O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

sábado, 16 de outubro de 2021

FALÁCIA SEM ARGUMENTOS

Leitor, estou em dívida contigo. É injusto porque és o único que não me lê. Sim, está claramente na definição dos termos: o escritor escreve e o seu leitor não o lê. Nada mais justo para ambos.

Não subestimemos textos curtos. Se não há argumentos quilométricos, também não existem conclusões demasiadamente longas. Qualquer silogismo pode ser tuitado, mas poucos serão retuitados. Há quem diga que a felicidade reside nisso. Eu prefiro abrir o tampo da retrete e vomitar.



sábado, 18 de setembro de 2021

O INDISCUTÍVEL

Houve uma época, no princípio dos tempos, em que algumas pessoas sabiam e outras não. As que sabiam haviam feito um longo trajeto: herdaram a novidade fenícia da escrita, a alexandrina solução da gramática, o vocabulário medieval, a ordem alfabética dos lemas e a enciclopédia, a democratização do ensino, o pré-primário, o ensino básico, o ginásio, o colégio, a faculdade, a pós-graduação, o mestrado, o doutorado, o pós-doc e ei-lo feito humano com H maiúsculo, feito e perfeito após o ziguezague no tempo cultural, ei-lo, sapiente que venceu o triátlon da educação, com a medalha de ouro de erudição, a compulsar alfarrábios, após ter decorado tabelas extensíssimas: introjetaram-se-lhe no cérebro fórmulas em demasia, algumas vindas desde os egípcios e transmitidas pelos pitagóricos, o cogito, o Novum Organum, as questões humeanas sobre bolas de bilhar que nunca se tocam, as soluções kantianas sobre as sinucas de bico, arremedadas por Fichte e estava pronto o chantilly da modernidade, com os questionamentos novecentistas e sua pitada intuitiva, se não zombeteira, e a amarga conclusão da necessidade da secularização de tudo, enquanto chorávamos sobre os cadáveres empilhados de nossos próximos e víamos as ruínas das guerras. Por fim, de batráquio, ei-lo, divo, ereto, apolíneo, senhor da certeza. Fazem bem os que estão ainda rastejando ao olhar para cima e vê-lo luzir, deus entre os homens, os quais, modestamente, chama de irmãos como se fosse um bom jesuíta, consultando calepinos doutrinários da Ética, falando a língua dos seres civilizados.

E esse que se dizia em sua modéstia igual aos que ainda reptilianamente se esfregavam nos seus pés jamais deixaria de ser ereto, pensava em seu auto-engano. Os olhos embotados dos répteis, que o viam quase hipnotizados, como que confirmavam essa sempiterna situação. De onde viria essa ilusória sensação? Sim, ilusória, porque era estrondosamente falsa.


À altura dos répteis, algum desses seres iluminados se dignou a baixar, mostrando-lhe um atalho. Não direi que os crocodilianos tenham sido ensinado a usar redes sociais, porque seria muito óbvio e liquidaria com a poesia desse texto, por isso que a imaginação de quem me lê conclua por si só. E ela concluirá, mesmo que não chegue ao fim das minhas palavras, profetizo eu com denodo. Fato é que, como dizem as más etimologias, em algum belo dia, um divo que odiava a si mesmo (ou que amava demais os répteis, tertium datur) propiciou que os que rastejavam se alcandorassem, de tal forma que hoje não é nada óbvio nem mesmo que répteis rastejem: a maioria não precisou trilhar caminho árduo nenhum como descrito acima, mas já está em pé de igualdade a qualquer divindade, se não estiver acima. E os répteis, na verdade, aproveitando essa momentosa oportunidade, deixaram de existir, termo consensualmente abolido, riscado pela hodierna novilíngua, a qual reza categoricamente que répteis e divos não se opõem mais, nem deveriam ter-se oposto jamais.

E na novilíngua propala-se ainda que nada é indiscutível. Tudo é objeto de discussão, em que, ao fim e ao cabo, uma solução sempre se impõe peremptoriamente, a assim-dita mais comedida de todas, a que deve sempre igualar répteis e divos. Porque nenhuma distinção há mais entre palavras opostas, como sabemos. Tudo que é indiscutível precisa ser urgentemente discutido, para que, ato contínuo, aceitarmos indiscutivelmente a solução. Alguém se lembrou que isso lembra tirania, palavra que não faz o mínimo sentido, lembrou outrem, uma vez que não há mais distinção entre o que é e o que não é tirania. Como se chegou a essa igualdade dos opostos? Não sei distinguir entre a tirania da discussão e a indiscutibilidade da tirania, mas ainda sinto os laivos de que há um quid que não as iguala.

Insone, pensava eu, tentando recordar-me da minha pré-história, mas apenas me vieram à mente as letras fenícias, lembremos, ou as letras cherokee, se logradamente abolíssemos o tempo, as quais foram uma solução indubitável entre o alfabetismo e o analfabetismo: diante daqueles monumentos coloridos do Egito, com seus glifos misteriosos, sentou-se algum arquissinaíta e pensou: "por que me privar do mistério do significado proveniente da ordem e das regras que desconheço? Por que não consoantes, cujo nome ainda não sei? Por que não gerar, qual um demiurgo, no esperma das letras, futuras vogais e acentos? Por que não possibilitar no DNA dessa argila de Adão o escrever na direção que eu bem entender, em vez de seguir os olhos de figuras zooantropomórficas, que caminham entre objetos e abstrações, representando assim as sequências das futuras sílabas no rebus que se afunda no passado obscuro?". E de navegadores, que só queriam cobrar suas dívidas, para rapsodos, que aposentaram sua memória, surgiu um novo status numa sociedade dantes tão desnecessariamente igual para aqueles monolíngues no idioma da violência, dando ainda mais poder ao bando de seus aliados saqueadores, singrando agora por mosteiros, por copistas que ciosamente amaciavam seus pergaminhos, malgrado as vândalas decapitações que a barbárie desburocratizada dos impérios perpetrava, fazendo que o leite derramado por um escravo grego fosse trazido novamente por um árabe culto, razão pela qual São Tomás precisava posicionar-se de algum modo, sem descontentar ninguém, sim, se o leitor não me entende, saiba que estou contando tudo de novo, sim, trata-se da saudosa história dos divos, que não existem mais...

Recupero o fio da meada, sim, eis aonde eu queria chegar: bateu-se o papel sobre a chapa e não mais havia uma cópia, mas cem, mil, milhares, se necessário, para dizer anonimamente tudo, tudo, tudo o que penso, sem que minha cabeça role. Para dizer absurdos, blasfêmias, loucuras, para falar sobre os sábios e erasmiar quanto quiser, sim, o conhecimento vitruviano se misturou novamente com o desconhecido, assim como quando a Academia e o Liceu viram, boquiabertos, um agostiniano misturar o absurdo com o arrazoado. Abrem-se-nos portas aqueles calepinos, mostrando-nos povos completamente nus algures, comendo uma perna humana e, eis que, com uma risada amarela, o divo Montaigne nos zomba, dizendo que ele, ninguém mais, foi o último falante nativo de latim. 

Alguém disse, afinal, relembro enquanto o sono não retorna benfazejo, que isso precisava parar e novamente o velho sadismo bateu à porta dos que lideram, para torturar, sempre em nome do mais sagrado, com um amor e uma piedade que só os divos dizem ter, mas que não comove suas vítimas, chamando atenção de químicos e físicos estupefatos em suas torres de marfim e lá está Voltaire dizendo: que horror se comete naquela península... Enfim, não espanto quando relembro que morre Arouet, morre, Lavoisier! No meio do cheiro de carne queimada, as luzes são apagadas com a fuligem das fábricas.

Sim, já havia havido quem destronasse as personagens do Evangelho e se representasse entre as moldura dos quadros, arrancados das catedrais, em situações comezinhas, com seus filhos e sua senhora; sim, eu sei, mas a fuligem que fez tossir aquele maluco e hipócrita caminhante solitário às margens de Genebra (ou o maluco será seu anfitrião inglês que duvida da existência das causas?), vendo mais uma aldeia antiga esvaziar-se, com famintos indo para a cidade à busca de esteiras rolantes ou dos que recompensarão sua existência mediante o troféu da perfeita mendicância (como hoje vejo quando um imenso jacarandá cai e debaixo dele correm indígenas, já exaustos e amarelos de tanto mercúrio nas águas de seu rio sagrado...), aquela fuligem, eu dizia, é o sinal de que nada mais tem retorno e todos irão para a capital à procura do capital. O resto? Mais do mesmo, cada vez mais, toda vez o mesmo.

E o mesmo, de fato, não tem fim, o mesmo parou o tempo quando todas as assimetrias se julgam regularizadas num horizonte sem fim: o mesmo é a regra para que nada mais haja para se discutir, nada mais além do que já se sabe. Para que Rousseau caminhava, e, junto com ele, Goethe, Humboldt, Garret? Ou a patranha sempre foi a regra desde Marco Polo, desde que humanoides com olhos no peito foram representados nos livros dos navegadores, desde que humanos com rabo foram citados por Max von Versen? Por que no século XXI seria diferente? Alguém conseguiu algum dia erradicar o vírus da estupidez? 

Perdão (despertei de vez), esqueci-me novamente de que não é possível discutir nada mais hoje em dia, pois a verdade sumiu entre opiniões opostas. Epistemes nunca existiram, dizem os que louvam a doxa acima de tudo. Mas, perdão, novamente, tenho mais uma pergunta: se há solução para os opostos, ela seria ortodoxa ou estamos diante de um paradoxo?

Mais que isso: há graus no que é indiscutível? Existe uma média entre coisas indiscutíveis? Há aquilo que é indiscutibilíssimo? 

Exemplifico: nada é mais indiscutível que uma ficção. Ficções são o que são e discuti-las seria perda de tempo, pois não há verdade, senão gozo fruído de sua forma e/ou de seu conteúdo. Digo mais: discorrer sobre algo com uma clareza indiscutível mostra-nos que a indiscutibilidade pode ser algo muito bom. Todavia, ponderando se tal afirmação é de uma imbecilidade indiscutível, nada deve haver de pior. Portanto, nada deve haver mais perfeito que a palavra "indiscutível" para evitar discussões.

Essa minha conclusão parece-me indiscutível. Eis que, ao acabar de enunciá-la, já vejo agora um leitor evocando Hegel sem tê-lo lido, fazendo a síntese das minhas indiscutíveis teses com suas discutibilíssimas antíteses e nada posso fazer para impedi-lo, a não ser vê-lo. Sentado, em minha posição de lótus, vejo-o e vejo-me, lamentando profundamente termos nós dois o mesmo lamentável cérebro bugado, como todo primata.

sábado, 7 de agosto de 2021

NEM RAZÃO, NEM FÉ

“Não! Não! Não!

Eu não vou escrever mais”, decidi hoje mesmo. 

De que me adianta levantar-me, pegar minha pena e traçar palavras mensais? De que me vale escrever longas mensagens encarameladas na mais pura verdade, extraída das minhas vísceras humanas se, depois há uma longa ventania de silêncio ou, quando muito, um adjetivo polido ou uma menção fática do tipo “tem razão”. No mais, apenas o eco das minhas palavras. O mundo se voltou para si. Não há mais o que fazer.

Normalmente pedimos atenção para algo que será esnobado por ser óbvio, mas quando nos mostram algo óbvio, que fugiu de nossa atenção, a bola está conosco: ou mudamos de assunto ou dizemos que isso não importa. É assim que deve ser o comportamento do recatado homem civilizado moderno. É nisso que nos tornaram as redes sociais: um enredamento de coisas evidentes, que sequer merecem comentários. Só cegos não veriam. É nessa terra imaginária que residem os novos sacis e lobisomens. O mundo moderno, cheio de informação, voltou a ser o do nossos avós não só em forma, mas também em conteúdo, porque era preciso que o mistério voltasse a rondar nossa vida tão determinada pela tediosa razão, língua falada por uma minoria. No fundo, o chorado descalabro do retrocesso é apenas o grito travestido do antigo bom-senso, esse boitatá recalcado. "Eu me lembro", alguém dirá, para nosso desassossego.


Ai de ti, jornalista, que ainda acredita na novidade!

Para entender o futuro, costumo ler notícia velha. O presente não é uma novidade, como creem os ingênuos jornalistas, mas uma prestação de contas com um passado que nunca termina, às vezes bem recente, esquecido. Quem acredita que o passado passou mesmo é cristão não hipócrita, que boia conforme a água leva, como a folha numa enxurrada, mas quem produz as enxurradas é inevitavelmente um porta-voz de algo em que não acredita.

Por isso tudo, decidi hoje falar apenas sobre o básico, ou seja, sobre o que nos move dia a dia, a arrogância. Como sabemos (ou devíamos saber), a arrogância não é o mesmo que altivez. Aliás, a coisa mais rara do mundo é um altivo suportar um arrogante. Não são sinônimos, nem antônimos. Mas é muito difícil encontrar quem distinga bem aquilo que os une. Altivamente tentarei fazê-lo. Se o meu mudo leitor não concorda, ou é outro altivo e um interlocutor em potencial, ou é um arrogante, de quem quero distância. Impossível concordar ou discordar daquilo que não se entende. Se o que me lê já fez isso, é porque não é nem altivo, nem arrogante, mas uma pessoa cujas ambições estão todas depositadas fielmente em outrem. Se é esse o caso, lamentaria muito pela sua condição, se essa não fosse a condição mais natural do mundo, desde o princípio da vida que bruxuleia nas águas e rasteja na terra, condição que hoje em dia mamãe internet e papai videodrome nos fizeram acreditar que se trata de uma condição doentia. 

Vejamos, afinal, as óbvias diferenças. Um altivo pode abaixar o tom perante alguém que sabe mais que ele, mas um arrogante não. Um altivo recolhe-se, às vezes, arrependido e sentindo-se culpado por ter sido idiota propalando e disseminando o erro, mas um arrogante jamais. Como dito, um altivo por vezes recua, um arrogante apenas avança. Porque o arrogante simplesmente se arroga com um direito que não tem, movido por uma força externa, que não é a sua própria. Um arrogante acredita que uma profecia que ouviu (nem que seja proferida pela sua própria cabeça) há de se cumprir, quer com sua ajuda, quer passivamente. Um altivo apenas detecta o rumo das coisas e diz, pintando com cores da certeza, que ninguém deveria ter, qual caminho é o mais adequado a percorrer. O altivo, por vezes, se engana e sabe disso; o arrogante nunca o admitirá. Na superfície, um altivo é muito parecido com o arrogante, mas nos genes que formam sua essência são completamente opostos. Não é raro vermos o altivo pedindo perdão, algo impensável para um arrogante. Se não ouvimos o pedido de perdão do altivo, vemo-lo nas suas ações, que, se bem interpretadas, sem nenhuma arrogância, denunciarão o seu remorso. 

Aí, meu caro ou minha cara que me lê, é apenas questão de perdoar ou não; difícil quem, na atmosfera cristã do Ocidente, não tenha ouvido falar da boca de religiosos sobre o poder miraculoso do perdão. É preciso ser muito incoerente ou muito arrogante. O perdão é um elemento intrínseco de nossa sociedade e é o que nos torna às vezes, bem raramente, seres dignos, ao mesmo tempo que nos destrói. Pedir perdão, enfim, é comprovadamente algo que revela uma fraqueza nossa até então latente. Quando o arrogante pede perdão, porém, tem em vista a sua sina e precisa de nosso esquecimento para poder destruir quem não o louva. Já o raríssimo pedido de perdão do altivo é sincero, enquanto o pedido de perdão do arrogante, de tão falso, é algo absurdamente ameaçador. Um arrogante jamais se porá do lado dos fracos, já o altivo terá sempre o direito à náusea.


Se alguém te disser que és arrogante, saberás que o arrogante é quem, por comparação, afirma não o ser. Acautela-te! Nenhum altivo te dirá que és arrogante; apenas lamentará que sejas estúpido. E ser estúpido não é crime, embora irrite o altivo. A arrogância não só ofende, mas destrói. Não há arrogância passiva, pois nela se dissimula o veneno, à espera da chance de que passes ao lado, para que o mesmo veneno seja inoculado em ti, veneno há tanto tempo acumulado e remoído. O arrogante quer, o quanto antes, a tabula rasa. O arrogante quer mudar tudo que está por aí e, por vezes, consegue. Por vezes, dão-lhe a oportunidade sonhada. Se não lhe dessem, morreria com seu veneno, calado; morreria como todo mundo; não seria nada além de ser arrogante.

Mudanças são boas ou más. Mas a mudança do arrogante não recua como a mudança do altivo. A mudança do arrogante vai adiante, porque ele sabe onde quer chegar, sem discutir com ninguém. O arrogante prefere o silêncio, pois está sempre certo e não volta atrás. O arrogante tem todas as respostas prontas; é surdo, embora fale em abundância se lhe derem um microfone. Há quem apoie o arrogante, pensando que o lugar aonde ele quer chegar é o mesmo de quem o apoia, mas o lugar aonde o arrogante quer chegar é apenas o lugar aonde só ele, o arrogante, quer chegar, mais ninguém. Apoiadores de arrogantes são suicidas e, se aonde o arrogante quer chegar é o suicídio, quem sabe quem o apoia tenha razão em apoiá-lo. Infelizmente, nem todos arrogantes desejam o suicídio, pelo contrário, a maioria deseja a vida eterna.

Por isso, quem apoia um arrogante é uma figura paradoxal. Há arrogantes que odeiam negros e são apoiados por negros;  há arrogantes que odeiam mulheres e são apoiados por mulheres; há arrogantes que odeiam índios e são apoiados por índios; há arrogantes que odeiam gays e são apoiados por gays; há arrogantes que odeiam gordos e são apoiados por gordos. O que marca e distingue um altivo de um arrogante é seu ódio. O que marca e distingue um apoiador de arrogante é talvez algum ódio a si mesmo ou alguma crença na pouca literalidade das palavras. "Afinal", dirá a quem o questionar, "o que é algo literal?", perguntará, subitamente relativista, pronto para perdoar quem não perdoa ninguém; jamais sentiu ou sentirá a náusea de ter errado. Quem quer o apolíneo, enxerga o apolíneo. Quem quer o dionisíaco, enxerga o dionisíaco.

Mas que o leitor me entenda bem: quem apoia a arrogância não é ingênuo, por conseguinte, não é uma vítima nem mesmo no sentido mais estrito da palavra: o apoiador quer percorrer a picada recém-aberta pelo arrogante porque se vê nela. O apoiador estava ali, sempre esteve, esteve latente, esperando, triste por não ter sido visto, com os olhos bem abertos e ansiosos para ser visto. E o único que o vê e tem condição de vê-lo é um arrogante. Se quem me lê pensa que tem um quê de altivo, mas se afasta do arrogante que descrevo, deveria acautelar-se quando perdoa esse apoiador do arrogante. Ele não é ingênuo, mas tu poderás sê-lo e é tudo que o arrogante quer. Com ele, depois, virão outros apoiadores, pois a ingenuidade é coisa rara: no mundo abundam altivos, há alguns arrogantes e, obviamente, há muitos que não são nem uma coisa nem outra, prontos para subir-lhes à garupa, de tão cansados que estão de andar a pé. Pedir que um apoiador de um arrogante volte a andar a pé, do lado dos cavalos onde cavalgam altivos e arrogantes, é um pedido demasiadamente ridículo. Ninguém gosta de andar a pé, havendo quem possa levá-lo a cavalo.

Assim, ó altivo, sabes agora quem és, depois de remoer a tua consciência e o quanto te distingues do arrogante, que agora galopa diante de teus olhos! Não te esqueças que és um cavaleiro como ele, que tanto te despreza. Olha para o chão e vê que os pedestres precisam de uma garupa. Ou dá-lhas ou sê um altivo mudo, porque tua voz afinada destoa da histeria promovida pelo arrogante. Se nem todos cabem na tua garupa, lamenta, pois é a única coisa que te resta. 


A arrogância venceu e, parte da culpa disso foste tu, altivo, que não olhaste para o chão e não viste que não existes apenas para ser louvado, mas para ajudar quem tem feridas nos pés. Azar o teu, altivo ingênuo: o monstro arrogante, que só pensa em si, olhou agora mesmo para aqueles pedestres. Bastou-lhe apenas acenar com a possibilidade de haver um dia longínquo em que terão sua garupa, ou melhor, um cavalo próprio e agora o amam, ainda caminhando, imaginando tudo isso.

Ouve, ó altivo, o alvoroço que se afigura lá na frente. O arrogante a cavalo, a horda cantando à sua volta absurdos. Se não pensam, não lhes custa repetir: é-lhes melhor repetir que têm a promessa insensata de um cavalo a repetir uma sequência lógica de coisas sensatas que não lhes dará cavalo nenhum. Não os chame de interesseiros, altivo. Antes desce do cavalo, dá-lho, desiste de tua altivez e começa tudo de novo. Ou então permaneces sobre o cavalo e lamenta. Tertium non datur. 

Ou desces ou choras, altivo. Se desces, terás longo percurso, sem que tenhas mais tempo para terminá-lo: vês quão longe está o arrogante e a horda barulhenta? Se choras, és esse palhaço, eternamente altivo, dono de tudo que é verdadeiro, abalado por tudo que despossuíste, sem louro, sem festa, sem pompa. És só um altivo que ficou para trás por não ter estômago ou coragem para te desfazeres de teu único cavalo e dar ao primeiro que, com certeza, não te garantiria nenhum tipo de gratidão. Era isso que querias o tempo todo, altivo, gratidão? 

Agora é tarde, vê a horda, no máximo, perderás teu cavalo e tudo continuará igual. Mas talvez seja o melhor a fazer. Afundando nas penumbras da angústia de ter perdido o dom mais precioso de sua vida, até agora insabido, procurarás a sabedoria, que anda no sentido contrário à da arrogância? Se tua mente ainda funciona, ainda há tempo de alcançá-la e, quem sabe, um dia te regozijarás. Espero que no teu caminho não encontres a esperança, que te aliciará com outro cavalo, o qual mudará o rumo enquanto dormes para a exata direção para onde caminha a horda que celebra o dom futuro do arrogante. Dizem que o sol do conhecimento não se confunde com a esperança, mas ainda é bem melhor que o ocaso da arrogância. Só mesmo caminhando, um sábio, convicto de que esse é o caminho a percorrer, descobre, aos poucos, o que há de vaidade nisso e o que há de verdadeiro: nesse momento, a horda lhe parecerá distante demais.

Recobro uma nesga de razão. “É muito discurso individual esse da sabedoria; há nele pouco projeto coletivo”, penso. É lamentável admitirmos que o nosso pior inimigo é um completo imbecil, pois, se ele for de fato imbecil, que mal isso nos faz à nossa narcísica auto-estima! Normalmente vemos nosso inimigo como gênios quando o imbecil seríamos nós mesmos... Enfim, não sei se com toda a razão do mundo, ou apenas com fome e sede, volto ao livro que lia ontem. Após quatrocentas e tantas páginas lidas, entendo finalmente tudo hoje:“Rhodiorum oraculum. Dirseha da/ pregunta paruoa & de pouca sustan/cia, porque os Rodios sacrificando a/ Minerua , & estando muyto tempo/ junto dos seus altares , preguntarão/ ao seu Deos se lhe seria licito leuar cõ/sigo mijadeyros? respondeo que si, tornarão a preguntar se serião de co/bre se de barro? importunado ho/ Deos dixe q̃ nem hum nem outro”.

Delirante, penso: "grande modelo para meu projeto de sabedoria! Se um dia eu voltar a falar sozinho com quem me lê, será assim também, na forma de perguntas".

sábado, 26 de junho de 2021

NEUROSE UBÍQUA


Tanto pensei, tanto sofri, tanto refleti, tanto me espantei, tanto escolhi, tanto desisti.

Enfim, leitor, desta vez não foi possível e também não o foi no mês que vem, porque o futuro e o presente se têm mesclado e o passado é um aoristo perfeito que não tem dado vez à imaginação dos poetas. 

E como o mês que vem também se foi, que um dia ela revenha a gosto.

domingo, 30 de maio de 2021

PELO SIM, PELO NÃO

Cada vez que falas, eu, espantado, me calo. Cada vez que as palavras saem de minha boca como torrentes é a vez de tu te calares. Percebes, leitor? As palavras, essas excreções do pensamento, são desnecessárias. Desnecessárias como são nossos pelos, que pararam de crescer por algum bug genético. Os nossos pelos não ficarão maiores no inverno, para nos aquecer. Não importa se isso acontece conosco, humanos, e por isso inventamos mantos, como disse o biólogo, ou, justamente porque inventamos mantos é que pararam de crescer, como disse o sociólogo. As duas teses apenas são palavras para explicar o que é inexplicável e, sem pelo e com inverno, é preciso se mexer. Mas, como Artur Bispo do Rosário escrevera em seu manto: Eu Preciso Dessas Palavras escrita e por isso, meu caro, o impulso de falar me parece tão forte quanto o que o pelo teve quanto decidiu parar de crescer por instrução de um DNA mau gestor. Words, words, words. 


E não há coisa mais inútil que uma palavra. Com meu silêncio, mostro-me austero. Sem me responderes, dizes mais do que com palavras fáticas. O império do silêncio é idêntico ao das nossas palavras desnecessárias. Desnecessárias porque revelam as idiotices da nossa alma, nossas obsessões, nosso oco interior. Bom mesmo é imaginar o que o outro é, mas ouvi-lo falar é enfadonho e decepcionante. Por isso o novo parece tão bom. Enquanto não ouvimos o novo falar o suficiente, temos tempo de projetar nele as nossas obsessões, mas basta que haja intimidade e veremos que nos enganamos. O outro é o eterno mesmo, porque nenhum outro sou eu. Piscis nequaquam est, nisi recens. "Nã he peyxe, senão fresco. Dirseha do ospede, que nã agrada senão em quãto he nouel", como carinhosamente compilara Jerónimo Cardoso, pouco antes de morrer e ver seu mundo desabar sob as veleidades de Dom Sebastião. Tudo é Panidis suffragium, cousas de homem parvo e tolo, que não sabe julgar, como foi Pânis, rei de Cálcis, que dizia que Isiodo era melhor que Homero.

Aquele que tem um projeto de austeridade, com o seu silêncio já se revela eficazmente, com parca meia dúzia de palavras, ser um idiota para o seu ouvinte; aquele cujas palavras não ouvimos o suficiente não teria direito a chamar-se um ser humano pleno, daqueles que acorda de manhã, arria as calças e defeca, como todos fazemos. Sua estratégia de silêncio destaca-se no xadrez do bando humano, mas, como todos, arrota, fede e é tão idiota quanto os que falam e eu preciso de deuses, quer para adorar, quer para criar imagens deles para, em seguida, feri-las com um surto iconoclasta. Fiz-te a ti, à minha imagem e  à minha semelhança, mas não estou contente comigo mesmo, por isso lanço-te, desapegadamente, uma marretada na cabeça e estilhaço tua estátua em mil pedaços. Sorrindo ou chorando, agora junto os cacos, dissolvo-os, parto para a próxima imagem e esse novo círculo, pintado de mil cores, formado com mil pincéis, cuja margem terá infinitos detalhes, cada vez mais complicados ou cada vez mais simples, voltará a se instaurar e assim será, até que eu, indivíduo, faça a única coisa da qual tenho certeza: morrerei, por meio de uma força tão forte quanto aquela que impede que meu pelo cresça no inverno em defesa de meu corpo.


Mas enquanto isso, que custoso é desenhar esses círculos de dentro dos quais minha pouca imaginação não consegue sair! Eu quero falar ao mundo uma coisa sobre a qual me engano conhecer e sobre a qual tenho convicção ainda maior do que a morte, no entanto, para verbalizar essa mesma coisa, preciso de uma vida toda e mesmo assim, não compreenderás e, sendo sincero, eu também nunca compreendi.

Porque “eu sou assim” é a frase mais entediantemente repetitiva, que sai de todas as bocas rodrigueanas ao mesmo tempo, acredite quem quiser no “assim” do outro. Em momentos de profundíssimo tédio, tampam-se os ouvidos e ecoa apenas o “eu sou assim” provindo de si mesmo; mas quando o tédio atenua um pouco estamos dispostos a babar ouvindo essas palavras vindas da boca de outro, como se fosse a mais original de todas. E, no entanto, são as únicas palavras que qualquer ser humano consegue dizer, mas para isso inventou línguas com vocabulários extensíssimos e regras gramaticais absurdas e, não contente, escritas canhestras para o deleite dos olhos, porque no fundo só queria, exausto, após uma dia de forrageamento ou de labuta com a enxada, ficar sentado em cima de uma árvore, pedir para tirarem-lhe os piolhos, olhar as coisas sem entender direito e, sobretudo, brincar.

O brincar - portanto, tu, que dormiste na primeira linha desse texto e já não estás me lendo – é o único ato possível, uma vez que nada, nada, nada, substituirá, saciada tua fome de frutas e besouros, aquele pensamento tão inverossímil que é o “eu sou assim”, o qual fundamenta a tua má-fé, a tua autoimagem e o teu desapreço por tudo aquilo em que não te refletes, ó mais narcisista de todos os seres, pois sequer percebes que isso é necessário e disso não fugirás com teu infernal raciocínio. Pensamentos são zumbidos e as palavras, seus arremedos.

Perdeste o pelo, ó símio, ninguém sabe como e não culpes os piolhos, meu caro analista da evolução. O teu pelo não cresce no inverno, azar o teu. Antes perdeste tua cauda e agora teu olfato desaparece, abrindo alas para teu cérebro invasivo. Ó mais desamparado de todos os seres, que garras inúteis e quebradiças! Que desengonçado és! As árvores não são mais tua extensão, divorciaste delas! Qualquer leopardo te engole, agora, pois teu ombro não consegue lançar o peso de teu corpo em direção às copas e desaprendeste valer-te dos cipós! Do alto de tua miséria tiveste que levar teu bando para um lugar cheio de ovelhas e mamaste no ubre delas no auge de sua famélica existência. mas, como tantas esquisitices que tua sortuda neotenia te reservou, com o fim de preservar tua hedionda progênie, surpreso, percebeste que a alergia à lactose não era disposição da maioria dos teus. Foi aí que nasceste e depois disso, faltou pouca coisa: um ferro fundido para fazeres o machado com o qual sulcaste a terra e  a cabeça de teu próximo, para ampliares teu domínio e aí sim, só depois disso tudo, é que nasceu o teu tédio ou percebeste que ele existia. Tudo que fizeste depois foi fruto desse grande tédio, desse colossal tédio, desse abismal tédio. O mesmo sempre, sempre, sempre. Tédio e medo do leopardo: a isso te resumes, ó venerando ser dos renascentistas! 


És o mesmo quando saqueias a aldeia ao lado, quando exploras teu irmão, quando saltas a janela de teu vizinho à procura de sua coleção de tranqueiras ou de suas filhas, quando diriges um tanque de guerra ou um avião, quando discursas perante muitos que não te ouvem, mas te dão toda razão, porque é em si mesmo que pensam. Na verdade, danem-se palavras, lógica e razoabilidade, o que importa é que ao final do dia, estejas mascando seu último besouro, de barriga bem satisfeita e que possas ser coçado, o resto são apenas percalços que esperas sejam menores amanhã. E nada de realmente útil fazes para que o sejam.

E o Bem e o Mal? Onde estariam nisso tudo? Mal mesmo seria terminares o dia faminto, seria não teres quem te coces, não teres como impor a tua autoridade no bando por estares velho e decrépito, fora isso, meu caríssimo, nunca existiu nem existirá bem algum, mas um dia a tua falta de olfato fez que uma palavra saída da tua boca adquirisse um aceno a esse Bem e depois dela, muitas outras vieram, todas significando a mesmíssima coisa e nunca te enfadas, exceto quando te apercebes dessa ridicularia toda e, chateado de ter sido enganado, preparas a corda para teu próprio enforcamento.

Pilum non habet, "não tem de seu hũ pelo. Dirseha do que nada tem de seu", leio no velho dicionário. Nec obulum habet unde restim emat, pobre quem não tem sequer condições para comprar essa corda com que se enforque. É na verdade a fome o mal, meus caros, e a nossa fome hominídea é infinita. Fome de comida, fome de saber, fome de destruição. O único jeito de acabar com o Mal, o verdadeiro e único,  esse de que tanto te temes, foi gozar diante dos baobás caídos. Só ao massacrar quem não é assim como tu, sobretudo o mais frágil, que não te oferece resistência, advém-te o único gozo possível para essa tua espécie delirante com tendência ao enforcamento. O Mal não está na maldade humana, mas - para ti - na impossibilidade de exercer essa tua maldade. "Que tudo me seja tirado, mas se minha maldade for anulada, deixarei de ser humano e isso é o verdadeiro Mal: estar de mãos atadas para hostilizar", disseste ou pensaste, tanto faz.

Mas o silêncio não seria a solução? Se o Mal é tão intrínseco à alma do macaco sem rabo, de pelo inútil e de cabeça grande, se esse Mal se consubstancia no verbo, não bastaria abortar essa palavra hedionda, reflexo desse pensamento torpe, criado nesse lobo prefontal usurpador do trono do meu preciosíssimo olfato? Se eu fizer meu voto definitivo a Harpócrates, não estarei de uma vez por todas enclausurado inofensivamente no meu silêncio deletério, suportando o insilêncio alheio como um Buddha, livrando-me de todo o mal que poderia cometer? Não está aí a solução? Consciente do mal inexorável que nasce de qualquer abstração comezinha que venha das minhas profundas circunvoluções cerebrais, desde o meu hipotálamo, se eu cercear qualquer movimento muscular de minha boca ou de minhas mãos loquazes, não estarei eu, doravante apenas observador, no profundíssimo do abismo do meu nirvana simplesmente contemplando a loucura do mundo sem nela intervir e sem contribuir com ela? Com algum esforço, eu poderia até mesmo treinar um sorriso nos lábios, que não significaria nada, mas teria a função de evitar ser morto, a menos que o interpretem como riso de escárnio…


Se eu não tivesse concluído que a saída é o voto de silêncio a que há três meses anseio com quase volúpia, eu diria finalmente que necessitas molesta. Bom, mas se digo que a necessidade é enfadonha, dou a entender que tudo o que se faz, segundo a nossa natureza, nos é deleitoso e o que se faz contra ela nos parece áspero. Isso, porém, custa muito para que nos calemos de uma vez por todas. A nossa voz é mui maviosa e enquanto gostarmos dela, sentar-nos-emos no galho e deleitar-nos-emos com alguma recordação, mesmo que seja uma só, mínima, ouvida por meu ouvido interno como o canto de um rouxinol. Por outro lado, diziam os sábios - que nunca se entendem - e concluíram bem - se eles não são umas bestas arrematadas em que idiotamente me fio - que necessitas magistra. A necessidade é boa mestra, porque faz inventar todas as coisas. De todas essas coisas inventadas a palavra talvez seja a mais importante, pois no princípio era o verbo. De quase entranhada em meu corpo híbrido, como o daqueles estranhos seres que Cronenberg colocou em seu filme eXistenZ, meio criatura de carne, osso e tendões, meio criação provinda de uma loucura coletiva e individual, a palavra, com sua face de Jano, me seduz com sua perfídia mentirosa e canhestra, a qual observo, entendo, desprezo e a ela me declaro, do profundíssimo de meu ser fadado ao abismo da morte, que a amo justamente por não ser eu mesmo. Amo-a histericamente por ser imorredoura, mas talvez o melhor mesmo seja, como fazem os neuróticos, só virar-lhe as costas durante o ocaso, temeroso de que falte algum besouro para mascar em cima da árvore no final do dia seguinte, e só observar o trânsito do mundo, com alguma boa memória que me reste.