O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

Minha foto
Sou um saci sumério de Botucatu.

terça-feira, 11 de junho de 2013

OPINO, PORTANTO EXISTO?

Eu vivo dizendo que aquisição de linguagem é algo que ocorre a vida toda e não só quando somos bebezinhos. Recentemente, uma nova palavra - vlog - entrou em meu repertório lexical. Decerto já existe há muito tempo. Sei que sou mais dado a coisas arcaicas. Já me chamaram mais de uma vez de renitente às novidades. Injusta acusação nesse caso: sou apenas desinformado (aliás, belíssimo o par mínimo blog: vlog, difícil para os hispanofalantes). Como muitos sabem, a fonética está entre minhas paixões. Sobretudo me intriga a ligação que estabelece entre a dicotomia real / mental (ou, dito de outro modo, ondas/ imagem cerebral). Por isso, pedi aos meus pupilos que fizessem um trabalho de transcrição fonética de alguns desses vlogs. Na correção, fiquei espantado com a quantidade de pessoas querendo externar suas opiniões na internet. Algumas falavam coisas tão próximas do senso-comum, que me causaram não só cansaço, mas infundiram pena. Outras arrojadíssimas, metralhavam seus palpites, beirando a histeria. Outras ainda tinham atitudes tão particulares, que nada poderia impedir o choque de quem as visse e ouvisse. Poucas eram interessantes. De fato, fascínio é algo raro demais hoje em dia. Será que o acostumado com tudo perderá o fascínio pelas coisas? Pensando profundamente sobre essa enxurrada de opiniões banais na internet, acabei projetando-me neles.  Lembrei-me do meu blog, sim, deste texto que está lendo. O crítico verá algo de metalinguístico aqui.
 
 
Queremos estar presentes em tudo. É um novipecado contra os mandamentos da sociedade moderna, por exemplo, não ter Facebook. Pensa o vulgo que a pessoa que assim age ou é velha demais, ou é antissocial, ou tem algo a esconder. Deixo ao meu crítico a minha classificação exata, pois eu mesmo não sei. Mas será mesmo que uma existência é estar no meio das outras formigas? Não há vez para o ermitão? Foi por isso que algum deus teria criado o Universo? Estava sozinho demais? E depois que se encher das palhaçadas da sua própria criação, vai deletar a conta, como eu fiz com as minhas "redes sociais"? Fará o demiurgo algo assim como quando desligamos a TV, fartos de Big Brother? Essa excitação de ter o poder de ligar e desligar coisas inúteis deve deixar mesmo qualquer um sentindo-se onipotente. Mas não é menor do que a excitação de estar no meio do burburinho, rindo ou ofendendo, integrado em tribos que se autorrivalizam, avaliando tudo com dedinhos para cima e para baixo, nesse voyeurismo esquisito e histérico dos dias de hoje. Aliás, antes fosse mesmo voyeurismo! Mas chochamente não vejo transgressão alguma. É algo como que uma inércia, uma necessidade e, estranhamente, um dever.
Há necessidade de dizer que estamos presente ainda neste planeta e, mais do que isso, que representamos valores, ainda que sejam confusos. Estátuas, quadros e livros eternizararam muitas pessoas que são ponto de partida de nossas discussões e raciocínio,  mais tarde foram as fotos e os filmes e isso não teve mais fim. Tudo hoje está à disposição do infeliz primata dono do planeta, seja uma pixação, um blog, um vlog, não importa se é algo redundante ou desnecessário. Senso-comum se mistura com a sapiência, originalidade com o senso-comum, auto-ajuda com a violência, tudo parece estar à busca de um pretenso raciocínio claríssimo e uma vontade imensa de eternizar-se.
Afinal de contas, um indivíduo é um indivíduo, indivisível como se diz. Mas, cá entre nós, há coisa mais sem individualidade que a assombrosa maioria dos indivíduos?
Nessas opiniões de todos os tipos, não me choca apenas a certeza que flui de suas bocas-metralhadoras, sem pausa e sem turno. Qualquer um faz isso hoje em dia. Até mesmo o assassino de Woolwich explicou-nos cartesianamente o porquê de sua atrocidade insana em frente a uma câmera, com seu cutelo ensanguentado na mão. Certeza agora é algo fácil de se ter. Basta ser inseguro, ler duas linhas de qualquer coisa e repeti-las incessantemente. E, melhor de tudo: é de graça.
 
 
O que me choca ainda mais é haver opiniões de todos os tipos e que não há mais o medo do ridículo. Alguns aparentemente até têm alguma consciência parcial desse medo. Nos vlogs falam uma besteira e se autocorrigem, rapidinho, improvisando uma autocrítica, animadinhos ou entediadinhos, só para fazer um gênero homogeneamente diferente. Vivemos no meio de um standup comedy coletivo. Que fizemos para merecer isso? Será isso o inferno do fim dos tempos?
Ao mesmo tempo, observo que muitos da minha idade ou mais velhos não padecem dessa enfermidade. Falam da exposição dos mais jovens. O medo da exposição de um sentimento ou de uma convicção se reduz ao medo de termos inimigos? Ou também ao medo de perdermos aliados?
Imaginemos duas pessoas que convivam há muito tempo e nunca expuseram suas opiniões sobre algo. Provavelmente agem assim, porque pensam que sua opinião não seja relevante para o que fazem conjuntamente (mas pode ser por algum outro motivo). Mas eis que a opinião de uma delas aflora, de um modo ou de outro. Imediatamente essa pessoa estará fragilizada. Se a opinião exposta é idêntica à do outro que ocultava, verá que tem um aliado (exceto se o ocultador for hipócrita ou sofrer de autoengano). Mas e se a opinião não for a mesma, ou, pior ainda, for exatamente a contrária? Com muito azar terá um inimigo, mas sem dúvida terá um ex-aliado, com quem não poderá contar com o mesmo entusiasmo e dedicação.
Será por causa desse risco que os mais velhos expõem tão pouco suas opiniões, ao contrário dos mais jovens (que, por definição, ainda não viveram suficientemente e, na sua maioria, não experimentaram situações distintas das que vivem com seus pares)? Talvez seja algo de hoje essa capacidade de vivermos com gente que pensa como nós e expulsar com igual facilidade os que não pensam identicamente? É isso que dá uma certeza quase patética a algumas pessoas quando afirmam asnidades?
No passado, as redes sociais eram reais e bem pequenas. Resumia-se ao contato presencial. Aos mais velhos, durante boa parte de sua vida, exigiu-se mais do que se exige hoje para afirmarem algo como certo, embora errassem mais por causa da falta de informação. Fazia-se o que era possível para aceitar o diferente e a integração era conflituosa devido à máxima de que o certo era o valor da maioria. O choque do indivíduo com essa sociedade idealmente uniforme gerava o pária e o cauteloso. Falava-se de vigiar e punir. Hoje, dizem que felizmente é o contrário. No entanto, para os ermitãos convictos, como eu, tanto faz. Vivemos ainda em círculos limitados. Qualquer restrição é um limite e nunca vi tanta gente restritiva como hoje em dia com seus amos e odeios, com suas tribos e suas convicções dogmáticas avessas a qualquer questionamento. Para mim, isso não é feio nem bonito. Simplesmente não mudou tanto quanto se pensa.
O ermitão corre o risco de ser visto como reacionário. Não entendem que ele é apenas tímido. Aprendi que ser tímido é ser sinônimo de agressivo. Há os que gostam de ser agressivos, eu não. Procuro não ser, pois meu estopim é curto. Sofro, porém, quando sou (obviamente sofrer a agressão é pior do que ser agressivo). Além disso, o reacionário não aceita a mudança. Eu aceito, apenas lamento quando chamam inércia de mudança. Os rótulos me irritam. E toda vez que me acusam de algo ou ouço alguém acusar alguém de algo, fico apatetado e volto à minha caverna. No começo, sentia culpa, mas descobri que amo ser esse troglodita. Jamais seria um bom político, nem odeio quem o seja. Apenas lamento toda má política. Lamento quem não entende que reciclar lixo é bom. Toda vez que vou à padaria, preciso falar que não quero sacolinha de plástico além do invólucro de papel para meu pão (segue-se diariamente um sustinho do funcionário após o gesto automático e gentil de querer mimosear-me com a maldita sacola, gesto repetido, imagino, um milhão de vezes por dia com todos os clientes). Quase um ano depois da primeira postagem neste blog a situação das faixas de segurança pouco mudou. Obviamente, essa situação se perenizará a despeito do bom-senso. É tão difícil assim a lógica delas ou tanto faz?
 
 
Ontem por segundos não atropelei um rapaz. Parei na faixa de segurança para uma moça passar. Sorriu simpática e me agradeceu (eu, trogloditamente, mesmo com vontade, nunca retribuo esse agradecimento com a mesma simpatia, porque não fiz mais que a minha obrigação e não quero ser cúmplice de um mais um hábito urbano: não posso envaidecer-me de ser minimamente civilizado, seria injusto, pois ninguém, exceto o doido da vila, agradece ao semáforo por ter ficado verde). O carro do meu lado, como sempre, parou também (fazem sempre isso, não por solidariedade, suponho, mas por falta de personalidade e pelo mesmo motivo instintivo dos homens-formigas do Facebook: aposto que o mesmo motorista não pararia se eu não tivesse respeitado a faixa - sim, até nisso há falta de personalidade, a culpa é sempre do outro). Ok, estamos perante o melhor dos mundos, melhor até do que Leibniz esperaria: um pedestre querendo passar e os motoristas paradinhos. Tudo sob controle. Pois bem, a moça, mesmo assim, quase foi atropelada por um ciclista, que ultrapassava o carro do meu lado pela esquerda, mas se desviou a tempo e chocou-se com outro ciclista, igualmente sem freios que ultrapassava pela direita (ou era muita coincidência ou estavam juntos), o qual foi arremessado por cima do meu carro e caiu na minha frente, quando justamente eu estava começando a acelerar e a mover-me (a moça nesse instante já havia passado por mim). Por um segundo (se eu tivesse acelerado um pouquinho mais) teria passado por cima dele. O ciclista levantou-se, sem qualquer arranhão visível, assustado e irritado com o mico. Nem olhou para mim. Mal se recompôs, jogou a bicicleta com violência na calçada, dando uma bronca no ciclista que se chocou com ele. Fiquei surpreso com a minha fleuma. Já a havia experimentado algumas vezes. Coitado, mais uma vítima da ilusão berkeleyana de que o mundo não existe! Apenas ele e sua bicicleta, velozes numa ladeira feita para seu deleite. Foi duro o chão que o recebeu e refutou sua teoria. Poderia ter sido pior: poderia ter sido o nada da morte. E eu, que há pouco não existia no mundo do ciclista, hoje estaria íntimo de sua família (no mau sentido), respondendo judicialmente pelo seu atropelamento fatal, à caça de testemunhas improváveis e da intangível justiça.
Mas quando justifico minha eremitania (ou ermitãozice, se preferir) criticando meio-mundo, tenho algumas certezas. Reacionário eu sei que não sou. Nem hipócrita. Basta ser meu amigo, vir até mim e lhe contarei o que penso da vida, das pessoas e do mundo. Até quem se arroga mais liberal se choca normalmente quando abro um pouco da minha boca. Um dia talvez tenha coragem de escrever aqui tudo o que penso, mas não sei se todos os que me leem são meus amigos. É mais fácil encontrar um inimigo empenhado em nos entender do que um amigo com a paciência requerida de leitor. Além disso, meus amigos são muito diferentes uns dos outros. Não há muitos fios que amarrem meus amigos entre si. Se não há fios, não há web e, portanto, não há spider. De armadilhas feita com fios de seda estou cheio, embora ame as aranhas e a aracnologia. Com amigos se vive. Amizade, para mim, é o oposto do saber teórico. Tem de ser delírio nietzscheano.
Talvez essa sensação de comunhão da sociedade moderna, advinda de toda a visão parcial do mundo, faça que a transparência de opiniões hoje seja quase total, sem se pensar nos riscos, nas perdas, nas frustrações e nas tristezas da perda. Falar ou escrever sempre foi dar uma opinião. Então por que há opiniões que ofendem, frustram, chocam e outras que simplesmente expõem valores largamente compartilhados e são inócuas? Quanto maior a comunhão, maior será o choque de uma opinião contrária. Como seria a fórmula exata entre (não) concordar, chocar e reagir? Que faz que alguém se mova, com uma bandeira na mão no meio do formigueiro humano? Quebre? Mate? Ame? Chore?
 
 
Mais enigmaticamente ainda: por que todos, sem exceção, defendem a sinceridade? Não acreditar nunca na sinceridade alheia é um convite à angústia. Acreditar sempre é um convite à decepção. É estranho: angústia e decepção não deveriam estar em pólos opostos de um continuum. Se estou certo, o que estaria no meio? Se gostamos da sinceridade, por que nos incomodamos com opiniões desastradas, tão comuns nos jovens, mas não exclusivas deles? Talvez infrinjam alguma lei do nosso obscuro bom-senso? Não respeitam o nosso direito à insinceridade, provavelmente. Não entendem que temos medo? Uma única opinião pode ser mal-entendida, gerar um preconceito contra nós mesmos. Rótulos nascem quase invariavelmente de compreensões parciais. Quem teria, oras, capacidade para compreender completamente o outro? Impossível. Não queremos ser vítimas do preconceito. Mas, com nosso recato, reclusão e timidez talvez reforcemos o preconceito, como se afirmássemos que tem raízes reais.
Por ora, não sei como solucionar isso e duvido que alguém saiba. Afinal, estou quase certo, que nas vésperas de algum paroxismo social semelhante a tantos outros narrados pela História, haverá talvez um dia horrendo em que não seja permitido nem mesmo alienar-se.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

BÍLIS NEGRA

Sou fascinado por raízes e étimos. Algumas perdas vocabulares do latim me surpreendem: ater significava "negro", portanto, devia ser uma palavra bastante usada pelos romanos. Por que sumiu? Das poucas heranças que sobreviveram, há a palavra atrabiliário, raramente usada e que tem sentidos bastante distintos como "melancólico" ou "irascível". Há uma ponte entre a tristeza e a ira que a Etimologia revela e a Psicologia explica. Atrabiliário é, na sua origem, quem tem a bílis negra e evidentemente esse termo médico era uma imitação do grego melancólico, ou seja, uma invenção latina pautada numa mera tradução do grego (ou decalque, falando tecnicamente), tanto quanto cachorro-quente é decalque de hot-dog.
Quando me apaixono por um autor costumo ler toda sua obra. Foi assim com Platão, com Maupassant, com Richard Dawkins e agora, com Oliver Sacks. Comecei a ler seu romance autobiográfico Uncle Tungsten, no qual revela sua infância e a sua casa, que teve de abandonar por volta dos seis anos devido à Segunda Guerra Mundial. Toda a narrativa é embebida de saudade e de certa melancolia.
Mas que é a melancolia? Estaria ela ligada a uma fraqueza de forças, que permite que mal levantemos da cama? Uma lentidão, uma tristeza, uma prostração, uma das fases da psicose maníaco-depressiva? Sabemos que nela estamos sensíveis em excesso, desencantados e deprimidos. Há quem goste dessa sensação, pois parece que é uma espécie de comunhão com as musas (ou com as moiras?), uma espécie de fonte que nos deixa zonzo, favorecendo o devaneio lírico e a meditação profunda. Esse encanto literário sempre está longe da terrível realidade dos que padecem clinicamente, uma confortável idealização de tristezinhas que nos acometem aqui e ali, resultado evidentemente de uma falta de regulação glandular. Resumidamente, essa visão bonita da melancolia nada mais é que uma das muitas bobagens dos escritores românticos. A depressão pra valer, sobretudo na nossa pele, é algo evidentemente ruim: impede-nos de raciocinar, interrompe-nos a vontade de viver e abre-nos abismos intransponíveis nas coisas mais simples, bloqueando nossa criatividade e fazendo-nos ver a verdade nua e crua, sem as nossas generalizações fantasiosas redentoras.


Gosto de entender a melancolia mais como uma tristezinha saudável, em vez da tristezona abominável da depressão, que freamos dentro de nós, mesmo inconscientemente. Todos sabemos que uma melancolia, quando curtida e treinada diariamente, corre o risco de evoluir para depressão. Mas se isso é feito em terreno seguro não-pantanoso das  nossas ideias, pode tornar-se uma forma inigualável de chegarmos à própria compreensão de sua existência.
Se não somos responsáveis pela nossa tristeza, uma vez que podemos culpar nossa pituitária, afinal, o que é que nos move à tristeza? Que pensamentos são invariavelmente tristes? Para uma pessoa que tem alexitimia não é fácil responder isso, tanto quanto não é fácil responder o que é a alegria. Mas nem todos nós somos alexitímicos, embora os que nos circundam nos obrigue a calar na maioria das vezes. A tristeza a meu ver vem invariavelmente da mesma coisa: do passado.



O passado em si não deveria ser triste. Se perdemos um amor, um cargo, nossas riquezas, nossos amigos, nossa família, a paz, a alegria ou a saúde, isso é um fato impossível de ser recuperado. Essa perturbação pode ter terminado no momento do extinção da ação ou pode estender-se até hoje. Pensar nisso causa tristeza obviamente, mas uma vez acontecido algo ruim, acontecerão outras coisas, boas ou neutras também. Se não acontecem, é porque perderam o sabor pela coisa ruim, mas se não foi tão ruim assim, os que sofrem podem aguardar: ainda sofrerão mais no futuro com coisas piores.
De qualquer forma, toda tristeza implica uma mudança. E, nesse caso, uma mudança para pior. Mas sejamos agora sinceros: teria sido, de fato, o momento anterior à mudança o melhor de nossa vida ou exageramos de propósito? Alguém personificou a oportunidade como uma corredora careca com um rabo-de-cavalo, o qual teríamos de segurar, impedindo-a de correr, para não a perdermos de vista. Se essa moça - a Oportunidade - é tão exótica assim, por que não a reconhecemos prontamente quando passou diante de nós? Ou a reconhecemos mas deixamo-la fugir, apatetados por sua rapidez? Teríamos evitado a mudança maligna que nos deixa hoje tristes? Não seríamos melancólicos hoje? Veja, essa fábula toda, muitas vezes, reside na idealização de que antes era o melhor dos mundos: um Éden perdido, um delírio de Rousseau.



 
Mas o antes sempre foi igual ao depois. Apenas há algo incômodo no meio, que poderíamos esforçar para esquecer. Mas, em vez disso, cultuamo-lo, como marco de nossa vida e se torna uma cicatriz sempre aberta. Se ontem era saudável e hoje sou doente, isso não deveria importar: era eu antes, continua sendo eu depois. Só deixarei de ser eu quando morrer. Aí não serei nada. Que diferença faz? Tanta quanto a minha existência antes de nascer.
Para aplacar a melancolia, o pensamento político, ecológico e religioso inventam mundos melhores, que existirão, segundo eles, mas num futuro quase sempre inatingível. Contudo, perdas são coisas que não impedem o mundo de existir. Decerto há retrocessos, há desencanto, há extinções e isso gera tristeza e revolta, deixando-nos atrabiliários (com os dois sentidos que falamos no início). Isso é natural e legítimo. Mas por que a ilusão? Somos mais felizes iludidos? Somos todos crianças, querendo ser enganadas? Precisamos histericamente de mundos além-túmulo, de sociedades totalmente harmônicas, de esperança?
A esperança estava na caixa de Pandora. Portanto, era um mal, assim como os que de lá escaparam. Mas, como ficou trancada lá, não sabemos sua cara, portanto a idealizamos. Durante a minha infância, esperando dia após dia que minha mãe melhorasse da terrível doença renal que a acometeu, nutria a vã esperança. Quando morreu, após terrível sofrimento, concluindo o ciclo da doença, o que era totalmente previsível, vi que por décadas a esperança me escarnecera diariamente. Passei a odiá-la. Nos meus escritos pessoais, chamei-a pelo nome que os antigos gregos sabiamente lhe deram: Elpís. Entre ter esperança e fazer algo, sempre optei pela segunda alternativa.
Depois de muito refletir, hoje ainda me é claro que o lado maligno da mudança é a esperança: é ela que gera a tristeza, a melancolia, a depressão. Por outro lado, viver sem esperança parece algo horrível, quase um convite ao suicídio. Mas não é. Milênios de discurso pró-esperança fazem que não vejamos o óbvio e ajamos como crianças.
 



Se soubermos que ela, com seu rosto bonito e falso, nos engana mais do que qualquer vilão, não seremos necessariamente deprimidos, fatalistas ou resignados por estarmos desamparados do ideal ou do irreal. Veremos quem somos: um saco de carne com prazo de validade, que anda, pensa, se reproduz, mas sobretudo sonha, pois devemos buscar o prazer junto a tudo (e a todos) que nos circunda. Entendido isso perfeitamente, saberemos deixar, sem revolta alguma, nosso legado positivo ao mundo real que nos acolheu, quando não existirmos mais. Isso sim é a alegria da vida, tão óbvia, mas tão apagada por idealizações absurdas, traumas e coisas que não existem mais, nem existirão. Não se trata de um otimismo ingênuo, mas a aceitação do real, do material, do concreto.
Para mim, pensar desse modo sempre foi melhor do que pensar em quimeras e construtos coletivos, afinal, isso já nos é ensinado pela própria Humanidade. O egoísmo de deixar nosso bom legado àqueles que amamos na forma de felicidade, tolerância e paciência poderia ser nosso projeto pessoal de eternidade. Parece paradoxal aliar esse egoísmo ao altruísmo da proposta. Mas não é.
 
 
 
 
 
 
 

sábado, 6 de abril de 2013

ESSÊNCIA: QUE É ISSO?

Há tempos cheguei à conclusão que  eu não sei o que eu sou, mas, paradoxalmente, muitos parecem saber. A reação inevitável nesses momentos de lucidez é a de gritar: se você sabe quem eu sou, por gentileza, diga-me então quem você é. Para não parecer exagerado, confesso que consigo ponderar às vezes que há coisas, sim, que me dão alguma certeza do que eu sou. Por exemplo, eu sou um vertebrado, mais especificamente um mamífero. Eu sou um terráqueo; sou brasileiro e professor.
 
Com certa falsa modéstia, lamentamos a pobreza de vários idiomas que não distinguem, como nós lusófonos, os verbos ser e estar. Mas será que essa distinção é de fato significativa e justifica nosso orgulho infantil? Parece-nos evidente que estar é algo provisório, completamente distinto do apelo ao essencial de ser algo. Por um momento, diria que não há nada mais lógico. Na mitologia das opiniões, dizem até que houve algum filósofo alemão que louvou esse brilhante insight ibérico - quase natural e revelador de uma verdade acessível a outras culturas apenas por meio da reflexão. Parece simples: o estar revela algo fluido, heraclitiano, o ser é platônico. Ponto.
 
 
 
Mas o erro está em pensar que as duas coisas se opõem. Entre o mundo das ideias e o pánta rheî há uma coisa muito confusa e misteriosa gerada pela mente humana. Vem dela parte da pasteurização que divide coisas que sãocoisas que estão. Uma maçã específica está podre porque ela não é podre por natureza: já foi boa de se comer e agora não é mais. O estar nesse caso não seria mero recurso descritivo de nossa visão utilitarista e pragmática? Afinal, é mais importante vermos as maçãs como coisas para ser comidas do que como fruto de uma rosácea. Penso: qual seria a palavra que designaria o contrário de sua podridão? Qual é o caráter eterno de sua essência, estranhamente abalado pela podridão passageira? Não há palavra que sintetize a não-podridão, o ideal de toda maçã comestível: recorremos a uma negação para afirmarmos que a maçã é não-podre.
 
Em russo não há nem verbo ser nem verbo estar, ao menos no presente. As línguas eslavas costumam fazer o tempo passado com o verbo ser e um particípio, variável em gênero e número. Em tcheco é assim que se faz, exceto na terceira pessoa, quando o verbo ser é omitido e fica igualzinho ao russo (nessa língua, a omissão se dá em todas as pessoas). Uma pessoa conhecida, da República Tcheca, ao saber como o passado é feito em russo, ficou surpresa e exclamou: o russo é mais lógico! Pra que o verbo ser? Ele não significa nada. Talvez esse insight só fosse possível em uma língua cuja omissão parcial é possível. Não sei se um falante de português concordaria.

Quando descobri que em iorubá há vários verbos que traduzem o nosso ser e estar (pelo menos nove), fiquei bastante surpreso, talvez tanto quanto um alemão ao se deparar com a abundância de nossos verbos auxiliares. Essa multiplicidade não é enganosa. Há, de fato, muito mais coisas por baixo desse iceberg.



Comecei a pensar nisso quando li uma passagem no livro Musicophilia, onde Oliver Sachs, a certa altura de suas deliciosas narrativas médicas, se considera (como muitos) um judeu ateu. Mas que é um judeu ateu?, pensei eu. Sou eu um católico ateu? Obviamente não há contradição a não ser se fizermos uma leitura ingênua. Dizer isso tem algo de metafórico e pelo contexto se depreende claramente: Sacks vivenciara, na sua infância, um ambiente de músicas, comidas e tradição judaica, embora seja hoje um ateu. Pela mesma lógica que mescla passado e presente, poderíamos dizer que Michael Jackson era um negro branco. Não ouço com frequência definirem os velhos como jovens velhos nem os adultos como crianças adultas, mas a graça das expressões acima é de uma grande profundeza filosófica.

Sim, somos crianças adultas. Disso estou convencido e Freud também. A memória de nosso passado nos acompanha e não nos abandona nem mesmo quando surge algum tumor cerebral que nos impede de adquirir novas informações.  Ainda somos alguém, mesmo presos no passado, mesmo que essa essência seja gritantemente distinta do que dizem que somos. É o caso de Jimmie G., the lost mariner, que pensava ainda ser jovem e que seu irmão já casado ainda era noivo de sua atual esposa, pois não retinha memórias recentes, como Leonard Shelby, do perturbador filme Memento (2000).

A frase de Sacks lembrou muito a de uma ex-professora de alemão que se definia por meio de todo seu percurso religioso, dizendo-se judia testemunha de Jeová adventista do sétimo dia. E de fato penso que era isso tudo, a ponto de, ao envelhecer, coerentemente vender tudo para ir a Israel e lá passar seus últimos dias. Na sua lógica, corroborada por versículos bíblicos escolhidos com esse fim, só os que estivessem lá seriam arrebatados na vinda de Jesus. Mesclando tudo na sua religião pessoal, praticava aquilo que achava correto nas três religiões, mas era uma eterna dissidente. Como a mescla é inerente do ser humano, cheguei à conclusão que esse comportamento singular não é exceção.
 
Não há paradoxos óbvios quando os adjetivos revelam campos semânticos distintos. Obviamente ser um brasileiro ateu não causa qualquer surpresa, pois se trata de dois conjuntos que não se ancoram na mesma realidade. Mas que significa ser brasileiro? Meu bisavô, pai de minha avó materna, era africano. Sou africano também? Ou sou espanhol, porque meu outro bisavô, pai de meu avô materno, era andaluz? Ou italiano porque, da parte do pai, todos vieram de Rovigo? Seria mais sensato dizer que sou brasileiro, porque nasci no Brasil e me sinto brasileiro, mas já vi mais de um brasileiro que se sente italiano por causa da sua ascendência e, por isso, se diz italiano (com cidadania italiana e tudo). Portanto, ser envolve razões reais e psicológicas. Não é tão simples assim to be or not to be...
 
Por exemplo: eu sou professor. Mas não o tempo todo. Sou porque a minha vocação, a minha carteira de trabalho, a sociedade e tudo o mais me transformaram performativamente num professor. Mas não era professor antes de ser um professor. Sou então um não-professor professor? Devo ser professor agora sempre e em qualquer lugar? Era o que pensava  Immanuel Rath do filme Der blaue Engel (1930), puxando as orelhas dos alunos, fora de sala de aula: mesmo que fosse preciso entrar num cabaré para discipliná-los. Ironicamente é num cabaré que encontrará Lola-Lola.

 
Digo com frequência que sou um primata (e o faço com convicção), mas já ouvi de uma amiga católica fervorosa algo como: só se você for, pois eu não sou coisa nenhuma. Pela definição biológica, eu tenho razão: ela é primata tanto quanto eu. Mas não se sente assim. É seu direito, pois o verbo ser tem essa ambiguidade: sou o que sou, mas também sou o que sinto ser. Em alguns casos, a definição dá tão pouca margem a metáforas que não há contradição possível. É o caso quando digo que sou terráqueo e que sou vertebrado. Quando a definição inexiste, reina a metáfora. E o ser, como tantas palavras, sofre de metaforite.

Aplicar a si frases como sou bom, sou honesto ou sou inteligente revela falta de modéstia ou prepotência. Os outros que devem dizer, não eu. Mas os outros têm rótulos demais. Por exemplo, o que significava ser subversivo na época da Ditadura militar? Era quem se opunha à situação política de então. O que significa ser reacionário nos dias de hoje? A mesma coisa.  Uma mesma pessoa, que sempre questionasse o governo, independentemente das suas qualidades, poderia ser definida hoje como subversiva reacionária? Sim, mas há de se convir que é um rótulo estranho. Quem mudou nesse caso? Ela ou a sociedade?

Sempre achei deliciosa a fala das personagens de Nélson Rodrigues. Vez ou outra, a personagem faz um discurso em que apresenta à plateia suas fortes convicções e conclui com a frase "Eu sou assim". Como se firmasse um contrato com os ouvintes, essa frase evidencia invariavelmente a sandice da personagem e sua total inconsciência de si mesma. Só alguém muito certo de seus valores (e, portanto, tão inconsciente quanto a personagem) não se identificaria nesse momento.
 
Alguém poderá tentar refutar-me: peraí, eu sei que não sou muitas coisas. Mas o não-ser não é definitório, já sabia Aristóteles. Pois bem. Digamos que eu diga, pense ou me convença de que eu não sou cruel. Parece ponto pacífico: não faço mal a ninguém, não maltrato nem uma mosca. Portanto, faço jus ao título de não-cruel. Certeza passageira. Virá certamente alguém e me interrogará: você come carne? Se disser sim, uma longa cadeia de raciocínios e fatos me mostrará que pactuo com a matança de animais para satisfazer a minha necessidade carnívora. Muitas vacas são abatidas cruelmente. Se não sou cruel, pactuo com a crueldade e isso não me isenta. Indiretamente seria uma prova de que sou sim cruel.
 
Entramos num campo ainda mais sutil:  alguém é algo não só por uma definição ou por um julgamento, mas por estar numa cadeia de acontecimentos, concordando ou não com eles. Por mim, todas as vacas viveriam, porque hoje sou incapaz de matar um animal. Capturado pela contradição de estarmos nessa rede, somos muitas coisas que não sabemos. Somos mais responsáveis do que pensamos por tudo que criticamos. A culpa não é só deles, mas principalmente nossa. Muitas guerras aniquilaram muitas vidas por causa desse raciocínio: não importa se você é a favor ou não das atitudes de um dirigente doido: sofrerá apenas por estar na cadeia dos acontecimentos, pois está ligado indiretamente a eles. Situação e oposição não andam de mãos dadas, com certeza, mas, entre elas está uma terceira amiga, a injustiça. Se prevalece momentaneamente a opinião de qualquer uma das duas, é a injustiça que sempre se fará ouvir.
 
As línguas são deficientes. Suas regras são contraditórias e seu vocabulário é ambíguo. Servem para expressar pensamentos, que, por sua vez, são invariavelmente confusos. Pobre bicho humano, pretensioso ao máximo. Mesmo assim, arrogamo-nos em uníssono: eu tenho sempre razão e você é isso ou aquilo.
 

sexta-feira, 8 de março de 2013

VOCÊ PRECISA DE UM LÍDER?

As modinhas linguísticas têm, como tudo, seus movimentos de vaivém. Está de volta a palavra líder, com um valor semântico curiosamente simpático e positivo. Para mim, o encanto crescente e inequívoco com essa palavra não é tão óbvio assim.
 
Poucos sabem, porém, que o anglicismo leader, de onde obviamente vem a palavra, é equivalente exato do alemão Führer, que não é tão simpático, por razões óbvias. Ambas significam a mesma coisa: "aquele (sujeito) que conduz (as pessoas)". Para onde as conduz? Não nos é dito, mas suponho que é para onde desejam ir os liderados. Como a insatisfação humana é infinita, o líder tem o raro poder de criar-nos a ilusão do contentamento. E consegue isso com incrível rapidez, sobretudo quando se escancaram abismos entre o nada e o mínimo. Um big bang social às vezes nem sempre tem razões claramente identificáveis.
 
Obviamente, em muitos aspectos sociais é preciso haver liderança. Nenhuma equipe, nenhum projeto, nenhuma boa ideia, nada, enfim, é construído sem algum coordenador dos movimentos, o qual sempre relembrará aos demais os objetivos iniciais, com a única finalidade de evitar-se a dispersão de ideias. Periodicamente, esse coordenador concentra forças positivamente em direção a uma meta comum, para que haja uma progressão coerente ou simplesmente para que os objetivos iniciais (alterados ou não, com base em negociações honestas) não se desmantelem. Essa é a faceta positiva da liderança e, nesse sentido, é perfeitamente aceitável também sermos liderados. Nesse sentido positivo, talvez o único, é verdade que aplicamos uma metáfora bastante elástica à ideia de "conduzir", uma vez que, neste caso, e somente neste caso, não há abusos de ambos os lados. A ausência desse mecanismo coordenado conduziria ao caos, ao desespero e ao niilismo.
 
O abuso, porém, é uma tentação grande para quem lidera, principalmente se tem algum tipo de carisma e aceitação incondicional dos liderados. Volta-e-meia vemos líderes que, uma vez certos de seus amplos poderes, praticam a liderança abusiva. A própria massa que o apoia empenha-se em calar, de maneira não raro violenta, os que não o apoiam incondicionalmente, os quais, por fim, acabam por recuar em sua prudência (ou em sua covardia?). Vemos por vezes nascer em democracias traços do fanatismo, do fascismo, do nazismo: pessoas cegas aos defeitos das lideranças e surdas ao raciocínio contrário, incapazes de querer novas mudanças para além do mínimo, acomodadas à sombra de uma figura mítica que os envolve com palavras cheias de metáforas evocativas de nosso ódio primal ou capazes de desviar nossa capacidade de amar. Enfim, é espetáculo assombroso ver pessoas, aos prantos, dizendo sinceramente que devem tudo (até mesmo sua vida) ao líder. Sem auto-estima para além dessa dependência emocional, essas pessoas, supostamente socorridas pelo líder ou por algum mecanismo emanado da sua sabedoria, fecham seus punhos à crítica e temem a mudança, quando, tempos atrás, eram as mesmas que a desejavam.
 
Esse paradoxo dos liderados (querer a mudança, conseguir um pouquinho dessa mudança e não querer mais a mudança) é condição primária para as lideranças abusivas. Nesse caso, devemos responsabilizar o líder e seus excessos ou deveríamos responsabilizar os liderados? Difícil saber. Um não vive sem o outro. O líder às vezes é um militar; às vezes, é um religioso; às vezes, é uma pessoa cujo carisma emana da sua proveniência das camadas oprimidas; às vezes, é um intelectual. Tendo, porém, conseguido o comodismo dos liderados, não se encaixa mais em nenhuma dessas categorias mundanas: torna-se um semideus, um herói, uma figura épica, uma lenda.
 

O mundo sempre foi assim? Provavelmente, pois não conheço nenhuma sociedade que viva em perfeita anarquia (no sentido estrito da palavra).

Pôr ordem nas coisas é uma necessidade humana. Parece que todos sofremos, em diferentes graus, de algo parecido com um transtorno obsessivo compulsivo. O caos nos desagrega. Talvez isso seja biológico, pois a regularidade e a ordem está nos instintos de outras espécies, como as abelhas e o pássaro Ptilonorhynchus nuchalis (vale a pena procurá-lo no Google). Não nascemos em tabula rasa, como queria o grande filósofo Locke: desde o início de nossa vida há algo que nos incita à visão geométrica das coisas, à expressão e à empatia. A insegurança do caos nos faz encontrar traços distintivos em fonemas sem que ninguém nos ensine a fazê-lo, faz-nos ver igualdade simbólica em coisas distintas desde que somos bebês; faz-nos construir padrões metafóricos de cognição.
 
Falando nisso, um sábio é um tipo de líder que se expressa apenas por metáforas. Não importa se metade delas é incompreensível: continuará sendo um sábio. Por vezes, nem há algo real para alicerçar essas metáforas. Mas também é verdade que não precisam de realidade: nós, humanos, candidatos a liderados, já vivemos no nosso mundo construído pela linguagem e, pautados nela, raciocinamos e nos envolvemos, amamos e odiamos, desprezamos e adoramos, construímos e destruímos.
 
O mundo construído pela linguagem só é suficiente para quem não quer perder tempo em reflexões, para quem nunca se questiona, para quem sempre acredita ter razão, enfim, para quem nunca vê enfim contradição em si mesmo. Candidatando-se para fora desse mundo prático, explicações para tudo são muito diversas: na Física, propõem-se há forças invisíveis; nas religiões, impõem-se deuses; na política, insinua-se a existência de poderes especiais a determinadas pessoas. Olhando para o passado, percebemos que já fomos bem mais crédulos, pois naquele mundo de ontem, a informação era circunscrita apenas a alguns, cabendo aos outros aceitar sem questionamento, mas estamos ainda bem longe de ser os seres racionais que imaginamos.

Desprezo a fé no crescente movimento do conhecimento rumo à perfeição (como queria Comte) e penso que nosso raciocínio atual nasce de uma sucessão de acasos, esquecimentos e oportunidades: os neoplatônicos não fizeram o raciocínio pré-socrático e aristotélico regredir espantosamente por mais um milênio quando se converteu em cristianismo? Não se perdeu o conhecimento científico que arrastava multidões de cidadãos a voluntariamente construir pirâmides? O enciclopedismo da Revolução Francesa não se tornou monarquia bonapartista rançosa? A cultura e a tolerância dos alemães oitocentistas não se tornou o mais obsceno nazismo no século XX? Direitos se ganham, mas também se perdem, numa velocidade incrível: uma geração se mostra incapaz de ouvir e entender a outra. O esquecimento é ubíquo.
 
Incomoda-me quando, embevecido por uma pequena aquisição de direitos, o acomodado se arma com um soco inglês, pronto a esbofetear quem problematiza ou vê algum ponto destoante. Cego pela verdade do senso-comum, é até mesmo capaz de cravar um bordão (ora reacionário, ora subversivo) na testa de quem apenas propõe pensar para além dos novidogmas que todos devemos engolir sem maionese. Por um salto de raciocínio bastante estranho, o crítico, em ambiente de tirania, torna-se um Caim ou um Judas. Sim, se tudo é perfeito como dizem o líder e os que seguem o líder, por que, nessas condições férteis para a tirania, a miséria intelectual impera? Aliás, pergunto-me: por que o raciocínio está tão fora de moda? Por que precisamos de uma tribo, de um grupo, de uma seita, se finalmente descobrimos a duras penas que somos indivíduos? Por que precisamos da aceitação de todos, se as massas não têm cérebro e se os cérebros dos indivíduos integrantes da massa não se somam, mas deles apenas extraímos, como mínimo denominador comum, a mais rasa das obviedades? Por que a música, a marcha e as gigantescas imagens do líder nos fazem chorar e, ao mesmo tempo, nenhuma lógica tem esse poder? Por que os delírios do romantismo parecem voltar nesses momentos da forma mais irracional possível?
 
 
 
 
São áreas distintas do cérebro que respondem a isso e os liderados se bloqueiam por alguma razão. A lavagem cerebral e a fé irrestrita dependem, provavelmente, de uma atuação direta no nosso lobo temporal encefálico, o qual é curiosamente também é responsável pela arte, pelo sexo e pela religião, como nos ensina Oliver Sacks, em seu Musicophilia. Espelho do aceitável pela massa, são exatamente nessas três direções que colateralmente age a tirania a maior parte das vezes: cerceando expressões artísticas críticas ou pouco convencionais, aceitando somente heterodoxias sexuais e limitando-se apenas às religiões tradicionais da grande maioria. No seu apogeu, a pudicícia da tirania é uma de suas características comportamentais mais bizarras. 100% freudiana. Como se poderia facilmente esperar, a consequência imediata é a repressão das minorias e a paradoxal vitória do status quo, mascarada de revolução.
  
Desse modo, torna-se mais fácil entender por que uma liderança não se faz por meio de lógica, mas por meio da sandice. O mundo feérico do líder e de seus seguidores não é o mesmo mundo real que, para conhecermos, bastaria abrir os olhos. Nesse mundo enlouquecido, a verdade do líder é inquestionável e irrefutável. Não há e não pode haver contraprovas. Se existem, trata-se de uma conspiração e é incrivelmente fácil flagrar o discurso paranoico do tirano no auge de seu poder. É um mundo platônico e abstrato. Para proteger os liderados do perigo sedutor da contaminação com a realidade, é preciso que esse mundo perfeito seja fechado e desinfetado, impedindo, de uma vez por todas, que antíteses aos seus dogmas sejam ouvidas pelos que potencialmente raciocinariam. Nesse mundo, ninguém pode dizer em voz alta: pánta rheî! Embora ajam como se não dependesse do mundo, os embargos às tiranias provam o contrário. Mas até mesmo isso é um trunfo ao tirano, pois parte de seu poder vem da sua própria vitimização. Em seus discursos, não é todo tirano uma vítima, como a massa que salvou? O raciocínio do tirano precisa de todo um mundo fantástico, inutilizado pelas refutações de Popper.
 
O mais irônico é que as minorias, crucificadas e contrárias ao pensamento do tirano e das massas, no final das contas, deixam sementes rancorosas, donde germinarão outros líderes ainda mais bizarros, os quais inverterão o jogo e destruirão, de forma igualmente tirana, os que não se converteram ao novo raciocínio. Parece que a história da Humanidade se resume enfadonhamente a isso, num ciclo que, visto por alienígenas, dificilmente conduziria à conclusão que somos os animais racionais que arrogamos ser.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

NELSON RODRIGUES E TARANTINO

É até engraçado meter-me a fazer crítica. Tenho perfeita consciência da minha incompetência nisso. Mas essa consciência é que me faz escrever. Tomei coragem porque tenho visto nos últimos tempos tanta gente com o rótulo de crítico fazendo comentários vagos, pessoais e imprecisos. Pensei: no mundo democrático da internet podemos ser quem quisermos, por que não? No mundo de duas ou três estrelinhas, de dedinhos dizendo "curti", por que não um punho fechado?

No fundo todo mundo é crítico. E filósofo. Não falo de qualidade. Nem sempre é fácil ou possível medi-la. Sabemos fazer isso dentro de nossa especialidade. Eu, por exemplo, detecto um etimólogo fajuto a quilômetros de distância. Assim faz o médico, o físico e todos que têm os pés alicerçados em certezas para além das suas meras convicções.

Só que sou um crítico um pouco atípico. Hoje é legal dizer que odeia este livro, aquele filme, aquela peça. Parece profundo. Obviamente há coisas que me agradam e outras que me decepcionam. Mas sobre as que me decepcionam não é bom falar contra. Exporia minhas fragilidades. Ademais, a crítica honesta de uma obra, se não estou muito enganado, se faz a partir das premissas do autor e não do próprio crítico. Pelo menos, é o que se deve fazer, quando lemos filosofia.

Dentre os filósofos, há alguns que são dificílimos de ler. Confesso ter sido cuspido dos textos de Hegel, Kant e Husserl. Tenho uma sensação de que não valeria a pena esforçar-me para ler o primeiro e a sensação oposta para os dois últimos. Mas que isso interessa? Se não entendo, não há crítica a fazer. Minhas limitações não deixariam. Também por alguma razão, não acompanho bem alguns tipos de filmes. Recentemente fui assistir ao Lincoln, de Spielberg, mas... não entendi nada. Acho que terei de revê-lo, talvez o veja umas três vezes. Como havia muitos barbudos, foi a prova cabal de que tenho mesmo alguma tendência à prosopagnosia. Ou talvez tenha sido a insônia do dia anterior que não me deixou concentrar em quem era quem. Ou talvez a minha falta de interesse em saber como aqueles toscamente retratados Estados Unidos se tornaram a consabida glória que são hoje. Ou talvez minha burrice me impediu de ver a mensagem que tantos viram nele. Enfim, não sei o que, na complexa trama do filme, me fez perder interesse. Havia muita cumplicidade com a plateia. Não consegui rir ou chorar na hora certa. Fiquei irritado comigo mesmo e com vontade de dar meia estrela ao filme, mas vejo que o problema é comigo.

O que salva minha auto-estima nessas horas é perceber que talvez seja sensível em outras circunstâncias. Um dia antes havia visto o Django unchained de Tarantino. Não gosto da sangueira gratuita dos filmes americanos. Cansa a quantidade de serial-killers e outros esquisitões sádicos da lavra americana. Tarantino, sem dúvida, é um dos mais sangrentos. Nunca tive paciência para ver até o fim o tal Kill Bill. Além disso, Pulp Fiction me perturba negativamente. Enfim, Tarantino tem tudo para que eu deteste de antemão o que faz. Mas não: Tarantino é de fato diferente.
 

Se me incumbo da penosa tarefa de abstrair todo o sangue, pois aí não vejo muita novidade em relação ao que fez, por exemplo, Jim Jarmusch em seu Ghost dog, vejo alguém que de fato mexe com a tela como poucos faziam. Até mesmo o deus ex machina, recurso não-recomendado desde Aristóteles, nas mãos de Tarantino se torna uma ferramenta poderosa. O final romântico, recurso ruim na mão de outros, se torna quase necessário, afinal de contas não é, aparentemente, um filme que pretende divertir e não jogar a realidade na nossa cara? A ficção, por isso, se transforma em algo tão grotesco, que não discernimos o que é o improvável e o que é o perverso. Mas eu apostaria que Tarantino é mais inteligente do que pensam muitos críticos que se decepcionam com o que faz.
 
Nesse filme, há uma dialética entre bom e mau, entre branco e negro. O branco mau é rico, poderoso e burro. O negro mau é inteligente e goza da tradição do branco bom e de seu dinheiro. O branco bom, porém, faz o que deve ser feito, por dinheiro e age como Krishna convencendo Arjuna no Mahabharata. O negro bom só consegue ser amoral em nome do amor. É nessa dimensão heroica, em que as personagens têm volume real como numa epopeia, que Tarantino se sente confortável. Para tal, escolhe enigmaticamente figuras como Brad Pitt ou DiCaprio.
 
Mas também penso que não há tanta ficção quanto se imagina. É irônico que seja um alemão o branco bom (principalmente depois de Inglourious basterds). Mas não é inverossímil. Os alemães (ao menos os célebres) de 1850 eram mais cultos que os americanos, estavam mais para Goethe do que para Hitler. Aliás, é também sintomático que quem esteja apostando, na época proposta, nos tais mandingo fighters sejam um americano e um italiano (evocando-nos Lombroso e outros simpatizantes americanos da frenologia, como Samuel Morton). O desfecho dramático do pós-guerra, parece justificar a miopia anacrônica. O mesmo raciocínio talvez seja válido para o abuso tarantinesco do tal termo nigger, abundamente utilizado, que chocou tanta gente. Penso: tal palavra não será hoje pejorativa por ter sido usada demais no passado e adquirido a carga semântica atual? Ora, o filme está no passado. Em Lincoln, salvo engano, não aparece (usam negro, mesmo em falas altamente preconceituosas). Tarantino tampouco parece ter medo de anacronismos e inverossimilhanças descaradas, como as de Inglourious basterds, mas agora parece-me que o absurdo se contrapõe ao muito provável.

Não, não é possível criticar honestamente o que é feito com amor. E Tarantino faz cinema porque ama, como fazia Truffaut e Kubrick. Não vejo repetição desnecessária, falta de imaginação, nem nada que os críticos profissionais falam. Vejo um homem obsessivamente procurando a perfeição da explosão-catarse. E um bando de gente enjoada tuitando frases retumbantes e vazias. Ponham a claquete na mão deles para ver se fazem melhor.  

Dentro ainda do anacronismo do politicamente correto, recordo-me de Nelson Rodrigues e de sua obsessão tão incompreendida ainda hoje. A meu ver, será sempre. Parece que grita nas suas peças: temos consciência de nossa inconsciência? É fácil acompanhar tudo que escreve, assim como é fácil entender os filmes de Tarantino. Difícil é descrever o incômodo que causam em todos. As suas personagens parecem planas, ou pelo menos falam como se fossem. As relações são planas. E o que subjaz a tudo isso é o crime, a traição e tudo aquilo que é cometido com uma carga enorme de inconsciência. Parece gratuito. Ofende. Quem não entende sai batendo no peito: "eu não sou assim". É batata!
 
Quando vejo obras como a desses dois mestres, sempre à busca da perfeição da sua estranha mensagem cada vez mais burilada, pergunto-me: se todos nós fôssemos ou Caim ou Abel, haveria necessidade de existir o Direito? Enfim, a punição tem suas bases maniqueístas (quer pensemos na lei de Talião, quer na proibição da fruta no Éden) e o maniqueísmo nunca se fez mais conhecido - desde o tempo do enxugamento de centenas de deuses em Arimã e Ahuramazda - do que nos Dez Mandamentos. Nietzsche falou sobre isso o tempo todo. Com o maniqueísmo, cria-se assim não o certo e o errado, mas o legal e o ilegal, mas nossa tendência ao Barroco nos fez tergiversar imensamente sobre os casos omissos, quer no talmudismo, quer na prática processual.
Nélson Rodrigues flagra o impulso e o absurdo daquilo que chamamos vida. Para isso precisa de personagens planas, não só para fazer-se entendido (e mesmo assim não o é facilmente), mas também para alertar-nos de que é algo muito primitivo. O pós-impulso, dificílimo de ser julgado, quer por dez mandamentos, quer por mil leis, nos faz pensar que o impulso que gera a dúvida não é atávico, nem animal. A perversão está à ronda.

Mas aposto que Tarantino e Rodrigues não pregam a perversão. Alertam, porém, que ela é natural. A vida como ela é. Nenhuma revolução moral, seja religiosa, seja política poderá dar cabo dela. O id sempre existirá. Os interesses também. Em sociedade, o embate entre o id e os interesses só consegue alguma vitória mediante violência ou silêncio cúmplice. E essas duas soluções são faces de algo maior, chamado tirania. Poucos admitem que muito do que é considerado correto é também um tipo de tirania, tão necessário nos parece nos dias de hoje. Seremos hipócritas?