O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

sexta-feira, 28 de março de 2014

A INFINITUDE DA NÃO-CHUPETA

Há palavras cujo sentido parece fácil de captar. Por exemplo, facilmente compreendemos o que é alto a partir do que é baixo. Da mesma forma, sabemos o que é algo limitado, por isso concluímos que deva ser igualmente fácil entender o seu oposto Mas não é bem assim.
 
O cérebro humano tem um mecanismo curioso (que alguém pode achar muito lindo, mas eu tenho certeza que é um bug). Esse mecanismo se chama negação e, com certeza, é fruto da nossa evolução ou de alguma mutação bizarra. Seja como for, acabou favorecendo o homem a ser o que ele é.

Não há nenhuma língua do mundo que não tenha a negação. Todos os povos negam, negaram e negarão. É aquilo que se chama de "universal linguístico". Isso nos faz crer que não aprendemos a negação, mas que ela sempre esteve em nós, desde que o espermatozoide de nosso pai fecundou o óvulo de nossa mãe.

O bebezinho chora, aponta: ainda não sabe falar. Mas se lhe dermos a chupeta, afasta com a mão ou aprende a fazer "não" com a cabeça. O objeto desejado é o enigma que esse mini-Homo sapiens, qual uma esfinge, oferece à sua desesperada mãe que o quer mimar a todo custo. Pense bem nessa cena prosaica. Não é verdade que ele não saiba o que quer. Pelo contrário: ele sabe o que não quer. E aquilo que quer (e para o qual aprende cedo a apontar com o dedo), tem algo de não-chupetitude.


Passa-se um pequeno intervalo de tempo e logo o veremos falando. Se lhe pergunto: você quer a bola?, não precisará mais chorar, pois poderá responder "não". De onde veio o não das nossas expressões linguísticas e paralinguísticas? Mistério. O pequeno falante sabe que o que quer pertence ao conjunto das não-bolas e pode esclarecer-nos o mistério de seu desejo por meio de outra palavra que tenha algo de não-bolidade. No caso, trata-se a câmera fotográfica do pai, obviamente negada, o que desperta, ato contínuo, outro berreiro dos diabos.

O primatinha voluntarioso e irrequieto não sossegará nunca. Tornar-se-á um primatão ousado e beligerante: lutará por aquilo que quer e é de seu direito. Mais tarde será um velho primata que deseja o que não tem mais, pois ficou no passado. Qualquer ser humano está sempre insatisfeito desde que saiu do líquido uterino até o último contato com a realidade por meio dos sentidos.
 
Essa insatisfação humana é algo que o tortura. Ela faz que só gere problemas e faça besteiras para sua própria vida e para a dos outros. Interfere em tudo, quase sempre de modo devastador. Dificilmente não chamaria a atenção de um alienígena que estudasse nossa etologia. Obviamente, outros animais também interferem no meio-ambiente, na extinção de outras espécies e na confusão geral (as plantas também fazem isso, afinal, viver é, por definição, interferir na vida de outra espécie ou na de outros indivíduos da sua própria espécie). Mesmo assim, é difícil dizer que o homem seja um bicho normal: seu comportamento, visto no conjunto, parece mais o de uma praga resistente, de uma barata, de uma formiga e de todas aquelas bactérias que têm imenso sucesso evolutivo. Mas a onipotência humana é ilusória: pequenas mudanças climáticas ou algum asteroidezinho daria cabo facilmente de suas pretensões de ficar com a Terra só para si e participar de alguma rave no dia em que o nosso sol se transformar numa supernova.

Para mim, é incrível que ainda haja tantas pessoas que se incomodem com essa visão realista dos fatos. Por séculos, fala-se que há no homem uma alma e que é um ser especial, expulso ou não do Paraíso. Tudo que cria busca mimar ainda mais o homem. Os renascentistas, por exemplo, bajularam-no de modo quase enjoativo. Mas deixo essa conversa para outra oportunidade: voltemos à questão da negação.

Como dizia, o ilimitado é, segundo alguns, fácil de entender: o Universo é ilimitado, Deus é ilimitado, os números são ilimitados e alguns otimistas concluem que a capacidade cognitiva do homem também seja ilimitada... e por aí vai. Como disse, parece que, sabendo o que é limitado, por meio da estranha ferramenta de raciocínio chamada "negação", chegamos com muita facilidade ao conceito de ilimitado. Mas não é bem assim. Não temos a menor ideia do que é o ilimitado. Aliás, como já dissemos, a negação não é uma ferramenta de raciocínio adquirida por meio de esforço, conquistas científicas ou tecnológicas, mas antes é um mecanismo inato. O bebezinho nasce com ela, da mesma forma que os animais fazem coisas extraordinárias, movidos por impulsos instintivos admiráveis. A negação está no nosso código genético, em alguma circunvolução cerebral, na química e na física, predeterminadas e esculpidas pela evolução. De qualquer forma, custa-nos a entender isso: tudo que é limitado parece ter um contraposto ilimitado, tudo que é concreto e fácil de atingir teria uma contraparte imaterial e inatingível etc. Sem essa brincadeira verbal, o conceito de ilimitado não nasceria. Paradoxalmente, pensando assim, o ilimitado acaba sendo uma radicalização do limitado, pois foi motivado pela consciência (por vezes escondida e encabulada) de que nós somos extremamente limitados.
 
E como somos! Não temos olhos de águia, mas nos consolamos dizendo que os nossos não são tão ruinzinhos como os de alguns outros animais. Entretanto, mesmo com nossos olhos supostamente potentes ou potencializados por lentes e cirurgias, só vemos um pequeno círculo à nossa frente. Não vemos sequer a aranha que se pendura no teto prestes a cair na nossa cabeça, nem o assassino que se aproxima de mansinho com uma faca atrás de nós. Só vemos um pouco do que está na nossa frente, se houver luz suficiente e se o dia estiver bem claro, isto é, se nada estiver entre nós e o que queremos enxergar ou se não estiver longe demais. Caramba, é ou não é uma limitação dos diabos?
 
Gabamo-nos de nossa simpática empatia, que nos faz ser homens integrais, caridosos e altruístas. Tudo bem, vemos e tentamos entender o outro, mas sequer podemos entrar no seu raciocínio. Só um ser onisciente poderia e queremos ser como esse ser ideal. Armamo-nos de tanto conhecimento que até andamos ultimamente empanturrados de tanta informação. Mesmo assim, continuamos não conseguindo entrar no pensamento do nosso mais próximo. Armamo-nos, para tal, somente de indícios: das suas palavras, das suas entonações, dos seus gestos e do seu comportamento para deduzir o que está na sua cachola. E já nos damos por satisfeitos, convencidíssimos de que somos sabidos. Mesmo assim, há, para nosso espanto, todos os dias, notícias de amigos que rompem com a amizade, notícias de mães que matam filhos, notícias de pessoas que se suicidam e outras coisas assombrosas que, quando próximas de nós, nos marcam perenemente.
 
Então: pergunto, o ilimitado seria mais um desejo do que uma realidade? Queremos ser oniscientes e onipresentes, mas não somos. Essa triste condição faz imaginar que haja algo ou alguém que seja. Mas e se não houver? Que diferença faz? Continuaríamos limitados.

Sim, limitados, mas apenas nesta vida - diria alguém que me lê, alertando-me - mas, querido leitor, novamente: que garantias há de que alguma outra vida exista senão esta? Experiências de pós-morte e visões são válidas? Ou são, novamente, apenas indícios de outras coisas e, ademais, como já dissemos, indícios não são fatos: o fato de alguém parecer triste não é prova de que de fato está. E mesmo se estiver, nem a nossa certeza de sua tristeza poderia consertar a causa de se sentir assim, que está em algum momento passado. Será por isso que o mundo perfeito está sempre, segundo tantos, num tempo futuro, à nossa espera? Ou, de novo, não seria só nossa vontade pregando-nos uma peça, sem fundamento algum no real? Outra chupeta que queremos?

O Universo é imensíssimo e provavelmente infinito, portanto, aquilo que é infinito é ilimitado. Saber disso não basta para entendermos a distância entre algo mensurável e algo imensurável? Sim, pode ser, mas de que universo estou falando? Daquele observável por alguém que tenha as dimensões de um homem ou de um titã do tamanho de Galactus, personagem da Marvel? Esse universo é ilimitado para mim, que tenho 1,70m, ou para um ser que teria o tamanho do universo? E que tamanho é esse?


Nada melhor que analogias para entender o absurdo em que me metemos meditando sobre isso. Um vírus não pensa obviamente. E abaixo dele não há vida. Lá estão apenas as moléculas, os átomos e as partículas subatômicas. Ele próprio não é vivo. Um vírus, se fosse beneficiado com uma consciência, presenteada por um deus misterioso ou por um milagre semelhante àquela pedra negra de 2001: a Space Odyssey, não teria condição talvez de saber muita coisa.

Alguns vírus medem 20 nanômetros enquanto as menores bactérias medem meio micrômetro. Se o mesmo vírus medisse 2 metros (o tamanho de um ser humano altinho), a referida bactéria mediria respectivamente 50 metros, nada menos que a proporção entre o homem e uma baleia-azul. Tudo bem, esse vírus sabidão conheceria uma bactéria, mas vejamos o que mais. Se ambos tivessem sido beneficiados pela consciência distribuída pelo misterioso deus benevolente, as bactérias não seriam particularmente atraídas pelos vírus, da mesma forma que uma baleia-azul ignora a presença de um humano, mas os vírus se encantariam com o tamanho das bactérias.

Entra uma pulga na história. Nessa proporção, o inseto teria 75 quilômetros de tamanho. As bactérias precisariam de telescópios para saber da existência das pulgas e os vírus inicialmente as colocariam no terreno das hipóteses e teria meios de confirmar sua existência. Um homem de 1,70m, nessa escala, teria 1,7 milhões de km. Se a existência de uma pulga ainda pudesse ser reconhecida pelos senhores cientistas vírus e bactéria, um homem seria algo próximo do inimaginável.  



Mas isso não é nada perante o universo que conhecemos. Imagine a dificuldade do homem de lidar com as galáxias, que - agora fora dessa escala doida que inventamos -  têm, no mínimo, 30 quadrilhões de quilômetros num universo, cujo tamanho conhecido é de uns 45 bilhões de trilhões de quilômetros (ou algo parecido). Ou seja, de nada adiantaria que vírus, bactérias ou pulgas tivessem consciência, raciocínio ou tecnologia, pois seriam tão impotentes com relação ao universo quanto nós mesmos, humanos, somos. Também desconheceriam o ilimitado.

Cada ser vivo está eternamente encerrado dentro da escala em que existe, dentro das suas ignorâncias, das quais não conseguiria sair a não ser por meio de mecanismos de imaginação, como a poderosa ferramenta da negação a que nos referimos acima. Negar, imaginando um oposto tão tangível quanto as coisas que percebemos, é apenas uma loucura simplista.

Portanto, esses polos, arquitetados por meio de uma ficção, formam uma simplificação tosca da complexidade que envolve o que é difícil de ser observado, dadas as nossas limitações. Não geram conhecimento, contudo. Caso contrário, já nasceríamos bem sabidinhos, pois, como já disse, a polarização entre a coisa e sua negação é atávica, genética, evolutiva, característica da espécie, muito possivelmente uma mutação, um defeitinho nosso que chamamos imodestamente de raciocínio magnífico.

Estamos de novo perante a chupeta. Hoje vivemos em plena era do conhecimento, uma espécie de déjà-vu do Renascimento quinhentista: a internet é a imprensa do século XX. Sonhamos que um dia seremos oniscientes. Queríamos isso faz muito tempo... parece-me que desde o Éden com sua frutinha (que dizem as más línguas, era uma maçã Fuji). Mas será que quando tudo estiver finalmente ao alcance de nossas mãos, não nos emocionaremos mais por conquista alguma? Uma mãe telepata daria a chupeta na hora certa, a câmera fotográfica do pai, a boneca da irmã para o bebezinho destruir. O bebê ficaria contente. Para que precisaria aprender a falar? Todavia falaria, pois o gene tagarela já estava prestes a ser acionado, por pura inércia. Mas falaria o quê? Certamente nada de interessante a não ser para si mesmo.

Quem é consciente do apocalíptico mundo que nos espera, caracterizado recentemente, de forma magnífica, pelo filme Her, do genial Spike Jonze, por vezes consegue boicotar o tentador atalho asfaltado até o Paraíso, forçando-se a trilhar, por livre e espontânea vontade, um caminho pedregoso, bem mais longo. Isso não nos cura da insatisfação,  mas, talvez, sei lá, seja uma proposta de vida e uma solução.
 
 
 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A NAVAIA E A CUMPRICAÇÃO

Num quero qui mecê pense qui o tô pinchano tud'as coisa no memo imborná, mai num é mei ingraçado qui os medievar-tudo terminô o falatório deles cum o tar do Guierme de Ockham, qui teimaaava im dizê qui nóis pszava passá uma navaia nas cois inute? Ni-qui-qui ele falô isso, poco tempo adispois, num é qui veio o Nhô Lau de Cusa co aquele papo de "cumpricação", "ixpricação" e "contração"? Pur incrive qui pareça, o Renascimento, no fim das conta, acabô mei-que trazeno uns troço qui divia dexá di inxisti.

Pros que num sabe do qui-qu'o tô falano, Guierme de Ocam era um nego muito sabido, que matutô-matutô e adispois saiu falano pa-Deus-e-po-mundo qui quaje tud'as lengalenga qui os seus cumpade medievar falava, pur mais di mir ano, era tudo coisa que num inxeste. Pr'ele, esse negoç'aí de universar, haecceidade etincetra era tudo balela, o seje, tud'as vêiz quan' ocê generaliza as coisa, cuma si ela fosse uma só, é um troço qui num inxeste. Mei ansim: o tô veno esse cumputadô na minha frente, entonce, é craro que ele inxeste, nenão? Ocê pode inté duvidá purcáusqui ocê num tá veno ele, mai eu tô e, si o tô, ele inxeste pa mim, oras bola. Tudo bem, inxeste, mas o teu cumputadô tumém inxeste (e ieu num sô queném ocê não: eu quirdito que ele inxeste, memo que ocê num quirdite no meu). Mai o pobrema num tá aí.

O meu cumputadô inxeste, o teu tumém, mai num inxeste "o Cumputadô", sacumé? si-troço idear, a coisa de qui nóis tamo falano. O Cumputadô Idear é uma bistração, uma coi de doido qui nossos miolo inventa pamode nóis sabê do qui-é-qui nóis tamo falano, nenão? Esse Cumputadô-aí idearzão num é o meu, men'ainda o teu. Pratão achava qui ele tava lá no mundo à parte qui ele inventô, a besta. O Protino dexô as coisa ainda mai pió! Ixe, sartei de banda c'o Protino! Ele cunsiguiu sê mai pratõico qui o Pratão. Qui zagero, sô. Demorô um tempaço inté que o sabichão do Guierme pensô: ara, qui mundo é esse, sô? E garrô maginá qui si-mund'aí é bobage, cois di quem num tem o qui fazê. E cê qué sabê devera? Ele tava é certo.


O pobrema é qui si num inxeste o Mundo das Indeia, cumé qui nóis si intende? Guierme num tava nem aí ca resposta dis-troç'aí. Si era inute, a gente passava a navaia e cabô! Pa ele, tinha muntuado muita cois inute nos úrtimo tempo: pamode nóis pensá adireito sobre Deus, nóis pszava separá o que inxeste do que num inxeste. E começô pelas bistração. O cumputadô idear qui nóis tá falano dele num inxeste e cabô a prosa. Mai, pensa bem, sô, qui coi di doido is-troç'aí: tud'as coisa qui nóis fala num inxeste, nenão? Sobra o quê, hem? Nadica.

Lasquera, mai num é qui é bem aí qui o cara foi geniar? Nóis si cumunica cum coisa qui num inxeste. Tudo é sinar (sué, o tar do "signo" qui os linguista gosta tanto). Ieu, pá falá a vredade, cá cumigo, tenho mhas dúvida si, pensano desse jeito, Guierme num chegô inté na cuncrusão de que Deus tumém é uma bistração, mai pra fugi da iscumungação, inventô (queném os oto) uma lengalenga pa dizê que Deus é uma exceção. Sabido, mai num colô muito e o furdunço já tava armado. Finar das conta, arguém tinha qui falá e mai crar qui ele falô num dava não... Num quero sê mardoso, mas possa sê qui ele fosse riligioso, causque era franciscano etincetr'i-tar, mai cunvenhamo, tud'os filosfo são radicar nos pensamento e c'o-saiba ele num divia di sê diferente, cuncorda cumigo? Bão, vam dexá o home queto c'os pensamento dele... Já falemo o que tinha que falá...

Mas o c'o truxe pa nossa prosa é vredade: tem filosfo e filosfo. Nhô Tomais, pur exempro, era um cara qui num gostava de briga, entonce, mei que dexô tudo-mundo contente. Pur causa dessa encimadomurice dele, tentô juntá a Bríbia com Aristote, mai num mi cunvence não. Falô bunito, é vredade, mai é muito dois-peso-duas-midida po meu gosto. Num é guinorança minha, não, si ocê lê bem lido, vai cuncurdá cumigo: o Guierme é mai batuta, mai gosto é gosto. Iss'aí c'o disse é só minha modestcha pinião.

Bão, mai eu sempre pensei que batuta-batuta memo era os cara do Humanismo e do comecim da Renascença, causque nóis já iscuitemo tanto desses car'aí. Num via a hora de lê Petrarca, Nhô Lau de Cusa, Marsílio Ficino, Pico della Mirandola etincetr'i-tar. Mai num é qui mi deu 'ma decepição dos djabo? Os cara sabia lê inté grego e hebraico e provaro qui sabia memo, causque traduziro um mundaréu de texto, mai, crendospai, acabaro leno uns texto farso queném o do tar Hermes Trismesgisto. Aquilo-lá embolô tudo nos miolo dele, memo seno um coiso esquisito. E porcausque lero, passaro a gostá dj'uma catimbozada, viraro um bando de macumbero. Crúiz-credo, parece incrive que a Ciência muderna tenha saído desse rebosteio.

Jurpurdeus, pa piorá, os nego qui fizero isso num sabia nada de matimatca ô de física. Os mecena pagaro, mai mem'ansim, falaro mai burrice que os medievar e num parava de fazê metafra matimatca. Cum'é qui pode? Só pode de sê o pobrema da peste no finar do secro catorze, nenão? Intonce é bem aí qui nóis vê o Nhô Lau começano c'aquela prosa enjuada de qui a vredade é um circlo e a sabiduria humana é um poliedro, entonce pur mai qui nóis aumente o numro de lado do poliedro, nunca ele vai sê um circlo. Esse brabrabrá pra mim enjua, causque é óbvio, nenão? É o primer passo pa tê queles discurso cetco ô romantco, afe, donde sai um mon'dj-asnera.


Tracoisa qui o Nhô Lau fala é que em Deus o mai maió é o memo qui o mai menó, causque Deus tá nas cois qui é cumum dos contrário. Mai qui-qui tem em cumum, meu santo? No mei do mai maió e do mai menó (na intersequição, cuma os matematco diz) tem só a palavra "mai". Viu? Facim respondê iss'aí. Os gramatco custuma chamá iss'aí di superlativo. Então tá bão... Mai intão a cuncrusão é qui Deus tá nas coisa bistrata, nas mais bistrata de tudas... Ara, pensá ansim num é um passo pa trais do qui-qui o Guierme tinha discubrido? Dá reiva pensá qui o conhecimento num vai em linha reta: dá um passo pa frente e uns-par pa trais... Adispois mi vem falá qui o home é um bicho sabido? Si-zói'aqui é irmão desse aqui!

Qui-qui o posso falá do Petrarca? Eu pensava cos home dessa epca era tudo telequituar. E era, mai quar num foi minha surpresa quano sube que eis lia um mon'di bobage e misturava as coisa boa c'as tranquera. Ixe, a ciência penô pa saí desse cipozar. Mai is-tud'aí ainda é purque num tinho ponhado cabala no mei das coisa, purque, crendospai, quano isso cunteceu aí sim virô 'ma zuera do cão.

Crar que tinha gente cum miolo. Na onda contrária. Trudia-mem' o tava leno as cois qui o Nhô Nardo da Vinci escrivinhô. Aí sim, inteligença pura. Mai o cara escrivinhava tudo de trais pa frente e era mei caótco: o nego tinha ideia demai, acho que ninguém deu bola pr'ele, causque só ficava lá só pintano a Monalisa e inventano otros breguesse. Bão, esse era gênio memo, tiro o chapéu pro Nhô Nardo, mai o cara tava no meio dum ban'di loco. Quem escrevia craro (e escrivinhava paca) era memo só os doido: um monte de biruta que quirditava no tar Hermes Trismegisto.

E o qui mai mi assusta é qui dispois dis-tud'aí vem um cara inteligentão queném o Erasmo de Ruterdão e fala qui legar memo é sê loco. Ara, é fáci dizê isso quano num é loco de vredade, nenão? Até no Santo Agustinho (qui Deus o tenha) o Erasmo meteu bronca... Capai! O tar dizia qui Jisuis fêiz um monte de cumparação pa nóis sigui e qui nóis num iscuitava. Disse que nóis divia di sê queném criança, lírio, mustarda, passarim e otras coisa mei besta. Entonce, ele cabô cuncruino qui errado-errado mem' foi pensá qui a filosofia era um troço qui psava usá o cerbo e pur causa des-troç'aí cabô xingano tud'os conhecimento qui vinhero pur mei da bisservação, do raciocínio, da tiligença. Mai qui estrãio iss'aí... causque ele tumém fala dis-tud'aí cum tiligença. Iscrivinha tudo numa belezura só. Ara, intonce é aquela coisa: "fáiz o que eu digo, mai num fáiz o qu'o faço"? Intendo disso não... Ele qué dá uma de Tertuliano co essa lengalenga? Mete o pau nos padre tanto, mai tanto, qui o Lutero ficô cuntentim cas ideia dele, mai, im vêiz di juntá co ele, num é qui o Erasmo criticô o Lutero tumém? Ara, vá intendê! Sartei de banda.

Mai dispois, pitano meu cigar di paia, fiquei pensano aqui cumigo: n'é qui hoj'in-dia é tudo pareio? Inguarzim-inguarzim-inguarzim! Nenão? As ideia dos nego daquela epca avuava mai ligero qui a dos medievar causque eis inventaro a imprensa. Tá ixpricado! Nóis hoje tem a internete. Inguarzim: essas duas cois'aí mistura tudo: os ai cos bugai. É difice sabê que vai saí des-troç'tud'aí. Cuma ocê pó maginá, aquela epca-lá era taliquá a dj-oj'in-dia, nenão? O conhecimento zanzava palá-e-pacá e tudo-mundo tava incantado c'as nuvidade. J'in-dia tumém: cunhecê as coisa é bem mai fáci. É zapitizúpite!


Carqué um pó falá o qui qué, do jeito qui quisé. Sempre vai tê os qui apoia e os qui num apoia. Mai a burrice do ser humano cuntinua a mema. Nóis tudo só qué é pensá queném tudo-mundo. É difice arguém que seje originar memo. J'in-dia, parece inté que isso é mai fei que batê na mãe. J'in-dia nóis pode sê contra ô a favor diss-ô-daquilo, mai o povão qué mem'é sigurança nas ideia. Morre de medo das mudança. Es-troç'aí de parecê que nóis tá numa areia muvediça dá insigurança das braba na negada. Ixe, logo-logo qui as coisa muda, vem os qui diz: vambora vortá pro qui era antes. Si isso cuntece, demora paca pa vortá as coisa no seu rumo, mai num tem jeito não. O negócio aponta pa frente: o djabo é que muita coisa perde, demodsque o que nóis cunsegue di novo, na maió par'das vêiz, é bem menas coisa do qui tinha: a perca é grande memo tud'as vêiz qui si vorta pa trais! Num foi ansim c'os Egipço? C'os grego? Memo c'os medievar, quano nóis pensa no Guierme?

É... o Comte era uma anta memo. Num tem pogresso nesse mundo coi-ninhuma: tem é uma linha que aponta pa riba, mai o grafco mem' é chei de arto e baxo. E tem cada banguelona qui parece às vêiz, vixe! Num vai ansim cresceno-cresceno sem pará coi-ninhuma, ara! O Guierme divia di pensá qui quem quirdita nes-tipo de coisa é um burro.  E isso fai tempo, hem? As pessoa si mata, mai no fim das conta, sas-cois'aí tudo qui elas defende nem inxeste...

Mai, fazê o quê? Tem mai gente que quirdita do qui quem num quirdita. E inda pur cima, parece qui quirditá e num quirditá tanto fáiz, porcausque inventaro inté um nome pros qui num quirdita: "nominalista". E dero medaia de oro po Guierme, cuma si ele sesse o prinspe dos nominalista, ara... Mai a vredade inexpricave pa mim é que quano nóis num quirdita, inxeste uma tendença do troço desembestá pa baxo na nossa cachola, quiném caminhão na banguela e nóis sai do fideísmo pro ceticismo bissuluto. Fiquemo jururuuuuu, ara, tem motivo? Para co isso!!!! Ô nimar sem miolo, si-tar de ser humano, crendospadre!

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

EM 2014 MEUS VOTOS DE MAIS COMPREENSÃO NO MUNDO

Esta é dedicada a Tiago C. Ramos, com saudade. O texto é de 1998 mas continua atual.
Viva o Nasuto!

"
DA GLOSSOPRAXE CONSUETUDINÁRIA: UM PANEGÍRICO

                           Nicomedes Gedeão Dousbuzenos d’Ávila-a-Baixa [1]

ABSTRACT: You will read in this article about the serious problem of unintelligibility, which is source of misunderstandings. The origin of that is, according to the author’s thoughts, an artificial creation of the upper classes. He defends the use of a simpler language, though not a vulgar one, so that most of the big differences in the society can be easily solved.

Os contubernáculos vezeiramente se locupletam de sodalícios eqüevos e chalaceiros, que, provectos na verbiagem soez, após algumas justas de zurrapa, letificam com sua zangurriana a mais mesta das circunjacências. Destarte, não é mirífico que os utentes algaravíloquos se divirtam imodestamente do cogito judicioso, qual prófugos, e convenha-lhes logorréia invisa, em tudo equável à dos neguses abexins. Exinanidos, parte favoneados pelo psicofármaco da imperorável sermoa, parte pela careza de euritmia, quando os coage o aveijão indigitante da inescusável ¢n£gkh, sóem tais garraios não poder garabulhar epístola a mais singela: seria como se meandraram por vaus impérvios. Por amor do desazo e da insuetude, após bacejo em calepinos garrafais, as missivas achamboadas, mádidas de hípsilos e quinaus, sarapintadas de caçanje perissológico, afiguram-se-nos um obnubilante galimatias enxacoco a troixe-moixe em engrimanço inextricável. Enfim, uma chirinola sibilina!

Engurujam-nos sobremaneira as endrôminas azadas das perlengas desses intrujões, mas não só os zopeiros chãos d’almagre são cruciados, na zaragata dos paroxismos, pelas canhas da estroinice: o mesmo ínclito latiniparla Pacúvio vasquejou sob análogo fojo de arrebiques ao parturir, de ocitocia, burundangas anfigúricas.

Corruscará lucejante e prefulgente esta epistemografia em lúrido dilúculo ao miudear a anchura da escancelada e arvoante talisca entre os crisólitos haventes só nos cartapácios pedantocratas (mormente anástrofes, políptotos, quiasmas, epiquiremas, hipálages, sínquises, oxímoros e quejandos) e os verazes perispômenos dos galradores. Essa dala sanjada por zotismo, onde podemos redambalar, é o azo de ambas as corruções, scilicet, o esporóforo da inexeqüibilidade dos sáfaros de dídima feita, já por femas, já por grafemas. Sem rebuços exoraremos contra o desajoujo plioglótico. É mister que se lastre usança sem zanguizarras, a que está em foto nos marouços do pélago dos símplices, a das calendas maiozinhas franchinóticas, e nenhumamente o bucentauro sancarrão, gebo e zãibro das sinafias horrísonas. Para tal, urge que encetemos o escardilhar impertérrito de cada coirela dessa liça, escalrachando as negaças zabaneiras dos bigorrilhas, para então retanchar o alfobre, arrampadoiro esbuxado, com decistéreos de racimos anafados. Que seja a recoleta Weltanschauung espeque e peanha desta magnificentíssima açotéia arxada, que é o Torrão onde temos nado.

Sobretudo nas epistemografias deve a língua ser porreira, inube, e sem procurar valhacoito em preciosismos, indesejáveis, pois assim ficará acessível aos lagalhés brasilícolas e sem a necessidade de chichas, burros ou marginalia. O excesso de maneirismo excluiu a maioria da plebécula do conhecimento ou alimentou a prenoção de que se trata de um objeto inatingível aos pategos. Rompendo a barreira da linguagem, iniciaremos um potici de pessoas no campo científico e acharemos sobejidão de suputadores, filósofos, cientistas, protozoólogos. A língua que permeia os éditos científicos exorbita-se da preocupação de integrar os patrasanas e se exime da responsabilidade de formação de novos pensadores, cavando um abismo intransponível entre classes sociais.

A prana de toda essa maldade sem dúvida alguma partiu das classes dominantes, carentes de louvaminhas, que confeccionou socioletos, que levantam barreira da comunicação entre a elite e os mesteirais que não têm sequer ptocotrófio com presigo de micula pingue de perum como prândio. Como pródromo, há fatos que datam de três dozenas de séculos antes de Cristo, entre o povo de Mohenjo-Daro (NGUDDABHASKARA 3598 a.C: 134). Raiz dos preconceitos, a criação de um lumpemproletariado foi o bereshit da diferença de linguagem e separou os homens, em vez de uni-los. Sua potava era a cizânia nos porvindoiros, em vez da solidariedade, a segnície, a intuspecção egótica em vez da visão coletiva e foi, como algo tradicional, transmitido ao longo dos tempos. Formaram-se cloacinas greis de pataus e nunca mais houve uma razão unívoca (ÙBÚLÛWAYÈ 1999:2b).

Em Ciência, suas conseqüências não podiam ser mais apostemáticas, pois des os prógonos separou-se a comunidade acadêmica em clãs e nunca mais as uniu, as ciências pororocam-se dia após dia, criando uma prole cada vez mais especializada. Mesmo em área superespecializadas como na esquizopodologia sofre-se de bifurcações irreversíveis: os exopoditólogos se azoinam, sem faúlha de bazófia, em seu romenho intangível para um endopoditólogo e não há perquiridores que se apliquem aos dous estudos à uma. Procazes, dentro de cada subgrupo, vemos polemículas e os cientistas se trancam em suas salas, e chega-se ao cúmulo do decano não conseguir alvitrar seu fâmulo orientando, devido à imensa distância de sua expressão. Exemplo mais lumioso dessa aberração é quando o mesmo autor é tolheito no entender do que ele próprio escrevera no edição anterior da revista de seu instituto e cita, contestando tudo que disse anteriormente e sugerindo que o autor daquelas linhas é um lunático.


Em glossemática as coisas se vêem de modo ainda mais claro, a ponto de já terem construído um linguará automático para as hjelmslevianices, longas como um melisma de Machaut, e as pottieradas, pertransidas de obscuridade como a mansarda de Prosérpina, que são intragáveis mesmo com a mais saborosa dos sauces de Port-Mahon (HELLMANN & AGELLATUS 2053: 0). Isso nos desobrigaria de procurar mistagogo pancaio, tiromante fajuto ou lampadomante de pantim por alcançar o extrato enleado de seus textos. Os paparrotões cinicamente carcavam em torno da língua falada e apregoam que as não sobponhamos. Ora, tudo indica que vêem como nós da Alma Mater Ethnosophía, contudo, paradoxalmente sobredistendem mentiras, tergiversando em um jargão emeticamente ilegível, azougando e entupigaitando seus colegas de discussão sadia de idéias, não sobrando sequer um escassilho para a patuléia que tanto enaltecem! Na verdade discutem breguessos e cousas de pré-antessaber de todos, como o fato de os dípteros terem halteres, justificando sua existência com máscaras que azoratam mais o leitor do que fez a déia Glaucops com o Telamônida. Como obviar a isso? Com um tal janaú, nenhum passo é possível, pois o texto parece ser frágil como um nuelo que sofre de hialoantropia. Trescala tal frioleira insulsa à grimpa, que após mondada, inda em nidor inaturável se contrefaz. São-nos ilécebras para a osga! Às escâncaras obfirmamos que quem assim no faz não excele pela hombridade de escol.

Quamanha é a distância que nos separa da zina do tempo dos charros bufarinheiros, latagões lusoparlantes, práticos contumazes d’antanho, que, multivagantes em seus patachos à zinga pelos simuns, cansins, rebojos e caribdes do orbe, em priscas eras, cheios de cachimanas e embófias, esguncho protendido à mão, faca à vagínula, surro à toita, sem ter rumado ou tapejara que lhes mostrasse o caminho nem esculápio que pensasse perchas antiflogísticas em suas bostelas, repatanados fidamente na oneomania dos povos, davam saguates ou escambavam com grande guapetonagem suas cousicas: piçamás por dous pardaus ou uma pistola, arráteis de acaburro vermelho ou de simonte ptármico por um ceitil, almudes de jeropiga por meio morabitino, martelos de zerumba por um quarto de ducado, alnas de nanzuque prásino, zuarte álbido e zefir roxicré por qualquer bagalhoça ou tuta-e-meia. Bastava-lhes zumbaiar e dominar perfunctoriamente o euskara para se comunicar com os psicrofóbicos tchicaridjanas, com os pontilhosos popolucas, com os rezingões ntogapigues, com os otxucuianas pedinornitófagos, com os iscnofônicos macamecrãs, com os mazorrais aripaquitsas, com os islenhos craptês, com os xoclengues, com os oxiópicos xicriabás, com os olhitoiros oaliperis-dáqueneis, com os maiongongues zeófagos, com os pachecais piocobjês, com os agtas ulótriques, com os gabarolas mencragnotires, com os xelguins que oferiam seus féleos acepipes de vunvuns e surrupeios sem quinecu nem sirage (vote! tibe!), com os tatibitates bosquímanos, com os refegados samorins e rajaputras e seus ravanastrões, finalmente com os oligopiônicos chins, em seus queimãos e suas charas sem biocos nos mesmos miaus! (PIÇARRO 1502: 1502). Não é, porém, história solaz, pois evidenciamos que os protonautas já não eram tão imáculos, pois marandubas de pichelingues, flibusteiros e outras tranquibérnias não faltam, as quais inquinam e lucham nossa prístina e perilustre ascendência, lançando-a num volutabro (o recuco Ernanes Garcia, por ex.).

Escusado seria ainda as renembranças dos querigmas, que por trás dos esgares austeros, ouropel engranzado em rostros com tomentos pogoniáticos palia lamentável hipocrisia, ao zafimeiramente empar seus eucólogos e ripanços com patranhas em línguas há muito desusadas, fragmentam-se infinitamente em um veraz kjøkkenmøding de seitas que sofrem de acusmas divinos, comprometendo os larozes da tacaniça monoteísta. Malgostosos vemos os fiéis santiguando-se como psecas das cabeleiras rosiluminosas do destino, pelo simples fato de não terem compreendido uma mensagem ocada que deveria, antes de tudo, ter a nução da linguagem clara e sem platitudes. Não são dinos de cachinadas os fungagás de myôhôrengekyô dos zacos no zingamocho das dágabas?



Também a incompreensão entre as línguas é, sem a menor sombra de dúvida, motivo de as religiões não se tolerarem: abundam zervanistas, premonstratenses, abecedarianos, adamitas, sublapsários e quem ganha com isso é o Sapucaio, que ri a bambão e sarrafaça seus saramátulos (abrenúncio!). Samicas falem das cousas cômpares, reveladas em tempos e circunstâncias diferentes pela bondade de Deus, mas conciliá-las é trabalho vão, pois ao longo do tempo, a incompreensão modificou malignamente suas mensagens e achar algo de comum entre elas, após minucioso paragão, s seria tão derrisório quanto dizer que um estromateídeo e uma rickettsiácea ipsa res sunt (ÁGONOS 1748: 666).

É do talante do parnaso primar pela incompreensão omnímoda, dando ensejo a um panázio prolificentíssimo de lazzi. Observamos tal decadência quer numa endecha, cujo conteúdo zinzilulante não se percebe nem à primeira nem à quingentésima leitura, quer nos quirieleisões e outras solfas dos sochantres modernos, cujas quiálteras nos regais são tautócronas aos proslambanômenos nos rotfones e aos rubati dos sarrussofones, destoando dessa feita em muito das antífonas pesponteadas e tedéus merovíngios, que enchiam as almas personativas de júbilo e satisfaziam com seus rabis, zeugos, tipofones, rajões e outros pentens nossa amarga estada na terra, quer ainda na pintura, cujos traços miniados de seus poncifs que retratam uma pêssega são impossíveis de serem seguidos, seja a nanômetros, seja a siriômetros de distância, havendo inclusive momentos em que os próprios pintores admitem nada significar ou nem eles mesmo entender o que fizeram. Todos, porém, são ávidos de prolfaças (KO£YBRZYCZEW¦KI 1985: 24). Que vem a ser essa ausência de modelos e de valores do mundo hodierno que nos mete em pantana, se não - pílulas! - as trincheiras que as mesmas elites sécias apaniguam com pervicácia? Sôbolo urgente de uma atitude repristinatória um sonhoso qüidam revel e sebenteiro já respondeu contra a glotorrexe em seus canhenhos, em que pesem os potins e as rancoras e pufismos dos zoilos zingrantes perdigoteiros (D’ÁVILA-A-BAIXA 1944: 390). Como a tiragem continua muito baixa, achei melhor escrever este artigo para fazer-vos cientes de sua existência. Ou seja, em todas as perquisições vemos erigir um caravançará para esse absurdo: na ergasiotiquerologia, na aviceptologia, na zetética, na picnometria, na edafologia, na pestologia, na espeluncologia, na sicomancia, na potamologia, na rurografia, na sarcologia, na pteridologia

Homessa! Como apólise peremptória, convoco a todos hoplitas samideanos, mesmo infratos, à loita. Sem sobrossos! Zurre! Esguitando, estumemos nossos lebréis licorécticos para que, desacolherados, zavem aos morsegões esses rolhos fraldiqueiros esciófilos! Que jamais se zumbra a Rezão! Víspere, joldra! Profliguemos, após terrível indaca, quantos obliqúem ideofrenicamente em ingresia perfunctória. Bafuntem as azêmolas que inda o fazem! Ir a Canossa, jamais! Ecoxupé!

INCUNÁBULOS GLOSADOS

ÁGONOS, Michelangelo. L’amore impetuosissimo fra Strepsiptera e Radiolarius. In: Revista sesquiebdomadária “Ingluviocelologia e Você”. Guarulhos 2344 (1.234.985.678.890.000.987): 1-690, 1748.

D’ÁVILA-A-BAIXA, Nicomedes G. D. Os aldravões manauaras que cunctatoriamente bezoam aleivosias em catadupas. Coleção Primeiras Manivérsias. Santa Trampolina, Pechisbeque & Cia, Elafebólen de 1944. 12389p.

HELLMANN, Oiticica & AGELLATUS, Friðunanþus. O effeito da mayonnaise em assumptos intragaveis & as machinas de ler escriptos de Hjelmslev. Manjaleco do Norte, Officina Xptou, 2053. 4p.

KO£YBRZYCZEW¦KI, £êch. Dlaczego nikt nie rozumie miê? In: G³upstwo i Nauka. £ód¿ 62 (12):26-25, 1985.

NGUDDABHASKARA, Bhurukhenemaphortha. “Aum, Rá, Kyai, Tchan: est-ce qu'il y a quelque chose de commun?”. In: Revue de l’Institut Autognostique de Lutetia Atlantica. 3598a.C. 160 rolos+ilustr.

PIÇARRO, Gustávão. As pucelas ilhoas inhenhas que se encarapitam a flux, com suas verdascas e caxirenguengues, pendependendo nos moutedos de inambuquiçauas das ourelas e rias dos charqueiros ultraplatinos. Madrid, Ofiçina dela Reiña Loica, 1502. Metáfrase do leonês esquipático para o luso moente e corrente por Nicomedes Gedeão Dousbuzenos d’Ávila-a-Baixa. 98003p.

ÙBÚLÛWAYÈ, Bálàkôbákó (ombudsman). “Mo ti maa nkà ìwé ìròhìn yi rí”.In: Folha de São Paulo, caderno Basta!, 12 de setembro de 1999. 3p.


[1] lente da Alma Mater Ethnosophía, Delphos, distr. Jucurutu/ RN"

domingo, 15 de dezembro de 2013

INIMIGO SELF-SERVICE

Todo animal está numa cadeia alimentar e os mamíferos, por mais espertalhões que sejam, nem sempre conseguem safar-se disso. Assim, nossos antepassados sofreram muito, sem visão noturna dos lêmures, sem a cauda preênsil ou a pelagem vasta dos haplorrinos. Durante milênios, os inimigos sempre foram os mesmos e afligiam sobretudo os velhos, doentes e filhotes, devorados por terríveis serpentes, astutos carnívoros e aves de rapina inclementes. Mas cedo também se viu que adultos fortes poderiam ser vítimas de outros inimigos. Debilitavam-se por causa de insetos parasitas e carrapatos, instintivamente arrancados pelo companheiro ao lado, em atitude solidária, espremidos ou comidos com uma dentada automática. Outros parasitas internos não eram visíveis, mas depois de um tempo, algumas atitudes igualmente instintivas como ingerir certas plantas ajudaram a combatê-los. Nenhum desses inimigos era mais estranho que a morte natural, que rondava qualquer um, forte ou fraco, causada pela velhice ou por alguma razão desconhecida.
Nunca nos faltaram inimigos. As trevas traziam um pouco de sossego às almas extenuadas de tanto arriscar a vida na procura de alimentos, mas paradoxalmente o sono era interrompido pelo grito de algum integrante do bando, subitamente devorado. Mas dominamos o fogo, já completamente bípedes e nus, e o perigo das trevas diminuiu.
Com a agricultura, a fome também passou a ser menos frequente. Com a cidade, a segurança aumentou. Mas não cessaram os inimigos. De início, eram as pragas que frustravam as colheitas. Mas logo em seguida, os inimigos brotaram de dentro da própria espécie. Fora das muralhas, tribos inimigas se batiam para entrar. Dentro delas, os assaltos eram apenas um dos tipos da multifacetada violência. Para se evitar o caos, nasceu a lei e a civilidade; paradoxalmente, com ela, a perversão de fazer o mal pelo mal.
Não urrávamos mais, nem batíamos mais no peito para estabelecer hierarquias. A essa altura, subíamos aos púlpitos. O inimigo agora passara a ser exclusivamente verbal. Suas ideias não nos agradavam de modo algum. Nem as nossas lhe ecoavam no peito como verdades. Acusávamo-nos mutuamente. Ao menos, concordávamos na mútua inimizade.
Estávamos certos que, além de nossas muralhas, nada de nosso existia. Todo o mundo era barbárie e, portanto, era nosso inimigo. Até que veio alguém mais poderoso e derrubou nossas fortificações. Passamos a fazer parte de um império e nosso rei foi levado vexaminosamente acorrentado como escravo para uma terra longínqua e dele nunca mais ouvimos falar. Ficamos sob domínio de um rei estranho que não era nosso vizinho. A ele, de coração ou contra a vontade, juramos fidelidade, sem jamais vê-lo, e auxiliamo-lo nas guerras contra outros inimigos, que ainda não estavam sob seu império.
Até que um dia, convicto dessa situação lamentavelmente resignada, alguém adoentado mentalmente passou a ver nessa nossa pena eterna à subserviência uma centelha de futuro. A alforria, obviamente, não estava neste mundo, mas após a nossa morte. Centenas de outros profetas repetiam essa mesma ladainha. Continuamos resignados, mas felizes. Sim, pois pior que os inimigos que nos escravizavam ou que nos saqueavam, pior que nossa condição mortal de súdito, havia algo ainda mais terrível, que tornava esses males irrisórios. A chave desse futuro era de uma simplicidade incrível: uma unção, um batismo, uma declaração, enfim, uma certeza cega no Bem, o verdadeiro rei que vencerá esse superinimigo. E a felicidade dessa revelação lançou novamente homens contra homens. Diziam: no fundo todos somos iguais, mas há um inimigo ainda mais invisível que todos os anteriores e essa é a causa de todo nosso mal. Criam que haverá uma redenção contra a abstração de todo o mal na figura igualmente abstrata de um bem infinito, que se importa conosco, porque somos seus filhos.
E esse raciocínio infantil de um ser desamparado mostrou que devíamos lutar contra os demônios que se escondiam nas ainda muitas sombras das vinte e quatro horas que regulavam o nosso organismo animal. De nada adiantou Santo Agostinho argumentar que o mal não existia. A fé na existência de um inimigo poderoso como o Mal é muito maior.
Um dia, alguém inventou a luz elétrica e a multidão de seres fantasmagóricos que povoavam a mente e as narrativas de pessoas muito dignas acabou por esvanecer-se por causa da incredulidade de quem nunca as via por mais que as buscasse. Chegou-se a conclusão que ou eram mentiras ou eram alucinações. Mas o Mal ainda era a melhor explicação para a existência dessas alucinações.
Pouco antes, porém, atenuara-se a certeza da cisão entre o homem divinamente amparado e a natureza, que existia apenas para o servir ou para o aterrorizar. Tornou-se óbvio que não há cisão alguma, mas continuidade histórica. Se esse continuum era cercado de fossos, na verdade, foram todos criados pela extinção dos elos perdidos. Nesse sentido, nosso organismo é uma extensão somente um pouco diferente de seres similares, mas ambos teriam um ancestral comum. Abalou-se com esse discurso nossa certeza de sermos filhos de um bem que nos protege, mas as alucinações continuavam e desconfiou-se que seriam apenas ecos arquetípicos desse passado animal, produzidos por nosso cérebro.
E eis que o cérebro passou a ser nosso inimigo. E ainda mais terrível. Não se tratava mais de um animal selvagem, nem de um espírito maligno, nem da tribo vizinha, nem do desconhecido que mora ao lado, nem de nosso irmão. Nosso inimigo agora era nós mesmos. Estávamos a mercê de uma massa cinzenta cheia de vontade própria, que habita em nós mesmos. Reféns de nós mesmos, passamos a desejar queimar até a morte o Horla que habita em nós, mas, queimando nossa própria casa, acabamos por vitimar os empregados, que nada tinham a ver com nossos delírios. De novo estávamos num beco sem saída, situação em que nos encontramos agora e que Giannetti descreveu magnificamente no seu livro A ilusão da alma.

Mas o conclusão disso tudo é que nossa razão de vida depende de um inimigo, senão de nada adiantaria ao nosso espírito irrequieto de símio trancar-se em casa, buscar o êxtase ou o conhecimento, enveredar pela vida política, viajar para terras distintas, como diz Sêneca em A tranquilidade da alma. E quem diz que preenche esse vazio com isso ou com aquilo normalmente histericamente reforça tudo o que foi dito até agora, pois faz isso em nome de um inimigo. Partidos políticos se digladiam, patrões e empregados se enfrentam, religiosos  lamentam que haja ateus e ateus ironizam religiosos. Estamos num mundo cronicamente inviável, diria Sergio Bianchi. Fazendo tudo isso não estão todos corroborando que a indiferença quase budista almejada pelos estoicos é quase impossível? Não estamos todos construindo diariamente o fight club, de David Fincher?
Por fim, meu leitor, se você quer ser meu inimigo, basta ler com atenção o que eu digo, distorcer minhas palavras ou então apenas pautar-se no que o senso comum fala de mim, mas deve fazer isso com aquela mauvaise foi, de que fala Sartre. Todas as vias são válidas para a inimizade, por mais paradoxais que sejam: discordar é o charme do intelectual, ironizar faz parte da alma de quem quer convencer, acusar é a arma de quem quer o poder. Não é o amor, mas o ódio que nos une. E não se consegue bater no peito e ser líder de um bando de símios se não tiver bem equipado com razões. Um mudo somente seria líder se houvesse excesso de falatório, pois o silêncio somente é apreciado em meio às bombas que despencam. Fora esses momentos, a irrequietude sempre foi nossa marca. Os sons da natureza nos deprimem. Será nosso medo atávico de voltarmos à nossa condição original?
Mas, ao fim e ao cabo, transitando por tantos rumos, imperando de maneira soberana, podemos sentar-nos confortavelmente e escolher nosso inimigo predileto. Temos hoje esse direito. Quem conseguiria viver uma vida sem um inimigo? Ele nos dá razão de existir e esconde o oco de nossa insegurança e da nossa pequenez.

Aproximamo-nos dele, curvamo-nos e gentilmente - para que não se ofenda com alguma inflexão brusca de voz - dizemos-lhe no ouvido mui galantemente: permitir-me-ias esta contradança? E assim grudados, apaixonados, dançaremos uma vida inteira, inseparáveis, eu e meu inimigo, no mais perfeito autoengano, na mais absoluta inconsciência.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

SINCRONICIDADE

"Se não é logo na primeira vez que as coisas acontecem para nosso deleite, decerto na segunda haverá melhor sintonia com os nossos atos."
 
Por que pensamos assim? Eu sempre achei que a existência desse silogismo é o motivo pelo qual nos autolouvamos como racionais.
 
Famílias que moram no subúrbio acordam de manhã para mais um dia de labuta. De novo e eternamente, avós berram contra a parede e donas-de-casa entoam sua ladainha de tédio e frustração rodrigueana. Algumas, no decorrer dos anos, engrossaram o caldo dos produtivos e orgulhosamente caminham junto com a horda dos esperançosos. Não há escolha: ou nos lançamos à azáfama insuportável ou paramos tudo só para contemplar o absurdo? Tertium non datur?
 
 
 
Dizem que só podemos refugiar-nos desse dilema por meio da fé. Conversa velha essa, desde que surgiu o epicurismo, após a queda da pólis grega. Por causa dessa resignação afirma-se: sim, alguém excelente virá ou algo maravilhoso decorrerá deste ou daquele seu modo de agir. Segundo esse raciocínio, nada de bom reside no agora, apenas no deus Futuro. E se agirmos para acelerar seu advento, a frustração decorrente de nosso agir fará levantar-se uma outra nova fé, do meio dos escombros. E assim consecutivamente, ad saecula saeculorum.
 
Não é essa a mensagem messiânica do Encoberto? De um salazar à espreita rastejante na penumbra, como na lama de um lago escocês escuro, emergindo ovacionado pela Pessoa que o louvara enquanto o via no platônico Mundo das Ideias? Não é óbvio que se revestirá inexoravelmente de crua realidade, tão logo incensado como líder, quer com sufrágio, quer com sangue? Descobre-se então (defunto ideal ou ideal defunto?) que a rosa encoberta deve ser substituída por outra rosa, posta nos fuzis de quem restabelece aquilo que nunca deveria ter mudado... Nessas horas, é o deus Passado que ressurge. Novamente decepção. Longa longa decepção, muito mais que uma vida suporta. Mas que fazer se a mensagem daquela Pessoa tem sob sua base uma má etimologia: mens agitat mollem?
 
Ou será que é o nosso cereal matinal que está gritando? É tanto barulho que não conseguimos ouvir absolutamente nada que faça sentido. É nossa fome que nos lança, quer à ação quer ao comodismo? Ou são as indústrias que não param de trabalhar para aplacá-la? Elas dão o que queremos e tornam as manhãs feias com sua fuligem lançada ao ar, com seu vinhoto lançado à água, com o chumbo lançado à terra, com os resíduos lançados ao fogo. Conseguiríamos viver sem essa poluição tão amada? O que importa é a moral da história: tenho aquilo pelo que batalhei.
 
Desesperançados, caminhamos indo e vindo: entre as passeatas, rumo ao patrão que chuta  nossos fundilhos e, devagar, empacados no rush, rumo ao nosso lar, para acordarmos de novo amanhã e fazermos tudo igual. E teria algo mais que fazer? Isso faz parte do contrato social que assinamos. Para que buscar o porquê se a culpa é toda nossa, quando atribuímos superioridade e poder a quem nos humilhou, humilha e humilhará. Ciente dessa culpa, olhamos para o nada e lamentamos a vida, como quem não tem participação nenhuma. A culpa, obviamente, dizemos no nosso auto-engano, são os outros. "Eu sou uma vítima", berra Alex DeLarge, consciente do mal que a Ciência lhe infringiu. Rimos ou choramos dessa tremenda contradição?
 
 
Vender sua alma, prostituir seu corpo, que diferença faz quando o batom é passado nos lábios e vamos em busca de valores que não nos fazem crescer como indivíduos mas apenas de valores que importam à nossa sobrevivência? Um leão faz o mesmo que um homem tentando capturar uma zebra. Uma lula faz coisa idêntica esticando seus tentáculos. Flores são subprodutos não só do sol e da água, mas também do estrume. E sorrimos, às vezes, nas gaiolinhas onde nascemos. Fugir delas parece pior.
 
Tudo isso aconteceu e acontecerá. Passaram já trinta anos exatos desde que Sting cantou Synchronicity II, dando-nos as ferroadas de quem quer nos policiar. Mas ferroar por quê? Acaso não posso ferroar de volta, sem sequer pensar na razão da ferroada? Policiar de quê? Há nessas palavras mais iluminação do que num raciocínio prosaico? Sem dúvida não, mas a vaidade e o estilo fazem as diferenças de nossas miragens. E cantarolar parece que nos redime. Não é à toa que a contemplação estética e a música nos trazem provisoriamente algo de redenção, schopenhauerianamente pensando. O conteúdo, ao fim e ao cabo, é uma questão de reconhecer o que nos é óbvio desde que descobrimos bem novinhos que a mentira existe. Diante da decepção, enredamo-nos num casulo mais duro que a casca de uma macadâmia.
 
Nesses trinta anos, o mundo caminhou para uma realidade ainda mais esfarrapada do que naquele clip, mas na verdade o estudo de nossa etologia mostrará que continua(re)mos andando em círculo, em busca do esfacelamento total, ao estilo do planeta Terra do Wally. Somos os lemingues lendários que oscilam entre autodestruição e a falta de sentido de nossas buscas. Ou não sabemos onde chegar ou apenas somos programados para viver e, nesse caso, nada foge ao destino. Como os trilobitas foram um dia os donos do planeta, um dia chegará nossa vez. Átropos cortará o fio, sempre do mesmo jeito. Ninguém pode impedi-la. O fado do cérebro do hominídeo é o suicídio coletivo e, enquanto isso não ocorre, competimos uns com os outros, darwinianamente, porque queremos que nosso suicídio seja melhor do que o do nosso próximo.
 
 
 
Resta-nos apenas olhar para o longe no final do dia? Para o nada que cedo ou tarde virá, sem nunca ter-nos deixado? Será esse nada onipresente aquilo que, no auge das civilizações, convencionamos chamar de Deus?
 
Não, lá longe, onde não enxergo, lá onde é impossível que eu esteja, não há nada de interessante. Não há nada melhor do que o que está aqui na minha frente, na minha mão. Lá nesse lugar ansiado há apenas alguém sujeito às mesmas frustrações que tínhamos antes de iniciar nossa viagem em sua direção. Naquele loch não há um monstro, não há mirabile visu. Apenas um homem igual a mim,  ansiando o mesmo que eu. Nossa única diferença era a distância que nos separava. Nossas semelhanças são muito mais gritantes, embora inexplicavelmente desinteressantes.
 
Mas se, a despeito de tudo, o deus esperado não surge, nem nada equivalente, nunca, de onde vem essa cega esperança, se não das profundezas do desequilíbrio de um gene enlouquecido que tirou nossa cauda e nossos pelos e nos fez ciente de nossa nudez e fragilidade? Enquanto isso, os faróis de nosso carro iluminam o lugar que chamamos de lar, porto seguro de nossos prazeres, certeza do bendito e salutar esquecimento dessa condição limitada, incompatível com nossas expectativas megalomaníacas. E nesse momento, nossa dor se vai. E sorrimos.