O ÓBVIO FINALMENTE REVELADO!!!

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Sou um saci sumério de Botucatu.

domingo, 30 de maio de 2021

PELO SIM, PELO NÃO

Cada vez que falas, eu, espantado, me calo. Cada vez que as palavras saem de minha boca como torrentes é a vez de tu te calares. Percebes, leitor? As palavras, essas excreções do pensamento, são desnecessárias. Desnecessárias como são nossos pelos, que pararam de crescer por algum bug genético. Os nossos pelos não ficarão maiores no inverno, para nos aquecer. Não importa se isso acontece conosco, humanos, e por isso inventamos mantos, como disse o biólogo, ou, justamente porque inventamos mantos é que pararam de crescer, como disse o sociólogo. As duas teses apenas são palavras para explicar o que é inexplicável e, sem pelo e com inverno, é preciso se mexer. Mas, como Artur Bispo do Rosário escrevera em seu manto: Eu Preciso Dessas Palavras escrita e por isso, meu caro, o impulso de falar me parece tão forte quanto o que o pelo teve quanto decidiu parar de crescer por instrução de um DNA mau gestor. Words, words, words. 


E não há coisa mais inútil que uma palavra. Com meu silêncio, mostro-me austero. Sem me responderes, dizes mais do que com palavras fáticas. O império do silêncio é idêntico ao das nossas palavras desnecessárias. Desnecessárias porque revelam as idiotices da nossa alma, nossas obsessões, nosso oco interior. Bom mesmo é imaginar o que o outro é, mas ouvi-lo falar é enfadonho e decepcionante. Por isso o novo parece tão bom. Enquanto não ouvimos o novo falar o suficiente, temos tempo de projetar nele as nossas obsessões, mas basta que haja intimidade e veremos que nos enganamos. O outro é o eterno mesmo, porque nenhum outro sou eu. Piscis nequaquam est, nisi recens. "Nã he peyxe, senão fresco. Dirseha do ospede, que nã agrada senão em quãto he nouel", como carinhosamente compilara Jerónimo Cardoso, pouco antes de morrer e ver seu mundo desabar sob as veleidades de Dom Sebastião. Tudo é Panidis suffragium, cousas de homem parvo e tolo, que não sabe julgar, como foi Pânis, rei de Cálcis, que dizia que Isiodo era melhor que Homero.

Aquele que tem um projeto de austeridade, com o seu silêncio já se revela eficazmente, com parca meia dúzia de palavras, ser um idiota para o seu ouvinte; aquele cujas palavras não ouvimos o suficiente não teria direito a chamar-se um ser humano pleno, daqueles que acorda de manhã, arria as calças e defeca, como todos fazemos. Sua estratégia de silêncio destaca-se no xadrez do bando humano, mas, como todos, arrota, fede e é tão idiota quanto os que falam e eu preciso de deuses, quer para adorar, quer para criar imagens deles para, em seguida, feri-las com um surto iconoclasta. Fiz-te a ti, à minha imagem e  à minha semelhança, mas não estou contente comigo mesmo, por isso lanço-te, desapegadamente, uma marretada na cabeça e estilhaço tua estátua em mil pedaços. Sorrindo ou chorando, agora junto os cacos, dissolvo-os, parto para a próxima imagem e esse novo círculo, pintado de mil cores, formado com mil pincéis, cuja margem terá infinitos detalhes, cada vez mais complicados ou cada vez mais simples, voltará a se instaurar e assim será, até que eu, indivíduo, faça a única coisa da qual tenho certeza: morrerei, por meio de uma força tão forte quanto aquela que impede que meu pelo cresça no inverno em defesa de meu corpo.


Mas enquanto isso, que custoso é desenhar esses círculos de dentro dos quais minha pouca imaginação não consegue sair! Eu quero falar ao mundo uma coisa sobre a qual me engano conhecer e sobre a qual tenho convicção ainda maior do que a morte, no entanto, para verbalizar essa mesma coisa, preciso de uma vida toda e mesmo assim, não compreenderás e, sendo sincero, eu também nunca compreendi.

Porque “eu sou assim” é a frase mais entediantemente repetitiva, que sai de todas as bocas rodrigueanas ao mesmo tempo, acredite quem quiser no “assim” do outro. Em momentos de profundíssimo tédio, tampam-se os ouvidos e ecoa apenas o “eu sou assim” provindo de si mesmo; mas quando o tédio atenua um pouco estamos dispostos a babar ouvindo essas palavras vindas da boca de outro, como se fosse a mais original de todas. E, no entanto, são as únicas palavras que qualquer ser humano consegue dizer, mas para isso inventou línguas com vocabulários extensíssimos e regras gramaticais absurdas e, não contente, escritas canhestras para o deleite dos olhos, porque no fundo só queria, exausto, após uma dia de forrageamento ou de labuta com a enxada, ficar sentado em cima de uma árvore, pedir para tirarem-lhe os piolhos, olhar as coisas sem entender direito e, sobretudo, brincar.

O brincar - portanto, tu, que dormiste na primeira linha desse texto e já não estás me lendo – é o único ato possível, uma vez que nada, nada, nada, substituirá, saciada tua fome de frutas e besouros, aquele pensamento tão inverossímil que é o “eu sou assim”, o qual fundamenta a tua má-fé, a tua autoimagem e o teu desapreço por tudo aquilo em que não te refletes, ó mais narcisista de todos os seres, pois sequer percebes que isso é necessário e disso não fugirás com teu infernal raciocínio. Pensamentos são zumbidos e as palavras, seus arremedos.

Perdeste o pelo, ó símio, ninguém sabe como e não culpes os piolhos, meu caro analista da evolução. O teu pelo não cresce no inverno, azar o teu. Antes perdeste tua cauda e agora teu olfato desaparece, abrindo alas para teu cérebro invasivo. Ó mais desamparado de todos os seres, que garras inúteis e quebradiças! Que desengonçado és! As árvores não são mais tua extensão, divorciaste delas! Qualquer leopardo te engole, agora, pois teu ombro não consegue lançar o peso de teu corpo em direção às copas e desaprendeste valer-te dos cipós! Do alto de tua miséria tiveste que levar teu bando para um lugar cheio de ovelhas e mamaste no ubre delas no auge de sua famélica existência. mas, como tantas esquisitices que tua sortuda neotenia te reservou, com o fim de preservar tua hedionda progênie, surpreso, percebeste que a alergia à lactose não era disposição da maioria dos teus. Foi aí que nasceste e depois disso, faltou pouca coisa: um ferro fundido para fazeres o machado com o qual sulcaste a terra e  a cabeça de teu próximo, para ampliares teu domínio e aí sim, só depois disso tudo, é que nasceu o teu tédio ou percebeste que ele existia. Tudo que fizeste depois foi fruto desse grande tédio, desse colossal tédio, desse abismal tédio. O mesmo sempre, sempre, sempre. Tédio e medo do leopardo: a isso te resumes, ó venerando ser dos renascentistas! 


És o mesmo quando saqueias a aldeia ao lado, quando exploras teu irmão, quando saltas a janela de teu vizinho à procura de sua coleção de tranqueiras ou de suas filhas, quando diriges um tanque de guerra ou um avião, quando discursas perante muitos que não te ouvem, mas te dão toda razão, porque é em si mesmo que pensam. Na verdade, danem-se palavras, lógica e razoabilidade, o que importa é que ao final do dia, estejas mascando seu último besouro, de barriga bem satisfeita e que possas ser coçado, o resto são apenas percalços que esperas sejam menores amanhã. E nada de realmente útil fazes para que o sejam.

E o Bem e o Mal? Onde estariam nisso tudo? Mal mesmo seria terminares o dia faminto, seria não teres quem te coces, não teres como impor a tua autoridade no bando por estares velho e decrépito, fora isso, meu caríssimo, nunca existiu nem existirá bem algum, mas um dia a tua falta de olfato fez que uma palavra saída da tua boca adquirisse um aceno a esse Bem e depois dela, muitas outras vieram, todas significando a mesmíssima coisa e nunca te enfadas, exceto quando te apercebes dessa ridicularia toda e, chateado de ter sido enganado, preparas a corda para teu próprio enforcamento.

Pilum non habet, "não tem de seu hũ pelo. Dirseha do que nada tem de seu", leio no velho dicionário. Nec obulum habet unde restim emat, pobre quem não tem sequer condições para comprar essa corda com que se enforque. É na verdade a fome o mal, meus caros, e a nossa fome hominídea é infinita. Fome de comida, fome de saber, fome de destruição. O único jeito de acabar com o Mal, o verdadeiro e único,  esse de que tanto te temes, foi gozar diante dos baobás caídos. Só ao massacrar quem não é assim como tu, sobretudo o mais frágil, que não te oferece resistência, advém-te o único gozo possível para essa tua espécie delirante com tendência ao enforcamento. O Mal não está na maldade humana, mas - para ti - na impossibilidade de exercer essa tua maldade. "Que tudo me seja tirado, mas se minha maldade for anulada, deixarei de ser humano e isso é o verdadeiro Mal: estar de mãos atadas para hostilizar", disseste ou pensaste, tanto faz.

Mas o silêncio não seria a solução? Se o Mal é tão intrínseco à alma do macaco sem rabo, de pelo inútil e de cabeça grande, se esse Mal se consubstancia no verbo, não bastaria abortar essa palavra hedionda, reflexo desse pensamento torpe, criado nesse lobo prefontal usurpador do trono do meu preciosíssimo olfato? Se eu fizer meu voto definitivo a Harpócrates, não estarei de uma vez por todas enclausurado inofensivamente no meu silêncio deletério, suportando o insilêncio alheio como um Buddha, livrando-me de todo o mal que poderia cometer? Não está aí a solução? Consciente do mal inexorável que nasce de qualquer abstração comezinha que venha das minhas profundas circunvoluções cerebrais, desde o meu hipotálamo, se eu cercear qualquer movimento muscular de minha boca ou de minhas mãos loquazes, não estarei eu, doravante apenas observador, no profundíssimo do abismo do meu nirvana simplesmente contemplando a loucura do mundo sem nela intervir e sem contribuir com ela? Com algum esforço, eu poderia até mesmo treinar um sorriso nos lábios, que não significaria nada, mas teria a função de evitar ser morto, a menos que o interpretem como riso de escárnio…


Se eu não tivesse concluído que a saída é o voto de silêncio a que há três meses anseio com quase volúpia, eu diria finalmente que necessitas molesta. Bom, mas se digo que a necessidade é enfadonha, dou a entender que tudo o que se faz, segundo a nossa natureza, nos é deleitoso e o que se faz contra ela nos parece áspero. Isso, porém, custa muito para que nos calemos de uma vez por todas. A nossa voz é mui maviosa e enquanto gostarmos dela, sentar-nos-emos no galho e deleitar-nos-emos com alguma recordação, mesmo que seja uma só, mínima, ouvida por meu ouvido interno como o canto de um rouxinol. Por outro lado, diziam os sábios - que nunca se entendem - e concluíram bem - se eles não são umas bestas arrematadas em que idiotamente me fio - que necessitas magistra. A necessidade é boa mestra, porque faz inventar todas as coisas. De todas essas coisas inventadas a palavra talvez seja a mais importante, pois no princípio era o verbo. De quase entranhada em meu corpo híbrido, como o daqueles estranhos seres que Cronenberg colocou em seu filme eXistenZ, meio criatura de carne, osso e tendões, meio criação provinda de uma loucura coletiva e individual, a palavra, com sua face de Jano, me seduz com sua perfídia mentirosa e canhestra, a qual observo, entendo, desprezo e a ela me declaro, do profundíssimo de meu ser fadado ao abismo da morte, que a amo justamente por não ser eu mesmo. Amo-a histericamente por ser imorredoura, mas talvez o melhor mesmo seja, como fazem os neuróticos, só virar-lhe as costas durante o ocaso, temeroso de que falte algum besouro para mascar em cima da árvore no final do dia seguinte, e só observar o trânsito do mundo, com alguma boa memória que me reste.

sábado, 10 de abril de 2021

DIÁLOGO COM UM JAVALI

De fraque e pince-nez, o esbelto senhor de meia-idade levanta-se e sai de seu apartamento. 

Sorrindo, abre a porta do elevador. Dentro havia um imenso javali.

 

- Que felicidade! Quanto tempo esperava sua visita! Por favor, entre! Entre!

 

O javali, com um olhar perdido, ao perceber-se livre, passa velozmente por aquele que propiciou sua saída. Encontrando a porta do apartamento aberta, corre agitado e lá dentro se mete. Lentamente, o anfitrião o segue, recebendo-o simpaticíssimo:



- Seja bem-vindo, meu amigo!  É de fato momentoso esse nosso encontro. Alia Menecles, alia porcellus loquitur, não é verdade? Desculpe-me pela grosseria. Não quis compará-lo com um porco ou com um cateto. Aliás, vendo-o mais de perto, vejo que há um quê de babirussa. Não, com certeza, sua estirpe é de facóqueros, ou me engano? Sou pouco informado sobre distinções específicas entre artiodáctilos suídeos, perdão. Permite-me doravante que o trate por “tu”? É estranho o que tenho vontade de dizer-te: apesar de desconhecer-te completamente, representas-me de alguma forma.

 

O javali, que inicialmente o olhava hostil e acuado, intrigado com as cores da mobília daquele imenso apartamento, caminhava sem parar, enquanto o anfitrião convidava-o para a sala de estar, fechando atrás de si a porta da entrada.

 

- O meu convite tem uma nobre finalidade e a ela iremos sem delongas. Antes, queria saber se compartilhas comigo a ideia de que Nastássia seja a mais emblemática personagem de Преступление и наказание, escrita por aquele que é, na sua essência, um presente de Deus, ha ha ha! Imagina! Se todos os Teodoros fossem de fato assim, aquele imperador destas bandas subequatoriais não teria que, no exílio, ter recostado sua cabeça num travesseiro cujo conteúdo era nossa terra roxa. Permite-me rir, meu amigo, imaginando essa cena do antigo imperador. É que me passou uma ideia ainda mais engraçada pela mente: como pode o nome de Deus, tão grego, ser escrito com F no prenome daquele romancista? Ah, esses russos…

 



Dita a bazófia, riu, muito alto, de sua própria sagacidade, enquanto abria uma garrafa de champanhe.

 

- Quantas lendas, não é mesmo? Enfim... importa apenas o que é de fato, não acha? Desculpe pelo riso vulgar de agora há pouco: quis apenas que te descontraísses. É tua casa, sinta-te à vontade. Perdoa-me estar falando tanto. É sempre esse o meu jeito de evitar o silêncio absoluto: a tagarelice. Tortura-me a calmaria, não sei por quê. Fato é que, como tu, provavelmente, não consigo suportar as palavras quando não proferidas por mim mesmo.Que pensas disso tudo?

 

Terminada a questão, o javali, acostumando-se com o lugar, que analisava com curiosidade, esvazia o conteúdo do intestino sobre o tapete persa do anfitrião, dando um pequeno grunhido de satisfação.

 

- Ah, não te incomodes com isso. Acontece o tempo todo. Vamos para a sala de jantar e continuemos lá nossa conversa. Sabes que eu conheci um senhor devoto de Harpócrates? Morreu, coitado. O mundo não saberá nunca quem foi, mas eu o conhecia muito bem. Será esse o destino de todo morto: o desconhecimento total de sua existência? Cá comigo eu penso, que mesmo vivo esse conhecimento é impossível, até mesmo dos mais próximos. Quando não de si mesmo. Deixa-me fechar esta porta, por favor, para que o cheiro não invada a sala de jantar. Preferes gim ou rum? Ah, sim, provavelmente não bebes, ao menos não diante dos outros, ha ha ha.

 

Piscou cúmplice um dos olhos. O javali, excitado em sua fúria e fome com o tom de voz estridente e com os sorrisos marotos do seu anfitrião, acabava de derrubar um vaso, que, ao cair, partiu também um grande espelho. O ruído do desastre acabou por assustá-lo, fazendo-o soltar um grito estridente e uma agitação desabalada. Em seguida, parecia ainda mais enfurecido por não ver outras portas abertas. O anfitrião continuou:

 

- Vê, por gentileza, esse quadro imenso nesta parede. É meu pai. Uma grande pessoa. Não te assustes por estar nessa posição, deitado, com essa baioneta. É apenas pose de tiro de guerra. Prestou o exército, mas não chegou a ir a guerra alguma. Problema nos olhos. Essas espartanas exigências, sabes como é... Aliás, tenho uma granada dele em alguma dessas inúmeras gavetas, se os criados não ma roubaram, ha ha ha! Bom, deixemos de falar de amenidades. É preciso que questões candentes se resolvam, uma vez que pulsam nas nossas mentes desde o início dos tempos, não é verdade? Convoquei-te porque sei que tua contribuição seria ímpar. Mas me pareces com fome. Sei que és onívoro, mas podíamos começar com umas castanhas, certo? Preparamos essa mesa porque tínhamos ciência de teus gostos. Nada de trufas, pois seria piegas, embora com certeza descobrirás no teu prato uma comedida pitada do precioso cogumelo.

 



O javali, confuso com a penumbra do recinto, sentindo o cheiro recendente da comida, pôs-se de pé à mesa e, marcando seu território, arrastou o prato com a queixada, fazendo-o cair estrondosamente no chão. Seu conteúdo foi sofregamente engolido com várias bocadas barulhentas e desconfiadas. O anfitrião, quase simultaneamente, já se encontrava sentado, sorria e, brindando àquela reunião, escolhia os talheres corretos para mordiscar um pouco dos acepipes. Acompanhava o convidado em seu repasto.

 

- O que mais intriga, na verdade, é vermos árvores caindo o tempo todo. E elas caem quase na cabeça de silvícolas que se banham naqueles lamentáveis rios de mercúrio. Parece-me agora um tremendo exagero o que eu dissera sobre desconhecermos nosso destino. Se não sabemos o nosso, o deles todos sabemos: a cova ou a mendicância em uma cidade vizinha, o preconceito, a pobreza, a fome. Terrível, não? No entanto, se continuamente brindarmos à nossa tríplice origem, aparentemente haverá uma espécie de anestesia que nos dará sempiterna satisfação e orgulho, fazendo-nos esquecer da miséria alheia. É sempre esse orgulho que nos renova, não? Brindemos.

 

Antes de beber, pôs delicadamente um cálice sob a mesa, ao lado da comida pisoteada. O javali olhou intrigado, derrubou o xerez com o focinho e o ignorou, sofregamente mais entretido em remexer as mandíbulas cheias de comida, talvez porque o cheiro alcoólico não lhe apetecera.

 

O anfitrião, com os pensamentos sempre distantes em algo provavelmente etéreo, abotoando-se melhor, continuou suas fáticas e mui educadas ponderações.

 

- Estive eu cá pensando sobre algo candentemente importante: o contrário de inferno seria o superno, certo? O ser humano se arvorou como superior, mas a desigualdade, a injustiça, a crueldade, tudo isso não se mistura ao conceito renascentista que ressuscita a mais famosa máxima protagórica? E mesmo a empatia, o amor ao próximo e tudo que dizem distinguir-me de um javali, com o perdão de ser tão direto, na verdade, não é algo que podemos usar como blefe dum jogo hipócrita no qual o que importa de fato é a destruição? Pense nos parasitas: alguns não precisam nem de boca, nem de patas, nem mesmo de uma forma definida, pois lhes basta que seus genes passem adiante. Se o homem é um geoparasita, não se trata de neotenia a nossa falta de pelos, nossa cabeça grande tão parecida com a dos fetos! Sim, seria apenas reflexo da perda necessária de ganhos evolutivos para nos adaptarmos: sem clorofila, os animais aprendemos a viver da destruição… Pensando assim, a falta de rabos nos antropoides seria, na verdade, o primeiro cordão umbilical cortado da mãe árvore, certo? Sem a água dos peixes e anfíbios confiamos na nossa gordura; sem ovos reptilianos, na nossa história familiar; por fim, é a nossa homeostase que nos faz ignorar o futuro? Invejosos das aves, nós, mamíferos, nem sempre aprendemos a voar e essa ignorância nos fez valorizar tantas outras perspectivas! Tudo que nos é deficiente é uma glória, não? Acho que sabes do que falo. O importante não é o recalque pelo que não temos, mas o orgulho dos nossos valores, tão facilmente compreensíveis, pois se pautam unicamente em nós mesmo, não? Desculpa-me, novamente, pela arenga, mas não paro de pensar nisso e tenho certeza de que concordas comigo. Segue meu raciocínio. Pelados e regelados, medrosos por não enxergarmos longe nem no escuro, não foi preciso que o córtex prefrontal de símio humanoide invadisse vitoriosamente a área de olfato, anexando-a e subjugando-a, para que com o cúmulo da fragilidade, eu me tornasse o que sou hoje, o ser mais orgulhoso do planeta? Ou estarei eu sendo presunçoso e prepotente, pois essa pretensão de dominar o universo talvez não tenha sido exclusividade minha. Que achas, tu, já que não és humano? Diz-me, por gentileza, meu amigo suíno. Não teriam tido as finadas trilobitas uma sensação de superioridade parecida com a humana? Não terão a mesma certeza hoje mesmo os incríveis fungos, sem cérebro, ao espalharem-se por quilômetros debaixo da terra? Digo-te, porém, uma coisa, como advogado de defesa da minha espécie: na falta de olfato, temos metal, pólvora e fissão nuclear. Perante a nossa ignota indigência banhada em autoengano, quem estaria certo? Jó ou Da Vinci? Deduz-se facilmente dessas premissas que pensar demasiadamente nisso seria um convite à depressão. Sem dúvida o seria, mas se soubermos ponderar as coisas, veremos o que há de maravilhoso no processo e não apenas o lamentável.

 



Para respirar um pouco, feito esse longo e austero discurso, levantou-se um pouco e acendeu um cigarro, tirado de uma gaveta. O javali evitava contatos visuais enquanto essas ponderações haviam sido trabalhosamente tecidas, completamente alheio. Saciado, andava em volta da mesa, agitado, e incomodado porque não achava ainda uma saída óbvia, mas conseguiu facilmente empurrar uma porta entreaberta com o focinho e subiu uma escada. O anfitrião entendeu que o suíno queria familiarizar-se com o ambiente e resolveu mostrar-lhe a casa. Não parava de mostrar cada candelabro, cada estátua, cada detalhe arquitetônico e vincular essas coisas a correntes estéticas, cada uma de seu tempo. Seguiu-o com passos lentos e elegantes, que contrastavam com a agitação do javali, que estranhava aquele ambiente tão pouco selvagem. O senhor, sempre meditativo, alisou os bigodes e retomou o seu fio de raciocínio:

 

- Mas, afinal, lamentável e maravilhoso para qual ser que habita este planeta, não é mesmo? Saberias pensar comigo? Ah, vejo que te entreténs com outras coisas. Deixa tudo isso para lá. Cansa-me às vezes falar do real. Não há nada mais aborrecido do que falar da própria dor ou, pior, ouvir sobre a dor dos outros. Horas há que entendo muito bem a alienação dos que se fecham em clausuras. E ser de uma espécie qualquer é viver numa clausura. Invejo os que gozam apenas porque subsistem nas agruras da sobrevivência. Existência para quê, se basta a subsistência, não é verdade? Um dia a existência deixa de ser! Um dia a essência também deixa de existir. Concluo que o que nos une, de fato, é estarmos sempre numa eterna crise.

 

O javali finalmente encarou-o com seus pequenos olhos vermelhos e focou sua atenção finalmente no anfitrião. Sua fúria inata, dir-se-ia, subitamente se convertia numa estranha empatia. Nesse momento, soltou um grunhido muito diferente. Uma testemunha juraria que, de uma maneira demasiadamente humana, teria dito um claro e surpreendente “concordo contigo”. Ambos agora pareciam esboçar um sorriso, fundamento de qualquer princípio de comunicação, como dizem.

 

É foi nesse exato momento que ouvimos um grito medonho e houve desde então muito movimento naquele prédio. Vizinhos gritando, bombeiros e suas sirenes. Todos se amontoavam à porta recém-arrombada daquela residência.

 

- Eu desviaria teu olhar desta cena final - disse o antes bem composto senhor.  Paixão e compaixão, afinal, o que são?

 

Eu estava no meio daquela multidão apinhada no umbral de seu apartamento e testemunhei que meu vizinho, o pacato seu Mênecles, estava ali sentado no chão, com o javali morto ao seu lado, com a barriga aberta por uma imensa faca, agora cravada no queixo do pobre animal. Tinha seu rosto alvo, sua boca, o queixo, o peito, o fraque, a gravata, as luvas, tudo encharcado de sangue e de fezes. As mangas esfarrapadas e o braço um pouco ferido revelavam ter havido alguma resistência do pobre animal. Meu vizinho falava agora com uma voz guinchante quando se aproximavam dele tentando afastá-lo das tripas recém-tiradas da barriga do animal morto, que insistia em devorar. Levado, enfim, por policiais e enfermeiros, que o imobilizaram, perorava aos que o olhavam petrificados, babando em abundância:

 

- Expressar o que se sente, meus queridos, é pouco! O homem é, sem dúvida, muito melhor do que os demais animais, que são incapazes de romper um pacto, uma vez estabelecido – disse mastigando - Homo traditor! Mesmo se os não-humanos viessem um dia a falar, jamais conceberiam o que é a traição, essa característica divina que nos caracteriza. .

 

E, retirado finalmente do apartamento, podia-se ouvir lá fora:

 

- Enclausurada nas almas doentes das pessoas, a monstruosidade era tão bonita… Tinha um certo apelo poético, não concordam, vocês, que me olham tão pálidos? Que triste isso tudo, não? Lamentável, deveras. Saudade de quando todos davam suas opiniões boçais bem baixinho, bem sozinhos, quase mudos. O que nos resta agora indubitavelmente será fazer de conta que não é da nossa conta, porque, afinal de contas, o que conta é o que temos para contar, não concordam?

domingo, 14 de março de 2021

CAIXA AZUL


 Caro leitor, como prometido, estou seguindo os mandamentos de Harpócrates.

- "¡silencio!", já dizia o emcee do clube homônimo, em Mullholand Drive.

Paciência: um dia a caixa azul se abre.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

CULTO A HARPÓCRATES

Um dia, representaram o deus Hórus como uma criança chupando o dedo. Um grego alexandrino achou a estatuazinha e interpretou que se tratava de uma divindade, pedindo silêncio, fazendo shshsh!. Aí perguntou que deus era aquele ao egípcio que passava. A resposta foi "Harpakhered" e o grego entendeu "Harpócrates". Essa história não é estranha, leitor: por que o silêncio ficaria sem um deus que o representasse? Ainda mais sendo uma coisa tão importante para nossa sanidade mental! Sim, nosso cérebro ruidoso já range demais e, por isso, muitos precisam de mais barulho, não é? Para abafar essa falação dentro dos nossos miolos. Mas ouvir o silêncio, quem consegue, sem enlouquecer? Ou será que o silêncio cura e o silêncio salva? Saídas da nossa mente pela cloaca de nossa boca, as palavras, com suas convenções de pronúncia, ordem e sentido, não são ainda mais daninhas do que quando estavam presas na masmorra de nossa cabeça? Não seria melhor que esse animal selvagem do pensamento ficasse dentro da zona turva e obscura das relações indesejáveis, daninhas e desarrazoadas da nossa mente? Por que tem de sair, para exibir-se, para decretar, para ofender, para rotular, para seduzir, para enlouquecer os outros ainda mais? Não bastaria um fático, uma regra cordial que determina os limites uns dos outros? Não bastaria que uma vez entendido que o outro não sou eu mesmo e que à sua volta orbitam fantasmas, tanto quanto nas minhas órbitas? Por que falar dessas órbitas e desses fantasmas, por que invadi-las, como numa reação iônica? Por que compartilhar elétrons fantasmagóricos com coisas que não são de nossa valência?

E como fazer que todos percebam isso, sem dizer-lhes “calai vossas bocas”? Como fazer que tudo entre no equilíbrio ansiado, se o mínimo não é percebido? Não é possível ver que o desdouro está na mesma região do louvor? Mas mandar que todos se calem parece intolerância minha e o que é, afinal, isso, a intolerância? Calado, posso afastar aquilo que me amedronta, arremessando-lhe uma pedra ou um pedaço de pau. E só faria isso se não pudesse argumentar, por exemplo, com um cão raivoso. Estarei sendo eu intolerante por não permitir que o cavalo me escoiceie, que o touro me chifre, que a serpente me pique, que a taturana me queime? Ou será que o nome disso não é intolerância, mas outro, talvez “proteção”? Apesar desses conceitos pularem a cerca que os define com muita facilidade, de modo que já não sabemos qual é o meu rebanho e qual é o teu, talvez possamos aprender com os que sabem definir as coisas para finalmente pensarmos nelas em seus conceitos puros e, entendidos nesse nirvana terminológico, nunca mais pronunciá-las. Assim, antes de nosso voto de silêncio, entendamos os conceitos muito bem para que nunca mais os empreguemos em vão. Esse sim é o tabu que vale a pena cultivar: os conceitos sentadinhos em volta à mesa, como amigos imaginários, receberão suas merecidas colheres de papinha na boca e deles não ouvirei sequer um “obrigado”. Quando esse dia chegar, serei o mais feliz dos homens.



Mas vamos lá, não nos percamos no raciocínio, embriagados com a cachaça do futuro ideal. Era uma vez a intolerância. E essa intolerância tinha nome e nasceu pequenininha, anos atrás. Depois tomou coragem, agigantou-se e hoje está maior que eu, a danada. Essa intolerância nasceu de um capricho. O mundo todo me amava, menos um e decretei que no rosto desse um se deveria cuspir, desejei vê-lo sendo esfolado, sonhei em chutá-lo, quebrar seus ossos. O mundo todo era amor para mim, mas esse um não me amava e portanto delendus est, pensava eu, arremedo de Catão. E eu sabia naquela época que esse um não era tão mau assim: apenas não me amava e por isso eu o odiei tão visceralmente que me doíam as entranhas como quando a holotúria golfa seus intestinos para fora da boca, com o intuito de recolhê-las de volta, devorando o pitéu de seu desejo. Por causa desse amor não-correspondido o chamei de fascista, assassino, verme, pulha e tantos nomes injustos e, junto à multidão que me beijava, lancei-lhe um olhar de desdém. Não me bastava ter o amor de quase todos: queria sobretudo o daquele um, que passava ao largo de mim e nada dizia sobre o narciso que me flertava toda vez que ia à fonte. 

Eu tinha um poder quase ilimitado, mas aquele lúcifer ainda me alabava. Era tristíssimo. Resolvi fazer um golem, sentei-o num trono e disse: "só tu existes e não aquele que não me ama". Obriguei que todos beijassem a mão do golem e fui feliz, até que o golem, feito tão à minha imagem e semelhança, sozinho, mostrou a todos que ele não era eu. E todos que me amavam começaram a fazer ressalvas, outros começaram a me odiar explicitamente e a maioria tirou o véu do cinismo para finalmente pedir a minha cabeça numa bandeja. Ai do desamado. Pensava que a dor de não ser amado pelo Um não tinha concorrentes, mas de chofre entendi que muito pior é a dor daquele que, uma vez amado, passou a ser enxovalhado. Acaba aqui a minha história.

O que se segue foi num dia de chuva torrencial. Patinavam todos, livres do amor por mim, uns procurando outros para amar, mas a maioria tornava-se paulatinamente cética e desatenta, patetificada, sem uma razão para existir. O golem foi decapitado, as ruas estavam cheias daqueles que antes orbitavam harmoniosamente em torno de mim: parecia um vespeiro recém-golpeado por um machado. Oh, golem, que fizeste? Foste desatento demais? Lembrastes coisas que os embriagados de amor já haviam esquecido em seus delírios? Amaste uns mais do que os outros? Amaste mais os que não eram cínicos? Amar a sinceridade sempre foi sinônimo de suicídio. Inconsciente, sem cérebro, esqueceste de que havia armadilhas por toda a parte antes do amor universal. Foi com essas armadilhas que nos capturaram e depois disso bastou evocar o Bem. E não há nada pior e abjeto do que evocar o Bem, porque o Bem é uno e é múltiplo. O bem da Justiça te decapitou, o bem da Honestidade libertou os que falsamente me adoravam, o bem da Família fez que todos seus amados fossem perseguidos, por fim, o bem do Amor revelou-nos o seu escárnio pútrido. Nunca tantos males aparecem simultaneamente como quando se evoca o único Bem, esse ser temível, escrito e congelado na solidez das bases. O Bem tem cheiro de sangue e com esse sangue é que se escrevem tantas calúnias e chamam isso de "informação".

Pois bem, onde eu estava mesmo? À busca das melhores definições, as quais, uma vez compreendidas, fariam que eu definitivamente me calasse espontaneamente. Confesso que escolhi o pior momento para fazer isso, porque há um burburinho infernal vindo lá de fora: muitas palavras bonitas gritadas e vomitadas, dedos em riste mostrando os tantos caminhos que se abrem em leque. Tantas, tantas, tantas opiniões. Todos resolveram abandonar o encanto extático para tagarelar desabaladamente. Ouço comentários incompetentíssimos, descalabros nunca antes ouvidos; entrevejo nessa pauta musical schönbergiana um raciocínio enviesado e fanático daqueles que duvidam de tudo, exceto do ceticismo moderado. E nesse ir-e-vir de palpites absurdos, desponta um saudosismo do mal, uma vontade incontrolável de ver tripas perfuradas jorrando fezes e sangue, lançadas ao chão, segadas por golpes randômicos. Desejo de saquear, desejo de derrubar árvores, desejo de erigir um monumento faliforme maior que a Torre de Babel.

Engana-se quem vê o vespeiro e não vê nesse reboliço a existência de um centro. Não é nada que quem não se sinta perseguido, na verdade, possa imaginar. Mas há um centro, de nome vago, um centro estúpido, com um riso apoplético e olhar demente. E bem aí que aconteceu o que todos já previam: começaram a se engalfinhar e a se devorar mutuamente. Flutuando sobre todos, tocando-lhes de leve a cabeça, voavam seres que surgiram do nada. Contavam volumosos maços de dinheiro entre as mãos. O calor das opiniões nascidas do massacre sob seus pés parecia aumentar o tamanho do maço. O desaparecimento total da fleuma no mundo parecia transformar aquele dinheiro num conjunto infinito, que se multiplicava muito mais que os pães do Evangelho, de forma ainda mais difícil de entender, de tão lógica. Esses levitadores sorriam e diziam “até que enfim chegou o tempo do lucro infinito” e toda vez que a carnagem esmorecia, um levitador puxava a orelha de alguém já cansado e cochichava-lhe algo que renovava sua fúria. Vendo isso, cheguei a suspirar: “acabaram-se as caras guerras fora das fronteiras quando descobriram que todo o combustível  do mundo, baratíssimo, está dentro das nossas cercas”.



E de fato, todos guerreavam com altos-falantes colados à boca e gritavam o que pensavam da Ciência, da Arte, da Política, da Religião. Todos se sentiam livres, finalmente, amarrados à fé do ceticismo opcional. Hoje basta que me mostrem uma pessoa tendo convulsões e atribuirei esses espasmos a algo que antes era corriqueiro, de que agora orgulhosamente desconfio. Confio nessa nova desconfiança e desconfio do corriqueiro, que antes funcionava. "O vídeo abriu meus olhos", digo com voz segura e olhos alegremente dementes. Desconfio de tudo, menos daquele vídeo. É a época do ceticismo self service. É a época do Videodrome.

No entanto, as fronteiras eu ainda não demarquei para iniciar meu silêncio, como havia prometido. Por que tardo tanto? Isso é tão contraditório! Sim, pois dia e noite eu penso no estouro do rebanho. Uma vaca sozinha derrubaria uma cerca, mas é bonachona demais pra reagir, impulsionada por si só. Já um estouro de um rebanho, dizem, ninguém seguraria. E o rebanho já foi cutucado demais: ninguém percebeu que eram maioria? Ninguém, nem Dawkins, nem Pinker? Tão confiantes antes, sorriam com o patético já-ganhou da racionalidade. Que racionalidade é essa sem poder preditivo sobre a maioria que tanto se apega ao irracional? Não era preferível que antes tivéssemos tido a serenidade para analisar o potencial do irracional a ironizá-los de maneira ácida? Eram precisos mais Sacks... mas Sacks está morto. Pensai no grego aristotélico à beira do surgimento do Cristianismo, com sua Idade Média de mil anos à espreita; pensai no efêmero iluminista às beiras do irracionalismo prenapoleônico; pensai no realista positivista do final do século XIX dizendo com convicção que "guerras não mais existirão na humanidade". Alternamos entre sapiens e insipiens. E as eras irracionais são muito mais longas, sabeis bem.

Ah, ser humano, teu narcisismo é de lascar! Existe uma coisa interessante nisso tudo aí. Se o ser humano fosse racional mesmo, a primeira coisa que faria seria respeitar a vida alheia e não só a dos membros de seu clã. Mas é perigoso pensar que isso tenha nascido só das pregações de Jesus, como se não existissem animais sociais e como se todo grupo só se mantivesse à base da violência. Só acreditarei que somos racionais, de fato, se todos, sem exceção, um dia, desenvolvermos algo de que não dispomos: um instinto de consciência da espécie, estendido para qualquer representante da espécie humana. O chato é que o hominídeo não conseguirá sofrer esse milagre sem ser especista. Ah, símio bípede que se julga auge da evolução: jamais estenderias esse teu instinto privilegiado que ficcionalmente penso que desenvolverias para toda a vida do planeta! Isso seria ser racional?

Não adiantou nada, portanto, eu delimitar as fronteiras do que é a Razão verdadeira. O “cerumano” jamais será o Ser Humano que imagina. Não respeitando nem mesmo seu bando, sempre precisou e precisará de leis mosaicas, de julgamentos da ONU e de um judiciário local. Se fosse racional mesmo, o respeito pela diferença entraria no pacote e não haveria Cristianismo bonzinho nenhum por oposição a  Ciência fria e cruel alguma: é ridículo imaginar a fleuma dos arautos de um céu constantemente sorridente encarando piedosa a Ciência com sua baba sangrenta ansiando para fazer a vivissecção do cunhado ou do vizinho.

Para que eu entenda o que a racionalidade é, de uma vez por todas, para que eu levante os mourões de minha cerca e nunca mais pronuncie as sílabas da palavra que a denomina, como havia prometido, é preciso entender que o problema todo está nessa oposição entre o racional apolineamente frio, de um lado, e da punjante, romântica e dionisíaca irracionalidade, de outro. No fundo, se esse defeito em meu cérebro de hominídeo não existisse, seria possível ser racional sem ser um Spok ou um Hal 9000. Mas é pedir demais, concordo, mesmo de mim mesmo.

Obviamente o ambiente político mudou com as nefandas redes sociais. Obviamente existe relação entre política e esse modo arrogante dos que antes se sentiam burros. A humildade necessária para ouvir o outro desapareceu, finalmente. E nesse cenário, a desconsideração e o ceticismo radical com a Ciência são só alguns pontos que chamam muito nossa atenção, sim, de nós, que valorizamos o racional. Se um grupo é sensato, não tem um líder com versões pessoais daquilo que é construído por milhares de doutos ao longo de séculos: quem ainda não viu cabeças rolando não se convence de que não está imune de perder a sua. Tudo mudou com a distribuição democrática de alto-falantes. Obviamente o descalabro tem a ver com o que os levitadores cochicharam em seus ouvidos. Mudou para sempre com aquele "deveis aceitar-vos, com orgulho, da forma que sois". A humildade necessária para ouvir o outro só poderia mesmo desaparecer, como um passe de mágica, desde então. 

Leitor, o que me incomoda não é nem a inverdade, nem a falta de comprovação daquilo que é estupidamente enunciado, mas a convicção de quem a afirma, às vezes criada sem a menor investigação, como se a História se fizesse só com intuição, com valores pessoais ou imaginação. É algo parecido como um indício de um transtorno esquizofrênico, mas tão frequente hoje no "cerumano", que começo a acreditar que sempre tenha feito parte do seu mecanismo cognitivo. 

Não conseguirei demarcar nada de certo e calar-me, afinal?



Falam tanto de heroicas histórias antigas, mas é quase impensável traçar a história de um ser que não seja hominídeo. De onde vieram eles? Não brotaram do nada. Eu penso na história de cada ser que aí está. Somos sabidos das causas e consequências: basta plantar um ser específico e aparecerá outro ser específico e um tomateiro nascerá das sementes de tomate. Mas, altivamente humano, se não consigo traçar-lhes a história, não enlouqueço com esses pensamentos. Só admiro a pervicácia daqueles que me alegram com sua previsibilidade canora. Mas isso é pouco: vê-se em toda parte autoelogio humano e uma tremenda indiferença pelo esforço hercúleo de todos os demais seres. Nem acuado, à luz das evidências, aprenderemos.

Anuncia-se o fim e o começo de ciclos com alegria, normalmente em épocas erradas. Penso que por saber algumas causas, tudo já está resolvido e tenho o controle de tudo. À minha volta, só gente confusa demais com tantas variantes, dizendo-me o que é de fato necessário, o que me falta, como ocorre, como pode ser classificado. Pode ser difícil para mim, sem memória, sem conhecimento, sem inteligência, sem coerência, mas que dizer dos conjuntos que me abarcam? Pior, dos que não me englobam? Por que não acumulas algum conhecimento, ó "cerumano"? Por que esse andar errático? Se algo me prejudica ou não me mima, relutarei a ter uma opinião formada sobre isso tudo. Basta ouvir os argumentos, porém, e imaginar de que lado eles estariam para saber se algo mudou, se algo sempre foi diferente, se uma decisão é ou não monocrática, se o que vejo é uma ilusão ou não, se o que ouço é ou não é um embuste.

Sim, foi pedir demais de mim. Mesmo que, para separar o joio do trigo, o joio fosse cinco vezes maior que o trigo ou vice versa. Não seria possível acreditar que uma racionalidade perfeita, uma racionalidade ideal ou mesmo uma racionalidade desejada conseguisse driblar aquilo que se esconde nos recônditos mais latentes de absolutamente todas as circunvoluções cerebrais. Não serei um anjo, não serei um buda e tu também não o serás, infelizmente. 

Mais fácil será continuarmos vendo os erros alheios do que detectar ou consertar os nossos próprios: não é isso uma verdade disfarçada de banalidade? Eis-me aqui, dando-te uma trégua, leitor, concedendo-te a palavra. Acho ótima essa tua ideia de que a hipótese do outro está sempre errada. Se bem que ficou paradoxal eu agora ter concordado com ela...

Prostrado ou de joelhos exclamo: era a tautologia tudo aquilo que sempre busquei na vida?! E fico silente, pensando nessa questão, chupando meu dedo.

sábado, 30 de janeiro de 2021

O EXIBICIONISTA SOLITÁRIO

Não quero, com mais um discurso seco, chover no molhado.

Só há angústia e eu quero ser leve, como essa pluma que cai. Vês? Ela pousa. A pluma cai leve, muito leve, leve… pousa. Enfim, é normal que eu agonize, tentando retomar a origem das coisas: sinto-me dentro delas e fujo. A possibilidade dada hoje ao cidadão comum de expressar infinitamente suas opiniões, compatíveis à sua pobre vivência e a capacidade de encontrar seus pares, os quais comungam com seu pensamento, avalancharam em mim a sensação que descreverei. E agora, quando tudo é pós-verdadeiro, nesse clima em que toda verdade pode ser eternamente questionável, vejo pessoas que são, na verdade, só parcialmente céticas. São céticas para defender aquilo em que acreditam porque têm quem as ouça e reforce suas impressões... Paradoxo à vista: se acreditam em algo, são, de fato, céticas?

Pensando nisso, eis que salta de um cipó diante de mim um ser deveras peculiar: seminu, face pintada de branco e preto, magro, esguio. Convida-me a saltar com ele. Salto. Salto, como dizem, para o meio da vida, como uma navalha no ar que se espeta no chão. E agora, que me desvencilhei de tudo, agora, que sou natureza, não posso ficar colado a ela como uma estampa e representá-la no desenho que dela faço. Não posso porque em mim nada está como é. Tudo, diz ele, com seu sotaque mato-grossense de Bela Vista, é um tremendo esforço de ser. Desconfio que seja um hierofante. E ele me diz com sua voz maviosa: “Não há possibilidade de viver com essa gente e nem com nenhuma gente. A desconfiança te cercará como um escudo. Pinte o escaravelho de vermelho e tinge os rumos da madrugada. Irão de longe as multidões suspirosas escutar o bezerro plangente”.

Essas suas palavras desencadearam em mim a metamorfose que ora entenderá, de tão explícita. E da minha boca sai a sua voz em ritmo de glam rock. Estranho: o meu sotaque agora é lusitano, de Arcozelo; minha mente não se desconecta de João Apolinário. Por trás dele, um coro polifônico. Com atenção se ouvem Vinícius, Pessoa, Bandeira, Cortázar, Cassiano Ricardo, Oswald de Andrade, Solano Trindade. E eu vi as cabeças desses seres iluminados servidas num prato, com broas, linguiça, cebola, grão de trigo e vinho. Parece que no meio da minha linda visão escutei um idiota bradando pela suspensão da liberdade de reuniões e de associações. Acreditai, quem tem coragem de fazer isso não o faz por badalação, mas por tédio. Podem censurar-me a correspondência, que a imprensa se cale como queiram: é chegado o excesso de telecomunicação e de diversão pública que tanto desejávamos.


E no meu transe, eu obviamente não sou mais eu, leitor: lembrei-me que tantos cristãos já não têm mais o menor respeito por mim e que preparam a minha cruz. Se todos agora duvidam do que não precisam duvidar e se não duvidam do que é altamente duvidoso, já estou como Pôncio Pilatos: falta-me apenas apenas que gato preto, o Behemoth, cruze a minha estrada. Meus amigos agora têm poder. E se não é de vida ou morte, é de apertar um botão e dizer-me adeus. E assim, já não me levam mais no bolso, diariamente, a qualquer hora, a qualquer instante. Depois de tomarem uma overdose de auto-estima, preferem hoje acabar com uma amizade de vinte anos a ouvir alguém questionando suas teses delirantes. Que assim seja. É triste, leitor, as paranoias estão aumentando. Pior: quem as controla são desconhecidos que saem do fundo de uma floresta e cortam nossos cordões umbilicais para atá-los aos de outros, desconhecidos, com quem somos mais felizes. Caídas as árvores serradas, saltam as ninfas em nossa frente. Depois que o gato preto passou por debaixo da escada, lá no fundo azul, na noite da floresta, a lua iluminou a dança, a roda, a festa. E que festa essa dos que saíram da lama e foram moldadas pelo novo deus ignoto! Qual a festa vista por Margarita Nikolaevna, nua e embruxada. Que milagre medonho o desse deus que lhes deu voz para nomear tudo. O novo deus apostou na falta de senso crítico da maioria e, isolando-os numa nova canaã, venceu. No meio da noite, no meio do medo, aos olhos insones os fantasmas passeiam, no canto do galo, no uivo do cão, nas vozes do vento, no galope, no relincho, no meio da solidão. Que ideias são essas que me vêm a mente, Ney? O escuro esconde zumbis, lobisomens, os bichos do mato, o medo mulato. A morte passa num calafrio que corre dos pés à cabeça tapada. Socorro, João Ricardo; valei-me, Luli e Gerson Conrad. E nesse mundo de luz e som, que não me ofusca nem me ensurdece, não vou buscar a esperança na linha do horizonte, nem saciar a sede do futuro na fonte do passado. Nada espero e tudo quero. Sou quem toca, sou quem dança, quem na orquestra desafina. Quem delira sem ter febre, só o par e o parceiro das verdades à desconfiança. Obrigado.

Mas eu fui belicoso, dir-me-ão. Quem tem alguma ascendência sobre alguém pode simplesmente jogar as diferenças para debaixo do tapete, evitando o conflito daquele que nos provoca. Isso, não te iludas, reforça mais o "ponto de vista" dele e gera nova espécie de hipocrisia. Não tardará muito, ó, conciliadores: uma hora dessas o belicoso encontrará seus pares e promoverá algum tipo de ruptura. É sangue o que eles querem. Não nos iludamos. Não existe a simples e suave coisa coisa nenhuma que em ti amadurece. Não há mais a sombra, o silêncio ou a espuma, nem a nuvem azul que arrefece.



É o que a mediocridade sempre quis, a doce mediocridade do nada sábio homem, mas sempre ficou calada e agora seus discípulos, ó, mediocridade assumida, temerária e arrogante, têm vossas cabeças na bandeja. Recomeçou a guerra contra quem detém o conhecimento tradicional e abre-se a porta para um novo Peabiru. Como quando surgiu aquela loucura persa que afirmava nada mais que o absurdo para a antiga sabedoria, que um são três na sua matemática ingsoc, que o noos se consubstancia numa fatia de pão ditas algumas palavras mágicas e o êxtase pleno advém taurobolicamente ao bebermos o sangue do fruto da união de uma virgem com a divindade. Loucura, mas durou e tem durado milênios por causa da voz humana delirante, das suas instituições, dos livros e das atuais redes.

Um grito de estrelas vem do infinito e um bando de luz repete o grito. Enquanto viram lobisomens, enquanto bailam corujas e pirilampos entre os sacis e as fadas, eu escuto: eu não sei dizer nada por dizer. Se você disser tudo o que quiser, então eu escuto. Fala! Se eu não entender, não vou responder, então eu escuto. Eu só vou falar na hora de falar, então eu escuto. Fala! Todos sabemos que nos fios tensos da pauta de metal, as andorinhas gritam por falta de uma clave de sol. Não seria diferente. É tudo questão de abrangência. Mas… ainda há uma nesga de dúvida na minha mente: se o primeiro rompimento gerou mil anos de Idade Média, o que gerarão esses fóruns e redes sociais atuais? Não consigo ver nada para o futuro diferente do que vi em Mad Max.

Sim, o verme passeia na lua cheia. Jurei mentiras e sigo sozinho. Assumo os pecados. Ah vida, meu verdadeiro amor! Eu só queria o amor da flor de cáctus, mas ela não quis. Eu dei-lhe a flor de minha vida e vivo agitado. Eu já não sei se sei de tudo ou quase tudo, mas eu só sei de mim, de nós, de todo o mundo. Eu vivo preso à sua senha; sou enganado. Eu solto o ar no fim do dia; perdi a vida. Eu já não sei se sei de nada ou quase nada: eu só sei de mim. Oh, minha vida, mulher infiel, traiçoeiramente ativa. Minha vida consumida pelo teu jeito, pelo teu peito saliente, eficiente nas horas vivas e nas horas vagas-pagas. Não era para a razão ser o patrão nosso de cada dia, dia após dia?

Mas quem tem consciência para ter coragem? Quem tem a força de saber que existe e, no centro da própria engrenagem, inventa contra a mola, que resiste? Quem não vacila, mesmo derrotado? Quem já perdido nunca desespera e, envolto em tempestade, decepado, entre os dentes, segura a primavera? Afinal de contas, diz o hierofante usando minha boca, se os ventos do norte não movem moinhos, o que me resta é só um gemido. O bico da ave que voa é a proa da nave, cujas vigias são os seus olhos. Seu coração é o motor e as asas são de ambas. A alma da ave que voa é a alma do homem. Todas as cores e outras mais procriam flores astrais.

Não: não digas nada. Supor o que dirá a tua boca velada é ouvi-lo já, melhor do que o dirias. O que és não vem à flor das frases e dos dias és melhor do que tu. Sê graça no corpo nu que invisível se vê. Rompi tratados, traí os ritos, quebrei a lança, lancei no espaço um grito, um desabafo. Em que ano estamos? Enquanto eu entoo as preces do hierofante pela primeira vez, Vanucchi Leme já sumiu e pelo menos outros setenta e quatro. Quem merece medalha pela coragem? O que me importa é não estar vencido: minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos, meu sangue latino, minha alma cativa, mesmo pensando nas crianças mudas e telepáticas, nas meninas cegas e inexatas, nas mulheres, rotas alteradas. A ferida é uma rosa cálida, hereditária, radioativa, estúpida, inválida. 

E não são só os que te faltaram com o respeito que tombaram e tombam. Aquele preto de barba branca, aquele olhar tão meigo de quem espera ganhar um sorriso incolor, pedirá que tirem esse peso do meu coração: “não é de tristeza, não é de aflição: é só esperança, leve, aérea... ah, livrai-me dele, senhor capitão!”. Mas peso mais pesado não existe não: às duas horas da madrugada, ele anda de terno velho, quando aparece o guarda, fazendo cena. Bem apontado ao nariz chato, não acredita na cor. O resto todo mundo sabe: o velho morre e o guarda é o herói, por que, segundo dizem, é preciso ser assim e assado. Pausa para um suspiro... Com cirrose, a rosa é uma anti-rosa: sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada. Que fim levaram todas as flores que o preto velho me contava? Que fim levaram todas as flores de que a rainha louca não gostava? Que a lapela morta carregava? Que o olhar de todos me lembrava? Que fim levaram todas as flores que qualquer coisa não estragava? que fim levaram todas as flores que a criança às vezes me pedia, em qualquer dia que podia, com grande amor e alegria?


Nesse exibicionismo solitário, que me permite ser o profeta de algo que já aconteceu, lancei-me na mesma prece cósmica de quase meio século atrás: “que os quatro como num teatro conservem a mão sem nenhum gesto, que o vinho quente do coração lhes suba à cabeça espessa, que do bolso de cada um dos quatro como num teatro voem pombas brancas... e amanheça”. E fez-se a mágica. Finalmente eu vi El Rey andar de quatro, de quatro caras diferentes e quatrocentas celas cheias de gente, de quatro patas reluzentes e quatrocentas mortes, de quatro poses atraentes e quatrocentas velas, feitas duendes. 

Nasceu um novo dia que sol o veste de vermelho, o homem de preguiça, o verde de poeira. Seca os rios, secam os sonhos. Seca o corpo a sede na indolência. Quero beber o suco de muitas frutas, o doce e o amargo indistintamente, enfim, beber o possível. Sugar o seio da impossibilidade até que brote o sangue, até que surja a alma dessa terra morta, desse povo triste. Mulher barriguda, que vai ter menino, qual o destino que ele vai ter? Que será ele quando crescer? Haverá guerra ainda? Tomara que não.