O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

EM 2014 MEUS VOTOS DE MAIS COMPREENSÃO NO MUNDO

Esta é dedicada a Tiago C. Ramos, com saudade. O texto é de 1998 mas continua atual.
Viva o Nasuto!

"
DA GLOSSOPRAXE CONSUETUDINÁRIA: UM PANEGÍRICO

                           Nicomedes Gedeão Dousbuzenos d’Ávila-a-Baixa [1]

ABSTRACT: You will read in this article about the serious problem of unintelligibility, which is source of misunderstandings. The origin of that is, according to the author’s thoughts, an artificial creation of the upper classes. He defends the use of a simpler language, though not a vulgar one, so that most of the big differences in the society can be easily solved.

Os contubernáculos vezeiramente se locupletam de sodalícios eqüevos e chalaceiros, que, provectos na verbiagem soez, após algumas justas de zurrapa, letificam com sua zangurriana a mais mesta das circunjacências. Destarte, não é mirífico que os utentes algaravíloquos se divirtam imodestamente do cogito judicioso, qual prófugos, e convenha-lhes logorréia invisa, em tudo equável à dos neguses abexins. Exinanidos, parte favoneados pelo psicofármaco da imperorável sermoa, parte pela careza de euritmia, quando os coage o aveijão indigitante da inescusável ¢n£gkh, sóem tais garraios não poder garabulhar epístola a mais singela: seria como se meandraram por vaus impérvios. Por amor do desazo e da insuetude, após bacejo em calepinos garrafais, as missivas achamboadas, mádidas de hípsilos e quinaus, sarapintadas de caçanje perissológico, afiguram-se-nos um obnubilante galimatias enxacoco a troixe-moixe em engrimanço inextricável. Enfim, uma chirinola sibilina!

Engurujam-nos sobremaneira as endrôminas azadas das perlengas desses intrujões, mas não só os zopeiros chãos d’almagre são cruciados, na zaragata dos paroxismos, pelas canhas da estroinice: o mesmo ínclito latiniparla Pacúvio vasquejou sob análogo fojo de arrebiques ao parturir, de ocitocia, burundangas anfigúricas.

Corruscará lucejante e prefulgente esta epistemografia em lúrido dilúculo ao miudear a anchura da escancelada e arvoante talisca entre os crisólitos haventes só nos cartapácios pedantocratas (mormente anástrofes, políptotos, quiasmas, epiquiremas, hipálages, sínquises, oxímoros e quejandos) e os verazes perispômenos dos galradores. Essa dala sanjada por zotismo, onde podemos redambalar, é o azo de ambas as corruções, scilicet, o esporóforo da inexeqüibilidade dos sáfaros de dídima feita, já por femas, já por grafemas. Sem rebuços exoraremos contra o desajoujo plioglótico. É mister que se lastre usança sem zanguizarras, a que está em foto nos marouços do pélago dos símplices, a das calendas maiozinhas franchinóticas, e nenhumamente o bucentauro sancarrão, gebo e zãibro das sinafias horrísonas. Para tal, urge que encetemos o escardilhar impertérrito de cada coirela dessa liça, escalrachando as negaças zabaneiras dos bigorrilhas, para então retanchar o alfobre, arrampadoiro esbuxado, com decistéreos de racimos anafados. Que seja a recoleta Weltanschauung espeque e peanha desta magnificentíssima açotéia arxada, que é o Torrão onde temos nado.

Sobretudo nas epistemografias deve a língua ser porreira, inube, e sem procurar valhacoito em preciosismos, indesejáveis, pois assim ficará acessível aos lagalhés brasilícolas e sem a necessidade de chichas, burros ou marginalia. O excesso de maneirismo excluiu a maioria da plebécula do conhecimento ou alimentou a prenoção de que se trata de um objeto inatingível aos pategos. Rompendo a barreira da linguagem, iniciaremos um potici de pessoas no campo científico e acharemos sobejidão de suputadores, filósofos, cientistas, protozoólogos. A língua que permeia os éditos científicos exorbita-se da preocupação de integrar os patrasanas e se exime da responsabilidade de formação de novos pensadores, cavando um abismo intransponível entre classes sociais.

A prana de toda essa maldade sem dúvida alguma partiu das classes dominantes, carentes de louvaminhas, que confeccionou socioletos, que levantam barreira da comunicação entre a elite e os mesteirais que não têm sequer ptocotrófio com presigo de micula pingue de perum como prândio. Como pródromo, há fatos que datam de três dozenas de séculos antes de Cristo, entre o povo de Mohenjo-Daro (NGUDDABHASKARA 3598 a.C: 134). Raiz dos preconceitos, a criação de um lumpemproletariado foi o bereshit da diferença de linguagem e separou os homens, em vez de uni-los. Sua potava era a cizânia nos porvindoiros, em vez da solidariedade, a segnície, a intuspecção egótica em vez da visão coletiva e foi, como algo tradicional, transmitido ao longo dos tempos. Formaram-se cloacinas greis de pataus e nunca mais houve uma razão unívoca (ÙBÚLÛWAYÈ 1999:2b).

Em Ciência, suas conseqüências não podiam ser mais apostemáticas, pois des os prógonos separou-se a comunidade acadêmica em clãs e nunca mais as uniu, as ciências pororocam-se dia após dia, criando uma prole cada vez mais especializada. Mesmo em área superespecializadas como na esquizopodologia sofre-se de bifurcações irreversíveis: os exopoditólogos se azoinam, sem faúlha de bazófia, em seu romenho intangível para um endopoditólogo e não há perquiridores que se apliquem aos dous estudos à uma. Procazes, dentro de cada subgrupo, vemos polemículas e os cientistas se trancam em suas salas, e chega-se ao cúmulo do decano não conseguir alvitrar seu fâmulo orientando, devido à imensa distância de sua expressão. Exemplo mais lumioso dessa aberração é quando o mesmo autor é tolheito no entender do que ele próprio escrevera no edição anterior da revista de seu instituto e cita, contestando tudo que disse anteriormente e sugerindo que o autor daquelas linhas é um lunático.


Em glossemática as coisas se vêem de modo ainda mais claro, a ponto de já terem construído um linguará automático para as hjelmslevianices, longas como um melisma de Machaut, e as pottieradas, pertransidas de obscuridade como a mansarda de Prosérpina, que são intragáveis mesmo com a mais saborosa dos sauces de Port-Mahon (HELLMANN & AGELLATUS 2053: 0). Isso nos desobrigaria de procurar mistagogo pancaio, tiromante fajuto ou lampadomante de pantim por alcançar o extrato enleado de seus textos. Os paparrotões cinicamente carcavam em torno da língua falada e apregoam que as não sobponhamos. Ora, tudo indica que vêem como nós da Alma Mater Ethnosophía, contudo, paradoxalmente sobredistendem mentiras, tergiversando em um jargão emeticamente ilegível, azougando e entupigaitando seus colegas de discussão sadia de idéias, não sobrando sequer um escassilho para a patuléia que tanto enaltecem! Na verdade discutem breguessos e cousas de pré-antessaber de todos, como o fato de os dípteros terem halteres, justificando sua existência com máscaras que azoratam mais o leitor do que fez a déia Glaucops com o Telamônida. Como obviar a isso? Com um tal janaú, nenhum passo é possível, pois o texto parece ser frágil como um nuelo que sofre de hialoantropia. Trescala tal frioleira insulsa à grimpa, que após mondada, inda em nidor inaturável se contrefaz. São-nos ilécebras para a osga! Às escâncaras obfirmamos que quem assim no faz não excele pela hombridade de escol.

Quamanha é a distância que nos separa da zina do tempo dos charros bufarinheiros, latagões lusoparlantes, práticos contumazes d’antanho, que, multivagantes em seus patachos à zinga pelos simuns, cansins, rebojos e caribdes do orbe, em priscas eras, cheios de cachimanas e embófias, esguncho protendido à mão, faca à vagínula, surro à toita, sem ter rumado ou tapejara que lhes mostrasse o caminho nem esculápio que pensasse perchas antiflogísticas em suas bostelas, repatanados fidamente na oneomania dos povos, davam saguates ou escambavam com grande guapetonagem suas cousicas: piçamás por dous pardaus ou uma pistola, arráteis de acaburro vermelho ou de simonte ptármico por um ceitil, almudes de jeropiga por meio morabitino, martelos de zerumba por um quarto de ducado, alnas de nanzuque prásino, zuarte álbido e zefir roxicré por qualquer bagalhoça ou tuta-e-meia. Bastava-lhes zumbaiar e dominar perfunctoriamente o euskara para se comunicar com os psicrofóbicos tchicaridjanas, com os pontilhosos popolucas, com os rezingões ntogapigues, com os otxucuianas pedinornitófagos, com os iscnofônicos macamecrãs, com os mazorrais aripaquitsas, com os islenhos craptês, com os xoclengues, com os oxiópicos xicriabás, com os olhitoiros oaliperis-dáqueneis, com os maiongongues zeófagos, com os pachecais piocobjês, com os agtas ulótriques, com os gabarolas mencragnotires, com os xelguins que oferiam seus féleos acepipes de vunvuns e surrupeios sem quinecu nem sirage (vote! tibe!), com os tatibitates bosquímanos, com os refegados samorins e rajaputras e seus ravanastrões, finalmente com os oligopiônicos chins, em seus queimãos e suas charas sem biocos nos mesmos miaus! (PIÇARRO 1502: 1502). Não é, porém, história solaz, pois evidenciamos que os protonautas já não eram tão imáculos, pois marandubas de pichelingues, flibusteiros e outras tranquibérnias não faltam, as quais inquinam e lucham nossa prístina e perilustre ascendência, lançando-a num volutabro (o recuco Ernanes Garcia, por ex.).

Escusado seria ainda as renembranças dos querigmas, que por trás dos esgares austeros, ouropel engranzado em rostros com tomentos pogoniáticos palia lamentável hipocrisia, ao zafimeiramente empar seus eucólogos e ripanços com patranhas em línguas há muito desusadas, fragmentam-se infinitamente em um veraz kjøkkenmøding de seitas que sofrem de acusmas divinos, comprometendo os larozes da tacaniça monoteísta. Malgostosos vemos os fiéis santiguando-se como psecas das cabeleiras rosiluminosas do destino, pelo simples fato de não terem compreendido uma mensagem ocada que deveria, antes de tudo, ter a nução da linguagem clara e sem platitudes. Não são dinos de cachinadas os fungagás de myôhôrengekyô dos zacos no zingamocho das dágabas?



Também a incompreensão entre as línguas é, sem a menor sombra de dúvida, motivo de as religiões não se tolerarem: abundam zervanistas, premonstratenses, abecedarianos, adamitas, sublapsários e quem ganha com isso é o Sapucaio, que ri a bambão e sarrafaça seus saramátulos (abrenúncio!). Samicas falem das cousas cômpares, reveladas em tempos e circunstâncias diferentes pela bondade de Deus, mas conciliá-las é trabalho vão, pois ao longo do tempo, a incompreensão modificou malignamente suas mensagens e achar algo de comum entre elas, após minucioso paragão, s seria tão derrisório quanto dizer que um estromateídeo e uma rickettsiácea ipsa res sunt (ÁGONOS 1748: 666).

É do talante do parnaso primar pela incompreensão omnímoda, dando ensejo a um panázio prolificentíssimo de lazzi. Observamos tal decadência quer numa endecha, cujo conteúdo zinzilulante não se percebe nem à primeira nem à quingentésima leitura, quer nos quirieleisões e outras solfas dos sochantres modernos, cujas quiálteras nos regais são tautócronas aos proslambanômenos nos rotfones e aos rubati dos sarrussofones, destoando dessa feita em muito das antífonas pesponteadas e tedéus merovíngios, que enchiam as almas personativas de júbilo e satisfaziam com seus rabis, zeugos, tipofones, rajões e outros pentens nossa amarga estada na terra, quer ainda na pintura, cujos traços miniados de seus poncifs que retratam uma pêssega são impossíveis de serem seguidos, seja a nanômetros, seja a siriômetros de distância, havendo inclusive momentos em que os próprios pintores admitem nada significar ou nem eles mesmo entender o que fizeram. Todos, porém, são ávidos de prolfaças (KO£YBRZYCZEW¦KI 1985: 24). Que vem a ser essa ausência de modelos e de valores do mundo hodierno que nos mete em pantana, se não - pílulas! - as trincheiras que as mesmas elites sécias apaniguam com pervicácia? Sôbolo urgente de uma atitude repristinatória um sonhoso qüidam revel e sebenteiro já respondeu contra a glotorrexe em seus canhenhos, em que pesem os potins e as rancoras e pufismos dos zoilos zingrantes perdigoteiros (D’ÁVILA-A-BAIXA 1944: 390). Como a tiragem continua muito baixa, achei melhor escrever este artigo para fazer-vos cientes de sua existência. Ou seja, em todas as perquisições vemos erigir um caravançará para esse absurdo: na ergasiotiquerologia, na aviceptologia, na zetética, na picnometria, na edafologia, na pestologia, na espeluncologia, na sicomancia, na potamologia, na rurografia, na sarcologia, na pteridologia

Homessa! Como apólise peremptória, convoco a todos hoplitas samideanos, mesmo infratos, à loita. Sem sobrossos! Zurre! Esguitando, estumemos nossos lebréis licorécticos para que, desacolherados, zavem aos morsegões esses rolhos fraldiqueiros esciófilos! Que jamais se zumbra a Rezão! Víspere, joldra! Profliguemos, após terrível indaca, quantos obliqúem ideofrenicamente em ingresia perfunctória. Bafuntem as azêmolas que inda o fazem! Ir a Canossa, jamais! Ecoxupé!

INCUNÁBULOS GLOSADOS

ÁGONOS, Michelangelo. L’amore impetuosissimo fra Strepsiptera e Radiolarius. In: Revista sesquiebdomadária “Ingluviocelologia e Você”. Guarulhos 2344 (1.234.985.678.890.000.987): 1-690, 1748.

D’ÁVILA-A-BAIXA, Nicomedes G. D. Os aldravões manauaras que cunctatoriamente bezoam aleivosias em catadupas. Coleção Primeiras Manivérsias. Santa Trampolina, Pechisbeque & Cia, Elafebólen de 1944. 12389p.

HELLMANN, Oiticica & AGELLATUS, Friðunanþus. O effeito da mayonnaise em assumptos intragaveis & as machinas de ler escriptos de Hjelmslev. Manjaleco do Norte, Officina Xptou, 2053. 4p.

KO£YBRZYCZEW¦KI, £êch. Dlaczego nikt nie rozumie miê? In: G³upstwo i Nauka. £ód¿ 62 (12):26-25, 1985.

NGUDDABHASKARA, Bhurukhenemaphortha. “Aum, Rá, Kyai, Tchan: est-ce qu'il y a quelque chose de commun?”. In: Revue de l’Institut Autognostique de Lutetia Atlantica. 3598a.C. 160 rolos+ilustr.

PIÇARRO, Gustávão. As pucelas ilhoas inhenhas que se encarapitam a flux, com suas verdascas e caxirenguengues, pendependendo nos moutedos de inambuquiçauas das ourelas e rias dos charqueiros ultraplatinos. Madrid, Ofiçina dela Reiña Loica, 1502. Metáfrase do leonês esquipático para o luso moente e corrente por Nicomedes Gedeão Dousbuzenos d’Ávila-a-Baixa. 98003p.

ÙBÚLÛWAYÈ, Bálàkôbákó (ombudsman). “Mo ti maa nkà ìwé ìròhìn yi rí”.In: Folha de São Paulo, caderno Basta!, 12 de setembro de 1999. 3p.


[1] lente da Alma Mater Ethnosophía, Delphos, distr. Jucurutu/ RN"

domingo, 15 de dezembro de 2013

INIMIGO SELF-SERVICE

Todo animal está numa cadeia alimentar e os mamíferos, por mais espertalhões que sejam, nem sempre conseguem safar-se disso. Assim, nossos antepassados sofreram muito, sem visão noturna dos lêmures, sem a cauda preênsil ou a pelagem vasta dos haplorrinos. Durante milênios, os inimigos sempre foram os mesmos e afligiam sobretudo os velhos, doentes e filhotes, devorados por terríveis serpentes, astutos carnívoros e aves de rapina inclementes. Mas cedo também se viu que adultos fortes poderiam ser vítimas de outros inimigos. Debilitavam-se por causa de insetos parasitas e carrapatos, instintivamente arrancados pelo companheiro ao lado, em atitude solidária, espremidos ou comidos com uma dentada automática. Outros parasitas internos não eram visíveis, mas depois de um tempo, algumas atitudes igualmente instintivas como ingerir certas plantas ajudaram a combatê-los. Nenhum desses inimigos era mais estranho que a morte natural, que rondava qualquer um, forte ou fraco, causada pela velhice ou por alguma razão desconhecida.
Nunca nos faltaram inimigos. As trevas traziam um pouco de sossego às almas extenuadas de tanto arriscar a vida na procura de alimentos, mas paradoxalmente o sono era interrompido pelo grito de algum integrante do bando, subitamente devorado. Mas dominamos o fogo, já completamente bípedes e nus, e o perigo das trevas diminuiu.
Com a agricultura, a fome também passou a ser menos frequente. Com a cidade, a segurança aumentou. Mas não cessaram os inimigos. De início, eram as pragas que frustravam as colheitas. Mas logo em seguida, os inimigos brotaram de dentro da própria espécie. Fora das muralhas, tribos inimigas se batiam para entrar. Dentro delas, os assaltos eram apenas um dos tipos da multifacetada violência. Para se evitar o caos, nasceu a lei e a civilidade; paradoxalmente, com ela, a perversão de fazer o mal pelo mal.
Não urrávamos mais, nem batíamos mais no peito para estabelecer hierarquias. A essa altura, subíamos aos púlpitos. O inimigo agora passara a ser exclusivamente verbal. Suas ideias não nos agradavam de modo algum. Nem as nossas lhe ecoavam no peito como verdades. Acusávamo-nos mutuamente. Ao menos, concordávamos na mútua inimizade.
Estávamos certos que, além de nossas muralhas, nada de nosso existia. Todo o mundo era barbárie e, portanto, era nosso inimigo. Até que veio alguém mais poderoso e derrubou nossas fortificações. Passamos a fazer parte de um império e nosso rei foi levado vexaminosamente acorrentado como escravo para uma terra longínqua e dele nunca mais ouvimos falar. Ficamos sob domínio de um rei estranho que não era nosso vizinho. A ele, de coração ou contra a vontade, juramos fidelidade, sem jamais vê-lo, e auxiliamo-lo nas guerras contra outros inimigos, que ainda não estavam sob seu império.
Até que um dia, convicto dessa situação lamentavelmente resignada, alguém adoentado mentalmente passou a ver nessa nossa pena eterna à subserviência uma centelha de futuro. A alforria, obviamente, não estava neste mundo, mas após a nossa morte. Centenas de outros profetas repetiam essa mesma ladainha. Continuamos resignados, mas felizes. Sim, pois pior que os inimigos que nos escravizavam ou que nos saqueavam, pior que nossa condição mortal de súdito, havia algo ainda mais terrível, que tornava esses males irrisórios. A chave desse futuro era de uma simplicidade incrível: uma unção, um batismo, uma declaração, enfim, uma certeza cega no Bem, o verdadeiro rei que vencerá esse superinimigo. E a felicidade dessa revelação lançou novamente homens contra homens. Diziam: no fundo todos somos iguais, mas há um inimigo ainda mais invisível que todos os anteriores e essa é a causa de todo nosso mal. Criam que haverá uma redenção contra a abstração de todo o mal na figura igualmente abstrata de um bem infinito, que se importa conosco, porque somos seus filhos.
E esse raciocínio infantil de um ser desamparado mostrou que devíamos lutar contra os demônios que se escondiam nas ainda muitas sombras das vinte e quatro horas que regulavam o nosso organismo animal. De nada adiantou Santo Agostinho argumentar que o mal não existia. A fé na existência de um inimigo poderoso como o Mal é muito maior.
Um dia, alguém inventou a luz elétrica e a multidão de seres fantasmagóricos que povoavam a mente e as narrativas de pessoas muito dignas acabou por esvanecer-se por causa da incredulidade de quem nunca as via por mais que as buscasse. Chegou-se a conclusão que ou eram mentiras ou eram alucinações. Mas o Mal ainda era a melhor explicação para a existência dessas alucinações.
Pouco antes, porém, atenuara-se a certeza da cisão entre o homem divinamente amparado e a natureza, que existia apenas para o servir ou para o aterrorizar. Tornou-se óbvio que não há cisão alguma, mas continuidade histórica. Se esse continuum era cercado de fossos, na verdade, foram todos criados pela extinção dos elos perdidos. Nesse sentido, nosso organismo é uma extensão somente um pouco diferente de seres similares, mas ambos teriam um ancestral comum. Abalou-se com esse discurso nossa certeza de sermos filhos de um bem que nos protege, mas as alucinações continuavam e desconfiou-se que seriam apenas ecos arquetípicos desse passado animal, produzidos por nosso cérebro.
E eis que o cérebro passou a ser nosso inimigo. E ainda mais terrível. Não se tratava mais de um animal selvagem, nem de um espírito maligno, nem da tribo vizinha, nem do desconhecido que mora ao lado, nem de nosso irmão. Nosso inimigo agora era nós mesmos. Estávamos a mercê de uma massa cinzenta cheia de vontade própria, que habita em nós mesmos. Reféns de nós mesmos, passamos a desejar queimar até a morte o Horla que habita em nós, mas, queimando nossa própria casa, acabamos por vitimar os empregados, que nada tinham a ver com nossos delírios. De novo estávamos num beco sem saída, situação em que nos encontramos agora e que Giannetti descreveu magnificamente no seu livro A ilusão da alma.

Mas o conclusão disso tudo é que nossa razão de vida depende de um inimigo, senão de nada adiantaria ao nosso espírito irrequieto de símio trancar-se em casa, buscar o êxtase ou o conhecimento, enveredar pela vida política, viajar para terras distintas, como diz Sêneca em A tranquilidade da alma. E quem diz que preenche esse vazio com isso ou com aquilo normalmente histericamente reforça tudo o que foi dito até agora, pois faz isso em nome de um inimigo. Partidos políticos se digladiam, patrões e empregados se enfrentam, religiosos  lamentam que haja ateus e ateus ironizam religiosos. Estamos num mundo cronicamente inviável, diria Sergio Bianchi. Fazendo tudo isso não estão todos corroborando que a indiferença quase budista almejada pelos estoicos é quase impossível? Não estamos todos construindo diariamente o fight club, de David Fincher?
Por fim, meu leitor, se você quer ser meu inimigo, basta ler com atenção o que eu digo, distorcer minhas palavras ou então apenas pautar-se no que o senso comum fala de mim, mas deve fazer isso com aquela mauvaise foi, de que fala Sartre. Todas as vias são válidas para a inimizade, por mais paradoxais que sejam: discordar é o charme do intelectual, ironizar faz parte da alma de quem quer convencer, acusar é a arma de quem quer o poder. Não é o amor, mas o ódio que nos une. E não se consegue bater no peito e ser líder de um bando de símios se não tiver bem equipado com razões. Um mudo somente seria líder se houvesse excesso de falatório, pois o silêncio somente é apreciado em meio às bombas que despencam. Fora esses momentos, a irrequietude sempre foi nossa marca. Os sons da natureza nos deprimem. Será nosso medo atávico de voltarmos à nossa condição original?
Mas, ao fim e ao cabo, transitando por tantos rumos, imperando de maneira soberana, podemos sentar-nos confortavelmente e escolher nosso inimigo predileto. Temos hoje esse direito. Quem conseguiria viver uma vida sem um inimigo? Ele nos dá razão de existir e esconde o oco de nossa insegurança e da nossa pequenez.

Aproximamo-nos dele, curvamo-nos e gentilmente - para que não se ofenda com alguma inflexão brusca de voz - dizemos-lhe no ouvido mui galantemente: permitir-me-ias esta contradança? E assim grudados, apaixonados, dançaremos uma vida inteira, inseparáveis, eu e meu inimigo, no mais perfeito autoengano, na mais absoluta inconsciência.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

SINCRONICIDADE

"Se não é logo na primeira vez que as coisas acontecem para nosso deleite, decerto na segunda haverá melhor sintonia com os nossos atos."
 
Por que pensamos assim? Eu sempre achei que a existência desse silogismo é o motivo pelo qual nos autolouvamos como racionais.
 
Famílias que moram no subúrbio acordam de manhã para mais um dia de labuta. De novo e eternamente, avós berram contra a parede e donas-de-casa entoam sua ladainha de tédio e frustração rodrigueana. Algumas, no decorrer dos anos, engrossaram o caldo dos produtivos e orgulhosamente caminham junto com a horda dos esperançosos. Não há escolha: ou nos lançamos à azáfama insuportável ou paramos tudo só para contemplar o absurdo? Tertium non datur?
 
 
 
Dizem que só podemos refugiar-nos desse dilema por meio da fé. Conversa velha essa, desde que surgiu o epicurismo, após a queda da pólis grega. Por causa dessa resignação afirma-se: sim, alguém excelente virá ou algo maravilhoso decorrerá deste ou daquele seu modo de agir. Segundo esse raciocínio, nada de bom reside no agora, apenas no deus Futuro. E se agirmos para acelerar seu advento, a frustração decorrente de nosso agir fará levantar-se uma outra nova fé, do meio dos escombros. E assim consecutivamente, ad saecula saeculorum.
 
Não é essa a mensagem messiânica do Encoberto? De um salazar à espreita rastejante na penumbra, como na lama de um lago escocês escuro, emergindo ovacionado pela Pessoa que o louvara enquanto o via no platônico Mundo das Ideias? Não é óbvio que se revestirá inexoravelmente de crua realidade, tão logo incensado como líder, quer com sufrágio, quer com sangue? Descobre-se então (defunto ideal ou ideal defunto?) que a rosa encoberta deve ser substituída por outra rosa, posta nos fuzis de quem restabelece aquilo que nunca deveria ter mudado... Nessas horas, é o deus Passado que ressurge. Novamente decepção. Longa longa decepção, muito mais que uma vida suporta. Mas que fazer se a mensagem daquela Pessoa tem sob sua base uma má etimologia: mens agitat mollem?
 
Ou será que é o nosso cereal matinal que está gritando? É tanto barulho que não conseguimos ouvir absolutamente nada que faça sentido. É nossa fome que nos lança, quer à ação quer ao comodismo? Ou são as indústrias que não param de trabalhar para aplacá-la? Elas dão o que queremos e tornam as manhãs feias com sua fuligem lançada ao ar, com seu vinhoto lançado à água, com o chumbo lançado à terra, com os resíduos lançados ao fogo. Conseguiríamos viver sem essa poluição tão amada? O que importa é a moral da história: tenho aquilo pelo que batalhei.
 
Desesperançados, caminhamos indo e vindo: entre as passeatas, rumo ao patrão que chuta  nossos fundilhos e, devagar, empacados no rush, rumo ao nosso lar, para acordarmos de novo amanhã e fazermos tudo igual. E teria algo mais que fazer? Isso faz parte do contrato social que assinamos. Para que buscar o porquê se a culpa é toda nossa, quando atribuímos superioridade e poder a quem nos humilhou, humilha e humilhará. Ciente dessa culpa, olhamos para o nada e lamentamos a vida, como quem não tem participação nenhuma. A culpa, obviamente, dizemos no nosso auto-engano, são os outros. "Eu sou uma vítima", berra Alex DeLarge, consciente do mal que a Ciência lhe infringiu. Rimos ou choramos dessa tremenda contradição?
 
 
Vender sua alma, prostituir seu corpo, que diferença faz quando o batom é passado nos lábios e vamos em busca de valores que não nos fazem crescer como indivíduos mas apenas de valores que importam à nossa sobrevivência? Um leão faz o mesmo que um homem tentando capturar uma zebra. Uma lula faz coisa idêntica esticando seus tentáculos. Flores são subprodutos não só do sol e da água, mas também do estrume. E sorrimos, às vezes, nas gaiolinhas onde nascemos. Fugir delas parece pior.
 
Tudo isso aconteceu e acontecerá. Passaram já trinta anos exatos desde que Sting cantou Synchronicity II, dando-nos as ferroadas de quem quer nos policiar. Mas ferroar por quê? Acaso não posso ferroar de volta, sem sequer pensar na razão da ferroada? Policiar de quê? Há nessas palavras mais iluminação do que num raciocínio prosaico? Sem dúvida não, mas a vaidade e o estilo fazem as diferenças de nossas miragens. E cantarolar parece que nos redime. Não é à toa que a contemplação estética e a música nos trazem provisoriamente algo de redenção, schopenhauerianamente pensando. O conteúdo, ao fim e ao cabo, é uma questão de reconhecer o que nos é óbvio desde que descobrimos bem novinhos que a mentira existe. Diante da decepção, enredamo-nos num casulo mais duro que a casca de uma macadâmia.
 
Nesses trinta anos, o mundo caminhou para uma realidade ainda mais esfarrapada do que naquele clip, mas na verdade o estudo de nossa etologia mostrará que continua(re)mos andando em círculo, em busca do esfacelamento total, ao estilo do planeta Terra do Wally. Somos os lemingues lendários que oscilam entre autodestruição e a falta de sentido de nossas buscas. Ou não sabemos onde chegar ou apenas somos programados para viver e, nesse caso, nada foge ao destino. Como os trilobitas foram um dia os donos do planeta, um dia chegará nossa vez. Átropos cortará o fio, sempre do mesmo jeito. Ninguém pode impedi-la. O fado do cérebro do hominídeo é o suicídio coletivo e, enquanto isso não ocorre, competimos uns com os outros, darwinianamente, porque queremos que nosso suicídio seja melhor do que o do nosso próximo.
 
 
 
Resta-nos apenas olhar para o longe no final do dia? Para o nada que cedo ou tarde virá, sem nunca ter-nos deixado? Será esse nada onipresente aquilo que, no auge das civilizações, convencionamos chamar de Deus?
 
Não, lá longe, onde não enxergo, lá onde é impossível que eu esteja, não há nada de interessante. Não há nada melhor do que o que está aqui na minha frente, na minha mão. Lá nesse lugar ansiado há apenas alguém sujeito às mesmas frustrações que tínhamos antes de iniciar nossa viagem em sua direção. Naquele loch não há um monstro, não há mirabile visu. Apenas um homem igual a mim,  ansiando o mesmo que eu. Nossa única diferença era a distância que nos separava. Nossas semelhanças são muito mais gritantes, embora inexplicavelmente desinteressantes.
 
Mas se, a despeito de tudo, o deus esperado não surge, nem nada equivalente, nunca, de onde vem essa cega esperança, se não das profundezas do desequilíbrio de um gene enlouquecido que tirou nossa cauda e nossos pelos e nos fez ciente de nossa nudez e fragilidade? Enquanto isso, os faróis de nosso carro iluminam o lugar que chamamos de lar, porto seguro de nossos prazeres, certeza do bendito e salutar esquecimento dessa condição limitada, incompatível com nossas expectativas megalomaníacas. E nesse momento, nossa dor se vai. E sorrimos.
 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

O AQUI-E-AGORA

Afoitos, sobretudo quando estamos envolvidos pelo calor juvenil que pulsa nas nossas veias, aprendemos a valorizar o aqui-e-agora. Não digo que isso seja bom ou ruim. Na verdade, a cognição enreda uma fantasia de individualidade que, no turbilhão heraclitiano das coisas, precisa de âncoras para que entendamos algo. Nosso entendimento não é dos melhores, mas também não é de se jogar fora. É necessário que ele exista, de alguma forma, para nossa sobrevivência e para nossa perpetuação.
 
Que é de fato o aqui-e-agora? Não me refiro ao meu dia comezinho e às aventuras domésticas hodiernas de quem mal teve tempo de almoçar, enredado em obrigações acumuladas. Não. Não falo de mim. Seria muito chato. Falo do contexto em que me insiro.
 
O que houve hoje todos conhecem. Não saberão dele quase nada amanhã. Tão óbvio, que parece truísmo indigno de ser relatado. Que adianta descrever o calorão paulistano que fez hoje à tarde, seguido de um friozinho e de sua promessa de chuva? No noticiário, há manifestações por toda parte, todos sabem. Sabemos também que hoje estamos à véspera da copa e das eleições. Não. Não é isso. Tampouco deveria importar ao leitor (a não ser ao bisbilhoteiro) a minha saúde física e mental ou a minha vida amorosa ou o que eu comi ou se ainda tomei banho ou não. Não lhe importaria de fato se peguei fila no cartório e no correio, se meu cartão Sodexo parou de funcionar, se estou preocupado com o que espero que ocorra amanhã. Não.
 
O aqui-e-agora, nesse sentido, é tão banal, seja vivido, seja entwitterado, seja enfacebookado, que só pode gerar o tédio. É algo que só tem o poder de nos jogar em rosto aquilo que pensamos ser, isto é, aquilo cuja confirmação tememos ouvir: o nada. Precisamos de sonhos, de fantasia, de mentiras e de fábulas até mesmo para termos coragem de nos pendurar numa corda.
 
Mas foi assim dez anos atrás? 2003 foi o ano do primeiro flash mob. Nesse ano, a prefeita de São Paulo era Marta Suplicy e nela arremessaram uma galinha preta. O presidente eleito do Brasil era Lula, após três tentativas anteriores. O de Cuba era Fidel Castro. Na Argentina o presidente era Nestor Kirchner e na Bolívia depunha-se Gonzalo Sánchez. Era época do ranzinza George W. Bush e Saddam Hussein ainda estava vivo, apesar do Iraque invadido, com a biblioteca de Bagdá destruída e as peças sumérias, de inestimável valor, saqueadas do seu museu. Num atentado, morria o diplomata Sérgio Vieira de Melo. Ano do novo Código Civil, da criação das subprefeituras de São Paulo. O ônibus espacial Columbia havia explodido no ar. A TAM se havia fundido com a Varig. No mar, o naufrágio do Tona Galea, em Cabo Frio. Na ciência, descobriu-se um novo domínio de seres vivos (Archaea). O Homo rudolfensis deixava de existir, considerado sinônimo do Homo habilis quase ao mesmo tempo em que se descobria o Homo sapiens idaltu. Por outro lado, também se descobria que 99,4% do genoma do chimpanzé é igual ao do homem. O Texas e a Georgia descriminalizam o homossexualismo. Os irmãos Chapman alteram originais de Goya. Havia epidemia de SARS na China. Falando em China,  foi o ano do primeiro voo entre Taipé e Xangai e do primeiro astronauta chinês. O juiz corregedor Antônio Machado José Dias foi assassinado. O sexagenário José Nelson Schincariol sofre o mesmo destino. No acidente de Alcântara morriam vinte e uma pessoas. Apontando para o futuro (que é hoje) havia o programa Brasil Alfabetizado. No cinema, Carandiru, de Hector Babenco e Elefante, de Gus van Sant. Terremoto no Irã, com vinte mil mortos. Após treze anos, o genoma humano acabava de ser transcrito. Blecaute nos Estados Unidos e Canadá, por mais de trinta horas. Michael Jackson havia sido preso e Arnold Schwarznegger era eleito governador da Califórnia. Beatifica-se Madre Teresa de Calcutá.
 
 
E dez anos antes, em 1993? Era a época do presidente Itamar Franco, vice de Collor. Fernando Henrique ainda era ministro da Fazenda. Houve um plebiscito sobre o regime a ser adotado no país e o parlamentarismo não emplacou. Lançou-se o Plano Decenal Educação para Todos, com vista à erradicação do analfabetismo. As primeiras operadoras de celular surgiam no Brasil.O papa de então, João Paulo II, já demonstrava sofrer do Mal de Parkinson. Na Venezuela, Ramón José Velásquez subia no lugar de Carlos Pérez, que acabava de sofrer impeachment. Era a época de Fujimori no Peru e de Menem na Argentina. O PDS se fundia com o PDC e surgia o PPR: o prefeito de São Paulo era Maluf e o governador era Fleury. Roberto Marinho entrava na Academia de Letras. Privatiza-se a Companhia Siderúrgica Nacional. Nos Estados Unidos, Bill Clinton; no Iraque, Saddam Hussein; em Cuba, ainda Fidel, que acabava de suspender a proibição do uso de dólares em seu país. Tolerância zero contra a criminalidade de Nova Iorque, declara Giulianni. Era época da guerra da Bósnia, mas na Irlanda do Norte, ao contrário, finalmente se declara a paz. Igualmente, nesse ano, Israel e a Palestina assinavam o Acordo de Paz de Oslo. Em Ruanda, Habyarimana também fazia um acordo de paz com os rebeldes tutsi. No Brasil, a chacina da Candelária e de Vigário Geral. É o ano da primeira Marcha para Jesus. Por outro lado, foram cinquenta dias de enfrentamento com fanáticos religiosos do Texas, culminando em 80 mortos. Em Mumbai, um atentado deixa 300 mortos. Descobrem uma pedra de basalto, com o nome do rei Davi, que remontava ao século IX a. C. José Saramago lançava In nomine Dei. No cinema, O pequeno Buda de Bertolucci e Parque dos dinossauros, de Spielberg. Na TV passava a novela Mulheres de areia. Michael Jackson dá uma entrevista bombástica em que fala dos abusos cometidos por seu pai e sobre sua doença de pele. Deixava de existir a Tchecoslováquia e na Espanha, o catalão passou a ser a língua das relações de consumo na Catalunha. Independência da Eritreia.
 
 
 
Em 1983, dez anos antes, o presidente dos EUA era Reagan e o de Cuba, novamente, Fidel Castro. Havia surgido a lei de normatização da língua catalã. No cinema, O Retorno de Jedi, de George Lucas. No Iraque, 8000 curdos eram mortos e Saddam Hussein assassinava 90 pessoas de uma mesma família. Era época da guerra entre Irã e Iraque. Michael Jackson lançava Thriller e Glória Perez terminava Eu prometo, de Janete Clair, recém-falecida. No Chile estava Pinochet e no Brasil, Figueiredo. Na França, Mitterand; na Romênia, Ceausescu; na Alemanha, Helmut Kohl; na Inglaterra, Thatcher. O papa era João Paulo II. Outro polonês, Lech Walesza recebia o Prêmio Nobel da Paz. Surgia o primeiro vírus de computador.
 
Um passo de mais dez anos para trás nos leva a 1973. Nos Estados Unidos estava Kissinger e em Cuba, adivinhem: Fidel Castro! Na TV passava O bem-amado, de Dias Gomes, e estreava Chico City. Gilberto Gil fazia um show-protesto na USP e Chico Buarque, juntamente com Edu Guerra, estreavam Calabar. Nesse ano, funda-se a Sabesp. Na Romênia, estava Ceausescu; no Chile, sobe Pinochet por meio de um golpe; na Argentina está Perón e no Brasil, Médici. Golpe de estado hutu em Ruanda. Pelo mundo regiam Franco, Chiang Kai-shek, Idi Amin Dada e Baby Doc. Houve o cessar-fogo do Vietnã e os EUA são denunciados de inúmeras atrocidades. Ano do caso Watergate. Época do enriquecimento do Iraque devido ao brutal aumento do preço do petróleo. No cinema, Jesus Cristo Superstar. Construíam-se as Torres Gêmeas do World Trade Center. Mais uma vez, países surgem: é o ano da independência da Guiné-Bissau.
 
Em 1963 eu não havia nascido ainda, mas consta que em Cuba estava, como sempre, Fidel Castro e na Espanha, Franco. O presidente americano era Kennedy. Um plebiscito novamente escolhe presidencialismo. Estávamos em plena Guerra do Vietnã. Godard lançava Le mépris, Plínio Marcos Enquanto os navios atracam e Quando as máquinas param. Na TV, a novela de Nelson Rodrigues A morte sem espelho e Rubem Fonseca também paquera a televisão com Os prisioneiros. O presidente era João Goulart e o papa Paulo VI sucedia João XXIII. Charles de Gaulle vetava a entrada do Reino Unido no bloco CEE. Os holandeses saíam da metade ocidental de Nova Guiné. É o ano da independência de Zanzibar. Os chineses acusam Krushchev de pactuar com o capitalismo. O Tibete volta a ser região autônoma.
 
Em 1953, quem presidia o Brasil era Getúlio Vargas. Ano da Morte de Stalin e da coroação de Elizabeth. Época da expedição Roncador-Xingu e do primeiro contato com os índios txucarramãe. Época do "varre, varre, vassourinha" de Jânio Quadros, da primeira bomba H russa e do primeiro supersônico americano. Nelson Rodrigues escrevia A falecida. A estrutura de dupla-hélice do DNA finalmente é reconhecida por Watson e Crick. Cecília Meireles escrevia o Cancioneiro da Inconfidência. Mazzaropi lançava o filme Candinho. Na Pérsia (futuro Irã) houve um terremoto em Tourod, com mais de 900 mortos. Reza Pahlevi sobe ao poder num golpe militar. É época da Guerra da Indochina (futuro Vietnã). Funda-se a Petrobras, o Parque Ibirapuera e o Monumento das Bandeiras.
 
 
 
Chegamos à metade do século passado, tão perto e tão distante. Convulsões parecidas, esperanças que se revelaram fracassos, mortes de tiranos que não findaram o sofrimento das vítimas. Em muitos lugares, o tempo parece que não passa, já em outros, a alta velocidade das mudanças é visível. Se, em vez de nosso passo de tartaruga, de dez em dez anos, saltássemos 50 anos, iríamos para 1903. Nos EUA estaria Roosevelt, o papa era Pio X e o presidente do Brasil, Rodrigues Alves. Fazia-se a primeira viagem de automóvel, de quase dois meses, entre São Francisco e Nova Iorque e também a primeira decolagem de avião dos irmãos Wright. O Acre era anexado ao Brasil. Oswaldo Cruz fazia a campanha contra a Febre Amarela. Einstein estava se casando com Mileva Maric. Mussolini era membro do Partido Socialista Italiano. No Congresso de Londres havia cisão entre os mencheviques e bolcheviques. O filme da época era Quixote, de Ferdinand Zecca. Havia uma grande seca no Nordeste.
 
Cem anos antes, em 1803, a Louisiana era comprada da França, após ter sido reconquistada aos espanhóis. Napoleão invadia o Piemonte. França e Inglaterra estavam em guerra. A primeira locomotiva Trevithick rodava nas ruas de Londres. Em 1703 iniciava-se a construção do Palácio de Buckingham e funda-se S.Petersburgo. Época da Guerra da Sucessão Espanhola. Portugal alia-se à Inglaterra: Pedro II de Portugal contra Felipe V. Em 1603, James I, filho de Mary Stuart, acumulava os tronos da Escócia e da Inglaterra. Estávamos em plena guerra dos 80 anos. Havia peste na Espanha. Os franceses desembarcavam no Maranhão. Em Pádua, Galileu olhava para os céus. Em 1503, na costa brasileira um batalhão inimaginável de insetos que povoava o Brasil zunia a ponto de serem ouvidos das naus ancoradas. Américo Vespúcio fundava uma feitoria em Cabo Frio e publicava seu Mundus novus. Da Vinci pintava a Gioconda e Gil Vicente escrevia O auto dos reis magos. Era a dinastia Ming.
 
Bom momento para pararmos e daqui olharmos para frente. Onde foi parar a promessa de eternidade de cada conquista humana? O que foi que se perdeu com essa esperança pouco planejada? Pior: que houve com os planos perfeitos que tanta euforia nos deram? Temos tempo de salvar algo se esquecermos todas as antigas tentativas? Temos certeza de que não lamentaremos a perda de algo que hoje não nos faz falta? O último que atirou nos dodôs pensou nisso? Será que nossa ignorância do passado não nos deixa outra vez embevecidos demais com o novo? Os astecas dominando os toltecas e os rapanui chegando à Ilha de Páscoa tiveram talvez a mesma sensação. Onde estão eles agora? Por que nossa história futura seria diferente?

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

TUDO O QUE VOCÊ PROCURA: AQUI!

Genes não têm o que fazer. Adoram um dos melhores momentos da vida para brincar de baralho. Misturando as cartas, fazem uma bela zoeira. O resultado disso é mais vida no planeta. Nada mal. Passará aquela e virá esta. Acabou a história.
 
Mas... é só isso? Vivemos porque estamos vivos? Não é muito sem graça?
 
Aparentemente no carteado dos hominídeos surgiu um defeitinho que nos aterroriza. Esse probleminha que está na nossa cachola afirma incessantemente que deve haver um sentido em viver. E inventaram uma porção de sentidos para nos sossegar. Vivemos para isso, para aquilo, porque no futuro blábláblá, porque na outra vida blábláblá. Eu me pergunto: será tão difícil assim estar sozinho consigo mesmo? Por que é estranha a figura do homem primitivo e gregário? Não há por que estranhar, pois sempre fomos dependentes dos outros. Lendas afirmam que os homens eram sozinhos e só aprenderam a ficar juntos após construir as cidades e os templos. Não vejo razões para acreditar nisso. O bando faz parte da evolução dos primatas, seres gregários de forma ininterrupta. Nunca vi macaco sozinho. Por que teria havido um momento em que o homem solitário teria aprendido a viver em bandos? Nunca aprendeu, porque o homem sempre foi coletivo, desde seus mais primitivos e rabudos ancestrais. O ermitão, sim, é a evolução do homem coletivo ao solitário e não o contrário.
E o homem tem razões para preferir o bando a si mesmo: não temos dentes afiados para atacar, nem temos o rabo de nossos ancestrais para nos mover entre as árvores, não temos pelos para nos defender do frio e, além disso, temos uma cabeçona que mal nos deixa nascer. Como hienas, caçamos, nos defendemos e nos aquecemos melhor juntos. Esse macaco neotênico, de tanto ser selecionado por feras, de tanto ver seus parentes devorados pelos monstros que habitaram este planeta, precisou desenvolver um cérebro voltado para o trabalho conjunto e, com ele, nasceram a consciência, a paranoia e o medo. Surgiu finalmente o naked ape.
 

Em resumo, é isso: somos um bicho que se sente bem no aconchego do bando, por sermos indefesos, à mercê das fantasias de um cérebro que nos deu consciência, previdência e muita agressividade. Se se mexe um inseto do nosso lado, dá-lhe sapatada. Se é um mero passarinho, merece estilingada. Só pra ver o bichinho estrebuchar. Se queremos uma árvore, plantamo-la. Se a árvore nos faz sombra demais, cortamo-la. E, depois de aprontar tudo isso, vamos lá cutucar nossa arte: que bicho curioso é esse tal de homem! Não há toca em que não tenha entrado, não há clima que não supere, nem profundidade do mar, nem altura. É um bicho frágil e medrosíssimo, mas não podia e não pode demostrá-lo para os monstros que o circundam, nem aos seres inofensivos, nem mesmo para os seus pares. Por isso, o covardão bate no peito, urra e encena uma valentia convincente. Afinal, tudo que conseguiu foi na base da porrada. Nessas horas dá até medo desse animal ridículo. Mas havia uns bichões maiores, que não tinham medo desses showzinhos: avançavam com seus cornos e cascos pra cima dos bandos de enfezadinhos pelados. No entanto, a vitória dos mais fortes durou pouco tempo: o homem se armou de pedras e lanças. E caíram todos eles: mamutes, megatérios, gliptodontes, toda a megafauna e todas as baleias, à medida que o homem povoava os continentes.
O ser humano, depois de tanta vitória contra tudo, devia parar de ser medrosinho, mas não teve jeito. Não houve como o homem vencer a escuridão traiçoeira, o granizo, os tsunami, os terremotos, os vendavais, os meteoros, as doenças, em suma, a morte. Esses inimigos invencíveis começaram a ser chamados de deuses. E o que estava fora de seus limitados sentidos, sobretudo o invisível, passou a ser povoado de novos monstros, que não conseguia vencer. O macaco cabeçudo que povoara o planeta estava de novo com medo e, nessa época, nem tinha mais afinidade com a natureza que acabara de destruir. Há muitas gerações pensava que nada tinha a ver com ela. Criou suas etologias, suas explicações, surgiram xamãs, surgiram pregadores, surgiram filósofos e cientistas. A natureza passou a ser algo ao qual nós, ex-macacos, obviamente nos opúnhamos. Ela lá, eu cá.
 
 
E a oposição era tanta que o homem passou a pensar só na humanidade. No conforto de seus construtos mentais lhe bastavam as relações interpessoais, a política e a vida coletiva. Natureza era coisa do passado. Surgiram leis, surgiram regras e as religiões. Explicações oficiais, coordenadas com sua língua e cultura, seguidas de punições exemplares aos hereges. Surge o poder absoluto, os reinos e o comércio. É verdade que, nessa bárbara visão das coisas, os outros homens que pensam diferente nunca diferiram das espécies que foram extintas. Os homens sempre se mataram, assim como matam as outras espécies. Matam tudo o que é heterogêneo. Basta que pronunciem diferentemente e que a sua cultura seja distinta. Shibboleth. Por fim, mesmo a homogeneidade não escapou: matam dentro das sociedades que abrigaram as diferenças, matam dentro das suas próprias famílias. Não sossegam. Gostam de destruir e nem sempre têm consciência disso.
Mas quando está quietão, sem matar, sem falar ou sem pensar, o homem está só diante de si e percebe o vácuo da consciência do presente eterno: a náusea de estar só. O homem, tão agressivo, nessas horas sofre e fica tão frágil quanto a formiga recém-esmagada pelos seus próprios pés. Sente falta de alguém que lhe diga o que fazer. Alguém que lhe tire essa horrível sensação de consciência de que a vida é apenas o transcorrer do viver.
Nesse momento um megafone de um carro que vende xampus anuncia:
"Já percebeu como aqueles momentos especiais debaixo do chuveiro são capazes de transformar seu dia?" Isso! Aí está a sua salvação, homem solitário: o consumo! Compre! As propagandas querem induzir você a transformar uma experiência banal de solidão em um delírio orgástico. Entregue-se!
 
 
E o homem aprontou mais essa. Descobriu que tudo está bem ali, somente para redimir sua alma: livrarias, padarias, agências de turismo. Os produtos atuais são permeados de uma filosofia que faz seus consumidores sentir-se exclusivos, diferenciados, especiais. Consumi-los promove quase como uma mudança taurobólica, cujo sangue bovino nos redime, transformando-nos, escravos, em  almas livres. Milhões de pessoas prometem extrair de vez o seu mal-estar-consigo-mesmo, seu vazio, sua fragilidade, sua burrice. Basta acreditar. Se os prometedores acreditam, não é importante. E os que aceitam a ajuda de uma resposta certa tornam-se orgulhosos como Sócrates com o cálice de cicuta à mão. Sim: vemos vantagens nas teorias e cedemos de bom grado. Sócrates, por exemplo, cansado de chatear os atenienses, estava ansioso para encher o piquá dos mitológicos defuntos no Hades quando tomou um golão e empacotou. Isso sim é autoestima! Mas se você não tem, há quem venda baratinho. Quanto está disposto a pagar?
Mas isso me faz pensar que o mundo afundou, desde os pré-socráticos, na charlatanice da filosofia barata. E mais louco que Sócrates só Platão. Para ele, o mal era o resíduo do caos sobre o qual o Demiurgo moldou as coisas, inspirado nas Ideias. Por incrível que pareça, o produto vendido por Platão é o de que o real não é o real. O real platônico, o real de fato, é um troço hiperurânio, em suma, aquilo que Platão inventou para si mesmo, para que fosse o real. E que invenção! O Mundo das Ideias de Platão é uma espécie de pirâmide imaterial, com o Bem no topo, acima de todas as oposições, com as quais gera figuras e números ideais. Essa coisarada não estaria exatamente na nossa mente, mas em algum lugar (num mundo paralelo? acima de nós? abaixo de nós? não sei). São apenas alcançáveis pela nossa mente e pela nossa alma, numa espécie de lembrança. O Demiurgo é algo que não é nem ideia nem realidade, uma piração intermediária, um deus ensanduichado entre a birutice de Parmênides e o turbilhão de Heráclito. Ali no meio, por amor, essa figura estranha, inferior às ideias, mas superior à nossa alma, ficou a fim de por ordem no nosso chiqueiro material, criando a ilusão que nos atormenta. O Cristianismo gostou muito disso. Santo Agostinho tentou conciliar essas ideias com os livros do Velho Testamento, dizendo que as contradições e os absurdos eram figuras de linguagem. Kierkegaard também quase embirutou nessa tarefa conciliadora.  Demócrito foi esquecido e, ao que tudo indica, Platão seria o primeiro a liquidar seus escritos. O pré-socrático que defendia os átomos e o materialismo não concordava com a tese inicial de Platão: de que o sensível só pode ser explicado por algo que não é sensível. Mas parece mais sensato. Eu me pergunto, vendo todo esse esforço para aceitar a loucura ao longo de mais de dois milênios: afinal de contas, o homem não se contenta com os medos reais? Precisa de mais? Aparentemente sim.
 
 
 
Talvez criando medos irreais, o homem ache que o medo real seja fichinha. Ou talvez assim consiga o que mais deseja: perder definitivamente a capacidade de diferenciar o real do irreal. Se evoluísse para isso, talvez ficasse mais aliviado do tormento de sua consciência. O estado pré-racional seria, assim, o ápice da evolução: cabeças encolhidas e não aqueles supercérebros dos ETs. Por exemplo: os ursos polares também estão em extinção (como o homem já esteve um dia antes de ser salvo pelo seu cérebro inchado), mas não têm consciência disso. Quando dois ursos polares machos se encontram, frequentemente lutam até a morte, manchando a neve com o sangue vermelho. O macho, sem consciência marxista, pensa que o que está em jogo não é sua classe mas apenas seus próprios genes. "Dane-se a espécie", pensaria um urso, se fosse consciente como nós. 
Chegamos a tal nível de irracionalidade? Infelizmente não. Mas podemos fingir que somos irracionais, que não temos consciência, que we don't care. Pobre homem. Esse fingidor, porém, quando estiver sozinho, longe de seu bandinho junto com o qual fez seus excessozinhos, diminuída a adrenalina motivada pelo exibicionismo, sabe avaliar muito bem que tem culpa. Nessas horas, volta-se ao deus que inventou e pede perdão. Mas ninguém está ali. A besteira já foi feita. Com um pouco de sorte, pode enlouquecer-se e tornar-se de fato o irracional que tanto ambiciona. Ou então, pensando bem, com um instinto de autopreservação aguçado, possa chegar à conclusão, típica do Homo insipiens, de que o lance Matrix de Platão foi uma sacada e tanto.