O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

Minha foto
Sou um saci sumério de Botucatu.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

ONDE ESTÁ TEU NEMATOCISTO?

Um grupo de animais chamado cnidários desenvolveu, em priscas eras, um mecanismo engenhoso. Trata-se de células altamente especializadas chamadas cnidoblastos, que têm um pequeno cílio, o qual, levemente tocado, abre um alçapão e projeta uma seta pontiaguda serrilhada e embebida em veneno. Como são frágeis, muitas vezes muitas dessas células se perdem com uma única presa, no entanto, tais seres têm a capacidade de regenerá-las em algumas horas. Existem animais, porém, que têm a habilidade de comer essas células, como algumas lesmas do mar, e, por cleptoplastia, usa-as como se a evolução lhes tivesse dado essa arma.

A morte é tão antiga quanto a vida: é tão difícil imaginar o primeiro conjunto de células replicantes que se organizou em um indivíduo vivo, quanto o primeiro insucesso de sobrevivência que resultou na primeira morte. Antes da vida, tudo era morte (isto é, física ou química), mas uma vez havendo vida, a morte passou a ser não mais uma condição eterna, mas um momentoso segundo na biografia de um indivíduo. Nesse segundo, o ser antes vivo está agora morto, tenha ele vivido muito ou pouco. Tudo que é vivo um dia morrerá, tautologia e contradição que nos atormenta. E nesse mundo atual de vetustos silício e alumínio e moderno plástico, envenenado pelo oxigênio das fotossínteses, que aprendemos a respirar embora nos corroa, conferindo-nos vantagem de sobrevida para os não-imortais que somos por não suportarmos o sulfeto ferroso e o gás sulfídrico da quimiossíntese dos autótrofos, nem a fermentação alcoólica dos heterótrofos primevos, com seu etanol e gás carbônico, rastejamos expulsos do ventre da nossa mãe que desaprendeu a pôr ovos e da sua carne que lhe escondeu o esqueleto, ramelentos, chorando, sem entender nada até o último dia de nossa vida, amaldiçoados pela consciência. Nascemos sem nematocistos.



Nascemos sem acúleos, nascemos sem quelíceras, esses órgãos que trazem a dor e a morte, tão belamente esculpidos pela evolução nos corpos dos artrópodes, nascemos sem o mimetismo dos polvos e dos camaleões para fugirmos, nossa tez nua, negra, amarela ou rosada, se destaca do verde da mata à vista da harpia e à vista do leopardo, sem a velocidade de uma gazela para correr, sem a habilidade de escalar as árvores de nossos primos de primeiro grau, sem rabo de anquilossauro, na verdade, sem rabo algum. Pelados, corremos e ficamos atrás de pedras, dentro das covas. Medrosíssimos nascemos, interpretando um urro acolá, um chacoalhar de cascavel aqui, descalços pisávamos sem cascos as pedras pontudas e a mata que escondia seres proteróglifos e solenóglifos diversos. Como fazer?

Sim, nus, sem couro, sem espinhos, sem cascos, nem nematocistos, sem rabo, sem acúleos, sem quelíceras, lentos, com o esqueleto dentro da carne: um mero tropeção (pois não somos cabras monteses) e despencamos para a morte, levamos nossa prole desajeitadamente no colo, não em marsúpios, nem nas costas como os pipídeos, morrendo com o frio demasiado, morrendo com o calor demasiado, sem dentes caninos decentes para rasgar a carne de nossas vítimas, sem unhas pontiagudas, mas quebradiças e inúteis, com um pelame que crescia incomoda e infinitamente do nosso rosto e da nossa cabeça, expostos aos vermes que penetram pelos pés, aos infinitos protozoários que fazem do nosso corpo o seu lar por meio das picadas dos mosquitos, volta e meia mortalmente ferroados por abelhas que apareciam tão logo uma folha era puxada para passarmos. A generosidade da natureza com nossa espécie parece que foi nula. Nosso olfato é o pior de todos, não enxergamos à noite e, durante o dia, só vemos e ouvimos a uma pequena distância, nossos músculos são franzinos e sequer temos vomerolfação. Como o ruminante, que parece existir apenas para alimentar o leopardo, nossa missão nesse mundo, aparentemente, era ser repasto de feras. Éramos sem dúvida a mais frágil das criaturas, muito mais do que os moles insetos que esmagamos com os pés ao caminhar sobre a relva, sequer percebendo que lhes tiramos a vida.


Será possível que há alguma vantagem de termos perdido o tórax de um gorila, de termos dispensado o rabo de um macaco-prego? Que vantagem é essa que nos fez como somos? Será que o nosso cérebro chupou, como fofocam por aí, todas as nossas forças primevas, arrancando-nos pêlos tão úteis, músculos tão importantes, caudas tão oportunas, para converter em mais mielina para nosso encéfalo, num plano a tão longo prazo? O cérebro pensou que, para nós, seria melhor um Leonardo Da Vinci do que uma gorila Koko? Que vantagem o cérebro viu em nos alijar de todas as nossas armas preciosas dadas pela natureza, de nossos venenos corpóreos, de nossas carapaças de tatu, deixando-nos indefesíssimos enquanto nosso cérebro não parava de crescer, e crescia lentamente? Havia um plano sádico de matar milhares de gerações para, no fim, sermos a glória que somos, o mais arrogante dos animais, que se imagina a imagem do Deus que imaginamos para nós e para os outros? 

O leitor biólogo estará meneando a cabeça num conspícuo "Não" face à ignorância que se esconde nessa minha última pergunta. Dirá ele, explicando: "ora, seu hegeliano, não há causa final alguma, não há plano, não há nada: tudo é acaso. Tudo somente sempre foi e será acaso. O DNA enlouqueceu um certo dia e multiplicou os anéis do corpo das minhocas; o DNA enlouqueceu um outro dia e tornou o teu lado direito igual ao teu lado esquerdo; o DNA enlouqueceu novamente e aglutinou todo o teu sistema nervoso perto da boca no plano transversal e não perto do ânus; o DNA mais uma vez enlouqueceu e te pôs de pé, ó hominídeo, para que andasses ereto, equilibrando o peso da tua cabeça, porque isso é de algum modo muito vantajoso. O acaso te põe em apuros, ó verme: ou aguentas o que ele inventa ou o teu nascituro morre. E se aguentas e disso tiras vantagem, haverá um parceiro que assegure que o teu acaso te eternize e, de tua prole, nascerá um comportamento novo, com o qual o mundo de silício e de alumínio terá de se adaptar. Tudo é acaso e sorte de teres tido alguma consciência da vantagem que o acaso te proporcionara no seu sádico enlouquecer".



Não há plano, tudo é acaso. Verdade. Mas vermos vantagem num órgão nascido por acaso não é um acaso. É hora de nos defender da sabedoria do que nos humilha em nossa inocente reflexão. Olhos se formam sem que conseguíssemos ver vantagem quando ainda eram simples células fotorreceptoras. O acaso vê necessidade de construir ropálios nos cubozoários que não estão integrados num sistema nervoso centralizado, mas mesmo assim têm cristalino, córnea e retina. O acaso gosta de jogar dados e gargalha quando o dado cai numa vala e fica na transversal, mas Deus não joga dados, segundo Einstein: de que acaso estamos falando? Falo do acaso que conduziu ao pódio, como campeão, um ser esquisito e complicadíssimo como um briozoário, cujos indivíduos ou caçam, ou procriam, ou sustentam os demais. Esse mesmo acaso conduziu outro campeão, que parece um cuspe que anda, que é um placozoário. Se não há plano (e creio que não haja), qual é o critério desse acaso ao eleger os campeões da sobrevivência, se cada forma de vida, séssil ou vágil, autótrofa ou heterótrofa, bilateral ou radial, é um campeão? O acaso não sabe o que quer e é preciso que um novo Zaratustra proclame que Hegel está morto. Cada encruzilhada que permite a antítese é, na verdade, um caminho já trilhado pelo sucesso de outro ancestral. E há poucos bons caminhos, porque muitíssimos nos conduzem a sendas na escuridão que terminam em despenhadeiros que nos sacrificam. A esperteza do hominídeo foi anotar (primeiro na cachola, depois nos incunábulos e agora digitalmente) todos os caminhos que nos conduzem a uma fria. É uma pena que o bicho homem só sabe anotar e raramente volta a ler o que escreveu. E quase nunca reflete sobre tudo que escreveu à luz de alguma coerência que de fato faria jus à sua autoimagem comtiana de bicho que sempre progride. Se assim fizesse, não morreria afogado, não com gás sulfídrico natural, mas com todos os produtos residuais dos quais foi artífice.

Enquanto o mundo se entulha no plástico hominídeo, a evolução está ali, matando muitos e dando chance a criaturas inimagináveis que nos sepultarão. Custo a acreditar que quando cair o próximo asteroide haja nesse mundo apenas tardígrados e arqueas. Custo a acreditar que um bicho que teve a esperteza de deixar seu esqueleto do lado de fora sucumba antes de nós. O veneno em que nossa cnida maledicente se encontra não será suficiente para nos redimir: é metafórica demais.

domingo, 31 de março de 2019

DESCULPAS PARA DESCULPAR-SE

Quem acredita que as coisas existem apenas quando lhe dão um nome pode entrar numa enrascada medonha ao descobrir que não é bem assim que o mundo humano funciona. O mito de que a existência de algo provém da existência de um nome ganhou força, como tantas outras inverdades, do esforço iluminista. Assim, um termo em Física como força não se refere à estupenda qualidade fisiocultural de um Gregg Valentino ou de um Arnold Schwarznegger. Para começar, essa força se atenua com o tempo e desaparece com o falecimento de quem a detém. Uma definição corta as asinhas da polissemia, dando ao termo um só significado. Depois disso, a palavra passa a se comportar, lobotomizada, como um x qualquer de fórmula. Se isso é bom ou ruim, não discuto aqui, porque nem sei se faria sentido, mas fato é que as palavras preexistem aos termos e, portanto, são mais interessantes do que ficar falando de x ou y.



A mente iluminista parece ter entre os seus grandes mentores a figura de Claude Favre de Vaugelas (1585-1650). O anedotário ironiza o seu purismo extremado, dizendo que suas últimas palavras no leito de morte seriam "Je m'en vais, je m'en vas, l'un et l'autre se dit ou se disent". Eu gosto mais de uma versão aproximada (que eu não sei se fui eu mesmo que involuntariamente criei na minha mente fantasiosa ou se li isso no livro Introduction aux études de philologie romane, de Erich Auerbach, traduzido do turco), que afirma que suas últimas palavras teriam sido "Je m'en vais: je ne m'en vas pas!", usando uma fórmula parecida com o anônimo gramático do Appendix Probi. Gosto mais dessa última versão da fake news, porque, de fato, Vaugelas não se foi, Vaugelas está mais vivo que nunca. Se Vaugelas aceitava ou não a forma "je vas" era problema dele, convenhamos. Fato é, contudo, que essa obsessão, que eu poderia chamar de vaugelaisite aguda, seja Vaugelais o primeiro que a transmitiu, ou não, acometeu e acomete desde então tantos seres cultos e incultos, que a gramática normativa e o senso do que é uma língua nunca mais foram os mesmos. Desse modo, de fato, Vaugelas ne s'en est pas allé.

A vaugelaisite é uma doença que atinge o cérebro e tem alguns sintomas muito claros: num primeiro estágio, o doente acredita que letra e som são a mesma coisa, em seguida, o doente acredita que uma palavra só tem um significado, por fim, o doente acredita que apenas uma forma cabe em uma flexão de uma palavra e, no estágio terminal, acredita que significados de uma palavra são ordenados em uma escala de honra e dignidade. Se provamos que a letra <a> não tem nada a ver com o som [a], que palavras têm vários sentidos aceitáveis em qualquer situação e que pãos ou pães é questã de opiniães, o acometido do surto vaugelaisítico dirá que delirante é quem afirma tais coisas e que as provas que apresento (gravadas e escritas) simplesmente não existem. O primeiro comportamento dos vaugelaisíticos, quando têm poder, é demitir quem fala errado e censurar (em casos extremos, bater e matar em nome da única língua existente e nacional); se tem alguma cultura, a vítima de vaugelaisite sairá editando gramáticas, cursos, vídeos, numa cruzada contra os erros de linguagem, crendo piamente que a "forma correta" foi ditada em algum monte Sinai e vem de uma esfera mítica. Alguns cultos, menos surtados com esse delírio napoleônico, não agirão de forma menos pior: afirmarão que as formas corretas estão nos autores clássicos e são capazes de esgoelar contra quem afirme o contrário ou mesmo rasgar a obra do seu venerando autor clássico, se seus contestadores mostrarem passagens que sirvam de contraexemplo a suas hipotéticas verdades. Fato é que o mundo do vaugelaisiano não é aquele mundo real, onde dados refutam teorias: não há ciência alguma em quem evoca o bom falar, o correto pronunciar ou a única forma correta tolerável de se conjugar um verbo. Na verdade, o hospedeiro do verme vaugelaisiano acaba sendo explorado por outros tarados, sedentos de poder, em nome do qual línguas inteiras foram torturadas para se conformarem aos seus preceitos ideiais, vide os contorcionismos dos "linguistas" no expurgo de termos árabes na língua turca durante a época de Atatürk.



Gramáticas tradicionais não eram assim até o período de Vaugelais. Obviamente os povos todos são etnocêntricos: os gregos chamavam os não-gregos de bárbaros e os índios kayapó pensam que a região do Murena é o centro do mundo. As primeiras gramáticas ocidentais, portanto, tinham a finalidade de entender os textos clássicos e não a linguagem, como um todo. As gramáticas mais antigas são mais interessantes, porque os clássicos ainda não se definiram, por isso Varrão é mais interessante que Quintiliano e Fernão de Oliveira é infinitamente mais interessante que Rocha Lima. Antes do período em que o vírus vaugelaisítico se espalhou no planeta, pode-se dizer que se as gramáticas tradicionais valorizavam sim a expressão das classes mais abastadas das capitais de seus reinos ou impérios ou então a expressão de alguns queridinhos (párocos ou escritores), antes do iluminismo, contudo, ninguém em são juízo afirmaria que não existe a expressão por ser dialetal, rural, iletrada ou simplesmente longe da sede do governo. Se eu ouço alguém falar que "menas" não existe, mas, momentos antes e momentos depois, eu ouço gente que fala "menas", então quem está delirando? Eu ou quem diz que "menas" não existe? Estarei ouvindo coisas? Se eu sou louco, por ouvir coisas que não existem, por que implicar com coisas inexistentes? Seria o mesmo que fazer um míssil nuclear contra o bule celestial de Russell. Veja, uma coisa é dizer que algo está certo ou errado, pois nessa afirmação haverá sempre alguém poderoso querendo oprimir ou alguma instituição fundada sobre valores morais, religiosos ou étnicos querendo tomar as rédeas da situação, mas algo completamente diferente é afirmar que algo que eu ouço e vejo não existe. Isso beira uma acusação. E minhas provas não serão provas por pura tirania de quem acusa.

A Real Academia Española e a Académie Française nasceram nesse espírito. Um paraguaio deve pedir desculpas a Madrid por não conseguir falar caballo como deveria; um canadense deve sentir um autodesprezo por se expressar de maneira inconvenientemente não-parisiense. Os vaugelaisíacos são vítimas de uma demência cujo maior resultado é gerar milhões de outras vítimas, infectadas ou não pelo mesmo vírus. Muito mais eficaz que o vírus da ideologite, a vaugelaisite chegou para ficar e é corroborada por professores, governantes, religiosos e pela mídia de direita e de esquerda. Só deixará de existir quando sucumbir o último ser humano do planeta. Na língua inglesa aparentemente esse problema parece menos grave, não sei por quê: ou a roupagem gráfica bizarríssima do idioma inglês tornou a sua gramática misteriosamente imune à vaugelaisite terminal ou os ingleses, com seus próprios Bacon, Locke, Hume, Berkeley, Newton, Stuart Mill, desreprimidos desde que aprenderam a decapitar reis, deram uma banana parcial às esquisitices francesas, tão influenciadas ora pela religião, ora pela anti-religião ou pelo rousseauismo (as quais não foram guilhotinadas na Révolution, como a francesada pensa). Que o diga o pobre Descartes, fugindo de mala e cuia para a Suécia, o mais mascarado e medroso dos filósofos.

Quem me lê pode pensar como então a vaugelaisite chegou tão atenuada a Portugal e consequentemente ao Brasil, até mais do que na Inglaterra. O vaugelaisítico lusófono só reconhece (erroneamente) sua forma típica em poucas pessoas, que são levadas a sério por uma horda que tem surtos esporádicos (embora muitas vezes intensos). Os acometidos falantes de português não levam tão a sério o discurso delirante que motiva a vaugelaisianite e mesmo os nossos melhores juízes, professores e gramáticos se permitem errar uma horrenda concordanciazinha de vez em quando, são fiéis adeptos da pan-próclise, são afeitos a termos imprecisos, beirantes ao chulo, enfim, podemos dizer que é uma espécie diferente de vaugelaisite, que poderia ter o epíteto de hipocrítica. Convenhamos: ridiculizamos às pampas os discursos de Astromar Junqueira ou de um lendário Jânio Quadros ao mesmo tempo que os veneramos como "falantes de um português certíssimo". Mas por que os lusofalantes são assim e não como os venerandos franceses e os invejados espanhóis que introduziram a vaugelaisianidade em sua hemolinfa? Ora, leitor, esqueceste-te do Terremoto de Lisboa, que tanto assombrou Voltaire? Sim, contra a disseminação de uma loucura como o vaugelaisismo nada foi mais eficaz que o terremoto de 1755. Nessa época, o sortudo Bluteau já tinha falecido. Conclusão: nossa língua tem dicionários fenomenais (que não devem nada aos dicionários árabes em dimensão e picuinhidade), mas tem gramáticas que parecem mais com buzinas que chateiam do que com uma incômoda e enlouquecedora microfonia. Todo mundo que é lusoparlante enche a boca para perorar seus discursos com frases como "'cumê' tá errado, o certo é comer (com r trilado)", "entrar pra dentro é burrice", "existe diferença entre 'onde' e 'aonde': não saber isso é vergonhoso", "a regência do verbo 'assistir' quando se refere a 'ver algo' requer a preposição 'a'", "num existe 'avua', é 'voa', seu jegue", "num é 'minino' que se fala, é 'mEnino'", frases que calam a boca de qualquer um, rebaixam a autoestima do ouvinte, apontam para Jericó e prometem uma terra que não existe, evocam tábuas glotomosaicas ditadas por semideuses que ninguém cultua por não saberem onde ficam seus templos.

Alguém se perguntará neste momento se eu também não fui infectado por esse vírus, pois estou escrevendo numa variante que não reflete nada da forma como eu me expressaria quotidianamente. É verdade. Sabe, amigo leitor, a frase anterior me sufoca como se eu estivesse dentro de uma eiserne Jungfrau. Para teres alguma ideia disso, reproduzirei seu original e farás tua comparação: um doceis gorinha memo vai me perguntá se o num peguei ess diabo de vírus, por caus que o tô escreveno dum jeito que num tem nadavê co jeito que o falo tudo os dia. Eis-me, leitor, em meu estado mais feliz, lançado para fora desse casulo horrendo, que é a norma culta. Mas quem me leria? Já até pensei seriissimamente sobre filosofia quinhentista no primeiro documento da expressão botucatuense que existe e ninguém me tomou a sério (em sério?). Obviamente, mesmo na escrita da minha expressão nativa, sou propositalmente conservador, porque achei melhor manter os grafemas <o> e <e> para as postônicas finais, afinal de contas, a tradição escrita não é vaugelaisítica, apenas normativa, no sentido prevaugelaisiano.


O que irrita o autor deste texto não é a norma em si, mas o impedimento de alguém ser o que é e o consequente extermínio de sua expressão. Apoio quem ensina aos filhos e netos expressões de seus avós: não são apenas ararinhas azuis que precisam ser conservadas. Palavras e estruturas morrem de forma miserável com seus falantes e ninguém sente pena. Um dicionário como o de Jerônimo Cardoso (c1508-1564) remetia a uma pessoa culta, feliz, boquirrota e folgazã; já um dicionário pós-vaugelaisiano é soturno e nele se sentem as tesouradas de quem odeia a glotoexuberância. Até na lexicografia houve quem desse pitacos sobre o que existe e o que não existe. E essa pseudo-ontologia lexicográfica (cujo êxito inegável é resumível no mantra "só existe o que está nos dicionários") ocupa meandros sinistros da mente até mesmo dos mais sóbrios pesquisadores da linguagem.

Um vaugelaisiano é um boçal que se imagina cientificamente amparado por sua filosofia. Por exemplo, se alguns significados vocabulares são mais verdadeiros que outros, que devem ser abolidos porque adviriam da ignorância ou da inexistência, ninguém falaria nada nesse planeta e os robôs já  lhes estariam tomando as rédeas. Somente quando isso ocorrer, curvar-me-ei aos vaugelaisiólatras.

Por exemplo, se eu penso bastante na palavra "desculpa" poderei conseguir ver nela uma outra palavra ("culpa"), que é negada pelo seu prefixo "des-". Se eu perguntar a um sábio que revira seus olhos por ter bebido muito da cachaça vaugelaisiana, ele dirá que esse "des-" é um prefixo que significa negação. Ora, se uma desculpa é uma não-culpa, chego a concluir que a palavra "desculpa" seja sinônima da palavra "inocência". Se a cachaça ainda não afetou o hipocampo do prescritivista, ele dirá que não se expressou bem: a desculpa é uma não-culpa no sentido de que quando uma pessoa se desculpa ela pede para que a outra lhe retire a culpa. Podes ver, leitor, que ele já está apelando para a desrazão, porque estávamos falando da palavra "desculpa" e não da palavra "desculpar".

Mas, vá lá, "desculpar" é de fato tirar a culpa de alguém que se sente culpado ou que é de fato culpado. Um padre desculpa o pecador, um juiz não desculpa um culpado de um crime, mas uma pessoa cristã desculpa o próximo, seja ele culpado ou não. Nesse sentido, vemos que o alemão diz entschuldigen, que é a mesma coisa, ou seja ent-=des-, Schuld=culp-, -ig-=-ad-, -en=-ar... Uau, que coisa fantástica é a mente decalcada! Não posso esquecer-me de um dia escrever sobre isso. Mas, por hoje, chega de tergiversações.

Ok, uma desculpa é de fato um ato de desculpar alguém? Acho que não. Se o padre perdoa o pecador, ele não está usando uma desculpa. Se o juiz não incrimina o culpado, também não. Ambos perdoam e incriminam baseados no poder que lhes conferem sociedade e tradição. A desculpa ou é algo que eu peço para alguém (e nesse caso, é o imperativo do verbo "desculpar" e pode aparecer também em outras formas: "desculpe", "desculpem", "desculpai") ou então é algo que dou para alguém, justificando-me por não ter feito o que era esperado.

Pedir desculpas, portanto, é essencialmente diferente de dar desculpas. Quando eu peço desculpas, concordo com o que o outro diz, concordo com meu crime ou com meu pecado. Quando eu dou desculpas, essa consciência não é tão clara, pois estou obnubilado por aquilo que Sartre chama de mauvaise foi. Eu sei, no fundo, no fundo, que eu sou culpado ou que tenho culpa, mas minto para todos e sobretudo para mim mesmo. Pedir desculpas revela o máximo de consciência (ainda que deformada pelo superego), já dar desculpas é o contrário: trata-se do máximo da inconsciência ou da cara-de-pauzismo. Nem mesmo um lógico vaugelasiômano concluiria que pedir é o contrário de dar.


Se eu te peço dinheiro, tu mo dás ou não. Os atos estão associados, mas um não é o contrário do outro (pedir é o contrário de não pedir, dar é o contrário de não dar). Pedir ou não pedir faz parte do meu papel de pidão, já dar ou não dar faz parte do teu papel de concedente. Eu posso dar um tapa sem que a pessoa peça, a menos que haja a desculpa de que essa pessoa "pediu esse tapa", mas de novo, quem assim argumenta estaria soltando névoas no raciocínio lógico por puro cara-de-pauzismo (que termo feio para esse sintoma! vaugelaisiemo-lo, chamando-o mascaradamente de xiloprosopismo): ninguém pede um tapa de fato!

É nessa hora que o vaugelaisiano vem com a desculpa de que esse sentido é metafórico. Diz que há sim um sentido verdadeiro e único e o resto é figura de linguagem. Com argumentos assim, tal como um jundiá ensaboado, o vaugelaisianista escapa, valendo-se de sua lógica particular (outra vez um termo modificado por má-fé), valendo-se daquilo que nega: o pulsar vibrante da linguagem, que não é única, antes é infinitamente fragmentada e sem qualquer ranking a não ser os ditados pelos caras-de-pau. Precisaram surgir uma filosofia e uma filosofia da linguagem para percebermos isso, mas mesmo esses conhecimentos volta e meia caem na esparrela vaugelaisiana e repetem tudinho o que está nas Grammaires raisonées da vida. Dito de outro modo: o vaugelaisianismo é um inferno e essa doença do capeta nunca nunca nunca mais será extirpada da face da Terra.

Assim sendo, resignemo-nos, querido leitor, siga o seu gramático preferido, evite encher a paciência de quem segue outro e não pense que gramáticos são papas ou juízes. Gramáticas são infinitas, a maioria nunca foi e nunca será escrita e só desaparecerão das mentes quando aqueles que as abrigam morrerem. Só a consciência nos faz livre, por alguns momentos, desse parasita mental, digno de um filme de Cronenberg.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

ALGUMAS CABANAS NA ROTA DA SABEDORIA

Há percursos que parecem só caminhados passo a passo. Eu não posso me postar ao pé dos escadórios do Bom Jesus do Monte, em Braga, e segundos depois, sem ziguezaguear os lanços, ver-me no adro da basílica sem transpor o Pórtico, sem passar pelos Cinco Sentidos, sem cruzar as Três Virtudes. Essa via sacra parece parte daquele que está aqui em baixo para chegar até lá em cima: os 116 metros de desnível e os 581 degraus não se transpõem com uma só passada.

No entanto, há gente que parece conseguir enfrentar a verdade dos continua com incompreensíveis saltos quânticos, tal como ocorre no final da história da cética flecha de Zenão ou com o taco de bilhar de Hume. Esse superar-se cada vez mais sempre serviu para a auto-alabança do bicho-homem, mas a verdade é que seres assim são tão raros quanto incompreensíveis. Oliver Sacks no seu The man who mistook his wife for a hat and another clinical tales apresenta o caso, que beira o limite de qualquer compreensão, dos irmãos  "John" e "Michael", gêmeos  autistas "savants" que não sabiam ler nem fazer cálculos de multiplicação simples, mas brincavam entre si alternando, em voz alta, números primos em sequências de até 20 dígitos.



Um pouco aquém desse limite, os portentos humanos, quando não ocorrem na nossa família ou  na vizinhança, nos são conhecidos somente pelo noticiário, que se torna, nesses casos, vezeiramente, substituto do antigo circo. Podemos achar muito superficial como a espetacularização desses casos é apresentada, mas é verdade também que é a única forma de virmos a conhecer a existência desses casos. E isso é positivo. Não fosse assim, nosso salutar ceticismo se tornaria um canhestro dogmatismo e a sabedoria não se constrói por meio da teima acerca daquilo que já supomos conhecer.

Sem saber, o baiano Estêvão Silva da Conceição, por exemplo, atingiu o mesmo formalismo de Antoni Gaudí i Cornet. Antes mesmo de conhecer aquele com quem foi comparado, a sua residência descoberta em Paraisópolis por acadêmicos não precisou romper paradigmas para existir. Bastou que se rompesse a vida cotidiana de tantos outros milhares de pedreiros e jardineiros como ele. Ainda que se diga que foi involuntariamente embebido por um Zeitgeist modernista extemporâneo, esse saber lhe veio num obscuro letramento estético, cujas vias nos parecem incompreensíveis. Sequer podemos valer-nos de explicações da teleológica funcionalidade que explicam, por exemplo, convergências homoplásticas entre mantídeos e mantispídeos.

Igualmente desconhecidos são os trajetos da genialidade do cearense surdo José Arivelton Ribeiro que reconstruiu - mais de uma vez - seu próprio braço amputado a partir de sucata. Quando vejo cada vez mais aprimorada a sua criação, finalmente entendo surpreso um dos melhores empregos da palavra "reinventar-se" que eu conheço. Um inventor não só vê as coisas como elas são, mas, para além das suas características materiais, atribui-lhes uma função que contribui para finalidades que são de seu interesse ou de sua necessidade. Não foram os chineses que inventaram a porcelana: foi um único chinês. A diferença entre o ser humano médio e o inventor está na pervicácia. É a obstinação de extrair sonhos de sua mente agitada e transformá-los em objetos extramentais que distingue o criador dos milhões de acomodados usuários de suas criações.


Foi o que pensei quando a TV me apresentou recentemente o mineiro Guerzone Sebastião Lopes, que se orgulha de nunca ter pago uma conta de luz na sua vida e há quarenta anos superou a dificuldade de não ter energia elétrica na zona rural por meio de sua própria microusina hidroelétrica. Numa das placas em sua propriedade, lê-se "ESSE, GERADORZINHO FUACIONA, O, RADIO", curioso registro que mescla as funções de blocos de notas e de exposições artísticas. Em sua enorme simplicidade orgulhosa de alguém que teve pouquíssimos estudos formais, encarna o que se espera de um  verdadeiro gênio. Com sua barba pré-socrática, o sr. Guerzone confirma a afirmação de Tales  de Mileto de que tudo é água. E, de fato, para todas suas simples necessidades tem uma resposta nesse elemento: o liquidificador, o esmeril, a máquina de lavar roupa, a vitrola, a televisão, monjolos, tudo depende da semilendária Roda D´Água, que funciona ininterrupta há quatro décadas. Refuta a hipótese da esposa de que é louco, lembrando o dia em que toda a cidade de Cachoeira de Minas ficou sem energia elétrica, exceto a sua casa, mostrando assim, de maneira igualmente helênica, que um cidadão nem sempre precisa ser escravo do Estado. 

Dentre muitas reportagens sobre esse homem que domina a energia de seu lar por meio de cordas e alavancas, uma, particularmente me incomodou, transmitida pelo programa Domingo Espetacular, da Rede Record, pelo modo como foi conduzida. Esse Arquimedes mineiro é um homem simples da zona rural e não consegue explicar de onde vêm suas ideias, por isso, resume simplesmente que elas vêm "de Deus e de sua cabeça". Afirma que consegue realizar seus feitos simplesmente "imaginando e fazendo", no entanto, o repórter Luiz Gustavo, talvez inconscientemente querendo roubar a cena do brilhantismo do Tesla mineiro, gasta inutilmente um tempo enorme da reportagem enfatizando que sr. Guerzone usa uma "espécie de dialeto caipira". A despeito de se tratar de algo óbvio, que não é do desconhecimento do inventor, antes, pelo contrário, fonte de orgulho, o repórter resolve ser um enviado do Monte Sinai da Gramática Normativa. Estranha, logo no início, a palavra "fundura", escrita pelo genial inventor numa pedra, e afirma que na cidade se diz "profundidade", o que reputa  ser a única expressão correta. No entanto, a palavra "fundura" existe em documentos do século XV e já é verbete desde o primeiro dicionário da língua portuguesa, o do lamegão Jerônimo Cardoso de 1562-1563, o que prova que o repórter não agiu por conhecimento, mas por preconceito em relação àquilo que considera inusual. Infelizmente não há leis para punir quem faz bullying linguístico publicamente.  Na cabeça de vaugelaisianos como ele só há uma forma certa (ou seja, a que ele conhece), premissa falsa donde se conclui rapidamente que todas as demais variantes ou não existem  ou são reprováveis. Qual das formas de expressão é a certa só se determina consoante algum decreto divino encerrado na autoridade dos gramáticos, sobretudo nos usados pelos professores que  lhe conferiram maior escolaridade e, portanto, maior hegemonia. Por causa desses lamentáveis pressupostos, o repórter sente-se à vontade para humilhar o inventor duas vezes ensinando-lhe a supostamente correta pronúncia "téquinica" (com um i epentético para o qual parece surdo) em vez da variante preferida na zona rural "ténica", que acha deformada e passível de justíssimo extermínio, simplesmente por existir. O pseudoproblema levantado parece não ter sido muito bem entendido pelo inventor, que tem mais o que fazer. Se houvesse alguma irascibilidade no paciente superdotado, faltaria pouco, imagino, para que se transformasse num Diógenes de Sinope e reclamasse da sombra de Alexandre. Sadismos disfarçados de humor me são insuportáveis: "o senhor não fica constrangido da gente ficar pedindo pra repetir as palavras, não, né?", "O senhor se assume como caipira!", "isso não é vergonha nenhuma né?". Gostaria de saber, uma vez que eu também sou caipira, onde está a vergonha de ser caipira. Certa vez, um conhecido me apresentou a um canadense: ele se definia orgulhosamente como gaúcho, mas não me permitiu que eu me definisse como caipira, porque achava que eu estava me autodepreciando. Justamente eu, que acredito que é possível filosofar na minha expressão natal

Gostaria de saber ainda por que alguém diferente do que narcisisticamente se acha belo, correto e certo conterá necessariamente um "defeito" engraçado aos olhos desses ingênuos cultores do apolíneo, que conseguem abstrair toda a real graça e singularidade do outro, transformando-as num folguedo, num divertido desdouro com deméritos, justo no que deveriam ver maravilha, espanto, fascínio e deslumbramento. O conhecimento do gênio para os que não sabem apreciar conhecimento algum é como a cabeça enorme do anãozinho deformado do cruel conto The birthday of the infanta de Oscar Wilde. Doeu-me no peito ver no vídeo o ancião talentoso fazer o que o repórter lhe exige, retirando inquisitorialmente a fórceps, para roubar-lhe o protagonismo. O mais irônico é que a qualidade da sua própria pergunta não passaria pelo severo crivo de normatividade, pois, inconscientemente, estava eivada de metaplasmos reprováveis por doutos com os mesmos valores do  inquisidor. Na inconsciência dos verdugos, nega-se a detectar defeitos na sua própria expressão por não ter espelho para se ver, nem ouvido de foneticista para ouvir sua profusão de apócopes de desinência de infinitivo. Fora isso, tampouco o perdoariam os transcendentais profetas da norma culta pela quantidade de repetições e pela abundância de outras construções reprováveis. Do alto de seu papel de humilhador, mal sabe que sua expressão também difere diametralmente daquilo que está nas gramáticas, embora hipocritamente seja tolerada pelo brasileiro médio urbano, ordinariamente inculto, quando não desrespeitoso com as minorias. Em vez de deixar o palco para o gênio, o penetra  do palco lança um "iiissoooo!" no meio do show, quando consegue arrancar do nosso Thomas Edison  a expressão que desejava. Fê-lo passar pelo ordálio de falar a tal palavra sobresdrúxula de que não abria mão. Retribui-se o "eureka" com um rincho asnal de quem conseguiu o desejado ovo de ouro da gansa. Paulo Henrique Amorim parece ter percebido que o repórter carregou a mão no seu pretenso humor quando rematou, tentando consertar a reportagem: "mas, cá entre nós, quem precisa de técnica com tanta genialidade assim?".


Prodígios não nascem apenas de uma razão obsessiva. Há outra área para os milagres. Pois o genial não está completo se não for belo. E, segundo meu juízo, sempre ganhará medalha de ouro neste quesito o insuperável sergipano Arthur Bispo do Rosário, que, como todos sabem, subiu aos céus em seu Manto da Apresentação. Não há ciência nem arte se não houver gentileza, já nos disse outro sábio que nos aprisiona em interrogações, a saber, o paulista José Datrino, cuja destruição de seus monumentos fez Marisa Monte desabar em lágrimas. Incrível! Apagaram tudo, cobriram tudo de cinza. Como há carrascos nesse mundo! E o consolo para o Gran Circus Norte-Americano foi insensivelmente sepultado. Não duvido que daqui a pouco até a própria Pedra do Ingá seja dinamitada para virar úteis paralelepípedos. A onipresente burrice humana quer ser mais espantosa do que a inteligência de poucos. Não dá muito espaço para o êxtase. Lamente comigo, leitor.

Na peregrinação à sabedoria, do conhecimento científico à epifania religiosa, o continuum parece-se com uma estrada, onde há grandes hotéis e alojamentos bem definidos, em feroz concorrência com alguns albergues mais baratos, que teimam em brotar como cogumelos, para ganhar visibilidade com suas coloridas luzes ou com megafones dizendo afirmações de mau gosto. Contudo, há cabanas feitas de pau e folhas de bananeira, moradas sem paredes, nem teto, onde se deita no mato um só indivíduo e ele ali, naquela estrada, se sente mais confortável que em qualquer suíte de luxo. Foram alguns desses sem-hospedagem na rota da sabedoria que abobalharam os primeiros românticos e seu discurso de simpatia curiosa ainda está aí hoje, na forma de estupor televisivo e youtúbico.

Caro leitor, não seja ingênuo como o cafelandense que enaltece orgulhosamente o Mestre Gentileza por ter expresso sua cafelandidade, nem como o juparatubense que vê juparatubidade em Bispo do Rosário, tampouco como aquele mineiro narcisista que pensa que o sr. Guerzone só poderia ser mineiro. Entenda-me bem, por Gentileza: esses indivíduos, apesar de serem todos brasileiros neste texto, por pura comodidade argumentativa minha, não foram citados para enaltecer a inteligência do brasileiro nem para dizer que "o melhor do Brasil é o brasileiro". Seja sábio, meu querido que me lê, para entender que existiram, existem e existirão outros Estêvãos da Conceição e Josés Arivelton no Equador, no Mali, no Camboja, em Funafuti, em Lilongwe, entre os lapões, entre os Parkatêjê ou entre os falantes da língua yaqai.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI

Nuvens escuras sobre a cúpula de cristal do planisfério terrestre. Vazio e grisalho. E eis que um brabantino solitário e boiando no nada falou e tudo se fez, ordenou e tudo passou a existir. Pedras e plantas. Há algo que já lá brota. Avancemos, à esquerda e à direita, e a cor se fará.

No fim do início, nus e rosados, esticamos a nossa feminina mão para o toque do sagrado conosco, enquanto masculinamente nos sentamos, para que possamos vê-la, a nossa outra eu, ser abençoada genuflexa. Coelhos, faisões e pegas testemunham a cena. E, por trás, um turbilhão de andorinhas e aves amarelas azulejam o que antes era cinza, dançando entre as formas orgânicas das pedras, que tanto acima de nós exceliam. Uma delas açafroou-se, redonda e vazia, pétreo livro e penas com que se escreveu esta história. A dança hirundina passa por dentro dela. No cíano horizonte, outras formações intrigariam geólogos e botânicos, pois são mistos de seus objetos de interesse. E brancas, e negras, de um jalne e de um castanho-avermelhadas, outras aves torneiam, entram em como que ovos e cogumelos de pedra, saem e pastam. Dir-se-ia que tais formações foram feitas por homens, pois se parecem umas com rodas transversas por troncos, outras, verdadeiros cabeços, despontam de jalecas. E junto aos pássaros, vislumbram-se cervos. Um, se atentos, teríamos visto, está morto e devorado por um carnívoro já presente entre a alimária. Entre os de compleição bem definida, há os perseguidos por javalis. Haveria quem dissesse que os espinhos histricídeos também apontam para algum destino aziago. Descuidados, nós três não vimos, cercados de pachorrentos elefantes guiados por macacos, calmas girafas, ursos a brincar, raposas, bois, cavalos, cães bípedes e unicórnios, que, próximo à fonte rosada, de aspecto tão arquiteturalmente vegetal, descia uma serpente de uma tamareira, algo que também nos poderia ter sido relatado pelo lagarto negro. Entre o pavão e o estranho pássaro de cauda espinhosa encontra-se, no orifício perfeitamente redondo da fonte-flor, infausto mocho, a olhar para o sopé, onde alquimística reação borbulhante, de um tenebroso azul escuro, suja a água com vidros que continham algum amavio (ou será um filtro?) e dele rastejam macabros anfíbios, alguns tricéfalos e negros, outros brancos e envoltos em bordado casaco, com cara de rato, outros ainda em concha, cheios de pernas, com sua cauda longa. Patos e cisnes não veem nada disso, pelo que tudo indica. À margem, pomar opíparo, onde nos encontramos, ao lado de um pândano engavinhado por frutos que se assemelham a morangos, não fossem tão grandes. E nesse verdeio, enquanto o ato se consuma, não percebemos ao nossos pés, nova fossa de água escuríssima, e nova hecatombe de répteis e batráquios, da qual participam felinos e aves, os quais convivem com monstros: aqui pavões tricéfalos, ali pássaros de língua de cúspide, um deles bípede com cauda de lagarto, acolá outro similar (não fora o bico de castanhola), fora peixes com cabeça tresquiornitídea ou com feições de cavalo de batalha e de galinha, outro com asas. Um deles, com cabeça anatídea e mãos humanas, está tranquilamente a ler. Lê sobre esta vetustíssima descrição que o entorna ou sobre aquilo que ainda se sucederá?


Acordados, a cena é outra: vemos a azáfama do mundo e nele, o homem, antes tão solitário, em meio à bicharada, agora tudo dominando. Humanos alados, com suas asas rosadas e azuis, desafiam as aves, após terem vencido os peixes. O próprio grifo, domado pelo homem, tal como peixes, aves e plantas, leva em seu voo um urso morto. Está em justas com um ser sereniforme, paramentado para a guerra, singrante pelos céus em seu peixe voador, o qual está sendo enganado pela fruta e pela vontade de tê-la. Aos bandos, outros tantos cavaleiros, semelhantes a esse, se encontram no rio e, por meio da fruta, aliciam peixes e narvais. No rio, amam às sereias outros tantos cavaleiros e homens. São humanos agora, de variegada tez, e não mais os antigos animais, que dominam a cena. As antigas lajes, ora fundidas à química dos homens, brotam, amolecidas, com a mesma textura de corpos e de plantas, repletas da nudez humana, que se exercita, penetrando-as, escalando-as, roçando-se ou fazendo acrobacias nelas. Da laje azul também brota a flor rosa, ornamentada por um vaso sobre o qual está o maldito fruto, cercada de hastes por onde vão e vêm os humanos. No centro do rio, o formato esférico do fruto em obra de mãos humanas, em mármore, num carmim nascente do azul, erige jorroso ícone, dentro do qual se entreveem lascivos folguedos. À margem, de um arremedo do ícone, que também lembra o fruto, rodeado de papagaios e colhereiros, saem símios. Ao longe, vários casais caminham e conversam, vários caçadores carregam suas presas às costas. Aquele animal cascudo, de que já havíamos falado, com sua concha às costas, cheio de pernas, está com eles, arrastando sua cauda longa.

Aquém desse rio, circunda o lago redondo imensa quantidade de humanos, montados em cavalos, asnos, dromedários, bois, cabras, cervos, unicórnios, grifos, leões, panteras e ursos. Os peixes e aves  parecem finalmente rendidos e há frutas em abundância. Mesmo o porco-espinho, potestade d'outrora, agora se vê convertido em mero estandarte, fanfarrice bravateira dos humanos. O pássaro-fruta, com seu bico desnorteantemente longo, fora vencido e está sendo trespassado por horda que, de ponta-cabeça, se apinha ao seu redor, desfigurando-o. Passivamente vê toda essa cena o rato-cabra e vaticina a sua própria extinção. Do lado oposto, transformada em cornucópia de nádegas, junta-se ao círculo outra malta. Em outro frenesi cambaleante, levanta-se uma sereia por entre as pernas de malabaristas. Dentro de frutas, outros ainda há, que veem a tudo já saciados.


Mais próximos de nós, ficticiamente oniscientes, bem mais distinto se vê um regato, onde pássaros se sobre-excelem aos homens, pouco percebidos e muito apercebidos. Entre imensas poupas, pintassilgos, gaios, corujas, patos e martins-pescadores sempre esteve o homem, a despeito da orgia de domínio. Junto a eles, percebemos que há até mesmo uma margem ao tédio, afinal, alguns homens já se acinzentam de tanta fruta comida. E eis que o homem cresceu e se frutificou e a fruta se fez homem. Muitos já nascem de uma baga. Aprisionados ao fruto, tanto ao da terra quanto ao do mar, veem silentes ratos e os pássaros o retorno de seu domínio e, conscientes disso, alimentam os humanos, insaciavelmente famintos do fruto, que lhe nascem às costas. Tomados por gula infinita não pararão de colhê-lo enquanto a ciranda dará voltas, voltas e voltas. Antes senhores do mundo, da água e do ar, perderão terreno, por culpa do fruto e da ciência alquímica, para seres alados, não só os implumes, mas também para imensas borboletas, que, despreocupadamente, pousam em cardos muito maiores que os homens que os rodeiam, e para peixes que, fora d'água, ali convivem despercebidamente entre eles.

O conhecimento e o frenesi de que adiantaram para o homem? O céu agora é outro: está totalmente tomado de trevas e tudo o que foi construído se desvanece em explosões. Muitos se precipitam em fornalhas e mal conseguimos ver, ao longe, o trágico final do indivíduo. Desaba o construído e com ele, seu construtor. Mas os exércitos parecem não se importar e continuam destruindo ainda mais. Vê! As orelhas humanas foram cortadas e nada mais podem ouvir. Não é socorro que terão, ao estenderem os braços, mas somente forca, tortura e tormento. Agora metade humanos, metade animais, o fruto do antigo ventre arrasta multidões para a destruição. Tínhamos a chave e agora estamos mortos, dependurados nela. Nosso alicerce é uma ossada imensa: se pudéssemos olhar para trás, veríamos, e riríamos de nossa estupidez. De nosso corpo oco trespassado por chifres e galhos, entrevê-se mais tédio e auto-engano, aplacados vãmente entre fúteis risos pelo comer e pelo beber. Na nossa cabeça entoa a vaidade de uma charamela e de seu fole: levam-nos pela mão figuras altivas e absurdas, num arremedo da ciranda antiga. Alicia-nos agora o inseto com bico de ave para subirmos, feridos, escada acima e agora são tresquiornitídeos os monges que nos aconselham e macacos os que nos baloiçam em sinos. Dessa nau de dupla base, sob fina camada de gelo, nada se espera a não ser mais perdição de um futuro desabar: vemo-nos atravessados por espadas inimigas e devorados por cães, violentados pela guerra, pelo odre e pela navalha.


Mas isso é o que se vê ao longe. Fora das penumbras, bem à frente de nosso olhos, a cena ainda é pior: serpentes nos enlaçam em cantilenas que embriagam despudoradamente todo nosso corpo. Confundimo-nos com os instrumentos e seres de tez já obsoletamente rosada parecem dar-nos a pauta. Essa música assim orquestrada serve para deleite do mocho de corpo humano azul com potes nos pés e caldeirão à cabeça, que nos devora inteiros, no alto de seu trono e nos dejeta, fazendo que as primevas andorinhas saiam de dentro pelos nossos orifícios e que caiamos em fossa imunda onde se vomita e se defecam moedas de ouro. Sob os pés desse portento só há mais abusos e absurdos: um lúdico decapitar, um atroz perfurar, um cruel esquartejar. Atormentados por ratos-arraia, coelhos que tocam trombeta, cães que nos devoram, porcos-freiras que nos violentam, continuamos importunados por seres rastejantes nas suas antigas armaduras, com seus imensos bicos afilados.

Falei do ontem, do hoje e do amanhã. Mas e a eternidade? Ora, ela já existia antes disso tudo. Deverá existir também se à esquerda e à direita voltarmos à cúpula de cristal do planisfério terrestre mencionado no início.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

PRESCRIÇÃO OU PROSCRIÇÃO: A ARTE DA CONVIVÊNCIA

No mundo atual, onde todos têm razão, o megafone das redes sociais dá voz às vicissitudes mais íntimas de cada um, conferindo-lhes ilusória eternidade. Desde que os pares se reuniram em grupos orkutianos, ainda no século passado, assinando declarações públicas acerca de seus gostos e ódios, desde que se inventaram os infames dedinhos e o mundo se converteu num neomaniqueísta like-dislike de opiniões, desde que essa silenciosa turba começou a emergir, não se fala mais em retorno aos tempos em que não éramos interenredados, de modo que não há outra solução hoje a não ser a de conviver ininterruptamente com o nosso oposto. Obviamente, conviver com quem pensa ao contrário de nós nunca foi fácil e os mais suscetíveis (ainda bem que poucos!) ainda preferem enforcar-se ou fazer uma carnificina. A esses não me dirijo. Arquem com as consequências de sua fraqueza psicológica de não conseguir conviver. A grande maioria das pessoas, contudo, preferimos viver mais um pouco, livres, ainda que azucrinados, até o fim de nossos dias, pela voz daqueles que nos são cognitivamente incompatíveis. Para esses, espero eu, a leitura desse texto oxalá seja útil.

Conviver com o oposto, obviamente, não é fácil: nunca o foi. Mas há basicamente duas situações de conflito. Quando o discurso oposto ao nosso advém de uma minoria comparo-o com aqueles alarmes de carros estacionados nas ruas que disparam, acionados por qualquer coisinha, sem que o proprietário do veículo esteja por perto nas próximas horas, para socorrer as circunjacências da sua consequente infernização ou então com aquele cãozinho provisoriamente abandonado, que resolve entristecer-se, emitindo infinitos e repetitivos ladridos e uivos, amplificados pelas paredes do condomínio, a enlouquecer todos os que, por infelicidade, estejam ali, diferentemente do sortudo dono (que diz amá-lo). O oposto minoritário é apenas um chato: uma hora cala-se, se não dermos ouvido a ele. 


Mas atenção: há diferença entre as duas imagens, e não pequena: buzinas acionadas sozinhas não se desesperam. Um alarme chateia sem a menor intenção e não se cansa, no máximo, pára quando a bateria do carro termina. Um cão não só quer ser ouvido, mas também sofre e se extenua, ainda que sua exaustão ocorra bem depois do exaurimento da paciência de seus ouvintes. Ou seja, se a metáfora é boa, há opostos minoritários que são obstinados extraordinariamente frios e só terminam seu falatório per se; já outros, que gostam de chamar atenção à sua causa, contudo entristecem-se, cedem  ao pessimismo e acabam por calar-se algo que complexados. 

Já o oposto majoritário é diferente: se a maioria pensa diferente de nós, nós é que somos a buzina e o cão. Nós é que somos o problema. Se o mundo está alicerçado nas nossas convicções, é cômodo ter a certeza de que os chatos são eles, que não comungam de nossos pressupostos. Numa eventual situação contrária, parece seguro que nossas convicções fiquem no porão do anonimato em silêncio, afinal, ninguém quer ser punido por uma patrulha que pensa diferentemente de nós, ninguém quer ser exposto como daninho ou louco e, convenhamos, é impossível daí não concluir que desejamos que a situação se altere, a menos que tenhamos algum prazer na resignação, alguma essência fatalista, algum galardão comportamental de nada ver de errado na alteridade, alguma extremada acomodação ou uma infinita hipocrisia. O mais comum, contudo, é o pensamento seguinte: se questionar autoridades é válido por que não posso eu mesmo ser a autoridade?

Sabemos, civilizados que supomos ser, que a melhor reação não é a da violência, a da ofensa ou a da ironia, a mas a da própria racionalidade. Seria a razão que nos faz perceber como minoria sensível à contradição? Como evidenciar ao nosso oponente uma contradição dele que não o ofenda? Pior: para contradizermos algo não seriam necessárias premissas com as quais ambos estejamos de acordo? Isso não tem sido nada fácil: mesmo que as selecionemos, é preciso estarmos de acordo que essas premissas e suas conclusões (e não outras) devam ser preservadas para raciocínios subsequentes. Ora, sabemos que isso não foi fácil nem na época de Sócrates, quando havia poucas coisas sobre as quais opinar. Que dizer de agora, após tantas novidades quinhentistas, verdades setecentistas, antíteses e sínteses oitocentistas, inversões propositais novecentistas, sem falar dos direitos à voz atuais?



"Se um afirma que a gravidade não existe, como Jesus cairia da goiabeira?". De fato, os paradoxos atuais soam estranhos para quem não comunga de vários pressupostos e premissas elípticas. Por onde começaríamos para haver um diálogo minimamente honesto? Talvez pelo pressuposto de que ambos queiramos ter um diálogo. Queremos?

Suponhamos que não, que tanto eu quanto tu queiramos apenas impor nossas ideias. Pois bem, há quem alicerce seus argumentos em conhecimentos acumulados, supraindividuais, coletivos e formalmente sólidos; há quem aposte mais em argumentos improvisados, ditados pela inspiração, pela genialidade, os quais sobrepujariam, segundo muitos, todas as visões anteriores. Há ainda os que acatem argumentos perenes ditados de um mundo sobre-humano habitado por seres que se importam com sua criação, seja por amor, seja por tédio, seja por sadismo. 

Obviamente eu acho que tenho razão no ponto debatido. Obviamente tu também te achas com razão. Não é isso já um acordo? Afinal, estamos pressupondo ambos que temos a mesma coisa! E se, portanto, já temos o que queremos, concluímos que ambos estamos satisfeitos. Não é isso já um acordo? Nossa conclusão se confunde com nossos pressupostos; são distintas mas conduzem ao mesmo bem. Nossa conclusão será (ninguém o negará) profundamente relativa àquilo que buscamos. Achamos a paz nesse relativismo. Mas, observará alguém, conclusões relativas são profundamente pirrônicas. Se quisermos ser pirrônicos, portanto, dispomos de um excelente desfecho. Só não me convence que haveria uma só moral da história, satisfatória para ambos os debatedores. Com quase certeza posso afirmar que não haverá e tu concordarás comigo. Mas se temos certeza de algo, não somos pirrônicos! Desfaz-se o acordo, voltamos ao debate. Parecíamos irrefutáveis, mas dois pirrônicos anulam seus pressupostos num debate. Voltemos ao ser humano de carne e osso: o ser idealizado da lógica não nos serve.

O pirronismo nunca deu bons frutos, como se pode ver: seria a causa disso a vontade de domínio, atávica aos seres humanos? Deixemos para outra hora essa questão. Bom, se quero convencer-te e tu, a mim, não sejamos hipócritas: lancemos a primeira afirmação e que o outro discorde com argumentos válidos. A Terra ou é esférica ou isso é um complô da Nasa para que não saibamos que é apenas uma cúpula boiando no nada ou nas costas de elefantes, que, por sua vez, estão nas costas de uma tartaruga. Tudo o que eu mesmo não enxergo, não toco, não saboreio, necessita de um modelo teórico? Mas as ilusões são o quê? Há algo que não seja explicado ou explicável por evidências sensoriais ou por conclusões de premissas? Provavelmente não, a menos que aquilo que chamam de seja o culto ao irracional, no entanto, julgo eu, que aquele que se vale de uma fé qualquer, a despeito da ausência de evidências sensoriais não ilusórias e de indecorrências de premissas, apontará sua crença para algo com uma autoridade, um texto, uma verdade da qual não arreda pé.


Uma revolução radical nos pressupostos não nos conduzirá a bons técnicos, que consertem nossos iPhones no futuro, ou que ponham no ar os YouTubes que propagam as novas ideias que supostamente destronaram as antigas: um pouco das velhas há de sobrar num mundo mais hipócrita do que o que se seguiu imediatamente após Hegel, relativistas, semicientistas e pós-modernos. Mas a coluna há de ficar ereta para que faça piruetas extravagantes a choldra questionadeira, com sua magna auto-estima, sem vergonha de sua voz esganiçada e de suas ideias até há pouco tempo apenas expostas, por entre uma nevoaça alcoólica, em reuniões familiares ou em mesinhas de bar. 

Todos usamos quer o que o mundo nos dá (seja à nossa percepção, seja à nossa razão), quer o que textos nos dão, quer a convicção de uma traidora memória acerca de uma visão de infância: mais do que a necessidade de estar convicto daquilo que falamos, vimos falando ou acabamos de concluir, apresenta-se-nos como a coisa mais necessária de todas ter uma plateia. A obsessão por ter seguidores e o medo de não ficar falando sozinho é o único ponto que realmente caracteriza os dias de hoje. Hoje louco não é mais quem tem uma ideia excêntrica, mas quem fala sozinho. Louco é quem não é submetido ao like-dislike, o oxigênio do século XXI.

A diferença que nos causa espécie e reações nos tempos atuais está toda aí: a demência lamentável do nosso oponente de opiniões nunca mudou! Novo, contudo, é o fato de hoje cada loucura individual  ter um séquito. É a falta de séquitos que nos incomoda mais hoje e não a loucura propriamente dita, pois, abandonada a razão, tornou-se a plateia mais valiosa, nos dias atuais, do que o maior dos diamantes. Perante tanta estupidez asseverada, consolemo-nos: talvez estejamos num novo período pré-socrático. E esse novo Sócrates um dia virá com poder e glória e nos boquiabrirá nos limites e nos píncaros da razão humana, diz o máximo otimista. Não leia isso como ironia, leitor: leia-o como sarcasmo, escárnio. É deboche, mesmo: sabe-o quem me lê assiduamente e está ciente do quanto sou cético acerca da alardeada razão humana ilimitada.

É a falta de séquito que nos incomoda hoje, mais do que a loucura propriamente dita. Quando, definitivamente, conseguirmos conviver com esses novos memes (no sentido original e dawkininano do termo), tudo voltará a ser a bobagem que sempre foi. Oxalá seja ano que vem.