O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

domingo, 19 de maio de 2024

CLONAZEPAM

Como eu morri mês passado, pude fazer um balanço de todas as coisas e chegar a algumas pequenas conclusões. Peço perdão pela simplicidade.

Não importa o que eu sou, não importa. Sou muitas coisas, de que me orgulho e me envergonho, mas não importa. Importaria talvez somente se essas coisas fossem distorcidas, para você dizer o que não sou, para você tornar feio o que é bonito em mim e para tornar medonho o que é feio. Mas não importa o que você diz. Não importa nem o que eu digo nem o que eu faço. Não importa. Existimos eu e você que me distorce, mas quem importa? Sou um número, sou uma função social, sou uma projeção sua, sou algo que não sou, segundo você. Mas sei que sou, além de tudo isso, também outra coisa: aquilo que não vê, aquilo que ninguém vê, aquilo que eu mesmo tenho dificuldade de ver. Mas sou. Por enquanto sou. E nem sei se, sendo o que sou, isso importa. Não importa, eu sei, mas não conte isso para ninguém.


Não importa o que eu era, não importa. Eu era, sim, eu era. Mas era algo tão diferente de você, que horas e horas mereceriam ser dedicadas, para mostrar-lhe o que eu era. Eu não tenho tempo de contar, eu sei e tampouco você teria paciência, embora finja bem. Desculpe-me, se acreditei na sua paciência e acabei dizendo um pouco do que eu era. Não era nada importante, mas acreditei que me ouviria. Mas não importa. O que eu era já foi. Eu não sou mais quem eu era. E, se o que eu era não importa, nem mesmo para mim, por que você perderia seu tempo querendo ouvir? Deixe para lá o que eu era. Eu era, como todo mundo já foi um dia: algo que não é mais e jamais será de novo.

Por isso, repito, não importa o que eu fui, não importa. O que eu fui encerrou-se no passado. Se o que eu era explica o que eu fui e se uma explicação só vem de um problema, uma vez que aquilo que eu era não é problema para ninguém, muito menos para você, qual a razão de eu ainda lhe dizer o que fui? Se fui, fui. Simples resultado do que eu era. E se não sou mais nem o que eu era, nem o que eu fui, importaria ainda menos contar-lhe o que eu sou. Você deveria perceber isto claramente: não há sequer uma relação de causa e efeito entre o que eu era e o que eu sou! O que eu fui importa menos ainda...

Fui, sim; já não sou porque o fui só um dia ou, talvez, alguma nesga de tempo um pouquinho maior. Nesse ínterim eu fui, admito. Mas esse ter sido está no passado, misturado ao que eu era, com muito pouca relação com o que eu sou. Esqueçamos isso.


Mas algo serei, sem dúvida. Nisso me irmano com você; agradeço, por tê-lo revelado, a quem me fez acordar aos pinotes, no meio da noite, com medo de estar morrendo: seremos uma foto - que aos poucos se desbotará no velho álbum - de alguém de cujos mais próximos ainda se lembrarão. Pouco tempo se passará para que ninguém mais saiba quem éramos. Com um pouco de sorte e fama (repetiu sem piedade o dono da verdade, velho, manco e frustrado, olhando nos nossos olhos marejados de desespero), seremos nome de alguma praça e, com mais sorte ainda, um ou outro curioso buscará saber de quem se tratava. 

Mas sejamos sinceros com os futuros candidatos a famosos, para não lhes darmos esperanças demasiadas: haverá tantas novas praças assim para ser nomeadas? Além disso, convenhamos, a fila dos famosos dia após dia se torna imensa e só aumentará. Suas longas biografias, narradas, com sorte, mal excederão um parágrafo.




sábado, 9 de março de 2024

O CONTEXTO DA MINHA EXISTÊNCIA

A minha existência real se inicia por volta de setembro de 1967, mas por uma convenção, a data de meu nascimento, oito meses depois, no ano seguinte, que posso chamar de existência extra-uterina, é a considerada como verdadeira. Assim sendo, todos nós temos uma existência real e uma existência verdadeira , que pode coincidir ou não com a que está nos cartórios, nossa existência oficial. No ano de 1968, meses antes de eu nascer, em março, aliás, houve um ataque policial no restaurante estudantil Calabouço, no Rio de Janeiro, com a morte de Edson Luís. Na sua missa de 7º dia, fuzileiros navais e a polícia militar a cavalo efetuariam 600 prisões. Faltava menos de um mês para eu nascer: foi no dia dois de abril.

O ano de 1968 não é apenas o do meu grito ao nascer, mas o dos gemidos de Janes Joplin cantando Summertime, os de canções como Words e I started a joke, dos Bee-Gees e o de Suspicious Minds, de Elvis Presley. Nesse mesmo ano, Nara Leão adere ao Tropicalismo. Tropicália. Alegria, alegria! Domingo no parque. Marginália 2. Lapinha ganha o Festival do Samba.

No mês de meu nascimento, houve protestos na Praça da Sé e prisão de operários e estudantes. No dia de meu nascimento, o governador Abreu Sodré foi apedrejado. Eu mal tinha dois meses quando ocorreu, no dia 21 de junho a Sexta Feira Sangrenta, com repressão à passeata por verbas para educação, com 28 mortos. Cinco dias depois, a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, mostrava o cansaço após quatro anos de golpe militar. No mês seguinte, as manifestações públicas foram proibidas e o CCC caçava e espancava o elenco de Roda Viva

Roda mundo, roda gigante, rodamoinho, roda pião, o tempo rodou num instante nas voltas do meu coração.

Mais um mês e a UNB era invadida pela PF e pela PM prendendo estudantes. Em seguida, mais 1240 presos em Ibiúna no 30º Congresso da UNE. E na batalha da Maria Antônia, morre José Carlos Guimarães. O túnel, de Dias Gomes: "A UNE somos nós, nossa força, nossa voz" ecoa em todo país.

Com sete meses de berço fui informado da promulgação do AI-5 após Márcio Moreira Alves criticar a violência policial contra os estudantes e culpar os militares pela crise do país.  E após Apolônio de Carvalho fundar o PCBR, prisão de Caetano e Gil, Para não dizer que não falei das flores...



Que ano! Eu era um tipo de Bebê de Rosemary, de Roman Polanski? Cronenberg nem tinha lançado ainda seu Stereo. Época em que governam Fidel Castro, Elisabeth II, General Franco, Mao Tse-Tung, Costa e Silva, Ferdinando Marcos, Ceaușescu, para não falar do papa Paulo VI.  Há o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares e, ao mesmo tempo, a NUS Corporation & SELTEC é contratada para fazer planejamento de usinas. Pierre Verger escrevia o livro que seria publicado quase vinte anos depois no Brasil sobre fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre Benin e a Bahia de Todos os Santos. No cinema passava O homem que comprou o mundo, de Eduardo Coutinho. Greves em Contagem, São Paulo e Fortaleza. O prefeito Faria Lima determina a construção de sistemas de viadutos sob o Parque D. Pedro II. Inaugura-se o MASP. Ano de 2001, uma Odisseia no Espaço, de Kubrick. Mel Brooks lança Primavera para Hitler e José Agrippino de Paula, o seu Hitler IIIº Mundo. Estava em pleno andamento a Revolução Cultural na China. Aqui, Sérgio Bernardes Filho e seu Desesperato e na Itália, Bertolucci, com seu Partner. Por toda parte, o Cinema Novo: em Paris, o Groupe Dziga Vertov. Na África do Sul, Steve Biko funda o Movimento de Consciência Negra.

O primeiro atentado do ETA aconteceu em 1968. Os soviéticos invadem a Tchecoslováquia e Sartre estava ao lado dos estudantes nas barricadas. No Iraque, Ahmad Hassan al Bakr tira do poder os funcionários que não faziam parte o partido Baath. Manifestações estudantis no Quartier Latin. É a Trilogia do Terror, de Ozualdo Candeias, Luís Sérgio Person e José Mojica Marins. 

Guerrilha no Araguaia e os Beatles falam de Revolution. Fundou-se a Associação dos Médicos Espíritas do Brasil... Robert Kennedy, assassinado em Los Angeles. Martin Luther King também. 

A mulher desiludida, de Simone de Beauvoir. E a Guerra do Vietnã se arrasta pelo seu décimo terceiro ano, com uma intervenção que exige 550 mil combatentes. A ofensiva do Tet ataca trinta e oito cidades. O republicano Richard Nixon vence o democrata Hubert Humphrey, aliado do presidente Johnson: é o começo da doutrina Nixon, que apoiaria o Vietnã do Sul para que lutassem sozinhos com o Vietnã do Norte. I want you back, de Jackson 5. 



Tudo está nO teorema, de Pasolini. Um incêndio queima o prédio e a Biblioteca do Colégio do Caraça: 17000 livros carbonizados. Nos palcos, Os inconfidentes, de Flávio Rangel dez anos depois da inauguração do Teatro Oficina. Exílio de Chico Buarque, Edu Lobo, Geraldo Vandré.

Os católicos da Irlanda do Norte fazem campanhas por direitos civis. Descobrem a ossada de Jeohanan em Jerusalém. Bonny and Clyde publicado no New Yorker por Pauline Kael. Encaramos todos O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla. Para Nélson Rodrigues, tudo isso era o Óbvio ululante. Para Plínio Marcos, uma Navalha na carne. Reginaldo Farias, por sua vez, fala dOs paqueras. 

Fim dos Perdidos no Espaço: havia tanto Um filme como os outros, de Godard, quanto Barbarella, com Jane Fonda. Enquanto se publicava The sound pattern of English, os Rolling Stones tocavam Beggar's Banquet com sua Sympathy for the Devil e sua Jumpin' Jack Flash. Enquanto Plínio Marcos encenava Homens de papel, Anthony Harvey retrucava com seu Leão no inverno. Independência da Suazilândia, da Guiné Equatorial e das Ilhas Maurício.

Passamos a ter CPF no Brasil! O presidente, como dissemos, podia cassar mandatos de parlamentares, suspender direitos políticos, intervir nos Estados e Municípios, fechar o Congresso e decretar Estado de Sítio. Não faltariam oportunidades no futuro. Enquanto isso, eu observava os segundo e terceiro formantes para reconstruir o sistema vocálico da língua de meu entorno e preparava meus lábios com que diria mamãe no ano seguinte.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

BOBO ALEGRE

Não há quem não tenha ficado minimamente soturno depois da última pandemia. Não bastasse a violência que grassou sobre a Terra, tanto física quanto mental, durante dias de gráficos com números cada vez mais atos, agravados por ignorância, intolerância, corrupção e descaso, os sobreviventes que rastejaram cioranianamente para fora desse escorregador (ao mesmo tempo ralador) entraram em anos pós-pandêmicos cheios de guerras repugnantes e de discursos que não cessam sua escalada de sadismo e de irritante indiferença altiva. Com isso, não se viu mais espaço para o humor, para o deboche, para o surrealismo. Aparentemente esse novo mundo, o dos robôs que leem tuas necessidades na pauta visceral das tuas convicções, tirou todo o espaço dos que familiarmente chamávamos de "bobos alegres".

Não há mais onde expressarmos nossa ingenuidade diante de um mundo repleto de informações self service. Todo mundo é consciente, politizado, informado, fanático. Não o ser, hoje, é o maior pecado. O ingênuo é mal-vindo pois o fruto do conhecimento já foi mordido. O Paraíso, onde grassa a inconsciência do Bem e do Mal, é algo que não devemos desejar nem mesmo a recém-nascidos, que terão - dizem - seus futuros chips implantados por ciosos pais que só querem o progresso de seus filhos. O bobo alegre está em vias de extinção e é persona non grata no trem-bala que nos levará à completa decifração dos mistérios que foram escondidos de nós, paranoicos, até hoje. Queremos ser tudo (e de preferência tudo mesmo), exceto um bobo alegre.



Ninguém errará mais, embora não saiba como foram programados os corretores ortográficos. Em breve, ninguém saberá mais a inútil ordem alfabética herdada dos fenícios: para que servia a não ser quando procurávamos palavras em dicionários, que em muitíssimo breve não existirão mais em papel (como já não os há, senão em museus, os papiros e pergaminhos)?. Com tanta informação em enciclopédias virtuais, escritas colaborativamente, para que lermos livros? Eu sei tudo. Eu tenho tudo. E mais: não tenho o direito de não saber, não tenho o direito de pensar errado, não tenho o direito de não gostar por ter absolutamente tudo à distância de um apertar de botões. E se só há uma forma de fazer as coisas, todos sabemos: quem não sabe será o novo inferiorizado, o novo desprestigiado, o novo ignorante, o novo anátema. Cuidado!

Mas pelas ruas ainda perambulam pessoas que no seu círculo íntimo se permitem ser bobos alegres, mesmo no crescente avolumar-se de dados e informações. O descosido de tudo o que se diz não os tornou propriamente céticos, antes sua atitude é a de um ser que coevolui com o pedantismo universal. O novo bobo alegre não simula ser bobo. Ele é um bobo consciente. Consciência muitas vezes arraigada na sua mascarada ignorância e autoengano, é verdade, mas outras vezes, é uma forma de protesto.

O bobo alegre de hoje, diferente do da década de 70 do século passado, não esfrega na cara dos hipócritas verdades praticamente indiscutíveis nem expõe as contradições de forma irônica. O novo bobo alegre flutua catatonicamente na maré de discursos fundamentados em milhões de dados. Não pretende contradizê-los, apenas mostrar que seu excesso tem algo de engraçado. Com isso, enfrenta o mau-humor daqueles que se enganam pensando e agindo como se tivessem evoluído para um novo ser mais sério.

Tentemos fazer uma besteira muito grande para quebrar o gelo. Tentemos apresentar uma consideração infame que não seja sarcástica, apenas ridícula. Tentemos rir da circunspecta notícia com que acordamos hoje, dizendo algo espirituoso, mas o  oposto do que alguém diria. Tentemos não fazer o que todos decidiram fazer desde a semana passada ou desde o mês passado. Seremos ídolos se conseguirmos agregar propaganda à nossa atitude, mas seremos bobos alegres se não estivermos preocupados em convencer ninguém.

Com isso, o prazer se tornou enlatado. O riso tem hora. A ironia tem de estar de acordo com a sinfonia. A piada tem de ser correta para não ofender, embora todos estejamos prestes a ser ofendidos. Nada que escape do script das redes poderá ser apresentado de maneira gratuita sem ser entendido como algo imperdoável, embora tudo seja reversível no momento seguinte, se for hábil para reajustar a sintonia da toada universal. O improviso, meu caro leitor, passou a ser o pior de todos os pecados. Chamar atenção para si é o que todos fazem, mas é imperdoável que o outro o faça. Só eu posso, perante a batuta do Grande Maestro, novo nome do Big Brother.



Em suma, um momento de bobo-alegrismo é perdoável se no momento seguinte provarmos que sabemos flutuar nas ondas da Grande Situação. Ter sido bobo alegre por um instante é permitido se se pede perdão por ter destoado da Grande Verdade, que é O cerne de tudo  (se a arrevoada de maritacas humanas não estiver dizendo que é A cerne de tudo). O uso é mais do que a normalidade: é a Verdade. Ai de quem afasta dele e, em sendo bobo alegre, não faz uma rápida correção para não criar mal entendidos. "Sim", diz o bobo alegre hostilizado pelo desprezo de seu recente desafinamento no coro dos corretos, "se não quisermos ouvir sobre os direitos das alcateias, todos temos de abdicar ao nosso cargo arduamente conquistado de bobo alegre". Cuidado, lobos sabem controlar o bobo-alegrismo alheio muito bem, com seu olhar supostamente crítico e suas planilhas de julgamento. Apenas evitam os espelhos quando estão na postura de apresentar sua nota final.

Enquanto pede desculpas, o bobo alegre ri sozinho, imaginando que os lobos acharam que seu perdão era algo que deviam levar a sério. Enquanto ri escondido, chora por dentro, por não saber explicar o porquê de seu desespero ao fazer uma cara boba, menos alegre. Enquanto chora, morre de medo, que seus lábios se enrijeçam de tanto segurar o riso e que sua testa não franza mais, em compatibilidade com a gravidade de tudo que está voando à nossa volta, como varejeiras.

domingo, 28 de janeiro de 2024

MAIS UM NOVO MONOTEÍSMO

Depois de deduzir, com os anos de vida, que o maior colapso da Humanidade é indubitavelmente a vitória do Capitalismo, com sua sede medonha de escravizar, lembrei-me, convencendo-me disso, do império persa e de seus zaratustras. Filhos de deus com sua mensagem pipocaram na terra, acelerando a guerra das classes. E eis que a velha tradição cambaleava e ruía, de tão desgastada, em nome de uma revolução que promovia a desestagnação das classes. Como sempre, porém, o bilionário tradicional sucumbia e subia o milionário, assim como o milionário era vencido pelo rico. Oras, e que revolução não nos mostra que, ao fim e ao cabo que pobres milionários se tornarão novos bilionários e que ricos coitados se tornarão os novos milionários, que caçarão futuramente a cabeça dos novos milionários? E para quem nada herdou dos pais ou tem preguiça de ordenar, basta apenas seguir ordens para acreditar em algo que se assemelhe à paz. Isso é tão certo quanto o fato de o nazismo ser filho do capitalismo

Mas quem sou eu, leitor, para ensinar-lhe verdades? Apenas um irmão, um pai, um marido, um amigo, um professor, um colega, um escritor. Cartesianamente, o bom senso é de fato a coisa mais bem partilhada do mundo e ninguém próximo de mim tampouco me ensinará nada, certo? É preciso um padre, um demagogo, a voz alterada de uma pessoa em transe, a voz misteriosa de um deus anônimo vinda de um monte, um livro misterioso escrito por anjos ou uma mente de alguém que fale de modo estranho, enrolado em farrapos numa praça e rodeado de cães, para dizer-nos algo além do que nos ensina quem estiver à nossa volta. A emunah é algo muito diferente da veritas dos tribunais e totalmente distinta da alétheia dos cientistas. E é dessa face-revelação do cubo da Verdade de que estou falando. A voz, vinda de uma divindade, é algo irresistível para nós, que mal sabemos com certeza sobre o que existe de fato do outro lado da parede da cela que nos prende.

Então é assim: somos conscientes, senhores de nós mesmos, apoderados devido às nossas certezas e um tanto quanto acomodados, com vontade de acreditar numa vitória da razão em vez do êxito da força, tão primitiva quanto eficiente. Mas Nietzsche já nos dissera algo sobre a morte de Deus. Sinceramente, mesmo crentes, despido de toda má-fé, confessamos que já não somos tão temerosos do que há nas matas escuras quanto já fomos, porque no singrar das eras, desenvolvemos tochas, lanternas, luz elétrica e, armados, nos impusemos no planeta. Não queremos acreditar que Deus está morto, porque isso certamente seria uma tentação diabólica que nos infernizaria, então nos fiamos em algum tipo de justiça humana, ou então no rigor das nossas leituras religiosas, ou ainda na vagueza supersticiosa herdada de que algo há, nem que seja uma verdade cientificamente hipotetizada, testada e corroborada, desensanduichada de qualquer dimensão ou perspectiva. A dúvida socrática e persistente é por demais incômoda.

Mas sob a nossa carapaça exoesquelética culta jazem as vísceras de nosso substato temeroso, cheio de dúvidas pascalinas. Se Deus está morto, é preciso haver uma nova voz que ecoe e a substitua, pois nós, símios nus, esquivos e assustadiços, precisamos de um novo monoteísmo, de uma certeza que una nossas forças para caminharmos e desviarmos do precipício para o qual caminhávamos, parasitados pela lúgubre evidência do racional. Que voz é essa?

E eis que o arauto desse novo Deus, o profeta Jobs nos mostrou em 2007 a solução. Até então, grupos de redes sociais só falavam entre si e, no início, se defendiam da intrusão excessiva de capitalistas por meio dos chamados frames, bombas constituídas apenas de caracteres aleatórios. Converteram-se inocentemente em Facebook em 2003,  Orkut em 2004, Twitter em 2006. E-mails em que donos da verdade se expressavam eram raros e tachados de excêntricos pela maioria hoje fanática. Fascinava-nos a rapidez das mensagens no formato ICQ desde 1996, mas requeriam que chegássemos em casa, estivéssemos bem-disposto, a ponto de ligar o computador e ficar sentado na frente de uma tela. Todos esses eventos se fundiram na Hidra de Lerna chamado smartphone. E deixamos, a partir de então, cada vez mais, de atender telefonemas. Já havia um prenúncio do surgimento do novo deus na paulatina obsolescência do Skype, que já existia desde 2003. A nova etiqueta diz: ninguém quer ver teu rosto, ninguém quer ouvir tua voz, quando muito queremos só palavras e imagens, com sua Verdade embutida, que respondemos quando e se quisermos, sem que ou para que nos ofendamos mutuamente. Sedimentados no behaviorismo desses novos valores usurpados pelo iPhone nasceu glorioso o Whatsapp em 2009, dez anos após o Messenger e suas caras mensagens instantâneas. A história da evolução do novo monoteísmo poderia ser mais detalhada, mas com o novo golpe da irresistível gratuidade, povoou nossos bolsos com amigos e inimigos  ainda com Instagram em 2010, Telegram em 2013, TikTok em 2014, mas paremos aí, uma década atrás, quando a metamorfose já se delineava.


Estávamos prontos, passada a primeira década do século XXI, para louvar ao novo Senhor, o Celular. Ele já existia como telefone desde 1973, mas como divindade é algo bem mais recente, como demonstramos, coisa de uma década e meia, portanto. Esse misto de telefone, telégrafo, aparelho fotográfico, computador, leitor, televisão, aparelho de som, banco, agenda, bússola, espelho, enciclopédia, telescópio e tudo mais que se pôde transformar em aplicativo, foi muito além do que McLuhan imaginaria. E nesse período de metamorfose, esse amuleto, esse ídolo de bolso, espécie de Amon-Rá da contemporaneidade, converteu-se na fonte das nossas certezas e das nossas incertezas, das nossas alegrias e das nossas tristezas, do canhestro aproximar-se e do profundo afastar-se das nossas vontades. Na soma, aparentemente, o novo Deus nos paparicou à medida que nos desumanizava, porque humanos até então não apagavam ilusões (gerações anteriores viveriam com elas até a morte), desembotou nossa memória naturalmente embotada, promoveu uma profunda nostalgia que não se aplaca nunca, nostalgia até mesmo do que não vivemos e não viveremos. E agora apesar de soturnos e desiludidíssimos, seguimos a trajetória do paradoxo de nossa vida cheios de autoestima, cheios de memória, cheios de passado e sem futuro algum.

Aprendemos, um dia antes disso tudo, algo sobre nossa gênese: que um dia nascemos da lama, nascemos de uma explosão, nascemos de um ser monocelular, nascemos como bons selvagens etc. É preciso unirmo-nos: esse é nosso impulso instintivo de primata, e nada mais hominídeo do que por meio de ideias abstratas, explica-nos o monge Harari. Mesmo sendo lama com vontade de nos unir, sabíamos desde sempre que o conhecimento nos faz iguais a Deus e que o antigo fruto diabólico que impulsiona o gráfico da história de Vico no momento atual já não é uma serpente insidiosa com sua retórica, mas um objeto desejado, acessível por grupos de indivíduos, a maioria desconhecidos, que nos mimam dizendo que são à nossa imagem e semelhança. Sabemos também que há vários tipos de ser humano:  uns polidos, outros cruéis, uns que gostam mais de ouvir, outros que gostam mais de ver. Como, então, esse novo deus uno nos unirá? Parece impossível agora, mais do que nunca, mas é fácil perceber, pois fatos dizem por si só: o rol de valores do capitalismo e dos pecados contra a nova fé aparentemente é  unânime. Está aí o novo Vaticano, a nova Jerusalém, a nova Meca: o nosso novo norte, a direção de nossas preces, que já estava em construção há mais de meio milênio. O Capital nasceu como uma revolução antimonarquista, mas nos tornará vassalos novamente de idênticos senhores decapitados, porque não há outra regra de convivência entre os homens senão líderes e seguidores.

E quando isso ocorrer de forma absoluta em nível realmente internacional, fé boa será a fé capitalista, conhecimento bom será o conhecimento capitalista, arte boa será a arte capitalista e transgressão boa será transgressão que confirma a onipresença do capitalismo. Não, o deus Celular não é o meio usado pelo capitalismo, mas o fim desejado por ele. Transformar-se-á certamente em outra coisa, sempre disfarçando-se. Dizem que talvez em um chip instalado nos nossos pequenos cérebros, mas não sei. O que sei é que se aproveitará de todas as informações que lhe fornecemos de bom grado. O truque de seu poder é simples: o novo deus nos engana dizendo que nós é que somos deuses e timoneiros da embarcação da história. Nada mais falso. Na verdade os indivíduos não têm controle algum sobre si mesmos faz tempo e o deus Celular ou seu futuro substituto não diminuirá nossa necessidade de respirar, não consertará nossos ossos quebrados por uma queda, não corrigirá automaticamente o que aumenta ou abaixa demais nossa pressão sanguínea, nem harmonizará nossos batimentos cardíacos ou normalizará nosso sistema linfático. Como qualquer outro deus, é e será indiferente ao fato de sermos seres aeróbicos, reles indivíduos dependendo do poder corrosivo do oxigênio. Continuaremos iludidos, pois esse novo deus uno não nos alimentará, não nos fornecerá ar puro, não regulará a nossa psique adoentada pelos slogans da ideologia de Grandes Irmãos. Comprova-se assim que, como dantes, sem criatividade alguma, o que vem a ser de fato o ser humano, cada vez mais imerso em seu mundo de plástico, voyeurismo, fofocas e ódio. Achou-se finalmente um consolo tão divino quanto o de antes, para nos iludir de que somos tão imortais quanto os outros deuses que nós mesmos costumamos criar ao longo da nossa História de símio medroso que contempla o fim do mundo a qualquer momento.


quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

UM OCEANO DESCONHECIDO

Há quem diga que as coisas mais difíceis de se enxergar são aquelas demasiadamente grandes. Tudo o que se refere à existência, inclusive seres pretensamente sólidos, como nós mesmos, ensanduichados entre a enormidade do Universo e o quase-nada das partículas subatômicas, padece, portanto, de uma perspectiva tremendamente limitada. Essa visão pascalina daquilo que inegavelmente somos, costurada no manto de glória de indivíduos precocemente sábios, que tantos tormentos e tentações padeceram no deserto de sua genialidade, também entraria como um dos efeitos de nossa pulverulência: we're all dust in the wind: eu preciso destas palavras escrita.

Parece, no entanto, que não precisamos necessariamente nos colocar na posição do Demiurgo, para de cima do Universo, enxergar deiformemente a nossa pequenez. Basta imaginar estarmos um pouco acima, na Lua, olhando para os oceanos que cobrem nosso planeta, e veremos a pequena porção de água do Universo, de onde rastejamos sobre a lama antes de nos tornarmos os macacos eretos e altivos que somos. Curiosamente, daqui de cima, não consigo ver o ínfimo infeliz que teve de desbastar, medroso, o que já lhe havia sido presenteado em priscas eras, apenas para matar sua fome. E não é só de comida essa fome, dizem, é de diversão, de arte e de balé. Fato é que essa fome está ancorada num oceano invisível, ainda maior do que os admirados pelo observador selenita. 


O anfíbio que mantém sua notocorda e se imagina igual ao seu Demiurgo tem fome e só ela justificará a sua pouca empatia de carnívoro. Como fazer, se disponho de diversas fileiras de dentes ponteagudos, presenteados pelo meu DNA, se eu, anfíbio e carnívoro, me puser no lugar daquele que será por mim devorado e que tem uma ascendência? Se quem fome é o eu que se rasteja, no máximo apenas a prole lhe infundirá misteriosamente, por vezes, alguma empatia: eis o mistério dos Genes ou dos jinns. Mas ainda não saciado e sem os processos químicos que obnubilam a sua empatia, que impede, de fato, esse rastejante faminto de ser canibal? Fato é que essa empatia precisará ser turvada, para que não nasçam a piedade, o pecado, o remorso, a culpa e o arrependimento, rede de sinônimos, cognatos daquela coisa que uns dizem ser a tal consciência, única dos humanos. Estou bêbado de narcisismo especista se acredito nisso.

Mas aquilo contra o qual esses parassinônimos se digladiam também deve ter um nome, que é o próprio nome do oceano donde vem o tal anfíbio. Por que não chamá-lo de "egoísmo" e estendê-lo aos pré-anfíbios no insondável mundo aquático donde provieram, até bem próximo das arqueias ou de outros seres ainda mais primevos? O egoísmo, assim sendo, surgiu muito antes do sistema nervoso que define a unidade do ser vivo como um indivíduo, talvez esteja mesclado às células que nos defendem das agressões externas, talvez se resuma a uma molécula ainda desconhecida muito especial ou a uma interação de moléculas. Mas deixemos esse mundo onde ainda se podia ver Caos e Gaia. Retomemos nossos óculos e, com nossa miopia, tentemos divisar bem onde está esse oceano no planetinha ali embaixo.

Esse oceano Egoísmo é muito maior do que supúnhamos... Mal enxergamos o Pacífico ou o Atlântico daqui e pensávamos antes que eram ambos tão grandes! Na verdade, nem terras firmes se avistam. É um marzão, com ondas ora calmas ora procelosas, ubíquo, impressionantemente monótono na sua indivisibilidade. Seria esse oceano gigantesco o átomo de Demócrito e Leucipo? Como dizíamos, o demasiadamente grande se aproxima do invisível.

Além disso, tem a capacidade de permear entre o visível e serpenteia por meandros que alagam terras até agora tidas como firmes, causando a antítese de certezas, de pressupostos, de axiomas e de tudo que uma dedução precisaria. É falso, porém, dizer que é imprevisível e ilógico o comportamento desse oceano que acabamos de descobrir e que nitidamente enxergamos, após limparmos bem nossos óculos embaçados. O que é a verdade, aliás, perante o oceano do Egoísmo? Dobrem-se sábios, curvem-se íntegros, beijem-lhe os pés aqueles que andaram, qual Diógenes, com suas lanternas. Esse oceano já entrevíamos nos sofismas, nos poderes, nos exemplos e nas virtudes que não pertencem a este universo e só podem ser imaginadas sem nossos óculos.

ADENDO: patenteiem, por gentileza, essa descoberta e deem-me a glória por lhes ter revelado o mais abscôndito dos seres. Ele é e está, o tempo todo ele nada mais era que o Tudo que vive, viveu e viverá. O egoísmo sempre foi sinônimo da vida, só Hamurabi não sabia, mas Moisés sim, quando erigiu um ídolo a seu deus cioso que não gostava de honras ao seu irmão gêmeo Baal. O egoísta real, contudo, não existe fora das biosferas, nem aquém daquilo que um dia foi nomeado como vivo. Não se sucumbe a nenhuma tentação afirmando isso. Se apreciamos a verdade, aceitemo-la e não pensemos que ela foi jogada entre nós como o pomo de Éris; se não, retiremos nossos óculos, pisemos sobre eles e busquemos outros oceanos da coloração do nosso gosto. Apostaria esses meus óculos quebrados que todas as alternativas mais belas serão, infelizmente, bem menores.

sábado, 11 de novembro de 2023

O MAL

O Mal não é vermelho, não tem pés de cabra, tridente ou rabo pontiagudo. Mas o Mal existe: seria hipocrisia imaginar que seja algo relativo porque pontos de vista são diferentes. O Mal não tem nada a ver com pontos de vista. Nem chamo de Mal aquilo que infringe uma regra social discutida em debates, como evocam tantos moralistas e aprendizes de moralismo. O que eu chamo de "Mal" é amoral, porque não está associado ao que uma sociedade acha errado. Chamo de Mal aquilo que impede que uma vida transcorra sem interferência ou interveniência alheia. O Mal poderia estar no leão que me ataca de surpresa, saltando de uma moita, depois de espiar-me e me devora indefeso. Mas esse Mal é inevitável, pois a morte em si, por ser natural e parte da vida, não deve ser confundida com o que chamo de Mal. O Mal inevitável dos acidentes é causado por algo que não tem culpa: uma pedra que rola sobre minha casa, a água que me engole num redemoinho, a sede de sangue de um mosquito que me contamina com uma doença fatal, nada disso eu exemplificaria como o que quero definir como "Mal". Se eu incluísse no que chamo "Mal" essas coisas todas, meu texto seria confuso. Mas não quero confundir: anda que essas coisas não sejam boas, assim como não são a fome ou a sede ou outras necessidades apeladas pelo meu corpo, aplacadas ou não, aplacáveis ou não, chamar tudo isso de Mal seria muito pouco preciso e minha terminologia seria falha por ser demasiadamente abstrata. Nem tudo que não é bom faz parte daquilo que quero definir como o Mal.

O que chamo de "Mal" requer, antes de tudo, um outro ser pensante da minha espécie, que raciocina e que consegue comunicar-se em uma língua articulada e que não seja eu mesmo. Esse outro pertence a uma sociedade, igual à minha ou não, e tem uma biografia, necessariamente diferente da minha, mesmo que seja meu irmão gêmeo, exceção talvez feita aos xifópagos. A relação entre o Eu e o Outro já foi estudada por psicanalistas, por psiquiatras, por sociólogos honestos ou picaretas. Falo como leigo: infelizmente desconheço a teoria nas suas profundidades que a Terminologia exige. Falo, como sempre falei em meus textos, daquilo que me faz algum sentido vivendo. Não peço perdão se errar. Posso apagar tudo, no entanto, ainda que alguém dotado de uma memória absolutamente perfeita se lembre de tudo que disser, proferirei o que penso sobre isso que existe materialmente no mundo e que estou denominando "Mal".

Prefiro falar "mim" em vez de "o Eu" e uso "outro" com letra minúscula, para enfatizar o comezinho de minha reflexão, tão necessária à Verdade. Nessa relação entre mim e o outro, não direi que o Mal provenha sempre do outro. Isso é uma súplica a quem me lê: estou tentando ser o mais honesto possível com o que teorizarei ou descreverei a seguir. O Mal, como disse, existe, e para ser identificado requer que haja não só o outro, mas também eu mesmo. A proveniência ou causa do Mal pouco importa: ou eu sou a causa, ou o outro. Não faço diferença. 



Mais difícil do que caracterizar o Mal é falar sobre a consciência. O que seria a consciência? Uma espécie de certeza de que não ajo corretamente. Uma náusea. E o que significa "agir corretamente"? É reconhecer em mim o Mal. Portanto, se olho para minhas memórias (sempre falhas) e vejo nelas algo que eu poderia ter feito diferentemente, percebo que errei. Esse erro, portanto, é a fonte de eu me tornar consciente de que gerei aquilo que estou chamando de Mal, pois esse erro afetou a história do outro, mesmo que o outro seja eu mesmo.

Mas essa retrospecção de reconhecimento do erro nem sempre é seguido de arrependimento. Muitas vezes há orgulho, indiferença, desprezo ou, pior, a sensação de que não poderia ter sido de outra forma: essas reações ao reconhecimento do erro nada mais são que autoenganos, que são muito importantes, quer queiramos seguir vivendo, levando conosco o Mal pretérito, quer queiramos fazer o Mal maior a si mesmo, o suicídio, ou ainda o Mal maior ao outro, o homicídio. De qualquer forma, o reconhecimento aponta para um futuro, longo ou breve. E esse agir futuro é outro Mal. Assim sendo, o Mal pretérito inevitavelmente gerará o Mal futuro, a menos que a memória ajude e, como num encanto, apague o Mal passado. Mas isso só os felizes dementes, talvez, têm a sorte de vivenciar.

Numa criatura não demente, o futuro carrega o Mal passado e se não podemos modificar o passado, nem o esquecer, é sabido que a náusea só se aplaca com o autoengano e, para termos o feliz autoengano, estepe da demência, só mesmo afastando-se cada vez mais do Mal passado e das causas que o geraram é possível viver saudavelmente. Alguns chamam isso de hipocrisia, sobretudo os afetados pelo Mal alheio do qual não conseguem esquecer-se, nem autoenganar-se. 

O Direito declara que esses são vítimas e que precisam ser ressarcidas por meio da punição. É assim desde Hamurabi, imitado infinitamente, por exemplo, no livro de Levítico. Mas o Direito mistura o Mal amoral (que persigo para definir) com aquilo que socialmente se confunde com o Mal e, nesse momento, muitos impostores, repletos de autoenganos ou de má-fé, se aproveitam para vingar-se da causa do Mal e cometem novas injustiças, de modo que o Mal se perpetua agora, por outras causas mais complexas, desenoveladas de psiques e de valores históricos ou de seus questionamentos. O Direito não é a solução para o Mal. O Mal persistiria sem a justiça supostamente cega. O Mal está presente desde sempre por causa da consciência, como dissemos. Não há como extirpar a consciência, embora haja imenso interesse capitalista nisso. Seria muito lucrativo um mundo em que a mão de obra fosse inconsciente e obedientes a um DNA artificial, que manipule o comportamento individual, como supomos ocorrer entre as formigas em relação à programação de suas rainhas ou dos fungos que parasitam seu sistema nervoso.



O Mal tem de ser depurado para ser reconhecido: é apenas o Mal amoral que merece ser discutido, pois nele há uma verdade independente de opiniões. Uma episteme e não uma doxa, como queria Platão. Recapitulando, o Mal, independentemente de justiçado ou não, está na consciência de um ser humano não demente e requer um outro, que pode ser o seu próprio causador, o qual poderia ter vivido de outro modo, se não fosse acometido pela ação voluntária ou inconsciente daquele que resolver agir um dia, causando-o e impossibilitando-lhes milhões de outros futuros possíveis para ambos, sendas que jamais serão seguidas. O Mal, então, para ser formalizado, não depende de vítímas, mas de um pretérito perfeito e de um futuro do pretérito, não no sentido condicional, mas no sentido estrito de uma narrativa sincera e sem lacunas importantes de memória que possam ser retomadas, por serem lacunas reconhecíveis por qualquer um, tal como na frase "Napoleão invadiu a Espanha, em seguida, expandiria seu império até Portugal". Não é possível afirmar que tenha sido ato contínuo de Napoleão ter invadido Portugal como numa consequência de interação estudada pela Física, mas fê-lo Napoleão e poderia não o ter feito. Napoleão se arrependeu de ter invadido Portugal? Talvez não, mas quem poderá julgá-lo ou sequer imaginar seus pensamentos na Ilha de Santa Helena? Contudo, quem diz que Napoleão foi um herói sofre de autoengano ainda pior, por causa da sua inconfessada ignorância. Em que se distingue, portanto, autoengano e má-fé?


Tudo isso, porém, não nos impede de destilar o Mal puro, abstraído dos eventos, a ponto de ser passível de se transformar numa fórmula em que está o causador do Mal, o afetado pelo Mal, o reconhecimento de que a ação não teria ocorrido se o causador não tivesse agido e a conclusão de que vida subsequente à ação maléfica seria distinta de qualquer outra, que não ocorreu, se o Mal não tivesse sido causado. Mas dizer isso, desse modo, parece dizer que a ausência do Mal seria o Bem. Isso seria verdadeiro se houvesse uma vida sequer no planeta em toda sua existência que nunca tivesse sido afetada por Mal algum, quer no sentido que demos à palavra quer em todos os demais sentidos rejeitados. Mas isso seria contrário ao Mal amoral e praticamente se confunde com o Bem amoral. Nem mesmo crianças conhecem o Bem amoral, talvez só anjos e outras divindades ou entidades de planos idealizados da existência. O Bem amoral simplesmente não existe. Existe apenas algo que pode ser chamado de Bem se não tivesse sido afetado pelo Mal, mas não há vida que não seja afetada por algum tipo de Mal, de modo que o Bem puro é uma abstração e não existe, como o Mal. Diferentemente de um leão que simplesmente me devora, haverá sempre alguém consciente próximo de nós, convencido por alguma doutrina ou por algum discurso, que afetará nossa vida com algum Mal que possamos culpar, ao qual possamos atribuir nossa infelicidade, novamente imersos em autoengano, quer seja por memórias falhas, quer por nossa própria má-fé. Assim, não se vive uma vida sem passar diversas vezes pelo Mal e não se vive uma vida sem cometer, consciente ou inconscientemente, algum tipo de Mal.

Talvez os cristãos estejam certos quando dizem que nossa vida é um lamento e que a única saída é o perdão: embora seja uma espécie de má-fé, o perdão nos livra do homicídio ou do suicídio. Talvez o perdão seja, de fato, a única forma de prosseguir vivendo seguros numa trincheira enquanto a guerra infinita do Mal não termina. Para não afirmar isso com má-fé, confesso que sei que essa fórmula de autoengano não foi criada pelos cristãos, embora tenha sido divulgada eficazmente por eles, mesmo quando foram extremamente hipócritas ou malfeitores ao longo da História. No entanto, o perdão talvez tenha alguma razão de ser, pois, de fato, ao que tudo indica, encontra ecos numa Grécia sem ágora ou, mais longe, numa Pérsia de população resignada, tal como se lê nas entrelinhas de um Marco Aurélio, cuja filosofia parece um cântico, ou mesmo na desilusão nietzschiana posta na boca de Zaratustra. Talvez a solução do perdão seja reflexão humana ainda mais antiga e contemporânea da encarnação do Mal sob a forma das guerras e dos impérios, fruto da cobiça da tecnologia do bronze, sabidamente muito mais eficiente que a pedra e a lança que costumeiramente lançamos uns contra os outros na nossa pré-história cotidiana.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

SÓ LHE PEÇO UMA COISA

Sim, você pode imaginar o que lhe pedirei. Preciso do meu corpo. 

Minha alma foi devastando-se na jornada conhecida como "existência", mas meu corpo é mais que o Ser dos filósofos. Meu corpo é único. Não importa se tenho um irmão gêmeo: não estou falando de DNA. Meu corpo, independente do que o estimulou ou do que o constrangeu para agir como tem agido, é meu e só meu. Nada é meu, exceto meu corpo. Não preciso de outro, idealizado, nem menos perfeito: isso seria o corpo de uma alma insatisfeita. Refiro-me ao corpo que me dói, ao corpo que necessita de água e de ar, ao corpo que é só meu, independentemente do que me digam. Por isso, tire-me tudo, menos meu corpo. Em troca, não tirarei o seu: antes das primeiras legislações isso já era óbvio, pois é tácito nas matilhas, malgrado alguém sempre se arrogue a tomar o poder do bando. Fique com o poder, deixe-me o meu corpo.

É com meu corpo que acordo, querendo ser compreendido enquanto corpo. É com meu corpo que digladio o tempo todo pensando ser óbvio para quem me ouve ou me lê, mas não o é, porque só uso palavras intrincadas e quem me ouve ou lê não me entende. Diabos, não têm todos a mesma percepção de si? Meu corpo sempre bastou-me. De que preciso mais para dizer-me vivo? Não é meu corpo que me acusa que estou saudável? Não é meu corpo que dá os primeiros sinais do meu delírio? Não é meu corpo que acorda comigo todo dia, dialogando consigo mesmo enquanto eu, perplexo, tento entendê-lo e explicá-lo para quem não o entende, ou seja, para mim mesmo, na maior parte das vezes?

E, afinal, não há nada que entender. Qual é a ação do corpo senão viver? Viver pura e simplesmente, sem filosofias, sem hipóteses, sem dúvidas. O corpo não tem dúvidas quando para de pulsar e deixa de ser. Quem me convencerá que há outra vida senão a que meu corpo, qual maestro, rege com sua batuta? Talvez por isso o torpor me seja tão ridiculamente elucidativo, tão violentamente revelador, tão tristemente eufórico, tão verdadeiramente suscetível às satânicas versões da alma, que perora e conclui que não é corpo. Deixemos a alma com seus complexos.



Não há o que elucidar, nem se revela o que todos sabem: não há nada além do corpo. E isso não deveria infundir tristeza. Viver é a alegria e não há tristeza no não viver. Quem discorda dizendo que há gradações qualitativas no viver não entendeu nada do que eu disse. Não há problema essa sua incompreensão. Sugiro que se desnude e se olhe no espelho sem reprovações: quem sabe entenderá. Se, mesmo assim, não compreende, não há necessidade de continuar lendo.

As tragédias só existem por causa da alma. O corpo é infenso às tragédias. O corpo foi criado para resistir. Com uma só célula ou com mais. No corpo só há vitórias. Não se traduz a palavra "desgraça" na linguagem do corpo, mesmo que ele viva alguns segundos apenas. Que dizer então de coisas tão caras e tão vazias, como a bondade, a beleza, a justiça, a esperança, a saudade, a angústia? Nada disso faz sentido, porque tudo deriva de uma definição que requer a forma negativa da graça e isso não faz sentido na lógica do corpo. No corpo tudo é graça, tudo é luz, tudo é movimento e coisas bizarras como a vontade, a intenção e os objetivos, tão caros ao neurastênico sistema nervoso que produz a insatisfação só geram a ilusão da existência de uma alma paralela ao corpo. Paradoxo dos paradoxos: sem isso, o corpo vivo seria pedra; com isso, o corpo vivo morre antes do programado.


Francamente, por que haveria um corpo imortal? Que graça há nessa tal imortalidade? O fracasso é o epígono do ser que se deseja imortal. O corpo imortal seria uma coisa medonha, carente de bondade, insatisfeito de beleza, sedento de justiça, iludido pela esperança. O corpo imortal angustia-se e é saudoso. O corpo imortal morre de vontade, fenece de intenções, sucumbe de tantos objetivos. O corpo imortal é o oposto do corpo, portanto, é a própria definição de desgraça. O corpo não entende o que venha a ser esse epíteto "imortal" que alguém lhe queira atribuir em seus delírios.

Nesse reinício de escritura, caro leitor, nesse meu novo testamento em vida, posso parecer estar convidando outros corpos a pensar. Mas, na verdade, o convite é diverso: que deixem seus corpos viverem, até que se tornem novamente matéria inerte e que arremessem não seus corpos pela janela, mas sim suas roupas, para conseguirem ver-se no espelho, satisfeitos.

sábado, 5 de março de 2022

ESPAÇOS VITAIS E SUAS CAIXAS-FORTES

Sério mesmo? Aquela maldita ave do paraíso dançando novamente no meu quintal? Percorreu éons o seu treino exibicionista, nascido de alguma outra dança, que, por sua vez, nasceu de outra, a qual finda no rastejar de uma lesma. Ninguém lhe infundiu a dúvida do para-quê? Olha ali, ave bocó, a motosserra que porá fim à tua mata. Não paras a dança, a não ser golpeada pelo tronco cadente?

Alguém, ocioso, de olhos radiantes, entrava no mundo de palavras, nas páginas dos livros  feitos com algumas daquelas árvores cadentes. Arrotou o mantra decorado para olhos desejosos de seres babantes, frustrados com sua própria história. O mantra ecoou como a motosserra, mas o amor infundido por ele, na verdade, era a velha egolatria que nada entende. Essa carapaça de paixão cresce tanto, tanto, junto com as vísceras do recalque, seu genitor, que é inevitável que se ouça um dia o anátema de que mantras não servem para nada. Não é mais a árvore que cai sobre a ave inútil, mas, analogicamente, testemunhamos o monge golpeado pela espada da indiferença, lançada da altíssima torre recém-construída pela auto-estima artificial do seu ex-fiel seguidor.

Sem lágrimas, por favor! Choras como se algo raro valesse alguma coisa neste mundo da indigência mental! O que era raro, por natureza e por definição, torna-se raríssimo, porque a ferrugem do desprezo e o carcomido dos anos inúteis estão fazendo passar, pelo buraco da agulha, o tempo, cuja função é pôr eternamente em risco o raro, até que suma de vez. O melhor amigo do valioso é o acaso. Ninguém pensaria em cobrar caro por uma coxinha de dodô, certo? A esfinge te pergunta, a ex-coisa finge que sabe a resposta, sempre deixando de ser e confundindo-se no infinito do nada.

A relação, na verdade, é simples: trata-se da mesma existente na predação. A quantidade de predadores e de presas precisa ser numericamente desigual. Urge que nasçam menos predadores que presas. E que aqueles predadores sofram mais do que estes, aos quais basta baixar a cabeça para comer o capim. Quem vive mergulhado num eterno prato de salada jamais saberá do que estou falando. Cuidado! o paradoxo está não nessa última afirmação, mas na seguinte: o segredo se encontra apenas em que as abundantes presas não evoluam mais do que os poucos predadores, de modo que formas mais eficientes de presas surjam, eficientes demais para evitar a predação.

Não é preciso que haja mais mantras. Não é preciso que haja mais dança. Nem mesmo um esforço maior, que justifique o esforço do predador. Inventou-se uma arma cuja destruição é muito mais eficiente: a opinião. Se médicos dão opinião em artes plásticas, por que o artista não pode opinar sobre medicina? A crise na floresta das especialidades faz de cada cidadão um bioquímico, um físico, um geógrafo, um cientista político, um sociólogo, um linguista. Todos agora, ao desabar da floresta, ao morrer dos predadores, ao findar da dança, ao emudecer do mantra, sapateiam sobre a única coisa que sobrou, sobre aquela gramínea em que pasta o boi, o qual come e comerá as penas coloridas de todos os cocares reais e imaginários. 

Que é isso que ouço? Entoa-se o hino da liberdade, aquela em que todos podem falar sobre remédios, sobre etimologias, sobre capitalismo, sobre terra plana, sobre sociedade. É a epidemia dos discursos, dirão uns; é a vitória do fanatismo, dirão outros (ou os mesmos). Ninguém mais abrirá os livros, isto é fato, porque eles não existem mais. Soterraram as bibliotecas, fecharam as livrarias. O que estava entre uma capa e outra não sairá nunca mais. Escutada a reluzente trombeta do Armagedom, todos terão o direito de ecoar sua voz na mais profunda das selvas das suas obviedades. Se a voz é maviosa, não importa, pois a crítica se confunde cada vez mais com a autocrítica, que, como todos sabemos, é nula. Até quem profundamente sabe algo, profundamente também se esquecerá de tudo e depois que patetamente ruminar o apastelado bom-senso, que regurgita em sua boca, descrerá da perenidade de qualquer coisa e de qualquer valor um dia tido por verdadeiro. 

"Foi assim de fato?", perguntará o cético - sempre na hora errada - "porque eu acho que esse passado pode ainda ser apenas uma lenda, indigna de ser reproduzida".


Na falta de um lastro, o saber desvalorizou-se e entrou na fila daquele patrimônio que não se distingue mais de montes de lixo. Reifica-se tudo para vender? Aliena-se tudo para comprar? Pois bem, desta vez não será exceção. Chamam isso de indústria, mas indústria do quê eu não sei. Duvido que haja alguém que saiba. Dizem que tudo se padroniza, para que seja fácil segregar. Eu me pergunto: segregar-se de quem? Nem mesmo resistir faz sentido mais. Aparentemente resistir significa apenas rodar a roleta novamente e apostar num número que não está ali. A maior obvidade de todas reza que nem só de espaço vital vive o homem: é preciso também uma caixa-forte.

Ai, Erasmo, é verdade o que ouvi de ti? Que foste tu o inventor da civilidade? Que refinamento se espera encontrar num monturo de esterco? Que tesouros há ali? Um anel de turmalina? Fétido anel esse, que me obriga a mergulhar esperançoso de encontrá-lo e, depois de anos, emergindo de sua massa informe, conseguindo respirar um pouco, sentir o ressaibo de alguma náusea incontida, mas eternamente desconfiada.

Nem o inconsciente salva mais: na histeria dos tanques e na saraivada de certezas, o mais digno a fazer é admitir nosso erro sem aliciarmos outras vítimas à nossa causa e, claro, o mais importante, meter uma bala nos próprios miolos depois disso tudo. O que é verdadeiro ficou para mais tarde; tudo que é legítimo é resultado de uma mistura de loucura, infâmia e sacanagem. Não há espaço mais para a empatia. O lúdico se tornou o esgar momentâneo de um chimpanzé comendo uma vítima encurralada. E quanto mais hábil e nobre era essa vítima antes de sucumbir, mais estranho se me afigura esse seu esgar e esse seu deleite.

Enfim, surgiu agorinha um novo espetáculo para atenuar meu tédio. É novo, mas quase idêntico ao de ontem. Esse quase, que permite a existência de uma pequena diferença e de uma grande intersecção, me fará tagarelar, apreciar, debater, defender meu ponto de vista. Na verdade, a vontade da plateia que me ouve é de vomitar, mas, batendo no peito, o gorila humano em cima do edifício prenderá a atenção dos transeuntes por um segundo. E isso lhe bastará. Isto é a felicidade, disse alguém cheio de novas definições. Terminado o show, o gorila fica envolto em névoa. O seu grito - opinou um crítico ainda com uma nesga de memória - não tinha a profundidade anunciada: "afinal, o que esperava ele ao berrar? Criar uma seita válida para todos e para sempre? Ser finalmente abraçado por sua consistência? É pedir demais! Ninguém de carne e osso é tão amado e tão desejado quanto um discurso!".

Basta, celebrei demais a insânia. Nem sabia que conseguiria ir tão longe.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

IDEIAS NÃO ME FALTAM

Sim. Elas vêm, toda hora, a todo tempo, as ideias.

Mas prostrado, retalhado, desconfiado, desiludido, só as recebe na cara quem está orbitando por perto.

Os braços longos não chegam mais até ti. Foram cortados e sangram.

A audácia se intimidou definitivamente dentro do meu peito e sem a timidez audaz não sou mais eu no meio: não há meio, não existo. Não faz sentido a minha existência. Ninguém tem uma opinião sobre a minha existência. Ainda bem.

Os meus limites do mundo se tornaram, assim, o que sempre foram: eu mesmo, julgando sempre.



Desnecessário, invadido e violentado, desapareceu em mim o sentido do mundo no sem-sentido das regras, ditadas por aquilo tudo que não sou eu. Sem vontade de invadir, sou o que resta da tua indiferença, da tua invasão e da tua violência.

Para que mais uma opinião se posso dar um berro?

E nem isso importará, se for ouvido por alguém.

Enquanto isso, ouço.


domingo, 30 de janeiro de 2022

O ANO QUE NÃO COMEÇOU




Prezado leitor,

Escrevo para informar que este ano não começou e talvez nem comece.

Acontece, às vezes. O tempo não é formado de parcelas iguais.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

O PREPÓS

Afinal, o agora, o presente, o que é?

Para além da obviedade de ser o que vem antes do que virá depois, há no presente muito de inusitado.

Faz sentido falar de uma preposteridade do momento atual. Por alguma daquelas injustiças, que só os rótulos conseguem trazer consigo, o prepóstero é entendido como alguma coisa invertida ou algo às avessas. No entanto, eu diria que, se nos é permitido atribuir algum grau de importância às coisas, o absurdamente invertido é, na verdade, querer falar sobre a parcela óbvia que existe no bojo do presente, avessa a toda profecia, pois já passou, e à qual poderíamos chamar de pospretérito, isto é, o que vem imediatamente depois do quem antes. Que cuidem os exegetas e os historiadores da pospreteridade!

Já o prepóstero, o que terminologica- e etimologicamente significaria o que vem imediatamente antes do que vem depois, é algo que reluz o desejo de incógnitas futuras, as quais, ao fim e ao cabo, também fazem parte do mesmíssimo presente. Curiosamente, nesse prepóstero estaria até mesmo o tal futuro do pretérito: se o futuro, por definição, não se concluiu, como falarmos sem profetizar do que virá depois de uma parcela dele, como se isso que viria, de tão certo, já estivesse acabado? Para mim, nesse raciocínio institucionalizado pela língua sim reside o absurdo, pois tanto futuro do presente quanto futuro do pretérito nada mais é que a parcela prepóstera do ambíguo presente.

E já que estamos no presente - sempre - no final de ano sabidamente se antevê o que deverá ser o futuro em nosso votos. Nada mais justo de acessarmos neste mês a divina parcela prepóstera do ressequida brasa do pospretérito presente a infinitamente apagar-se. Só há um problema: como fazê-lo?

Uma dica que nos dá os non sequitur de nosso raciocínio tão caro quanto simiesco é esta: uma vez que algo ocorreu, sempre ocorrerá: cai o bebê nos primeiros passos, magoa-se e faz a sua primeira promessa (que se confunde com a causa de Hume): "doravante não cairei jamais". E seguirá, assim, nesse juramento cambaleante, de modo que a promessa se converte em fé, em convicção e em autolouvor. "Eu sou assim", diria uma personagem de Nelson Rodrigues, isto é, nós mesmos. Desculpa se já te desagradei no meio de meus votos, caríssimo.

Nesse tombo do bebê, que é o germe da convicção de nossa espécie, que disseram ser especial, amarra-se a memória, amarra-se a sociedade, amarra-se toda nossa fantasia. Eis-nos, enfim, humanos, com toda a pretensão do mundo, típica de seres que andamos eretos. Pois bem, estou aqui, meu caro, pelo meu décimo dezembro, para falar-te do que virá, isto é, do meu desejo travestido de augúrio. Espero que me leias desta vez: o número dez tem algo de místico, porque na sua falta de imaginação sintética, foi preciso segmentá-lo entre um e zero, muito embora a palavra "dez" não lembre nem a palavra "um", nem a palavra "zero": sendo o último dedo da segunda mão numa contagem, é bizarro que a lógica decimal não lhe tenha requerido um algarismo, postergando assim o milagre da recursividade (bem como a sua enfadonha repetição analítica) para o onze. Eis o X da questão, para além do misticismo tosco, obviamente.


Pois bem, em 2012 eu pedia que os zumbis fossem salvos, porque intemeratos e incapazes de devorar a si mesmos, pagavam pela sua feiúra, contudo, cada vez mais, temos medo de perder algo e de deixar de ser algo. O que perderíamos sendo zumbis e o que deixaríamos de ser, não sei até hoje, no entanto, o medo está aí e, em vez de desejarmos ser devorados, naufragamos na insatisfação, cada vez mais intensa, amando cada vez mais, odiando cada vez mais. Deduzo que, numa onda crescente, passamos a gostar da concorrência, da angústia e da morte. Deveria desejar isso a todos, já que parece ser o que procuramos cada vez mais?

E foi justamente isso que se buscou no ano seguinte, de modo que em 2013, ano do incêndio da Boate Kiss, da renúncia de Bento XVI, do atentado de Boston com seus 282 feridos e do Movimento Passe Livre, eu percebi a evolução desses desejos, corporificando-se, adquirindo a forma de um inimigo self-service, seja no julgamento do Mensalão, seja com os médicos cubanos vindo ao Brasil: acusando-nos mutuamente, concordávamos na nossa inimizade mútua e na nossa autoinimizade, a qual, somando-se à concorrência e à angústia, a discórdia, a ironia e a acusação, dava certo charme ao nosso desejo de morte, na bastante conhecida dança infinita e apaixonada do autoengano.

Mas entre o pós-2013 foi o pré-2015, no dezembro de um novo e terrível ano intermédio, que, naquela época, se chamava "presente", passada a anexação da Crimeia pela Rússia, o estresse hídrico após o menor índice de chuvas há décadas com direito à poluição fluvial de Salto e a seca do Rio São Francisco, a Copa do Mundo no Brasil num fragoroso 7x1 para os alemães, o record de calor, os absurdos do ISIS e do Boku Haram, bem como o surto de ebola com mais de 7000 mortos, sentimos a polarização tucanopetista cada vez mais com a reeleição de Alckmin para o governo paulista e o escândalo da Lava-Jato no nível nacional: não foram esses ânimos à flor da pele que fizeram o rei Juan Carlos abdicar naquele ano, nem a Escócia ter-se mantido no Reino Unido, nem o beijo gay da novela Amor à Flor da Pele, mas fato é que o opiniúdo smartphone decolou, com redes sociais e tudo, antes confinadas a computadores, e, com ele, a ideia de que podíamos fazer a diferença, com nosso ponto de vista, dormindo no bolso de nossos amigos e amigas. Pousamos num cometa naquele ano e anunciou-se (para a lembrança desgostosa dos futuros antivac, criaturas ainda caladas e pouco perigosas até então) que nenhuma pessoa havia morrido de sarampo no planeta. Nesse contexto tumultuado, eu queria apenas que essa agitação toda fizesse que todos deixassem de privilegiar os laranjais aos besouros e as buzinas às pererecas.

Passou aquele ano (então terrível) e 2015 parecia, para nossa decepção, xerocópia do pospré: o atentado contra o Charlie Hebdo, do teatro Bataclan, do Le Petit Camboge, das destruições de museus iraquianos, de Nimrod e de Palmira. Bento Rodrigues arrasada, o suicídio-homicídio de Andreas Lubitz, o terremoto do Nepal, o incêndio do Museu da Língua Portuguesa simultâneo à inauguração do Museu do Amanhã, tudo isso enchia nossas sensíveis mentes de lamentos. Havia quem quisesse beber a água de Marte em seu delírio e cada vez mais delações pipocavam, cada vez mais microcefalias misteriosas surgiam... de que adiantava a foto de Plutão e o viagra feminino, de que adiantava que mulheres fossem eleitoras na Arábia Saudita, de que adiantava o fim da política do filho único da China, do desbloqueio político do Irã, da participação de Cuba na Cúpula das Américas, se a profecia do retrocesso começava a se cumprir, não só no erro do primeiro lugar da Miss Universo de 2015, mas no feminicídio e no aumento da intolerância racial, religiosa, sexual e política? Prova de meu desgosto foi eu não ter escrito nem junho, nem setembro, nem novembro e esse abominável ano pareceu-se muito com 2021, mutatis mutandis. E antevendo os cancelamentos, leitor, começamos a lançar-nos invectivas mútuas, na evolução estática em que nos encontramos até hoje.


De novo trocamo-nos beijos e votos, mas no reboliço do ano de 2016 houve quem tolerasse os excessos jurídicos e verbais de tantos indignados: a morte de Harambe antevia as florestas do futuro em chama, mas ninguém percebeu esse ato de prepotência humana, afastou-se Fabiano Silveira e, interessantemente, logo a transparência, a fiscalização e o controle se tornaram, de um só golpe, opacas, desfiscalizadas, descontroladas; num ato de sincronicidade, os portões do Inferno se abriam rangindo lentamente, falou-se de até 30 envolvidos no absurdo estupro coletivo do Rio de Janeiro, recomeçaram tensões raciais em Dallas, em Nice mais de oitenta morrem num atentado e em outro, cinquenta outros numa boate gay americana, para não esquecer dos 125 mortes do caminhão frigorífico em Bagdá. Os cientistas nos acalmavam com sua poesia: Einstein estava certo sobre a Teoria das Ondas Gravitacionais quando dois buracos negros se fundiram nesse ano, o papa Francisco também nos acalmava ao se encontrar, depois de séculos, com o patriarca russo... aliás, para nosso alívio, quase duas dezenas de medalhas de ouro foram exibidas no nosso pescoço olímpico e paralímpico brasileiro, enquanto isso, tonitruava o rumor do impeachment de Dilma e mais um avião caía, agora com a equipe da Chapecoense. Erige-se, quase simultaneamente, o primeiro mandatário alaranjado norte-americano e grasnava o tão comentado anatídeo curitibano. Bob Dylan ignorava o Nobel, em harmonia com o Brexit que ecoava no noticiário. Morria Fidel, mas seu espírito comunista assombra os que não acreditam no Capital mas cada vez mais no capital, de tão moldados que sempre foram para ser engrenagens, fazendo o sinal da cruz para a inflação de 700% da Venezuela. 

Tento respirar: desejando a concorrência e a angústia, parecia que nos entregávamos definitivamente ao desejo da morte, discordando infinitamente de tudo, acusando quem passasse na nossa frente, ironizando até mesmo aquilo que outrora nos fazia chorar copiosamente e nos traumatizava. Finda a esperança da síntese dos laranjais com os besouros e das buzinas com as pererecas, vimos ódio nos olhos de nosso irmão, antes com a Bíblia na mão, agora com o iPhone, excitado na masturbação de seu autoengano, parado, congelado, na profecia de que a segunda década terminaria como a primeira, afinal, o rótulo "anos 20" é genérico e serve tanto para o século XX, quanto para o XXI. Para a ebriedade de outrora ser vivida pelos que não viveram há cem anos, faltava apenas um líder e já se esboçavam os imperativos categóricos em que cegamente iríamos pautar nosso raciocínio errático. E de prosélitos o Inferno está cheio, todos sabemos, cada um com uma premissa mais absurda que a outra, cada um com as conclusões mais indefensáveis estampadas em suas bandeiras.

O ano novo de 2017 começou com mais de cinquenta mortes no presídio de Manaus e com outras tantas numa festa de réveillon em Istambul. Retira-se Janot, sobe Dodge, e eis que todo turbilhão dos anos anteriores começa a cheirar como se fosse passado distante: "não há impeachment para o vice-presidente"?, não, arrasta-se o amargo do fel em nossas bocas; "não há transpacíficos acordos?", não, pois ecologia virou assunto do passado. O império da governança idiossincrática e egoísta parece ter sido anunciado pelo franco-atirador de Las Vegas; o império da negação do mundo, cada vez mais desagradável, parece completar o círculo dos algarismos, com os 100 anos da Revolução de Outubro, os 300 de Nossa Senhora Aparecida e os 500 da Reforma Protestante. As denúncias pipocam e atingem até mesmo os acusadores: nenhum dos dois lados da polarização tem mais razão e os adeptos da Justiça a todo custo começam a migrar para o radicalismo (mas só uma das partes é punida, fique claro). Discute-se o transexualismo com ódio típico dos que não sabem o que é empatia e de quem sequer imagina do que se trata, todos são agora especialistas em arte na polêmica do MAM, os grafitti se tornam intoleráveis e, ao mesmo tempo, despacito, comemora-se o heptacampeonato do Corinthians, o tricampeonato da Tricolor, o pentacampeonato do Cruzeiro. Por trás das cortinas, a Inglaterra dá adeus à Comunidade Europeia e a Catalunha quer seguir os mesmos passos, a febre amarela urbana retorna, em meio à epidemia de prisões de figuras públicas e ao naufrágio das leis trabalhistas. Nessa tabula rasa, limpei a mesa de meu escritório, cheio daquele escárnio rollingstônico de que não teremos jamais satisfação, duvidei sobre a realidade da realidade naquele momento e apostei todas minhas fichas na piora de 2018.

E eis que, logo, o pospré nos diria tudo de fato: os demônios já à vontade deram suas caras, com o assassinato de Marielle Franco, a morte do repórter turco na embaixada da Arábia na Turquia, a intervenção militar e o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Em meio a uma greve dos caminhoneiros, desaba o edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu. Ídolos com pé de barro: só se falava de corrupção passiva, de lavagem de dinheiro e do escândalo de Abadiânia. Os vulcões todos resolveram entrar em erupção. Feliz foi o rinoceronte branco, que se extinguiu nesse ano, cuja alma perissodáctila foi para Icarus, a estrela mais distante do espaço, bem longe de Marte, onde pousou a sonda Insight. O fim da dinastia Castro dava uma nota de fundo à dodecafônica eleição de um presidente brasileiro que assumiria no ano seguinte com sua intérprete de Libras em joelhos. Pasmo de como seria o ano seguinte, beijei pela última vez os lábios da Esperança, nos seus estertores, tendo sucumbido já sua irmã gêmea, a Tolerância, e invoquei a convivência daquilo que me era tão estranho, praticamente impensável a despeito de meus dons de profeta.

Enfim, meu caro leitor, se relato tudo isso para avivar tua memória, é porque conheço a tua pouca afeição ao pré para agarrar-se com todas as forças no pós. Se me releres, verás que a cada momento, desejei de todo coração a melhora, embora as evidências me mostrassem em ato contínuo, o desabamento inevitável e a crescente degradação. Pois bem, caríssimo, podia dispensar-me agora de falar sobre o coronavírus, algo tão óbvio que nos aguardava, cuja previsível chegada diversas vezes anunciei veladamente antes de sabermos onde fica Wuhan. Disso tudo te lembras e desnecessário é repisar a estagnação do tempo cada vez mais óbvia, à medida que caminhamos para a década de 30, agora sem getúlios vargas. No ano de 2019 foi tudo igual: a barragem de Sobradinho matou mais de três centenas de brasileiros, Notre Dame pega fogo, a enchente de Veneza, atentados em Suzano, na Nova Zelândia e no Sri Lanka, a revolta da prisão de Altamira, tudo isso pintou a paisagem de fundo para as manchas de óleo do litoral do Nordeste que anteviam a exoneração de Ricardo Galvão e os desmatamentos históricos da Amazônia,. A volta do sarampo (lembras-te? estava erradicado linhas acima), a nefasta Reforma da Previdência que desafiou nosso tédio com o cinismo da imprensa e o desmascaramento de Moro instalou o niilismo necessário para um presidente sem partido. A falta de fé se converteu em sarcasmo e eu orei a São Augusto dos Anjos, de quatro, lambendo a frialdade da terra. Era o poder do invisível que se anunciava.

E o vírus chegava, enfim, em 2020, junto com a morte de George Floyd, o apagão de Macapá, os incêndios florestais, o desmatamento e o fim de tudo que é eterno. Nem a vitória do que destronou o Presidente Laranja nos tirou do assombro, da tristeza, da apatia, do apatetamento, da carrasca transfiguração, digna de uma pintura de Francis Bacon, do escorregador-moedor-de-carne existencial de Cioran: tudo que restava ainda de sólido se desmanchou completamente no ar, sem dar espaço nem mesmo ao absurdo. Vendo um tal Queiroz sentado no sofá, nossa cabeça caiu no chão, como a de Samuel Paty, não haveria mais Olimpíadas em Tóquio, vimos mais uma fraude de Lukashenko: ao lado da dor, o escárnio infinito e do sadismo, anuncia-se diariamente que não há mais saúde, nem justiça (porque nunca a houve e nunca isso ficou tão evidente quanto nesse ano) nem haverá mais cultura, lasciate ogni speranza e essas foram as provas cabais de que não há nada senão a sanha do tilintar das moedas nos bolsos, caminhando sobre cadáveres das celebridades, celebrando o novo com uma tocha na mão. Houve quem atribuiu tudo isso ao azar e eu fiquei babando de inveja da imbecilidade de quem crê nisso piamente.

Começou o ano de 2021 com sua avassaladora segunda onda pandêmica, em meio ao indecente pogrom indígena e prosseguiu com o incêndio do galpão da Cinemateca Brasileira, com as panes do currículo Lattes, do sistema do CNPq e do Ministério da Saúde, tudo temperado com o ainda mais indecente negacionismo. Tive de ouvir tanta idiotice, leitor, tive de brigar com tanta gente até então sensata, tive de ouvir questionamentos sobre a necessidade de manutenção da demarcação de terras indígenas e sobre o direito à caça esportiva, tive até mesmo de me defender por existir como homem, como caipira, como ateu, como branco, como paulista beneficiado pelo infame patriarcado; supliquei a meus amigos e às minhas amigas que vissem nos fatos do passado as poucas chances que a vida me ofereceu, sim, a mim indivíduo (esse ser não-sociológico) e a pobreza de meus antepassados que esfumaçara muitos tenebrosos anos que compuseram minha biografia, mas capitulei: cheguei a pensar, como eles todos e elas todas, que me circundam em sua matilha com seus argumentos simples e contundentes (cocaína cheirada no Facebook, crack fumado na boca do Twitter), que eu sempre tive razão a minha vida toda e que todos e todas à minha volta, incapazes de fazer sua autocrítica, relativizavam até mesmo o que existe per se. Pensei em completar meu "raciocínio" afirmando que falavam dessas coisas com vocábulos educados, mas, no fundo, não passavam de vis cúmplices idiotas desses desastres todos aqui narrados e ainda dos que estão por vir. Calei-me, contudo, ouvindo a sabedoria daqueles idiotas e daquelas idiotas em seu desprezo acusatório, destacando sempre supostos defeitos em outrem, como se fosse possível conhecer a alma de alguém do alto de sua autoglorificação artificial. 

Quase não escrevi este ano, leitor, e, por inúmeras vezes, perdi a vontade de abrir a boca e de digitar qualquer coisa, uma vez que pareço estar nadando, com a barriga rasgada, num rio infestado de candirus e piranhas. Antes fosse isso: meu corpo, pelo menos seria útil à alimentação dessas criaturas inocentes, que penetrariam nos meus cortes e me devorariam até só deixar somente meus ossos. Seria uma morte mais feliz do zumbi que te narra tudo isso.

Meu fiel leitor, que me queres bem, se há alguém assim neste mundo egolátrico, que não observas nem minhas malcolocadas vírgulas, nem as palavras deste ser humano determinado pela nascença a ser apedrejado e que não pactuas com crimes pretéritos ou futuros, sê feliz com a porcaria do vindouro ano de 2022 e se não podes deixar-me em paz na tua sede de sangue, maior que a dos candirus, procura a tua paz e não te preocupes se vou ou não encontrar a minha.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

UM BRINDE AO HISTRIÃO

Meu amigo Nelson, que não é o Rodrigues, uma vez me veio com esta:

O Bom Deus um dia acordou inspirado e, mesmo tendo concluído a Criação, resolveu dar uma colher de chá à Humanidade, recém expulsa do Paraíso, que rastejava sobre a face da Terra depois do Dilúvio:

- Do alto de Minha Graça darei a esse ser humano, perdido desde sua origem, a Minha melhor criação. Será um ser profundamente abdicado: a maldição do trabalho, que até agora só vem da extenuante fadiga e é extraído mediante o suor de seu rosto, se converterá gloriosamente em modesta Sabedoria: não o conhecimento que lançou os homens para fora do Éden, mas o que promova o Bem. A dúvida humana que fez tantos perderem a fé e descrerem de Mim se transformará em progresso benevolente e equilibrado, alegrar-se-á com o sucesso alheio e defenderá tudo o que é Justo. 

E o Senhor assim criou um ser luminoso, sábio, bom e justo. Nesse dia, Deus criou o professor universitário.


Satanás, que como todos sabemos, é um tremendo dum canalha, não se conformava. Vendo aquela obra formosa de Deus, a mais perfeita de todas, resolveu dar o troco:

- Não será uma nova criação dEle que me destronará deste mundo odioso, valendo-Se dessa Sua irritantemente divina criação. Se o Pai fez um ser abdicado, construirei seu perfeito oposto, o seu antípoda: uma criatura execranda e invejosa, que não trabalhará, nem mesmo sob ameaça dos meus súditos infernais. Será o ser mais altivo, o pior mandrião, o mais presunçoso, irascível, glutão, desregrado, soberbo, avarento, arrogante e cometerá com prazer todo tipo de injustiça, algumas que eu mesmo sequer posso imaginar. 

E lançando uma gargalhada horripilante, que assustou os anjos no Céu, Satã acabava de criar o colega do professor universitário.

Grande Nelson!