, o pensamento elevado de Marco Aurélio, o conceito de "próximo". Mas mesmo assim, o outro continuava sendo um monstro a avançar sobre o bem estabelecido, ainda que o nosso status quo estivesse sob a guarda de um leviatã que, do alto da sua bondade, deixava o homem sobreviver, oprimindo-o e explorando-o.

E do conflito dos impérios políticos, religiosos e filosóficos, nasceram os valores. Uma cópia de livro não custaria mais o trabalho braçal de um escriba ou de um copista, nem teria mais o preço de um rebanho de cabras medievais. Com o mecanicismo, a imprensa chegava e, com ela, o outro nos era conhecido por navegadores e por Montaignes. O outro novamente invadia nossas posses, materiais e imateriais. A invenção da imprensa chocou-nos e, ato contínuo, veio a censura, a galope, violenta e necessariamente como as antigas guerras tribais na savana. Se a imprensa nos trazia o conhecimento, também trazia novamente o espanto e a intolerância, algo que parece mais natural que o efeito após a causa, na mesa de bilhar de Hume.

O que nos surpreende, todavia, olhando a história retroversamente, é que poucos sabiam ler e os que sabiam estavam feudalmente acordes com suas auctoritates até o nascimento da ciência ocidental moderna. Mas a ciência chegou, ressuscitando Pitágoras e vendo números em tudo. Galileu teve de humilhar-se, pois não bastavam as evidências. Nunca bastam e nunca bastarão. Mal sabia que era um novo outro e que o ser humano não é movido pela razão. Jamais teremos um planeta como Vulcan, terra natal da estirpe de Mr. Spock.


Tudo bem, o pedido de desculpa vem e, cedo ou tarde, a ignorância é reconhecida, parcialmente. Mas nunca deixará de haver espanto e intolerância porque não é possível que o outro se converta em um dos nossos se não tem os mesmos pressupostos. Não há como imaginar como seria uma censura global da internet: agora somos nós contra nós mesmos. O outro parece não fazer sentido. Escancarou-se quem é de fato o bicho homem e seu id, ou seja, estamos perante o grande temor de Freud externado na sua correspondência com Einstein.  

Se na época da imprensa, do rádio e da televisão, poucos eram atingidos diretamente e, mesmo assim, tanta comoção ocorreu, bem como tanta manipulação, que dizer de um novo meio que escancara o outro de uma vez por todas e que para conhecê-lo basta ter ouvidos e olhos totalmente desreprimidos por qualquer mecanismo ideológico? O ódio deu um salto formidável. Os espantos não cessam, minuto a minuto. A intolerância para com aquilo que é espantoso aumenta exponencialmente. A razão, encurralada na vertigem da sua queda, encontra o perdão no meio do caminho, misturado com a ambiguidade do desprezo, do ódio, da tristeza e da angústia de ter visto ou ouvido algo diariamente que mata nossa tão cara ingenuidade.



Se a guerra hoje é um negócio, como me dizia há pouco, numa conversa, um amigo meu, isso só comprova a condição hominal de ser violento. Se a espécie humana fosse de fato o ser sábio cujo nome científico a taxonomia apressadamente lhe atribuiu, não haveria comércio de armas. Se os seres humanos fôssemos racionais, venderíamos mais livros do que armas. Mas os livros que atiçam o ódio são os mais vendidos e se tornaram armas também. O mesmo se pode dizer das redes sociais e das páginas da internet. Basta que se invente uma impressora 3D para que imediatamente alguém cogite usá-las para construir metralhadoras: o bem que nos proporciona um novo conhecimento é sempre infinitamente menor que o mal involuntariamente gerado pelo seu inventor. É um ciclo que não se consegue interromper com discurso nenhum: argumentos requerem pressupostos e pressupostos não são universalmente aceitos, na maior parte das vezes, por causa da nossa má vontade, da nossa má intenção, da nossa má fé ou da nossa preguiça. 

Se não tolero o outro, não é minha culpa: são todos os meus pressupostos, alimentados desde a primeira infância, que estão em cheque. Como perdoá-lo? Não sei. Como não ficar triste? Não sei. Como conviver com ele? Não tenho a menor ideia. Tudo indica que o futuro, que transformará o bando primevo numa aldeia global, nos reserva uma convivência conflituosa demais, estressante demais, algo que nos fará sempre oscilar entre as figuras dos indivíduos desencantados e das formigas que roboticamente seguem sua programação de cortar, picar e levar para o formigueiro. 

Se aceito o outro, com fingidamente resignado relativismo, eu sofrerei, porque os pressupostos com que nasci e os valores que quero passar a meus filhos se calam e morrerão comigo, em respeito ao Übermensch requerido pelo novo contexto histórico que pegou a todos de surpresa.

Se não aceito o outro, com militante engajamento, vomito a necessidade da tabula rasa e de uma esperança, escancaro também meu autoengano, pois sei ou saberei, com náusea, que isso é um blefe num poker cujo resultado pode ser minha vitória ou minha aniquilação. Transmitirei o DNA de meu pensamento ao preço de o espanto e de a intolerância continuarem. Só haveria nisso algum prazer, se em mim houvesse alguma tendência sádica infantil. Mas isso nem sempre é a regra. Na maioria das vezes, é o mais puro autoengano que me moverá, se assim decidir agir.

Enquanto se esgrouvinha minha personalidade, aumenta o incômodo em meu estômago e oscila o desalinhamento das minhas opiniões, entre meu silêncio e minha histeria. Com sorte, não serei atingido por um outro louco, enquanto estou na gangorra da indecisão.

Mas não há terceira opção: ou tolero ou não tolero. 

Se tolero, o outro não faz nada de mais, pois o outro é um ser humano como eu, portanto, somos nós que fazemos, ainda que eu não faça, nem queira fazer. O autoengano aqui é óbvio. 

Se não tolero, o outro é quem sempre foi: o outro, que sempre me espantou e por quem tenho ódio desde a infância. 



No primeiro caso, buscarei a iluminação, no segundo, a justiça e em ambos, afogo-me no autoengano. 

A iluminação é um fechar de olhos, a justiça é um pedido de socorro. Tudo continuará movendo-se ao nosso redor, independentemente de pararmos para contemplar e julgar ou de nos pormos a caminhar juntos. Foi assim que nasceu o conceito de destino. Acreditamos piamente que há uma causa final. Mas não há, a menos que queiramos novos autoenganos. 

Se um outro diz que há sim e acreditamos que não há, de novo estamos um frente ao outro e confrontam-se antigos impérios intelectuais ou morais, com seus argumentos políticos, científicos, filosóficos ou religiosos. E todos se acham detentores da mais límpida "lógica". Esse é o único ponto em que concordaremos. Descartes, rasgando seus escritos e com as malas para a Suécia, matou a charada! 

E o clima sueco matou Descartes, que tinha tanto medo de morrer.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

MEDINDO O NOSSO RITMO

Houve uma época em que o indivíduo se definia como um ser com uma alma. Tendo cada indivíduo uma alma, a definição era circular, ainda que entendêssemos por alma algo que é exclusivo de um único indivíduo histórico ou algo que é compartilhado por diferentes indivíduos reencarnados. Recentemente, a definição do que vem a ser o indivíduo alterou-se com o endeusamento do ácido desoxirribonucleico, que deveria ter como sigla A.D., A.D.O.R.N., quando muito ADN, mas é chamado de DNA pelo simples fato de macaqueamos hoje tudo do inglês e não mais do francês.

Mas o DNA não é a impressão digital perfeita de que precisamos para caracterizar um indivíduo. Gêmeos idênticos têm o mesmo DNA, apesar de serem indivíduos distintos. Todas essas identificações alternativas para a individuação são uma completa balela, pois qualquer um que pensa saberá o que é um indivíduo: nada mais que um ser com uma história única. Assim, como o signo é signo de si mesmo, na formulação peirceana, um indivíduo é um ser que tem uma história única e uma relação histórica única com outros indivíduos. Basta-nos essa definição, circular como todas as melhores definições que existem.

E essa relação, como é? Obviamente variada e multifacetada. Um blog não daria conta de descrever todas as relações que um indivíduo pode ter com outros indivíduos, até porque "indivíduos" não são apenas seres humanos: meu papagaio é um indivíduo, a jaqueira do meu quintal é um indivíduo, a pedra que está na calçada é um indivíduo, o chafariz da pracinha de Ibitinga também é. São indivíduos, porque são representantes de entidades inexistentes fora de uma mente chamadas ideias: o papagaio, a jaqueira, a pedra e o chafariz in se. 


Mas uma dessas relações sempre me impressionou: o ritmo com que um indivíduo conduz sua existência.

É normal que pedras sejam lentíssimas. Não são totalmente imóveis: não vemos o ferro da sua superfície oxidar-se. Não nos importamos se uma lasquinha dela se torne um outro indivíduo depois de um pontapé nosso. Pedra não tem pressa. Continua razoavelmente reconhecível, se outro indivíduo não a mói: continua pedra por milhões de anos. Se pedra tem alma, é polêmica entre animista e não-animista. Fato é que você pode esperar sentado observando-a e não verá mudança alguma numa pedra exposta na sua frente.

Uma planta se move, apesar de não parecer. Da noite para o dia, uma roseira floresce. Se deixarmos uma câmera filmando porque não temos paciência de ver a gavinha enrolar-se ou o botão desabrochar-se, constataríamos que um vegetal nem é tão lento assim, comparado com uma pedra, e que essa coisa de o adjetivo "vegetativo" ser sinônimo de "imóvel" é algo muito injusto. Plantas são até muito rápidas. Sua velocidade é proporcional às transformações da matéria química orgânica de que se compõem suas células. Mesmo assim, perante um animal, é lentíssima: uma lesma tem velocidade supersônica comparada à dum pinheiro. 

A culpa de não termos ciência do ritmo de plantas e minerais é da nossa percepção, que nem tem capacidade de perceber que nosso planeta tem uma velocidade orbital média de 107000 km/h. 

Uma longuíssima vida de um ácaro do ponto de vista de um outro ácaro sempre é uma brevíssima vida do ponto de vista de um humano. O ácaro tem seu ritmo. Não o comparemos com o nosso ritmo de primatas. Mesmo assim, espécies de ácaros têm ritmos específicos e ácaros individuais têm ritmos diferentes. Indivíduos humanos também têm, como todos sabem. 



E isso ocorre nas etapas da vida também. Uma criança tem pressa. Uma pressa enorme. Talvez não como a pressa dum filhote de ave, que, de alguma forma ainda inexplicada, absorve imediatamente o que deve ser feito no mundo ao sair do ovo: o cuco recém-nascido, ainda ceguinho, sabe que tem de jogar rapidamente os ovos dos irmãos, usando as costas, para fora do ninho, antes da mãe adotiva voltar, porque no futuro só ele deverá ser alimentado. Sabe de alguma forma que ficará muitas vezes maior do que a mãe. Os patos de Konrad Lorenz têm pressa de olhar para a primeira coisa que veem, pois essa coisa será a mãe, agindo igual àquele patinho do desenho do Tom e Jerry. Bebês têm pressa, muito mais do que brotos de samambaia. Um broto perdido concorre com outro e uma planta é um monte de indivíduos se estapeando, roubando espaço do galho vizinho para sua própria fotossíntese. Cada folha, cada flor, cada semente na mesma planta quer ser uma nova planta. Com animais, mesmo com os sésseis como as esponjas, nada disso acontece: o indivíduo se confunde com aquilo que seu sistema nervoso representa e o primeiro élan vital deve ser muito mais rápido do que de qualquer planta. 

Um indivíduo animal é menos do que é a continuação do esporo ou da semente numa planta que reunirá muitos indivíduos. Para um animal, um indivíduo é a história solitária de um espermatozoide que surgiu no mundo com a função de fecundar um óvulo igualmente solitário. Ainda que alguém veja alguma semelhança metafórica entre uma azaleia florida e um ninho de abelhas, não há semelhança alguma. O DNA das abelhas operárias não vale nada porque não será passado para a frente, pois abelhas operárias são assexuadas. Mesmo assim, ninguém negará que são abelhas individuais. Se é verdade que o tal gene egoísta permite que a abelha deixe, naquele que foi picado, seu ferrão junto com suas tripas e morra, fato é que um indivíduo estéril como uma abelha operária ou uma mula são seres vivos e, portanto, cada abelha e cada mula é sim um indivíduo como qualquer outro ser com DNA útil. Como disse, o que conta para a existência dos indivíduos é a sua história, não seu DNA. É a sua ontogenia, não sua filogenia. A lasca da pedra é outra pedra, é outro indivíduo; a planária cortada ao meio passa a ser duas planárias, dois indivíduos. Cada um terá sua história depois de lascado e cortado. Não há indivíduo sem história. E a história, diferentemente da percepção de serem um ou dois indivíduos, é dada pelo próprio indivíduo e não por quem o observa. A história a que me refiro não tem nada a ver com um observador: tem a ver com o que o próprio indivíduo vivencia, no seu próprio ritmo.

Enfim, é o ritmo individual numa história que o caracteriza como indivíduo. Esse ritmo, observado, tem diferenças individuais do ponto de vista do observador. A criança parece lenta, mas como o broto de orquídea, tem pressa: precisa de luz senão fica cega, precisa movimentar-se senão se atrofia, precisa ouvir uma língua mesmo não sabendo o que é porque está equipada para caçar formantes, de maneira absoluta, instintiva, sem saber para quê. Isso é um dos maiores mistérios de todos e, na tentativa de explicá-lo inventaram-se teleologias absurdas e causas finais tão antropocêntricas que fariam qualquer ser realmente racional explodir de risos, admirado com a pretensão das etiologias humanas.



A criança é rapidíssima: sabe de alguma forma, desde quando era espermatozoide, que foi botada num mundo, onde se ouve um monte de barulho. Não é uma coisa nova, mas é um indivíduo de uma espécie. E não dispõe de nenhuma tabula rasa. Em sua cabeça há algo que lhe ordena: "preste atenção, cace formantes, imite, não pare". E veja que uma criança humana, dados o seu cabeção e seu aspecto de símio pelado, é um dos animais mais lentos que existem! Um filhote de gnu, ao nascer, cai, livra-se da placenta e já está preparado para correr junto com a mãe, fugindo dos guepardos. A estranha neotenia dos humanídeos deixou tudo bem lento, comparando-se com as proezas que fazem os peixes e outros vertebrados.

O ritmo cai, sossegados que ficamos, com a aquisição de uma muleta chamada língua, algo tribal que nos ilude, pois o mundo não é o que a língua diz que é, de tão filtrado que já está depois das restritíssimas limitações de nossos sentidos. A língua dos que acolhem as crianças humanas, desamparadas, enquanto seu cérebro incha com o intuito de coletar tantas indispensáveis fantasias históricas, é uma peneira sofregamente adquirida. Depois disso, fim da agonia: estará prestes para o que dizem ser o mundo. Seu ritmo decai. Mesmo assim, parece rápido demais quando vemos os inconstantes adolescentes, com sua dicção muito acelerada pelas novas e cada vez maiores ansiedades que o mundo lhes apresenta. Até há pouco tempo um mundo estava limitado à aldeia em que se nascia; hoje o mundo que abraça os recém-nascidos é um gigante que golfa instruções, difícil de ser assimilado, por mais rápidos que nasçamos. E como os jovens não têm como assimilar tudo, porque é impossível, sabem tanto quanto no tempo das pequenas aldeias, ainda que saibam mais coisas de fora de sua aldeia.

O cérebro não vai perder tempo aumentando para se adaptar à internet, pelo contrário, vai retrair. Se continuasse no ritmo da globalização, não nasceríamos. A despeito da opinião apocalíptica do profeta Yuval Harari, o cérebro não produzirá mais do que aquilo de que necessitamos. O cérebro cresceu quando o homem estava em perigo; se um dia for onisciente, não precisará de cérebro, que é o cúmulo  da confusão dos órgãos: por que Deus teria necessidade de lembrar-se? Um memória só serve para ser esquecida, reprimida ou recordada e um ser onisciente não precisa de nada disso, porque Ele sabe. O homem cônscio de todas as aldeias é um ser relaxado, que só precisará daquilo que seu presente exige. Conhecimento do passado, por exemplo, será algo inútil e não é preciso profecia para perceber isso. Basta ler os textos do passado para ver que há tempos o passado não é algo que nos completa.

Sabendo já a língua de nossa tribo, por que precisamos continuar prestando atenção em formantes precisos? A língua não é uma abstração, é apenas um desleixo necessário. Sem esse desleixo, o que importa mesmo é de um egoísmo que deixaria corado qualquer renascentista antropocêntrico. Não é o homem, mas o eu o que importa: a picaretagem do tagarelar filosófico oitocentista e novecentista já mostrou isso. Estamos já no paroxismos dos ideais pós-iluministas, surpresos como as personagens do livro Felicidade, de Eduardo Giannetti. Não haverá homem apolíneo. A muvuca do dionisíaco está a todo vapor. E quem pensa que isso significará maior tolerância está redondamente enganado. Sorte é que depois de destruída a atual humanidade talvez haja de novo evolução stricto sensu do hominídeo e, quem sabe, será a vez ou de uma das muitas espécies que se formarão por isolamento ou de algum outro bicho, pra variar, com algum outro órgão mais inchado que o prosencéfalo. Mas evolução não quer dizer cérebros ainda maiores ou mais eficientes: não haverá, no mundo em que evoluções são permitidas pela natureza, nenhum obstetra abalizado para permitir o parto de tais futuros humanos megacabeçudos. Os caminhos da evolução são insondáveis como os do acaso.



Uma interação social permite compararmos a variação dos ritmos individuais. Se é verdade que um mesmo indivíduo tem ritmos diferentes em distintas etapas de vida e se é verdade que, num mesmo dia, flagramo-nos com ritmos distintos, não há como negar que o ritmo de cada um só se mostra durante uma interação.

Não precisa ser o ritmo real, pode ser o imaginado. O velho que anda devagar na frente do jovem, com um guarda-chuva aberto, impedindo-o de ultrapassá-lo, enlouquece quem tem pressa, que, furibundo, solta um bafo de reprovação, ao conseguir desvencilhar-se do trambolho. Mas se o jovem pensasse que a pressa vem da meta diária, que é apenas uma das facetas do finalismo, talvez fosse mais tolerante. Na verdade, o que tem pressa não sabe aonde quer chegar. Apenas quer ultrapassar, maldizendo o que é lento. Não importa a causa da lentidão: o indivíduo com velocidade menor é uma pedra, uma touceira, uma lesma. Não é visão compartilhada por um carnívoro veloz como o mabeco, que certamente adora seres lentos, aliás, petiscos deliciosos. A lentidão em nada influencia o sabor da sua carne. Para o jovem mabeco, o lento e velho animal é causa de felicidade e não motivo de fúria.

O culto à rapidez chegará ao fim um dia. Não me refiro às vascas da morte individual. Não faz sentido a ideologia que iguala o mais rápido ao mais eficiente. A rapidez excessiva tem seu momento e sua utilidade, por exemplo, quando em vão tentamos fugir de um leopardo, mas na vida de hoje, com tantas comodidades, cumpre ser um pouco distenso. Não é preciso que a artrite nos atinja e que sejamos lentos porque não conseguimos ser rápidos. É preciso não desejar ser rápido. Há, de fato, milhões de produtos para consumir, o mundo inteiro para entender, todas as línguas para dominar, todo conhecimento para assimilar, mas calma: sempre fizemos isso quando saímos da nossa aldeia e numa quantidade dez milhões de vezes menor já era impossível há muito tempo, bem antes de eu e você termos nascidos, caro leitor. Por que satisfazer o que quer nossa ansiedade seria possível agora? Uma percepção imprecisa e instintiva de poucos formantes já nos bastou para que criássemos fonemas e entendêssemos o mundo. Por que a precisão agora seria necessária se jamais viveremos eternamente?